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A Consciência de Zeno - Col. Saraiva de Bolso (Cód: 3649473)

Svevo,Italo

Saraiva De Bolso

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Descrição

Pouco depois do fim da Primeira Guerra Mundial, Italo Svevo começou a elaborar esta que é considerada a sua obra-prima. Graças ao conhecimento que tinha das teorias psicanalíticas, o romancista desenvolve uma análise psicológica de extrema profundidade mediante a representação interior da neurose do narrador-protagonista, e lançando mão de técnicas narrativas bem modernas, consegue transmitir ao leitor o poder sugestivo do pensamento e das recordações.

Tradutor: Ivo Barroso
Apresentação: José Nêumanne

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Saraiva De Bolso
Cód. Barras 9788520927151
Altura 17.50 cm
I.S.B.N. 9788520927151
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2011
Idioma Português
País de Origem Brasil
Peso 0.44 Kg
Largura 10.50 cm
AutorSvevo,Italo

Leia um trecho

Cabra-cega nos espelhos Ettore não era guerreiro como seu ilustre xará, Heitor, o comandante das tropas troianas derrotadas pelos gregos. E Schmitz não era ferreiro, significado do sobrenome alemão que o autor de A consciência de Zeno tinha quando lançou este romance importantíssimo na história da literatura universal, o qual não perpetuou. Pois, por decisão de Lívia, a mulher, seus pósteros e mesmo parentes colaterais, os escendentes dos irmãos, terminaram mesmo foi usando o sobrenome do pseudônimo que ele adotou para assinar suas obras literárias, Italo Svevo. Italo era, sim, italiano, apesar de viver na cidade de Trieste, à época de sua vida, na virada do século XIX para o XX, pertencen- te ao império austro-húngaro, aquele de Francisco José e da belíssima imperatriz Sissi. E esse sobrenome expunha de qualquer maneira seus laços sanguíneos com a cultura germânica, uma vez que é um gentílico em italiano de uma região alemã. Apesar de se considerar um autêntico latino, Italo queria registrar no pseudônimo Svevo sua admiração pela literatura e pela música produzidas na pátria de Goethe e Mann. Ettore Schmitz, aliás Italo Svevo, de ascendência judaica, pertencente a família originária da Renânia, grande e abastada (o pai era um rico comerciante de vidros), tinha um aspecto bem burguês, com um sorriso bonachão em que o bigode espesso não conseguia esconder o ar zombeteiro desenhado pelos lábios finos em curva sutil e “giocôndica”. E ele, de fato, ganhou a vida primeiro como bancário e depois como fabricante e vendedor de tintas submarinas, com as quais se pintam os cascos dos navios abaixo da linha d’água. Nunca dependeu de direitos autorais para viver. Nem podia. No último decênio do século XIX, quando trabalhava num banco, tentou se lançar como escritor em Trieste com dois livros, Uma vida e Senilidade. Em família ele se demonstrou tão desgostoso com o desprezo voltado pelos críticos a sua obra que os parentes se surpreenderam com a edição de A consciência de Zeno, em 1923. À bênção, tio James Em 1980, portanto 57 anos depois, a Editora Nova Fronteira lançou a primeira tradução brasileira, magnificamente elaborada pelo poeta Ivo Barroso, dando oportunidade ao público brasileiro de conhecer este romance, o maior da literatura universal abordando um tema fundamental do século XX, a psicanálise. Escalado pelo ficcionista e jornalista cearense Mário Pontes, à época editor do suplemento semanal Livro — Guia semanal de ideias e publicações do Jornal do Brasil, para escrever a respeito dessa edição, localizei em São Paulo um italiano com o sobrenome do pseudônimo do autor. Filho de Ottavio, irmão caçula de Ettore/Italo, ex-gerente de vendas de motores da indústria de eletrodomesticos Arno, empresa familiar brasileira oriunda da Itália, Mario era um fiel guardião da memória do tio escritor, tendo em seu poder testemunhos impressos das dificuldades que este enfrentou para se afirmar no competitivo planeta das vaidades da literatura italiana. “Quando A consciência de Zeno foi lançado na Itália, ninguém se incomodou. Mas meu tio mandou o livro para James Joyce, seu amigo e ex-professor de inglês, e este, entusiasmado, o remeteu para o crítico francês Benjamin Cremieux, com uma carta particularmente significativa. Cremieux o entregou a Valéry Larbaud, que fez a tradução francesa.