Frete Grátis
  • Google Plus

A Ditadura Derrotada - Vol. 3 (Cód: 139860)

Gaspari, Elio

Companhia Das Letras

Ooopss! Este produto está temporariamente indisponível.
Mas não se preocupe, nós avisamos quando ele chegar.

Ooops! Este produto não está mais a venda.
Mas não se preocupe, temos uma versão atualizada para você.

Ooopss! Este produto está fora de linha, mas temos outras opções para você.
Veja nossas sugestões abaixo!

R$ 74,90 em até 2x de R$ 37,45 sem juros
Cartão Saraiva R$ 71,16 (-5%) em até 1x no cartão ou em até 3x de R$ 24,97 sem juros
Grátis

Cartão Saraiva

Descrição

No terceiro volume de 'O Sacerdote e o Feiticeiro', tríptico que dá seqüência à série de cinco livros iniciadas com 'As Ilusões Armadas', Elio Gaspari narra o desmonte gradual da ditadura militar por Ernesto Geisel, o Sacerdote, e Golbery do Couto e Silva, o Feiticeiro, e a grande derrota eleitoral de 1974.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Companhia Das Letras
Cód. Barras 9788535904284
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 853590428X
Profundidade 3.50 cm
Acabamento Flexível
Número da edição 1
Ano da edição 2003
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 576
Peso 0.92 Kg
Largura 16.00 cm
AutorGaspari, Elio

