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A Boa Terra (Cód: 1851692)

Buck, Pearl S.

Alfaguara / Objetiva

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A Boa Terra

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Descrição

No clássico 'A Boa Terra' a autora retrata com grande sensibilidade as tradições da cultura chinesa no início do século XX, tendo como fio condutor a trajetória de um humilde camponês e de sua família. Segundo romance da autora, o livro virou best-seller nos Estados Unidos, foi traduzido para mais de 30 línguas e adaptado para o teatro e para o cinema.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Alfaguara / Objetiva
Cód. Barras 9788573027396
Altura 23.50 cm
I.S.B.N. 9788573027396
Profundidade 0.00 cm
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 320
Peso 0.44 Kg
Largura 15.00 cm
AutorBuck, Pearl S.

Leia um trecho

Era o dia do casamento de Wang Lung. No primeiro momento, quando abriu os olhos na escuridão das cortinas de sua cama, não atinou por que o amanhecer parecia diferente de todos os outros. No silêncio da casa, só ouvia a tosse fraca e ofegante de seu velho pai, cujo quarto fi cava em frente ao dele do outro lado da sala central. Todas as manhãs, a tosse do velho era o primeiro som que se ouvia. Wang Lung em geral fi cava deitado a escutá-la e só se mexia quando a ouvia mais próxima e a porta do quarto do pai rangia nas dobradiças de madeira. Mas, nesta manhã, ele não esperou. Pulou da cama e abriu as cortinas. Era um amanhecer escuro e avermelhado, e pela pequena abertura quadrada de uma janela, onde o papel esfarrapado esvoaçava, brilhou uma nesga de céu cor de bronze. Ele foi até a abertura e rasgou o papel. — É primavera e não preciso disso — resmungou. Envergonhava-se de dizer em voz alta que queria que a casa parecesse em ordem naquele dia. A abertura era tão apertada que mal dava para sua mão passar e ele a meteu para fora a fi m de sentir o ar. Uma brisa suave soprava do leste, uma brisa amena e murmurante e plena de chuva. Era um bom presságio. Os campos precisavam de chuva para frutifi car. Não choveria naquele dia, mas em pouco tempo, se aquele vento continuasse, haveria água. Isso era bom. Ontem, ele dissera ao pai que, se aquele sol abrasador e inclemente continuasse, o trigo não espigaria. Agora era como se o céu tivesse escolhido esse dia para lhe desejar boa sorte. A terra daria frutos. Entrou depressa na sala central, vestindo as calças no caminho e amarrando na cintura a faixa de tecido de algodão azul. Ficou de peito nu até acabar de aquecer a água para se banhar. Foi até o alpendre que servia de cozinha e, no lusco-fusco, ao lado da porta, surgiu a cabeça de um boi que mugiu fundo para ele. A cozinha era feita dos mesmos tijolos de barro que a casa, grandes quadrados de terra tirada de seus próprios campos, e coberta de palha de seu próprio trigo. Daquela mesma terra, seu avô, na juventude, fabricara também o forno, que os muitos anos de preparação de refeições haviam cozido e enegrecido. Em cima dessa estrutura de barro erguia-se um caldeirão de ferro fundo e redondo. Ele encheu esse caldeirão parcialmente de água, tirada de cuia de um jarro que estava ali perto, mas com cuidado, pois a água era preciosa. Em seguida, após hesitar um pouco, levantou o jarro e esvaziou toda a água do caldeirão. Naquele dia, lavaria o corpo inteiro. Desde criança no colo da mãe, ninguém olhava seu corpo. Hoje, alguém olharia, e ele desejava estar limpo. Passou por trás do forno, e, escolhendo um punhado de capim seco no canto da cozinha, dispôs tudo delicadamente na boca do forno, tirando o melhor partido de cada folha. Depois, com uma pederneira e um pedaço de ferro velhos, produziu uma centelha e ateou fogo à palha. Aquele era o último dia em que precisaria acender o fogo. Acendera-o todas as manhãs desde que a mãe morrera havia seis anos. Acendia o fogo, fervia a água, despejava-a numa tigela e levava-a ao quarto onde o pai estava sentado na cama, tossindo e tateando à procura dos sapatos no chão. Todas as manhãs nesses seis anos, o velho esperara o fi lho vir lhe trazer água quente para aliviá-lo da tosse matinal. Agora pai e fi lho poderiam descansar. Estava chegando uma mulher na casa. Nunca mais Wang Lung teria que se levantar inverno e verão ao romper da aurora para acender o fogo. Poderia esperar deitado na cama, e também teria uma tigela de água trazida para ele, e se a terra fosse fecunda, haveria folhas de chá na água. Em alguns anos, às vezes era assim. E se a mulher se cansasse, haveria os fi lhos dela para acender o fogo, os muitos fi lhos que ela teria de Wang Lung. Wang Lung parou, quando lhe ocorreu a idéia de crianças correndo pelos três quartos da casa. Sempre parecera que três quartos eram demais para eles, na casa meio vazia desde a morte de sua mãe. Estavam sempre tendo que resistir aos parentes que viviam mais apertados — o tio, com sua interminável prole, sugerindo: — Ora, como dois homens sozinhos podem precisar de tanto espaço? Pai e fi lho não podem