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A Cidade e os Cachorros (Cód: 1914412)

Llosa, Mario Vargas

Alfaguara / Objetiva

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Descrição

Romance que revelou ao mundo o talento literário de Mario Vargas Llosa no início dos anos 60, 'A Cidade e os Cachorros' é considerado hoje um clássico da literatura latino-americana. História de fundo autobiográfico, o enredo se desenvolve no Colégio Militar Leoncio Prado, em Lima, onde um violento código de conduta permeava o cotidiano dos cadetes - experiência vivida pelo próprio autor, enviado para lá ainda menino pelo pai autoritário.
Vindos de todos os pontos do Peru, a maioria de origem humilde, com seus próprios problemas familiares e inseguranças, os jovens internos retratados neste romance são obrigados a sobreviver em meio a um ambiente brutal e hostil, onde a justiça quase nunca prevalece e os superiores, apesar de rígidos com a disciplina, mal sabem o que ocorre nos alojamentos.
Longe da vista dos oficiais, os alunos se embebedam, jogam cartas, brigam entre si. Os mais velhos humilham os novatos - tratando-os por cachorros - e criam um círculo vicioso de dominação e crueldade. É em meio a essa pressão que alguns rapazes irão se reunir e formar um grupo coeso, o Círculo, como única forma de rechaçar as ameaças dos veteranos. Mas nem o Círculo estará livre da violência, e seus membros acabarão se tornando tão implacáveis quanto os demais.
Seus diferentes relatos compõem uma história perturbadora. Para compô-la, Vargas Llosa desenvolveu uma narrativa em que o passado se entrelaça ao presente e os dramas de seus personagens são descritos de diferentes pontos de vista.'A Cidade e os Cachorros' foi traduzido para mais de trinta línguas.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Alfaguara / Objetiva
Cód. Barras 9788560281138
Altura 23.40 cm
I.S.B.N. 9788560281138
Profundidade 2.50 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2007
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 373
Peso 0.64 Kg
Largura 15.00 cm
AutorLlosa, Mario Vargas

