Artboard 33 Artboard 16 Artboard 18 Artboard 15 Artboard 21 Artboard 1 Artboard 2 Artboard 5 Artboard 45 Artboard 45 Artboard 22 Artboard 9 Artboard 23 Artboard 17? Artboard 28 Artboard 43 Artboard 49 Artboard 47 Artboard 38 Artboard 32 Artboard 8 Artboard 22 Artboard 5 Artboard 25 Artboard 1 Artboard 42 Artboard 11 Artboard 41 Artboard 13 Artboard 23 Artboard 10 Artboard 4 Artboard 9 Artboard 20 Artboard 6 Artboard 11 Artboard 7 Artboard 3 Artboard 3 Artboard 12 Artboard 25 Artboard 34 Artboard 39 Artboard 24 Artboard 13 Artboard 19 Artboard 7 Artboard 24 Artboard 31 Artboard 4 Artboard 14 Artboard 27 Artboard 30 Artboard 36 Artboard 44 Artboard 12 Artboard 17 Artboard 17 Artboard 6 Artboard 27 Artboard 19 Artboard 30 Artboard 29 Artboard 29 Artboard 26 Artboard 18 Artboard 2 Artboard 20 Artboard 35 Artboard 15 Artboard 14 Artboard 48 Artboard 50 Artboard 26 Artboard 16 Artboard 40 Artboard 21 Artboard 29 Artboard 10 Artboard 37 Artboard 3 Artboard 3 Artboard 46 Artboard 8

A República - Col. Saraiva de Bolso (Cód: 3649200)

Platão

Saraiva De Bolso

Ooopss! Este produto está temporariamente indisponível.
Mas não se preocupe, nós avisamos quando ele chegar.

Ooops! Este produto não está mais a venda.
Mas não se preocupe, temos uma versão atualizada para você.

Ooopss! Este produto está fora de linha, mas temos outras opções para você.
Veja nossas sugestões abaixo!

R$ 8,40

em até 1x de R$ 8,40 sem juros
Cartão Saraiva: 1x de R$ 7,98 (-5%)

Total:

Em até 1x sem juros de


Crédito:
Boleto:
Cartão Saraiva:

Total:

Em até 1x sem juros de


A República - Col. Saraiva de Bolso

R$8,40

Descrição

Entre seus diálogos “A República” é um dos livros fulcrais, no qual Platão nos leva a refletir acerca dos princípios éticos, políticos, estéticos e jurídicos que norteiam uma sociedade. Subdividida em dez livros, a obra é uma aspiração a um Estado ideal que se sustenta no conceito de justiça. Mas o que é a justiça? Como ela se constrói em meio a tanta corrupção? Essas e outras questões tão atuais são propostas pelo filósofo na Antiguidade e até hoje mobilizam o pensamento humano.

Tradutor: Leonel Vallandro

Características

Peso 0.40 Kg
Produto sob encomenda Não
Editora Saraiva De Bolso
I.S.B.N. 9788520924952
Altura 17.50 cm
Largura 10.50 cm
Profundidade 1.00 cm
Idioma Português
Acabamento Brochura
Cód. Barras 9788520924952
Número da edição 1
Ano da edição 2011
País de Origem Brasil
AutorPlatão

