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Antonia e Suas Filhas - Segredos, Amor, Amizade e Família na Toscana (Cód: 5014690)

Blasi,Marlena De

Sextante / Gmt

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Descrição

Depois de levar os leitores a um passeio por diversas regiões da Itália, desta vez Marlena vai até o oeste da Toscana para descobrir e revelar a história surpreendente e real de Antonia e suas filhas. Marlena se instala em uma casa rústica, de pedra, com apenas um aposento, que lhe serve de refúgio para escrever seu novo livro. Nos arredores ela conhece Antonia e uma de suas filhas, Filippa, e depois passa a conviver com toda a família, participando das refeições preparadas e servidas na grande propriedade do clã, denominada Il Castelletto.
A princípio, Antonia provoca Marlena, mostrando toda a sua aversão aos estrangeiros que decidem adquirir terras e viver na Toscana. Com habilidade e perspicácia, Marlena procura entender os motivos de Antonia, e à medida que conversam, cozinham, bebem e comem juntas, as duas descobrem que, apesar das diferenças culturais, têm muito em comum.
É no verão de 2003 que Antonia conta a trajetória de sua vida, revela segredos de família, feridas não cicatrizadas, reflete sobre o amor e a amizade, erros e acertos, e descreve momentos de fartura e também de dificuldade passados durante a Segunda Guerra Mundial.
“Antonia e suas filhas” é uma história verídica sobre a matriarca de quatro gerações de mulheres belas e valentes. Ao final do livro, a autora presenteia o leitor com receitas de deliciosas iguarias de Antonia.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Sextante / Gmt
Cód. Barras 9788575429556
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 9788575429556
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Tradutor Livia de Almeida
Número da edição 1
Ano da edição 2013
Idioma Português
Número de Páginas 208
Peso 0.26 Kg
Largura 14.00 cm
AutorBlasi,Marlena De