dormir juntos? O calor do corpo do jovem confortará a tosse do velho. Mas o pai sempre respondia: — Estou poupando minha cama para meu neto. Ele aquecerá meus ossos na minha velhice. Agora os netos iam chegar, netos atrás de netos! Teriam que colocar camas ao longo das paredes na sala central. A casa estaria cheia de camas. O fogo no forno morreu enquanto Wang Lung pensava em todas as camas que haveria na casa meio vazia, e a água começou a esfriar no caldeirão. A fi gura sombria do velho apareceu no portal, segurando no corpo as roupas desabotoadas. Tossia e cuspia dizendo ofegante: — Como ainda não tem água para me esquentar os pulmões? Wang Lung fi cou olhando para ele, depois caiu em si, envergonhado: — Essa lenha está úmida — resmungou detrás do fogão. — O vento úmido... O velho continuou tossindo obstinadamente, sem parar, até a água ferver. Wang Lung encheu uma tigela, e então, pouco depois, abriu um pote vitrifi cado que estava numa aba do fogão, tirou dali mais ou menos uma dúzia das folhas secas enroladas e espalhou-as na superfície da água. O velho arregalou os olhos gulosamente, mas logo começou a reclamar. — Por que você é perdulário? Tomar chá é comer dinheiro. — É o dia — respondeu Wang Lung com uma risada curta. — Tome e se reconforte. O velho pegou a tigela com os dedos enrugados e nodosos, resmungando e emitindo pequenos grunhidos. Observou as folhas se desenrolarem e se espalharem na superfície da água, incapaz de admitir beber o precioso líquido. — Vai esfriar — disse Wang Lung. — É verdade... é verdade... — disse o velho alarmado, e começou a tomar grandes goles do chá quente, com uma satisfação animal, como uma criança fi xada na comida. Mas não estava tão distraído a ponto de deixar de ver Wang Lung enchendo temerariamente uma funda tina de madeira com a água do caldeirão. Levantou a cabeça e olhou para o filho. — Essa água toda dá para fazer uma colheita frutificar — disse subitamente. Wang Lung continuou despejando a água até a última gota. Não respondeu. — Alto lá! — gritou o pai. — Não lavo meu corpo desde o Ano-novo — disse Wang Lung em voz baixa. Ficou com vergonha de dizer ao pai que queria ter o corpo limpo para uma mulher o ver. Saiu depressa, levando a tina para o quarto. A porta estava meio solta no caixilho de madeira empenada e não fechava direito, então o velho correu para a sala central, pôs a boca na abertura e gritou: — Vai ser ruim se acostumarmos a mulher assim — chá de manhã e esse banho todo! — É só um dia — gritou Wang Lung. Depois acrescentou: — Vou jogar a água na terra quando terminar e não será tudo desperdício. O velho ficou quieto diante disso, e Wang Lung desamarrou a cinta e se despiu. No quadrado de luz que entrava pela abertura, torceu uma toalhinha com água fumegante e esfregou vigorosamente o esguio corpo moreno. Embora tivesse achado que estava quente, quando umedeceu a pele, sentiu frio; correu com o processo, mergulhando a toalha na água e retirando-a até que de todo seu corpo saía uma delicada nuvem de vapor. Depois, foi até uma arca que pertencera à sua mãe e tirou dali de dentro uma roupa limpa de algodão azul. Talvez sentisse um pouco de frio naquele dia sem as roupas de inverno acolchoadas, mas de repente não conseguia admitir o contato delas na pele limpa. Tinham a capa rasgada e imunda, e o forro saía pelos furos, cinzento e úmido. Ele não queria que essa mulher o visse pela primeira vez com o forro saindo para fora das roupas. Mais tarde, ela teria que lavar e cerzir, mas não no primeiro dia. Ele vestiu o casaco e as calças de algodão azul e uma túnica comprida do mesmo tecido — sua única túnica comprida, que só usava em dias de festa, mais ou menos dez dias por ano, ao todo. Então, com dedos ágeis, desfez a longa trança que lhe caía nas costas, e, pegando um pente de madeira na gaveta da mesinha bamba, começou a pentear o cabelo. Seu pai se aproximou de novo e pôs a boca na fresta da porta. — Não vou ter nada para comer hoje? — reclamou. — Na minha idade, os ossos são água de manhã até receberem comida. — Já vou — disse Wang Lung, trançando o cabelo depressa e serenamente e entrelaçando as mechas com um cordão de borlas de seda preta. Aí, logo depois, tirou a túnica comprida e enrolou a trança em volta da cabeça e saiu, carregando a tina de água. Quase esquecera o café-da-manhã. Misturaria um pouco de água na farinha de milho e daria ao pai. Ele mesmo não conseguiria comer. Foi trôpego com a tina até a entrada e despejou a água na terra o mais junto da porta, e, ao fazer isso, lembrou-se que usara toda a água do caldeirão para o banho e teria que tornar a acender o fogo. Ficou irritado com o pai. — Aquela cabeça velha só pensa em comer e beber — resmungou na boca do forno; mas, em voz alta, não disse nada. Era a última manhã em que teria de preparar comida para o velho. Pôs um pouquinho d’água no caldeirão, tirando-a com um balde de um poço junto à porta. A água ferveu logo, ele preparou o mingau e levou-o para o velho. — Vamos comer arroz hoje à noite, meu pai — disse. — Enquanto