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A Arte de Envelhecer (Cód: 1709804)

Nuland,Sherwin B.

Objetiva

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Descrição

Autor de 'Como Morremos' e 'A Sabedoria do Corpo', livros de sucesso junto ao público e à crítica, o Dr. Sherwin B. Nuland explora agora, em 'A Arte de Envelhecer', o impacto do envelhecimento sobre nossos corpos e mentes, esforços e relacionamentos. Juntando sua paixão de cientista pela verdade com a compreensão de um humanista do coração e da alma, Nuland criou um livro franco e inspirador sobre o último estágio da vida.
A chegada da terceira idade pode ser tão gradual que normalmente nos surpreendemos quando um dia descobrimos que ela se instalou definitivamente. As mudanças nos sentidos, aparência, reflexos, desgaste físico e apetite sexual são inegáveis – e raramente benvindas. Ainda assim, como Nuland revela, envelhecer tem surpreendentes bençãos.
A idade não concentra apenas a mente, como também as energias corporais, guiando muitos a novas fontes de criatividade, percepção e intensidade espiritual. Nuland nos ensina que ficar mais velho não é uma doença, mas uma arte – e para aqueles que conseguem fazê-lo bem, pode trazer extraordinárias recompensas: “É na disposição e na vontade que reside o segredo, não de prolongar uma vida, mas de recompensá-la por ter sido bem usada”, ensina o médico.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Objetiva
Cód. Barras 9788573028348
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788573028348
Profundidade 0.00 cm
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 256
Peso 0.44 Kg
Largura 16.00 cm
AutorNuland,Sherwin B.

Leia um trecho

UM INCIDENTE NO METRÔ Há mais ou menos cinco anos, tive uma breve experiência que, desde então, tem me ajudado a perceber a diferença entre nutrir a sensação de uma saúde boa e vibrante e nutrir a ilusão de ainda ser jovem. Em outras palavras, aprendi que um homem de idade avançada que nunca se sentiu encurralado pela cronologia não deve, contudo, permitir esquecer-se totalmente dela. O fato ocorreu no final de uma tarde de setembro quando eu, com a minha mulher e a filha mais nova, acabara de entrar em um vagão do metrô de Nova York, na estação de Times Square. Empurrados pelo avanço da multidão de passageiros na hora do rush, ficamos imprensados em fila indiana, Molly, de 19 anos, no meio, e eu espremido atrás dela. Entre as minhas costas e as portas, havia alguém que a minha visão periférica distinguira apenas como um homem alto e de ombros largos, talvez de 30 e tantos anos. Nem bem o trem partiu, o braço direito descoberto do sujeito passou ao meu lado, a mão estendida para a frente, numa tentativa óbvia de tocar as nádegas de Molly. Apanhado de surpresa pelo descaramento do homem, tive a presença de espírito de fazer o que qualquer pai faria: pressionei meu corpo para trás com força suficiente para empurrá-lo contra a porta do vagão, colocando Molly fora do alcance dos seus dedos esticados. Como se por alguma forma de acordo tácito de Nova York, tanto ele quanto eu agimos como se nada tivesse acontecido e o trem continuou seu ruidoso caminho pelos trilhos subterrâneos. Mas eu estava enganado em pensar que o episódio estivesse encerrado. Mal se passara meio minuto, notei algo deslizante e quase imperceptível entrando sorrateiramente no bolso direito da minha calça cáqui. Qualquer pensamento de que a imaginação me estivesse pregando uma peça se desfez no momento seguinte, quando tive a sensação inequívoca, através do tecido, de pontas de dedos se movimentando dentro do bolso vazio. Num piscar de olhos, nem sequer me ocorreu que devia considerar as conseqüências do que, instantaneamente, decidi que precisava ser feito. Na verdade, “decidi” não é bem a palavra — meu comportamento em seguida foi praticamente automático. Enfiei a mão no bolso, segurei transversalmente as articulações