Leia um trecho

Capítulo 1

Primavera

Preciso cumprir o prazo de entrega de um original. Contrariando
um pacto que fiz comigo mesma, sobre a forma como
conduziria minha vida de escritora, estou brincando com meus limites.
Consentindo com as distrações. Talvez convidando-as. Elas
assumem duas formas: a primeira é Emily, a minha mais querida
e velha amiga dos Estados Unidos, que veio passar uma semana e
já está há quase dois meses; a segunda é a equipe de três operários
que se ocupam diariamente com os reparos naquilo que acabou demonstrando
ser uma restauração não tão bem-feita da cúpula de
seis metros em nosso salone.
Quando amanhece, Emily sobe a escada rangente que separa seu
quarto do nosso e tamborila com as longas unhas vermelhas na porta
de madeira. Abro e vejo seu sorriso envergonhado. Isso me faz
lembrar de minha filha, quando tinha entre 4 e 6 anos e, no meio da
madrugada, entrava em meu quarto depois de atravessar um pequeno
corredor. “Mãe, achei que você talvez estivesse se sentindo sozinha”,
dizia ela.
Emily permanece na entrada, com minhas botas em suas mãos.
– Vamos caminhar?
Na maior parte do tempo, é ela quem fala.
– Eu me sinto melhor aqui na Itália. Esqueço o que ele fez.
Esqueço-me de me importar. Esqueço-me de me importar com os
motivos que o levaram a fazer aquilo e com o que ele pensa. O que
pensa de mim. O que pensa dela. E de tudo. Aqui é como se eu tivesse
saído de dentro de uma caixa e encontrasse a luz. Ah, vou acabar
voltando para ele. Não que eu consiga perdoá-lo, mas voltarei para
ele. Nunca teria coragem, você sabe, de... de... fazer o que você fez. E
se não desse certo? O que eu faria?
– Se não desse certo o quê?
– Se recomeçar a vida sem ele não desse certo?
– Mas a vida com ele não está dando certo. Já descobriu isso. E
mesmo assim você voltará. O que vai fazer? Fingir? Armar uma boa
vingança contra ele? “Cry me a river. I cried a river over you.”
– Seria ótimo.
– Você sabe que não seria.
– Não, não seria tão bom assim, eu acho. O que quero mesmo é
conhecer outra pessoa. Queria ter um Fernando para mim. Alguém
encantador, que me cortejasse e me fizesse sentir jovem, bonita e desejada.
– É isso que você acredita que aconteceu comigo? – pergunto-
-lhe. Ponho as mãos em seus ombros e a sacudo. – Olhe para mim,
Emmy. Todas essas coisas foram e são verdade. Mas elas retratam
apenas parte da história. E talvez nem seja a melhor parte. Na verdade,
não é mesmo...
– Eu sei, eu sei, já me contou e eu entendi, mas mesmo assim
você faz tudo parecer muito fácil. Você e Fernando são tão perfeitos
juntos, o jeito que ele olha para você, sempre a tocando, seu sorriso
para ele como se tivessem se casado há uma hora... e além disso você
escreve, cozinha e mora em um salão de baile... Fez tudo ficar tão
bonito e acolhedor, e todo mundo adora estar aqui... e...
– Emmy, Emmy, pare com isso. Pare de medir e comparar. Pare
de invejar. Uma coisa de cada vez. Se você voltar para aquela vida,
tudo aquilo que a fez sair correndo para cá estará à sua espera.
Haverá muito o que fazer. E não estou me referindo apenas a ele.
Mas conhecendo-a como conheço, e sabendo como ele é, acho que
o melhor que conseguirão será uma espécie de détente. E isso será
suficiente para você? Uma vida agradável. E se vocês dois se conven
cerem de que isso basta, vai tudo pelos ares na primeira ventania
mais forte. E sempre há ventanias fortes, Em, não se esqueça disso. A
reconciliação não é tão boa quanto pensam. Mal secam as lágrimas
e são feitas as promessas, aquilo que provocou o rompimento já está
ressurgindo. Retomar uma vida que já foi dolorosa, mas melhorou
um pouco, é um sonho frágil.
Nós nos sentamos no degrau mais alto do duomo, sozinhas na
piazza, exceto pela presença do varredor de rua que passa uma velha
vassoura de bruxa, feita de palha, sobre as pedras, e da viúva
Pasqualetti, envolta em xales, andando depressa, rumo a sua casa,