isso, tem aí milho. — Só sobrou um pouquinho de arroz no cesto — disse o velho, sentando-se à mesa na sala central e mexendo com os pauzinhos o espesso mingau amarelo. — Então, vamos comer um pouco menos do que na última festa da primavera — disse Wang Lung. Mas o velho não ouviu. Tomava ruidosamente a papa da tigela. Wang Lung foi para seu quarto, tornou a vestir a túnica azul comprida e desenrolou a trança. Passou a mão na testa raspada e nas faces. Talvez fosse melhor estar recém-barbeado. O sol ainda não despontara. Poderia passar pela rua dos Barbeiros e fazer a barba antes de ir para a casa onde a mulher esperava por ele. Se tivesse dinheiro, faria isso. Tirou da cinta uma bolsinha sebosa de tecido cinza e contou o dinheiro que havia lá dentro: seis dólares de prata e dois punhados de moedas de cobre. Ainda não contara ao pai que convidara amigos para jantar naquela noite. Convidara o primo mais moço e o tio por causa do pai, e três fazendeiros vizinhos que moravam na aldeia com ele. Planejara naquela manhã trazer da cidade carne de porco, um peixe de água doce pequeno e um punhado de castanhas. Talvez até comprasse um pouco de brotos de bambu do sul e um pouco de carne de vaca para ensopar com o repolho que plantara no jardim. Mas isso só se sobrasse dinheiro depois de comprados o óleo vegetal e o molho de soja. Se raspasse a cabeça, talvez não pudesse comprar a carne. Bem, rasparia a cabeça, decidiu de repente. Não disse nada, deixou o pai e saiu ainda de manhãzinha. Apesar da aurora vermelho-escura, o sol subia nas nuvens do horizonte e faiscava no orvalho que cobria os pés de trigo e de cevada. O lavrador que havia em Wang Lung distraiu-se um instante e ele parou para examinar os brotos que saíam. Estavam vazios ainda e esperando a chuva. Ele cheirou o ar e olhou com ansiedade para o céu. A chuva estava ali, nas nuvens pretas, no vento abafado. Ele compraria um bastão de incenso e o colocaria no pequeno templo do Deus da Terra. Num dia como aquele faria isso. Foi seguindo seu caminho pela trilha dos campos. Não muito longe, erguia-se o muro cinzento da cidade. Do outro lado da porta no muro por onde ele entraria fi cava a casa grande onde a mulher era escrava desde criança, a Casa de Hwang. Havia aqueles que diziam: “É melhor viver só do que se casar com uma mulher que foi escrava numa casa grande.” Mas quando ele perguntara ao pai: “Nunca vou ter uma mulher?”, o pai respondeu: — Com os casamentos custando o que custam nesta época ruim e com as mulheres querendo anéis de ouro e roupas de seda antes de tomar um homem, os pobres só podem ter escravas. Seu pai então agira e fora à casa de Hwang perguntar se havia uma escrava disponível. — Que não seja muito jovem, nem, sobretudo, bonita — dissera. Wang Lung sofrera por ela não dever ser bonita. Gostaria de ter uma mulher bonita, que os outros homens o felicitassem por tê-la. O pai, vendo sua cara revoltada, gritara-lhe: — E o que faremos com uma mulher bonita? Precisamos de uma mulher que cuide da casa e tenha fi lhos enquanto trabalha no campo. E uma mulher bonita fará essas coisas? Estará sempre pensando em roupas para combinar com a cara! Não, nada de mulher bonita em nossa casa. Somos lavradores. Além do mais, quem já ouviu falar de uma bela escrava que fosse virgem numa casa abastada? Todos os senhores jovens já se saciaram com ela. É melhor ser o primeiro com uma mulher feia do que o centésimo com uma bonita. Você acha que uma bela mulher vai achar suas mãos de lavrador tão agradáveis quanto as mãos macias de um fi lho de rico, e sua cara queimada do sol tão bela quanto a pele dourada dos outros que a tiveram para o seu prazer? Wang Lung sabia que o pai estava certo. Contudo, teve que lutar com sua carne antes de poder responder. E aí, falou com violência: — Pelo menos, não quero uma mulher que tenha cara bexiguenta nem lábio leporino. — Vamos ter que ver o que há disponível — respondeu o pai. Bem, a mulher não era bexiguenta nem tinha lábio leporino. Isso ele sabia, mas nada mais. Ele e o pai haviam comprado dois anéis de prata banhada a ouro e brincos de prata, e estes o pai levara ao dono da mulher como reconhecimento do noivado. Além disso, nada sabia da mulher que seria sua, a não ser que nesse dia poderia ir buscá-la. Entrou na escuridão fria do portão da cidade. Os aguateiros, acabando de sair com os carrinhos de mão carregados de grandes tinas de água, passavam para lá e para cá o dia inteiro, a água respingando das tinas nas pedras. Era sempre úmido e frio dentro do túnel do portão sob a parede grossa de barro e tijolo; frio até num dia de verão, de modo que os vendedores de melão espalhavam suas frutas em cima das pedras, melões abertos para beber na friagem úmida. Ainda não havia nenhum, pois a estação ainda não começara, mas havia cestos de pequenos pêssegos verdes e duros ao longo das paredes. Os vendedores gritavam: — Os primeiros pêssegos da primavera… os primeiros pêssegos! Comprem, comam, purguem seus intestinos dos venenos do inverno! Wang Lung disse a si mesmo: — Se