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A Cada um o seu (Cód: 1974417)

Sciascia,Leonardo

Alfaguara / Objetiva

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Descrição

Numa pacata cidadezinha na Sicília, o farmacêutico Manno recebe uma carta anônima que anuncia: 'Você vai morrer pelo que fez.' Homem bem casado, discreto e pacato, não pode acreditar que a ameaça seja verdadeira. Mas está enganado. No dia seguinte, sai para caçar com um amigo e ambos são brutalmente assassinados.
O crime choca o vilarejo e confunde a polícia. Será que o farmacêutico era mesmo tão correto quanto se acreditava? Entre os moradores atraídos pela história está o professor Laurana, solteirão tímido e recluso que, a partir de uma pista inicial, se envolve acidentalmente com uma intriga que se mostrará muito maior do que ele poderia suspeitar.
Publicado originalmente em 1966, e hoje traduzido em todo o mundo, 'A Cada um o Seu' é considerado uma obra-prima da literatura italiana. Nas mãos de Sciascia, o que parece ser apenas um irônico relato policial se transforma em algo muito mais profundo: uma história que questiona até onde podem chegar a violência e a falsidade humanas.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Alfaguara / Objetiva
Cód. Barras 9788573027556
Altura 23.40 cm
I.S.B.N. 9788573027556
Profundidade 0.00 cm
Ano da edição 2007
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 136
Peso 0.44 Kg
Largura 15.00 cm
AutorSciascia,Leonardo