*1 A partir dessa primeira tradução foi que a crítica francesa se interessou pelo livro. E só depois de ser bem-recebido na França, o romance obteve repercussão na Itália”, contou Mario, violoncelista amador que cursou o Conservatório de Viena e foi um frequente espectador das sessões musicais realizadas na casa ampla de Ettore/Italo, que, apesar de amador, era um virtuose ao violino. Coincidência interessante é que um dos mais importantes romances brasileiros contemporâneos, Zero, embora nada tenha a ver com Zeno, também foi publicado primeiramente em tradução e só depois editado aqui no Brasil. E, para a coincidência ser ainda mais espantosa, a obra de Ignácio de Loyola Brandão foi lida em italiano, língua em que Svevo escrevia, antes de ser impressa em português. O crítico Alfredo Bosi dá início a seu ensaio Uma cultura doente?, publicado em Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideologia e reproduzido à guisa de posfácio nas edições mais recentes deste romance, com uma citação de Svevo sobre a amizade íntima que mantinha com o genial romancista irlandês, que foi também seu professor de inglês. “James Joyce chegou a Trieste em setembro de 1903. Foi por acaso. Procurava um emprego e o encontrou na Escola Berlitz de nossa cidade. Emprego medíocre. Mas chegava a Trieste trazendo no bolso, além do pouco dinheiro para a longa viagem, dois manuscritos: grande parte das líricas que seriam publicadas sob o título de Música de câmara e algumas das novelas dos Dublinenses. Todo o restante da obra, até o Ulisses, nasceu em Trieste. Aliás, também parte do Ulisses nasceu à sombra de San Giusto, porque Joyce morou entre nós durante alguns meses depois da guerra. Em 1921 fui eu o encarregado de levar-lhe, de Trieste a Paris, as anotações para o último episódio. Eram alguns quilos de papel solto, que nem sequer ousei tocar, para não lhe alterar a ordem, que me pareceu instável”, escreveu Svevo em Saggi e pagine sparse, citado pelo mestre Bosi, que no mesmo texto nos introduz o outro lado da amizade reproduzindo um trecho de carta escrita por Joyce, de Paris, em 30 de janeiro de 1924, a Svevo a respeito deste romance. “Estou lendo com muito prazer. Por que se desespera? Deve saber que é sem comparação o seu melhor livro... Por enquanto duas coisas me interessam: o tema; nunca teria pensado que o fumo pudesse dominar uma pessoa daquele modo. Segundo: o tratamento do tempo no romance.” Antitabagista AVANT LA LETTRE Nos quase cem anos de que distamos do lançamento deste livro, a indiferença com que foi recebido foi vastamente compensada pela imensa fortuna crítica que passou a acolhê-lo depois do pontapé inicial dado pelo mestre dublinense. Suas conexões com Ulisses são tão repetidas e óbvias que há até quem considere Svevo o inspirador de Leopold Bloom, a mítica criação de Joyce, que por sua vez teria na outra personagem, Stephen Dedalus, um alter ego. Seria Zeno Cosini também um alter ego de Svevo? Essa pergunta me remete a questões ainda não aprofundadas pela crítica. Joyce foi o primeiro a registrar o espanto do leitor diante dos malefícios causados pelo tabagismo, o que torna seu amigo em Trieste um pioneiro da luta contra o tabaco, que se tornou um cavalo de batalha da higiene e da saúde politicamente correta neste século XXI. Esse pioneirismo tem sido associado a outro, qual seja a adoção da psicanálise do austríaco (e como Svevo de ascendência judaica) Sigmund Freud como tema de exposição e crítica ao mesmo tempo. Mas ainda não foi devidamente estudado o fato de o método utilizado pelo romancista — da terapia de um tratamento psicanalítico por meio de uma narrativa literária — ter sido adotado na psicanálise moderna por um de seus expoentes, o americano Rollo May, ilustre representante da moderna psicoterapia existencial e autor do clássico A coragem de criar. A memória como ficção Outra faceta ainda não devidamente explorada da obra de Svevo é o fato de, apesar de suas exaustivamente estudadas conexões com a de seu professor de inglês em Trieste, ela se lhe contrapor, abrindo as portas da percepção para um tipo de narração, se não antijoyciana, no mínimo não joyciana. A consciência de Zeno brinca com as armadilhas da memória, mostrando que, em vez de relatar, esta, na verdade, reinventa as lembranças. Mais que registro documental, ela é um gênero de ficção. Na edição do jornal que reproduziu minha entrevista com Mario Svevo, o escritor Salim Miguel escreveu uma resenha, “Zeno versus Freud”, na qual resume magnificamente isso: “Zeno oscila entre a verdade e a mentira, numa ficção inventada por ele mesmo sobre sua própria realidade, procurando iludir seu psicanalista — ou se iludir. E a dúvida se aprofunda: será que fala a verdade, quando não mente? Será que falta à verdade, quando mente? Mentira e verdade se interpenetram naquele mundo. Se nos lembrarmos de que Zeno por sua vez é ficção (o quanto de verdade e mentira consciente ou inconsciente o autor nele colocou?), estamos diante de uma estrutura romanesca de jogo de espelhos.” Jogo de espelhos lembra quem? Jorge Luis Borges, é claro. A