ossudas de uma palma mais larga do que a minha e apertei com toda a força que consegui reunir. Ciente de que estava rangendo os dentes com o esforço, só larguei depois que senti mais do que ouvi o som nauseante de osso raspando contra osso e, em seguida, algo cedendo sob a pressão dos meus dedos ao seu redor. Um berro barítono fez que eu me lembrasse dos meus 71 anos e compreendesse que me excedera. No que eu me metera? Não teria bastado o simples ato de remover a mão intrusa? Ou talvez não devesse ter feito nada — afinal, o bolso estava vazio, como sempre está quando imagino passar por um local cheio e arriscado. Excessivamente confiante graças às centenas de horas passadas fazendo levantamento de peso numa academia de ginástica local, eu sucumbira a um impulso irrefletido que me ordenara esmagar a mão criminosa. Quando o primeiro ímpeto de instinto arrefeceu, tive a imediata certeza de que a vingança da minha vítima logo se seguiria. Alarmado por esse pensamento, afrouxei o aperto e senti a mão machucada escapar velozmente do meu bolso. Mas quem poderia ter previsto que minha reação tomaria a forma que tomou? Com o tronco ainda espremido entre as minhas costas e as portas do trem, meu antagonista inexplicavelmente bradou, para todos ouvirem, uma acusação truncada de que eu havia “... TENTADO ROUBAR A MINHA BOLSA!” Certo de que ouvira mal e prevendo uma forte agressão, virei desajeitadamente o corpo naquele local apertado, a fim de enfrentar a esperada agressão com a eficiência que meu agudo ataque de autocensura nervosa permitisse. Depois de conseguir fazer isso, vi-me encarando o rosto aflito, mas ainda assim enfurecido, de um valentão com jeito de bandido e a barba por fazer, quase 10 centímetros mais alto do que eu e bem mais largo. Com certo alívio, notei que a mão direita ferida pendia molemente ao lado do seu corpo de peitoral largo. Enfiada na axila esquerda ele trazia uma volumosa pasta de plástico verde-escuro, com um zíper retesado que mal conseguia mantê-la fechada. Sem dúvida, era onde estava guardado o produto da pescaria de bolsos do dia. A visão da mão flácida e inútil pendendo do braço musculoso mas então inerte reanimou momentaneamente a minha irrefletida e imprudente coragem. Olhando diretamente nos olhos injetados e ameaçadores fixados em mim (e então podendo sentir o cheiro de bebida no hálito espesso que arfava sobre o meu rosto), berrei de volta como se eu fosse Sansão: “VOCÊ ENFIOU A MÃO NO MEU BOLSO!” Algo me fez parar antes que acrescentasse “seu filho-da-puta”, o que foi uma sorte porque, assim que as primeiras palavras me saíram da boca, eu as lamentei. De novo receoso, preparei-me para a reação violenta que seguramente viria. Mas o destino estava do meu lado: naquele exato momento, o trem entrou na estação seguinte e, assim que as portas corrediças se abriram, meu adversário se precipitou para fora, caminhando pesadamente para uma escada de saída o mais rápido que podia, até seu avanço ser retardado por uma multidão de passageiros que saía desordenadamente do vagão seguinte. Ele foi tragado pelo turbilhão, até só ficar visível o alto da sua cabeça em movimento. Num instante ele desaparecera, deixandome ali parado — pensando em como eu chegara perto da minha imolação. Voltei-me para Molly e minha mulher, que depois me contaram que meu rosto estava pálido e abatido. Sentia-me como se houvesse sido salvo da morte certa por uma suspensão da pena no último segundo. Minhas mãos estavam trêmulas e os joelhos pareciam um tanto indecisos sobre se pretendiam continuar a me sustentar. Passaram-se vários minutos e o percurso até outra estação antes de eles se firmarem. Mas por fim tudo se estabilizou e, então, me vi diante do embaraço de ter de suportar os comentários justificadamente arrasadores das duas mulheres sobre como eu havia sido tolo. Elas depois me contaram que, durante o curto período que durou a confusão, nem uma única pessoa