Leia um trecho

— Quatro — disse o Jaguar. Os rostos se suavizaram sob o brilho vacilante que a lâmpada difundia no recinto, através das poucas partículas limpas do vidro: o perigo desaparecera para todos, salvo para Porfirio Cava. Os dados estavam parados, marcavam três e um, sua brancura contrastava com o chão sujo. — Quatro — repetiu o Jaguar. — Quem é? — Eu — murmurou Cava. — Eu disse quatro. — Rápido — replicou o Jaguar. — Você já sabe, a segunda à esquerda. Cava sentiu frio. Os banheiros fi cavam no fundo dos alojamentos, separados por uma porta de madeira fi na, e não tinham janelas. Em anos anteriores, o inverno só chegava ao dormitório dos cadetes esgueirando-se pelas vidraças quebradas e pelas frestas; mas vinha violento naquele ano, e quase nenhum canto do colégio se livrava do vento que, à noite, conseguia penetrar até nos banheiros, dissipar o fedor acumulado durante o dia e destruir a atmosfera abafada. Mas Cava havia nascido e vivido na serra, estava acostumado ao inverno: era o medo que lhe eriçava os pêlos. — Acabou? Posso dormir? — disse o Jibóia: um corpo e uma voz desmesurados, um penacho de cabelos sebentos que coroa uma cabeça proeminente, um rosto miúdo de olhos fundos de sono. Estava de boca aberta, do lábio inferior protuberante pendia um fiapo de fumo. O Jaguar se voltara para observá-lo. — Eu começo de sentinela à uma — disse o Jibóia. — Queria dormir um pouco. — Podem ir — disse o Jaguar. — Vou despertar vocês às cinco. O Jibóia e o Crespo saíram. Um deles tropeçou ao cruzar a soleira e soltou um palavrão. — Assim que voltar, me desperte — ordenou o Jaguar. — Não demore muito. Vai dar meia-noite. — Está bem — disse Cava. O rosto, em geral impenetrável, parecia cansado. — Vou me vestir. Saíram do banheiro. O alojamento estava às escuras, mas Cava não precisava enxergar para se orientar entre as duas colunas de beliches; conhecia de memória aquele recinto comprido e alto. Estava tomado agora por uma serenidade silenciosa, alterada de tanto em tanto por roncos ou resmungos. Chegou à Enquanto tirava às cegas as calças, a camisa cáqui e os coturnos, sentia junto ao rosto o hálito tingido de fumo de Vallano, que dormia no leito de cima. Distinguiu na escuridão a dupla fileira de dentes grandes e branquíssimos do negro e pensou num roedor. Sem fazer barulho, lentamente, despiu o pijama de flanela azul e se vestiu. Jogou sobre os ombros o casaco de lona. Logo, pisando devagar, porque os coturnos rangiam, caminhou até o beliche do Jaguar, que fi cava no outro extremo do alojamento, junto ao banheiro. — Jaguar. — Aqui, pegue. Cava abriu a mão, tocou dois objetos frios, um deles áspero. Conservou na mão a lanterna, guardou a lima no bolso do casaco. — Quem são as sentinelas? — O poeta e eu. — Você? — O Escravo está no meu lugar. — E nas outras seções? — Está com medo? Cava não respondeu. Deslizou na ponta dos pés até a porta. Abriu um dos batentes, com cuidado, mas não conseguiu evitar que rangesse. — Um ladrão! — gritou alguém na escuridão. — Mate, sentinela! Cava não reconheceu a voz. Olhou para fora: o pátio estava vazio, fracamente iluminado pelas lâmpadas da pista de desfile que separava os alojamentos de um descampado. A neblina dissolvia o contorno dos três blocos de cimento que albergavam os cadetes do quinto ano e lhes conferia uma aparência irreal. Saiu. Colando as costas à parede do alojamento, fi cou quieto e sem pensar por alguns instantes. Já não contava com ninguém; o Jaguar também estava a salvo. Invejou os cadetes que dormiam, os subofi ciais, os soldados entorpecidos no galpão erguido do outro lado do estádio. Percebeu que o medo o paralisaria, se não fi zesse alguma coisa. Calculou a distância: precisava cruzar o pátio e a pista de desfi le; depois, protegido pelas sombras do descampado, contornar o rancho, os escritórios, os dormitórios dos oficiais e atravessar um novo pátio, pequeno e cimentado, que dava no prédio das salas de aula, onde estaria fora de perigo: a ronda não chegava até ali. Então, o regresso. Confusamente, desejou perder a vontade e a imaginação e executar o plano como uma máquina cega. Passava dias inteiros abandonado a uma rotina que decidia por ele, impelido suavemente a ações de que mal se dava conta; agora era diferente, havia-se imposto a tarefa daquela noite, sentia uma lucidez insólita. Começou a avançar rente à parede. Em vez de cruzar o pátio, fez um desvio, seguindo o muro curvo dos alojamentos de quinto ano. Ao chegar ao outro lado, olhou com ansiedade: a pista parecia interminável e perigosa, demarcada pelas lâmpadas simétricas em torno das quais se aglomerava a neblina. Fora do alcance da luz, adivinhou, no maciço de sombras, o descampado coberto de mato. As sentinelas costumavam estender-se por ali, dormindo ou conversando em voz baixa, quando não fazia frio. Confi ava que alguma jogatina os tivesse reunido aquela noite em algum banheiro. Caminhou a passos rápidos, submerso na sombra dos prédios à esquerda, evitando as nódoas de luz. O estalo das folhas e a ressaca do mar que se estendia aos pés do colégio, além dos alcantilados, apagavam o ruído dos coturnos. Ao chegar ao prédio dos oficiais, estremeceu e apurou o passo. Depois cortou transversalmente a pista e se fundiu à escuridão do descampado. Um movimento próximo e inesperado devolveu a seu corpo, como um murro, o medo que ele começava a vencer. Duvidou por um segundo: a um metro de distância, brilhantes como vaga-lumes, dóceis, tímidos, contemplavam-no os olhos da vicunha. “Fora!”, exclamou, encolerizado. O animal permaneceu indiferente. “Não dorme nunca, a maldita”, pensou Cava. “Nem come. Como é que não morre?” Ganhou distância.

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