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A Guerra Particular de Lênin (Cód: 2230124)

Chamberlain,Lesley

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Descrição

Lesley Chamberlain conta a história de intelectuais, a maioria filósofos, cientistas e jornalistas deportados por Lenin, no momento em que a Rússia se preparava para a criação da União Soviética, em dezembro de 1922. O livro é uma valiosa pesquisa - com base nos diários, cartas e memórias dos envolvidos nesse exílio - de um momento histórico ameaçador.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Record
Cód. Barras 9788501079718
Altura 0.00 cm
I.S.B.N. 8501079715
Profundidade 0.00 cm
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 420
Peso 0.44 Kg
Largura 0.00 cm
AutorChamberlain,Lesley

Leia um trecho

1 A NOITE ANTERIOR QUEM ERAM OS HOMENS no Vapor da Filosofi a? Lenin pensava neles como a classe inimiga, mas como eles pensavam sobre si mesmos e como era seu mundo antes de ser destruído de forma tão violenta? O contraste entre a máquina do regime totalitário e as vidas das pessoas reais que ela afetou fi ca claro nas lembranças de escritores como Berdiaev e Losski. O nome mais famoso na lista de mentes indesejáveis de Lenin, Nikolai Berdiaev, fi cou surpreso com a natureza extremada do tratamento que recebeu dos bolcheviques, porque pensava que ele, como eles, era socialista. Mas fi cou resignado, vendeu seus bens e, como seus colegas professores, decidiu enfrentar seus perseguidores com coragem e estoicismo. No dia 27 de setembro, seguindo por aquela conhecida ferrovia que liga a Rússia “asiática” à sua capital “européia”, ele chegou a Petrogrado vindo de Moscou. A primeira e fácil etapa de sua irreversível viagem para o exterior tinha sido cumprida. Os trens não estavam em suas melhores condições naquele ano, mas isso não era novidade. Sendo russo, Berdiaev sentia fazer parte de um povo mais resistente que a maioria, que nos anos anteriores tinha demonstrado poder dar conta de quase tudo. Após sua experiência durante a Revolução, quando uma bomba caiu no jardim da casa da família, e também durante a Guerra Civil, quando explodiram um porão perto de sua livraria, nada o assustava. Ele mal percebia um trem sem aquecimento e água. Tinha 48 anos de idade. Com ele naquele último trem russo estava sua esposa de 51 anos, Lidia Iudifovna, a irmã mais nova de Lidia, Evgenia Rapp, afastada do marido, e a mãe das duas, Irina Vasilievna Trusheva. Embora ainda fosse viver mais 18 anos, a sogra de Berdiaev não estava bem de saúde e caminhava usando uma bengala. Os Berdiaev formavam uma família conscienciosa e do tipo antiquado, e cuidavam uns dos outros, bem como de estranhos necessitados. Um colega de Berdiaev de Petrogrado, o professor Losski, que só seria expulso dois meses depois, tinha se oferecido para abrigar a família naquela noite. Ele morava na rua Kabinestkaia, a cerca de dez minutos de caminhada rumo sul a partir do ponto em que o rio Fontanka passava sob a principal artéria da cidade, a Nevski Prospekt, e aproximadamente à mesma distância da estação ferroviária Moskva. Na verdade, a estação ainda era conhecida como Nikolaevski em homenagem ao último czar, Nicolau II. O czar tinha sido assassinado em 1918, mas a Rússia estava apenas começando a ser lentamente sovietizada. Na estação, Berdiaev, um homem rico enquanto ainda estava em seu próprio país, chamou um táxi, enquanto a algumas ruas dali estavam sendo feitos preparativos para sua chegada. Interessantes famílias russas da intelligentsia pré-revolucionária se reuniram naquela noite em uma Petrogrado subjugada: os Berdiaev e os Losski, e os Trushev e os Stroiunin, as famílias com as quais os dois homens tinham se casado. Os Berdiaev, com a família instalada em Kiev, eram da aristocracia. O pai de Nikolai era militar, e sua mãe meio francesa. A mãe dela era a condessa Choiseul. Assim, o francês era uma das línguas de