ela gostar de pêssegos, comprarei um punhado para ela quando voltarmos. Mal conseguia imaginar que, quando passasse de volta pelo portão, haveria uma mulher andando atrás dele. Virou à direita depois de passar o portão e, logo, já estava na rua dos Barbeiros. Havia pouca gente ali tão cedo, apenas alguns lavradores que haviam levado seus produtos para a cidade na noite anterior a fi m de poder vender suas hortaliças no mercado de madrugada e regressar para o dia de trabalho na lavoura. Haviam dormido tiritando agachados sobre seus cestos, agora vazios a seus pés. Wang Lung os evitou, temendo que alguns o reconhecessem, pois não queria ouvir nenhuma de suas piadas naquele dia. Ao longo da rua inteira, os barbeiros esperavam numa fila comprida atrás de suas barraquinhas. Wang Lung escolheu a mais afastada, sentou-se no banco e fez sinal para o barbeiro, que conversava com o vizinho. O barbeiro veio imediatamente e começou logo a despejar água quente, de uma chaleira pousada sobre uma panela de carvão, em sua bacia de latão. — Raspar tudo? — disse num tom profi ssional. — A cabeça e a cara — respondeu Wang Lung. — Ouvidos e narinas limpos? — perguntou o barbeiro. — Quanto isso vai custar a mais? — perguntou Wang Lung precavido. — Quatro tostões — disse o barbeiro, começando a mergulhar um pano preto na água quente. — Dou-lhe dois — disse Wang Lung. — Então limpo um ouvido e uma narina — retrucou o barbeiro prontamente. — De que lado da cara quer que seja feita a limpeza? — Fez uma careta para o barbeiro ao lado enquanto falava e o outro caiu na gargalhada. Wang Lung percebeu que havia caído nas mãos de um piadista, e, sem saber por quê, sentindo-se, como sempre, inferior àqueles citadinos, ainda que não passassem de barbeiros e fossem as mais reles das pessoas, disse depressa: — Como quiser... como quiser... Então se deixou ensaboar, esfregar e raspar pelo barbeiro que, sendo afinal de contas um sujeito bastante generoso, lhe deu uma série extra de socos habilidosos nos ombros e nas costas para soltar seus músculos. Enquanto raspava o alto da testa de Wang Lung, comentava: — Este não seria um lavrador feio se cortasse o cabelo. A nova moda é cortar a trança. Sua navalha rondava tão de perto a coroa de cabelo no alto da cabeça de Wang Lung que este gritou: — Não posso cortar isso sem perguntar a meu pai! — E o barbeiro riu e contornou a coroa de cabelo. Terminado o serviço e contado o dinheiro na mão enrugada e molhada do barbeiro, Wang Lung fi cou horrorizado. Tanto dinheiro! Mas, tornando a descer a rua, com o vento fresco na pele barbeada, disse a si mesmo: “É uma vez só.” Foi então ao mercado e comprou duas libras de carne de porco, observando o açougueiro embrulhá-la numa folha de lótus seca. Em seguida, hesitando, comprou também seis onças de carne de vaca. Depois de tudo comprado, até os tabletes frescos de pasta de soja, tremendo como geléia sobre a folha, foi a uma loja de velas e lá comprou um par de bastões de incenso. Então rumou com grande timidez para a Casa de Hwang. Uma vez no portão da casa, foi tomado de terror. Como fora sozinho? Deveria ter pedido ao pai — ao tio — até ao vizinho mais próximo, Ching — a qualquer pessoa para vir com ele. Nunca estivera antes numa casa grande. Como poderia entrar com o banquete de casamento no braço e dizer: “Vim buscar uma mulher?” Ficou um bom tempo na frente da casa, olhando para o portão. Estava trancado, duas grandes folhas de madeira pintadas de preto, emolduradas e tacheadas de ferro, fechadas uma sobre a outra. Dois leões de pedra montavam guarda, um de cada lado. Não havia mais ninguém. Afastou-se. Era impossível. Súbito, sentiu-se fraco. Primeiro iria comprar um pouco de comida. Não comera nada — esquecera a comida. Entrou num pequeno restaurante de rua, e, colocando dois tostões sobre a mesa, sentou-se. Um garçom sujo com um avental preto lustroso aproximou-se e ele lhe gritou: — Duas tigelas de macarrão! E quando vieram os pratos, ele comeu avidamente, metendo a comida na boca com os pauzinhos de bambu, enquanto o garçom ali parado girava os cobres entre o polegar e o indicador encardidos. — Vai querer mais? — perguntou o garoto com indiferença. Wang Lung fez que não com a cabeça. Empertigou-se e olhou em volta. Não havia ninguém que ele conhecesse na salinha escura e apertada, cheia de mesas. Só havia alguns homens sentados comendo ou tomando chá. Era um lugar para gente pobre, e, naquele meio, seu aspecto correto, asseado e quase rico, fez com que um pedinte lhe implorasse ao passar: — Seja bondoso, professor, e me dê um dinheirinho...estou morrendo de fome! Wang Lung jamais fora abordado por mendigos e ninguém jamais o chamara de professor. Ficou satisfeito e jogou na tigela do homem dois trocados, que são um quinto de um tostão, e o mendigo puxou com agilidade aquela mão escura e, agarrando o dinheiro, meteu-o dentro dos andrajos. Wang Lung fi cou ali sentado e o sol subiu. O servente o rondava, impaciente. — Se não vai comprar mais nada — disse afinal muito atrevido —, vai ter que pagar