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A Máquina de Xadrez (Cód: 1638566)

Löhr,Robert

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A Máquina de Xadrez

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Descrição

No século XVIII, o barão Wolfgang von Kempelen encantou toda a Europa com a máquina de xadrez. Era um autômato vestido de turco, invencível diante de um tabuleiro de xadrez. O mistério persistiu até descobrirem que um anã, responsável pelas jogadas geniais, escondia-se dentro da máquina. Baseado em uma história real.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Record
Cód. Barras 9788501075307
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788501075307
Profundidade 0.00 cm
Idioma Português
País de Origem Brasil
Peso 0.44 Kg
Largura 16.00 cm
AutorLöhr,Robert

Leia um trecho

Neuenburg, 1783 No caminho de Viena para Paris, Wolfgang von Kempelen parou com sua família em Neuenburg e, em 11 de março de 1783, apresentou na hospedaria da praça do mercado seu legendário autômato do xadrez, um andróide em trajes turcos que dominava a arte do xadrez. Os suíços não haviam preparado nenhuma recepção calorosa para Kempelen. Afinal, os construtores de autômatos do principado de Neuenburg eram tidos como os melhores do mundo. Eis que aparecia um conselheiro real da província húngara - um reles funcionário para quem a relojoaria não era um ganha-pão, mas passatempo - que tinha conseguido ensinar o seu autômato a pensar. Uma máquina inteligente. Um aparelho feito de molas, rodas, cabos e rolos, que havia derrotado praticamente todos os seus adversários humanos no jogo dos reis. Em comparação com a extraordinária máquina de xadrez de Kempelen, os autômatos de Neuenburg não passavam de enormes caixinhas de música, um divertimento trivial para nobres muito ricos. Apesar de todo o ressentimento, os ingressos para a apresentação do autômato do xadrez se esgotaram. Quem não tinha conseguido um lugar sentado teve de assistir de pé, atrás das fileiras de cadeiras. Os cidadãos de Neuenburg queriam ver como funcionava aquela maravilha da técnica, desejando no íntimo que Kempelen fosse um impostor, e que a invenção mais brilhante do século se revelasse, sob os seus olhares atentos, um simples truque de prestidigitação. Mas Kempelen frustrou suas esperanças. Quando, no início da apresentação, com um sorriso autoconfiante, mostrou o interior do aparelho, só o que apareceu foram engrenagens; e, quando deu corda nas engrenagens e o turco do xadrez começou a jogar, ele o fez com os inconfundíveis movimentos de uma máquina. Os patriotas locais tiveram de reconhecer que Kempelen não era nada menos do que um gênio da mecânica. O turco derrotou seus dois primeiros oponentes, o prefeito e o presidente do salão de xadrez de Neuenburg, em um espaço de tempo vergonhosamente curto. Kempelen solicitou então um voluntário para a terceira e última partida do dia. Passaram-se alguns instantes até que finalmente alguém se apresentou. Kempelen e seu público procuraram pelo voluntário, mas só foi possível vê-lo quando ele saiu do corredor formado pelos espectadores que haviam recuado: o homem era tão baixinho que mal batia na altura dos quadris dos presentes. Wolfgang von Kempelen recuou um passo e apoiou uma das mãos na mesa de xadrez. Visivelmente, a visão do anão o assustara, e ele empalideceu, como se estivesse diante de um fantasma. Gottfried Neumann - assim se chamava o anão - também era relojoeiro e viajara da vizinha La Chaux-de-Fonds a Neuenburg especialmente para ver o autômato do xadrez jogar. O anão tinha cabelos pretos com algumas mechas grisalhas, presos na nuca em uma trança prussiana. Os olhos castanhos eram iguais aos do turco do xadrez. O olhar era penetrante. As rugas na testa pareciam estar ali por obra da natureza, e as sobrancelhas pretas pareciam estar franzidas sobre os olhos desde o nascimento. Ele tinha a estatura de um menino de seis anos, mas era visivelmente mais forte; como se houvesse muito corpo para pouca pele. Ele trajava um justaucorps verde-escuro, feito sob medida, e um lenço de seda em volta do pescoço. Sussurros encheram o salão quando Neumann foi ao encontro de Kempelen. Ninguém no público jamais tinha visto Neumann jogar xadrez. O presidente do salão de xadrez solicitou outros voluntários, que fossem reconhecidos como bons jogadores, e que talvez pudessem se esforçar por um empate com o autômato. Mas ele se calou com as vaias da platéia. O turco se revelara imbatível - mas o jogo entre uma máquina e um anão era algo que, no mínimo, valia a pena ser visto. Kempelen não ajeitou a cadeira para o pequeno relojoeiro, como fizera para os jogadores que o antecederam. Como eles, Neumann sentou-se em uma mesa separada, com um