Frete Grátis
  • Google Plus

A Casa Negra - Edição Especial (Cód: 1640074)

King, Stephen; Straub,Peter

Suma De Letras

Ooopss! Este produto está temporariamente indisponível.
Mas não se preocupe, nós avisamos quando ele chegar.

Ooops! Este produto não está mais a venda.
Mas não se preocupe, temos uma versão atualizada para você.

Ooopss! Este produto está fora de linha, mas temos outras opções para você.
Veja nossas sugestões abaixo!

R$ 58,90
Cartão Saraiva R$ 55,96 (-5%) em até 1x no cartão ou em até 2x de R$ 29,45 sem juros
Grátis

Cartão Saraiva

Descrição

Vinte anos se passaram e Jack não é mais um menino. Aos 32 anos, não se lembra dos acontecimentos terríveis de quando tinha apenas 12 anos e que o levaram a um estranho universo paralelo - os Territórios. Em busca de um valioso talismã, o pequeno Jack enfrentou inimigos perigosos e situações de grande risco, tudo para salvar a mãe desenganada. Agora, Jack é um detetive aposentado e mora no vilarejo de Tamarak, Wisconsin. Um estranho acontecimento forçou-o a deixar a policia, e ele vive tranqüilo, protegido das recordações perigosas. Mas sua tranqüilidade está prestes a acabar. Uma série de assassinatos macabros no oeste de Wisconsin faz com que o chefe de polícia local, amigo de Jack, lhe implore que ajude a polícia a encontrara o assassino. Em algum ponto do universo parece estar escrito que Jack terá de voltar aos Territórios. Atormentado por mensagens enigmáticas que lhe aparecem de forma onírica , Jack decide enfrentar o desafio e acertar as contas com seu próprio passado.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Suma De Letras
Cód. Barras 9788573027594
Altura 22.80 cm
I.S.B.N. 9788573027594
Profundidade 2.80 cm
Idioma Português
País de Origem Brasil
Peso 0.69 Kg
Largura 16.00 cm
AutorKing, Stephen; Straub,Peter