Leia um trecho

Apresentação Platão é um dos marcos fundamentais da busca de soluções para os problemas humanos. A cultura ocidental está profundamente impregnada pela sua presença na evolução do pensamento filosófico. Apesar de toda a poesia e simbolismo que o estilo de Platão apresenta, A República permanece uma lúcida tentativa de sistematizar o fenômeno político. O problema central de que parte a obra é o da justiça. E deste tema, Platão passa para o da estrutura de um Estado bem-constituído. A pergunta — “qual a essência da justiça?” — vai sendo respondida no diálogo, à medida que seus participantes vão traçando, com objetividade, a forma como ela se configura na sociedade. Por fim, o problema se reduz em uma especulação de como recrutar e instruir os chefes ou guardiães da cidade, que têm por tarefa moderar, coordenar, harmonizar. Platão aspira, assim, a um Estado ideal, baseado no conceito de justiça. Entre os homens, é preciso escolher os guardiães que sairão, naturalmente, dos guerreiros, classe já selecionada e preparada. A educação dos guerreiros deve estar subordinada à ginástica e à música para que se fortaleçam, não em uma força animalesca, mas em virtudes de sabedoria, temperança do comando irascível e harmonia interior. Mas os chefes ainda precisam de uma educação mais especial. A unidade constitui-se na primeira virtude. Platão propõe, para atingi-la, uma vivência comunitária, onde se praticasse um treinamento físico e moral para ambos os sexos e uma educação científica e política ministrada pelos filósofos aos futuros chefes. Os filósofos, possuídos pelo amor à verdade, pelo gosto da pesquisa, pela faculdade de bem discernir, são os que sabem situar as coisas num conjunto ordenado. Há em A República uma distinção de Estados, que Platão observa na realidade, em contraste com seu Estado ideal. Faz o levantamento de seis formas: a ideal ou perfeita, e cinco imperfeitas — o regime de Creta e Lacedemônia, a aristocracia, a oligarquia, a democracia e a tirania. As formas imperfeitas vão-se sucedendo continuamente por um processo de corrupção que lhes é implícito. Aqui se delineia a ideia de uma evolução necessária nas formas de governo, tema que, após Platão, foi retomado por vários filósofos até chegarmos à ciência política moderna. A República termina por uma evasão nos caminhos poéticos da metempsicose. Mas o que realmente continua valioso em Platão, além de sua arte poética, é o espírito político de exame e proposição de soluções, isto é, a sondagem do político como agente na transformação e superação dos problemas da sociedade. LIVRO I Encontro de Sócrates e Gláucon com Polemarco na festa de Bêndis Fui ontem ao Pireu com Gláucon, o filho de Aríston, para oferecer minhas preces à deusa1 e desejoso, ao mesmo tempo, de ver como celebravam a festa, pois o faziam pela primeira vez. Fiquei encantado com a procissão dos habitantes, mas a dos trácios não era menos bela. Depois de orar e apreciar o espetáculo, nos dispúnhamos a voltar para a cidade quando Polemarco, o fi lho de Céfalo, avistando-nos de longe, mandou seu escravo correr em nosso encalço para nos pedir que o esperássemos. O escravo agarrou-me o manto por trás e disse: — Polemarco pede que espereis. Voltei-me então e perguntei-lhe onde estava seu amo. — Já vem ter convosco — respondeu o rapaz. — Aguardai um pouco. — Bem, esperaremos — disse Gláucon. E, com efeito, dentro de poucos instantes apareceu Polemarco, trazendo consigo Adimanto, o irmão de Gláucon, Nicerato, o filho de Nícias, e outros que tinham estado na procissão. Disse-me Polemarco: — Vejo, Sócrates, que tu e teu companheiro já ides de volta à cidade. — Não te enganas — respondi. — Estás vendo quantos somos? — tornou ele. — Como não? — E sereis mais forte do que todos estes juntos? Por que, do contrário, tereis de ficar aqui. — Não haverá outra saída, isto é, a de vos persuadirmos a nos deixar ir? — disse eu. — Mas podereis persuadir-nos se não vos quisermos ouvir? — Certamente que não — retorquiu Gláucon. — Pois fazei de conta que não queremos ouvir. E Adimanto ajuntou: — Não sabeis, então, que ao anoitecer haverá uma corrida a cavalo com archotes, em honra da deusa? — A cavalo! — disse eu. — Isto é uma novidade. Os cavaleiros levarão archotes e os passarão uns aos outros