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A Sombra do Vento (Cód: 151815)

Zafón, Carlos Ruiz

Objetiva

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Descrição

'A Sombra do Vento' é uma narrativa de ritmo eletrizante, escrita em uma prosa ora poética, ora irônica. Ambientado na Barcelona franquista da primeira metade do século XX, entre os últimos raios de luz do modernismo e as trevas do pós-guerra, o romance de Zafón é uma obra sedutora, comovente e impossível de largar. Além de ser uma grandiosa homenagem ao poder místico dos livros, é um verdadeiro triunfo da arte de contar histórias.
Tudo começa em Barcelona, em 1945. Daniel Sempere está completando 11 anos. Ao ver o filho triste por não conseguir mais se lembrar do rosto da mãe já morta, seu pai lhe dá um presente inesquecível: em uma madrugada fantasmagórica, leva-o a um misterioso lugar no coração do centro histórico da cidade, o Cemitério dos Livros Esquecidos. O lugar, conhecido de poucos barceloneses, é uma biblioteca secreta e labiríntica que funciona como depósito para obras abandonadas pelo mundo, à espera de que alguém as descubra. É lá que Daniel encontra um exemplar de 'A Sombra do Vento', do também barcelonês Julián Carax. O livro desperta no jovem e sensível Daniel um enorme fascínio por aquele autor desconhecido e sua obra, que ele descobre ser vasta. Obcecado, Daniel começa então uma busca pelos outros livros de Carax e, para sua surpresa, descobre que alguém vem queimando sistematicamente todos os exemplares de todos os livros que o autor já escreveu. Na verdade, o exemplar que Daniel tem em mãos pode ser o último existente. E ele logo irá entender que, se não descobrir a verdade sobre Julián Carax, ele e aqueles que ama poderão ter um destino terrível.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Objetiva
Cód. Barras 9788573026047
Altura 0.00 cm
I.S.B.N. 8573026049
Profundidade 0.00 cm
Número da edição 1
Ano da edição 2004
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 464
Peso 0.80 Kg
Largura 0.00 cm
AutorZafón, Carlos Ruiz