depois de alimentar os gatos na cava. Dois fantasmas, negro contra
o rubor do céu.
– Então vou tentar um sonho diferente, aquele que vim viver na
Itália. Afinal, viver aqui, o simples ato de sair para comprar um saco
de tomates se transforma numa incursão por outro mundo... e aí eu
encontraria o homem certo e... – diz ela.
– E bem depressa você vai ouvir o lamento das esposas italianas...
sono tutti egocentrici, grandi mammoni... são todos egocêntricos e
apegados às mães. Você não está esperando coisas demais da geografia?
E do próximo homem. Para não falar do pobre saco de tomates...
Acho melhor começar em casa, ou seja, começar por você. Para ficar
pronta para o que der e vier. Faça seu trabalho primeiro, Em.
– Não sei se quero. Além do mais, você não diz sempre que ninguém
muda? Somos nós mesmos eternamente.
– Certo, mas podemos crescer, nos esforçar para aprimorar nossas
qualidades e tentar minimizar os defeitos. Já o caráter constitui a
nossa essência. É permanente como a cor dos olhos.
– É um pensamento assustador. Somos o que somos. Como o
Popeye. “Sou o que sou, um marinheiro.” Meu Deus, você acredita
mesmo nisso? Não podemos voltar atrás. Não podemos mudar. O
que resta então?
– Em seu caso, existem duas opções: aceitar vocês mesmos do
jeito que são e enfrentar a realidade; ou não aceitar e começar a trabalhar.
– E você? Fez seu trabalho?
– Tive mais sorte do que você. Comecei cedo. Eu era muito velha
quando era jovem. Aprendi a confiar em mim mesma, a ficar amiga
do destino. A exigir mais de mim do que de qualquer outra pessoa.
E, de alguma forma, sempre me senti rica. Mesmo quando não tinha
um centavo. Principalmente nessas ocasiões. Às vezes eu me sentia
quase constrangida diante de tudo o que eu tinha. Tudo o que eu
sentia dentro de mim. Acho que foi por isso que comecei a escrever.
Em todo caso, estou mais jovem agora. Respondendo à sua pergunta,
sim, fiz meu trabalho. E ainda estou fazendo.
Emily sacode a cabeça e diz:
– Estou cansada demais para me submeter a toda essa introspecção.
Acho que não vou gostar de boa parte do que posso encontrar.
Prefiro simplesmente ir em frente e ver o que acontece.
Ela se vira para se recostar em mim. Ficamos em silêncio, o raspar
da vassoura como um metrônomo. Em seguida ela muda de posição
para me olhar. Sua voz é tão delicada quanto uma antiga colher de
prata, ela ergue uma taça invisível, o rosto transformado por um
soluço:
– Comer, beber e voltar a casar.
De noite, quando o fogo está baixo, Emily diz, como uma criança
para sua mãe: “Não me deixe.” E eu não a deixo. Ela precisa do
conforto da mesa, de um bom vinho tinto, do pão ainda quente
do forno. Nas primeiras semanas de sua visita, ela mal saía da cama,
a não ser para comer e beber, e mesmo agora ela vagueia pela cozinha,
sentindo os aromas, levanta as tampas das panelas, abre as
portas do forno, acaricia as garrafas de vinho separadas para serem
aquecidas até a hora do almoço, se esforça para pronunciar um obrigada
meio abafado. O mínimo que posso fazer é cozinhar para ela.
E embora esteja fazendo isso por ela, por que não para o trio de gesseiros?
Enquanto lavo a louça desses festivais diários, chego a ranger
os dentes ao pensar em tantos livros que existem com páginas de
agradecimentos a essa ou aquela fundação pelos dois anos felizes e
serenos que me permitiram escrever este livro. Outros listam um grupo
de 61 pesquisadores, leitores, amigos insones, incentivadores em
geral durante os oito anos e os infindáveis esboços deste livro. Como
sempre, meu editor me concedeu um ano para a conclusão da obra.
Trabalho sozinha em um minúsculo cômodo vermelho que fica sobre
um supermercado e um restaurante, que diariamente recebe um
grupo de quarenta americanos agitados, sob os cuidados de um guia
turístico local. Eles almoçam, bebem grandes quantidades de um vinho
nada decente e, enfim, se aglomeram, soltando gargalhadas sob