Leia um trecho

I A carta chegou com a entrega da tarde. O carteiro apoiou antes no balcão, como de costume, o maço colorido dos folhetos de propaganda; depois, com cuidado, como se houvesse perigo de vê-la explodir, a carta: envelope amarelo, e colado nele um pequeno retângulo branco com o endereço impresso. — Não gosto desta carta — disse o carteiro. O farmacêutico ergueu os olhos do jornal, tirou os óculos; perguntou: — O que foi? — incomodado e curioso. — Estou dizendo que não gosto desta carta. — No mármore do balcão, empurrou-a com o indicador, lentamente, para o farmacêutico. Sem tocar nela, o farmacêutico inclinou-se para observá-la; levantou-se, voltou a pôr os óculos, observou-a de novo. — Por que não gosta? — Foi postada aqui, ontem à noite ou de manhã cedo; e o endereço foi cortado de um papel timbrado da farmácia. — É — constatou o farmacêutico, e encarou o carteiro, constrangido e inquieto, como se esperasse uma explicação ou uma decisão. — É uma carta anônima — disse o carteiro. — Uma carta anônima — repetiu o farmacêutico. Sequer a tinha tocado, mas a carta já lacerava sua vida doméstica, caía como um raio, reduzindo a cinzas uma mulher não bonita, meio opaca, um tanto desmazelada, que, na cozinha, preparava o cabrito que ia pôr no forno para o jantar. — Aqui, a mania das cartas anônimas não acaba — disse o carteiro. Tinha deixado a bolsa numa cadeira e se apoiado no balcão: aguardava que o farmacêutico decidisse abrir a carta. Ele a entregara intacta, não a abriu antes (com todas as precauções, é claro), confi ando na cordialidade e ingenuidade do destinatário: “Se abrir e for um caso de chifre, não vai me dizer nada; mas se for uma ameaça ou coisa diferente, aí ele me mostra.” De qualquer jeito, não ia embora sem saber. Tinha tempo. — Uma carta anônima para mim? — indagou o far macêutico, depois de um longo silêncio, pasmo e indignado no tom, mas aterrorizado na aparência. Pálido, olhar perdido, gotas de suor no lábio. E, mais do que a curiosidade vibrante que o paralisava, o carteiro partilhou o estupor e a indignação daquele bom homem, de coração aberto; alguém que, na farmácia, vendia fi ado a todos e, no campo, nas terras que recebera como dote da mulher, deixava os camponeses à vontade. Nunca havia escutado, ele, o carteiro, nenhuma maledicência que envolvesse a senhora. De estalo, o farmacêutico se decidiu: pegou a carta, abriu-a, desdobrou a folha. O carteiro viu aquilo que esperava: uma carta escrita com palavras recortadas de um jornal. O farmacêutico bebeu de um só gole o cálice amargo. Duas linhas, só. — Escute, escute — disse, aliviado, quase contente. O carteiro pensou: “Nada de chifres.” Perguntou: — E aí, é uma ameaça? — Uma ameaça — confi rmou o farmacêutico. Passou-lhe a carta. O carteiro pegou-a rapidamente e leu em voz alta: — “Esta carta é sua sentença de morte, você vai morrer pelo que fez.” — Tornou a fechá-la e colocou-a no balcão. — É uma brincadeira — disse, e acreditava mesmo nisso. — Acha que é brincadeira, então? — perguntou o farmacêutico, com uma ponta de ansiedade. — E o que mais pode ser? Uma brincadeira. Há gente que procura sarna para se coçar e começa a fazer coisas como esta. Não é a primeira vez. Até por telefone fazem isso. — É — disse o farmacêutico —, já me aconteceu. Toca o telefone, de noite, vou atender e é uma mulher perguntando se perdi um cachorro, pois ela havia encontrado um azul-celeste e rosa, e alguém lhe disse que era meu. Trotes. Mas agora é uma ameaça de morte. — É a mesma coisa — afi rmou o carteiro, convicto. Pegou a bolsa e foi saindo. — Não fi que pensando nisso — disse, se despedindo. — Não estou pensando — disse o farmacêutico, e o carteiro foi embora. Mas pensava. Como brincadeira, era bem pesada. Se é que era mesmo brincadeira... E o que mais podia ser? Nunca tinha tido problemas, não fazia política, sequer discutia política; e seu voto era de fato secreto, socialista nas majoritárias, por tradição familiar e lembrança da juventude; democrata-cristão nas eleições municipais, por amor à cidade, que, quando era governada pelos democrata-cristãos, ele conseguia arrancar alguma coisa do governo e escapar daquele imposto sobre rendas familiares com que ameaçavam os partidos de esquerda. Jamais se metia em discussões; assim, os de direita o consideravam como um homem de direita, e os de esquerda, um homem de esquerda. Além do mais, meter-se em política era perder tempo; e quem não percebia isso, era porque levava alguma vantagem ou era cego de nascença. Enfi m, vivia tranqüilo. E talvez fosse esse o motivo da carta anônima; para quem vivia no ócio e na malandragem, dava vontade de perturbar, de assustar um homem tão tranqüilo. Ou, quem sabe, fosse preciso buscar um outro motivo em sua única paixão, a caça. Os caçadores, é notório, são inve josos; basta que você tenha um bom batedor, um bom cachor ro, e todos os caçadores do lugar te odeiam, incluindo os amigos, os que vão caçar com você, aqueles que, toda noite, participam das conversas na farmácia. Casos de cães de caça envenenados, na cidade, viam-se mui tos; os melhores, se à noite os donos se aventurassem a deixá-los meio soltos na pracinha, corriam o risco de encontrá-los retorcidos, vítimas da estricnina. E vai lá saber se alguém não ligava a estricnina à farmácia. Injustamente, é claro, injustamente, porque, para o farmacêutico Manno, um cachorro era sagrado como um deus, em especial aqueles que se destacavam na caçada, fossem seus ou dos amigos. Por outro lado, os seus estavam livres do veneno. Tinha onze, na maioria de raça cirenaica, bem-nutridos, tratados como cristãos, com o jardim da casa para as necessidades e para as brincadeiras. Era um prazer vê-los e ouvi-los. Os latidos, que às vezes eram motivo de reclamações dos vizinhos, soavam como música para os ouvidos do farmacêutico, e ele distinguia a voz e o estado de espírito de cada um: de alegria, de mau humor ou de doença. Claro, não podia existir outro motivo. Uma brincadeira, portanto, mas até certo ponto: alguém queria amedrontá-lo, por isso na quarta-feira, que era seu dia de folga, não iria caçar. Modéstia à parte, entre as virtudes de seus cães e a infalibilidade de