o aluguel do banco. Wang Lung fi cou furioso com tal atrevimento e teria levantado se a idéia de entrar na grande Casa de Hwang e perguntar ali por uma mulher não o tivesse feito começar a suar em bicas como se estivesse trabalhando num campo. — Traga um chá — disse sem fi rmeza ao garoto. Antes que conseguisse se virar, o chá já estava lá, e o menino perguntava incisivo: — Cadê o tostão? E Wang Lung, horrorizado, viu que não podia fazer outra coisa senão sacar da cinta mais um tostão. — Isso é roubo — resmungou, contrariado. Então, ao ver entrar na casa o vizinho a quem convidara para o banquete, pôs o tostão depressa na mesa, bebeu o chá de um gole só, saiu rapidamente pela porta lateral e já estava de novo na rua. — Tem que ser feito — disse a si mesmo desesperado, e, lentamente, rumou para os grandes portões. Dessa vez, como já passava do meio-dia, os portões estavam abertos e o porteiro matava o tempo na entrada, palitando os dentes com uma lasca de bambu depois da refeição. Era um sujeito alto com um sinal grande na face esquerda, do qual pendiam três compridos pêlos pretos que ele nunca cortara. Quando Wang Lung apareceu, gritou com aspereza, pensando, por causa do cesto, que ele fora vender alguma coisa. — O que quer aqui? Com grande difi culdade, Wang Lung respondeu: — Sou Wang Lung, o lavrador. — Bem, Wang Lung, e daí? — retorquiu o porteiro, que não era cortês com ninguém a não ser com os amigos ricos do amo e da ama. — Eu venho... eu venho... — titubeou Wang Lung. — Isso, eu estou vendo — disse o porteiro com uma paciência estudada, torcendo os longos pêlos do sinal. — Há uma mulher aí — disse Wang Lung, num fi o de voz. No sol, sua cara estava molhada. O porteiro deu uma boa gargalhada. — Então é você! — rugiu. — Mandaram que eu aguardasse um noivo hoje. Mas não o reconheci com um cesto no braço. — São só algumas carnes — disse Wang Lung como que se desculpando, aguardando que o porteiro entrasse com ele. Mas o porteiro não se mexeu. Afi nal, Wang Lung disse com ansiedade: — Devo ir sozinho? O porteiro fi ngiu uma reação de horror. — O Senhor Velho vai matá-lo! Então, vendo que Wang Lung era muito inocente, disse: — Uma pratinha é uma boa chave. Wang Lung viu afi nal que o homem queria dinheiro dele. — Sou um homem pobre — disse em tom de súplica. — Deixe-me ver o que você tem na cinta — disse o porteiro. E riu quando Wang Lung, em sua ingenuidade, pôs de fato o cesto nas pedras e, levantando a túnica, tirou da cinta a bolsinha, sacudindo na mão esquerda o dinheiro que sobrara das compras. Só havia uma moeda de prata e 14 tostões de cobre. — Vou pegar a prata — disse o porteiro friamente, e, antes que Wang Lung pudesse protestar, o homem estava com a prata na manga e cruzava o portão, aos berros: — O noivo, o noivo! Wang Lung, embora revoltado com o que acabara de acontecer e horrorizado com esse anúncio ruidoso de sua chegada, não pôde fazer outra coisa senão acompanhar, e isso ele fez, pegando o cesto do chão sem olhar para um lado nem para o outro. Depois, embora fosse a primeira vez que entrava numa grande casa de família, não conseguiu lembrar de nada. Com a cara ardendo e a cabeça baixa, atravessou pátio após pátio, ouvindo aquela voz berrando à sua frente, ouvindo risadas tilintando de todos os lados. Então, de repente, quando lhe pareceu já ter atravessado cem pátios, o porteiro fi cou calado e o empurrou para dentro de uma pequena sala de espera. Ali ele ficou sozinho, enquanto o porteiro entrava num aposento interno, voltando logo para dizer: — A Senhora Velha manda que se apresente diante dela. Wang Lung começou a se adiantar, mas o porteiro o impediu, gritando com repugnância: — Não pode se apresentar diante de uma grande dama com um cesto no braço… — um cesto de carne de porco e pasta de soja! Como vai se inclinar? — É verdade... é verdade... — disse Wang Lung agitado. Mas não se atreveu a pousar o cesto porque temia que pudessem lhe roubar alguma coisa. Não lhe ocorria que houvesse quem não cobiçasse tais iguarias como duas libras de carne de porco, seis onças de carne de vaca e um peixe de água doce pequeno. O porteiro percebeu o temor dele e exclamou com um grande desprezo: — Numa casa como esta, damos essas carnes aos cães! — e, pegando o cesto, jogou-o atrás da porta e empurrou Wang Lung em frente. Passaram por uma varanda estreita, os tetos escorados por delicadas colunas entalhadas, e entraram num salão como Wang nunca vira. Umas vinte casas iguais à dele poderiam caber ali e desaparecer, tão amplos eram os espaços, tão alto o pédireito. Erguendo a cabeça maravilhado para ver as grandes vigas entalhadas e esculpidas, tropeçou na soleira alta da porta e quase caiu, mas o porteiro lhe agarrou o braço e gritou: — Será que fará a fi neza de se prosternar de cara no chão assim diante da Senhora Velha? E, acalmando-se, muito envergonhado, Wang Lung olhou para a frente, e, num estrado no centro do quarto, viu uma senhora muito velha. Seu corpo miúdo e magro estava vestido de cetim cinza perolado lustroso, e, sobre o banco