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A Náusea - Col. Saraiva de Bolso (Cód: 3649365)

Sartre,Jean-paul

Saraiva De Bolso

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Descrição

'A náusea', romance de 1938, marcado pelo existencialismo, é considerado, pelo autor e pela crítica, o mais perfeito livro de Sartre. Antoine Roquentin é símbolo de uma geração que descobre a ausência de sentido da vida e tem de lidar com todos os desdobramentos que essa experiência pode suscitar. As reflexões do personagem principal, narradas em forma de diário, versam sobre o significado da existência e atingem seu ponto máximo quando o sentimento de vazio começa a gerar náusea em Roquentin.

Tradutor: Rita Braga

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Saraiva De Bolso
Cód. Barras 9788520924938
Altura 17.50 cm
I.S.B.N. 9788520924938
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2011
Idioma Português
País de Origem Brasil
Peso 0.44 Kg
Largura 10.50 cm
AutorSartre,Jean-paul

Leia um trecho

Folha sem data O melhor seria anotar os acontecimentos dia a dia. Manter um diário para que possam ser percebidos com clareza. Não deixar escapar as nuanças, os pequenos fatos, ainda quando pareçam insignificantes, e sobretudo classificá-los. É preciso que diga como vejo esta mesa, a rua, as pessoas, meu pacote de fumo, já que foi isso que mudou. É preciso determinar exatamente a extensão e a natureza desta mudança. Por exemplo, eis aqui um estojo de papelão que contém meu frasco de tinta. Seria preciso tentar dizer como o via antes e como atualmente eu o .1 Pois bem, é um paralelepípedo retangular, destaca-se sobre — é tolo, não há o que dizer a respeito. É isso que tem que ser evitado; é preciso não colocar estranheza onde não existe nada. Creio que é esse o perigo, quando se faz um diário: exagera-se tudo, vive-se à espreita, força-se constantemente a verdade. Por outro lado, é certo que posso, de um momento para o outro — e precisamente em relação a este estojo ou a qualquer outro objeto — reencontrar a impressão de anteontem. Tenho que estar sempre pronto; do contrário, ela mais uma vez me escorregaria por entre os dedos. É preciso nada 2 mas anotar cuidadosamente, e com a maior minúcia, tudo o que ocorre. Naturalmente, já não posso escrever nada de preciso sobre aquelas histórias de sábado e de anteontem, já estou muito distanciado delas; só posso dizer que, tanto num caso como no outro, não houve nada do que se chama comumente um acontecimento. Sábado, os meninos brincavam com pedras, fazendo-as ricochetear, e eu queria imitá-los e jogar uma no mar. Nesse momento, detive-me, deixei cair a pedra e fui embora. É provável que eu parecesse perdido, já que os meninos riram quando lhes dei as costas. É isso, quanto ao exterior. O que ocorreu em mim não deixou vestígios claros. Havia algo que vi e que me desagradou, mas já não sei se estava olhando para o mar ou para o seixo. O seixo era achatado, seco de um lado, úmido e lamacento do outro. Eu o segurava pelas bordas, com os dedos muito afastados, para não me sujar. Anteontem foi muito mais complicado. E houve também essa sequência de coincidências, de quiproquós que não consigo entender. Mas não vou me distrair colocando tudo isso no papel. Enfim, é certo que tive medo ou algum sentimento do gênero. Se pelo menos soubesse do que tive medo, já teria dado um grande passo. O curioso é que absolutamente não me sinto inclinado a me considerar louco e vejo até, com toda evidência, que não estou louco: todas essas mudanças dizem respeito aos objetos. Pelo menos é disso que gostaria de ter certeza. Dez e meia3 É bem possível, afinal, que se trate de uma pequena crise de loucura. Já não há vestígios dela. Meus estranhos sentimentos da outra semana me parecem hoje bastante ridículos: já não me identifico com eles. Essa noite, estou muito à vontade, burguesmente instalado no mundo. Esse é meu quarto, virado para o nordeste. Embaixo, a rua dos Mutilés e o canteiro de obras da nova estação. De minha janela, na esquina do bulevar Victor-Noir, vejo a flâmula vermelha e branca