Berdiaev desde a infância, e o catolicismo romano era uma infl uência materna, que tinha seu lugar juntamente com a ortodoxia paterna. Berdiaev nunca desprezou sua formação privilegiada. Ao contrário, como dois dos mais famosos aristocratas revolucionários da Rússia, Alexander Herzen e Peter Kropotkin, ele aspirava ao imperativo clássico da noblesse oblige. Kropotkin já era adulto quando se rebelou contra sua formação militar, mas Berdiaev abandonou a academia militar no meio da adolescência. Como Herzen, ele estudou fi losofi a, e nos anos 1890 a fi losofi a o levou diretamente ao marxismo, daí a um repúdio a ele, e a um choque tanto com o governo czarista quanto com os bolcheviques em ascensão. Por sua participação nos distúrbios revolucionários na Universidade de Kiev, Berdiaev se viu em uma forma suave de exílio interno entre 1902 e 1904. A partir de então, e especialmente após a Revolução de 1905, ele desenvolveu uma movimentada carreira de professor, ativista social e personalidade pública que só terminou com sua morte em 1948. Tudo isso era coerente com a posição de Berdiaev como um intelligent, um membro de uma intelligentsia formada por várias classes. Do palanque à cátedra, sua missão era ajudar os camponeses e as classes inferiores russas a encontrar seu lugar em um sistema social mais digno e justo que aquele representado pelo czarismo. Berdiaev conheceu Lidia, fi lha de um notário, em Kiev em 1904, logo após seu retorno do exílio e da libertação dela da prisão. As duas jovens Trushev eram bem-educadas, e tinham passado cerca de um ano em Paris aperfeiçoando sua formação. Mas, ao estilo da classe média russa, Lidia e Evgenia também eram socialmente conscientes, e no fi nal da adolescência tinham aderido ao modelo populista de “ir até o povo” e foram dar aulas de assuntos gerais e consciência política no interior atrasado. Após se entregarem a “atividades revolucionárias” em 1903, passaram três meses na prisão, onde fi zeram uma greve de fome.2 O encontro de Berdiaev e Lidia atendeu a um desejo idealista de amor e compreensão de ambos os lados, e eles se casaram após Lidia ter se divorciado de seu primeiro marido em 1904. Nenhum dos dois parecia ter uma sensualidade destacada, e segundo Berdiaev seu casamento nunca foi consumado, o deixando a vida toda esmagado pelo “fatal problema do sexo”.3 Ainda assim, eles forjaram para toda a vida um vínculo baseado na religiosidade e no compromisso social compartilhados, ao qual se somavam os hábitos de uma vida cultivada. Liam os clássicos, ouviam música, acompanhavam os acontecimentos políticos diariamente e viviam modestamente. O caráter de Nikolai era arrebatado e solitário, Lidia era nervosa e de certo modo histérica, mas de algum modo esse casal pré-freudiano exemplar se complementava perfeitamente. É provável que quando jovens Lidia e Evgenia tenham sido apressadamente dadas em casamento a homens da classe certa, mas que não eram escolhas do coração, já que Evgenia também abandonou o marido, Rapp. Descasada, ela se tornou — assim como Minna, irmã de Martha Freud — parte da família da irmã, e amiga devotada do cunhado. De fato, quando Lidia morreu Evgenia cuidou de Nikolai em seus três últimos anos de viúvo, e ele dedicou a ela sua autobiografi a. Os Losski eram menos politizados e menos excêntricos que os Berdiaevs. As origens provincianas de Nikolai Losski eram também muito mais modestas, porém não inferiores. Seu avô paterno era um padre católico ortodoxo e seu pai era um guarda-fl orestal que se tornou superintendente do distrito de polícia. Nikolai era um dos 15 fi lhos. Eles moravam numa pequena cidade próxima da fronteira da Rússia com a Letônia, numa área essencialmente polonesa. Era um menino esperto, mas quieto, que traçou seu caminho com facilidade durante a vida escolar, até esbarrar numa barreira política. Ao fi nal da adolescência, foi para o exterior, fugindo das repercussões ao fato de ser um