naquele vagão de metrô superlotado sequer olhara de relance na minha direção, ou dera algum sinal de que algo incomum estivesse acontecendo. Apresento esse relato como exemplo de um conflito dentro de mim, um conflito que creio existir na mente de muitos homens e mulheres já passados de talvez 50 e tantos anos. De um lado, reconhecemos que a idade está sempre aumentando seus efeitos sobre nós e agora exige não só aceitação, mas um modo gradativamente variável de pensar em nós mesmos e nos anos futuros. Do outro lado, um gênio narcisista dentro de nós não consegue deixar de se apegar a fragmentos da fantasia de que ainda podemos recorrer a imensos mananciais de juventude, apesar de estarmos bem conscientes do nosso esforço de nos conciliarmos à diminuição dela. A mesma fórmula que aumenta nossos anos mais avançados — estimulação mental contínua, exercício físico vigoroso e igual envolvimento nos desafios e recompensas da vida — às vezes encoraja uma confiança irrealista de que a vitalidade assim mantida significa que somos praticamente os mesmos que éramos décadas antes, até na aparência, prontos a desafiar a juventude no seu próprio terreno. Em ímpetos de negação e avaliação incorreta que são praticamente instintivos, nesses momentos abandonamos uma serenidade que levou anos para se desenvolver e nos permitimos um comportamento tolo e imprudente, que usamos como se fosse um amuleto para afugentar o próprio processo a que vínhamos nos ajustando tão bem, ao sustentar conscientemente nosso corpo e nossa mente. A tensão entre os dois é muito provavelmente mais forte no caso dos homens, mas igualmente comum nas mulheres, embora se manifeste de formas um tanto diferentes. Essa rivalidade dentro de nós reflete uma rivalidade com a juventude e não favorece nem a juventude nem a velhice. Não é fácil renunciar a auto-imagens de um período anterior, mesmo quando renunciar a elas é o que mais nos convém. Aqueles que lidam profissionalmente com uma população mais velha sabem que a capacidade de se adaptar, aprender e aceitar as próprias limitações é um determinante do que a bibliografia da geriatria chama “envelhecimento bem-sucedido”. Adaptar-se não é mera conciliação. Adaptar-se traz consigo a oportunidade de obter bênçãos muito maiores e abrilhantar as décadas posteriores com uma luz ainda não visível para os jovens. Mesmo a palavra em si é insuficientemente específica para transmitir o que é necessário. Nas sutis mas imensamente significativas nuances de sentido que diferenciam as palavras, “estar em sintonia” talvez descreva melhor o processo do que “adaptar-se”: “estar em sintonia” quer dizer ser igualmente receptivo, de uma nova maneira, a sinais agradáveis e indesejáveis, bem como a uma variedade de experiências que antes não estavam ao nosso alcance, ao mesmo tempo que atingimos uma espécie de harmonia com as circunstâncias reais da nossa vida. Este livro é sobre estar em sintonia com a passagem dos anos e encontrar uma nova receptividade às possibilidades que possam apresentar-se em tempos futuros — possibilidades transmitidas em frequências perceptíveis apenas por aqueles que já não são jovens. E é também sobre as armadilhas para os incautos, em que todos nós de vez em quando caímos e das quais temos de aprender a sair com um revigorado senso de determinação. A expressão “estar em sintonia” lembra outra, “estar em harmonia”. Entrar em sintonia com uma perspectiva evolutiva em uma vida é estar em harmonia com a realidade do presente e dos anos futuros. Alcançá-la pode produzir uma forma de serenidade antes desconhecida e talvez insuspeitada. O processo começa com um reconhecimento de que o anoitecer da vida se aproxima. Mas, com essa aproximação, surgem possibilidades previsíveis. Temos apenas de tirar partido de tudo o que essas décadas vindouras têm condições de nos oferecer. Cabe a cada um de nós cultivar a própria sabedoria. O início do nosso envelhecimento