do Rendez-vous des Cheminots. O trem de Paris acaba de chegar. As pessoas saem da antiga estação e espalham-se pelas ruas. Ouço passos e vozes. Muita gente espera o último bonde. Devem formar um grupinho triste em torno do lampião de gás, bem embaixo de minha janela. Ainda terão que esperar alguns minutos: o bonde não passa antes das 22h45. Tomara que não cheguem caixeiros-viajantes essa noite: desejo tanto dormir e estou com o sono tão atrasado!... Com uma noite bem-dormida, uma só, todas essas histórias seriam varridas de minha cabeça. Quinze para as onze: nada mais a temer, eles já teriam chegado, se fosse o caso. A não ser que seja o dia do senhor de Rouen. Vem todas as semanas, reservam-lhe o quarto nº 2, no primeiro andar, o que tem um bidê. Ainda pode chegar: muitas vezes toma um chope no Rendez-vous des Cheminots antes de ir se deitar. Aliás, ele não faz muito barulho. É baixinho e muito asseado, com bigodes pretos encerados e uma peruca. Aí está ele. Pois bem, quando o ouvi subindo a escada, meu coração bateu mais forte, tal a tranquilidade que isso me proporcionava: o que se pode temer num mundo tão regular? Creio que estou curado. E eis o bonde 7, Abbatoirs-Grands Bassins. Chega com a barulheira de suas ferragens. Torna a partir. Agora, carregado de malas e de crianças adormecidas, desaparece na escuridão do leste, em direção aos Grands Bassins, em direção às fábricas. É o penúltimo bonde; o último passará dentro de uma hora. Vou me deitar. Estou curado, desisto de escrever minhas impressões dia a dia, como as meninas, num bonito caderno novo. Somente num caso poderia ser interessante fazer um diário: seria se4. Diário Segunda-feira, 25 de janeiro de 1932 Alguma coisa me aconteceu, já não posso mais duvidar. Isso veio como uma doença, não como uma certeza comum, não como uma evidência. Instalou-se pouco a pouco, sorrateiramente: senti-me um pouco estranho, um pouco incomodado, e foi tudo. Uma vez no lugar, não mais se mexeu, ficou quieto e consegui me persuadir de que não tinha nada, de que era um alarme falso. E eis que agora a coisa se expande. Não creio que a profissão de historiador incite à análise psicológica. Em nosso trabalho só lidamos com sentimentos inteiros, aos quais damos nomes genéricos como Ambição, Interesse. No entanto, se tivesse um mínimo de conhecimento de mim mesmo, seria esse o momento de utilizá-lo. Em minhas mãos, por exemplo, há algo de novo, uma determinada maneira de segurar meu cachimbo ou meu garfo. Ou então é o garfo que tem agora uma determinada maneira de ser segurado, não sei. Ainda há pouco, quando ia entrando em meu quarto, parei de repente, porque sentia em minha mão um objeto frio que retinha minha atenção através de uma espécie de personalidade. Abri a mão, olhei: estava segurando apenas o trinco da porta. Esta manhã, na biblioteca, quando o Autodidata5 veio me cumprimentar, levei dez segundos para reconhecê-lo. Via um rosto desconhecido, apenas um rosto. E depois havia sua mão, como um grande verme branco, em minha mão. Soltei-a logo e o braço descaiu frouxamente. Também nas ruas há uma quantidade de ruídos estranhos que persistem. Portanto, ocorreu uma mudança durante essas últimas semanas. Mas onde? É uma mudança abstrata que não se fixa em nada. Fui eu que mudei? Se não fui eu, então foi esse quarto, essa cidade, essa natureza; é preciso decidir. Acho que fui eu que mudei: é a solução mais simples. A mais desagradável também. Mas enfim tenho que reconhecer que sou sujeito a essas transformações súbitas. O que acontece é que penso muito raramente; então, uma infinidade de pequenas metamorfoses se acumulam em mim, sem que eu me dê conta, e aí, um belo dia, ocorre uma verdadeira revolução. Foi isso que deu à minha vida esse aspecto vacilante, incoerente. Quando deixei a França, por exemplo, houve muita gente que disse que minha partida era uma decisão irrefletida. E quando retornei bruscamente, após seis anos de viagem, novamente isso poderia ter sido considerado uma decisão irrefletida. Ainda me revejo, como Mercier, no escritório desse funcionário francês que se