crítico do czarismo, e iniciou seus estudos universitários na Suíça. Casouse com pouco mais de vinte anos e assim adentrou uma classe média instruída que bem poderia ser chamada de alta-burguesia russa. Losski também era fi lósofo, mas de tradição acadêmica, o que o afastou, pelo menos nos modos, do mundo mais individualista e carismático dos pensadores místicos da Rússia. Os alertas, as previsões e idéias de Berdiaev relativos à vida social e espiritual de seus contemporâneos nunca se pretenderam científi cos, ao passo que Losski, em sua busca de bondade e verdade, confi ava na racionalidade e no método, e podia esperar ter sua obra resenhada em uma publicação profi ssional internacional como Mind. Mas na prática a distância entre as contribuições de Berdiaev e Losski à fi losofi a não era grande, pois ambos eram completamente russos, operando em um quadro distinto das questões anglo-americanas e diferindo também da fi losofi a européia continental. Eles retomavam estruturas de raciocínio havia muito descartadas pelo pensamento racional hegemônico no Ocidente. Em uma época em que Wittgenstein e Russell insistiam no primado da linguagem precisa, somado à lógica matemática, Losski tentava reviver a obra do racionalista e deísta do século XVII, Gottfried Leibniz. Berdiaev buscava sua inspiração, de modo ainda mais radical, na tradição mística nascida na Grécia Antiga. Suas fontes eram Platão, neoplatonistas como Plotino, os pais da Igreja grega, Nicolau de Cusa, no século XV, e o anti-racionalista Jacob Boehme duzentos anos depois. Em sua História da fi losofi a russa, escrita no início da década de 1950, Losski disse de Berdiaev: Berdiaev está preocupado principalmente com o problema da personalidade. Essa é uma categoria espiritual, não natural. Não é uma substância, é um ato criativo (...) Algumas de suas idéias não estão em completa conformidade com as doutrinas tradicionais das Igrejas ortodoxa e católica (...)4 Berdiaev, paradoxalmente muito mais moderno em espírito que Losski, estava interessado naquilo que hoje chamaríamos de atos performativos de cognição. Ele era um personagem rebelde, que aproveitava oportunidades e se recusava a pertencer a uma época ou tendência específi ca. Seu vocabulário era freqüentemente vago e místico, mas uma de suas realizações foi perceber a importância que os pensadores do século XX iriam atribuir à subjetividade. Naquela noite de setembro de 1922 os dois fi lósofos fi caram sentados durante horas, ruminando. Havia muito a relatar, Berdiaev estava loquaz e ambos eram bem-informados. A cidade de São Petersburgo, onde Losski tinha estudado e se casado, e onde estava criando os fi lhos, era parte da identidade familiar, e a parcela que talvez tivesse sido a mais castigada na década anterior. “Piter”, como normalmente era chamada, tinha sido rebatizada de Petrogrado no começo da guerra contra a Alemanha porque o czar considerara o nome tradicional germânico demais. Porém, a mudança lingüística, embora compreensível, era desconfortável, e se tornou um símbolo da alienação da cidade nos primeiros anos da tomada soviética. Antes de perder seu status de capital e posteriormente ter o nome mudado para Leningrado em 1924, Piter foi deliberadamente desmontada como principal centro da Rússia européia, e um pouco desse enfraquecimento ainda podia ser sentido. Em 1922 o departamento de fi losofi a em que Losski tinha trabalhado por 16 anos estava sendo pressionado a fechar pelos bolcheviques. Um Instituto de Professores Vermelhos já estava produzindo uma sociologia adequada para sustentar a vida acadêmica soviética. O ginásio feminino de São Petersburgo, que a sogra de Losski, Maria Stoiunina, tinha fundado com o marido e dirigido em nome da família por mais de trinta anos, tinha sido pouco antes forçado a se tornar misto e a trocar seu nome por um número. Porém, ainda estava funcionando, com o nome de Ginásio nº 1, nos primeiros andares do