ideia é que essa brincadeira de gato e rato entre autor e leitor, que o portenho transformou na alternativa mais interessante e criativa à pesquisa linguística de James Joyce para se tornar o veio dominante da prosa do futuro, já era contida neste romance instaurador. Se o gênio de Dublin usava sua sesquipedal erudição linguística para propor ao leitor uma espécie de jogo de armar, fazendo do texto literário o que as crianças fazem com peças que se encaixam para formar figuras à escolha da imaginação delas, o de Buenos Aires e, antes dele, o de Trieste propõem uma armadilha sutil em que a inteligência do leitor não é exigida para descobrir as raízes etimológicas do texto, mas a própria natureza deste. Onde está a mentira? Onde está a verdade? É uma sequência de cenas de luz e sombra brincando de cabra-cega literária, a que o leitor é convidado a passear nos limites incertos da personalidade múltipla de Ettore-Italo-Zeno. Pode-se até dizer que Joyce foi o principal responsável pela aceitação daquele que apresentaria a saída para o impasse trazido à baila por Ulisses, mas principalmente por Finnegans Wake. O ar irônico do falso bonachão registrado na mais reproduzida foto do Romancista italiano provoca até um comichão neste escriba desautorizado a voar tão alto, levando-o a crer que, da mesma forma como “realiza um romance de linha psicanalítica”, mas “faz, igualmente, a própria crítica da psicanálise, questionando sua validade científica como um todo” (apud Salim Miguel, na resenha citada), este também escancara as portas que Joyce lhe abriu para mostrar que há outras vias pelas quais a literatura de boa cepa pode trafegar. Não há, é claro, parentesco evidente entre este romance caudaloso e as ficções curtas e os poemas de Borges. Mas é fascinante imaginar que ambos operam com maestria a narrativa numa língua canônica, que Joyce consideraria caduca, para conduzir o leitor pelo território indefinido entre a mentira que pode ser uma verdade incômoda e a verdade que talvez seja uma mentira conveniente. Só isso já justifica a fortuna crítica que esta obra-prima acumulou e a fama que ela amealhou, com justiça, de ter sido a fonte em que muitos dos melhores encontraram seus instrumentos literários mais argutos para expor as próprias dúvidas e escarnecer de certezas sob encomenda. José Nêumanne *Na verdade, Larbaud traduziu apenas três capítulos do livro, para a revista francesa Navire d’argent. A tradução integral foi levada a cabo posteriormente por Paul-Henri Michel. (N.E.) 1 Prefácio Sou o médico de quem às vezes se fala neste romance com palavras pouco lisonjeiras. Quem entende de psicanálise sabe como interpretar a antipatia que o paciente me dedica. Não me ocuparei de psicanálise porque já se fala dela o suficiente neste livro. Devo escusar-me por haver induzido meu paciente a escrever sua autobiografia; os estudiosos de psicanálise torcerão o nariz a tamanha novidade. Mas ele era velho, e eu supunha que com tal evocação o seu passado reflorisse e que a autobiografia se mostrasse um bom prelúdio ao tratamento. Até hoje a ideia me parece boa, pois forneceu-me resultados inesperados, os quais teriam sido ainda melhores se o paciente, no momento crítico, não se tivesse subtraído à cura, furtando-me assim os frutos da longa e paciente análise destas memórias. Publico-as por vingança e espero que o autor se aborreça. Seja dito, porém, que estou pronto a dividir com ele os direitos autorais desta publicação, desde que ele reinicie o tratamento. Parecia tão curioso de si mesmo! Se soubesse quantas surpresas poderiam resultar do comentário de todas as verdades e mentiras que ele aqui acumulou!... Doutor S. 2 Preâmbulo Rever a minha infância? Já lá se vão mais de dez lustros, mas minha vista cansada talvez pudesse ver a luz que dela ainda dimana, não fosse a interposição de obstáculos de toda espécie, verdadeiras montanhas: todos esses anos e algumas horas de minha vida. O doutor recomendou-me que não me obstinasse em perscrutar longe demais. Os fatos recentes são igualmente preciosos, sobretudo as imagens e os sonhos da noite anterior. Mas é preciso estabelecer uma certa ordem para poder começar ab ovo. Mal deixei o consultório do médico, que deverá estar ausente de Trieste por algum tempo, corria comprar um compêndio de psicanálise e li-o no intuito de facilitar-me a tarefa. Não o achei difícil de entender, embora bastante enfadonho. Depois do almoço, comodamente esparramado numa poltrona de braços, eis-me de lápis e papel na mão. Tenho a fronte completamente descontraída, pois eliminei da mente todo e qualquer esforço. Meu pensamento parece dissociado de mim. Chego a vê-lo. Ergue-se, torna a baixar... e esta é sua única atividade. Para