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Aprendendo a Viver, com Aids (Cód: 176043)

Guiné,Bernardo Dania

Autêntica Editora

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Descrição

'Peguei o resultado positivo para HIV com a mesma resignação com que se recebe um boletim vermelho na escola. Restava digerir a fatalidade e perceber, de verdade, o que eu estava sentindo. Mas eu não estava sentindo nada. Nada. Eu não era nada e sequer me preocupava com meu futuro. Minhas intenções de ser tudo o que um dia sonhei já não existiam. Se existiam estavam perdidas na rebordosa da minha cabeça. Eu sequer tinha tido tempo de vida para sonhar alguma coisa. Era novo demais. Tinha 19 anos! Mal começara a fazer sexo e já estava infectado! Que merda! Eu não sentia nada. Eu não pensava em nada. Eu era um grande tubo de ensaio cheio de vírus.'

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Autêntica Editora
Cód. Barras 9788586583773
Altura 22.50 cm
I.S.B.N. 8586583774
Profundidade 0.00 cm
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 168
Peso 0.44 Kg
Largura 15.50 cm
AutorGuiné,Bernardo Dania

Leia um trecho

Desde pequeno sou visto como uma pessoa fechada, tímida mesmo. Nunca fui de muitos amigos, e cheguei a visitar alguns psicólogos para descobrir o motivo de tal retraimento. Sempre fui muito autocrítico, o que não é bom. Acabei me privando de muita coisa boa da minha infância em nome de ser um bom filho, um bom aluno, o senhor certinho, limpinho e engomado, enquanto meu irmão menor, Tiago, aparecia ralado das brincadeiras de rua. Isto só mudou um pouco depois do início da minha adolescência, com a descoberta da sexualidade e com todas as barreiras que tive que superar para ingressar na vida adulta. Nessa fase bastante conturbada é que pude parar e perceber que precisava me dar mais fôlego, tomar mais ar na cara, me expor um pouco mais. Foi durante a adolescência que comecei a escrever poesias, usando a escrita desde então como ferramenta para a compreensão do que ocorria em minha vida. Elas me ajudarão a delinear o que pretendo escrever aqui no livro, também; trazendo à memória as coisas que me preocupavam e sobre as quais fiz versos. Quando meus pais se separaram pela primeira vez eu estava com menos de cinco anos. A medida em que fui crescendo seguiram-se infrutíferas tentativas de reconciliação entre eles. Isso, segundo alguns psicólogos, pode ter sido o fator responsável por minha dificuldade de expressar afeto. Nada muito crônico. Sou apenas reservado demais. Não costumo deixar que as emoções transpareçam. Esse distanciamento que imponho me leva a ser visto como uma pessoa extremamente calma, ponderada e introspectiva. No fundo, sou um turbilhão de ansiedade, mas não demonstro; logo, não sou, aos olhos dos outros. Convivi pouco com meu pai, e o que assimilei deste entrecortado relacionamento foi a imagem de um homem autoritário, ausente e instável – tinha lá seus dias de maior carinho, daí ser instável. Já passei maus bocados com ele e por causa dele. Hoje não temos contato algum. É alguém com quem não há meios de me comunicar e de quem só tenho notícias através de meu irmão mais velho, que mora com ele. A gota d’água em nossa já turbulenta relação foi a atitude que ele teve ao ficar sabendo que eu sou gay. Não fui eu quem lhe contou, uma vez que já podia antever sua inabilidade para lidar com este fato. Foi minha mãe que, em um impulso, lhe deu a "boa nova", apesar de eu ter pedido segredo. Ela disse não ter conseguido, certa vez, ver meu pai lhe pedir desculpas. Por toda uma vida ele a havia aporrinhado. Advertia de que ela estava "criando um gay dentro de casa", com todos os mimos que me oferecia; e oferecia mesmo. Quando meu pai me viu na faculdade, trabalhando de terno e gravata e fazendo mais dinheiro que o resto da família, achou que podia se acalmar, e que aquilo era a prova maior de que eu era "reto". Decidiu, então, chamar minha mãe, com cara de "você-estava-certa", dizendo que eu me tornara seu maior orgulho: "independente e engravatado!". Que mais ele poderia querer? Foi neste ponto que minha mãe não agüentou, soltando sem pensar: "não precisa se desculpar... Sabe do que mais? Você é que estava certo. Ele é gay." Não sei ao certo se ela estava se vingando, ou apenas dividindo o peso que para ela tinha esta informação. Ela diz que contou por contar, contou por ser ele meu pai, contou porque achou que devia. Nada muito pensado. Ela estava aplicando a máxima: "a verdade vos libertará", de que tanto gosta. Assim que soube de mim, meu pai não se abateu; mostrou-se chateado com o fato, mas forçado a respeitar minha posição. Ele não poderia alterar sua visão sobre o que acabara de chamar de maior orgulho. Só o que lhe restava era aceitar, resignado. Assim foi, por pouco