prédio em que os Losski viviam, na rua Kabinetskaia, e com sua reputação de excelência intacta.5 Entre os alunos de madame Stoiunina na época estavam o segundo fi lho dos Losski e seu amigo “Mitia” Shostakovich, já um prodígio do piano. A irmã de Shostakovich, Mura, também freqüentava, como tinham feito Olga e Ielena Nabokova, irmãs do futuro romancista Vladimir Nabokov, antes da fuga da família em 1919. Os Nabokov, uma conhecida família conservadora, fi caram em uma situação perigosa depois da Revolução, porque Vladimir Dmitrievich Nabokov, pai do romancista, tinha sido ministro do governo provisório derrubado pelos bolcheviques. Se o Nabokov pai tivesse permanecido na Rússia, sua vida teria corrido perigo. Durante mais alguns meses a escola de Stoiunina continuou a ser uma das grandes instituições nas quais os fi lhos da classe profi ssional russa prérevolucionária podiam seguir os passos dos pais. Antes da fusão de alguns estabelecimentos e do fechamento de outros, antes da completa sovietização do ensino, os rapazes privilegiados tinham ido para a Academia Shidlovskaia. Todas as pessoas de nível mais alto, em todo o espectro político, do homem que durante um breve período tinha sido primeiro-ministro em 1917, Alexander Kerenski, a Lev Trotski, na época comissário da Guerra de Lenin, mandavam seus fi lhos para lá. Mas naquela época confusa de transição, uma perekodnaia situatsia, como dizem os russos, os padrões estavam desmoronando. Os Kerenski também tinham fugido para o exterior. Ninguém tinha como saber que tipo de mundo iria emergir depois de novembro de 1917, muito menos o jovem Shostakovich, cuja vida e música seriam perturbadas pelas práticas soviéticas. A vida cotidiana em 1922 tinha a característica de um ziguezague. Por um lado, as coisas pareciam quase normais depois da guerra civil e da fome e, por outro, perseguições, prisões e assassinatos campeavam. Apesar dos produtos nas lojas, da reabertura de cafés e teatros e dos rostos felizes nos bulevares, o ano político tinha sido terrível, com os julgamentos-espetáculo do clero de abril a junho e o julgamento dos Socialistas Revolucionários (SR), antigos aliados de Lenin, em julho. Foram imputadas sentenças de morte a homens cujo único crime era pertencer à oposição. Em meio aos julgamentos, em maio, o líder da Igreja Ortodoxa foi preso. O patriarca Tikon foi mantido detido indefi nidamente enquanto os bolcheviques substituíam sua Igreja por um modelo mais adequado, chamado, com grande e deliberada ironia, de zhivaya tserkov, “A Igreja Viva”. O crescente poder dessa instituiço falsa enfureceu Berdiaev enquanto ele se preparava para deixar o país.6 O próprio nome era um típico golpe bolchevique, signifi cando o oposto do que dizia, projetado para enganar mentes simples. A forma pela qual os comunistas corromperam a Igreja e assassinaram seus padres confi rmou a suspeita generalizada sobre a natureza da ideologia revolucionária no governo. O grande fi lósofo russo da geração anterior, Vladimir Soloviov, tinha alertado, pouco antes de sua morte em 1900, para o advento do Anticristo. Frank, Karsavin, Ilin, Vicheslavtsev e Aikenvald, todos eles membros destacados da intelligentsia, sentiam que o espírito da Rússia cristã estava em perigo. Losski, um crente fi el por toda a vida, que tinha o apoio de um Deus pessoal de uma forma diferente da de Berdiaev, não se expressou de maneira tão apaixonada, mas não tinha dúvidas acerca das iniqüidades da época, que se somavam aos vícios habituais dos homens para amaldiçoar a nova era. Em sua eloqüente autobiografi a, Losski recordou como tinha sido obrigado a esperar por uma cátedra de fi losofi a em Petrogrado até a idade relativamente avançada de 46 anos. Ele não era homem de guardar ressentimento, mas talvez desejasse uma carreira profi ssional mais fácil, especialmente já que, diferentemente do exuberante Berdiaev, ele não era do tipo que inseria suas aventuras