baixo ao seu lado, havia um cachimbo de ópio, aceso sobre uma pequena lâmpada. Ela olhou para ele com olhos pequenos, penetrantes e negros, tão fundos e agudos como os de um macaco, na cara magra e enrugada. A pele da mão que segurava o cachimbo estava esticada em cima dos ossinhos, tão lisa e amarela quanto o dourado sobre um ídolo. Wang Lung caiu de joelhos e bateu com a cabeça no chão ladrilhado. — Levante-o — disse a Senhora Velha gravemente para o porteiro. — Essas reverências não são necessárias. Ele veio pela mulher? — Sim, Venerável — respondeu o porteiro. — Por que ele não fala por ele? — perguntou a Senhora Velha. — Porque é um tolo, Venerável Senhora — disse o porteiro, torcendo os pêlos do sinal. Isso despertou Wang Lung e ele olhou com indignação para o porteiro. porteiro. — Sou apenas uma pessoa rústica, Venerável Senhora — disse. — Não sei que palavras usar em sua presença. A Senhora Velha olhou para ele cautelosamente e com perfeita gravidade e fez menção de que ia falar, só que sua mão fechou-se sobre o cachimbo que uma escrava lhe estendia e imediatamente pareceu esquecer Wang Lung. Inclinou-se e pitou avidamente por um momento; seus olhos perderam a acuidade e uma película de esquecimento toldou-os. Wang Lung permaneceu postado à sua frente até que seus olhos, ao passar, captaram a fi gura dele. — O que este homem está fazendo aqui? — perguntou com uma raiva súbita. Era como se ela tivesse esquecido tudo. A expressão do porteiro estava inalterável. Ele nada disse. — Estou esperando a mulher, Grande Senhora — disse Wang Lung muito espantado. — A mulher? Que mulher?... — começou a Senhora Velha, mas a escrava ao lado dela abaixou-se e sussurrou, e a mulher se refez. — Ah, sim, havia esquecido, uma questão sem importância...você veio pela escrava chamada O-lan. Lembro-me de que a prometemos em casamento a um lavrador qualquer. Você é esse lavrador? — Sou ele — respondeu Wang Lung. — Chame O-lan depressa — disse a Senhora Velha à escrava. Era como se de repente estivesse impaciente para terminar com aquilo tudo e ser deixada em paz no sossego do salão com seu cachimbo de ópio. E, num instante, a escrava apareceu trazendo pela mão uma fi gura quadrada, bastante alta, vestida com uma túnica e umas calças limpas de algodão azul. Wang Lung deu uma olhada e depois desviou os olhos, o coração batendo. Esta era sua mulher. — Venha cá, escrava — disse a Senhora Velha sem prestar atenção. — Esse homem veio por você. A mulher colocou-se diante da senhora e ficou parada de cabeça baixa e mãos juntas. — Está pronta? — perguntou a senhora. A mulher respondeu tão devagar quanto um eco. — Pronta. Wang Lung, ouvindo a voz dela pela primeira vez, viu-a de costas, pois ela estava à sua frente. Era uma voz bastante boa, não sendo alta, nem suave, sendo simples e não geniosa. O cabelo da mulher era limpo e macio, e sua túnica estava limpa. Ele viu com um desapontamento instantâneo que seus pés não estavam enfaixados. Mas sobre isso não pôde se deter, pois a Senhora Velha estava dizendo ao porteiro: — Leve a arca dela até o portão e deixe-os ir embora. — Então chamou Wang Lung e disse: — Fique do lado dela enquanto falo. — E quando Wang adiantou-se, ela lhe disse: — Essa mulher entrou em nossa casa quando era uma criança de 10 anos, e aqui viveu até agora, que tem 20. Comprei-a num ano de fome quando seus pais vieram para o sul porque não tinham o que comer. Eles eram de Shantung, no norte, e para lá regressaram, e não sei mais nada sobre eles. Você vê que ela tem o corpo forte e a cara quadrada da gente dela. Trabalhará bem para você no campo, carregará água e tudo o mais que você desejar. Ela não é bonita, mas disso você não precisa. Só homens que vivem de renda têm necessidade de belas mulheres para distraí-los. Também não é inteligente. Mas faz bem o que lhe mandam e tem bom gênio. Até onde sei, é virgem. Não tem beleza sufi ciente para tentar meus fi lhos e meus netos, mesmo se não estivesse na cozinha. Se houve alguma coisa, foi apenas um criado. Mas com as inúmeras belas escravas correndo livremente pelos pátios, duvido que tenha havido algum. Tome-a e use-a bem. Ela é uma boa escrava, embora meio lenta e burra. Se eu não desejasse adquirir mérito no templo para minha existência futura trazendo mais vidas para o mundo, deveria guardá-la, pois ela cozinha muito bem. Mas caso minhas escravas fora de casa se alguém fi car com elas e os senhores não as quiserem. E para a mulher, disse: — Obedeça-lhe e dê-lhe fi lhos e mais fi lhos. Traga o primeiro para eu ver. — Sim, Venerável Senhora — disse a mulher submissamente. Eles estavam hesitantes, e Wang Lung fi cou muito embaraçado, sem saber se devia falar ou não. — Está bem, vão embora! — disse a Senhora Velha irritada, e Wang Lung, inclinando-se apressadamente, virou-se e saiu, a mulher atrás dele, e atrás dela o porteiro, carregando a arca nos ombros. Esta arca, ele largou no aposento onde Wang Lung foi buscar seu cesto, recusando-se a carregá-la mais, e, de fato, desapareceu sem mais uma palavra. Então