Leia um trecho

1º Capítulo: DIAS DE CINZA 1945-1949 Um segredo vale o quanto valem aqueles dos quais temos de guardá-lo. Ao acordar, meu primeiro impulso foi contar sobre a existência do Cemitério dos Livros Esquecidos ao meu melhor amigo. Tomás Aguilar era um amigo de escola que dedicava seu tempo livre e seu talento a inventar uns aparatos bastante engenhosos mas de pouca aplicação, como o dardo aerostático e o pião dínamo. Ninguém melhor do que Tomás para dividir comigo aquele segredo. Sonhando acordado, eu imaginava meu amigo Tomás e eu munidos de lanternas e bússola, prestes a desvendar os segredos daquela catacumba bibliográfica. Logo, lembrando-me da promessa, decidi que as circunstâncias aconselhavam o que, nos romances de intriga policial, denomina-se outro modus operandi. Ao meio-dia, abordei meu pai para questioná-lo sobre aquele livro e sobre Julián Carax, que no meu entusiasmo tinha imaginado célebres no mundo inteiro. Meu plano era juntar toda a sua obra e lê-la de cabo a rabo em mais ou menos uma semana. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que meu pai, livreiro com tradição e bom conhecedor dos catálogos editoriais, nunca tinha ouvido falar de A Sombra do Vento ou de Julián Carax. Intrigado, meu pai examinou a página com os dados da edição. - Segundo se diz aqui este exemplar faz parte de uma edição de 2.500 exemplares, impressa em Barcelona por Cabestany Editoriales, em dezembro de 1935. - Você conhece essa editora? - Fechou há muitos anos. Mas a edição original não é esta, mas outra, de novembro do mesmo ano, só que impressa em Paris... A editora é Galliano & Neuval. Não a conheço. - Então, o livro é uma tradução? - perguntei, desconcertado. - Não menciona que o seja. Pelo que se vê aqui, o texto é original. - Um livro em espanhol, editado primeiro na França? - Não será a primeira vez, com os tempos que correm - acrescentou o meu pai. - Talvez Barceló possa ajudar-nos. Gustavo Barceló era um antigo amigo de meu pai, dono de uma lúgubre livraria na rua Fernando, que comandava a nata do grêmio dos livreiros de sebo. Estava perpetuamente colado a um cachimbo apagado que soltava eflúvios de mercado persa, e se descrevia a si mesmo como um último romântico. Barceló sustentava que na sua descendência havia um parentesco distante com lorde Byron, embora ele fosse natural de Caldas de Montbuy. Talvez com vontade de ressaltar esta conexão, Barceló vestia-se invariavelmente ao estilo de um dândi do século XIX, usando fular, sapatos de verniz branco e um monóculo sem grau, que, segundo as más línguas, não tirava nem na intimidade do toalete. Na realidade, o parentesco mais significativo era o de seu progenitor, um industrial que enriquecera por meios mais ou menos escusos, em fins do século XIX. Segundo explicou meu pai, Gustavo Barceló era tecnicamente rico, e aquela livraria era mais paixão que negócio. Ele amava os livros sem reservas e, embora negasse categoricamente, se alguém entrasse na livraria e se apaixonasse por um exemplar cujo preço não pudesse custear, o rebaixava até onde fosse necessário, ou inclusive o -presenteava, se considerasse que o comprador era um leitor com tradição e não uma mariposa amadora. Fora essas peculiaridades, Barceló possuía uma memória prodigiosa e um pedantismo que não desmerecia em porte ou sonoridade, mas se havia alguém que sabia a respeito de livros raros, era ele. Naquela tarde, após fechar a loja, meu pai sugeriu que fôssemos até o café Els Quatre Gats na rua Montsió, onde Barceló e seus comparsas mantinham uma tertúlia bibliófila sobre poetas malditos, línguas mortas e obras-primas abandonadas à mercê das traças. Els Quatre Gats ficava bem perto de casa e era, de toda Barcelona, um dos meus lugares preferidos. Ali se conheceram os meus pais em 32, e eu em parte atribuía meu ingresso na vida aos encantos daquele velho bar. Dragões de pedra vigiavam a fachada encravada num cruzamento de sombras, e seus lampiões a gás congelavam o tempo e as lembranças. Lá dentro, as pessoas se fundiam no eco de outras épocas. Contadores, sonhadores e aprendizes de gênio compartilhavam a mesa com o fantasma de Pablo Picasso, Isaac Albéniz, Federico García Lorca ou Salvador Dalí. Ali, qualquer pobre-coitado podia sentir-se por alguns minutos uma figura histórica, pelo preço de um expresso. - Ora, Sempere - exclamou Barceló ao ver entrar meu pai -, o filho pródigo. A que se deve esta honra? - A honra o senhor deve ao meu filho Daniel, que acaba de fazer uma descoberta. - Pois venham sentar-se conosco, que esta efeméride precisa ser comemorada - exclamou Barceló. - Efeméride? - perguntei em voz baixa ao meu pai. - Barceló se exprime sempre com palavras esdrúxulas - respondeu meu pai, cochichando. - Não diga nada, que ele fica zangado. Os colegas de tertúlia abriram um lugar na roda e Barceló, que gostava de dar uma de interessante, insistiu