sua pontaria, toda quarta-feira era um massacre de coelhos e lebres, e disso era testemunha o doutor Roscio, seu companheiro habitual; também ele bom atirador, também ele com um par de bons cães, em suma... A carta anônima acabava espicaçando sua vaidade, tornava-se um atestado de sua fama de caçador. De fato, a temporada de caça ia começar; e queriam que ele faltasse à grande festa do dia da abertura, que, caindo ou não numa quarta-feira, o farmacêutico vivia como o dia mais esplendoroso do ano. Decerto fantasiando sobre isso, a fi nalidade da carta e a identidade do autor, o farmacêutico levou para fora a cadeira de vime e sentou-se na faixa de sombra que agora caía das casas. Tinha na sua frente a estátua de bronze de Mercuzio Spanò, mestre do direito, várias vezes subsecretário dos correios, cuja sombra, na luz crua do poente, alongava-se cheia de meditações sobre as cartas anônimas, em sua dupla roupagem de mestre do direito e subsecretário dos correios. Assim, de leve, o farmacêutico olhou para ele, mas um pensamento bem superfi cial logo se abateu sobre a amargura de quem, injustamente atingido, descobre, no confronto com a maldade alheia, a própria humanidade e se condena e lamenta por ser despreparado para a maldade. Quando a sombra de Mercuzio Spanò já tocava a parede do castelo dos Chiaramonte, do outro lado da pracinha, o armacêutico estava tão absorto em seus pensamentos que dom Luigi Corvaia pensou que estivesse dormindo. Gritou-lhe: — Acorda — e o farmacêutico tomou um susto, sorriu, e levantou-se para pegar uma cadeira para dom Luigi. — Que dia — suspirou dom Luigi, desabando na cadeira. — O termômetro chegou a 44 — disse o farmacêutico. — Mas agora está refrescando, e vai ver que de noite vamos precisar de cobertor. — Nem o tempo dá para entender mais — disse o farmacêutico, amargo. E decidiu dar logo a notícia a dom Luigi, como pensava em fazer com todo amigo que chegasse. — Recebi uma carta anônima — disse. — Uma carta anônima? — Ameaçadora. — E se levantou para ir buscá-la. A reação de dom Luigi, ao ler aquelas duas horríveis linhas, foi primeiro um “Meu Deus” e logo “É uma brincadeira”. O farmacêutico concordou que era brincadei ra; uma brincadeira, sim, mas talvez com um objetivo preciso. — Que objetivo? — Manter-me longe da caça. — Sim, pode ser; vocês, caçadores, são capazes de tudo — disse dom Luigi, que reprovava as despesas e canseiras irracionais da caça, embora apreciasse as perdizes cozidas e o coelho com molho agridoce. — Nem todos — sublinhou o farmacêutico. — Claro, claro, toda regra tem sua exceção. Mas você sabe do que alguns são capazes, uma bola de carne com estricnina para o cachorro, um tiro no cachorro do amigo, em vez do coelho que o cão vinha perseguindo... Aqueles safados, que mal um cachorro faz a eles? Bom ou mau, o cachorro faz sua parte. Se tiverem coragem, que desafi em o dono do bicho. — Não é a mesma coisa — disse o farmacêutico, que já exibira uns rompantes de inveja em relação aos cães alheios em algumas ocasiões, porém, que fi que claro, nunca a ponto de querer a morte deles. — Para mim é a mesma coisa: alguém que é capaz de matar um cachorro a sangue-frio será capaz de matar um cristão como se rezasse um pai-nosso. — Mas acrescentou: — Talvez por eu não ser um caçador. Eles discutiram a psicologia dos caçadores quase a noite inteira, porque, quando chegava alguém, recomeçavam a conversa sobre a carta anônima que descambava para o ciú me obscuro, a inveja e coisas piores, daqueles que praticavam o nobre desporto da caça. Excluindo os presentes, naturalmente, se bem que dom Luigi Corvaia alimentasse suspeitas também dos presentes, pelo envenenamento de cachorros e também pela carta anônima. De fato, analisava os rostos, com seus olhinhos estreitos entre as pálpebras rugosas. O doutor Roscio, o tabelião Pecorilla, o advogado Rosello, o professor Laurana, o próprio farmacêutico (que podia ser não apenas o envenenador, mas também o autor da carta, para se promover a caçador temível); em suma, dom Luigi atribuía a cada um tanta maldade quanto sua mente educada para a desconfi ança, a suspeita e a malícia era capaz de destilar secretamente. De qualquer forma, todos concordaram que a carta devia ser vista como brincadeira; maldosa de todo modo, e por isso se tendia a afastar o farmacêutico do solene dia da abertura. E quando, como toda noite, passou o subofi cial dos carabinieri, o farmacêutico estava plenamente disposto a entrar na brincadeira; assim, fi ngindose dominado pelo abatimento e pelo medo, dirigiu-lhe a queixa de que, na cidade por ele policiada, uma pessoa honesta, um bom cidadão, um bom pai de família, via-se ameaçado de morte como se nada fosse. — Mas o que aconteceu? — perguntou o suboficial, esperando, risonho, alguma revelação brincalhona. Mas fi cou sério quando lhe mostraram a carta. Podia ser uma brincadeira, era quase certo que assim fosse, mas o crime existia, uma denúncia precisava ser feita. — Que denúncia que nada! — exclamou o farmacêutico, eufórico. — Como não, a denúncia tem de ser apresentada, é a lei. Talvez eu possa evitar-lhe o incômodo de ir à delegacia, podemos escrevê-la aqui mesmo. Mas tem de ser feita. Aliás, é coisa de um minuto. Entraram na farmácia, o farmacêutico acendeu a luz e começou a escrever conforme ia ditando o subofi cial. E ele ditava segurando a carta aberta sobre a qual caía, oblíqua, a luz da lâmpada. O professor Laurana, que estava curioso quanto ao ritual e à linguagem da denúncia, viu aparecer claramente do verso da folha UNICUIQUE e, depois, em letras menores, confusamente, ordine naturale, menti obversantur, tempo, sede. Aproximou-se para decifrar melhor e leu em voz alta “humano”, e o suboficial, zangado e defendendo o que já constituía um segredo de trabalho, disse: — Por favor, não vê que estou ditando? — Estava lendo o que está escrito no verso — desculpou-se o professor. O policial baixou a mão, dobrou a carta. — Talvez seja melhor o senhor ler também — disse o professor, meio incomodado. — Faremos o que tem de ser feito, não tenha dúvida — disse o subofi cial em tom tranqüilizador. E retomou o ditado.

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