recordar-lhe que é meu pensamento e que tem por obrigação manifestar-se, empunho o lápis. Eis que minha fronte se enruga ao pensar nas palavras que são compostas de tantas letras. O presente imperioso ressurge e ofusca o passado. Ontem tentei um abandono total. A experiência terminou no sono mais profundo e não obtive outro resultado senão um grande descanso e a curiosa sensação de haver visto alguma coisa importante durante o sono. Mas esqueci-me do que era, perdendo-a para sempre. Graças ao lápis que hoje trago à mão, mantenho-me desperto. Vejo, entrevejo imagens bizarras que não podem ter qualquer relação com meu passado: uma locomotiva que resfolega pela encosta acima a arrastar inúmeros vagões;sabe-se lá de onde vem e para onde vai e o que estará fazendo nestas recordações?! Na minha sonolência, recordo que o compêndio assegurava, por este sistema, ser possível recordarmos a primeira infância, a dos cueiros. De repente, vejo uma criança de fraldas, mas por que tem de ser eu? Não se parece nada comigo; na verdade, acho que se trata do bebê de minha cunhada, nascido há poucas semanas e que ela mostrava a todos como se fosse um milagre, porque tinha as mãos tão pequenas e os olhos tão grandes. Pobre criança! Ainda bem que se trata de recordar a minha infância! Não saberia encontrar um jeito de te aconselhar, agora que vives a tua, sobre a importância de recordá-la para o bem de tua inteligência e de tua saúde. Quando chegarás a saber que seria bom se pudesses reter na memória a tua vida, até mesmo as partes que te possam repugnar? E, no entanto, inconsciente, vais investigando o teu pequeno organismo à procura do prazer, e as tuas deliciosas descobertas te levarão à dor e à doença, para as quais contribuirão até mesmo aqueles que mais te querem. Que fazer? É impossível tutelar teu berço. No teu seio — pequerrucho! — se vai processando uma combinação misteriosa. Cada minuto que passa, lança-lhe um reagente. Há demasiadas possibilidades de doenças para ti, porque não é possível que sejam puros todos esses minutos. E além disso — pequerrucho! — és consanguíneo de pessoas que conheço. Os minutos que agora passam até que podiam ser puros, mas tal não foram decerto os séculos que te prepararam. Eis-me bem afastado das imagens que prenunciam o sono. Vejamos amanhã. 3 O fumo O médico com quem falei a esse respeito disse-me que iniciasse meu trabalho com uma análise histórica da minha propensão ao fumo: — Escreva! Escreva! O que acontecerá, então, é que você vai se ver por inteiro. Acredito, inclusive, que a respeito do fumo posso escrever aqui mesmo, à minha mesa, sem necessidade de ir sonhar ali naquela poltrona. Não sei como começar e invoco a assistência de todos os cigarros, todos iguais àquele que tenho na mão. Hoje, descubro de repente algo de que não mais me recordava. Os primeiros cigarros que fumei já não se encontram à venda. Pelos anos 70, havia deles na Áustria, vendidos em caixinhas de papelão, estampadas com o brasão da águia bicéfala. Aí está: em volta de uma dessas caixas agrupam-se de repente várias pessoas, mostrando um ou outro traço fisionômico, suficientes para sugerir-lhes o nome mas não tanto para deixar-me comovido pelo inesperado do encontro. Procuro buscar mais e vou para a poltrona: as pessoas esfumam-se, dando lugar a indivíduos cômicos, que escarnecem de mim. Com desconforto, retorno à mesa. Uma das figuras, de voz meio rouca, era Giuseppe, adolescente de minha idade, e a outra, meu irmão, um ano mais novo que eu, já falecido há tanto tempo. Parece que Giuseppe ganhava muito dinheiro do pai e nos presenteava com aqueles cigarros. Tenho certeza, porém, de que os oferecia mais a meu irmão do que a mim. Vem daí a necessidade que enfrentei para conseguir outros por conta própria. Sucedeu, portanto, que passei a roubar. No verão, meu pai deixava sobre uma cadeira, na sala de jantar, seu colete, em cujo bolso havia sempre alguns trocados: eu catava as moedas necessárias para adquirir a preciosa caixinha e fumava um cigarro após o outro, os dez que ela continha, para não conservar por muito tempo o fruto comprometedor de meu furto. Todas essas coisas jaziam em minha consciência ao alcance da mão. Só agora ressurgem porque não sabia antes que pudessem ter importância. Mas com isso já registrei a origem do hábito pernicioso e (quem sabe?) talvez assim já esteja curado. Para certificar-me, vou acender um último cigarro, que talvez atire fora em seguida, enojado. Recordo-me de que meu pai um dia me surpreendeu com o colete dele na mão. Eu, com uma desfaçatez que agora não teria e que ainda hoje me repugna (é possível que tal sentimento de repulsa venha a ter mesmo grande importância em minha cura), disse-lhe