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Apologia de Sócrates - Col. Saraiva de Bolso (Cód: 3649461)

Platão

Saraiva De Bolso

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Cartão Saraiva

Descrição

Discípulo de Sócrates, outro grande filósofo da Antiguidade, Platão deixou impressa de tal forma em sua obra a influência do mestre que nem sempre é fácil para os estudiosos distinguir as ideias de um e de outro. Numa tentativa de evocar um discurso proferido por Sócrates em defesa própria perante seus acusadores, Platão redigiu a Apologia de Sócrates, texto considerado por muitos as mais belas páginas de eloquência que nos foram legadas pela Antiguidade, uma síntese da filosofia socrática.

Tradução e apêndice: Maria Lacerda de Moura
Introdução: Alceu Amoroso Lima

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Saraiva De Bolso
Cód. Barras 9788520925850
Altura 17.50 cm
I.S.B.N. 9788520925850
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2011
Idioma Português
Peso 0.44 Kg
Largura 10.50 cm
AutorPlatão

Leia um trecho

A morte de Sócrates Eis como, na palavra de um dos grandes biógrafos de Platão, se apresentam os fatos, em sua nudez objetiva — “kahl und tot” —, que cercaram a morte de Sócrates, essa morte que vem atravessando os séculos, como um dos grandes momentos da história da humanidade e representa como que uma prefiguração da morte de Cristo no Calvário. “Durante o inverno de 400/399 (a.C.) apresentou Meleto ao rei de Atenas uma queixa contra Sócrates. Anito e Lícon a subscreviam. Meleto era um jovem, pertencente a uma família de poetas e havia, pouco antes, feito representar uma Edipédia. Era poeta de pequeno vulto e queria chamar a atenção sobre a sua pessoa. Os dois outros estavam metidos na vida pública. Lícon tinha tido, anteriormente, relações com Sócrates. Seu filho Antólico se tinha tornado um atleta conhecido e havia perdido a vida em um golpe da guarnição espartana durante a ocupação, o que provocara grande emoção. Havia, no caso, qualquer ressentimento pessoal (do pai contra Sócrates) que não podemos bem explicar. Anito era um dos chefes da Democracia moderada dominante. Sua participação dava à queixa o seu maior peso. Sócrates era acusado de recusar o culto devido aos deuses do Estado, introduzindo entidades demoníacas, com isso pervertendo a mocidade e levando-a a cometer os mesmos crimes (de ateísmo contra os deuses oficiais), pois só assim ficaria o crime sob a jurisdição do rei, a quem competia a defesa da religião do Estado. O rei recebeu a queixa, dirigiu o inquérito e reuniu um tribunal de 501 jurados, que poderia condenar o réu pela maioria de sessenta vozes. Como pena, após acusação da promotoria, foi votada a de morte, por grande maioria. Um julgamento do povo soberano e infalível, que os juízes representavam, era imediatamente posto em execução. Não havia recurso a qualquer instância superior. Sócrates foi logo levado à prisão pelos executores da sentença e posto a ferros para evitar a fuga. Seu amigo Críton apresentou garantias de que o condenado não procuraria fugir, provavelmente com o fito de obter alguma atenuação de tratamento, na prisão, para que o acusado pudesse ainda conversar com seus amigos. Adiou-se inesperadamente a execução da sentença. Dias antes se preparava para partir para Delfos o navio sagrado, que outrora levara Teseu a Creta, para uma peregrinação ao santuário de Apolo. Todo ano, nessa época, partia um navio para Delfos, com uma embaixada, para festejar o deus, que durante o inverno se ausentava para a Lícia. Nesse ano recaiu a festa no mês que anuncia a primavera, “mês sagrado” para os habitantes de Delfos, que correspondia ao “mês das flores” dos atenienses, o segundo depois do solstício do inverno. Nesse mês o mar não era ainda navegável. Daí o adiamento da partida e da volta do navio sagrado. Era tradição, porém, que durante esse período nenhuma sentença de morte podia ser executada. Dessa vez o lapso de tempo foi particularmente longo. Na tarde, porém, do dia em que o navio sagrado voltou ao porto, Sócrates bebeu a cicuta. São esses os fatos em sua plena nudez. (N. von Willamovitz-Moellendorf — Platon. 1920 vol. I, p. 155.). Dos acusadores de Sócrates, dois morreram, tempos depois, lapidados pela multidão, como, caluniadores: Meleto e Anito. Quanto a Lícon, desapareceu da história, como os outros também. Graças à glória de sua vítima é que seus nomes ainda são relembrados pela posteridade. Por ocasião da morte de Sócrates, Platão estava doente. Não pôde participar das conversas do mestre com os discípulos, aproveitando o atraso da execução da sentença, durante o qual Sócrates fazia versos sobre as fábulas de Esopo ou recusava a Críton a fuga por este oferecida, possivelmente com a própria complacência das autoridades públicas, que começavam provavelmente a reconhecer a fatal injustiça que os jurados haviam cometido, graças às intrigas dos acusadores. Platão não pôde tampouco, acompanhar a Críton, Fédon, Apolidoro, Cebes e Símias — os cinco amigos e discípulos, fiéis que participaram do memorável encontro do último dia de Sócrates, cujo resultado Fédon, depois da morte do mestre, foi contar a Echécatres e este referiu a Platão, que por sua vez o imortalizou no diálogo a que deu nome de Fédon. Toda obra de Platão está penetrada pelos ensinamentos de Sócrates, a tal ponto que nenhum comentador conseguiu distinguir nela o que pertence ao discípulo e o que proveio do mestre. O que se sabe, apenas, é que foi em seguida ao episódio relatado pelo próprio Sócrates, em seu Discurso aos juízes, durante o regime dos 30 Tiranos e sobretudo após a sua morte, que Platão “se converteu”, como diz Burnett, “levantando-se um novo homem da cama em que jazia doente. Não seria o caso único de um homem chamado a ser um apóstolo depois da morte do seu Mestre”, aludindo evidentemente, o intérprete moderno, ao caso de s. Paulo após a morte de Cristo (cf A. Diës — Autour de Platon, 1927, p. 134, nota I). Não é à toa que o nosso Fagundes Varela, no seu Evangelho nas selvas, introduz simbolicamente a figura de Sócrates, como tomando o lugar de Judas, depois da fuga antecipada do traidor, para completar os 12. Há uma analogia profunda entre as duas mortes, uma no plano natural, a outra no plano sobrenatural. Meia-noite! Nos altos candelabros Desmaiavam as luzes, a tristeza Cerrava os corações. — Éramos doze, Murmura um dos amigos assombrado, Éramos doze, sem contar o Mestre — Judas se retirou e... doze somos! — Nesse momento um trêmulo gemido Soou junto da mesa, o santo cálice Oscilou lentamente, desprendendo Aguda vibração... branca figura, Como a de Samuel na negra furna Da sibila de Endor, bela e horrível Ergueu-se vagarosa junto ao Cristo, — Senhor! — falou — Senhor, em idos tempos, Por vossa vinda suspirei debalde! Entre rudes pagãos, fui o primeiro Que a divina unidade expôs ao mundo, Que do Deus uno e trino a glória viu! Mártir da fé, baixei à sepultura Sem receber as águas do Batismo!... Hoje, que dás a salvação e a vida À humanidade escrava do pecado, Quebrei da morte o fúnebre sigilo, Vim o sangue beber, comer a carne, A carne e o sangue do Cordeiro eterno! Glória! Glória ao Senhor! abertas vejo Do Paraíso as portas luminosas! — — Piedoso varão, exímio Sócrates, Sábio como Moisés, íntegro e justo Como o grande Abraão — Jesus exclama, Voa ao seio de Deus! Recebe o prêmio De teu sublime, heroico sacrifício! — Um fúlgido clarão de alva celeste Iluminou a sala, e a sombra ilustre, Como outrora o Senhor, transfigurada, Deixou a terra, os homens, e perdeu-se Nas regiões do éter!... As duas grandes acusações contra Sócrates, que levaram a maioria dos 501 a condená-lo à morte, foram — atentar contra a religião do Estado e corromper a mocidade: ateísmo e subversão. Foi fácil a Sócrates, na sua defesa, destruir completamente