durante a corrida, ou como será? — Isso mesmo — respondeu Polemarco. — E não só isso, mas também celebrarão uma festa noturna que será digna de ver. Após levantarmo-nos da ceia iremos assistir ao festival; lá encontraremos muita gente moça e conversaremos com ela. Ficai, pois, não sejais obstinados. E Gláucon: — Vejo que teremos de ficar. — Pois, se assim parece — disse eu —, fiquemos. A reunião de amigos em casa de Céfalo Fomos, portanto, à casa de Polemarco, onde encontramos seus irmãos Lísias e Eutidemo, e com eles Trasímaco, o calcedônio, Carmântides, o peânio, e Clitofonte, o filho de Aristônimo. Também lá estava Céfalo, o pai de Polemarco, que eu não via há muito tempo e que me pareceu muito envelhecido. Acomodara-se num assento com almofada e tinha uma coroa na cabeça, pois acabava de fazer um sacrifício no pátio. Como havia outros tamboretes em derredor, sentamo-nos para palestrar com ele. Assim que me viu, Céfalo me saudou e disse: — Ó Sócrates, como é raro apareceres aqui em nossa casa! Se eu ainda pudesse ir ver-te, não pediria que viesses tu. Mas na minha idade é-me difícil ir à cidade, e portanto és tu que deverias vir com mais frequência ao Pireu. Hás de saber, com efeito, que quanto mais amortecidos ficam os prazeres do corpo mais crescem o deleite e o encanto da conversação. Não negues, pois, o que te peço, mas visita-nos mais amiúde e faze companhia a estes moços; somos velhos amigos e esta é como se fosse tua casa. A velhice não é culpada dos males que sofrem os velhos — Na verdade, Céfalo — disse eu —, nada me agrada tanto como praticar com pessoas de idade; pois as considero como viajantes que percorreram um longo caminho, o qual eu talvez tenha de percorrer também. Por isso acho necessário informar-me com elas se a estrada é lisa e fácil ou áspera e cheia de dificuldades. E essa é a pergunta que gostaria de fazer a ti, que chegaste àquela idade que os poetas chamam “o limiar da velhice”. Parece-te ela uma quadra infeliz da existência, ou como a qualificas? — Dir-te-ei, por Zeus, como me parece, ó Sócrates. Os homens da minha idade reúnem-se muitas vezes; somos pássaros da mesma plumagem, como diz o velho provérbio; e nessas reuniões o tom geral da conversa é: não posso comer, não posso beber; lá se foram os prazeres da mocidade e do amor; outrora se vivia bem, mas isso já passou e a vida já não é vida. Alguns se queixam das desconsiderações que recebem dos próprios parentes e desfiam tristemente a cantilena de todos os males que a velhice lhes traz. Mas quer-me parecer, Sócrates, que essas pessoas culpam a quem realmente não é culpado. Porque, se a velhice fosse a causa, eu, que também sou velho, e todos os demais que o são sofreríamos a mesma coisa. Mas tal não ocorre comigo, nem com outros a quem tenho conhecido. Bem me lembro de uma ocasião em que estava junto de Sófocles, o velho poeta, e alguém lhe perguntou: “Como vais, Sófocles, no que diz respeito ao amor? És ainda capaz de estar com uma mulher?” E ele respondeu: “Sossega, homem! Com a maior satisfação me livrei dele, como quem se livra de um déspota furioso e selvagem.” Essas palavras me têm vindo muitas vezes à lembrança e ainda hoje me parecem tão boas como quando as ouvi pronunciar. Pois é certo que a velhice traz consigo uma grande paz e liberdade; quando se embota o acicate das paixões, sucede exatamente o que dizia Sófocles: libertamo-nos não apenas de um tirano, mas de muitos. A verdade, Sócrates, é que essas queixas, bem como as que são feitas contra os parentes, devem ser atribuídas à mesma causa; e esta não é a velhice, e sim o caráter dos homens; pois aquele que tem um natural tranquilo e bem--humorado não sentirá o peso dos anos, e ao que não é assim não só a velhice mas a própria juventude é pesada. Reconhece-se que os velhos, para estar contentes, devem ter seu quinhão de bens materiais; nem só a virtude nem só a riqueza podem tornar feliz um velho Admirado com o que ouvia, quis fazer com que continuasse falando e o estimulei com estas palavras: — Sim, Céfalo, mas suspeito que a generalidade das pessoas não se deixe convencer quando falas assim. Acharão que suportas facilmente a velhice, não pelo teu caráter, mas por seres rico; pois dizem que a fortuna é uma grande consoladora. — Tens razão — volveu ele. — Não se