que fora assaltado pela curiosidade de contar os botões de seu colete. Meu pai riu dessa minha disposição para a matemática ou para a alfaiataria e não percebeu que eu tinha os dedos metidos no bolsinho. Seja dito em meu louvor que bastou aquele riso, provocado por uma inocência que não havia em mim, para impedir-me para sempre de roubar. Ou melhor... roubei outras vezes, mas sem sabê-lo. Meu pai deixava pela casa charutos virgínia fumados a meio, equilibrados à borda das mesas e das cômodas. Eu imaginava que era a sua maneira de jogá-los fora e pensava também que nossa velha criada Catina dali os poria no lixo. Comecei a fumá-los às escondidas. O simples fato de apossar-me deles já vinha pervadido por uma sensação de estremecer, ao dar-me conta do mal que me estava reservado. Mas mesmo assim fumava-os até sentir a fronte coberta de suores frios e o estômago embrulhando. Não se pode dizer que na infância eu fosse isento de força de vontade. Sei perfeitamente como meu pai me curou também desse hábito. Num dia de verão, eu tinha voltado de uma excursão escolar, cansado e banhado de suor. Mamãe ajudou-me a tirar as vestes e, depois de envolver-me num roupão, me pôs a dormir num sofá onde ela própria sentou-se também para fazer uma costura. Eu estava quase adormecido, mas, com os olhos ainda cheios de sol, custava a entregar-me ao sono. A deliciosa sensação que naquela idade encontramos no repouso que se segue a uma grande fadiga aparece-me agora como uma imagem própria, tão evidente como se eu ainda estivesse lá, junto daquele corpo que não existe mais. Recordo a sala grande e fresca onde nós, crianças, brincavamos e que hoje, nestes tempos ávidos de espaço, foi dividida em duas. Meu irmão não aparece nesta cena, o que muito me surpreende, pois creio que certamente participara da excursão e teria, portanto, igual direito ao repouso. Também teria sido posto a dormir, no outro braço do sofá? Olho para o local, mas me parece vazio. Vejo apenas a mim, a delícia do repouso, minha mãe, e depois meu pai cujas palavras sinto ecoar. Entrara sem perceber que eu ali estava, pois chamou em voz alta: — Maria! Mamãe, com um gesto acompanhado de um leve movimento dos lábios, apontou para mim, pois me supunha imerso no sono acima do qual eu ainda vagava em plena consciência. Agradou-me tanto que papai tivesse de tratar-me com aquela consideração que permaneci imóvel. Ele pôs-se a lamentar em voz baixa: — Devo estar maluco. Estou quase certo de ter deixado ainda há pouco um charuto apagado em cima daquela cômoda e não consigo encontrá-lo. Estou cada vez pior. Não me lembro de nada. Também em voz baixa, mas que traía uma hilaridade contida apenas pelo temor de despertar-me, minha mãe respondeu: — E olha que ninguém esteve aqui na sala depois do almoço. Papai murmurou: — Exatamente por isso acho que estou doido! Voltou-se e saiu. Entreabri os olhos e espreitei minha mãe. Ela havia voltado a atenção à costura, mas continuava a sorrir. Decerto não achava que papai fosse ao ponto de estar doido para sorrir assim de seu temor. Aquele sorriso me permaneceu de tal forma impresso na lembrança que um dia o revi nos lábios de minha mulher. Mais tarde, a falta de dinheiro já não constituía obstáculo à satisfação de meu vício, mas bastavam as proibições para incitá-lo. Lembro-me de haver fumado muito, escondido em todos os lugares possíveis. Recordo-me particularmente de uma meia hora passada no interior de um porão sombrio, por força da indisposição física que em seguida me assaltou. Estava em companhia de dois outros garotos de quem guardei na memória apenas a ridícula infantilidade de suas roupas: dois pares de calças curtas que ainda estão hirtos em minha memória como se os corpos que as animavam já não tivessem sido eliminados pelo tempo. Tínhamos muitos cigarros e queríamos saber quem seria capaz de fumar a maior quantidade em menos tempo. Ganhei a parada, ocultando heroicamente o mal-estar que me adveio do estranho exercício. Depois saímos para o ar livre e para o sol. Tive de cerrar os olhos para não cair desmaiado. Logo me recompus e vangloriei-me da proeza. Um dos garotos então me disse: — Não me importo de ter perdido. Eu só fumo enquanto gosto. Recordo-me da observação sadia, mas não da face certamente saudável do menino que a proferiu, embora devesse estar olhando para ele no momento. Àquela época eu não sabia se amava ou odiava o fumo e o gosto do cigarro, bem como o estado a que a nicotina me arrastava. Quando compreendi que odiava tudo aquilo, a coisa foi pior. E só fui compreendê-lo por volta dos vinte anos. Nessa época sofri durante algumas semanas de violenta dor de garganta acompanhada de febre. O médico prescreveu-me repouso e abstenção