é uma progressão tão gradual que, um dia, descobrimos que ele se instalou totalmente sobre nós. À sua maneira, sem pressa, silenciosa e persistentemente, calçando chinelos, a velhice nos segue cada vez mais de perto, nos alcança e, enfim, se funde conosco — tudo isso enquanto ainda estamos negando a sua proximidade. Por fim, ela penetra nas profundezas do ser, não só para ocupá-las, mas para se tornar a sua própria essência. Com o tempo, não apenas admitimos a presença do envelhecimento dentro de nós, como passamos a conhecê-lo tão bem como conhecíamos — e ainda cobiçamos — a juventude exuberante que antes habitou ali. Então, finalmente, tentamos nos conciliar com a certeza inescapável de que estamos incluídos entre os idosos. Ao compreender quanto dos nossos sonhos temos de ceder a essa verdade inalterável, devemos não só observar nossos horizontes se aproximarem, mas permitir que eles façam exatamente isso. Se formos sensatos, nós os trazemos para perto até seus limites ficarem visíveis; nós os restringimos ao possível. E, assim, a aproximação pode ser benéfica se, por meio dessa proximidade — essa limitação das expectativas —, começarmos a ver esses panoramas mais nítidos e mais finitos do que antes, e de modo mais realista. Pois o envelhecimento pode ser a dádiva que estabelece as fronteiras da nossa vida, que até então conhecia muito menos limites e suportava muito menos restrições. Tudo o que se acha dentro dessas fronteiras se torna, assim, mais precioso do que era antes: amor, saber, família, trabalho, saúde e mesmo o próprio tempo diminuído. Nós os tratamos com mais carinho, ao mesmo tempo que cresce a urgência de usá-los bem. Muitos são os usos dos recém-reconhecidos limites. Entre as suas vantagens, está a de que a nossa pronta aceitação deles aumenta o seu valor, aumenta a nossa apreciação, aumenta a nossa capacidade de saborear — aumenta cada prazer incluído neles. Passa a ser mais fácil enxergar o bem; ele está mais perto para se tocar e pegar, se estivermos dispostos a olhá-lo sinceramente ali e recolhê-lo do meio das preocupações que possam cercá-lo. Há muito a saborear nesse período, ampliado e dotado de mais sentido e intensidade pela própria finitude dentro da qual nos é concedido. O envelhecimento tem o poder de concentrar não só a nossa mente, mas também as nossas energias, porque ele nos diz que agora nem tudo é possível, e a riqueza deve ser mais completamente extraída da reserva restante — reduzida mas, apesar disso, ainda abundante. Daí em diante, devemos agir apenas de acordo com as nossas forças. E dentre elas, algumas das mais significativas podem não ser em nada menores do que eram antes. As décadas avançadas de uma vida se tornam o período ideal para que essas forças encontrem um foco direcionado e, assim, aumentem a eficácia do seu valor concentrado. Ao mesmo tempo que acaba com as nossas articulações e reduz a nossa acuidade, a velhice traz consigo a promessa de que pode realmente haver algo mais, algo de bom, se estivermos dispostos a estender a mão para pegá-lo. É na disposição e na vontade que reside o segredo, não de prolongar uma vida, mas de recompensá-la por ter sido bem usada. Pois envelhecer é uma arte. Os anos entre os primeiros sinais e o momento da renúncia final a todas as coisas terrenas podem ser — se houver a presteza e a determinação necessárias — a verdadeira colheita da nossa vida. O propósito deste livro é discutir o envelhecimento humano e suas recompensas — e também os seus dissabores. E ele igualmente pretende mostrar como melhor se preparar para as mudanças que inevitavelmente exigem acomodação, mudança de foco e uma avaliação realista de objetivos e rumos que podem ser novos, ou podem ser um novo arranjo da trajetória de uma existência. Fazemos isso em cada etapa da vida sem reparar no novo modelo com o qual estamos entrando em sintonia, seja na adolescência, na casa dos 20 ou na meia-idade. Embora