Leia um trecho

Parte Um Bem-vindo ao Condado de Coulee Aqui e agora, como dizia um velho amigo, estamos no presente fluido, onde não basta enxergar bem para se ter uma visão perfeita. Aqui: a uns 60 metros, a altitude de uma águia voando, sobre o extremo oeste de Wisconsin, onde os meandros do rio Mississípi criam uma fronteira natural. Agora: manhã de uma sexta-feira de meados de julho de um ano do início de um século e de um milênio novos, seus cursos imprevisíveis tão ocultos que um cego tem mais chance do que você ou eu de enxergar o que está à frente. Aqui e agora, são seis e pouco da manhã, e o sol está baixo no céu limpo do nascente, uma bola amarelada gorda e confiante, avançando como sempre pela primeira vez em direção ao futuro e deixando em seu rastro o passado que não pára de se acumular e que escurece à medida que recua, deixando-nos todos cegos. Lá embaixo, o sol da manhã realça as ondulações amplas e macias do rio com um reflexo líquido. A luz do sol faísca nos trilhos da ferrovia Burlington Northern Santa Fe que corre entre o rio e os fundos das casas pobres de dois andares, ao longo da estrada municipal Oo, conhecida como Alameda Nailhouse, o ponto mais baixo da cidadezinha de aspecto confortável que se estende subindo para leste. Neste momento no Condado de Coulee, a vida parece estar com a respiração em suspenso. O ar parado à nossa volta é de uma pureza e uma doçura tão extraordinárias que é possível imaginar que um homem seria capaz de sentir o cheiro de um rabanete arrancado a quase dois quilômetros dali. Voando em direção ao sol, afastamo-nos do rio sobrevoando os trilhos faiscantes, os quintais e telhados da Alameda Nailhouse e uma fila de motocicletas Harley-Davidson estacionadas. Essas casinhas sem graça foram construídas, no início do século recém-terminado, para fundidores, moldadores e caixoteiros empregados da fábrica de Pregos Pederson. Partindo do princípio de que seria improvável que os trabalhadores se queixassem dos defeitos de suas moradias subsidiadas, estas foram construídas da forma mais barata possível. (A Pregos Pederson, que tivera múltiplas hemorragias nos anos 50, acabou esvaindo-se em sangue em 1963.) As Harleys enfileiradas sugerem que os operários da fábrica foram substituídos por uma gangue de motoqueiros. A aparência uniformemente feroz dos proprietários das Harleys, homens desgrenhados, barbudos, barrigudos, usando brincos e jaquetas de couro e ostentando uma dentadura já desfalcada, parece apoiar essa suposição. Como a maioria das suposições, esta encerra uma meia verdade inquietante. Os atuais moradores da Alameda Nailhouse, apelidados por nativos desconfiados de os Thunder Five logo após terem tomado as casas ao longo do rio, não podem ser tão facilmente classificados. Eles possuem empregos qualificados na Cervejaria Kingsland, situada ao sul da cidade, um quarteirão a leste do Mississípi. Se olharmos para a direita, podemos ver ´a maior embalagem de meia dúzia do mundo´, tanques de armazenamento pintados com gigantescos rótulos de cerveja Kingsland. Os homens que moram na Alameda Nailhouse conheceram-se no campus Urbana-Champaign da Universidade de Illinois, onde todos, exceto um, cursavam inglês ou filosofia. (A exceção era um médico que fazia residência em cirurgia no hospital universitário UC-UI.) Eles têm um prazer irônico em serem chamados de os Thunder Five: parece-lhes um nome simpaticamente caricatural. Eles se chamam é de ´a Escória Hegeliana´. Esses cavalheiros constituem um time interessante, e vamos conhecê-los mais tarde. Por ora, só temos tempo de reparar nos cartazes pintados à mão colados na frente de várias casas, em dois postes, e em alguns prédios abandonados. Os cartazes dizem: pescador, é melhor pedir ao seu deus fedido para a gente não pegar você primeiro! lembre-se de amy! Da Alameda Nailhouse, a Rua Chase sobe íngreme entre prédios inclinados com fachadas decadentes e sem pintura, da cor de nevoeiro: o velho Hotel Nelson, onde alguns moradores empobrecidos estão dormindo, uma taberna inexpressiva, uma sapataria cansada exibindo botas de trabalho Red Wing na vitrine embaçada, alguns outros prédios apagados sem indicação de sua função, estranhamente oníricos e vaporosos. Essas construções parecem ressurreições fracassadas, resgatadas do escuro território a oeste, embora ainda estivessem mortas. De certa forma, isso foi exatamente o que aconteceu com elas. Uma listra horizontal ocre, três metros acima da calçada na fachada do Hotel Nelson e a 60 centímetros do chão, do lado mais alto da rua, nas faces cinzentas dos dois últimos prédios, representa a marca deixada pela água na enchente de 1965, quando o Mississípi transbordou, inundou a linha férrea e a Alameda Nailhouse, e quase chegou ao topo da Rua Chase. Acima da marca da enchente, onde a Chase fica plana, ela se alarga e se transforma na rua principal de French Landing, a cidade lá embaixo. O Teatro Agincourt, o Taproom Bar & Grille, o First Farmer State Bank, o estúdio fotográfico Samuel Stutz (especializado em fotos de formatura e casamento, e retratos de crianças) e lojas, não as relíquias fantasmagóricas de lojas, ladeiam suas calçadas toscas: a drogaria Benton´s Rexall, a Ferragens Confiança, o Saturday Night Video, a Roupas Régias, o Empório Schmitt´s, lojas de equipamentos eletrônicos, revistas e cartões de festas, brinquedos e roupas esportivas ostentando os logotipos dos Brewers, dos Twins, dos Packers, dos Vikings e da Universidade de Wisconsin. Algumas quadras depois, o nome da rua muda para Rua Lyall, e os prédios se espaçam e encolhem, tornando-se construções de madeira com