convencem. E há algo de verdade no que dizem; não, porém, tanto quanto pensam. Eu poderia responder-lhes como respondeu Temístocles a um cidadão de Sérifo que o injuriava, dizendo que ele era famoso não pelos seus méritos, mas por ser ateniense: “Se fosses da minha terra e eu da tua, nem tu nem eu seríamos famosos.” Aos que não são ricos e se queixam da velhice pode-se aplicar o mesmo raciocínio: se para o homem pobre de boa índole a velhice não pode ser um fardo leve, tampouco pode o insensato, ainda sendo rico, estar satisfeito com ela. — Posso saber, Céfalo, se a maior parte de tua fortuna foi herdada ou adquirida por ti? Céfalo herdou sua fortuna e não a acumulou; é indiferente, por isso, ao dinheiro — O que adquiri, Sócrates? — tornou ele. — Vou dizer-te: em assunto de negócios ocupo uma posição intermediária entre meu avô e meu pai; pois meu avô, que tinha o mesmo nome que eu, após herdar uma fortuna pouco mais ou menos igual à que possuo hoje, multiplicou-a várias vezes, enquanto meu pai, Lisânias, a reduziu a menos do que é agora. Quanto a mim, contento-me em não deixá-la diminuída a meus fi lhos que aqui estão, mas um pouco maior do que a recebi. — Fiz-te essa pergunta — disse eu — porque vejo, que não tens excessivo amor às riquezas, e isso acontece geralmente aos que não as adquiriram por si mesmos, enquanto os outros se apegam duplamente a elas, com um amor semelhante ao dos poetas pelos seus poemas e ao dos pais pelos seus fi lhos, além do amor natural que lhes têm, como toda a gente, pelo proveito que lhes trazem. E são homens de trato difícil porque não querem falar de outra coisa senão do dinheiro. — Dizes bem — concordou ele. — Sim, é verdade; mas posso fazer outra pergunta? Qual é, no teu modo de ver, a maior vantagem que tiras de tua grande fortuna? As vantagens da riqueza — É alguma coisa — disse ele — de que não espero convencer facilmente os outros. Porque hás de saber, Sócrates, que quando um homem se julga próximo da morte, entram-lhe no espírito temores e preocupações que nunca experimentou antes. As fábulas que se contam a respeito do Hades e do castigo que nos espera pelas culpas que tivemos aqui eram antes matéria de riso, mas agora começa a atormentá-lo o pensamento de que talvez sejam verdadeiras; e, quer seja pela fraqueza da idade, quer por estar mais próximo do mundo de além, tem uma visão mais clara dessas coisas. Enche-se de suspeitas e receios e começa a repassar no espírito os males que terá feito a outros. E quando se convence de que a soma de O medo da morte e a consciência do pecado tornam-se mais vívidos na velhice; e a riqueza liberta um homem de muitas tentações seus pecados é grande, desperta muitas vezes do sono cheio de pavor, como as crianças, e vive entre negras apreensões. Mas ao que não tem consciência de nenhuma injustiça acompanha constantemente uma grata esperança, benéfica “nutriz da velhice”, segundo a frase de Píndaro; pois em garbosos acentos disse ele: A esperança acalenta a alma do que vive em justiça e santidade e é-lhe nutriz da velhice e companheira de jornada; a esperança, que rege soberana a alma inquieta dos mortais Como são admiráveis essas palavras! E o grande valor das riquezas, não digo já para todos, mas para o homem justo e clemente, está em ajudá-lo em grau considerável a não enganar nem mentir, quer intencionalmente, quer por omissão; e quando parte para o outro mundo não leva apreensões por estar em dívida de sacrifícios para com algum deus ou de dinheiro para com algum homem. Tem a fortuna muitos outros proveitos; mas, tudo bem pesado, Sócrates, estou em que para o homem sensato o que acabo de dizer é o maior. — Muito bem, Céfalo! — respondi. — Mas no que tange a essa justiça de que falamos, que vem a ser ela? Dizer a verdade e pagar as dívidas, nada mais? E mesmo aí não haverá exceções? Suponhamos que um amigo, em seu juízo perfeito, me tenha confiado algumas armas, e mas venha reclamar quando estiver doido: deverei devolver-lhas? Ninguém diria tal, nem que eu agisse bem em fazê-lo, como tampouco julgariam que fosse meu dever falar sempre a verdade a uma pessoa em semelhante estado. — Tens toda a razão — afirmou ele. — Nesse caso, a justiça não se limita a falar a verdade e a devolver o que recebemos. Qual era a intenção de Simônides