possam ser mais óbvias quando nos aproximamos dos 60 e dos 70, as mudançassão, na verdade, apenas uma continuação de tudo o que veio antes. Pois se tornar o que é conhecido como idoso é apenas entrar em uma nova fase de desenvolvimento da vida. Como todas as outras, ela traz mudanças físicas, preocupações profundas e bons motivos para esperança e otimismo. Em outras palavras, tem seus ganhos e suas perdas. A palavrachave aqui é desenvolvimento. Diferentemente dos outros animais, a espécie humana vive muito além dos seus anos reprodutivos e continua a se desenvolver durante todo o tempo da sua existência. Sabemos que isso é verdadeiro em relação à meia-idade, um período da vida que consideramos uma dádiva. Devemos reconhecer e também considerar uma dádiva que isso seja igualmente verdadeiro em relação àquelas décadas que se seguem à meia-idade. Viver mais nos permite dar continuidade ao processo do nosso desenvolvimento. Cada um de nós admite o início do envelhecimento no seu próprio momento; todo homem e toda mulher reconhecem os seus começos e finalmente a sua plenitude em uma ocasião diferente e por motivos diferentes. Como indivíduos, nós o experimentamos através do nosso corpo e dos acontecimentos da nossa jornada. Aos 52 anos, Robert Browning já sabia o suficiente sobre essas coisas para entender que este processo é o acompanhamento da sua recompensa. Ciente de que já ultrapassara a expectativa de vida da sua época, mas ignorando que lhe seriam concedidos mais 27 anos para seguir o próprio conselho, ele fez o rabino Ben Ezra dizer à sua congregação: Envelheçam junto comigo! O melhor está ainda por vir, O fim da vida, para o qual o começo foi feito. E a advertiu de que a velhice é o momento de Tomar e aproveitar o teu trabalho: Corrigir falhas que possam estar ocultas. Mas talvez isto seja o mais importante de tudo: Não olhem para baixo, e sim para o alto! Dificilmente seria realista pintar o processo de envelhecimento com um pincel que Poliana ou Pangloss pudessem ter usado. As bênçãos da idade avançada surgem com os seus ônus e, sob certos aspectos, são o resultado deles. Elas não podem existir na ausência deles, e não devemos hesitar em reconhecer as perdas que acompanham os ganhos. Não se chega a nada atenuando as realidades físicas e emocionais do envelhecimento. Se eu fechasse a minha mente e a do leitor a tudo o que existe, não conseguiria realizar o meu objetivo, que é falar sobre como se preparar para essas realidades e enfrentá-las, não só com serenidade, mas com os recursos capazes de impedir ou minorar os efeitos mais nocivos da sua investida — e, na verdade, saber quando usá-los é um meio de realizar as metas que possamos fixar para nós mesmos. Passei quase quarenta anos em um ramo de cirurgia em que os desafios maiores e mais freqüentes se concentram no tratamento de homens e mulheres na meia-idade avançada e além. A sua reação a crises físicas, emocionais e espirituais tem sido a matéria-prima das minhas observações diárias, e passei a conhecer tanto a fragilidade quanto a força, a vulnerabilidade e a resignação que eles possuem. Eles têm sido meus pacientes, meus amigos e meus professores, mesmo quando eu era um jovem médico. Mais recentemente, eles têm sido um espelho. Ao escrever este livro, espero retribuir um pouco do que eles me proporcionaram em termos de conhecimento e compreensão, ao longo de muitos anos, e partilhar com os outros o que aprendi. Em tudo isso, o meu tema é o verso de Browning, “Envelheçam junto comigo!”, com ponto de exclamação e tudo — pois estou fazendo a viagem ao mesmo tempo que a descrevo, e espero que os meus leitores e eu continuemos a olhar para o alto, embora nunca esquecendo de olhar para baixo de vez em quando. Mas por que olhar para baixo? Afinal, o poeta nos previne contra isso e dezenas de volumes de auto-ajuda nos falam das maravilhas daquela perpétua imagem de juventude que pode ser