absoluta de fumar. Recordo a impressão que a palavra absoluta me causou, enfatizada pela febre: abriu-se diante de mim um vazio enorme sem que houvesse alguém que me ajudasse a resistir à intensa pressão que logo se produz em torno de um vazio. Quando o doutor se foi, meu pai (mamãe já havia morrido há muitos anos), com uma guimba de charuto na boca, ainda ficou algum tempo me fazendo companhia. Ao ir-se embora, depois de me haver passado ternamente a mão sobre a testa escaldante, disse: — E nada de fumar, está ouvindo? Fui invadido por enorme inquietude. Pensei: “Já que me faz mal, nunca mais hei de fumar, mas antes disso quero fazê-lo pela última vez.” Acendi um cigarro e logo me senti relevado da inquietude, apesar de a febre talvez aumentar e de sentir a cada tragada que as amígdalas me ardiam como se tocadas por um tição. Fumei o cigarro até o fim com a determinação de quem cumpre uma promessa. E, sempre experimentando dores horríveis, fumei muitos outros enquanto estive acamado. Meu pai ia e vinha com seu charuto na boca, dizendo: — Muito bem! Mais alguns dias de abstenção e estará curado! Bastava esta frase para me fazer desejar que ele se fosse logo, a fim de que eu pudesse correr imediatamente para o cigarro. Às vezes fingia mesmo dormir para induzi-lo a ir-se mais depressa. Aquela enfermidade foi a causa de meu segundo distúrbio: o esforço para libertar-me do primeiro. Meus dias acabaram por ser um rosário de cigarros e de propósitos de não voltar a fumar, e, para ser franco, de tempos em tempos são ainda assim. A ciranda do último cigarro começou aos vinte anos e ainda hoje está a girar. Minhas resoluções são agora menos drásticas e, à medida que envelheço, torno-me mais indulgente para com minhas fraquezas. Ao envelhecermos, sorrimos da vida e de todo o seu conteúdo. Posso assim dizer que, desde há algum tempo, tenho fumado muitos cigarros... que não serão os últimos. Na folha de rosto de um dicionário encontro um registro meu feito com bela caligrafia e alguns ornatos: “Hoje, 2 de fevereiro de 1886, deixo de estudar leis para me dedicar à química. Último cigarro!” Tratava-se de um “último cigarro” muito importante. Recordo todas as esperanças que o acompanharam. Havia perdido o gosto pelo direito canônico, que me parecia distanciado da vida, e corri para a ciência, que é a própria vida, se bem que reduzida a uma retorta. Aquele último cigarro representava o próprio anseio de atividade (também manual) e de meditação sóbria, serena e sólida. Para fugir das cadeias de combinações do carbono, em que não acreditava, resolvi voltar ao direito. Muito pior! Foi um erro igualmente registrado com um último cigarro, cuja data encontro inscrita numa página de livro. Também este foi importante. Eu me resignava a voltar às intrincâncias do direito com os melhores propósitos, abandonando para sempre as cadeias de carbono. Convenci-me da falta de pendor para a química até mesmo pela minha inabilidade manual. Como poderia tê-la, se continuava a fumar como um turco? Agora que estou a analisar-me, assalta-me uma dúvida: não me teria apegado tanto ao cigarro para poder atribuir-lhe a culpa de minha incapacidade? Será que, deixando de fumar, eu conseguiria de fato chegar ao homem forte e ideal que eu me supunha? Talvez tenha sido essa mesma dúvida que me escravizou ao vício, já que é bastante cômodo podermos acreditar em nossa grandeza latente. Avento esta hipótese para explicar minha fraqueza juvenil, embora sem convicção definida. Agora que sou velho e que ninguém exige nada de mim, passo com frequência dos cigarros aos bons propósitos e destes novamente aos cigarros. Que significam hoje tais propósitos? Como aquele velho hipocondríaco, descrito por Goldoni, será que desejo morrer são depois de ter passado toda a vida doente? Certa vez, quando era estudante, ao mudar de uma pensão, tive que mandar pintar de novo as paredes do quarto, porque eu as havia coberto de datas. Devo ter mudado de quarto exatamente porque aquele se havia transformado em cemitério de minhas boas intenções e já não achava possível formular outras naquele mesmo lugar. Creio que o cigarro, quando se trata do último, revela muito mais sabor. Os outros têm, sem dúvida, seu gosto especial, porém menos intenso. O último deriva seu sabor do sentimento de vitória sobre nós mesmos e da esperança de um futuro de força e de saúde. Os outros têm a sua importância porque, acendendo-os, afirmamos a nossa liberdade e o futuro de força e de saúde permanece, embora um pouco mais distanciado. As datas inscritas nas paredes de meu quarto eram de cores variadas e algumas até a óleo. O propósito, refeito com a fé mais ingênua, encontrava expressão adequada no vigor do colorido que