tabuleiro separado, para permitir que o público visse o turco. Kempelen esperou que o anão se sentasse, pigarreou e pediu silêncio e atenção. Neumann contemplou o tabuleiro e as dezesseis figuras vermelhas à sua frente como se jamais tivesse visto algo semelhante, os ombros levantados e as palmas das mãos, como uma criança, apertadas contra o assento. O assistente de Kempelen deu corda no autômato do xadrez com o auxílio de uma manivela e o mecanismo colocou-se em movimento com um rangido. O turco levantou a cabeça, moveu o braço sobre o tabuleiro e, com três dedos, colocou um peão no meio - da mesma forma como iniciara as partidas anteriores. O assistente repetiu o lance no tabuleiro de Neumann, mas o anão não reagiu. Ele nem ao menos levantou o olhar. Seguia olhando embasbacado para cada uma das suas figuras, como se fossem conhecidos que ele julgava mortos havia muito tempo. O público ficou inquieto. Wolfgang von Kempelen já ia dizer alguma coisa, quando, finalmente, Neumann se mexeu. Ele moveu seu peão do rei duas casas para frente, desafiando assim o peão branco. Veneza, 1769 Numa manhã de novembro de 1769, Tibor Scardanelli acordou numa cela sem janelas, com sangue seco sobre o rosto inchado e uma dor de cabeça lancinante. Na penumbra, procurou em vão por uma jarra d'água. O cheiro de álcool nos seus trapos causava-lhe mal-estar. Desabou sobre o colchão de palha e apoiou as costas na fria parede de chumbo. Pelo jeito, certas experiências em sua vida estavam fadadas a se repetir - a traição, o roubo, a surra, a prisão, a fome. O anão jogara algumas partidas de xadrez por dinheiro em uma taberna, na noite anterior, e gastara seus primeiros ganhos com aguardente em vez de fazer uma refeição decente. Já estava bêbado, portanto, quando o jovem comerciante o desafiou por dois florins. Tibor vencia com facilidade, mas, quando ele se abaixou para pegar uma moeda que caíra, o veneziano recolocou no campo uma rainha há muito perdida. Tibor reclamou, mas o veneziano permaneceu irredutível - para a alegria dos seus acompanhantes. Finalmente, ofereceu um empate ao anão e recolheu seu dinheiro debaixo das gargalhadas dos que assistiam. O álcool atordoara o juízo de Tibor. Ele agarrou a mão do comerciante, que segurava o seu dinheiro. Na confusão, ele e o veneziano foram parar no chão. Tibor estava ganhando, até que um dos acompanhantes do comerciante quebrou o jarro com aguardente na sua cabeça. Tibor não chegou a perder a consciência, e permaneceu assim, enquanto os venezianos se revezavam no espancamento. Depois entregaram-no aos carabinieri, dizendo que o anão havia trapaceado no jogo e que os agredira e roubara. Os carabinieri levaram-no até a prisão mais próxima - as câmaras de chumbo acima do palácio dos Doges. Não deixaram para Tibor seu parco dinheiro nem seu tabuleiro de xadrez, mas pelo menos o amuleto com a Madona ainda estava pendurado no peito. Ele o agarrou com as duas mãos e pediu à Mãe de Deus que o libertasse daquele buraco. Não tinha ainda terminado sua oração quando a porta da cela foi destrancada e o guarda deixou entrar um nobre. O homem era talvez dez anos mais velho do que Tibor, tinha cabelos castanho-escuros com entradas nas têmporas e um rosto anguloso. Estava vestido à la mode, sem copiar o janotismo dos venezianos: um casaco marrom com punhos em ponta, calças da mesma cor, botas de montaria altas e um sobretudo preto. Na cabeça, um chapéu de três pontas molhado da chuva, e uma espada no cinto. Não parecia italiano. Tibor se lembrou de tê-lo visto entre os clientes da taberna na noite anterior. Em uma das mãos, o fidalgo levava uma jarra d'água e um pedaço de pão e, na outra, um tabuleiro de xadrez para viagens, todo trabalhado. O carcereiro trouxe um candelabro e um banco, no qual o visitante se sentou. O homem colocou a água, o pão e o chapéu ao lado do leito de Tibor. Sem dizer uma só palavra, abriu o tabuleiro de xadrez no chão e começou a arrumar as peças. Assim que o carcereiro deixou a cela e trancou a porta, Tibor não suportou mais o silêncio e se dirigiu ao visitante. - O que desejais de mim? - Você fala alemão? Isso é bom. Ele tirou um relógio de bolso do colete, abriu-o e colocou ao lado do tabuleiro. - Quero jogar uma partida contra você. Se conseguir me derrotar em quinze minutos, pago sua multa e você estará livre. - E se eu perder? - Se você perdesse - respondeu o homem, depois de colocar a última peça -, eu ficaria decepcionado... e você teria de esquecer que algum dia me conheceu. Mas, se eu puder lhe dar um conselho, ouça: derrote-me, não existe nenhuma outra possibilidade de sair daqui. Colocaram mais grades aqui desde os tempos de Casanova. Ditas essas palavras, o desconhecido saltou com seu cavalo sobre os peões. Tibor