Leia um trecho

1. Trecho do livro Do capítulo "Moita, é o Alemão" Aos 65 anos, [Geisel] era um homem sem prazeres nem sonhos, regido por hábitos e obrigações. Pelo porte marcial, parecia maior que seu 1,77 m de altura. Os cabelos brancos faziam-no mais velho, um estrabismo dava aspecto inquietante ao seu olhar, e o costume de elevar repentinamente a voz tornava-o um interlocutor desagradável. Atencioso no trato, resguardava-se de manifestações sentimentais. Precedia quaisquer ordens, até em pequenos bilhetes, de um eterno "peço". Era temido por suas explosões de ira, quando na realidade elas refletiam uma das poucas exibições emocionais que se permitia. Como ele mesmo explicava: "Eu só fico brabo com as pessoas com quem tenho intimidade". Em sua vida misturavam-se os valores dos colonos alemães do Rio Grande do Sul e as ansiedades daquela geração de militares brasileiros que a Revolução de 1930 denominou "tenentes". Às influências do meio somara necessidades e sofrimento. Nada lhe fora fácil. Poucos eram os seus afetos, todos enclausurados numa circunspecção que raramente rompia o círculo familiar. Detestava efemérides, fosse o próprio aniversário ou o Natal. Duvidava não apenas de si, mas de todo o gênero humano: "É muita pretensão do homem inventar que Deus o criou à sua imagem e semelhança. Será possível que Deus seja tão ruim assim?". Era um desconhecido para a maioria dos brasileiros. Mantinha-se afastado da roda social dos burocratas e do convívio com os colegas de farda. Vivia trancado na Petrobrás. Saía para almoçar em casa, sentava-se de pijama à mesa, dormia quinze minutos e regressava à sua sala de trabalho pontualmente às catorze horas. Andava na praia antes do sol forte, passava os fins de semana em Teresópolis, e contavam-se nos dedos as famílias que freqüentava. Evitava receber o tratamento de "você" e não beijava mulheres no rosto. Havia quase vinte anos jogava biriba com o mesmo casal de amigos. Morava com a mulher e a filha num apartamento de três quartos e sala, em edifício sem elevador, no Leblon. Tinha economias suficientes para satisfazer a mulher, que se encantara com um lançamento imobiliário próximo, com vista para o mar, mas não abria a mão (por hábito) nem a guarda (por cautela): "Lucy, eu não vou comprar esse apartamento. Estou indo para a Petrobrás, e se eu comprar esse apartamento, vão logo dizer que estou roubando". 2. Artigo de Marcos Sá Correa No primeiro volume de O Sacerdote e o Feiticeiro, tríptico que dá seqüência à série de cinco livros iniciada com As Ilusões Armadas, Elio Gaspari narra o desmonte gradual da ditadura militar por Ernesto Geisel, o Sacerdote, e Golbery do Couto e Silva, o Feiticeiro, e a grande derrota eleitoral de 1974. Leia abaixo uma resenha especial de Marcos Sá Corrêa No dia 16 de fevereiro de 1974, numa conversa de três horas, o general Ernesto Geisel acertou os ponteiros com seu futuro ministro do Exército. Dali a semanas, tomaria posse como quarto presidente do regime militar. Vinha de uma campanha sucessória tão silenciosa que, por quase dois anos, uma das principais tarefas da censura à imprensa fora esconder da opinião pública o nome do candidato escolhido. Elegera-se por um voto - o do general Emilio Medici. "Imagina, para que é que eu havia de querer um escritório eleitoral quando o Grande Eleitor está aqui", disse Geisel, no conchavo palaciano que acabara de ungi-lo. Politicamente, tinha no bolso o AI-5. Economicamente, recebia nas mãos um país que nunca mais voltaria aos índices da era Medici, quando o crescimento anual bateu no patamar de 11,9%. Popularmente, estavam fora de seu alcance os 82% de aprovação dados pelo IBOPE a seu antecessor. Naquele momento, 120 mortes e 2500 denúncias de tortura inchavam as estatísticas da repressão. O governo tinha vencido a luta armada. Mas estava acuado pelos aparelhos clandestinos que infestavam seus porões. Geisel ponderou que "esse troço de matar" era "uma barbaridade", mas que não havia outro remédio. Recomendou a Coutinho que unificasse a política de repressão. E ao se despedir do novo ministro do Exército, o quarto presidente da República, no décimo ano da ditadura, concluiu que eles haviam concordado "100% em tudo". É por causa de diálogos como esse - transcritos com um rigor que na última hora, com os originais a caminho do prelo, incluiu uma corrida ao laboratório para esclarecer problemas de dicção - que os melhores livros brasileiros de 2002 acabam de virar o melhor livro brasileiro de 2003. No ano passado, com A ditadura envergonhada e A ditadura escancarada, os dois volumes d'As Ilusões Armadas que venderam 175 mil exemplares, Elio Gaspari deixou uma arapuca para quem se metesse, depois dele, a escrever novidades sobre a dinastia dos generais que mandaram no Brasil de 1964 a 1985. Ou seja, armou uma arapuca para si mesmo. Parecia ter arrasado em 924 páginas até as curiosidades que os brasileiros não chegaram a ter sobre o regime. E ainda tinha pela frente mais três livros do mesmo porte. Surpresa: A ditadura derrotada, que está chegando agora às livrarias, como terceiro livro da coleção e primeiro de um tríptico intitulado O Sacerdote e o Feiticeiro, conseguiu melhorar o que era irretocável. Trata-se, mais uma vez, de cerca de quinhentas páginas de texto, encorpado por mais de 1500 notas de pé de página e uma vasta bibliografia. Fechado, é um tijolaço. Aberto, é levíssimo. Seu foco é o labirinto de passos que levaram dois generais a demolir a ditadura que tinham engendrado. E encher quinhentas páginas com metade da história de Geisel e Golbery é uma temeridade. O livro vai dos três anos e cinco meses que transcorrem do bilhete cifrado avisando, em junho de 1971, que o próximo presidente seria "o Alemão" ao momento em que o Alemão engole a derrota do regime para uma leva de oposicionistas quase anônimos, nas