minha janela até que o guia turístico – revigorado, embora atrasado,
depois de desfrutar de uma tigela de pastasciutta feita pela mãe e
de um breve appuntamento galante com sua amante – chegue para
levar os quarenta de volta para o ônibus.
Nunca tive um leitor ou um amigo a quem pudesse recorrer para
me reconfortar no meio da noite. É minha culpa se dei a meu trabalho
a condição de jobette – uma hora aqui e ali como um socorro
entre crises. Basta. Preciso de alguns meses sozinha em um sótão no
sétimo andar. Um sótão sem fogão. Uma cabana sobre um penhasco
à beira-mar sem fogão. Uma castanheira oca. Praticamente qualquer
lugar sem fogão. Sabendo que não terei nenhuma dessas opções,
penso em alternativas, mas elas não existem. Então penso em
Neddo. Eu poderia me hospedar em sua casa em Canonica. Como
ele é viúvo há muitos anos, com filhos já adultos, sua antiga fazenda
tem mais quartos vagos do que habitados. Neddo é um cozinheiro
magnífico, que tem ciúmes de sua cozinha e de seus métodos. Ele
será meu salvador.
– É claro que pode, amore mio – responde ele, embora eu ainda precise
lhe dizer exatamente quais são meus planos.
– Seria apenas por alguns meses. Cinco ou seis dias por semana.
Das seis da manhã até o final da tarde. Eu não pretendo trabalhar
o tempo todo, é claro. Talvez nós pudéssemos caminhar juntos por
uma hora, ou eu poderia descansar perto da lareira se você...
– Sim, sim, sim. Concordo com tudo. Comece hoje. Biagio está
aqui, aliás, chegou na noite passada, trouxe umas aves para pendurar
e dois kili de farinha de milho Garfagnano. Ele também trouxe
vinho, umas garrafas daquele tinto de Gaspari caríssimo, e acabou
de me perguntar se Fernando viria jogar baralho hoje à tarde. Dio
buono, quando ouvir as novidades sobre você, é capaz de não querer
mais ir embora. Imagine os almoços e...
– Fantastico, Neddo – minto acintosamente. – Glorioso. Biagino.
Carteado. Farinha de milho Garfagnano e aves podres. Será perfeito.
Neddo conta tudo a Biagio, que logo tem outra ideia. É ele quem
aparece para me fazer uma visita mais tarde, no mesmo dia, e anuncia
que o que eu de fato preciso, mais do que um quarto na casa de
Neddo, é da absoluta tranquilidade de sua casa. Não a casa onde ele
mora com a esposa em Castelletto, mas o santuário de pedra com
apenas um aposento, em um pinheiral próximo, onde ele se instala
para caçar.
– Uma lareira com 4 metros e duas toras de carvalho envelhecido,
uma cama, uma cadeira, uma mesa. Panelas e caçarolas, meio garrafão
de tinto, um de azeite. Fica a menos de 4 quilômetros do vilarejo.
Saio às sete para levar pão para Antonia e levarei para você também.
Due alimentari, un forno, un macellaio, un norcino, un bar, due trattorie,
un antiquario, una parrucchiera. Duas mercearias, uma padaria,
um açougue, outro que só trabalha com porcos, um bar, duas
trattorias, um antiquário, um cabeleireiro. E há uma pequena feira
às terças e aos sábados. Porchetta, formaggi, verdure. Porco assado
em fogo de lenha, queijos, verduras. Você vai ficar bem. Deixaremos
que Fernando a visite nos fins de semana.
– O-que-acha? Seria-só-até-que-eu-conseguisse-terminar-o-origi
nal-dois-meses-talvez-três-eu-conseguiria-fazer-tanta-coisa-sembarulho-
sem-Emily-sem-fogão...
Estou tentando contar toda a história antes que ele comece a virá-
-la de cabeça para baixo e eu comece a me sentir egoísta e tola. Uma
prima donna. Seus recursos são sempre mais refinados. “Você diz que
uma cozinheira de verdade pode cozinhar com uma lata. E uma escritora
de verdade? Se você é mesmo uma escritora, então pode escrever
em qualquer lugar, sob quaisquer circunstâncias. Não é verdade?
Se você fosse uma escritora.” Estamos a sós no terraço do Foresi e,
embora ainda não sejam oito horas, um dos filhos faz movimentos
delicados para indicar que precisa fechar. Mesmo assim, Fernando
acende um cigarro e inala a fumaça pelo nariz, o preâmbulo habitual