olhou para o tabuleiro e percebeu uma lacuna nas suas fileiras: sua rainha vermelha estava faltando. Tibor ergueu os olhos e o fidalgo se antecipou à sua pergunta. Bateu no bolso do colete no qual estava a dama. - Com a rainha seria demasiado fácil. - Mas como vou fazer sem a rainha... - Isso fica por sua conta. Tibor fez seu primeiro lance. O oponente reagiu imediatamente. Tibor fez cinco jogadas rápidas antes de se permitir, pela primeira vez, um pouco de pão e água. O fidalgo jogava de forma agressiva. A fim de se valer da quantidade favorável de peças e dizimar as figuras de Tibor, ele avançou com uma fileira de peões até a metade do tabuleiro de Tibor. No entanto, Tibor se afirmava. As pausas do adversário se tornaram mais longas. - Vossa reflexão me custa tempo - reclamou Tibor, passados cinco minutos no relógio de bolso. - Você terá de jogar mais rápido. Então, Tibor, jogou mais rápido: saltou sobre a linha de peões brancos e encurralou o rei. Cinco minutos depois Tibor já antevia que ganharia. O adversário acenou com a cabeça, colocou seu rei de lado e recostou-se no banco. - Vós desistis? - perguntou Tibor. - Eu interrompo o jogo. Sabe muito bem que eu não posso mais ganhar. Então vou utilizar seus últimos cinco minutos de prisão de uma forma mais proveitosa. Meus parabéns, você jogou com habilidade. - Ele esticou a mão para Tibor. - Sou Wolfgang, barão de Kempelen, de Pressburg. - Tibor Scardanelli, de Provesano. - Muito prazer. Quero lhe fazer uma proposta, Tibor. Para isso, preciso antes explicar que sou conselheiro de Sua Majestade, a imperatriz Maria Teresa, da Áustria e da Hungria. Desde que me tornei funcionário em sua corte, ela me confiou inúmeras tarefas, e eu cumpri todas, de forma a deixá-la totalmente satisfeita. Mas eram tarefas que qualquer outro homem bom poderia ter cumprido. Eu quero fazer algo de extraordinário. Algo que me destaque diante de seus olhos... e que talvez me torne imortal. Está me acompanhando? Wolfgang von Kempelen esperou que Tibor concordasse com a cabeça e prosseguiu. - Há algumas semanas o físico francês Pelletier exibiu alguns de seus experimentos na corte: brincadeiras com magnetismo, mágicas com pregos e moedas voadoras que se mexiam sobre um pedaço de papel, aparentemente movidos por mãos invisíveis; cabelos que subitamente se eriçavam e coisas do gênero. O doutor Mesmer já cura pessoas com os seus conhecimentos do magnetismo... Aí vem aquele francês enfeitiçador e rouba o meu precioso tempo e o da imperatriz com seu charlatanismo. Maria Teresa me perguntou ao final da apresentação o que eu achava de Jean Pelletier, e eu fui bem claro. Disse a ela que a ciência já estava bem mais adiantada, e que eu, que nem ao menos tinha estudado na Academia, como Pelletier, teria condições de apresentar um experimento que faria as demonstrações de Pelletier parecerem truques de prestidigitação. Ela me fez cumprir a minha palavra... Licenciou-me de todos os cargos por meio ano para que eu pudesse preparar este experimento. - Que experimento? - Eu mesmo não sabia na ocasião. Mas imaginei construir uma máquina insólita. Não sou apenas um conselheiro, fique sabendo; disponho também de conhecimentos no campo da mecânica. De início, quis construir para a imperatriz uma máquina falante. - Mas isso é impossível - objetou Tibor, involuntariamente. O barão de Kempelen sorriu e balançou a cabeça, como se muitos, antes de Tibor, tivessem reagido da mesma maneira. - Claro que é possível. Construirei para o mundo um aparelho que fale, tão claro quanto uma pessoa, todas as línguas deste mundo. No entanto meio ano é muito pouco para um trabalho hercúleo como esse, isso eu já percebi. O tempo não é suficiente nem mesmo para conseguir e testar todos os materiais necessários. E não se pode deixar uma imperatriz esperando. Portanto, pretendo construir outro tipo de máquina. Kempelen retirou a rainha do bolso do colete e colocou-a junto das outras peças. - Uma máquina de xadrez. Kempelen saboreou o olhar interrogador de Tibor e prosseguiu. - Um autômato que joga xadrez. Uma máquina que sabe pensar. - Isso não é possível. Kempelen sorria, enquanto tirava um maço de papel do colete e o desdobrava. - Você acabou de dizer isso. E, desta vez, tem razão. Uma máquina jamais saberá jogar xadrez. Teoricamente é possível, mas na prática... Ele entregou o papel a Tibor. Era o esboço de uma pessoa sentada diante de uma mesa; quase uma cômoda com as portas fechadas. Seus dois braços repousavam sobre a mesa e entre eles estava montado um tabuleiro. - Assim será a aparência do autômato - explicou Kempelen. - E, como ele não poderá funcionar com força própria, necessitará de um cérebro humano. Tibor estremeceu diante desse pensamento, e Kempelen riu novamente. - Não