devia fazer esmaecer o da intenção precedente. Algumas delas gozavam de minha preferência pela concordância dos algarismos. Recordo uma data do século passado que me pareceu a lápide capaz de selar para sempre o túmulo de meu vício: “Nono dia do nono mês de 1899.” Significativa, não é mesmo? O novo século trouxe-me datas igualmente musicais: “Primeiro dia do primeiro mês de 1901.” Ainda hoje sinto que se fosse possível repetir a data eu saberia como iniciar nova vida. Mas outras datas viriam e, com um pouco de imaginação, qualquer uma delas poderia adaptar-se a uma boa intenção. Recordo, pelo fato de que me pareceu conter um imperativo supremamente categórico, a seguinte data: “Terceiro dia do sexto mês de 1912 às 24 horas.” Soa como se cada número dobrasse a parada do antecedente. O ano de 1913 deu-me um momento de hesitação. Faltava o décimo terceiro mês para fazê-lo corresponder ao ano. Mas não se pense que seja necessário tamanho acordo numa data para dar ensejo a um último cigarro. Muitas datas, que encontro consignadas em livros ou quadros preferidos, despertam a atenção pela sua inconsequência. Por exemplo, o terceiro dia do segundo mês de 1905, às seis horas! Nesta há também um ritmo, quando se observa que cada uma das cifras é como uma negação da precedente. Muitos acontecimentos, quase todos, desde a morte de Pio IX ao nascimento de meu filho, pareceram-me dignos de ser festejados com o férreo propósito de sempre. Todos na família se admiram de minha memória para os aniversários alegres ou tristes e atribuem isso à minha bondade! Para atenuar-lhe a aparência ridícula, tentei dar um conteúdo filosófico à enfermidade do último cigarro. Assume-se uma atitude altiva e diz-se: “Nunca mais!” Porém, o que é feito da atitude se mantemos a promessa? Só podemos reassumi-la se renovamos o propósito. Além disso, o tempo para mim não é essa coisa insensata que nunca para. Para mim, só para mim, ele retorna. * * * A doença é uma convicção, e eu nasci com essa convicção. Não me lembraria da que contraí aos vinte anos se não a tivesse naquela época relatado a um médico. Curioso como recordamos melhor as palavras ditas que os sentimentos que não chegaram a repercutir no ar. Fora ver esse médico que me disseram curar doenças nervosas com emprego da eletricidade. Pensei poder extrair da eletricidade a força que me faltava para deixar o fumo. O doutor tinha uma barriga enorme e sua respiração asmática acompanhava as batidas da máquina elétrica, posta em funcionamento desde a primeira consulta; isso me desiludiu, porque esperava que o doutor, examinando-me, descobrisse o veneno que me inquinava o sangue. Em vez disso, declarou que me achava em perfeita saúde e, já que me deixava de má digestão e de insônia, admitiu que eu tivesse carência de ácidos no estômago e um movimento peristáltico preguiçoso (disse tal palavra tantas vezes que nunca mais a esqueci). Chegou a prescrever certo ácido que me arruinou o estômago de tal forma que até hoje sofro de excesso de acidez. Quando compreendi que por si mesmo ele jamais chegaria a descobrir que a nicotina me contaminava o sangue, quis ajudá-lo, aventando-lhe a hipótese de que minha indisposição pudesse ser atribuída a isso. Ergueu os grandes ombros com enfado: — Movimento peristáltico... ácido... a nicotina nada tem a ver com isso! Submeti-me a setenta aplicações elétricas e elas teriam continuado se eu não resolvesse que já eram o bastante. Mais do que à espera de um milagre, corria ao consultório na esperança de convencer o médico a me proibir de fumar. Quem sabe as coisas tomariam outro rumo se meus propósitos fossem fortificados por uma tal proibição? Mas vamos à descrição de minha doença, tal como a relatei ao médico: “Não consigo estudar e, nas raras vezes em que me deito cedo, permaneço insone até os primeiros toques de sinos. É por isso que hesito entre a química e o direito, pois ambas as ciências exigem um trabalho que começa em hora fixa, ao passo que não sei quando conseguiria levantar-me.” — A eletricidade cura qualquer insônia — sentenciou o esculápio, olhos sempre voltados para o mostrador do aparelho em vez de tê-los fixos no doente. Cheguei a conversar com ele como se o homem fosse capaz de compreender a psicanálise em que eu, timidamente, me iniciava. Contei-lhe sobre o meu problema com as mulheres. Uma só não me bastava, nem mesmo muitas. Queria-as todas! Pelas ruas, minha excitação era enorme: à medida que passavam, as mulheres eram minhas. Olhava-as com insolência pela necessidade de sentir-me brutal. No pensamento despia-as todas, deixando-as apenas de sapatos, tomava-as nos braços e só as soltava quando tinha certeza de conhecê-las bem. Sinceridade e fôlego desperdiçados! O