eleições parlamentares de 1974. Os dois volumes anteriores trabalharam com elenco de superprodução. A ditadura envergonhada contou o começo e o fim da ditadura, mostrando que ambos estavam mal contados por seus acólitos. A ditadura escancarada abriu as tripas da "guerra suja", revelando por que os dois lados dessa luta não eram capazes de dizer como ela foi. Contra esses trunfos arrasadores, A ditadura derrotada só tem uma carta. Mas que carta. É a mais surpreendente coleção de documentos já publicada sobre os bastidores da política brasileira. E talvez das outras. Extraída de arquivos pessoais, diários secretos e gravações de diálogos, ela consegue da noite para o dia transformar um dos regimes mais fechados que o país já desconheceu no período histórico mais devassado que ele daqui para a frente vai conhecer. Desde novembro de 1973, Heitor Ferreira, secretário particular de Geisel, discípulo de Golbery, confidente de ambos, leitor voraz e insaciável colecionador de segredos, gravava num aparelho Philips 85 as conversas do presidente. No palácio do Planalto, o hábito se manteve por quatro meses. Não era escuta clandestina. Geisel sabia que falava para o Philips 85. Mas poucas pessoas de confiança tomaram conhecimento dessas gravações, que se encontram em sessenta rolos de quatro faixas e somam 222 horas. E seu conteúdo nunca tinha vazado. A mistura de pesquisa exaustiva com inconfidências inimagináveis dá às páginas d'A ditadura derrotada o atestado definitivo de que a história supera, sim, a ficção. Em vez de personagens reais dizendo coisas imaginárias, elas têm personagens reais dizendo coisas inimagináveis. Geisel se deixou gravar por um auxiliar de confiança num governo que censurou o presente e o passado mas deixou ao futuro o legado de suas próprias entranhas abertas à exposição pública. Enquanto esses diálogos eram imortalizados pelo Philips 85, fora do gabinete soprava nos ouvidos dos jornalistas o primeiro vento do que seria a "lenta, gradativa e segura distensão". Era o hálito de Golbery, o "Feiticeiro" de Geisel. Eles formavam uma dupla. Mas não como na época se pensava. Golbery era um general retraído, que gostava de textos rebuscados e de cristais venezianos com formas de passarinhos. Dá para medir a distância entre os dois pelas palavras que Golbery enfiava nos rascunhos dos discursos e Geisel extraía das versões finais. Para a oficialização da candidatura, o ex-presidente da Dow Química no Brasil recitou uma frase sobre "as grandes empresas multinacionais, cujo potencial, para o bem, ou talvez para o mal é, e sê-lo-á, em escala maior talvez, condição essencial ao próprio desenvolvimento da Nação". Geisel virou-a pelo avesso, falando de empresas "cujo potencial para o bem, ou talvez para o mal, ainda não nos é dado avaliar". Ao Colégio Eleitoral, Golbery tentou anunciar a "coibição enérgica de toda violência ilegal, partida de onde ou de quem partir". Geisel rebarbou: "Isso é verdade, e vamos ver se fazemos, mas você não pode dizer". Havia menção ao "cidadão ferido em seus direitos ou clamando por justiça". O presidente traduziu a indireta: "Há uma referência velada às torturas. Eu não posso dizer isso, não é?". Entre eles, o jogo não era para empate. Na dúvida, vencia Geisel. E Golbery não falava mais no assunto. Com Heitor Ferreira, formavam uma trinca. Mas só Geisel mandava. No governo, o secretário despachava em pé com o presidente, e as conversas a sós com Golbery não passavam de três por ano. Gaspari diz que Geisel, o "Sacerdote", parecia excêntrico, "porém era apenas simples". Participou de quase todos os golpes que tiraram do eixo os militares de sua geração, sem virar um golpista genuíno, porque "se regia pelo manual". Tinha "opiniões políticas tão claras quanto operacionalmente irrelevantes". Achava que "todo político é falso e todo milionário é ladrão". Nos fins de semana, despachava processos à beira da piscina. Fazia a ceia de Natal com os guardas do Riacho Fundo, porque a festa familiar recordava a morte de seu filho, Orlando, atropelado aos dezesseis anos por um trem em Quitaúna. Se o presidente Lula encontrasse intacta no palácio da Alvorada a rotina que Geisel instalou, talvez achasse que tinha voltado por engano à cadeia. Geisel e Golbery, juntos, somavam menos afinidades do que idiossincrasias e até implicâncias. Conheciam o avesso de todos os conspiradores, porque se meteram em quase todas as conspirações. Em geral, era das mesmas pessoas que não gostavam. Acabaram com as biografias trançadas pelas voltas que a desordem política deu em suas carreiras profissionais. Ambos só atiraram em combate ao participar de golpes e contragolpes. Se era assim, por que a ditadura haveria de acabar logo em suas mãos? A resposta completa estará certamente nos próximos livros de Gaspari. Mas as pistas deste terceiro volume apontam para a provável conclusão. Cinco dias antes daquela conversa com o general Dale Coutinho, Geisel descartara sem meias palavras um ministro do Exército. Era Orlando Geisel, o mais próximo de seus irmãos. Três anos e oito meses depois do diálogo absurdo com Coutinho, descartaria outro ministro do Exército, o general Sylvio Frota, que estava em campanha aberta para sucedê-lo, com o apoio dos oficiais que traficavam violência nos porões do regime. Nenhuma ditadura militar resiste a um presidente que dispensa dois ministros do Exército. Antes de assumir, Geisel temia fracassar por não se considerar "flexível o suficiente" para a função. No fim do mandato, essa se transformaria em sua maior virtude política. Graças a uma retidão movida a idéias fixas, Ernesto Geisel assumiria uma "ditadura sem ditador" e viraria "um ditador sem ditadura". Mas isso também é descoberta de Elio Gaspari. Marcos Sá Corrêa

Avaliações

Avaliação geral: 0

Você está revisando: A Ditadura Derrotada - Vol. 3