tenha medo. Não pretendo serrar o crânio de ninguém. Minha idéia é que alguém conduza o autômato pelo lado de dentro. Kempelen pôs o dedo sobre a cômoda fechada. Só então Tibor entendeu por que o barão húngaro o procurara e perseguira, por que estava ali sendo tão simpático com ele, e principalmente disposto a pagar pela sua libertação. Kempelen cruzou os braços sobre o peito. Tibor balançou a cabeça por muito tempo, antes de responder. - Não vou fazer isso. Kempelen ergueu as mãos de forma apaziguadora. - Calma, calma. Nem ao menos negociamos as condições. - Que condições? Isso é trapaça. - Não é nem mais nem menos trapaça do que magnetizar alguns pedaços de ferro e falar de "atração mágica". - Não mentirás. - Não jogarás por dinheiro, já que você me vem com a Bíblia. - As pessoas vão examinar a máquina e descobrir tudo. - Examinar, sim. Mas não descobrirão nada. Esta será a minha tarefa. Tibor ainda não estava convencido, mas não lhe ocorriam outros motivos. - Uma apresentação diante da imperatriz - disse Kempelen -, e depois disso destruo a máquina. Nos tempos atuais, até coisas sensacionais têm vida breve. Eu só preciso impressionar Maria Teresa uma única vez para me tornar um homem bem-sucedido. Então ela apoiará meus demais projetos. E quando, algum tempo depois, eu apresentar a minha máquina falante, o autômato do xadrez já terá sido esquecido há muito tempo. Tibor contemplou o esboço do autômato. - Ouça bem o que tenho a oferecer: você receberá uma remuneração generosa, uma boa estada e alimentação até a apresentação. E jogará diante dos olhos da imperatriz, talvez até mesmo contra ela. Muito poucos podem se vangloriar disso. - Não vai dar certo. - Supondo que realmente não dê certo, o que tem a temer? Eu provavelmente serei repreendido, mas você? Você poderá ficar com sua remuneração e sumir. Só tem a ganhar. Tibor permaneceu calado por algum tempo e depois olhou para o relógio. O tempo tinha se esgotado. - Se eu não fizer...vós não pagareis pela minha libertação? - Claro que o farei. Eu lhe dei minha palavra. Assim como eu lhe dou minha palavra de que nosso autômato do xadrez será um sucesso sem igual. Tibor dobrou o esboço cuidadosamente e devolveu-o. - Muito obrigado. Mas não quero trapacear. Kempelen encarou Tibor até ele desviar o olhar. Só então pegou seu papel de volta. - É uma pena - disse Kempelen, e começou a recolher as peças do jogo de xadrez. - Você estará perdendo uma oportunidade única de participar de algo grandioso. Wolfgang von Kempelen despediu-se rapidamente, ainda nas escadarias do palácio dos Doges, e disse a Tibor, em todo caso, o nome da sua hospedaria. Tibor seguiu-o com os olhos enquanto ele desaparecia pela praça de São Marcos. O húngaro deu a impressão de que Tibor seria apenas um dos muitos candidatos para a estranha tarefa. Voltara a chover, uma chuva de novembro fina, fria e persistente. Tibor voltou pelas vielas vazias para a taberna no rio San Canciano, onde o taberneiro e suas duas criadas ainda estavam ocupados com a arrumação. O taberneiro não se alegrou ao rever o arruaceiro. Contou a Tibor que o comerciante levara dinheiro e o tabuleiro de xadrez do anão como suvenir. Quando Tibor indagou pelo nome e endereço do veneziano, o taberneiro o colocou porta afora. Tibor permaneceu indeciso em frente à taberna, debaixo da chuva, até que as criadas puseram a cabeça para fora da porta. Uma delas prometeu que iria lhe contar o nome e o endereço. Em troca, queriam dar uma olhada no seu sexo, pois já desde a véspera estavam curiosas por saber se a vara dos anões realmente era maior do que a dos homens comuns. Tibor ficou sem fala, mas não tinha escolha. Sem o seu equipamento, o tabuleiro de xadrez, estaria perdido. Certificou-se de que estavam a sós e mostrou rapidamente o sexo. As criadas riram encantadas, e Tibor conseguiu o endereço. Tibor montou guarda em frente ao palazzo o resto do dia. Ficou logo completamente molhado pela chuva, mas a vantagem daquele mau tempo era que os cidadãos - e principalmente os carabinieri - passavam correndo por ele sem tomar conhecimento da sua presença. Sob o capuz, ele dava a impressão de ser uma criança perdida. Tibor teve de aguardar pacientemente até a noite. Só então o comerciante saiu do prédio. Trajava uma capa preta sobre o casaco colorido, e um chapéu com uma pena para se proteger da chuva. Tibor o seguiu, mantendo uma distância prudente. O perfume adocicado do veneziano era tão forte que Tibor não o teria perdido, apesar da chuva, nem mesmo se estivesse com os olhos vendados. Depois de alguns quarteirões, Tibor aproximou-se dele. O comerciante surpreendeu-se ao rever o anão e certificou-se de que estava com sua espada, segurando-lhe o punho. Ele não parou, e Tibor teve dificuldade