Wang Lung virou-se para a mulher e olhou para ela pela primeira vez. Tinha uma cara quadrada e honesta, um nariz curto e largo com grandes narinas pretas, e uma boca rasgada como um talho na cara. Seus olhos eram pequenos e de um preto sem vida, cheios de uma tristeza impenetrável. Era uma cara que parecia habitualmente silenciosa e muda, como se não conseguisse falar se quisesse. Ela suportou com paciência o olhar de Wang Lung, sem embaraço ou reação, simplesmente esperando que ele a tivesse visto. Ele viu que de fato não havia beleza de espécie alguma na cara dela — uma cara morena, comum e paciente. Mas não havia marcas de bexiga em sua pele escura, e ela também não tinha lábio leporino. Em suas orelhas, ele viu seus brincos pendurados, os brincos banhados a ouro que ele comprara, e, em suas mãos, estavam os anéis que lhe dera. Ele se afastou exultando no íntimo. Bem, tinha a sua mulher! — Cá estão essa caixa e esse cesto — disse asperamente. Sem uma palavra, ela se abaixou, pegou uma extremidade da caixa, que colocou no ombro, e, cambaleando sob o peso, tentou levantar-se. Vendo-a fazer isso, ele disse de repente: — Eu levo a arca. Cá está o cesto. E passou a arca para o próprio lombo, sem se importar que estivesse usando a melhor túnica, e ela, ainda em silêncio, pegou a alça do cesto. Ele pensou nos cem pátios que atravessara e em sua fi gura, ridícula sob aquele fardo. — Se tivesse um portão lateral — murmurou, e ela fez que sim com a cabeça depois de pensar um pouco, como se não entendesse logo o que ele dissera. Então foi na frente por um pátio pequeno e sem uso que estava invadido pelo mato, e com o lago entupido. Ali, embaixo de um pinheiro torto, havia um portão redondo que ela destrancou, e os dois ganharam a rua por ali. Uma ou duas vezes, ele se virou para olhá-la. Ela ia firme andando com aqueles pés grandes como se tivesse caminhado por ali a vida inteira, a cara larga inexpressiva. No portão do muro, ele parou inseguro e tateou na cinta com uma mão à procura dos tostões que lhe sobravam, segurando a arca com fi rmeza no ombro com a outra mão. Tirou dois tostões, e, com isso, comprou seis pequenos pêssegos verdes. — Tome e coma — disse asperamente. Ela agarrou as frutas avidamente como uma criança poderia ter feito e fi cou com elas na mão, calada. Quando contornavam os trigais, ele olhou para ela e a viu cautelosamente mordiscando um. Ao perceber que ele a observava, tornou a esconder a fruta com a mão e parou de mastigar. E assim eles foram até chegarem ao campo ocidental, onde fi cava o templo da terra. Esse templo era uma pequena estrutura, não mais alta que o ombro de um homem, feita de tijolos cinzentos e coberta de telha. O avô de Wang Lung, que cultivara exatamente os mesmos campos onde o neto agora passava a vida, construíra-o, trazendo os tijolos da cidade em seu carrinho de mão. As paredes eram rebocadas por fora, e um artista da aldeia fora contratado num ano bom para pintar no estuque branco uma paisagem de colinas e bambu. Mas a chuva de gerações desbotara a pintura da qual agora só fi cara um leve sombreado de bambus, com as colinas quase totalmente apagadas. Dentro do templo, confortavelmente embaixo do teto, havia duas fi guras sentadas, pequenas e solenes, feitas com o barro dos campos ao redor do templo. Eram o deus e sua mulher. Usavam vestes de papel vermelho e dourado, e o deus tinha um bigode ralo e caído de pêlos naturais. Todos os anos, no Anonovo, o pai de Wang Lung comprava folhas de papel vermelho e cuidadosamente cortava e colava roupas novas para o casal. E todos os anos, chovia e nevava ali dentro e batia o sol de verão e estragava as roupas. Naquele momento, porém, as roupas ainda estavam novas, uma vez que o ano apenas começara, e Wang Lung estava orgulhoso da aparência impecável das imagens. Tomou o cesto do braço da mulher e procurou com cuidado embaixo da carne de porco os bastões de incenso que comprara. Estava ansioso, temendo que os bastões tivessem quebrado, o que seria de mau agouro, mas eles estavam inteiros, e quando os encontrou, espetou-os lado a lado nas cinzas de outros bastões de incenso que se amontoavam diante dos deuses, pois toda a vizinhança venerava aquelas duas imagenzinhas. Então, pegou a pederneira e um pedaço de ferro e fez fogo, usando uma folha seca para acender o incenso. Juntos, esse homem e essa mulher fi caram parados diante dos deuses de seus campos. A mulher observava as pontas do incenso enrubescerem e se transformarem em cinza. Quando a cinza pesou, ela se abaixou e, com o indicador, empurrou a ponta consumida. Então, como que temendo pelo que havia feito, olhou rapidamente para Wang Lung, com os olhos mudos. Mas havia algo no movimento dela que lhe agradou. Era como se ela sentisse que o incenso pertencia a eles dois; foi um momento de comunhão. Eles fi caram ali em silêncio total, lado a lado, enquanto o incenso virava cinza; depois, porque o sol estava caindo, Wang Lung pôs a arca nas costas e os dois foram para casa. À porta, estava o velho para pegar os