doutor resfolegava: — Espero que as aplicações elétricas não o venham curar desse mal. Era o que faltava! Jamais empregaria estas ondas se pudesse temer semelhante efeito. Contou-me uma anedota que achava saborosíssima. Um doente, que se queixava da mesma moléstia que eu, consultou um médico famoso para pedir que o curasse; o médico, tendo conseguido fazê-lo perfeitamente, foi obrigado a se mudar da cidade, senão o outro o teria esfolado vivo. — A minha excitação não é normal — gritava eu. — Vem do veneno que arde em minhas veias! O doutor murmurava com expressão amargurada: — Ninguém está feliz com sua sorte. Foi para convencê-lo que fiz o que ele não se dispunha a fazer: estudei minha enfermidade através de todos os seus sintomas. Minha distração! Até esta me impedia de estudar. Quando me preparava em Graz para o primeiro exame de direito, anotei cuidadosamente todos os testes de que necessitava até a prova final. Acontece que, poucos dias antes do exame, percebi que estudava só as matérias de que iria precisar alguns anos mais tarde. Por isso tive de trancar matrícula. É bem verdade que mesmo as outras matérias eu pouco havia estudado por causa de uma vizinha que, de resto, só me brindava com sua descarada provocação. Quando chegava à janela, eu não via mais o texto. Só um imbecil se comportaria assim. Recordo a carinha pequenina e clara da moça na janela: oval, circundada de airosos cachinhos louros. Eu a contemplava, sonhando esmagar contra o meu travesseiro aquela brancura emoldurada de ouro. O esculápio murmurou: — Sempre há na excitação alguma coisa de bom. Verá que na minha idade é inútil excitar-se. Hoje sei com certeza que ele não entendia nada do assunto. Tenho 57 anos e estou certo de que, se não deixar de fumar ou se não for curado pela psicanálise, em meu leito de morte meu último olhar será de desejo pela minha enfermeira, se esta não for minha mulher e se minha mulher tiver permitido que ela seja bela! Fui sincero como se me confessasse: a mulher não me atraía como um todo, mas... fragmentariamente. Em todas apreciava os pezinhos bem-calçados; em muitas o colo delicado ou mesmo portentoso; e sempre os seios pequenos, pequeninos. E continuava enumerando as partes anatômicas femininas, quando o doutor me interrompeu: — Estas partes formam uma mulher inteira. Disse então algo importante: — O amor saudável é aquele que se resume numa mulher apenas, íntegra, inclusive de caráter e inteligência. Até então eu não conhecera tal amor e, quando este me sobreveio, nem mesmo ele conseguiu restaurar-me a saúde, embora para mim seja importante recordar que detectava a doença ali onde os doutos só viam saúde, acabando assim por confirmar o meu diagnóstico. Na pessoa de um amigo leigo encontrei quem melhor entendeu a meu respeito e de minha doença. Não tive com isso grande vantagem, mas em minha vida vibrou uma nota nova que ecoa ainda hoje. Meu amigo era um senhor rico que ornava seus ócios com estudos e trabalhos literários. Falava muito melhor do que escrevia e por isso o mundo não poderá avaliar o bom literato que perdeu. Era grande e gordo e quando o conheci estava empenhado num regime de emagrecimento. Em poucos dias chegara a tão excelentes resultados que os conhecidos se aproximavam dele na rua para comparar sua própria gordura com a progressiva magreza deste amigo. Tinha-lhe inveja porque conseguia fazer tudo quanto desejava, e por isso não o larguei enquanto durou seu tratamento. Fazia-me tocar-lhe a barriga que a cada dia diminuía mais, e eu, roído de despeito, para enfraquecer-lhe a determinação, dizia: — Mas, concluída a dieta, o que fará você com toda esta pelanca? Com grande calma, que tornava cômico seu rosto emaciado, respondia: — Daqui a dois dias começarei as massagens. Seu tratamento fora preparado em todos os detalhes e não tenho dúvida de que ele os cumpria com estrita regularidade. Acabou por inspirar-me grande confiança e um dia descrevi-lhe a minha enfermidade. Recordo-me perfeitamente da minha descrição. Expliquei-lhe que me parecia muito mais fácil deixar de comer três vezes por dia do que ter de tomar a cada instante a fatigante resolução de não fumar outro cigarro. Com tal resolução em mente não nos sobrava tempo para mais nada, pois só Júlio César sabia fazer várias coisas ao mesmo tempo. É verdade que ninguém vai querer que eu trabalhe enquanto estiver vivo o meu procurador Olivi, mas de que modo explicar que uma pessoa como eu não saiba fazer outra coisa no mundo senão sonhar ou arranhar o violino, para o qual, aliás, não tenho a menor vocação? O gordo emagrecido não respondeu imediatamente. Era homem metódico e primeiro meditou com vagar.

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