letreiros anunciando agências de seguros e de viagem; em seguida, a rua vira uma auto-estrada que segue para leste passando por uma 7-Eleven, pelo Auditório dos Veteranos de Guerra Reinhold T. Grauerhammer, por uma grande revendedora de implementos agrícolas conhecida localmente como Goltz´s, e vai dar numa paisagem de campos planos e contínuos. Subindo mais 30 metros no ar límpido e olhando o que há embaixo e à frente, vemos morainas, barrancos, colinas arredondadas cobertas de pinheiros, vales ricos em terra boa que não se vêem do chão antes que se tope com eles, rios serpeantes, um mosaico quilométrico de campos e cidadezinhas - uma delas, Centralia, não mais que prédios esparsos em volta de um cruzamento de duas rodovias estreitas, a 35 e a 93. Bem embaixo de nós, é como se French Landing tivesse sido evacuada no meio da noite. Não se vê vivalma nas calçadas nem se abaixando para enfiar uma chave em um dos cadeados das portas das lojas da Rua Chase. Nas vagas em ângulo em frente às lojas, não há nenhum dos carros e picapes que começarão a aparecer, primeiro um ou dois de cada vez, depois num pequeno fluxo bem-comportado, uma ou duas horas mais tarde. Não há luzes acesas atrás das janelas dos prédios comerciais nem das casas despretensiosas que margeiam as ruas vizinhas. Um quarteirão ao norte da Chase, na Rua Sumner, quatro prédios parecidos de dois andares e tijolos aparentes abrigam, de oeste para leste, a Biblioteca Pública de French Landing; o consultório de Patrick J. Skarda, M.D., o clínico geral local, e o Bell & Holland, um escritório de advocacia agora dirigido por Garland Bell e Julius Holland, os filhos dos fundadores; a Funerária Heartfield & Son, agora filial de um vasto império funerário, cuja matriz fica em St. Louis; e a agência de Correios de French Landing. Separado desses edifícios pela larga rua que dá acesso a um grande estacionamento nos fundos, o prédio no fim do quarteirão, onde a Sumner cruza com a Rua Três, é também de tijolos aparentes e de dois andares, porém mais comprido que seus vizinhos imediatos. Barras de ferro por pintar protegem as janelas dos fundos do segundo andar, e dois dos quatro veículos no estacionamento são viaturas com barras de luzes no teto e as letras DPFL nas laterais. A presença de viaturas da polícia e de janelas gradeadas parece fora de contexto neste reduto rural - que tipo de crime pode acontecer aqui? Nada sério, por certo; por certo, nada mais grave que um pequeno furto, dirigir embriagado ou uma eventual briga de bar. Como se para provar a paz e a regularidade da vida numa cidade pequena, uma caminhonete vermelha com as palavras la riviere herald nas laterais desce lentamente a Rua Três, parando em quase todas as caixas de correio para seu motorista enfiar exemplares do jornal do dia, envolvidos num saco plástico azul, em cilindros de metal cinza ostentando as mesmas palavras. Quando a caminhonete vira na Sumner, onde os prédios têm fendas de correio em vez de caixas, o homem simplesmente atira os jornais ensacados na porta das casas. Pacotes azuis batem nas portas da delegacia, da funerária e dos prédios de escritórios. A agência de Correios não recebe jornal. O que você sabe: as luzes estão acesas no primeiro andar da delegacia. A porta se abre. Um jovem de cabelos escuros com uma camisa de uniforme azul-clara de mangas curtas, cinturão Sam Browne e calça marinho sai à rua. O cinturão e o distintivo dourado no peito de Bobby Dulac brilham na luz da manhã, e tudo o que ele está usando, inclusive a pistola 9mm presa à sua ilharga, parece tão novo quanto o próprio Bobby Dulac. Ele olha a caminhonete vermelha virar à esquerda na Rua Dois e franze o cenho para o jornal enrolado. Empurra-o com a ponta de um sapato preto muito lustroso, inclinando-se sobre ele o suficiente para sugerir que está tentando ler as manchetes através do plástico. Ainda de cenho franzido, Bobby se abaixa e pega o jornal com uma delicadeza inesperada, como uma gata pega um filhote que precisa ser levado para outro lugar. Segurando-o a uma certa distância do corpo, ele dá uma olhada rápida para os dois lados da Rua Sumner, dá meia-volta com elegância e torna a entrar na delegacia. Nós, que, curiosos, andávamos sempre descendo em direção ao interessante espetáculo apresentado pelo oficial Dulac, entramos atrás dele. Um corredor cinzento, passando por uma porta sem indicação e um quadro de avisos com muito pouca coisa afixada, leva a duas escadas de ferro, uma que desce para um pequeno vestiário, os chuveiros e um estande de tiro, outra que sobe para uma sala de instruções e duas fileiras de celas uma em frente à outra, nenhuma delas ocupada no momento. Perto, um rádio sintonizado num programa de entrevistas está num volume que parece alto demais para uma manhã pacata. Bobby Dulac abre a porta sem letreiro e entra, com a gente em seus calcanhares lustrosos, na sala de instruções de onde ele acabou de sair. Uma fileira de arquivos ergue-se contra a parede à nossa direita, tendo ao lado uma mesa de madeira surrada sobre a qual há pilhas organizadas de pastas de papéis e um rádio transistorizado, fonte do barulho desagradável. Do estúdio próximo da KDCU-AM, Seu Locutor no Condado de Coulee, o teatralmente raivoso George Rathbun deu início à Barragem dos bichos da terra, seu popular programa matinal. O bom e velho George parece falar alto demais para a ocasião, por mais baixo que você regule o volume; o cara é simplesmente esporrento - isso é parte de sua atração. No meio da parede à nossa frente há uma porta fechada com uma janela de vidro fosco onde foi pintado dale gilbertson, chefe de