mundanas em seus textos. O membro do corpo docente que tinha fi cado no seu caminho durante anos e que chegara mesmo a dizer a ele “você só consegue uma cátedra passando sobre o meu cadáver”, ou algo assim, era então um membro de destaque da “Igreja Viva”. Toda geração tem seus oportunistas ímpios, e aquele próximo a Losski era um fi lósofo moral — e padre — chamado professor Alexander Vvedenski. Porém, o membro da Igreja Viva na qual Berdiaev se concentrou foi Robert Iurevich Vipper. Vipper, historiador e especialista em estudos religiosos de 63 anos de idade, era o substituto dos bolcheviques para Tikon como líder da nova Igreja. Vipper tinha comparado o momento de então na história eclesiástica com o grande divisor de águas na história européia quando Martinho Lutero discordou de Roma, mas para Berdiaev aquilo era um acinte. Longe de ser igual ao surgimento do protestantismo, a fraude da Igreja Viva era uma invenção da “mente burocrática de Petersburgo” que podia ser culpada por todo o fenômeno do bolchevismo. Na véspera de sua partida da Rússia, a maior parte das idéias fundamentais que Berdiaev tinha sobre o destino de seu país já estava formada. Estas diziam respeito ao mal que a modernização da Rússia produziria se guiada pela “mente burocrática de Petersburgo” para acompanhar a Europa numa trilha descendente secular, racional e tecnocrática. É um lugar-comum da ciência política ocidental que o comunismo soviético evoluiu em parte como substituto e como continuação da tradicional religiosidade coletiva da Rússia. Os impiedosos manejadores do poder político na Rússia do século XX, primeiramente Lenin, depois Stalin, tinham pelo menos uma parcela de sua autoridade derivada do desejo religioso que o povo tinha de unidade e pertencimento. Mas como uma alternativa a essas teorias, que destacavam a fraqueza única da Rússia, Berdiaev se concentrou — mais de meio século à frente de seu tempo — naquilo que pensadores europeus posteriores à Segunda Guerra Mundial chamariam de perigo do “projeto de Iluminismo”. Em sua batalha contra o bolchevismo e o comunismo, esta foi a mensagem que ele repetiu sempre, a de que sem uma noção de transcendência era difícil ver como a humanidade poderia permanecer em contato com suas maiores aspirações de liberdade espiritual e autodeterminação moral. Para Berdiaev, a tecnologia, o surgimento de um mundo inteiramente orientado para as necessidades humanas e no qual a natureza parecia ser reduzida a um bem à disposição provavelmente embotaria a sensibilidade dos seres humanos, fundamental para sua refi nada sobrevivência cultural. Assim, Berdiaev teve uma discussão acalorada com os Losski sobre a “mente burocrática de Petersburgo”.7 Para qualquer russo estaria claro que Berdiaev se referia em parte ao fundador da cidade, Pedro, o Grande, que construiu seus palácios de pedra nas margens pantanosas do golfo da Finlândia contra todas as probabilidades. A frase também evocava o espírito do poema de Puchkin “O cavaleiro de bronze”, que dramatizava a luta do indivíduo humilde contra o grandioso poder do governante. Um dos subtextos era o momento em que o czar do século XVIII que abriu a janela da Rússia para a Europa expôs seu povo a suas experiências “iluministas” com a nova “tecnologia”. Puchkin escreveu sobre esse choque fundamental entre russos toscos e valores europeus modernizadores no século XIX, e Lenin o encenou novamente com sua experiência soviética no século XX. Se existia algo como a “mente burocrática de Petersburgo”, ela evidentemente se espalhava por três séculos. Em todos os casos o problema foi um processo de europeização imposto a uma Rússia informe, sofredora e tradicional. Lenin defendia a razão como princípio da ordem social, e defendia o avanço tecnológico, mas ambos operaram em oposição às forças tradicionais da religião e da tradição — e um tipo perverso de bondade.

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