tanto uma como outra acusação, como se vê de suas palavras perante o Areópago. Longe de ser um ateu, mostra Sócrates que foi a voz do oráculo de Delfos que sempre o guiou. Isto é, nunca se considerou como sendo infalível. Ao contrário, o que o oráculo lhe ensinara é que “toda a sabedoria humana não valia grande coisa e mesmo não valia nada”. E não foi outra a lição socrática. Longe de ser a de um racionalista, era a voz da humildade e do reconhecimento de que “há mais coisas debaixo do sol do que a nossa pobre razão pode compreender”, como 23 séculos mais tarde o iria exprimir de novo um dos poetas supremos da humanidade. Meleto, o poetastro, não teve o que responder, quando Sócrates pulverizou sua acusação de ateísmo, porque realmente não era verdadeira. Verdade apenas é que Sócrates condenava o politeísmo oficial, a religião de Estado, que obrigava a um conformismo especulativo incompatível com a dignidade humana e com a liberdade de consciência. Quando Sócrates introduziu “demônios”, em sua maiêutica, não estava tampouco pregando qualquer forma de demonismo espiritista. Seus demônios são “filhos dos deuses e das ninjas ou mesmo dos simples mortais”, isto é, representam as próprias forças da natureza que receberam dos “deuses”, isto é, do mistério sobrenatural, aquela autonomia que permite à inteligência humana penetrá-los e à técnica subjugá-los. A filosofia socrática não era um ateísmo, pois considerava que as raízes do universo sensível estavam acima e fora desse universo, e Platão sistematizou essa doutrinação em sua teoria das Ideias e da divindade suprema. Mas era, isso sim, um antiestatismo, isto é, uma condenação da autocracia humana que se servia dos deuses para impor aos homens uma escravidão política e moral, pior do que a escravidão puramente social. Esse estatismo, para Sócrates, tanto podia ser democrático como oligárquico. Contra os 30 Tiranos fora ele a única voz no Pritaneu que ousou erguer-se contra um decreto injusto da ditadura. E foi morrer vítima de um governo “democrático” e até mesmo da facção “moderada” da democracia, como o prova Willamovitz-Moellendorf, chamando a atenção para o fato de que só “alguns anos depois (da morte de Sócrates) é que os democratas radicais subiram ao poder” (op. cit. p. 157). O fanatismo, “democrático” ou “ditatorial”, é que é o inimigo da dignidade humana e da liberdade de consciência que Sócrates representa. Não era, pois, uma questão de regime, embora o antidemocratismo de Platão atribuísse a morte de Sócrates à “teatrocracia”, que a democracia alimentara. “Foi assim que o governo de Atenas passou de aristocrático a teatrocrático.” (Platão.) A teatrocracia ateniense teve por efeito liberar todos os cidadãos (“e a desordem passando do teatro a tudo mais”) de todo o respeito para com os magistrados, os superiores e os melhores, passando-se daí “ao desprezo pelo pátrio poder e pelos velhos”, ao “desrespeito pelas leis”, à apostasia “de todas as promessas, dos juramentos, dos deuses, imitando e renovando a audácia dos Titãs”. Tudo isso estava em germe na teatrocracia, ou pelo menos a teatrocracia contribuiu, largamente, para isso. Em suma, foi a teatrocracia que matou Sócrates” (Émile Faguet — Pour qu’on lise Platon, 1905, p. 57). Platão, nessa interpretação bastante aleatória de Faguet, aproveitava-se da morte de Sócrates como argumento em favor de sua República autocrática e de sua animosidade contra a democracia, ou antes contra a demagogia. Pois, na realidade, o que hoje chamamos democracia era o que os gregos, desde Aristóteles ao menos, chamavam de politeia, reservando o nome democracia ao que hoje chamamos demagogia. Na realidade, Sócrates não morria por um regime político, mas por um princípio mais alto do que todos os regimes — o da dignidade humana. O que ele não tolerava era a opressão do pensamento, fosse da Multidão, fosse do Estado, fosse em nome dos deuses, fosse em nome da onipotência da Razão, da Violência ou do Número. A maioria que votou sua morte praticava uma injustiça igual à que havia praticado o regime ditatorial oligárquico, contra o qual a sua voz solitária no Pritaneu é que estava com a razão, com a verdade e com a justiça. Por elas é que Sócrates enfrentou a morte com a mesma serenidade com que passara a vida discutindo livremente com os cidadãos de Atenas. Se é verdade, como diz Faguet, que “Platão tinha ódio aos atenienses”, como tinha “ódio à democracia”, nesse ponto o platonismo nada tinha de socrático. Sócrates nunca sonhou em organizar uma República que pudesse, pela rigidez de suas leis, como pretendeu Platão fazê-lo, dar a felicidade aos cidadãos. Pelo contrário, como nos diz Sócrates no seu imortal Discurso aos juízes, sempre, “desde criança” uma “voz interior” o aconselhou a não se meter na vida política. Não era esta a sua vocação. “Se o tivesse feito há muito que estaria morto.” Não era uma lição de escapismo, mas de sabedoria. Cada um no seu lugar. E o lugar de Sócrates era argumentar com os cidadãos, levá-los a pensar, pensar com eles e não entrar na ação política, para governá-los ou mesmo para elaborar as leis que os deviam tornar felizes, como Platão queria que os “filósofos” fizessem e em vão o tentou junto aos tiranos... Por aí se vê que nem todo platonismo é socratismo. A morte de Sócrates era pela liberdade e não pela autoridade. Era esta, e no caso a autoridade de um regime democrático, que praticava contra ele, e contra a consciência humana, uma trágica injustiça. Contra isso é que ele se revolta, não por atos mas por palavras, não pela violência, mas pela serenidade, não pela ação, nem pela paixão, mas pela razão. Mais do que pela razão, pela sabedoria, mestra da razão. E mais do que pela sabedoria humana, “humana demais”, como diria Nietzsche, pela sabedoria sobre-humana, divina, oracular. Ou como dizemos nós cristãos, “gratuita”, inspirada pela graça Divina. Nesse sentido é que Sócrates foi uma prefiguração de Cristo. Sua morte, como a de Cristo, foi um protesto contra todas as tiranias, de César ou da Multidão, dos teocratas, dos aristocratas, ou dos democratas. Só há uma cracia autêntica — a cracia Divina, a cracia do Bem, da Verdade, da Justiça, do Amor, aquela que Sócrates viveu e seguiu pela boca da Pítia de Delfos. E que Cristo viveu e seguiu pela boca do Pai. A mais alta voz do Paganismo se antecipava, como um profeta desconhecido, à mais alta voz do Cristianismo. Cristo, Verbo de Deus, vinha ser, humanamente falando, a realização não apenas da voz dos Profetas, mas dessas vozes humanas, como a de Sócrates ou a de Virgílio, que do fundo do helenismo ou da latinidade, tinham como que um pressentimento obscuro daquilo que do fundo da Raça eleita, os Elias e Isaías, Ezequiéis e Jeremias anunciavam. A importância da morte de Sócrates e da sua Apologia, que Platão exprimiu para todos os séculos, como poeta e como filósofo, tanto na própria Apologia, como no Críton ou no Fédon, transcendem, pois, de muito, o próprio mundo helênico, ou o da cultura por ele transmitido à posteridade. Sócrates — enfrentando a morte, com aquela serenidade incomparável e fazendo um testamento de sabedoria que só se aproxima daquele que o apóstolo s. João nos conservou, ditado pelo próprio Cristo, ao enfrentar também a morte, depois da Ceia — deixou para toda a humanidade, ocidental e oriental, setentrional ou meridional, a todas as raças e a todos os tempos, uma lição insuperável de grandeza humana e de sublime sabedoria sobre-humana... Nunca a dignidade do homem, a liberdade de consciência, a defesa da verdade, da justiça, da virtude, a serenidade perante a morte, a humildade de espírito e a grandeza de alma, a compreensão e a fortaleza de ânimo, a coragem sem jactância nunca um pensamento tão alto, uma lição tão profunda, foi dada por um homem aos homens em termos tão perfeitamente