polícia. Dale não estará ali antes de mais ou menos meia hora. Há duas mesas de aço colocadas em L no canto à nossa esquerda, e, da que está à nossa frente, Tom Lund, um policial louro mais ou menos da idade de seu parceiro, mas sem o aspecto deste de quem acaba de ser produzido há cinco minutos, olha para o saco que Bobby Dulac segura com a ponta de dois dedos da mão direita. - Certo - disse Lund. - Certo. O último capítulo. - Você achou que talvez os Thunder Five estivessem nos fazendo outra visita social? Aqui. Não quero ler o raio dessa matéria. Sem se dignar olhar para o jornal, Bobby, com um movimento atlético do pulso, faz um arremesso de três metros em arco sobre o chão encerado com o exemplar do dia de La Riviere Herald, gira para a direita, dá um passo largo e coloca-se em frente à mesa de madeira um segundo antes de Tom Lund pegar seu lançamento. Bobby olha ferozmente para os dois nomes e os vários detalhes rabiscados no comprido quadro-negro pendurado na parede ao lado da mesa. Bobby Dulac não está satisfeito; olha como se fosse explodir de raiva. Gordo e feliz no estúdio da KDCU, George Rathbun grita: - Ouvinte, dê um tempo, sim, e mande aviar sua receita. Estamos falando do mesmo jogo aqui? Ouvinte... - Vai ver que Wendell tomou juízo e resolveu se licenciar - diz Tom Lund. - Wendell - diz Bobby. Porque Lund só pode ver a parte de trás lisa de sua cabeça, o pequeno trejeito de desdém que ele faz com o lábio é um desperdício, mas assim mesmo ele o faz. - Ouvinte, deixe eu lhe perguntar só uma coisa, e com toda a sinceridade, quero que seja honesto comigo. Você viu mesmo o jogo de ontem à noite? - Eu não sabia que Wendell era muito amigo seu - diz Bobby. - Eu não sabia que você já tinha descido até La Riviere. Eu estava aqui pensando que sua idéia de uma grande noitada era uma caneca de cerveja e tentar fazer 100 pontos no Boliche Arden, e agora descubro que você anda com repórteres em cidades universitárias. Provavelmente farreia com o Rato de Wisconsin também, aquele cara da KWLA. Você pega muitas garotas punk assim? O ouvinte diz que perdeu o primeiro tempo porque teve que pegar o filho depois de uma sessão de aconselhamento especial na Mount Hebron, mas, depois disso, viu tudo. - Eu disse que Wendell Green era meu amigo? - pergunta Tom Lund. Por cima do ombro esquerdo de Bobby ele pode ver o primeiro dos nomes no quadro-negro. Não consegue tirar os olhos dali. - É que eu o conheci depois do caso Kinderling, e ele não parecia tão ruim. Na verdade, até gostei dele. Na verdade, acabei tendo pena dele. Ele queria entrevistar Hollywood, e Hollywood o mandou às favas. Bem, naturalmente ele viu os tempos extras, diz o infeliz ouvinte, é assim que ele sabe que Pokey Reese estava seguro. - E quanto ao Rato de Wisconsin, eu não o reconheceria se o visse, e acho que aquela pseudomúsica que ele toca é a maior merda que já ouvi na vida. Para começar, como é que aquele chato magro e branquelo ganhou um programa de rádio? Na emissora da universidade? O que isso lhe diz sobre nossa maravilhosa UW-La Riviere, Bobby? O que isso nos diz sobre nossa sociedade toda? Ah, eu esqueci, você gosta dessa merda. - Não, eu gosto de 311 e Korn, e você está tão por fora que não sabe a diferença entre Jonathan Davis e Dee Dee Ramone, mas esqueça isso, sim? - Devagar, Bobby Dulac se vira e sorri para o parceiro. - Deixe de fugir do assunto. - Seu sorriso não é nada agradável. - Estou fugindo do assunto? - Tom Lund arregala os olhos numa paródia de inocência ferida. - Nossa, fui eu quem atirou o jornal pela sala? Não, acho que não. - Se você nunca viu o Rato de Wisconsin, como sabe como ele é? - Assim como sei que ele tem cabelo de uma cor engraçada e piercing no nariz. Assim como sei que ele usa uma jaqueta preta de couro detonada entra dia, sai dia, chova ou faça sol. Bobby esperou. - Pelo modo de falar dele. A voz das pessoas é cheia de informações. Um cara diz: Parece que vai ser um dia bonito, e conta a história dele toda. Quer saber mais uma coisa sobre o Rato? Ele não vai ao dentista há uns seis ou sete anos. Os dentes dele estão um lixo. De dentro da feia estrutura de blocos de cimento da KDCU, perto da cervejaria na Península Drive, do rádio que Dale Gilbertson doou para a delegacia muito antes de Tom Lund ou Bobby Dulac começarem a usar seus uniformes, chega o afável grito de ultraje, marca registrada do velho e bom George Rathbun, uma gritaria apaixonada, contagiante, que num raio de 160 quilômetros arranca sorrisos de fazendeiros que tomam o café da manhã sentados na frente de suas mulheres e gargalhadas dos caminhoneiros que passam. - Eu juro, ouvinte, e isso vai para meu ultimíssimo ouvinte, também, e cada um de vocês aí, porque adoro vocês, essa é a verdade verdadeira, adoro vocês como minha mãe adorava o canteiro de nabos dela, mas às vezes vocês ME LEVAM À LOUCURA! Ah, garoto. Fim do décimo primeiro tempo, dois fora! Seis-sete, Brewers! Homens na segunda e terceira. O rebatedor alinha para o armador, Reese sai da terceira, bom arremesso para a base do rebatedor, jogada limpa, jogada limpa. Um cego poderia ter marcado isso! - Ei, achei que a jogada foi boa, e só ouvi o jogo no rádio - diz Tom Lund. Ambos estão fugindo do assunto, e sabem disso. - Na verdade - grita o sem dúvida mais popular locutor do Condado de Coulee -, deixem eu assumir uma posição perigosa aqui, meninos e meninas, deixem eu fazer a seguinte recomendação, sim? Vamos substituir cada árbitro do Miller Park, ei, cada árbitro da Liga Nacional, por cegos! Sabem de uma coisa, meus amigos? Garanto que as marcações deles serão de 60 a 70 por cento mais precisas. dê