ao dizer que a justiça consiste em falar a verdade e em pagar as dívidas? — Mas sem dúvida é assim, Sócrates, se havemos de dar crédito a Simônides — atalhou Polemarco. — Bem — disse Céfalo —, deixo em vossas mãos a discussão, pois tenho de atender aos sacrifícios. — Acaso não sou teu herdeiro? — perguntou Polemarco. — Pois claro — retrucou ele, rindo, e afastou-se para ir sacrificar. — Dize-me pois, ó herdeiro da discussão, que foi isso que afirmou Simônides, no teu parecer acertadamente, a respeito da justiça? — Que é justo dar a cada um o que se lhe deve; e ao falar assim parece-me que tem razão. — Longe de mim duvidar da palavra de homem tão sábio e tão inspirado — disse eu —, mas quanto ao que ele quer dizer com isso, talvez tu, Polemarco, o saibas; eu, porém, o ignoro. Porque certamente não se refere àquilo de que falávamos há pouco, isto é, a devolver a alguém o depósito feito quando esse alguém não está no seu juízo perfeito. E contudo não se pode negar que um depósito seja uma dívida. — É verdade. — Então quando a pessoa que me pede a devolução não está em seu juízo perfeito, não devo de modo algum devolver? — Certamente que não. — Quando Simônides disse que o pagamento de uma dívida era justiça, não pretendia incluir esse caso? — Muito ao contrário, por Zeus! Pois sua ideia é que os amigos devem fazer o bem a seus amigos, e nunca o mal. — Queres dizer que não paga o que deve aquele que devolve um depósito de ouro a um amigo, quando essa devolução lhe seria prejudicial? É esse, na tua opinião, o pensamento de Simônides? — Sim. — E aos inimigos também temos de devolver o que lhes devemos? — Sem dúvida — respondeu ele —, o que se lhes deve. E um inimigo, acho eu, deve a um inimigo o que é apropriado: algum mal. Talvez quisesse dizer que a justiça é fazer bem aos amigos e mal aos inimigos — Assim, ao que parece — disse eu —, Simônides envolveu poeticamente num enigma o que entendia por justiça, pois na realidade queria dizer que o justo era dar a cada um o que lhe é apropriado; e a isso chamou dívida. — E que outra coisa poderias pensar? — volveu ele. — Por Zeus! — exclamei. — Se lhe tivessem perguntado qual é a coisa devida e apropriada que a medicina dá, e a quem a dá, que julgas que nos teria respondido? — Responderia, sem dúvida, que a medicina dá remédios, alimentos e bebida aos corpos humanos. — E qual é a coisa devida e apropriada que dá a culinária, e a quem a dá? — Condimento aos manjares. — E a arte a que chamamos justiça, que dá ela, e a quem o dá? — Se nos guiarmos, Sócrates, pela analogia dos exemplos anteriores, a justiça deve dar o bem aos amigos e o mal aos inimigos. — Era esse então o sentido de suas palavras? — Creio que sim. — E quem é mais capaz de fazer bem aos amigos e mal aos inimigos quando estão doentes? — O médico. — E aos navegantes, quando arrostam os perigos do mar? — O piloto. — E que diremos do homem justo? Em que espécie de ações e para que efeito tem ele maior capacidade de favorecer os amigos e causar danos aos inimigos? Exemplos — Em fazer-lhes guerra ou combater ao seu lado, creio eu. — Mas quando um homem goza de saúde, meu caro Polemarco, não há necessidade de médico? — Não. — E aquele que não viaja não precisa de piloto? — Não. — Portanto, em tempo de paz a justiça seria inútil? — Estou longe de concordar com isto. — Pensas que a justiça pode prestar serviços tanto na paz como na guerra? — Sim. — Como a agricultura, para a obtenção de frutos? — Sim. — Ou como a arte do sapateiro, para a aquisição de calçados: é isto o que queres dizer? — Certamente. A justiça é útil nos contratos, especialmente na boa guarda dos depósitos — Ora muito bem: para proveito e obtenção de que dirás que é útil a justiça em tempo de paz? — Para os contratos, Sócrates! — Por contratos entendes sociedades, ou que outra coisa? — Sociedades, precisamente. — Mas quem é o melhor parceiro num jogo de damas: o homem justo ou o bom jogador? — O bom jogador. — E para a colocação de tijolos e pedras, o homem justo será melhor sócio do que o pedreiro? — Bem ao contrário. — Então em que espécie de sociedade o homem justo é melhor sócio do que o citarista, uma vez que para tocar cítara este é melhor sócio do que o homem justo? — Creio que em assuntos de dinheiro. — Com exceção, talvez, ó Polemarco, do