belos. Só mesmo a divindade de Cristo poderia transcender a humanidade de Sócrates. E sua morte ainda teve, como a de Tomás Morus, uma nota final extremamente humana: aquela ironia com que recomendou ao discípulo querido que não se esquecesse, como determinava a superstição, de sacrificar um galo a Esculápio, a esse deus da medicina e da terapêutica, que sabia preparar venenos tão sutis, como essa Cicuta, com que ele ingressava tranquilamente não na morte mas na eternidade! Não com lágrimas nos olhos, mas com um sorriso nos lábios. Condenando, para sempre, na pessoa dos seus algozes, a arrogância dos fanáticos, a violência dos medíocres e a implacabilidade dos primários. Platão (429-347 a.C.) A Apologia de Sócrates se coloca entre as mais belas páginas de eloquência que nos foram legadas pela antiguidade. A autodefesa do filósofo, feita perante seus impudentes e impenitentes acusadores, evocada por Platão com devoção de discípulo fiel, é, não obstante a brevidade do texto, uma síntese da filosofia socrática, de grandíssimo valor literário e como documento humano. A admirável serenidade do sábio, só preocupado com o destino dos seus acusadores e com a sagrada verdade, manifesta-se em toda a sua grandeza nas páginas imortais deste pequenino e grande livro. Alceu Amoroso Lima PRIMEIRA PARTE 1 - O que vós, cidadãos atenienses, haveis sentido, com o manejo dos meus acusadores, não sei; certo é que eu, devido a eles, quase me esquecia de mim mesmo, tão persuasivamente falavam. Contudo, não disseram, eu o afirmo, nada de verdadeiro. Mas, entre as muitas mentiras que divulgaram, uma, acima de todas, eu admiro: aquela pela qual disseram que deveis ter cuidado para não serdes enganados por mim, como homem hábil no falar. Mas, então, não se envergonham disso, de que logo seriam desmentidos por mim, com fatos, quando eu me apresentasse diante de vós, de nenhum modo hábil orador? Essa me parece a sua maior imprudência, se, todavia, não denominam “hábil no falar” aquele que diz a verdade. Porque, se dizem exatamente isso, poderei confessar que sou orador, não, porém, à sua maneira. Assim, pois, como acabei de dizer, pouco ou absolutamente nada disseram de verdade; mas, ao contrário, eu vo-la direi em toda a sua plenitude. Contudo, por Zeus, não ouvireis, por certo, cidadãos atenienses, discursos enfeitados de locuções e de palavras, ou adornados como os deles, mas coisas ditas simplesmente com as palavras que me vierem à boca; pois estou certo de que é justo o que digo, e nenhum de vós espera outra coisa. Em verdade, nem conviria que eu, nesta idade, me apresentasse diante de vós, ó cidadãos, como um jovenzinho que estuda os seus discursos. E todavia, cidadãos atenienses, isso vos peço, vos suplico: se sentirdes que me defendo com os mesmos discursos com os quais costumo falar nas feiras, perto dos bancos1, onde muitos de vós me tendes ouvido, em outros lugares, não vos espanteis por isso, nem provoqueis clamor2. Porquanto, há o seguinte: é a primeira vez que me apresento diante de um tribunal, na idade de mais de setenta anos3: por isso, sou quase estranho ao modo de falar aqui. Se eu fosse realmente um forasteiro, sem dúvida me perdoaríeis, se eu falasse na língua e maneira pelas quais tivesse sido educado; assim também agora vos peço uma coisa que me parece justa: permiti-me, em primeiro lugar, o meu modo de falar — e poderá ser pior ou mesmo melhor — depois, considerai o seguinte, e só prestai atenção a isso: se o que digo é justo ou não; essa, de fato, é a virtude do juiz, do orador — dizer a verdade. 2 - É justo, pois, cidadãos atenienses, que, em primeiro lugar, eu me defenda das primeiras e falsas acusações que me foram apresentadas, e dos primeiros acusadores; depois, me defenderei das últimas e dos últimos. Porque muitos dos meus acusadores têm vindo até vós há já bastante tempo, talvez anos, e sem jamais dizerem a verdade; e esses eu temo mais do que Anito e seus companheiros, embora também sejam temíveis os últimos. Mais temíveis porém são os primeiros, ó cidadãos, os quais tomando a maior parte de vós, desde crianças, vos persuadiam e me acusavam falsamente, dizendo-vos que há um tal Sócrates, homem douto, especulador das coisas celestes e investigador das subterrâneas e que torna mais forte a razão mais fraca. Esses cidadãos atenienses, que divulgaram tais coisas, são os acusadores que eu temo; pois aqueles que os escutam julgam que os investigadores de tais coisas não acreditam nem mesmo nos deuses. Pois esses acusadores são muitos e me acusam há já bastante tempo; e, além disso, vos falavam naquela idade em que mais facilmente podíeis dar crédito, quando éreis crianças e alguns de vós muito jovens, acusando-me com pertinaz tenacidade, sem que ninguém me defendesse. E o que é mais absurdo é que não se pode saber nem dizer os seus nomes, exceto, talvez, algum comediógrafo4. Por isso, quantos, por inveja ou calúnia, vos persuadiam, e os que, convencidos, procuravam persuadir os outros, são todos, por assim dizer, inabordáveis; porque não é possível fazê-los comparecer aqui, nem refutar nenhum deles, mas devo eu mesmo me defender, quase combatendo com sombras e destruir, sem que ninguém responda. Admiti, também vós, como eu digo, que os meus acusadores são de duas espécies, uns, que me acusaram recentemente, outros, há muito, dos quais estou falando e convinde em que me devo defender primeiramente destes, porque também vós os ouvistes acusar-me em primeiro lugar e durante muito mais tempo que os últimos. Ora bem, cidadãos atenienses, devo defender-me e empreender remover da vossa mente, em tão breve hora, a má opinião acolhida por vós durante longo tempo. Certo eu desejaria consegui-lo, e seria o melhor, para vós e para mim, se, defendendo-me, obtivesse algum proveito; mas vejo a coisa difícil, e bem percebo por quê. De resto, seja como Deus quiser: agora é preciso obedecer à lei e me defender. 3 - Prossigamos, pois, e vejamos, de início, qual é a acusação, de onde nasce a calúnia contra mim, baseado na qual Meleto me moveu este processo. Ora bem, que diziam os caluniadores ao caluniar-me? É necessário ler a ata da acusação jurada por estes acusadores: — Sócrates comete crime e perde a sua obra, investigando as coisas terrenas e as celestes, e tornando mais forte a razão mais débil, e ensinando aos outros. — Tal é, mais ou menos, a acusação: e isso já vistes, vós mesmos, na comédia de Aristófanes, onde aparece, aqui e ali, um Sócrates que diz caminhar pelos ares e exibe muitas outras tolices, das quais não entendo nem muito, nem pouco. E não digo isso por desprezar tal ciência, se é que há sapiência nela, mas o fato é, cidadãos atenienses, que, de maneira alguma, me ocupo de semelhantes coisas. E apresentotestemunhas: vós mesmos, e peço vos informeis reciprocamente, mutuamente vos interrogueis, quantos de vós me ouviram discursar algum dia; e muitos dentre vós são desses. Perguntai-vos uns aos outros se qualquer de vós jamais me ouviu orar, muito ou pouco, em torno de tais assuntos, e então reconhecereis que tais são, do mesmo modo, as outras mentiras que dizem de mim. 4 - Na realidade, nada disso é verdadeiro, e, se tendes ouvido de alguém que eu instruo e ganho dinheiro com isso, também não é verdade. Embora, em realidade, isso mesmo me pareça bela coisa: que alguém seja capaz de instruir os homens, como Górgias de Leontine, Pródico de Coo, e Hípias de Élide. Porquanto, cada um desses, ó cidadãos, passando de cidade em cidade, é capaz de persuadir os jovens, os quais poderiam conversar gratuitamente com todos os cidadãos que quisessem; é capaz de os persuadir a estar com eles, deixando as outras conversações, compensando-os com dinheiro e proporcionando-lhes prazer. Mas aqui há outro erudito de Paros, o qual eu soube que veio para junto de nós, porque encontrei por acaso um que