o trabalho a quem tem competência para fazê-lo: os cegos! A alegria se irradia pela cara sem graça de Lund. Aquele George Rathbun é uma peça, cara. Bobby diz: - Vamos, sim? Sorrindo, Lund tira o jornal dobrado do saco e abre-o em cima de sua mesa. Seu rosto endurece; sem alterar a linha, seu sorriso fica glacial. - Ah, não. Ah, diabo. - O quê? Lund emite um gemido disforme e balança a cabeça. - Nossa. Eu nem quero saber. - Bobby enfia as mãos nos bolsos, depois se levanta todo espigado, puxa a mão direita do bolso e tapa os olhos com ela. - Sou cego, certo? Faça com que eu seja um árbitro, não quero mais ser tira. Lund não diz nada. - É uma manchete? A manchete principal? É muito ruim? - Bobby destapa os olhos e fica com a mão no ar. - Bem - Lund lhe diz -, parece que Wendell não tomou juízo, afinal de contas, e, com certeza, não decidiu se licenciar. Não posso acreditar que eu tenha dito que gostava daquele merda. - Acorde - diz Bobby. - Ninguém nunca lhe disse que policiais e jornalistas estão de lados opostos da cerca? O amplo torso de Tom Lund inclina-se sobre sua mesa. Um grosso vinco lateral como uma cicatriz divide sua testa, e suas faces impassíveis enrubescem. Ele aponta um dedo para Bobby Dulac. - Isso é uma coisa que realmente me irrita em você, Bobby. Há quanto tempo está aqui? Cinco, seis meses? Dale me contratou há quatro anos, e quando ele e Hollywood puseram as algemas no Sr. Thornberg Kinderling, que foi o maior caso deste condado talvez em 30 anos, não posso reclamar o crédito, mas pelo menos fiz a minha parte. Ajudei a juntar algumas das peças. - Uma das peças - diz Bobby. - Lembrei Dale da barwoman do Taproom, e Dale contou a Hollywood, e Hollywood falou com a garota, e isso foi uma senhora peça. Ajudou a pegá-lo. Portanto, não fale assim comigo. Bobby Dulac assume uma expressão de contrição completamente hipotética. - Desculpe, Tom. Acho que estou irritado e ao mesmo tempo exaurido. O que ele pensa é: Então você tem uns anos de vantagem sobre mim e uma vez você deu a Dale essa informaçãozinha de merda, e daí?, sou melhor tira do que você jamais vai ser. Quão heróico você foi ontem à noite, afinal de contas? Às 11h15 da noite anterior, Armand ´Beezer´ St. Pierre e seus colegas de viagem dos Thunder Five saíram roncando da Alameda Nailhouse e irromperam delegacia adentro para pedir a seus três ocupantes, cada um dos quais tendo trabalhado um turno de 18 horas, detalhes exatos do progresso que eles estavam fazendo na questão que mais lhes interessava. O que diabo estava acontecendo ali? E o terceiro caso, hã, e Irma Freneau? Já a encontraram? Esses palhaços tinham alguma coisa, ou continuam só soltando fumaça? Precisam de ajuda?, rugiu Beezer, então nos comissionem, vamos lhes dar toda a ajuda de que precisarem e mais alguma. Um gigante chamado Ratinho fora com um sorriso besta até Bobby Dulac e continuara andando, barrigão contra barriga de chope, até encostar Bobby num arquivo, após o que o Ratinho gigante perguntou misteriosamente, com um bafo de cerveja e maconha, se Bobby já havia lido as obras de um cavalheiro chamado Jacques Derrida. Quando Bobby respondeu que nunca havia ouvido falar no cavalheiro, Ratinho disse: ´Não diga, Sherlock´, e chegou para o lado para olhar os nomes no quadro-negro. Meia hora depois, Beezer, Ratinho e seus companheiros foram mandados embora insatisfeitos, não comissionados, mas sossegados, e Dale Gilbertson disse que tinha que ir para casa dormir um pouco, mas Tom precisava ficar, por via das dúvidas. Ambos os homens do plantão noturno haviam arranjado desculpas para não vir. Bobby disse que iria ficar, também, não tem problema, chefe, por isso a gente encontra esses dois homens na delegacia a essa hora da manhã. - Me dê isso - diz Bobby Dulac. Lund pega o jornal, vira-o, e segura-o para Bobby ver: pescador ainda à solta na área de french landing, diz a manchete em cima do artigo de três colunas no canto esquerdo superior da primeira página. As colunas foram impressas sobre um fundo azul-claro, e uma linha preta as destaca do resto da página. Embaixo da manchete, em caracteres menores, lê-se: Identidade de assassino psicótico confunde polícia. Embaixo do subtítulo, uma linha em caracteres ainda menores atribui o artigo a Wendell Green, com o apoio da redação. - O Pescador - diz Bobby. - Desde que a coisa começou, seu amigo ainda não fez nada. O Pescador, o Pescador, o Pescador. Se de repente eu me transformasse num macaco de 15 metros e começasse a pisar em prédios, você me chamaria de King Kong? - Lund abaixa o jornal e ri. - Certo - Bobby concede -, exemplo ruim. Digamos que eu assaltasse alguns bancos. Você me chamaria de John Dillinger? - Bem - diz Lund, com um sorriso ainda mais rasgado -, dizem que o pau de Dillinger era tão grande que o puseram num vidro no Smithsonian. Então... - Leia para mim a primeira frase - diz Bobby. Tom Lund olha para baixo e lê: - ´Como a polícia de French Landing não consegue descobrir nenhuma pista da identidade do diabólico assassino e criminoso sexual apelidado de ´o Pescador´ por este repórter, os sinistros espectros do medo, do desespero e da desconfiança infestam cada vez mais as ruas daquela cidadezinha, e dali se espalham para as fazendas e aldeias do Condado Francês, contaminando com seu toque cada recanto do Condado de Coulee.