demitiu no ano passado em consequência do caso Pétrou. Mercier dirigia-se a Bengala com uma missão arqueológica. Eu sempre desejei ir a Bengala, e ele insistia que eu fosse com ele. Atualmente me pergunto por quê. Creio que ele não confiava em Portal e contava comigo para mantê-lo sob vigilância. Não via nenhum motivo para recusar. E ainda que tivesse pressentido, na ocasião, esse pequeno conluio com relação a Portal, seria mais uma razão para aceitar com entusiasmo. Pois bem, fiquei paralisado, não conseguia dizer uma palavra. Olhava para uma pequena estatueta khmeriana sobre um pano verde, junto a um telefone. Parecia-me que eu estava cheio de linfa ou de leite morno. Mercier me dizia, com uma paciência angelical que disfarçava uma ponta de irritação: — Tenho necessidade de uma definição oficial, não é? Sei que vai terminar dizendo que sim: seria melhor que aceitasse imediatamente. Ele tem uma barba preto-arruivada, muito perfumada. A cada movimento de sua cabeça, eu respirava uma onda de perfume. E depois, de repente, despertei de um sono de seis anos. A estátua me pareceu desagradável e estúpida, e senti que me entediava profundamente. Não conseguia entender por que estava na Indochina. O que fazia ali? Por que falava com aquelas pessoas? Por que estava vestido de maneira tão estranha? Minha paixão morrera. Durante anos, ela me submergira e me arrastara; agora, me sentia vazio. Mas isso não era o pior: diante de mim, instalada com uma espécie de indolência, havia uma ideia volumosa e insípida. Não sei bem o que era, mas não podia encará-la, de tal modo me repugnava. Tudo isso se confundia para mim com o perfume da barba de Mercier. Recompus-me, extremamente indignado com ele, respondi secamente: — Agradeço-lhe, mas creio que já viajei bastante: agora tenho que retornar à França. Dois dias depois tomava o navio para Marselha. Se não estou equivocado, se todos os indícios que se acumulam são precursores de uma nova reviravolta em minha vida, então tenho medo. Não que minha vida seja rica, nem preciosa. Mas sinto medo do que vai nascer, se apoderar de mim — e me arrastar para onde? Terei que partir novamente ou abandonar minhas pesquisas, meu livro? Despertarei, dentro de alguns meses, dentro de alguns anos, alquebrado, decepcionado, em meio a novas ruínas? Gostaria de me entender com exatidão antes que seja tarde demais. Terça-feira, 26 de janeiro Nada de novo.Trabalhei de nove à uma na biblioteca. Organizei o capítulo XII e tudo o que diz respeito à estada de Rollebon na Rússia, até a morte de Paulo I. É trabalho terminado: só terei que retomá-lo quando for passar a limpo. É uma e meia. Estou no café Mably comendo um sanduíche, tudo está mais ou menos normal. Aliás, nos cafés, tudo está sempre normal, particularmente no Mably, por causa do gerente, o sr. Fasquelle, que traz estampada no rosto uma expressão velhaca muito positiva e alentadora. Está quase na hora de sua sesta, e seus olhos já estão avermelhados, mas continua a se movimentar com vivacidade e decisão. Passeia entre as mesas e se aproxima dos fregueses com ar confidencial: — Está a seu gosto, senhor? Sorrio ao vê-lo tão vivaz: nas horas em que seu estabelecimento se esvazia, também sua cabeça se esvazia. De duas às quatro o café fica deserto; então o sr. Fasquelle dá alguns passos, como que idiotizado, os garçons apagam as luzes e ele mergulha na inconsciência: quando fica sozinho, esse homem dorme. Há ainda uns vinte fregueses, celibatários, modestos engenheiros, empregados de escritórios. Almoçam rapidamente em pensões familiares que chamam de suas cantinas e, como têm necessidade de um pouco de luxo, vêm aqui após a refeição, tomam um café e jogam pôquer; fazem um pouco de barulho, um barulho inconsistente que não me incomoda. Também eles, para existir, precisam estar reunidos. Quanto a mim, vivo sozinho, inteiramente só. Nunca falo com ninguém; não recebo nada, não dou nada. O Autodidata não conta. É verdade que existe Françoise, a dona do Rendez-vous des Cheminots. Mas falo com ela? Algumas vezes, após o jantar, quando me serve um chope, pergunto-lhe: — Dispõe de tempo essa noite? Ela nunca diz não e eu a sigo até um dos quartos grandes do primeiro andar, que ela aluga por hora ou por dia. Não lhe pago: fazemos amor au pair. 6 Ela sente prazer (necessita de um homem por dia e tem muitos outros além de mim) e me purgo assim de certas melancolias cuja causa conheço muito bem. Mas raramente conversamos alguma coisa. Para quê? Cada um por si; a seus olhos, aliás, continuo sendo, antes de mais nada, um freguês do café. Ela me diz, enquanto tira o vestido: — Diga-me uma coisa, você conhece um aperitivo chamado Bricot? Porque dois clientes pediram isso essa semana. A menina não sabia o que era, veio me avisar. Eram caixeiros-viajantes, devem ter bebido em Paris. Mas não gosto de comprar sem saber. Se não se incomoda, vou ficar de meias. Em outras épocas — até muito tempo depois de ela ter me deixado — pensei por Anny. Atualmente já não penso mais por ninguém; nem sequer me preocupo em procurar palavras. Isso fui em mim, mais depressa ou mais devagar, não fixo nada, deixo correr. A maioria das vezes, por não se ligarem a palavras, meus pensamentos permanecem nebulosos. Desenham formas vagas e agradáveis, submergem: esqueço-os imediatamente. Esses jovens me maravilham: bebendo seu café, contam histórias inteligíveis e verossímeis. Se lhes perguntamos o que fizeram ontem, não se perturbam: informam-nos em duas palavras. No lugar deles, eu gaguejaria. É verdade que faz já muito tempo que ninguém se preocupa com o que faço. Quando se vive sozinho, já nem mesmo se sabe o que é narrar: a verossimilhança desaparece junto com os amigos. Também os acontecimentos deixamos correr; vemos surgir bruscamente pessoas que falam e que se vão, mergulhamos em histórias sem pé nem cabeça: seríamos testemunhas execráveis. Em compensação, não nos escapa tudo o que é inverossímil, tudo a que não dariam crédito nos cafés. Sábado, por exemplo, por volta das quatro da tarde, na ponta da calçada, sobre a passagem de tábuas do canteiro de obras da estação, uma mulherzinha vestida de azul-celeste corria de costas, rindo e sacudindo um lenço. Ao mesmo tempo um negro, com uma capa creme, sapatos amarelos e um chapéu verde, dobrava a esquina, assobiando. A mulher, sempre de costas, chocou-se com ele sob um lampião pendurado na paliçada e que é aceso à noite. Havia então ali, ao mesmo tempo, essa paliçada com forte cheiro de madeira molhada, esse lampião, essa mulherzinha loura nos braços de um negro, sob um céu flamejante. Se fôssemos quatro ou cinco, creio que teríamos notado o choque, todas essas cores suaves, o bonito casaco azul que parecia um edredom, a capa clara, os vidros vermelhos do lampião; teríamos rido da estupefação que se estampava naqueles dois rostos de criança. Raramente um homem sozinho sente vontade de rir: a cena toda assumiu para mim um sentido muito forte e até violento, mas puro. Depois se dissolveu; só ficaram o lampião, a paliçada e o céu: ainda era bastante bonito. Uma hora depois o lampião estava aceso, soprava o vento, o céu estava escuro: já não restava mais nada. Nada disso é novo; nunca rejeitei essas emoções inofensivas; ao contrário. Para experimentá-las, basta que se esteja um pouco sozinho, o suficiente para se livrar, no momento adequado, da verossimilhança. Mas eu me mantinha bem perto das pessoas, na superfície da solidão, decidido, em caso de alarme, a me refugiar em meio a elas: no fundo, até aqui, eu era um amador. Agora, em toda parte, há coisas como este copo de cerveja aqui em cima da mesa. Quando o vejo, tenho vontade de dizer: “Alto lá, estou fora do jogo.” Sei perfeitamente que fui longe demais. Creio que não se pode “dar um espaço” para a solidão. Isso não significa que olhe embaixo da cama antes de me deitar, ou que tema ver a porta de meu quarto se abrir bruscamente no meio da noite. Simplesmente, mesmo assim, me sinto intranquilo: faz uma meia hora que evito olhar para esse copo de cerveja. Olho para cima, para baixo, para a direita, para a esquerda: mas ele — o copo — não quero ver. E sei muito bem que todos os celibatários que me rodeiam não podem me