despendeu com os sofistas mais dinheiro que todos os outros juntos: Cálias de Hipônico. Tem dois filhos e eu o interroguei: — Cálias, se os teus filhinhos fossem poldrinhos ou bezerros, deveríamos escolher e pagar para eles um guardião, o qual os deveria aperfeiçoar nas suas qualidades inerentes; seria uma pessoa que entendesse de cavalos e agricultura. Mas, como são homens, qual é o mestre que deves tomar para eles? Qual é o que sabe ensinar tais virtudes, a humana e a civil? Creio bem que tens pensado nisso uma vez que tens dois filhos. Haverá alguém ou não? — Certamente! — responde. E eu pergunto: — Quem é, de onde e por quanto ensina? — Éveno, respondeu, de Paros, por cinco minas. — E eu acreditaria Éveno muito feliz, se verdadeiramente possui essa arte e a ensina com tal garbo. Mas o que é certo é que também eu me sentiria altivo e orgulhoso, se soubesse tais coisas; entretanto, o fato é, cidadãos atenienses, que não sei. 5 - Algum de vós, aqui, poderia talvez se opor a mim: — Mas, Sócrates, que é que fazes? De onde nasceram essas calúnias? Se não tivesses te ocupado em coisa alguma diversa das coisas que fazem os outros, na verdade não terias ganho tal fama e não teriam nascido acusações. Dize, pois, o que é isso, a fim de que não julguem a esmo. Quem diz assim, parece-me que fala justamente, eu procurarei demonstrar-vos que jamais foi essa a causa produtora de tal fama e de tal calúnia. Ouvi-me. Talvez possa parecer a alguns de vós que eu esteja gracejando; entretanto, sabei-o bem, eu vos direi toda a verdade. Porque eu, cidadãos atenienses, se conquistei esse nome, foi por alguma sabedoria. Que sabedoria é essa? Aquela que é talvez, propriamente, a sabedoria humana. É, em realidade, arriscado ser sábio nela: mas aqueles de quem falávamos ainda há pouco seriam sábios de uma sabedoria mais que humana, ou não sei que dizer, porque certo não a conheço. Não façais rumor, cidadãos atenienses, não fiqueis contra mim, ainda que vos pareça que eu diga qualquer absurdo; pois que não é meu o discurso que estou por dizer, mas refiro-me a outro que é digno da vossa confiança. Apresento-vos, de fato, o deus de Delfos, como testemunha de minha sabedoria, se eu a tivesse, e qualquer que fosse. Conheceis bem Xenofonte. Era meu amigo desde jovem, também amigo do vosso partido democrático, e participou do vosso exílio e convosco repatriou-se. E sabeis também como era Xenofonte, veemente em tudo aquilo que empreendesse. Uma vez, de fato, indo a Delfos, ousou interrogar o oráculo a respeito disso e — não façais rumor, ó cidadãos, por isso que digo — perguntou-lhe, pois, se havia alguém mais sábio que eu. Ora, a pitonisa respondeu que não havia ninguém mais sábio5. E a testemunha disso é seu irmão, que aqui está. 6 - Considerai bem a razão por que digo isso: estou para demonstrar-vos de onde nasceu a calúnia. Em verdade, ouvindo isso, pensei: que queria dizer o deus e qual é o sentido das suas palavras obscuras? Sei bem que não sou sábio, nem muito nem pouco: que quer dizer, pois, afirmando que eu sou o mais sábio? Certo não mente, não é possível. E fiquei por muito tempo em dúvida sobre o que pudesse dizer; depois de grande fadiga, resolvi buscar a significação do seguinte modo. Fui a um daqueles detentores da sabedoria, com a intenção de refutar, por meio deles, sem dúvida, o oráculo, e, com tais provas, opor-lhe a minha resposta: Este é mais sábio que eu, enquanto tu dizias que sou eu o mais sábio. Examinando esse tal — não importa o nome, mas era, cidadãos atenienses, um dos políticos, este de quem eu experimentava esta impressão — e falando com ele, afigurou-se-me que esse homem parecia sábio a muitos outros e principalmente a si mesmo, mas não era sábio. Procurei demonstrar-lhe que ele parecia sábio sem o ser. Daí me veio o ódio dele e de muitos dos presentes. Então, pus-me a considerar, de mim para mim, que eu sou mais sábio do que esse homem, pois que, ao contrário, nenhum de nós sabe nada de belo e de bom, mas aquele homem acredita saber alguma coisa, sem sabê-la, enquanto eu, como não sei nada, também estou certo de não saber. Parece, pois, que eu seja mais sábio do que ele, nisso — ainda que seja pouca coisa: não acredito saber aquilo que não sei. Depois desse, fui a outro daqueles que possuem ainda mais sabedoria que esse, e me pareceu que todos são a mesma coisa. Daí veio o ódio também a este e a muitos outros. 7 - Depois prossegui sem mais me deter, embora vendo, amargurado e temeroso, que estava incorrendo em ódio; mas, também, me parecia dever fazer mais caso da resposta do deus. Para procurar, pois, o que queria dizer o oráculo, eu devia ir a todos aqueles que diziam saber qualquer coisa. E então, cidadãos atenienses, já que é preciso dizer a verdade, me aconteceu o seguinte: procurando segundo o dedo do deus, pareceu-me que os mais estimados eram quase privados do melhor, e que, ao contrário, os outros, reputados ineptos, eram homens mais capazes, quanto à sabedoria. Ora, é preciso que eu vos descreva os meus passos, como de quem se cansava para que o oráculo se tornasse acessível a mim. Depois dos políticos, fui aos poetas trágicos, e, dos ditirâmbicos fui aos outros, convencido de que, entre esses, eu seria de fato apanhado como mais ignorante do que eles. Tomando, pois, os seus poemas, dentre os que me pareciam os mais benfeitos, eu lhes perguntava o que queriam dizer, para aprender também eu alguma coisa com eles. Agora, ó cidadãos, eu me envergonho de vos dizer a verdade; mas, também, devo manifestá-la. Pois que estou para afirmar que todos os presentes teriam discorrido sobre tais versos, quase melhor do que aqueles que os haviam feito. Em poucas palavras direi ainda, em relação aos trágicos, que não faziam por sabedoria aquilo que faziam, mas por certa natural inclinação, e intuição, assim como os adivinhos e os vates; e em verdade; embora digam muitas e belas coisas, não sabem nada daquilo que dizem. O mesmo me parece acontecer com os outros poetas; e também me recordo de que eles, por causa das suas poesias, acreditavam-se homens sapientíssimos ainda em outras coisas, nas quais não eram. Por essa razão, pois, andei pensando que, nisso, eu os superava, pela mesma razão que superava os políticos. 8 - Por fim, também fui aos artífices, porque estava persuadido de que por assim dizer nada sabiam, e, ao contrário, tenho que dizer que os achei instruídos em muitas e belas coisas. Em verdade, nisso me enganei; eles, de fato, sabiam aquilo que eu não sabia e eram muito mais sábios do que eu. Mas, cidadãos atenienses, parece-me que também os bons artífices tinham o mesmo defeito dos poetas: pelo fato de exercitar bem a própria arte, cada um pretendia ser sapientíssimo também nas outras coisas de maior importância, e esse erro obscurecia o seu saber. Assim, eu ia interrogando a mim mesmo, a respeito do que disse o oráculo, se devia mesmo permanecer como sou, nem sábio da sua sabedoria, nem ignorante da sua ignorância, ou ter ambas as coisas, como eles têm. Em verdade, respondo a mim e ao oráculo que me convém ficar como sou. 9 - Ora, dessa investigação, cidadãos atenienses, me vieram muitas inimizades e tão odiosas e graves que delas se derivaram outras tantas calúnias e me foi atribuída a qualidade de sábio; pois que, a cada instante, os presentes acreditam que eu seja sábio naquilo que refuto aos outros. Do contrário, ó cidadãos, o deus é que poderia ser sábio de verdade, ao dizer, no oráculo, que a sabedoria humana é de pouco ou nenhum preço; e parece que não tenha querido dizer isso de Sócrates, mas que se tenha servido do meu nome, tomando-me por exemplo, como se dissesse: Aqueles dentre vós, ó homens, são sapientíssimos que, como Sócrates, tenham reconhecido que em realidade não têm nenhum mérito quanto à sabedoria. Por isso, ainda agora procuro e investigo segundo