´ - Era só o que faltava - diz Bobby. - Nossa! - E num instante já cruzou a sala e está inclinado sobre o ombro de Tom Lund, lendo a primeira página do Herald com a mão descansando na coronha da sua Glock, como se estivesse pronto para meter uma bala no artigo agora mesmo. - ´Nossas tradições de confiança e boa vizinhança, nosso hábito de estender carinho e generosidade a todos´ [escreve Wendell Green, exagerando no tom editorial] ´estão se erodindo diariamente sob o corrosivo ataque dessas emoções aterrorizantes. O medo, o desespero e a desconfiança são um veneno para a alma das comunidades pequenas e grandes, pois viram vizinho contra vizinho e ridicularizam a civilidade. ´Duas crianças foram horrivelmente assassinadas e seus restos mortais, parcialmente consumidos. Agora uma terceira criança desapareceu. Amy St. Pierre, de oito anos, e Johnny Irkenham, de sete, foram vítimas das paixões de um monstro em forma de gente. Nenhum deles conhecerá a felicidade da adolescência nem as satisfações da idade adulta. Seus pais enlutados jamais conhecerão os netos que teriam acarinhado. Os pais dos colegas de Amy e Johnny guardam seus filhos no recesso de seus próprios lares, assim como os pais cujos filhos não conheceram as vítimas. Por isso, grupos de jogos de verão e outros programas para crianças pequenas foram cancelados em praticamente todas as cidades e municípios do Condado Francês. ´Com o desaparecimento de Irma Freneau, de dez anos, sete dias após a morte de Amy St. Pierre e apenas três dias após a morte de Johnny Irkenham, a paciência do povo está por um fio. Como já disse este correspondente, Merlin Graasheimer, 52, um lavrador desempregado sem endereço certo, foi atacado e espancado por um grupo não identificado de homens numa rua secundária de Grainger na noite de terça-feira. Outro episódio semelhante ocorreu na madrugada de quinta-feira, quando Elvar Praetorious, 36, um turista sueco que viajava desacompanhado, foi atacado por três homens, também não identificados, enquanto dormia no parque Leif Eriksson de La Riviere. Graasheimer e Praetorious necessitaram apenas de cuidados médicos de rotina, mas futuros incidentes quase certamente acabarão de forma mais séria.´ Tom Lund olha para o próximo parágrafo, que descreve o desaparecimento abrupto da menina Freneau de uma calçada da Rua Chase, e se afasta de sua mesa. Bobby Dulac lê em silêncio por algum tempo, depois diz: - Você precisa ouvir essa merda, Tom. É assim que ele termina: ´Quando o Pescador vai atacar de novo? ´Pois ele vai atacar de novo, meus amigos, não tenham dúvida. ´E quando o chefe de polícia de French Landing, Dale Gilbertson, vai cumprir o seu dever e livrar os cidadãos deste condado da obscena selvageria do Pescador e da compreensível violência produzida por sua própria inércia?´ Bobby Dulac vai para o meio da sala batendo os pés. Sua cor se intensificou. Ele inspira, depois expira uma quantidade monumental de oxigênio. - E se da próxima vez que o Pescador atacar - diz Bobby - ele for direto na bunda mole de Wendell Green? - Estou com você - diz Tom Lund. - Você pode acreditar nessa babaquice? Violência compreensível? Ele está dizendo que as pessoas podem se meter com qualquer um que parecer suspeito! Bobby aponta o indicador para Lund. - Vou prender pessoalmente esse cara. Isso é uma promessa. Vou trazê-lo, vivo ou morto. - Na hipótese de Lund não ter entendido, ele repete: - Pessoalmente. Sabiamente escolhendo não dizer a primeira coisa que lhe vem à mente, Tom Lund faz que sim com a cabeça. O dedo continua apontando. Ele diz: - Se quiser alguma ajuda para isso, talvez você deva falar com Hollywood. Dale não teve sorte, mas quem sabe você tem. Bobby faz um gesto descartando essa idéia. - Não precisa. Dale e eu... e você, também, claro, a gente dá conta. Mas vou pessoalmente pegar esse cara. Isso eu garanto. - Ele faz uma pausa. - Além do mais, Hollywood se aposentou quando se mudou para cá, ou você esqueceu? - Hollywood é muito moço para se aposentar - diz Lund. - Mesmo para um policial, ele é praticamente uma criança. Então você deve ser pouco mais que um feto. E na gargalhada compartilhada dos dois, saímos voando da sala de instruções e voltamos para o céu, onde avançamos uma quadra para o norte, até a Rua Queen. Prosseguindo algumas quadras para o leste, descobrimos, lá embaixo, uma construção baixa e cheia de cantos e recantos que se bifurca de um eixo central, ocupando, com seu amplo gramado salpicado aqui e ali de carvalhos e bordos altos, todo um quarteirão orlado de sebes cerradas que pediam uma boa poda. Obviamente, algum tipo de instituição, de início, o prédio parece uma escola primária progressiva em que várias alas representam salas de aula sem paredes, e o eixo central representa o refeitório e os escritórios administrativos. Quando perdemos um pouco de altura, ouvimos o grito afável de George Rathbun subindo em nossa direção de várias janelas. A grande porta de entrada de vidro se abre e uma mulher magra de óculos gatinho sai para a manhã luminosa, com um cartaz numa das mãos e um rolo de fita adesiva na outra. Ela imediatamente se vira e, com gestos rápidos e eficientes, cola o cartaz na porta. A luz do sol faísca numa pedra esfumaçada do tamanho de uma avelã no dedo médio de sua mão direita. Enquanto ela se detém um instante para admirar seu trabalho, podemos espiar por cima de seu ombro retesado e ver que o cartaz anuncia, com uma alegre explosão de balões desenhados à mão, que hoje é a festa do morango!!!; quando a mulher volta para dentro, percebemos a presença, numa parte da entrada visível logo abaixo do vertiginoso cartaz, de duas ou três cadeiras de rodas dobradas. Do outro lado das cadeiras, a mulher, cujo cabelo castanho foi preso na nuca numa espiral arquitetônica, vem andando com seus escarpins de salto alto por um saguão agradável com cadeiras de madeira clara e mesas do mesmo material sobre as quais há