para manter-se ao seu lado. - Desapareça, seu monstro. - Quero meu dinheiro e meu tabuleiro de xadrez de volta. - Não sei como saiu das câmaras de chumbo, mas posso providenciar num instante para que volte para lá. - Vós deveríeis estar preso! Dai-me meu xadrez! O comerciante enfiou a mão na capa e pegou o jogo de Tibor. - Isto aqui? Tibor tentou agarrá-lo, mas o veneziano tirou-o do seu alcance. - Vou jogar umas partidas agora com minha amada. Temos os nossos próprios jogos de xadrez, um de estanho e um muito valioso com figuras de mármore, mas este aqui - ele sacudiu o jogo vagabundo de Tibor, fazendo chacoalhar as peças - torna tudo mais rústico. Personalizado. - Eu não posso viver sem esse tabuleiro! O comerciante voltou a guardar o tabuleiro. - Tanto melhor. Tibor puxou a capa do homem. O veneziano se soltou com um movimento rápido, desembainhou a espada e colocou-a contra a garganta de Tibor. - Todos os estetas ficarão agradecidos se eu o matar. Portanto, não me dê nenhum motivo. Tibor ergueu as mãos num gesto pacificador. O veneziano recolocou a lâmina na bainha e afastou-se, rindo. Pouco antes do fim da noite, o veneziano saiu da casa da amante para pegar o mesmo caminho de volta. Durante oito horas Tibor ficou imaginando como os dois - cercados de deliciosas comidas, vinhos e almofadas de seda - estavam jogando xadrez. Com certeza, como leigos. Depois, amaram-se, rindo repetidamente à custa do anão bêbado e surrado, que naquele momento, encharcado e sem um abrigo, sentia falta do seu miserável tabuleiro de xadrez. Tibor estava preparado. Ele se entrincheirara entre os materiais de construção de uma obra que ficava em uma viela estreita no canal, pela qual o veneziano retornaria. Encontrara uma corda e prendera a ponta em um cesto cheio de tijolos, o qual estava na margem do canal. Quando o veneziano passou, Tibor esticou a corda. Seu inimigo foi ao chão, e imediatamente Tibor pulou sobre ele para amarrar suas mãos atrás das costas. Tibor nunca roubara nada antes; apenas queria recuperar o que lhe pertencia. Abriria mão até do seu dinheiro. Quando o comerciante percebeu o que estava acontecendo, gritou por socorro. A mão de Tibor tapou-lhe a boca. Com a outra mão, o anão tentou puxar o tabuleiro por baixo da capa. Mas de repente o veneziano se empinou e jogou Tibor de costas no chão. O jogo de xadrez caiu e se abriu. As peças se espalharam sobre o calçamento, algumas caíram nas águas do canal. O veneziano foi mais rápido do que Tibor. Como ainda estava com as mãos amarradas, deu um forte pontapé em Tibor. O anão caiu de costas sobre o cesto com os tijolos, fazendo com que este passasse da borda para dentro do canal. A corda se esticou e arrastou o comerciante pela calçada. Ele gritou horrorizado quando foi puxado para dentro do canal pelo peso dos tijolos. Tibor estava no caminho e foi arrastado junto para dentro da água. Mal afundou, Tibor começou a fazer movimentos de nado como um cachorrinho. Um forte chute do comerciante o acertou embaixo d'água. As roupas de Tibor se encharcaram rapidamente e o puxaram para baixo. Sua cabeça bateu em um muro e ele o seguiu para cima. De volta à superfície, cuspiu a água imunda do canal e se agarrou a uma saliência no muro. Somente depois de recuperar o fôlego é que Tibor se deu conta de que o comerciante não viera à tona com ele, e que as pedras e a corda o mantinham no fundo. Imóvel, Tibor observou como as ondas e as bolhas de ar diminuíam. Uma última série de bolhas estourou na superfície, depois o silêncio voltou. Só se ouvia a respiração ofegante de Tibor. Tibor seguiu pelo muro e tentou chegar à escada mais próxima. No caminho, seu pé bateu na cabeça do afogado. O contato despertou nele um verdadeiro horror, e ele temeu que o morto fosse agarrá-lo e puxá-lo para baixo a qualquer momento. Em pânico, agarrou-se aos degraus da escada e saiu de dentro d'água. Assim que sentiu os pés em solo firme, Tibor olhou fixamente para a água negra do canal. Imaginou estar vendo uma ratazana nadando na superfície, mas era apenas uma das suas peças de xadrez. O ridículo chapéu de penas do veneziano boiava na outra margem, como se fosse um pato colorido; além disso, não sobrara nada dele. Tibor juntou avidamente algumas peças, mas o jogo estava incompleto. Na pressa, jogou tudo dentro d'água, percebendo tarde demais que nem o tabuleiro nem as peças afundariam. Então, saiu em disparada. A igreja mais próxima era a de San Giovanni Elemosinario, mas as portas não abriam. As igrejas de San Polo e San Stae também estavam trancadas. Por entre as frestas de dois palazzi, Tibor viu o dia amanhecendo. Para ele, o sol era o olho de Deus, e Tibor precisava se esconder dele a qualquer preço. Ele só queria voltar a ver a luz do dia