a vontade do deus, se algum dos cidadãos e dos forasteiros me parece sábio; e, quando não, indo em auxílio do deus, demonstro-lhe que não é sábio. E, ocupado em tal investigação, não tenho tido tempo de fazer nada de apreciável, nem nos negócios públicos, nem nos privados, mas encontro-me em extrema pobreza, por causa do serviço do deus. Além disso, os jovens ociosos, os filhos dos ricos, seguindo-me espontaneamente, gostam de ouvir-me examinar os homens, e muitas vezes me imitam, por sua própria conta, e empreendem examinar os outros; e então, penso, encontram grande quantidade daqueles que acreditam saber alguma coisa, mas, pouco ou nada sabem. Daí, aqueles que são examinados por eles encolerizam-se comigo assim como com eles, e dizem que há um tal Sócrates, perfidíssimo, que corrompe os jovens. E quando alguém lhes pergunta o que é que ele faz e ensina, não têm nada que dizer, pois ignoram. Para não parecerem embaraçados, dizem aquela acusação comum, a qual é movida a todos os filósofos: que ensina as coisas celestes e terrenas, a não acreditar nos deuses, e a tornar mais forte a razão mais débil. Sim, porque não querem, a meu ver, dizer a verdade, isto é, que descobriram a sua presunção de saber, quando não sabem nada. Assim, penso, sendo eles ambiciosos e resolutos e em grande número, e falando de mim concordemente e persuasivamente, vos encheram os ouvidos caluniando-me de há muito tempo e com persistência. Entre estes, arremessaram-se contra mim Meleto, Anito e Lícon: Meleto pelos poetas, Anito pelos artífices, Lícon pelos oradores6. De modo que, como eu dizia no princípio, ficaria maravilhado se conseguisse, em tão breve tempo, tirar do vosso ânimo a força dessa calúnia, tornada tão grande. Eis a verdade, cidadãos atenienses, e eu falo sem esconder nem dissimular nada de grande ou de pequeno. Saibam, quantos o queiram, que por isso sou odiado; e que digo a verdade, e que tal é a calúnia contra mim e tais são as causas. E tanto agora como mais tarde ou em qualquer tempo, podereis considerar estas coisas: são como digo. 10 - É suficiente, pois, esta minha defesa diante de vós, contra a acusação movida a mim pelos primeiros acusadores. Agora procurarei defender-me de Meleto, homem de bem e amante da pátria, como dizem, e um dos últimos acusadores. Voltemos, portanto, ao ato de acusação, jurado por ele, como por outros acusadores. É mais ou menos assim: — Sócrates — diz a acusação — comete crime corrompendo os jovens e não considerando como deuses os deuses que a cidade considera, porém outras divindades novas. — Esta é a acusação. Examinemo-la agora em todos os seus vários pontos. Diz, primeiro, que cometo crime, corrompendo jovens. Ao contrário, eu digo, cidadãos atenienses, Meleto é quem comete crime, porque brinca com coisas graves. Conduzindo com facilidade os homens ao tribunal, aparentando ter cuidado e interesse por coisas em que de fato nunca pensou. Procurarei mostrar-vos que é bem assim. 11 - — Agora, dize-me, Meleto: não é verdade que te importa bastante que os jovens se tornem cada vez melhores, tanto quanto possível? — Sim, é certo. — Vamos, pois, dizer-lhes quem os torna melhores: é claro que tu o deves saber, coisa que te preocupa, tendo de fato encontrado quem os corrompe, como afirmas, uma vez que me trouxeste aqui e me acusas. Continua, fala e indica-lhes quem os torna melhores. Vê, Meleto, calas e não sabes o que dizer. E, ao contrário, não te parece vergonhoso e suficiente prova do que justamente eu digo, que nunca pensaste em nada disso? Mas, dize, homem de bem, quem os torna melhores? — As leis. — Mas não pergunto isso, ótimo homem, mas qual o homem que sabe, em primeiro lugar, isso exatamente, as leis. — Aqueles, Sócrates, os juízes. — Como, Meleto? Esses são capazes de educar os jovens e os tornar melhores? — Como não? — Todos, ou alguns, apenas, outros não? — Todos. — Muito bem-respondido, por Juno: Vê quanta abundância de pessoas úteis! Como? Também estes, que nos escutam, tornam melhores os jovens ou não? — Também estes. — E os senadores? — Também os senadores. — É assim, Meleto. Não corrompem os jovens os cidadãos da assembleia, ou também todos esses os tornam melhores? — Também esses. — Assim, pois, todos os homens, como parece, tornam melhores os jovens, exceto eu, só eu corrompo os jovens. Não é isso? — Isso exatamente afirmo de modo conciso. — Oh! Que grande desgraça descobriste em mim! E responde-me: será assim também para os cavalos? que aqueles que os tornam melhores são todos os homens e que um só os corrompe? ou será o contrário, que um só é capaz de os tornar melhores, e bem poucos aqueles que entendem de cavalos; e os mais, quando querem manejá-los e usá-los, os estragam? Não é assim, Meleto, para os cavalos como para todos os animais? Sim, certamente, ainda que tu e Anito o neguem ou afirmem. Pois seria uma grande fortuna para os jovens que um só corrompesse e os outros lhes fossem todos úteis. Mas, na realidade, Meleto, mostraste o suficiente que jamais te preocupaste com os jovens, e claramente revelaste o teu desmazelo, que nenhum pensamento te passou pela mente, disso de que me acusas. 12 - — E agora, dize-me, por Zeus, Meleto: que é melhor, viver entre virtuosos cidadãos ou entre malvados? Responde, meu caro, não te pergunto uma coisa difícil. Não fazem os malvados alguma maldade aos que são seus vizinhos, e alguns benefícios os bons? — Certamente. — E haverá quem prefira receber malefícios a ser auxiliado por aqueles que estão com ele? Responde, porque também a lei manda responder7. Há os que gostam de ser prejudicados? — Não, por certo. — Vamos, pois, tu me acusas como pessoa que corrompe os jovens e os torna piores, voluntariamente ou involuntariamente? — Para mim, voluntariamente. — Como, Meleto? Tu, nesta idade, és mais sábio do que eu, tão velho, sabendo que os maus fazem sempre mal aos mais próximos e os bons fazem bem: eu, pois, cheguei a tal grau de ignorância que não sei nem isso; que, se tornasse maus alguns daqueles que estavam comigo, correria o risco de receber dano, se é que faço um tão grande mal, como dizes. Não te creio, Meleto, quanto a isso, e ninguém te acredita, penso. Mas, ou não os corrompo, ou, se os corrompo, é involuntariamente, e em ambos os casos mentiste. E, se os corrompo involuntariamente, não há leis que mandem trazer aqui alguém, por tais fatos involuntários, mas há as que mandam conduzi-lo em particular, instruindo-o, advertindo-o; é claro que, se me convencer, cessarei de fazer o que estava fazendo sem querer. Tu, ao contrário, evitaste encontrar-me e instruir-me, não o quiseste; e me conduzes aqui, onde a lei ordena citar aqueles que têm necessidade de pena e não de instrução. 