ajudar: é tarde demais, já não posso me refugiar entre eles. Bateriam no meu ombro, dizendo: “Então, o que é que há com esse copo de cerveja? É igual aos outros. É bisotado, tem uma asa, um pequeno escudo com uma pá onde se lê Spatenbräu.” Sei de tudo isso. Mas sei que há outra coisa. Quase nada. Mas não posso mais explicar o que vejo. A ninguém. É isso: deslizo suavemente para o fundo da água, para o medo. Estou só, em meio a essas vozes alegres e sensatas. Todos esses sujeitos passam o tempo se explicando, reconhecendo com satisfação que têm as mesmas opiniões. Deus meu, que importância dão a pensar todos juntos as mesmas coisas! Basta ver a cara que fazem quando passa por eles um desses homens com olhos de peixe que parecem olhar para dentro e com os quais não é mais possível, de forma alguma, se conciliar. Quando eu tinha oito anos e brincava no Luxembourg, havia um desses que vinha se sentar numa guarita junto à grade que ladeia a rua Auguste-Comte. Não falava, mas de quando em quando estendia a perna e olhava para o pé com ar apavorado. Nesse pé usava uma botina e, no outro, um chinelo. O guarda disse a meu tio que se tratava de um ex-inspetor de colégio. Fora aposentado porque comparecera às salas de aula, para ler as notas trimestrais, usando traje de acadêmico. Tínhamos um medo horrível dele, porque sentíamos que era um homem sozinho. Um dia sorriu para Robert, estendendo-lhe os braços de longe: Robert quase desmaiou. Não era o aspecto miserável do sujeito que nos assustava, nem o tumor que tinha no pescoço e que roçava a beira de seu colarinho: mas sentíamos que ele formava em sua cabeça pensamentos de caranguejo ou de lagosta. E o fato de que alguém pudesse formar pensamentos de lagosta a respeito da guarita, de nossos arcos, das moitas de arbustos, nos aterrorizava. É isso então o que me espera? Pela primeira vez me incomoda estar só. Gostaria de falar com alguém sobre o que está me acontecendo, antes que seja tarde demais, antes que eu comece a assustar os garotinhos. Gostaria que Anny estivesse aqui. É curioso: acabo de escrever dez páginas e não disse a verdade — pelo menos não toda a verdade. Quando escrevia, sob a data, “Nada de novo”, fazia-o com a consciência pesada: na verdade, uma pequena história, que não é nem vergonhosa nem extraordinária, se recusava a sair. “Nada de novo.” Admira-me como se pode mentir racionalizando. Evidentemente se pode dizer que não ocorreu nada de novo: às 8h15, quando saía do hotel Printania para me dirigir à biblioteca, quis — e não pude — apanhar um papel caído no chão. Isso é tudo e sequer é um acontecimento. Sim; mas, para dizer toda a verdade, foi algo que me impressionou profundamente: pensei que já não era livre. Na biblioteca, tentei sem êxito me desvencilhar dessa ideia. Q uis fugir dela no café Mably. Esperava que se dissipasse sob as luzes. Mas ela permaneceu em mim, pesada e dolorosa. Foi ela que me ditou as páginas precedentes. Por que não a mencionei? Deve ter sido por orgulho e também um pouco por desazo. Não tenho o hábito de contar para mim mesmo o que me acontece e então me escapa um pouco a sucessão dos acontecimentos, não distingo o que é importante. Mas agora acabou: reli o que escrevi no café Mably e senti vergonha; não quero segredos, nem estados de alma, nem coisas indizíveis; não sou nem virgem nem padre para brincar de vida interior. Não há muito o que dizer: não pude pegar o papel, isso é tudo. Gosto muito de apanhar do chão castanhas, velhos farrapos, sobretudo papéis. Sinto prazer em pegá-los, fechá-los em minhas mãos; por pouco não os levo à boca, como as crianças fazem. Anny se enfurecia quando eu pegava por uma ponta papéis pesados e suntuosos, mas provavelmente sujos de merda. Durante o verão ou no início do outono encontram-se nos jardins pedaços de jornais crestados pelo sol, ressecados e quebradiços como folhas mortas, tão amarelos que se poderia imaginar que tivessem sido mergulhados em ácido pícrico. No inverno outras folhas de papel mostram-se pisadas, maceradas, maculadas: retornam à terra. Outras ainda, muito novas e até