depois de confessar seu ato abominável diante de um altar. A porta de carvalho de San Maria Gloriosa finalmente cedeu, e Tibor suspirou aliviado quando se viu sozinho na igreja. O odor de cera de velas e de incenso o acalmou. Ele pegou água benta, passou na sua testa molhada e seguiu direto pela nave lateral até o altar de Maria, pois não poderia suportar, naquele momento, a visão de Jesus crucificado. O salvador atado o lembraria do veneziano no canal. Tibor caiu de joelhos diante da Virgem enlutada, arrependeu-se e rezou. De vez em quando, olhava para cima, e cada vez lhe parecia que Maria sorria de forma mais compreensiva. Agora que a tensão o abandonara, começou a sentir frio. O frio subiu das lajotas de pedra pela sua roupa, e logo ele tremia dos pés à cabeça. Desejou estar nos cálidos braços da Mãe de Deus, onde estava agora o Menino Jesus. Mas era bom sofrer - afinal, ele acabara de matar uma pessoa. Até mesmo a guerra poupara Tibor desse pecado. Tendo sido expulso aos quatorze anos do sítio dos pais, da sua cidade natal Provesano e da República de Veneza, porque vizinhos o acusavam de molestar as meninas do povoado, um regimento de dragões austríaco que passava pelas cercanias de Udine o acolheu. Os soldados iam para o norte, para libertar a Silésia dos usurpadores prussianos, e Tibor foi recrutado como descalçador de botas e amuleto de sorte. Foi assim que, na primavera de 1759, Tibor participou da Guerra dos Sete Anos, desencadeada três anos antes. O descalçador de botas acompanhou seu regimento passando por Viena e Praga até a Silésia, e os dragões creditaram a vitória sobre as tropas prussianas em Kunersdorf à sorte que ele lhes trazia. Tibor vivenciou a ocupação de Berlim e não levava uma vida difícil nos acampamentos e nas cidades ocupadas. Aprendeu a falar alemão, ganhou um pequeno uniforme feito sob medida para o seu corpo, era alimentado lautamente e participava de vez em quando das bebedeiras dos soldados. Mas a sorte abandonou os austríacos em novembro de 1760. O regimento de Tibor foi aniquilado na batalha de Torgau. Apesar de não tomar parte no combate, o descalçador levou um tiro de mosquetão na coxa e não conseguiu ir muito longe na retirada noturna. Soldados montados fizeram-no prisioneiro. Como os couraçados prussianos tinham perdido mais da metade do seu batalhão durante o combate, eles ansiavam por vingança. O anão era uma presa original, e seria pena executá-lo sumariamente. Então os prussianos esvaziaram um barril de peixe conservado na salmoura, enfiaram Tibor dentro dele, pregaram a tampa e jogaram o infeliz no rio Elba. Tibor ficou preso por dois dias e duas noites. Ele não podia se mover, muito menos se libertar. O ferimento na coxa estava enfaixado precariamente, e a água gelada do Elba minava por uma fresta entre as tábuas do barril. Tibor tinha de virar o buraco para cima ou tapá-lo para não se afogar. O barril foi a prisão de Tibor, mas também seu barco salva-vidas, já que ele não sabia nadar. O fedor de peixe o fez vomitar, mas dois dias depois, esfomeado, ele lambia a salmoura das aduelas. O extenuado anão gritou por socorro até perder a voz. Então lembrou-se do medalhão de Maria no seu pescoço e buscou sua salvação na oração, jurando para a Mãe Maria que nunca mais beberia se ela o libertasse daquele cárcere flutuante. Seis horas depois ele lhe prometeu sua virgindade e, outras três horas mais tarde, fez promessas de ir para um mosteiro. Se tivesse agüentado mais uma hora, teria sido salvo sem fazer nenhuma daquelas promessas, pois o barril chegou à cidade de Wittenberg. Barqueiros pescaram Tibor de dentro do Elba e o libertaram; e justamente ali, na cidade de Lutero, ele caiu ao chão, cobriu-o de beijos e balbuciou orações de agradecimento católicas - como se um anão marinado, fedendo a peixe e num uniforme ensangüentado dos dragões não fosse uma visão suficientemente estranha. Tibor foi preso, o ferimento foi tratado, e o uniforme fedorento, queimado. Ele se recuperou rapidamente e se impacientou com igual rapidez: dera sua palavra à Virgem Maria e queria cumpri-la o quanto antes. Tibor teve de esperar três meses antes de ser libertado. Embora a guerra estivesse a pleno vapor, o custo de manter Tibor preso era mais alto para os prussianos do que a serventia que ele poderia ter para os austríacos. Novamente em liberdade, agregou-se a um grupo de atores a caminho da Polônia. Era o caminho mais rápido para voltar ao solo romano-católico. Quando o repicar dos sinos despertou Tibor de sua devoção, a água dos canais já havia escurecido a pedra sob seus joelhos. Alguns fiéis madrugadores já estavam reunidos nos bancos ou diante do confessionário. Tibor acendeu uma vela para o morto, fez uma oração pela sua alma e pôs-se a caminho