13 - Mas, cidadãos atenienses, os fatos evidenciaram o que eu sempre disse. Jamais Meleto prestou atenção a tais coisas, nem muita nem pouca. Todavia, explica, Meleto, o que significa a tua expressão, dizendo que corrompo os jovens. É claro, segundo a acusação escrita por ti mesmo, que ensino a não respeitar os deuses que a cidade respeita, porém, outras divindades novas. Não dizes que os corrompo, ensinando tais coisas? — Sim, é isso mesmo que eu digo, sempre que posso. — Assim, pois, Meleto, por estes mesmos deuses, de que agora estás falando, fala ainda mais claro, a mim e aos outros. Não consigo entender se dizes que eu ensino a acreditar que existem certos deuses — e em verdade creio que existem deuses, e não sou de todo ateu, nem sou culpado de tal erro — mas não são os da cidade, porém outros e disso exatamente me acusas, dizendo que eu creio em outros deuses. Ou dizes que eu mesmo não creio inteiramente nos deuses e que ensino isso aos outros? — Eu digo isso, que não acreditas inteiramente nos deuses. — Admirável Meleto, a quem disse eu isso? Não creio, pois, do mesmo modo que os outros homens, que o sol e a lua são deuses? — Não, por Zeus, ó juízes: ele disse de fato que o sol é uma pedra, e a lua, terra. — Tu acreditas acusar Anaxágoras, caro Meleto; e me desprezas tanto e me consideras tão privado de letras a ponto de não saber que os livros de Anaxágoras Clazomênio estão cheios de tais raciocínios? De modo que os jovens aprendem coisas de mim, pelas quais podem talvez, pagando todos no máximo uma dracma, rir-se de Sócrates, quando se lhe atribui arrogância, embora isso pareça estranho. Mas, por Zeus, assim te parece, que eu creio que não exista nenhum deus? — Nenhum, por Zeus, nenhum mesmo. — És decerto, indigno de fé, Meleto, e também a ti mesmo, me parece, tais coisas são inacreditáveis. Porque este homem, cidadãos atenienses, me parece a própria arrogância e imprudência, e certamente escreveu essa acusação por medo, intemperança e leviandade juvenil. De fato, ele, para mim, se assemelha a alguém que proponha um enigma e diga, interrogando-se a si mesmo: Perceberá Sócrates, o sábio, que eu estou zombando dele e me contradigo, ou conseguirei enganá-lo e aos outros que me ouvem? E, ao contrário, me parece que, no ato da acusação, se contradiz de propósito, como se dissesse: Sócrates comete crime, não acreditando nos deuses, mas acreditando nos deuses. E isso, na verdade, é fazer zombaria. 14 - Considerai, pois, comigo, ó cidadãos, de que modo me parece que ele diz isso. Responde-nos, tu, Meleto, e vós, como pedi a princípio, não façais rumor contra mim, se conduzo o raciocínio deste modo. Existem entre os homens, Meleto, os que acreditam que há coisas humanas, e que não há homens? Que responda ele, ó juízes, sem resmungar ora uma coisa ora outra. Há os que acreditam que não há cavalos, e coisas que tenham relação com os cavalos sim? Ou acreditam que não há flautista, e coisas relativas as flautas sim? Não há? Ótimo homem, se não queres responder, digo-o eu, aqui, a ti e aos outros presentes. Mas, ao menos, responde a isto: Há quem acredite que há coisas demoníacas, e demônios não? — Não há. — Oh! como estou contente que tenhas respondido de má vontade, constrangido por outros! Tu dizes, pois, que eu creio e ensino coisas demoníacas, sejam novas, sejam velhas; portanto, segundo o teu raciocínio, eu creio que há coisas demoníacas e o juraste na tua acusação. Ora, se creio que há coisas demoníacas, certo é absolutamente necessário que eu creia também na existência dos demônios. Não é assim? Assim é: estou certo de que o admites, porque não respondes. E não temos em apreço os demônios como deuses ou filhos dos deuses? Sim, ou não? — Sim, é certo. — Se, pois, creio na existência dos demônios, como dizes, se os demônios são uma espécie de deuses, isso seria propor que não acredito nos deuses, e depois, que, ao contrário, creio nos deuses, porque ao menos creio na existência dos demônios. Se, por outra parte, os demônios são filhos bastardos dos deuses com as ninfas, ou outras mulheres, das quais somente se dizem nascidos, quem jamais poderia ter a certeza de que são filhos dos deuses se não existem os deuses? Seria de fato do mesmo modo absurdo que alguém acreditasse nas mulas, filhas dos cavalos e das jumentas, e acreditasse não existirem cavalos e asnos. Mas, Meleto, a tua acusação foi feita para me pôr à prova, ou também por não saber a verdadeira culpa que me pudesses atribuir: por que, pois, te arriscas a persuadir um homem, mesmo de mente restrita, de que pode a mesma pessoa acreditar na existência das coisas demoníacas e divinas, e, de outro lado, essa pessoa não admite demônios, nem deuses, nem heróis? Isso não é possível. 15 - Em realidade, cidadãos atenienses, para demonstrar que não sou réu, segundo a acusação de Meleto, não me parece ser necessária longa defesa, mas isso basta. Aquilo, pois, que eu dizia no princípio, que há muito ódio contra mim, e muito acumulado, bem sabeis que é verdade. E isso é o que me vai perder, se eu me perder... e não Meleto, ou Anito, mas, a calúnia e a insídia do povo: pela mesma razão se perderam muitos outros homens virtuosos, e outros ainda, creio, serão perdidos; não há perigo que a série se feche comigo. Mas talvez alguém pudesse dizer: Não te envergonhas, Sócrates, de te aplicares a tais ocupações, pelas quais agora estás arriscado a morrer? A isso, porei justo raciocínio, e é o seguinte: não estás falando bem, meu caro, se acreditas que um homem, de qualquer utilidade, por menor que seja, deve fazer caso dos riscos de viver ou de morrer, e, ao contrário, só deve considerar uma coisa: quando fizer o que quer que seja, deve considerar se faz coisa justa ou injusta, se está agindo como homem virtuoso ou desonesto. Porquanto, segundo a tua opinião, seriam desprezíveis todos aqueles semideuses que morreram em Troia. E, com eles, o filho de Tétis, o qual para não sobreviver à vergonha, desprezou de tal modo o perigo que, desejoso de matar Heitor, não deu ouvido à predição de sua mãe, que era uma deusa, e a qual lhe deve ter dito mais ou menos isto: — Filho, se vingares a morte de teu amigo Pátroclo e matares Heitor, tu mesmo morrerás, porque imediatamente depois de Heitor, o teu destino está terminado. Ouviu tais palavras, não fez nenhum caso da morte e dos perigos, e, temendo muito mais o viver ignóbil e não vingar os amigos, disse: — Morra eu imediatamente depois de ter punido o culpado, para que não permaneça aqui como objeto de riso, junto das minhas naus recurvas, inútil fardo da terra8. Crês que tenha feito caso dos perigos e da morte? Porque em verdade assim é, cidadãos atenienses: onde quer que alguém se tenha colocado, reputando-o o melhor posto, ou se for ali colocado pelo comandante, tem necessidade, a meu ver, de ir firme ao encontro dos perigos, sem se importar com a morte ou com coisa alguma, a não ser com as torpezas. 16 - Gravíssimo erro deveria considerar, cidadãos atenienses, quando os comandantes, por vós eleitos para me dirigirem, me assinalaram um posto em Potideia, em Anfípole, em Délio, não ter eu ficado onde me colocaram como qualquer outro e correndo perigo de morte. Quando, pois, o deus me ordenava, como penso e estou convencido, que eu devia viver filosofando e examinando a mim mesmo e aos outros, então eu, se temendo a morte ou qualquer outra coisa, tivesse abandonado o meu posto, isso seria deveras intolerável. Nesse caso, com razão, alguém poderia conduzir-me ao tribunal, e acusar-me de não acreditar na existência dos deuses, desobedecendo ao oráculo, e temendo a morte, e reputando-me sábio sem o ser. Pois que, ó cidadãos, a temer a morte não é outra coisa que parece ter sabedoria, não tendo. É, de fato, parecer saber o que não se sabe. Ninguém sabe, na verdade, se por acaso a morte não é o maior de todos os bens para o homem, e entretanto todos a temem, como se soubessem, com certeza, que é o maior dos males. E o que é senão ignorância, de todas a mais reprovável, acreditar saber aquilo que não se sabe? Eu, por mim, ó cidadãos, talvez nisso seja diferente da maior parte dos homens, eu diria isto: não sabendo bastante das coisas do Hades, delas não fugirei. Mas fazer injustiça, desobedecer a quem é melhor e sabe mais do que nós, seja deus, seja homem, isso é que é mal e vergonha. Não temerei nem fugirei das coisas que não sei se, por acaso, não são boas, em confronto com as más, que sei que são más. Anito disse que, ou não se devia, desde o princípio, trazer-me aqui, ou, uma vez que me trouxeram não é possível deixarem de me condenar à morte, afirmando que, se eu me salvasse, imediatamente os vossos filhos, seguindo os ensinamentos de Sócrates, estariam de fato corrompidos. Mas, se me absolvêsseis, não cedendo a Anito, se me dissésseis: Sócrates, agora não damos crédito a Anito, mas te absolveremos, contanto que não te ocupes mais dessas tais pesquisas e de filosofar, porque, se fores apanhado ainda a fazer