uso do dinheiro quando se trata de comprar ou vender um cavalo, pois nesse caso penso que será preferível um homem entendido em cavalos. Não é assim? — Sim, parece. — E quando queres comprar um navio, o armador ou o piloto será melhor? — É verdade. — Então, qual é o uso em comum da prata ou do ouro em que o homem justo deve ser preferido? — Quando se quer que um depósito seja bem-guardado. — Queres dizer: quando não precisamos do dinheiro e convém deixá-lo quieto? — Precisamente. — Portanto, a justiça é útil quando o dinheiro é inútil? — É o que se conclui. Não, porém, no uso do dinheiro; portanto, a justiça é útil quando o dinheiro ou qualquer outra coisa é inútil — E quando se trata de guardar uma podadeira, a justiça é útil ao indivíduo e à sociedade; mas, quando queremos servir-nos dela, o que vale é a arte da viticultura? — Está claro. — E quando queres guardar um escudo ou uma lira, dirás que a justiça é útil; mas quando queres usá-los, é a arte do soldado ou do músico? — Certamente. — E assim com todas as outras coisas: a justiça é útil quando elas são inúteis, e inútil quando são úteis? — Assim parece. — Então a justiça não tem grande préstimo. Mas vejamos esta outra coisa: o mais destro em dar golpes numa luta, seja ela o pugilato ou outra qualquer, não o é também em defender-se? — Sem dúvida. — E o mais hábil em prevenir uma doença ou em escapar-lhe não será também o mais capaz de inoculá-la secretamente? Um novo ponto de vista: o mais capaz de fazer bem não será também o mais capaz de fazer mal? — É verdade. — E ainda mais: o melhor guarda de um acampamento não será aquele que é mais capaz de roubar os planos do inimigo? — Decerto. — Então aquele que é bom guarda de alguma coisa é também um bom ladrão? — Assim parece. — Portanto, se o justo é hábil em guardar dinheiro, é também hábil em roubá-lo. — Pelo menos é o que mostra este argumento — disse ele. — Parece, pois, que o justo acabou convertendo-se em ladrão. E esta é uma lição que deves ter aprendido de Homero, pois ao falar de Autólico, o avô materno de Ulisses e um de seus personagens favoritos, diz que ele “se distinguia entre todos os homens pelo furto e pelo perjúrio”. Assim, tu, Homero e Simônides estais de acordo em que a justiça é uma arte de furtar em proveito dos amigos e para dano dos inimigos. Não era isso o que querias dizer? — Não, por Zeus! — respondeu Polemarco —, se bem que eu próprio já não sei o que disse. Mas ainda sustento esta última parte. — E quando falas de amigos e inimigos referes-te aos que o são realmente ou apenas em aparência? — É natural — disse ele — que cada um queira bem aos que considera bons e deteste os que lhe parecem maus. — Sim, mas acaso as pessoas não se enganam muitas vezes sobre o bem e o mal, tomando por bom o que não é e vice-versa? — É verdade. — Para esses, então, os bons serão inimigos e os maus, amigos? — Por certo. — Nesse caso será justo, para eles, favorecer os maus e fazer mal aos bons? — Assim parece. — E contudo os bons são justos e incapazes de faltar à justiça? — De fato, são. Quem são os verdadeiros amigos e inimigos? — Portanto, segundo a tua asserção é justo fazer mal aos que não cometeram injustiça. — De modo algum, Sócrates — respondeu ele. — Isso me parece imoral. — Suponho, então, que devamos fazer bem aos justos e prejudicar os injustos? — disse eu. — Isso sim, acho melhor. Por vezes nos enganamos — Mas vê a consequência: muitos, que desconhecem a natureza humana, têm amigos maus a quem deveriam prejudicar e, por outro lado, inimigos bons a quem cumpriria favorecer; mas, a ser assim, estaremos afi rmando justamente o contrário do que, segundo supúnhamos, queria dizer Simônides. — É bem verdade — disse ele —, mas acho que deveríamos corrigir um erro em que caímos ao empregar as palavras “amigo” e “inimigo”. — Qual foi esse erro, Polemarco? — perguntei. A definição é corrigida — O de que é amigo aquele que parece bom. — E como vamos corrigir o erro? — Deveríamos antes dizer que é amigo aquele que é realmente bom, além de parecê-lo; e o que só parece mas não é, é amigo apenas em aparência e não em realidade; e o mesmo raciocínio pode ser aplicado aos inimigos. — De acordo com essas assertivas, os bons serão nossos amigos e os maus, nossos inimigos? — Sim. O amigo é aquele que “é” além