nossa, se apenas seguirmos algumas instruções simples. Mas toda sorte de notas promissórias sobre um futuro antienvelhecimento tende a ignorar o fato óbvio de que, com otimismo ou sem otimismo, os passos são mais seguros quando são cautelosamente dados. Devemos ver onde os nossos pés estão de fato colocados e aonde eles ainda nos podem levar; devemos não só erguer os olhos para a aliciante promessa de manutenção do vigor intelectual e físico, mas ser sensatos e prudentes, com uma certeza: o que o inextinto espírito jovem quer ou imagina nem sempre é o que o corpo envelhecido permite. A advertência “Tome juízo” tem sido aplicada a todas as etapas da vida, mas é nas décadas mais avançadas que assume um sentido além de meramente evitar fazer um papel ridículo. Essas são lições que temos de aprender à medida que os anos passam. A realidade prudente é o segredo da sobrevivência vibrante, para abrandar o sopro de ontem que às vezes nos impele a querer o que está além do possível. Temos de ensinar a nós mesmos como reconhecer o instinto residual que foi útil em um período anterior da vida e guiá-lo com as rédeas do bom senso. O objetivo é distinguir entre o fato e a fantasia; o objetivo é encaminhar-se para a realização do razoável. Há uma tirania nas décadas; a vida não devia ser medida em pacotes de dez anos. A passagem de uma década para a seguinte é repleta de implicações artificiais. Quer o número do suposto ponto crítico seja 30 ou 70, ele surge com a expectativa de que daí em diante seremos diferentes do que éramos antes — que imediatamente estamos de algum modo alterados. Tratamos esses momentos aparentemente definidores, que são, na verdade, um processo de transição imperceptível, como se possuíssem uma importância que de fato não têm — como se fossem catalisadores de uma abrupta transformação física e mental, quando na realidade não são tal coisa. A verdade é que o dia da transição de um intervalo de dez anos para outro é meramente um marco, mas nós o usamos como um sinal de que, de algum modo, algo mudou ou deveria ter mudado. Uma nova série de expectativas nos castiga — e nós nos submetemos a ela — quando deixamos uma década e entramos em outra. Nosso corpo, por exemplo, não percebe a diferença. Do ponto de vista da biologia, a última manhã dos 59 anos é muito parecida com a primeira manhã dos 60 anos. No entanto a nossa mente já se ajustou a um novo ritmo. Achamos que estamos mais velhos. O fato de essa autoimagem induzida pelo calendário ser um artifício da cultura não influencia o modo como nos percebemos. Cedemos a ela sem pensar, como se a aceleração para adotar um novo modelo fosse algo inevitável. Como seria a vida se de algum modo não tivéssemos meios de marcar a passagem dos anos? Que idade pensaríamos ter se não fizéssemos idéia da idade que temos? Não poderíamos nos comportar de acordo com a nossa idade se não soubéssemos a nossa idade. Não poderíamos nos classificar em grupos uniformes de interesses uniformes e aptidões uniformes. Seríamos muito mais o que realmente somos: indivíduos de variação infinita em qualquer idade. A conformidade automática acabaria. Não estou defendendo aqui que se ignore a passagem do tempo. Nem estou sugerindo uma insensibilidade à realidade interna e externa. Estou apenas expondo a simples verdade biológica: vivemos na bioquímica do nosso corpo, não nos anos; vivemos na interação entre essa bioquímica e o seu maior produto — a mente humana —, não em uma série de décadas marcadas por bruscas mudanças periódicas. Cada um de nós existe, portanto, em uma individualidade física, mental, espiritual e social moldada por tudo o que ocorreu antes e é agora trazido para este momento da nossa vida. Cada um de nós é o produto de uma seqüência de momentos de vida, cuja soma está em cada encontro de que participamos. Cada um de nós é a sua própria década. Nenhum número pode nos definir como maduros, idosos ou anciãos. Só podemos