da hospedaria de Wolfgang von Kempelen. O barão húngaro já tinha partido. Enquanto Tibor tentava dominar o pânico, o porteiro acrescentou que Kempelen faria uma parada em um vidreiro de Murano antes de voltar para casa. Tibor atravessou o canal para Murano e, apesar de sua aparência esfarrapada, foi imediatamente encaminhado ao escritório do signore Coppola. Um empregado conduziu-o através da vidraria até uma porta, na qual bateu três vezes. Enquanto aguardavam um sinal do lado de dentro, o empregado observava Tibor, ou melhor, um de seus olhos observava Tibor, já que o outro, como se tivesse vida própria, olhava fixamente para a porta. E, como se não bastasse, um dos olhos era castanho e o outro verde. Tibor já estava a ponto de dar meia-volta quando uma voz vinda de dentro o mandou entrar. O criado vesgo abriu a porta para Tibor. O escritório de Coppola parecia uma oficina de alquimista, com a diferença de que o que importava ali eram os vidros, balões e frascos, não seu conteúdo. Na única mesa livre no centro da sala sem janelas estavam sentados Wolfgang von Kempelen e, diante dele, Coppola, um homem gordo, sem queixo, com um avental de couro. Entre ambos, sobre a mesa, havia uma caixinha não muito alta. Kempelen não pareceu muito surpreso ao rever Tibor. - Chegou na hora certa - cumprimentou-o. - Sente-se. Coppola indicou um banquinho, que Tibor colocou ao lado de Kempelen. O mestre vidreiro não disse uma só palavra nem pareceu se importar com a aparência incomum de Tibor. Mas o encarou de forma tão penetrante que Tibor não agüentou, piscou e desviou o olhar. Kempelen fez um sinal com a mão, pedindo ao veneziano pançudo que prosseguisse. Coppola girou o estojo com o fecho voltado para Kempelen e Tibor, abrindo-o solenemente. No estojo, em pequenos buracos revestidos com veludo vermelho, havia doze globos oculares - seis pares de olhos - e todas as pupilas estavam voltadas para Tibor. Horrorizado, Tibor fez o sinal-da-cruz. Kempelen soltou uma gargalhada e Coppola uniu-se a ele com uma gargalhada rouca. - Delicioso! - elogiou Kempelen o vidreiro num italiano impecável. - Não poderia haver melhor prova do seu trabalho. Coppola calçou uma luva de pano, retirou um olho muito azul do seu buraco de veludo e colocou-o diante de Kempelen sobre um pedaço de tecido. Kempelen pegou o olho de forma menos cuidadosa e o fez girar nas mãos, fazendo com que a pupila sempre aparecesse entre os seus dedos. Depois recolocou o olho no estojo de veludo, junto ao seu par, mas revirado de um jeito que deixou os olhos inanimados horrivelmente vesgos. Coppola mostrou outros olhos para Kempelen. Tibor percebeu então que se tratava de olhos de vidro, não de olhos de mortos, devidamente conservados, como imaginara no início. Mas isso não tornava a visão dos olhos mais suportável para ele. Depois de olhar bastante, Kempelen perguntou a Tibor: - Então, quais devem ser os seus olhos? - Meus...? - O autômato. Quais deles você escolheria para o autômato? Tibor apontou para o par de olhos azuis vesgos. Coppola concordou ofegante, mas Kempelen sacudiu a cabeça. - Um turco de olhos azuis? Assim, a imperatriz se sentiria realmente ludibriada. Wolfgang von Kempelen tinha pressa em retornar para Pressburg, e isso ia ao encontro do que Tibor queria. A qualquer momento uma gôndola esbarraria no cadáver do comerciante, e o anão seria procurado. Kempelen não procurou saber o que tinha feito com que o anão mudasse de idéia tão rapidamente. Em Mestre, já em terra firme, comprou-lhe roupas novas, e eles partiram em um coche. No dia seguinte Tibor foi acometido de uma forte gripe. Kempelen abasteceu o doente com remédios e agasalhos, mas sem interromper a viagem. Durante o trajeto, negociou com Tibor as condições do seu contrato. Kempelen sugeriu uma remuneração semanal de cinco florins, com casa e comida de graça, além de um bônus de cinqüenta florins, caso a apresentação diante da imperatriz transcorresse com sucesso. Tibor ficou tão impressionado com aqueles números que nem lhe ocorreu regatear. O último emprego mais duradouro de Tibor tinha sido no verão de 1761, no mosteiro polonês de Obra, onde fora parar ao fugir da Prússia. Trabalhou como jardineiro, aprendeu a ler e escrever e agradecia diariamente ao Deus Pai, ao Salvador e principalmente à Santa Mãe de Deus pelo fato de existirem os muros protetores do mosteiro. Mas não se tornou um monge, já que isso ele nunca prometera à Santa Mãe. A estadia de Tibor no mosteiro não foi eterna; durou apenas quatro anos. Um grupinho de noviços desobedeceu à proibição do abade de jogar xadrez, e Tibor também foi iniciado no jogo dos reis. Um noviço explicou as regras ao anão, e Tibor venceu todos os seus adversários desde o primeiro jogo. Impossível imaginar