de “parecer” bom — E em vez de dizermos simplesmente, como no princípio, que é justo fazer bem aos nossos amigos e mal aos nossos inimigos, deveríamos precisar melhor, dizendo: é justo fazer bem aos nossos amigos quando são bons e mal aos nossos inimigos quando são maus? — Sim, isso me parece acertado. — Mas será próprio do homem justo fazer mal a quem quer que seja? — Pois, sem dúvida — retrucou ele —, aos perversos e malvados deve-se fazer mal. — Quando causamos dano aos cavalos, tornam-se eles melhores ou piores? — Piores. — Piores, queres dizer, nas boas qualidades dos cavalos, e não dos cães? — Sim, dos cavalos. — E os cães são deteriorados nas boas qualidades dos cães, e não dos cavalos? — Decerto. A justiça não pode produzir injustiça; exemplos — E os homens, ao serem prejudicados, não se tornarão piores no que toca à virtude humana? — Sem dúvida. — E essa virtude humana não é a justiça? — É. — Necessário é, pois, meu caro, que os homens a quem prejudicamos se tornem injustos. — Indubitavelmente. — Mas os músicos com a sua arte não podem tornar os homens ignorantes da música? — Impossível. — Nem o mestre de equitação pode fazer maus cavaleiros? — Também não. — Nem tampouco o justo, com a justiça, pode tornar alguém injusto; ou, falando de um modo mais geral, os bons não podem tornar ninguém mau com a virtude? — Certamente que não. — Assim como o calor não pode produzir o frio? — Não pode, com efeito. — Nem a secura produzir umidade? — Assim é. — Nem o bom pode fazer dano a quem quer que seja? — Impossível. — E o justo é o bom? — Por certo. — Logo, não é obra própria do justo o causar dano a um amigo ou a qualquer outro, e sim do seu contrário, o injusto. — Parece-me absolutamente verdadeiro o que dizes, Sócrates. — Portanto, se alguém afi rma que a justiça consiste em dar a cada um o que lhe é devido, entendendo com isso que o que se deve aos amigos é o bem e aos inimigos, o mal, não foi sábio quem tal disse, pois não é verdade se, como demonstramos claramente, o dano causado a outrem não pode ser justo em caso algum. — Concordo contigo — disse Polemarco. — Então estamos prontos, tu e eu, a tomar armas contra quem quer que atribua um dito semelhante a Simônides, a Bias, a Pítaco ou a qualquer outro desses sábios e santos varões? — Pela parte que me toca — disse ele — estou disposto a combater a teu lado. — Queres que te diga de quem julgo ser esse dito? — De quem? — Creio que de Periandro, de Perdicas, de Xerxes, de Ismênias, o tebano ou de algum outro homem opulento e poderoso que fazia alta opinião do seu poder e foi o primeiro a afirmar que a justiça é “fazer o bem aos amigos e mal aos inimigos”. — É a pura verdade — volveu Polemarco. — Muito bem — disse eu. — Mas, se esta definição da justiça falhou, que outra defi nição poderemos dar-lhe? Por várias vezes no curso da discussão Trasímaco havia tentado intervir nela, mas fora impedido pelos outros, desejosos de ouvi-la até o fim. Quando, porém, Polemarco e eu acabamos de falar e fizemos uma pausa, ele já não pôde conter-se; levantou-se e, agachado como uma fera, arremeteu para nós como se quisesse fazer-nos pedaços. Tanto Polemarco como eu fi camos tolhidos de medo; e ele, prorrompendo aos gritos no meio de todos ali reunidos: A brutalidade de Trasímaco — Que espécie de palavrório é esse a que vos entregais, ó Sócrates? E por que fazeis vênias um ao outro como dois imbecis? Se queres mesmo saber o que é a justiça, não te limites a perguntar e a refutar com ar de superioridade tudo quanto te respondem, mas deves ter tu mesmo uma resposta; pois é mais fácil perguntar do que responder. E não me venhas dizer que o justo é o necessário, o útil, o vantajoso, o proveitoso ou o conveniente, porque não me contento com essas parvoíces. Quero clareza e precisão! Fiquei estupefato ao ouvi-lo e não podia olhá-lo sem tremer. Creio, mesmo, que se não lhe tivesse dirigido o olhar antes que o fizesse a mim teria fi cado sem fala.2 Mas acontece que, ao ver crescer a sua fúria, fora eu o primeiro a olhar para ele: e assim pude responder-lhe, não sem um certo nervosismo: — Ó Trasímaco, não sejas duro conosco. Se Polemarco e eu nos extraviamos um pouco no exame do assunto, asseguro-te que isso não foi intencional. Se estivéssemos procurando uma moeda de ouro, bem