brilhantes, muito brancas, palpitantes, estão pousadas como cisnes, mas por baixo a terra já as agarra. Torcem-se, arrancam-se da lama, mas só para cair um pouco mais adiante, definitivamente. Tudo isso é bom de pegar. Às vezes simplesmente as apalpo olhando-as bem de perto; outras vezes rasgo-as para ouvir sua longa crepitação, ou então, se estão muito úmidas, ateio-lhes fogo, o que não é fácil; depois limpo as palmas das mãos cheias de lama numa parede ou num tronco de árvore. Então hoje estava olhando para as botas fulvas de um oficial de cavalaria que vinha saindo do quartel. Acompanhando-as com o olhar, vi um papel que jazia ao lado de uma poça. Pensei que o oficial fosse enterrar o papel na lama com seu salto, mas não: numa só passada ele ultrapassou o papel e a poça. Aproximei-me: era uma página pautada, certamente arrancada de um caderno escolar. A chuva a encharcara e retorcera, estava coberta de bolhas e de tumefações como uma mão queimada. O traço vermelho da margem desbotara, transformando-se numa umidade cor-de-rosa; a tinta escorrera em alguns lugares. A parte de baixo da página estava coberta por uma crosta de lama. Abaixei-me, sentindo já a satisfação de tocar naquela massa tenra e fresca que se enrolaria em bolinhas cinzentas entre meus dedos... Não pude. Permaneci curvado por um instante, li: “Ditado: a coruja branca”; depois me ergui, as mãos vazias. Já não sou livre, já não posso fazer o que quero. Os objetos não deveriam tocar, já que não vivem. Utilizamo-los, colocamo-los em seus lugares, vivemos no meio deles: são úteis e nada mais. E a mim eles tocam — é insuportável. Tenho medo de entrar em contato com eles exatamente como se fossem animais vivos. Agora vejo; lembro-me melhor do que senti outro dia, junto ao mar, quando segurava aquela pedra. Era uma espécie de enjoo adocicado. Como era desagradável! E isso vinha da pedra, tenho certeza, passava da pedra para as minhas mãos. Sim, é isso, é exatamente isso: uma espécie de náusea nas mãos. Quinta-feira de manhã, na biblioteca Ainda agora, descendo a escada do hotel, ouvi Lucie fazendo pela centésima vez suas lamentações à patroa, enquanto encerava os degraus. A patroa falava com esforço e com frases curtas, porque ainda estava sem a sua dentadura; estava praticamente nua, de roupão rosa e babuchas. Lucie, como de hábito, estava suja; de quando em quando parava de esfregar e se endireitava sobre os joelhos para olhar para a patroa. Falava ininterruptamente, com ar sensato. — Preferia mil vezes que ele fosse mulherengo — dizia ela. — Isso me seria indiferente, desde que não lhe fizesse mal. Falava do marido: beirando os quarenta anos, essa mulher trigueira pescou, com suas economias, um rapagão, ajustador de peças nas fábricas Lecointe. É infeliz no casamento. O marido não bate nela, não a engana: bebe, volta para casa embriagado todas as noites. Está mal de saúde; em três meses vi-o amarelecer e definhar. Lucie pensa que é a bebida. Acho que está tuberculoso. — É preciso reagir — dizia Lucie. Tenho certeza de que isso a está corroendo, mas lenta, pacientemente: ela reage, não consegue nem se consolar, nem se entregar à sua infelicidade. Pensa nela um pouquinho de vez em quando, só um pouquinho, tira proveito dela. Sobretudo quando está com alguém, porque as pessoas a consolam e também porque o fato de falar a respeito, num tom ponderado, como quem dá conselhos, a alivia um pouco. Quando está sozinha nos quartos, ouço-a cantarolar para se impedir de pensar. Mas passa o dia todo morosa, fica logo cansada e emburrada. — É aqui — diz tocando na garganta, como se tivesse um nó. — Não desce. Sofre com avareza. Também deve ser avara em relação a seus prazeres. Pergunto-me se algumas vezes não deseja se libertar dessa dor monótona, desses resmungos que recomeçam tão logo para de cantar, se não deseja sofrer muito de uma vez por todas, se afogar no desespero. Mas, de qualquer maneira, não poderia fazê-lo: está atada. Quinta-feira à tarde “O sr. de Rollebon era muito feio. A rainha Maria Antonieta chamava-o habitualmente de sua ‘querida macaquinha’. No entanto, ele