últimos raios de sol. Não se mexeu quando Wang Lung se aproximou com a mulher. Reparar nela seria rebaixar-se. Em vez disso, fi ngiu um grande interesse nas nuvens e exclamou: — Aquela nuvem pendurada na ponta esquerda da lua nova fala de chuva. Vai chegar, o mais tardar, amanhã à noite. — E aí, ao ver Wang Lung pegar o cesto da mulher, exclamou de novo: — Você gastou dinheiro? Wang Lung pousou o cesto na mesa. — Vai haver convidados hoje à noite — disse lacônico, e levou a arca para o quarto onde dormia, pousando-a ao lado daquela onde guardava suas roupas. Olhou para aquilo de forma estranha. Mas o velho veio à porta e disse, palavroso: — Não tem fi m o que se gasta de dinheiro nesta casa! No íntimo, estava satisfeito que o fi lho tivesse convidados, mas achava que não devia fazer outra coisa senão reclamar diante dessa nova nora, para que, desde o início, ela não se acostumasse com extravagâncias. Wang Lung nada disse, mas levou o cesto para a cozinha e a mulher foi atrás dele. Ele tirou um a um os alimentos do cesto, botou-os na beira do fogão frio e disse a ela: — Aqui tem carne de porco, de vaca e peixe. São sete para comer. Pode preparar a comida? Não olhou para a mulher enquanto falava. Não fi caria bem. A mulher respondeu com sua voz simples. — Fui escrava de cozinha desde que entrei na Casa de Hwang. Havia carne em todas as refeições. Wang Lung balançou a cabeça positivamente e deixou-a, só tornando a vê-la quando os convidados começaram a chegar — o tio jovial, manhoso e faminto, o fi lho do tio, um rapaz semvergonha de 15 anos, e os lavradores desajeitados, sorrindo com timidez. Dois eram homens da aldeia com quem Wang Lung trocava sementes e trabalho na época da colheita, e um era seu vizinho de porta, Ching, um homem baixo e calado, não muito disposto a falar, a menos que fosse obrigado a isso. Depois que foram acomodados ao redor da sala do meio objetando com reticência para tomar assento, por polidez, Wang Lung entrou na cozinha para pedir à mulher que servisse. Então, fi cou satisfeito quando ela lhe disse: — Eu lhe entrego as tigelas se você quiser botá-las na mesa. Não gosto de aparecer na frente de homens. Wang Lung sentiu um grande orgulho por essa mulher lhe pertencer e não ter medo de aparecer diante dele, mas não querer fazê-lo diante de outros homens. Ele pegou as tigelas de suas mãos na porta da cozinha e colocou-as na mesa, na sala do meio, dizendo ruidosamente: — Comam, meu tio e meus irmãos. — E quando o tio, que gostava de piadas, disse: — Não vamos ver a noiva de testa de mariposa? —, Wang Lung respondeu com fi rmeza: — Ainda não somos um só. Não fi ca bem outros homens a verem antes da consumação do casamento. E insistiu para que eles comessem e eles comeram com entusiasmo daquela boa comida, com entusiasmo e em silêncio, e este elogiou o molho castanho do peixe, e aquele, a carne de porco bem passada, e Wang Lung dizia a toda hora em resposta: — É coisa pobre, está malfeita. Mas, no íntimo, estava orgulhoso dos pratos, pois, com as carnes que tinha, a mulher combinara açúcar e vinagre e um pouco de vinho e molho de soja e trouxera à luz com habilidade a própria força da carne. Ele mesmo nunca provara tais pratos na mesa de seus amigos. Naquela noite, depois de os convidados terem feito render bastante o chá e acabado de contar suas piadas, a mulher ainda continuava atrás do fogão. E quando Wang Lung se despediu do último convidado e entrou, encontrou-a encolhida num monte de palha dormindo ao lado do boi. Havia palha no cabelo dela quando ele a levantou, e quando a chamou, ela levantou o braço de repente, ainda dormindo, como se para se defender de um golpe. Quando afi nal abriu os olhos, fi tou-o com seu estranho olhar mudo, e ele teve a sensação de encarar uma criança. Pegou-a pela mão e levou-a para o quarto onde, naquela manhã, banhara-se para ela, e, sobre a mesa, acendeu uma vela vermelha. Naquela luz, quando se viu a sós com a mulher, de repente se intimidou e foi obrigado a se lembrar: “Aqui está essa mulher que me pertence. A coisa deve ser feita.” E começou a se despir com obstinação. Quanto à mulher, esgueirou-se para trás da cortina e começou, sem um ruído, a se preparar para a cama. Wang Lung disse bruscamente: — Quando deitar, apague a luz primeiro. Então, deitou-se e enrolou a grossa colcha em volta dos ombros e fi ngiu dormir. Mas não dormia. Estava trêmulo, todos os nervos de sua carne despertos. E quando, após um bom tempo, o quarto escureceu, e ele sentiu o movimento lento e silencioso da mulher ao seu lado, foi invadido por uma exultação capaz de fazê-lo explodir. Deu uma risada rouca no escuro e tomou a mulher.

Avaliações

Avaliação geral: 5

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rejane recomendou este produto.
11/11/2015

ótimo

muito bom, maravilhoso já li e recomendo.
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Rogerio recomendou este produto.
10/05/2015

Ótimo

livro incrivelmente bem feito, prende do começo ao fim.
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