ser definidos por aquilo que nos tornamos. Seja o que for que o envelhecimento possa representar para nós, ele é antes de tudo um estado de espírito. No entanto tudo isso é acompanhado por aquela advertência que precisa ser aqui reiterada: às vezes, a velhice esquece as suas limitações e, de forma incompatível, tenta ser a juventude. É sabido que os momentos de tensão súbita estimulam tal comportamento. Recusar-se a ser enquadrado em um número não significa que o número seja totalmente destituído de sentido. O perigo pode estar nessa espontaneidade descuidada. Mais uma vez, lembrem-se de mim e do incidente no metrô. São muitas as razões por que tentamos manter nosso corpo e nossa mente nos melhores níveis de função. Entre os temas dos capítulos seguintes está a mensagem de que a antiga recomendação do satirista romano Juvenal se aplica a todos nós, não menos aos 80 anos do que aos 8 anos, ficando mais significativa a cada ano que passa talvez depois dos 40. Mens sana in corpore sano, aconselhou Juvenal, ou, como John Locke expressaria um milênio e meio mais tarde, em um tratado sobre a educação dos jovens: “Mente sã em corpo são.” Mas não se deve permitir que uma tola interpretação equivocada do que é possível induza alguém ao erro. O perigo de esquecer o que se deve esperar de si mesmo aumenta quando não foram mantidas reservas que possam responder às exigências imprevistas da vida cotidiana. Embora o vigor pleno de um período anterior há muito tenha desaparecido, recursos internos podem aflorar quando uma pessoa mais velha mantém alguma boa disposição e autoconfiança. Não temos necessariamente de nos conformar à noção do que devemos nos tornar quando os anos da meia-idade foram ultrapassados por aqueles associados por muitos ao arco descendente da vida. Muitas vezes tenho ficado grato por não estar entre os conformistas, embora alguns episódios como o descrito anteriormente tenham ocorrido porque eu me excedi e me esqueci de olhar para baixo. Assim, estou oferecendo aqui o que pode parecer uma mistura confusa de cautela e conselho: cautela quanto ao erro de não olhar para baixo e conselho quanto a uma das mais cruciais razões para manter a melhor disposição física e mental possível quando ficamos mais velhos, isto é, a possibilidade da necessidade inesperada de recorrer a forças cujo uso é raramente necessário. Não pretendo apresentar ou revelar ambivalência quanto à importância relativa de olhar para o alto e olhar para baixo — ambos são igualmente importantes. Em vez disso, o que pretendo apresentar é a necessidade de reconhecer que ao passo que envelhecemos, como em qualquer outro período da vida, temos de aprender a viver com contradições — não só contradições, mas incertezas. A estrada quase não é visível enquanto tentamos encontrar nosso caminho entre a conservação do vigor e uma acomodação realista à sua perda, não mais do que foi visível em qualquer época anterior da nossa vida. Essa estrada é pavimentada com incerteza, e também nisso cada um de nós tem de achar o seu caminho, como sempre fizemos. Nós, idosos, manobramos em meio à incerteza, prestando atenção à nossa mente e ao nosso corpo com mais cuidado do que no passado; devemos nos tornar observadores atentos das suas necessidades e capacidades. E, nisso, a fase evolutiva que chamamos envelhecimento é, de fato, diferente daquelas que a precederam. Não estamos mais em uma etapa em que as coisas cuidam de si mesmas; nada pode agora ser tido como certo. Chegamos a um ponto na nossa vida em que devemos nos estudar como nunca o fizemos antes, cuidar de nós mesmos e estar em sintonia conosco de formas que são novas para nós e às vezes fatigantes. Isso exige atenção, reflexão e ação, em relação não só a nós mesmos, como igualmente ao mundo ao nosso redor. Nesse aspecto, todos nós, homens e mulheres mais velhos, devemos nos tornar filósofos.

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