para uma ofensa. Com o fósforo ainda aceso, ele diz:
– Emily vai embora no fim de semana. Conversei com ela hoje
de manhã. Está pronta para... para retomar a vida dela. Falei muito
pouco. – Ele sopra o fósforo.
– Você não tinha o direito de dizer nada...
– Acredito que tinha, sim. E Emily também. Ela me agradeceu.
Sinto vontade de sacudi-lo.
– A partida de Emily não resolve o meu problema...
– Seu problema é que você costuma criar desculpas para não escrever.
Esta tem sido a questão desde que nos mudamos para cá. E
muito tempo antes disso.
Agora tenho vontade de virar a mesa, esmagar o cigarro contra o
seu nariz adunco e um tanto grande. Pergunto-me se ele tem razão.
E daí se tiver?
– Não vou mais agir como se escrever fosse uma diversão, uma espécie
de diletantismo para preencher o tempo enquanto o pão está
crescendo, ou nos intervalos entre espressi e passeggiate. É o meu
trabalho. Não, não está certo. É uma espécie de fome. Uma gana.
Eu não consigo deixar de escrever. Além do mais, é tudo que temos,
tudo que temos para nos manter. – Percorremos o curto trajeto de
volta para o número 34 e estamos subindo os degraus. – Repense na
sua aposentadoria precoce e não remunerada. Com seu currículo
de 26 anos de experiência, por que não procura trabalho em algum
banco? Acho que um homem, relativamente jovem e capaz, estar
sem trabalho não é nada bom, e além disso eu...
– Você me espanta. Não quer apenas se instalar como uma eremita
nas montanhas, mas também quer que eu abandone minha
aposentadoria e... Você realmente está sugerindo que eu deveria trabalhar?
– Achei que essa sugestão ofenderia sua delicada sensibilidade
veneziana, meu amor, mas é isso mesmo, estou sugerindo que você
trabalhe. Se seus dias tiverem uma estrutura, o mesmo acontecerá
com os meus. Do jeito que as coisas andam, disponho apenas de
migalhas de tempo para escrever. Quando sobram. Além do mais,
não sabemos se o que ganho com a venda dos livros vai continuar
mantendo adequadamente...
– Mantendo você adequadamente, bancando sua sede de viagens
e as toneladas de tecido... estadias de um mês em Paris... 110.000 lire
no Emilio, no mês passado, só em queijo...
Estamos agora no interior do salão de baile, sentados lado a lado
no sofá, preferindo não olhar diretamente um para o outro. Então
eu digo:
– Você vai lembrar que também gosta de queijo, e dos meses que
passamos juntos em Paris e que cada guardanapo que usa foi feito a
partir daquele tecido todo, assim como seus lençóis e...
– E esse vestido ridículo que você está usando...
– Ridículo? Como foi que ele se tornou ridículo de repente? Não
é tão diferente dos meus outros vestidos.
– Talvez não seja o vestido. O vestido em si é... ele fica bem em
você. Mas não com essas botas. As botas é que são ridículas. Prefiro
com sandálias. Quantos pares de sandálias você tem com todas
aquelas tiras e fitas?
– Uso as botas para me sentir confortável nos 4 ou 5 quilômetros
que caminhamos sobre o pedregulho dessa cidade todos os dias,
sem falar nas ocasiões em que andamos nas colinas.
– Então use tênis como as outras americanas.
– Nunca usei tênis. Usei sapatilhas de balé cor-de-rosa presas a
meus pés com fitas elásticas até quando jogava hóquei na grama, na
escola.
– Você nunca jogou hóquei na grama.
– Joguei, sim. Duas vezes. Peguei emprestado um taco e um disco
e fiquei treinando sozinha no banheiro. Vi que não era para mim.
De qualquer jeito, nunca vou usar tênis... É uma questão de conforto
psicológico. Sinto-me como uma pata quando estou de tênis.
– Você parece uma partigiana quando está de botas.
– Prefiro ser partigiana a ser uma pata.
– Eu disse partigiana e não perdiz.
Levanto-me para andar pelo aposento. Olhando sobre o ombro,
respondo:
– Ouvi muito bem o que você disse e ainda prefiro ser partigiana
a ser uma pata. Uma coisa é assumir a responsabilidade pelo nosso
sustento. Isso eu tenho feito, continuaria a fazer da melhor forma