sabes que não nos poríamos a “fazer vênias um ao outro”, perdendo assim a ocasião de encontrá-la. E por que, quando investigamos a justiça, uma coisa mais preciosa do que muitas moedas de ouro, haveríamos, nesciamente, de fazer concessões mútuas ao invés de nos empenharmos com todas as nossas forças em descobrir a verdade? Não, meu amigo: estamos ansiosos por fazê-lo; mas o fato é que não podemos. Assim, é muito mais razoável que vós, os entendidos, vos compadeçais de nós em lugar de vos irritardes. — Ó Hércules! — tornou ele com um riso sarcástico. — Esta é bem de Sócrates, a sua ironia costumeira! Não vos tinha dito que tudo que lhe perguntassem ele se recusaria a responder, valendo-se da ironia ou de qualquer outro subterfúgio para evitar a resposta? Trasímaco é atacado com suas próprias armas — És um fi lósofo, Trasímaco — repliquei eu — e bem sabes que se perguntasses a alguém quantos são 12, proibindo-o ao mesmo tempo de responder duas vezes seis, ou três vezes quatro, ou quatro vezes três, ou seis vezes dois, “porque não te contentas com essas parvoíces”… evidentemente ninguém poderia responder a uma pergunta formulada de tal maneira. Mas suponhamos que essa pessoa te retrucasse assim: “Que queres dizer, Trasímaco? Se um desses números que tu proíbes for a resposta verdadeira, deverei então dar uma resposta falsa indicando algum outro número que não satisfaça as condições?” Que responderias a isso? — Como se os dois casos fossem idênticos! — disse ele. — Por que não haviam de ser? Mas ainda que não o sejam e só assim pareçam ao interrogado, não deve ele dizer o que pensa, quer nós o proibamos de fazê-lo, quer não? — Suponho, então, que pretendas me dar uma das respostas vedadas? — Não seria estranho que o fizesse, apesar do perigo, se me parece boa depois de examiná-la. — E se eu te desse uma resposta sobre a justiça, diferente de todas essas e melhor do que elas? Que merecias que te fizessem? — Que havia de ser, senão aquilo que convém ao ignorante, isto é, aprender com os que sabem? Essa é a pena de que me considero digno. — Como! E aprenderás sem pagar? Esta é boa! — Decerto, pagarei quando tiver dinheiro — respondi. O sofista exige pagamento pela instrução que der; o grupo se prontifica a contribuir — Esse dinheiro, tu o tens, Sócrates — disse Gláucon. — Não te preocupes, Trasímaco; todos nós faremos uma contribuição em favor dele. — Bem vejo — tornou Trasímaco — para que Sócrates proceda como de costume, recusando responder ele mesmo e tomando as respostas dos outros para reduzi-las a pó. — Mas, meu caro amigo — disse eu —, como pode responder aquele que não sabe, e reconhece que não sabe nada; ou, mesmo julgando ter algumas ideias vagas, é proibido de enunciá-las por um homem de autoridade? O razoável é que fale alguém como tu, que afirmas saber e tens algo a dizer. Dá-me, pois, o gosto de responder, e não regateies teu ensino a Gláucon, que assim te fala, e aos demais. Gláucon e seus companheiros fizeram coro comigo, solicitando a Trasímaco que não se fi zesse rogar. E era evidente que ele estava ansioso por falar, crendo que possuía uma resposta irrefutável e certo de que faria figura brilhante. Mas a princípio fingiu disputar, insistindo em que eu respondesse. Por fim começou: — Eis aí a sabedoria de Sócrates: recusa ensinar de sua parte, mas anda de cá para lá a aprender com os outros, sem dizer sequer muito obrigado. — Que eu aprenda com os outros, é verdade — repliquei eu —, mas nego que seja ingrato. Como não tenho dinheiro pago em louvores, que é tudo quanto possuo. E com que boa vontade o faço, vais sabê-lo dentro em pouco, quando tiveres respondido; pois julgo que falarás bem. A definição de Trasímaco: a justiça é o interesse do mais forte, ou seja, do governante — Ouvi-me então — disse ele. — Sustento que o justo outra coisa não é senão o interesse do mais forte. Por que não me louvas agora? Não hás de querê-lo, por certo. — Hei de fazê-lo — respondi — quando chegar a entender o que dizes, mas por enquanto não entendo. Que significam as tuas palavras, Trasímaco? Sem dúvida não queres dizer que, pelo motivo de Polidamante, o campeão de luta, ser mais forte do que nós e de lhe fazer bem o alimentar-se com carne de vaca, esse regime é também justo e adequado para nós, que somos mais fracos?