revistas artisticamente espalhadas, passa por uma espécie de central automática ou balcão de recepção na frente de uma bela parede de pedra bruta e desaparece saltitando imperceptivelmente, por uma porta lustrosa onde se lê william maxton, diretor. Que tipo de escola é essa? Por que está funcionando, por que está organizando festivais no meio de julho? Podemos chamá-la de escola de pós-graduação, pois quem reside aqui se formou em cada estágio de sua existência exceto o último, que é vivido, dia após dia, sob a intendência relapsa do Sr. William ´Chipper´ Maxton, diretor. Esta é a Casa Maxton para a Velhice, conhecida no passado - numa época mais inocente, e antes da reforma cosmética feita em meados dos anos 80 - como Lar Maxton, que pertencia a seu fundador, Herbert Maxton, pai de Chipper, e por ele era dirigida. Herbert era um homem decente embora sem personalidade que, pode-se dizer com segurança, ficaria apavorado com algumas coisas que seu filho único faz. Chipper nunca quis assumir o ´cercado da família´, como ele chama, com sua carga de ´peguentos´, ´zumbis´, ´molhadores de cama´ e ´babões´, e depois de se formar em contabilidade na UW-La Riviere (com especializações duramente conquistadas em promiscuidade, jogo e arte de beber cerveja), nosso garoto aceitou um cargo na Secretaria da Receita Federal de Madison, Wisconsin, com o fim precípuo de aprender a roubar do governo sem ser notado. Cinco anos na Receita ensinaram-lhe muita coisa útil, mas quando sua carreira posterior como freelancer ficou aquém de suas ambições, ele cedeu às súplicas cada vez mais fracas do pai e associou sua sorte aos zumbis e aos babões. Com um certo prazer sinistro, Chipper reconheceu que, apesar de uma triste falta de glamour, o negócio de seu pai ao menos lhe daria a oportunidade de roubar dos clientes e do governo igualmente. Vamos entrar pela grande porta de vidro, atravessar o belo saguão (notando, enquanto o fazemos, os odores misturados de aromatizante de ambiente e amônia que impregnam até as áreas públicas de todas as instituições deste tipo), passar pela porta com o nome de Chipper e descobrir o que aquela jovem bem-arrumada está fazendo aqui tão cedo. Do outro lado da porta de Chipper há um cubículo sem janela equipado com uma mesa, um cabide e uma pequena estante abarrotada de impressos de computador, panfletos e folhetos. Há uma porta aberta ao lado da mesa. Pelo vão, vemos um escritório muito mais amplo, revestido com a mesma madeira lustrosa da porta do diretor e contendo cadeiras de couro, uma mesa de centro de tampo de vidro e um sofá cor de aveia. No fim da sala há uma vasta escrivaninha abarrotada de papéis, tão encerada que quase parece brilhar. Nossa jovem, cujo nome é Rebecca Vilas, está sentada na beira da mesa, as pernas cruzadas de uma forma particularmente arquitetônica. Um joelho está dobrado sobre o outro, e as panturrilhas formam duas linhas bem moldadas mais ou menos paralelas descendo até os bicos triangulares dos escarpins de salto alto, dos quais um aponta para quatro e outro para seis horas. Rebecca Vilas, deduzimos, arrumou-se para ser vista, fez uma pose com intenção de ser apreciada, embora certamente não por nós. Por trás dos óculos gatinho, seu olhar parece cético e divertido, mas não podemos ver o que despertou essas emoções. Supomos que ela seja a secretária de Chipper, e essa suposição, também, só expressa meia verdade: como a desenvoltura e a ironia de sua atitude deixam implícito, os deveres da Srta. Vilas há muito ultrapassaram o secretariado puro e simples. (Podemos especular sobre a origem daquele belo anel que ela está usando; é só pensar em sujeira que acertamos em cheio.) Passamos pela porta aberta, seguimos a direção do olhar cada vez mais impaciente de Rebecca e nos vemos contemplando a robusta bunda vestida de cáqui de seu patrão ajoelhado, que enfiou a cabeça e os ombros dentro de um cofre grande, no qual entrevemos pilhas de livros de registro e alguns envelopes de papel pardo aparentemente recheados de dinheiro. Algumas notas caem desses envelopes quando Chipper os tira do cofre. - Você fez o anúncio, o cartaz? - pergunta ele sem se virar. - Sim, sim, mon capitaine - responde Rebecca Vilas. - E vamos ter um dia maravilhoso para a grande ocasião, também, como deve ser. Seu sotaque irlandês é surpreendentemente bom, ainda que um pouco genérico. Ela nunca esteve em um lugar mais exótico que Atlantic City, onde Chipper usou suas passagens de milhagem para ser seu acompanhante durante cinco dias encantados dois anos atrás. Ela aprendeu o sotaque vendo filmes antigos. - Odeio a Festa do Morango - diz Chipper, tirando o último envelope do cofre. - As mulheres e os filhos dos zumbis passam a tarde inteira zanzando por aí, excitando-os, e a gente tem que apagá-los com sedativos só para ter um pouco de paz. E se você quer saber a verdade, eu odeio balões. Ele joga o dinheiro no tapete e começa a separar as notas em pilhas de várias denominações. - Eu só estava querendo saber, com a minha simplicidade do interior - diz Rebecca -, por que eu deveria ser solicitada a aparecer ao romper da aurora no grande dia. - Sabe o que eu mais odeio? A parte da música. Zumbis cantantes e aquele DJ imbecil. O Stan Sinfônico com seus discos de grandes bandas, ah, garoto, isso é que é emoção. - Suponho - diz Rebecca, abandonando o sotaque irlandês teatral - que você quer que eu faça alguma coisa com o dinheiro antes do início da ação. - Hora de mais uma viagem a Miller. - Uma conta sob um nome fictício no State Provident Bank em Miller, a 40 quilômetros dali, recebe depósitos regulares de dinheiro desviado