possuía todas as mulheres da corte, e não por bufonear como Voisenon, o macaco: por um magnetismo que levava suas belas conquistas aos piores extremos da paixão. É maquinador, tem um papel bastante suspeito no caso do Colar e desaparece em 1790, depois de ter mantido um intercâmbio regular com Mirabeau-Tonneau e Nerciat. Tornamos a encontrá-lo na Rússia, onde é um pouco responsável pelo assassinato de Paulo I, e de lá viaja para os países mais longínquos, para a Índia, para a China, para o Turquestão. Trafica, conspira, espiona. Em 1813 retorna a Paris. Em 1816 torna-se todo-poderoso: é o único confidente da duquesa de Angoulême. Essa velha caprichosa, obcecada por terríveis recordações de infância, tranquiliza-se e sorri quando o vê. Graças a ela Rollebon manda e desmanda na corte. Em março de 1820 ele desposa a srta. de Roquelaure, que tem 18 anos e é muito bonita. O sr. de Rollebon tem setenta; está no auge das honrarias, no apogeu da vida. Sete meses depois, acusado de traição, é preso, jogado numa masmorra, onde morre após cinco anos de cativeiro, sem que seu processo tenha sido instruído.” Reli com melancolia essa nota de Germain Berger7. Foi através dessas poucas linhas que vim a conhecer o sr. de Rollebon. Como me pareceu sedutor, e como gostei dele logo, só por essas poucas palavras! É por causa dele, desse homenzinho, que estou aqui. Quando voltei de viagem, poderia perfeitamente ter me instalado em Paris ou Marselha. Mas a maioria dos documentos referentes às longas permanências do marquês na França está na biblioteca municipal de Bouville. Rollebon era castelão de Marommes. Antes da guerra, ainda havia nesse burgo um descendente seu, um arquiteto chamado Rollebon-Campouyré e que, quando morreu, em 1912, deixou um importante legado para a biblioteca de Bouville: cartas do marquês, um fragmento de diário, papéis de toda espécie. Ainda não examinei tudo. Estou contente por haver encontrado essas notas. Faz dez anos que não as relia. Parece-me que minha caligrafia mudou: escrevia com letra mais apertada. Como gostei do sr. de Rollebon naquele ano! Lembro-me de uma noite — uma noite de terça-feira: tinha trabalhado o dia inteiro na biblioteca Mazarine; acabava de perceber, por sua correspondência de 1789-1790, a maneira magistral pela qual ele lograra Nerciat. Era de noite, eu descia a avenida do Maine e, na esquina da rua da Gaité, comprei castanhas. Sentia-me feliz! Ria sozinho pensando na cara que Nerciat devia ter feito quando retornou da Alemanha. A figura do marquês é como essa tinta: esmaeceu desde que me ocupo dela. Em primeiro lugar, a partir de 1801 já não entendo seu comportamento. Não é por falta de documentos: cartas, fragmentos de memórias, relatórios secretos, arquivos de polícia. Ao contrário, tenho quase excesso disso. O que falta em todos esses testemunhos é firmeza, consistência. Eles não se contradizem, mas também não se conciliam; não parecem se referir à mesma pessoa. E no entanto os outros historiadores trabalham com informações do mesmo tipo. Como fazem? Serei mais escrupuloso ou menos inteligente? Aliás, colocada assim, a pergunta não me perturba. No fundo, o que procuro? Não tenho ideia. Durante muito tempo o homem Rollebon me interessou mais do que o livro por escrever. Mas agora o homem... o homem começa a me entediar. Estou preso ao livro, sinto uma necessidade cada vez mais intensa de escrevê-lo — à medida que envelheço, diriam. Evidentemente, é admissível que Rollebon tenha participado ativamente do assassinato de Paulo I, que a seguir tenha aceitado uma missão de alta espionagem no Oriente para o czar e que tenha traído constantemente Alexandre em benefício de Napoleão. Pode ao mesmo tempo ter mantido uma correspondência ativa com o conde de Artois e passado a ele informações pouco importantes, para convencê-lo de sua fidelidade: nada disso é inverossímil; na mesma época, Fouché representava uma comédia muito mais complexa e perigosa. Talvez o marquês fizesse por conta própria o tráfico de fuzis com os principados asiáticos.

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