que ele nunca tivesse jogado xadrez antes. Passadas algumas semanas, ele se tornou uma atração: cada vez mais monges iam sendo iniciados na confraria secreta do xadrez, jogavam e perdiam para o recém-descoberto gênio do xadrez. O anão desfrutou da sua fama até que um mau perdedor chamou a atenção do abade para o jogo de azar dentro dos seus muros. O caso necessitava de um bode expiatório, e a escolha recaiu sobre Tibor. Unânimes, os noviços reiteraram que o anão os seduzira para o jogo. Assim, ele teve de deixar Obra. Recebeu o seu salário e o tabuleiro, já que - assim disseram os noviços ao abade - ele o contrabandeara para dentro do mosteiro. Tibor, portanto, estava novamente na rua no outono de 1765 e, como fazia muito frio, resolveu rumar para o sul. Seu caminho de volta à República de Veneza levou três anos. O jogo de xadrez lhe custara o emprego, portanto devia agora alimentá-lo: ele ganhava dinheiro com as apostas dos seus adversários nas tabernas ao longo do caminho. Freqüentemente jogava por bens materiais: uma refeição aqui, um pernoite acolá ou um assento na carruagem dos correios. Poderia certamente ter ganhado mais dinheiro nas cidades, mas ele evitava todas as grandes localidades. Ter um povoado inteiro observando-o com espanto já era suficientemente incômodo para ele. O pequeno jogador de xadrez tornou-se uma sensação nos vilarejos, mas nunca foi realmente benquisto; muito menos depois de tirar o dinheiro dos seus moradores. Tibor buscava consolo nas orações à Madona diante das hostilidades. Ele se detinha em cada oratório ou capela que encontrava à beira do caminho. Mas a distante Mãe de Deus nem sempre estava junto dele. Então ele descobriu outro consolo, bem mais palpável: a aguardente. Como passava a maior parte do tempo nas estalagens, o caminho até a cachaça não era muito longo. Quando caminhou, ao anoitecer, perto da divisa com a República de Veneza, foi derrubado e roubado por moradores do vilarejo, que haviam perdido na véspera mais de quarenta florins para ele. No verão de 1769, aos vinte e quatro anos, ele estava de volta à pátria - a pé, em farrapos, e como um ébrio. Alguns meses depois ele a deixava. Em uma carruagem, bem-vestido e com um saco cheio de moedas. Wolfgang, barão de Kempelen, e Tibor Scardanelli chegaram ao seu destino na tarde do dia de São Nicolau. Pouco antes de chegarem à margem do Danúbio, do lado oposto de Pressburg, Kempelen mandou a carruagem parar num morro. Caía uma neve tênue que se desmanchava ao tocar o chão. Tibor olhou para a cidade depois de urinar. Pressburg parecia quase monótona em comparação com Veneza: uma cidade organizada, que se expandira além dos seus muros; em primeiro plano, as cabanas dos pescadores e barqueiros, atrás, os vinhedos. Somente a catedral de São Martinho, com a sua torre verde, sobressaía. À esquerda, o morro sobre o qual ficava o abrutalhado castelo, que mais parecia uma mesa virada; as quatro torres nos seus cantos lembravam pés de mesa estendidos para o céu. O Danúbio corria cansado em seu leito ao longo de Pressburg, dividido ao meio por uma ilha. Kempelen aproximou-se de Tibor e apontou para uma ponte que unia as duas margens. - Está vendo aquilo? A ponte flutua. Quando algum navio quer passar, as duas metades da ponte são separadas uma da outra, e depois amarradas novamente. - Uma ponte flutuante? - Exatamente. Uma obra extraordinária, não é mesmo? Agora pergunte quem a construiu. - Quem foi? - Wolfgang von Kempelen. E quem consegue construir uma ponte sobre o maior rio da Europa com certeza consegue esconder um anão dentro de um móvel. Kempelen ajoelhou-se ao lado de Tibor e colocou uma das mãos sobre o seu ombro. - Olhe bem para esta cidade, pois você não verá muita coisa dela nos próximos meses. - Por quê? - Muito simples: porque em nenhum momento nenhum cidadão de Pressburg deve vê-lo. - O quê? - Um gênio do xadrez de baixa estatura mora na casa de Kempelen, e alguns meses depois o barão apresenta uma máquina de xadrez. Não acha que alguém acabaria desconfiando de alguma coisa? Tibor examinou a catedral de São Martinho. Ele queria muito ver a Virgem Maria pelo menos uma vez. - Sinto muito, mas são as minhas condições. Tenho muito mais a perder do que você, nunca se esqueça disso. - Kempelen deu um tapinha nas costas de Tibor para animá-lo. - Mas não se preocupe, minha casa é uma cidade em si. Nada lhe faltará. Kempelen levantou-se, limpou a terra dos joelhos e voltou para a carruagem. Segurou a porta para Tibor como se fosse um lacaio e fez uma reverência. - Por favor: sua primeira prova na arte de se esconder. Tibor subiu na carruagem e, pouco depois, os dois atravessavam o rio pela ponte flutuante de Kempelen.

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