em convidar-nos. - Que idade o rapaz tem? - inquiriu Barceló, me olhando de esguelha. - Quase 11 anos - declarei. Barceló sorriu, como se, secretamente, caçoasse de mim. - Ou seja, dez. Não coloque mais anos, energúmeno, que a vida já se encarregará disso. Vários dos colegas de tertúlia murmuraram sua concordância. Barceló fez sinais para um garçom que, pela aparência, estava à beira de ser declarado monumento histórico, para que viesse anotar os pedidos. - Um conhaque do bom para o meu amigo Sempere, e para o rebento um leite morno, pois precisa crescer. Ah, e traga mais presunto, mas que não seja como o de antes, hein, pois para borracha já temos a Pirelli, rugiu o livreiro. O garçom assentiu e partiu, arrastando os pés e a alma. - É o que eu digo - comentou o livreiro. - Como pode haver trabalho? Se em nosso país as pessoas não se aposentam nem depois da morte. Veja o Cid. Não há solução. Barceló saboreou seu cachimbo apagado, o olhar aquilino examinando com interesse o livro que eu trazia nas mãos. Apesar da sua fachada cômica e de tanto falatório, Barceló sabia cheirar uma boa presa como um lobo cheira sangue. - Deixe ver - disse Barceló, fingindo desinteresse. - Que me trazem vocês? Dirigi o olhar para o meu pai. Ele assentiu. Sem mais preâmbulos, entreguei o livro a Barceló. O livreiro segurou-o com mão experiente. Seus dedos de pianista rapidamente exploraram a textura, a consistência e o estado. Exibindo seu sorriso florentino, Barceló localizou a página de cré-ditos e a inspecionou com intensidade policial pelo espaço de um minuto. Os demais o observavam em silêncio, como se esperassem um mi-lagre ou uma licença para respirar de novo. - Carax. Interessante - murmurou, com tom impenetrável. Estendi de novo a mão para recuperar o livro. Barceló franziu o cenho, mas o devolveu com um sorriso glacial. - Onde o encontrou, rapaz? - É um segredo - retruquei, sabendo que meu pai devia estar sorrindo por dentro. Barceló franziu a testa e desviou o olhar para o meu pai. - Amigo Sempere, porque é o senhor e por todo o apreço que lhe tenho e em honra à ampla e profunda amizade que nos une como a irmãos, vamos deixar em 40 pesetas e não se discute mais. - Isso terá que negociar com o meu filho - acrescentou meu pai. - O livro é dele. Barceló me dirigiu um sorriso de lobo. - Que me diz, rapazinho? Quarenta pesetas não está tão mau para uma primeira venda. Sempere, esse seu filho fará sucesso no ramo. Os colegas de tertúlia riram da piada. Barceló me olhou satisfeito, sacando sua carteira de pele de animal. Contou as 200 pesetas, que para aquela época eram uma fortuna, e entregou-me. Eu me limitei a negar, em silêncio. Barceló franziu a testa. - Olhe que a cobiça é pecado mortal, hein? - acrescentou. - Vamos, 300 pesetas e você abre uma caderneta de poupança, que já na sua idade é preciso pensar no futuro. Novamente neguei. Barceló lançou um olhar de ira para meu pai, através do monóculo. - Não olhe para mim - disse meu pai. - Estou aqui como acompanhante, apenas. Barceló suspirou e observou-me devagar. - Vamos ver, garoto, o que você quer? - O que quero é saber quem é Julián Carax e onde posso encontrar outros livros que tenha escrito. Barceló riu baixinho e guardou de novo a carteira, reconsiderando o adversário. - Puxa vida, um acadêmico. Sempere, o que você dá de comer a este menino? - brincou. O livreiro inclinou-se na minha direção em tom confidencial e, por um minuto, pareceu-me perceber em seu olhar certo respeito que não tinha estado ali momentos antes. - Faremos um trato - disse ele. - Amanhã de tarde, domingo, você passa na Biblioteca do Ateneo e pergunta por mim. E traz o seu livro, para eu poder examiná-lo, e eu lhe conto o que sei a respeito de Julián Carax. Quid pro quo. - Quid pro quê? - Latim, jovem. Não existem línguas mortas, mas cérebros letárgicos. Parafraseando, significa que há coisas que é um disparate misturar, mas simpatizei com você e vou fazer-lhe um favor. Aquele homem destilava uma oratória capaz de aniquilar moscas em pleno vôo, mas suspeitei que, se queria averiguar algo sobre Julián Carax, era melhor que ficasse em bons termos com ele. Sorri-lhe beatificamente, mostrando meu prazer com os latinismos e com seu verbo fácil. - Lembre-se, amanhã, no Ateneo, sentenciou o livreiro. Mas traga o livro, ou não faremos acordo algum. - Está bem. A conversa se desvaneceu lentamente nos murmúrios dos demais colegas de tertúlia, derivando para a discussão de uns documentos encontrados nos sótãos de El Escorial, que sugeriam a possibilidade de dom Miguel de Cervantes não ter sido senão o pseudônimo literário de uma peluda mulherona de Toledo. Barceló, ausente, não participou do debate bizantino e se limitou a observar-me pelo seu monóculo, com um sorriso velado. Ou talvez olhasse apenas o livro que eu -segurava nas mãos.

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