isso, morrerás; se, pois, me absolvêsseis sob tal condição, eu vos diria: — Cidadãos atenienses, eu vos respeito e vos amo, mas obedecerei aos deuses em vez de obedecer a vós, e enquanto eu respirar e estiver na posse de minhas faculdades, não deixarei de filosofar e de vos exortar ou de instruir cada um, quem quer que seja que vier à minha presença, dizendo-lhe, como é meu costume: — Ótimo homem, tu que és cidadão de Atenas, da cidade maior e mais famosa pelo saber e pelo poder, não te envergonhas de fazer caso das riquezas, para guardares quanto mais puderes e da glória e das honrarias, e, depois, não fazer caso e nada te importares da sabedoria, da verdade e da alma, para tê-la cada vez melhor? E, se algum de vós protestar e prometer cuidar disso, não o deixarei já, nem irei embora, mas o interrogarei e o examinarei e o convencerei, e, em qualquer momento que me pareça que não possui virtude, convencido de que a possuo, o reprovarei, porque faz pouquíssimo caso das coisas de grandíssima importância e grande caso das parvoíces. E isso o farei com quem quer que seja que me apareça, seja jovem ou velho, forasteiro ou cidadão, tanto mais com os cidadãos quanto mais me sejam vizinhos por nascimento. Isso justamente é o que me manda o deus, e vós o sabeis, e creio que nenhum bem maior tendes na cidade, maior do que este meu serviço do deus. Por toda parte eu vou persuadindo a todos, jovens e velhos, a não se preocuparem exclusivamente, e nem tão ardentemente, com o corpo e com as riquezas, como devem preocupar-se com a alma, para que ela seja quanto possível melhor, e vou dizendo que a virtude não nasce da riqueza, mas da virtude vêm, aos homens, as riquezas e todos os outros bens, tanto públicos como privados. Se, falando assim, eu corrompo os jovens, tais raciocínios são prejudiciais; mas se alguém disser que digo outras coisas que não essas, não diz a verdade. Por isso vos direi, cidadãos atenienses, que secundando Anito ou não, absolvendo-me ou não, não farei outra coisa, nem que tenha de morrer muitas vezes. 17 - Não façais rumor, cidadãos atenienses, mas perseverai no que vos estou dizendo, isto é, não vocifereis pelas coisas que digo, mas ouvi-me; pois, escutando-me, penso que tirareis proveito. Aqui estou para vos dizer algumas outras coisas, e talvez, por isso, levantareis a voz, mas não o deveis fazer. Sabei-o bem: se me condenais a morrer, a mim que sou tal como eu digo, não causareis maior dano a mim que a vós mesmos. E, de fato, nem Meleto, nem Anito me poderiam fazer mal em coisa alguma: isso jamais seria possível, pois que não pode acontecer que um homem melhor receba dano de um pior. É possível que me mandem matar, ou me exilem, ou me tolham os direitos civis; mas provavelmente, eles ou quaisquer outros reputam tais coisas como grandes males, ao passo que eu não considero assim, e, ao contrário, considero muito maior mal fazer o que agora estão eles fazendo, procurando matar injustamente um homem. Ora, pois, cidadãos atenienses, estou bem longe de me defender por amor a mim mesmo, como alguém poderia supor, mas por amor a vós, para que, condenando-me, não tenhais de cometer o erro de repelir o dom que de mim vos fez o deus. Pois que, se me matardes, não encontrareis facilmente outro igual, que (pode parecer ridículo dizê-lo) tenha sido adaptado pelo deus à cidade, do mesmo modo como a um cavalo grande e de pura raça, mas um pouco lerdo pela sua gordura, é aplicada a necessária esporada para sacudi-lo. Assim justamente me parece que o deus me aplicou à cidade, de maneira que, despertando cada um de vós e persuadindo-vos e desaprovando-os, não deixo de vos esporar os flancos, por toda parte, durante todo o dia. E outro parecido. não tereis tão facilmente, cidadãos. Mas, se me ouvísseis me pouparíeis. É possível que vós, irritados como aqueles que são despertados quando no melhor do sono, repelindo-me para condescender com Anito, levianamente me condeneis à morte, para dormirdes o resto da vida, se, entretanto, o deus, pensando em vós, não vos mandar algum outro. Que eu seja um homem cuja qualidade é a de ser um dom feito pelo deus à cidade, podereis deduzir do seguinte: não é, na verdade, do homem, eu ter descuidado das minhas coisas, resignando-me por tantos anos a me descuidar dos negócios domésticos para acudir sempre aos vossos, aproximando-me sempre de cada um de vós em particular como um pai ou um irmão mais velho, persuadindo-vos a vos preocupardes com a virtude? Se, em verdade, disso eu obtivesse qualquer coisa e recebesse compensação de tais advertências, teria uma razão. Mas agora vós mesmos vedes que os acusadores, tendo acusado a mim, com tanta impudência, de tantas outras coisas, não foram capazes de apresentar uma testemunha de que eu tenha contratado ou pedido alguma recompensa. Pois bem; apresento um testemunho suficiente da verdade do que digo: a minha pobreza. 18 - Mas, poderia talvez parecer estranho que eu, andando daqui para lá, me cansasse dando em particular esses conselhos, e depois, em público, não ousasse, subindo diante do vosso povo, aconselhar a cidade. A causa disso é a que em várias circunstâncias, eu vos disse muitas vezes: a mim me acontece qualquer coisa de divino e demoníaco; isso justamente Meleto escreveu também no ato da acusação, zombando de mim. E tal fato começou comigo em criança. Ouço uma voz, e toda vez que isso acontece ela me desvia do que estou a pique de fazer, mas nunca me leva à ação. Ora, é isso que me impede de me ocupar dos negócios do Estado. E até me parece que muito a propósito mo impede, porquanto, sabei-o bem, cidadãos atenienses, se eu, há muito tempo, tivesse empreendido ocupar-me com os negócios do Estado, há muito tempo já estaria morto, e não teria sido útil em nada, nem a vós, nem a mim mesmo. E não vos encolerizeis comigo, porque digo a verdade; não há nenhum homem que se salve, se quer opor-se, com franqueza, a vós ou a qualquer outro povo, e impedir que muitos atos contrários à justiça e às leis se pratiquem na cidade. E não há outro caminho: quem combate verdadeiramente pelo que é justo, se quer ser salvo por algum tempo, deve viver a vida privada, nunca meter-se nos negócios públicos. Disso vos poderei dar grandes provas, não palavras, mas o que prezais: fatos. Ouvi, pois, de minha boca o que me aconteceu, para que saibais que não há ninguém a quem eu tenha feito concessões com desprezo da justiça e por medo da morte; e que, ao mesmo tempo, por essa recusa de toda concessão, deverei morrer. Dir-vos-ei talvez coisas comuns e pedantescas, mas verdadeiras. De fato, cidadãos atenienses, não tenho mais nenhum cargo público na cidade, mas fui senador, e, à nossa tribo Antióquia coube por sorte a Pritania9, quando quisestes que aqueles dez estrategistas, que não haviam recolhido os mortos e os náufragos da batalha naval, fossem julgados coletivamente, contra a lei, no que todos vós conviestes. Então somente eu, dos pritanos, me opus a vós, não querendo agir em oposição à lei, e votei contra. E, embora os oradores estivessem prontos a me acusar e me prender, e vós os encorajásseis vociferando, mesmo assim, achei que me convinha mais correr perigo com a lei e com o que era justo, do que, por medo do cárcere e da morte, estar convosco, vós que deliberáveis o injusto10. Isso acontecia quando a cidade era ainda governada pela democracia. Quando veio a oligarquia, os Trinta, novamente tendo-me chamado, em quinto lugar, ao Tolo, ordenaram-me que fosse a Salamina buscar o Leão Salamínio, para que fosse morto. Muitos fatos desse gênero tinham sido ordenados a muitos outros, com o fim de cobrir de infâmia quantos mais pudessem. Também naquele momento, não com palavras mas com fatos, demonstrei de novo que a morte não me importava, ou me importava menos que um figo, eu diria se não fosse indelicado dizê-lo. Mas não fazer nada de injusto e de ímpio isso sim, me importa acima de tudo. Pois aquele governo, embora tão violento, não me intimidou, para que eu fizesse alguma injustiça; mas quando saímos do Tolo, os outros quatro foram a Salamina e trouxeram o Leão, e eu, ao contrário, afastei-me deles e fui para casa. Naquela ocasião, eu teria sido morto, se o governo não fosse derrubado pouco depois. E disso tendes testemunhas em grande número11. 