de fundos de pacientes destinados ao pagamento de bens e serviços extras. Chipper gira os joelhos com as mãos cheias de dinheiro e olha para Rebecca. Senta nos calcanhares de novo e deixa as mãos caírem no colo. - Puxa, você tem umas pernas maravilhosas. Com umas pernas assim, você devia ser famosa. - Pensei que você não fosse reparar nunca - diz Rebecca. Chipper Maxton tem 42 anos. Tem bons dentes, muito cabelo, uma cara larga, sincera, e olhos castanhos miúdos que sempre parecem um pouco úmidos. Tem também dois filhos, Trey, de nove anos, e Ashley, de sete, que, como se diagnosticou recentemente, sofre de deficiência da atenção, um problema que, Chipper calcula, irá custar-lhe talvez dois mil por ano só em comprimidos. E, naturalmente, ele tem uma mulher, sua parceira de vida, Marion, de 39 anos, 1,65m, e mais ou menos uns 86 quilos. Além dessas bênçãos, desde a noite passada, Chipper deve ao seu bookmaker $13,000, em conseqüência de um mau investimento no jogo dos Brewers sobre o qual George Rathbun continua berrando. Ele reparou, ah, reparou, sim, Chipper reparou nas maravilhosas pernas da Srta. Vilas. - Antes de você ir lá - diz ele -, eu pensei que talvez a gente pudesse deitar no sofá e brincar um pouquinho. - Ah - diz Rebecca. - Brincar como, exatamente? - Glu, glu, glu - diz Chipper, rindo como um sátiro. - Seu diabo romântico - diz Rebecca, uma observação que escapa completamente a seu patrão. Chipper acha que realmente está sendo romântico. Ela desce elegantemente de onde está empoleirada, e Chipper levanta-se deselegantemente e fecha a porta do cofre com o pé. Com um brilho úmido nos olhos, ele dá alguns passos rufianescos e emproados pelo tapete, passa um braço em volta da cinturinha de Rebecca Vilas e, com o outro, deixa o gordo envelope de papel pardo na mesa. Já está arrancando o cinto antes mesmo de começar a puxar Rebecca para o sofá. - Então eu posso vê-lo? - diz a esperta Rebecca, que sabe exatamente como transformar o cérebro do amante em mingau... ... e antes que Chipper a satisfaça, fazemos a coisa sensata e nos retiramos para o saguão, que ainda está vazio. Um corredor à esquerda da mesa da recepção nos conduz a duas portas largas e claras com suas janelas de vidro onde se lê margarida e campânula, os nomes das alas a que elas dão acesso. No final da cinzenta ala Campânula, um homem de macacão folgado bate a cinza do cigarro no ladrilho sobre o qual ele está passando, com requintada lentidão, um esfregão imundo. Entramos na ala Margarida. A área residencial da Maxton é muito menos atraente do que a comunitária. Há portas numeradas ao longo de ambos os lados do corredor. Cartões escritos à mão dentro de envelopes de plástico embaixo dos números indicam os nomes dos residentes. Quatro portas depois, uma mesa atrás da qual um assistente corpulento de uniforme branco sujo cochila sentado empertigado dá para a entrada dos banheiros masculino e feminino - na Maxton, só os quartos mais caros, os do outro lado do saguão, na ala Asfódelo, fornecem tudo menos uma pia. Há marcas sinuosas de esfregão sujo endurecendo e secando por todo o chão ladrilhado, que se estende por uma distância incrível à nossa frente. Aqui, também, as paredes e o ar parecem ser do mesmo tom de cinza. Se olharmos de perto para as pontas do corredor, na junção das paredes com o teto, vemos teias de aranha, manchas velhas, sujeira acumulada. Desinfetante, amônia, urina e aromas piores perfumam o ambiente. Como uma senhora na ala Campânula gosta de dizer, quando se vive com um monte de gente velha que sofre de incontinência, nunca se fica longe do cheiro de cocô. Os quartos em si variam de acordo com o estado e os recursos de seus habitantes. Já que quase todo mundo está dormindo, podemos dar uma olhada em algumas dessas acomodações. Aqui no M10, um quarto de solteiro duas portas depois do empregado sonolento, está deitada a velha Alice Weathers (roncando delicadamente, sonhando que dança em perfeito entrosamento com Fred Astaire por um chão de mármore), cercada por tanta coisa de sua vida passada que ela precisa navegar por entre cadeiras e mesas para ir da porta até a cama. Alice ainda conserva uma parcela maior de suas faculdades mentais do que de sua mobília velha, e limpa pessoalmente o quarto, deixando-o imaculado. Ao lado, no M12, dois velhos fazendeiros chamados Thorvaldson e Jesperson, que não se falam há anos, dormem, separados por uma cortina fina, numa confusão alegre de fotografias de família e desenhos de netos. Descendo o corredor, o M18 apresenta um espetáculo completamente diferente do atravancamento limpo do M10, assim como seu habitante, um homem conhecido como Charles Burnside, poderia ser considerado o extremo oposto de Alice Weathers. No M18, não há mesas laterais, arcas, cadeiras superestofadas, espelhos dourados, lâmpadas, tapetes tramados nem cortinas de veludo: esse quarto despido contém apenas uma cama de ferro, uma cadeira de plástico e uma cômoda. Não há fotografias de filhos nem de netos em cima do móvel, nem há desenhos a lápis de casas quadradas e bonecos magros decorando as paredes. O Sr. Burnside não tem interesse em arrumação de casa, e uma fina camada de poeira cobre o chão, o parapeito da janela e o tampo nu da cômoda. O M18 não tem história nem personalidade; parece tão brutal e sem alma quanto uma cela de prisão. Um cheiro forte de excremento contamina o ar. Apesar de toda a diversão oferecida por Chipper Maxton, e todo o charme de Alice Weathers, foi principalmente Charles Burnside, ´Burny´, que viemos ver.

Avaliações

Avaliação geral: 0

Você está revisando: A Casa Negra - Edição Especial