possível o tempo todo. Mas quando você exige mais atenção, quando
se ressente das horas, passa a contá-las, anda de um lado para
outro diante da porta como um animal rebelde, quando se irrita se
eu paro e converso com um leitor, ou... É como se você preferisse
que eu fosse um fracasso anônimo que conseguisse ganhar imensas
somas de dinheiro. Você é, em essência, impassível e quer que eu seja
impassível com você, desde que, em algum momento no meio da
madrugada e sem insinuações sobre nossa impassibilidade, eu continue
a escrever livros que vendem. Nada disso é justo, Fernando.
Você exige que eu seja responsável e isso me faz sentir sufocada. Sim,
é isso. Eu me sinto sufocada.
– O que quer dizer sufo-cada?
– Meu Deus! Não importa. Quer dizer apenas que estou cansada.
– Sufo-cada. Nunca ouvi esta palavra como sinônimo de cansada.
De repente, nossa discussão absurda acaba com qualquer raiva
que eu possa estar sentindo, e o olho pela primeira vez. Vejo sua
perplexidade. Estávamos falando em inglês, um raro acontecimento
entre nós, inserindo alguma palavra italiana apenas de forma oca
sional. Sei como é tentar ser compreendida em um idioma que não
é o seu. Também sei que todas as vezes que um de nós se esquece da
humildade, isso indica que o outro deve tomar uma atitude. Sorriolhe
e me aproximo dele.
– Não é isso que quer dizer, de forma alguma. Neste momento,
não consigo explicar muito bem o que é.
Ele me puxa para mais perto, coloca minha cabeça debaixo de seu
queixo, com muita suavidade, e diz:
– Não consegue porque está cansada demais ou porque eu sou
impassível? Não consigo compreendê-la.
– Nem eu consigo compreendê-lo. A beleza está aí, não é? Pelo
menos, podemos culpar dois idiomas. Por não conseguirmos nos
entender. Lamento muito pelos casais que não dispõem de um argumento
tão conveniente.
As portas da sacada se abrem para a noite de abril e ele vai até lá.
Seria um mero acaso ele ficar sob o único feixe de luz dourada que
vem da luminária da parede sob o vicolo Signorelli? Ele segura a balaustrada
de ferro com as duas mãos e ergue o queixo. Um Shylock
meditativo atravessando os mares. Aproximo-me dele e paro depois
de passar pelas portas.
– Você é menos impassível do que italiano. Pior: veneziano. Você é
você. Nunca foi, nem por um segundo sequer, outra pessoa além de
si mesmo. Sua magnífica pessoa. Sua pessoa mais ou menos magnífica.
Quanto a mim? Você tem razão. Estou bancando a artista frágil.
Ele se volta ao ouvir aquilo, apoia os cotovelos na balaustrada,
pousa o olhar em algum ponto acima de mim e segura o cigarro
entre o polegar e o indicador, um astro do cinema alemão da década
de 1930 soltando fumaça entre os dentes.
Passo a falar italiano:
– Alguém disse uma vez que “Um escritor é um expatriado não
importa onde viva”. Talvez tenha sido eu. É possível que não seja
tão fácil para você viver com alguém duas vezes expatriada. Com a
escritora que eu sou e que, pelo simples fato de ser uma escritora,
precisa com frequência se manter emocionalmente distante. Com a

Avaliações

Avaliação geral: 5

Você está revisando: Antonia e Suas Filhas - Segredos, Amor, Amizade e Família na Toscana

Maria Helena Frantz Jung recomendou este produto.
25/04/2017

Livro pleno de mistério, com personagens que jamais imaginei que poderia encontrar em um romance, mas que Marlena de Blasi torna possível com sua maestria de escritora.

Antonia e suas filhas, personagens misteriosas, belas, vividas, cada uma com sua história peculiar, e a mãe ou matriarca , Antonia, que torna tudo homogêneo e por demais interessante. Guerra, gastronomia, amor, mortes, detalhes da Toscana, da vida por lá, tudo nos prende, tanto que quase chorei ao ver que terminava o livro. Espero que haja muitos outros no mesmo estilo. Avante, Marlena de Blasi. Adorei é dizer pouco. Vivi com elas, comi com elas, apreciei as paisagens.
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