19 - Ora, julgais que eu teria vivido tantos anos, se me tivesse aplicado aos negócios públicos e, procedendo como homem de bem, tivesse defendido as coisas justas, e, como deve ser, tivesse dado a isso a maior importância? Muito longe disso, cidadãos atenienses; na verdade, também nenhum outro se teria salvo! Eu, porém, durante toda a minha. vida, se fiz alguma coisa, em público como em particular, vos apareço sempre o mesmo, não tendo jamais concedido coisa alguma contra a justiça nem aos outros nem a algum daqueles que os meus caluniadores chamam de meus discípulos. Mas nunca fui mestre de ninguém: se, pois, alguém se mostrou desejoso da minha presença quando eu falava, e acudiam à minha procura jovens ou velhos, nunca me recusei a ninguém. Nunca, ao menos, falei de dinheiro; mas igualmente me presto a interrogar os ricos e os pobres, quando alguém, respondendo, quer ouvir o que digo. E se algum daqueles se torna melhor, ou não se torna, não posso ser responsável12, pois que não o prometi, nem dei, nesse sentido, nenhum ensinamento. E, se alguém afirmar que aprendeu ou ouviu de mim, em particular, qualquer coisa de diverso do que disse a todos os outros, sabei bem que não diz a verdade. 20 - Entretanto, como pode acontecer que alguns se comprazam em passar muito tempo comigo? Já ouvistes, cidadãos atenienses, eu já vos disse toda a verdade: é porque tomam gosto em ouvir examinar aqueles que acreditam ser sábio e não o são; não é de fato coisa desagradável. E, como disse, foi o deus que me ordenou fazê-lo, com oráculos, com sonhos e com outros meios, pelos quais algumas vezes a divina vontade ordena a um homem que faça o que quer que seja. Tudo isso, cidadãos atenienses, é verdade e fácil de se provar. Com efeito, suponhamos que, entre os jovens, há alguns que estou corrompendo e outros que já corrompi: seria aparentemente inevitável que alguns destes, quando tiveram mais idade, compreendessem que eu lhes tinha alguma vez aconselhado uma ação má — e hoje deveriam estar aqui para me acusar e vingar-se de mim. Suponhamos, ainda que eles não tenham querido vir pessoalmente: mesmo assim, alguns dos seus parentes, pais, irmãos ou pessoas da família, se algum dia receberam danos da minha parte, agora se deveriam recordar e tirar vingança. Mas eis que vejo aqui presentes muitos desses: primeiro, Críton, meu coevo e do mesmo demos, pai de Critóbulo; depois, Lisânias Sfécio, pai de Ésquines; e, ainda Antifonte de Cefísia, pai de Epígenes, além destes outros cujos irmãos estiveram comigo na intimidade: Nicostrato, filho de Teozótides e irmão de Teodoto (e Teodoto, que já é falecido, não poderia impedir Nicostrato de falar contra mim!). E há, ainda, Paralo de Demódoco, irmão de Teageto, e Adimanto de Ariston, do qual é irmão Platão, e Aiantádoro, de que é irmão Apolodoro. E muitos outros eu poderia citar, alguns dos quais especialmente deveriam ter sido apresentados por Meleto como testemunhas, no seu discurso. Mas se agora se esquivam, aos presentes aqui eu lhes permito dizerem se há qualquer coisa dessa natureza. Mas, vós, ó juízes, sois de parecer contrário, achareis que todos estão prontos a me ajudar. Em verdade, os próprios corrompidos por mim talvez tivessem razão de me ajudar; mas incorruptíveis homens já de idade avançada, parentes daqueles, que razão teriam para me ajudar senão aquela, reta e justa, convencidos de que Meleto mente e que eu digo a verdade? 21 - Assim seja, ó cidadãos: é mais ou menos isso que eu poderei dizer em minha defesa ou qualquer coisa semelhante. Provavelmente, porém, algum de vós poderá ficar encolerizado, recordando-se de si mesmo. Se sustentou uma contenda embora em menores proporções do que essa minha, pediu e suplicou aos juízes, com muitas lágrimas, trazendo aqui os seus filhos, e muitos outros parentes e amigos, a fim de mover a piedade a seu favor. Eu não farei certamente nada disso, embora vá ao encontro, como se pode acreditar, do extremo perigo. É possível que qualquer um, considerando isso, pudesse irritar-se contra mim, e, encolerizado por isso mesmo, desse o voto com ira. Se, de fato, algum de vós está em tal estado de alma, a mim me parece que poderei dizer-lhe o seguinte: Também eu, meu caro, tenho uma família, e bem posso, como Homero, dizer que não nasci “de um carvalho nem de um rochedo”, pois eu também tenho parentes e filhinhos, ó cidadãos atenienses: três, um já jovenzinho e duas meninas; mas, contudo, não farei vir aqui nenhum deles para vos rogar a minha absolvição13. Por que razão não farei nada disso? Não é por soberbia, ó atenienses, nem por desprezo que eu tenha por vós; mas que eu seja corajoso ao menos defronte à morte, isto é outra coisa. Tratando-se de honra, não me parece belo, nem para mim nem para vós, para toda a cidade, que eu faça tal, na idade em que estou, e com este nome de sábio que me dão, seja ele merecido ou não. O fato é que me foi criada a fama de ser esse Sócrates em quem há alguma coisa pela qual se torna superior à maioria dos homens. Ora, se aqueles que, entre nós, têm a reputação de ser superiores aos demais, pela sabedoria, pela coragem ou por qualquer outro mérito, procedessem de tal modo, seria bem-feito. Frequentemente já notei essa atitude, quando são elas julgadas, em pessoas que, malgrado a reputação de homens de valor que têm, se entregam a extraordinárias manifestações, inspiradas pela ideia de que será coisa terrível ter de morrer: como se, no caso em que vós não os mandásseis à morte, devessem eles ser imortais. São, esses, homens que, a meu ver, cobrem a cidade de vergonha, e que poderiam suscitar entre os estrangeiros a convicção de que aqueles que os próprios atenienses escolheram, de preferência, para serem os seus magistrados e para as demais dignidades, não se diferenciam das mulheres! É um procedimento, atenienses, que não deverá ser o vosso, quando possuirdes reputação em qualquer gênero de valor que seja; e que não deveis permitir seja o meu, caso eu tenha alguma reputação, pois o que deveis fazer é justamente que se compreenda isto: que aquele que se apresenta no tribunal representando esses dramas lamentáveis será mais certamente condenado por vós do que o que permanece tranquilo. 22 - Mas mesmo não fazendo caso da reputação, ó cidadãos, não me parece também justo suplicar aos juízes e evitar a condenação com rogos, mas iluminá-los e persuadi-los. Que o juiz não ceda já por isso, não dispense sentença a favor, mas a pronuncie retamente e jure não condescender com quem lhe agrada, mas proceder segundo as leis. Por isso, nem nós devemos habituar-vos a proceder contra o vosso juramento, nem vós deveis permitir que nos habituemos a fazê-lo. Não espereis, cidadãos atenienses, que eu seja constrangido a fazer, diante de vós, coisas tais que não considero nem belas, nem justas, nem santas, especialmente agora, por Zeus, que sou acusado de impiedade por Meleto. É evidente que, se, com todo o vosso juramento, eu vos persuadisse e com palavras vos forçasse, eu vos ensinaria a considerar que não existem deuses, e assim, enquanto me defendo, em realidade me acusaria, só pelo fato de não crer nos deuses. Mas a coisa está bem longe de ser assim; porquanto, cidadãos atenienses, creio neles, como nenhum dos meus acusadores, e encarrego a vós e ao deus de julgar a mim, do modo que puder ser o melhor para mim e para vós.

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