tempo. Ele estava em meio ao que veio a ser a última tentativa de aproximação de minha mãe, e não poderia dar-se ao luxo de perder um aliado forte. Sabia que não podia levantar muita poeira e não levantou. Ele pode ser de tudo um pouco, mas tolo ele ainda não se mostrou. Nós nos parecemos muito, apesar de tudo. Esta é a lembrança mais forte que tenho de um pai presente: ele me chamando para tomar cerveja e conversar, quando soube que eu era gay. Sentou-se de frente para a porta do bar – "porque eu gosto de ver o que está acontecendo... os ataques normalmente vêm por trás" – e me disse que não sabia o que fazer para me ajudar. Entendia que eu estava "com problemas" e, o que para ele era mais intrigante, que eu me sentia bem assim. Dizia que era tudo questão de tempo, pois eu, mais cedo ou mais tarde, perceberia que isso era errado e adotaria outra postura, mudaria minha conduta; disse ainda que ele estaria ali para quando eu precisasse. Minha mãe, em uma de suas várias tentativas de entender e dar razões para minha homossexualidade, chegou a culpá-lo: [pai ausente + mãe competente = filho gay]. Algum terapeuta menos esclarecido passou essa equação e ela acreditou. O termo do tratado de ética dos psicólogos que proíbe qualquer tipo de abordagem da homossexualidade como desvio comportamental seria editado meses depois, há que se fazer notar. Espero sinceramente que este terapeuta tenha se calado. Quando o sujeito quer fazer propaganda contra, não são normas de ética que o vão fazer parar. Haja vista o preconceito contra negros, que ainda hoje, mesmo diante de leis – coisa mais forte que tratados de ética – perdura em nossa sociedade. Antes das normas, todos sabemos o que é ético ou não. Não era a falta de consciência, creio, que o levava a proceder daquela forma. Enfim... ele que procure um psicólogo caso queira entender o que o levava a agir de tal modo. O que importa para mim é que ele influenciou minha mãe. Mamãe acreditou tanto na equação que quase me fez acreditar. Descartei a possibilidade de isso ser real ao conhecer filhos de pais ausentes e mães incompetentes, que eram gays também. Da mesma forma, tive amigos que eram filhos de mães falecidas e pais comprometidos, que eram gays. Filhos de pais presentes, tanto o pai quanto a mãe, que eram gays. Filhos de gays – só o pai, ou só a mãe, ou ambos – que nasciam e desenvolviam-se heterossexuais também entraram em minha empírica e nada técnica análise. Conclusão: papai e mamãe não me fizeram gay; muito pelo contrário, tentaram me vender um modo de vida hetero, a todo custo, sem sucesso. Deveria ser da mesma forma no resto do mundo. "Teus filhos não são teus filhos...", conhece? Bem por aí. Tanta razão mais poética para ser gay e ela queria mesmo cair em um lugar comum? Falta de pai? Ser gay por falta de pai? Não gosto da idéia de ser algo por causa de alguma coisa que meu pai tenha feito ou deixado de fazer. Para não ficar remoendo mágoas, o tenho para mim como uma pessoa que, por um motivo ou outro, pura e simplesmente não pôde participar mais ativamente de minha vida. Filhos tendem a tomar o pai por super-herói, mas eu, desde pequeno, o via como simples ser humano. Mamãe talvez fosse minha mulher-maravilha; mas também a via humana. Tamanho desprendimento da figura paterna me leva a poder narrar minha infância sem citar seu nome: "... e o Espírito Santo desceu à Terra, em forma de sêmen, e... fecundou dona Beatriz". Para a piada ficar completa, minha mãe era virgem até depois de meu nascimento. Dá para acreditar? Hímen complacente. Eu saí – apertado, mas saí – e apenas depois de meu nascimento ela teve o hímen rompido. Sou filho de "Beatriz Virgem". Logo que deu por fracassada sua última investida para reconciliação com " mamãe", e devido também a suas rotineiras bebedeiras meu pai começou a me causar constrangimentos, chegando mesmo a me ameaçar de espancamento, durante uma conversa telefônica. A cena final desta novela se deu em uma sala de tribunal, com um processo que abri contra ele por lesões corporais, após levar um chute durante uma discussão no meio da rua. Um chute por trás, como ele já me havia contado que os ataques ocorriam. Foi condenado a prestar serviços à comunidade por dois anos em um hospital e não pôde mais estabelecer contato comigo, sob pena de ter o processo reaberto. Preferiria que as coisas não tivessem se desenrolado desta forma, e que hoje, adultos que somos, pudéssemos sentar e conversar sobre tudo o que passamos, sobre os erros que cometemos um para com o outro, sobre o quanto nos deixamos de lado mesmo nos gostando tanto. Queria poder chorar uma noite inteira em seu ombro, contando tudo que agora você vai ler neste livro, com mais minúcia, com mais emoção, com todo o detalhamento que meu carinho por ele me faria dar aos fatos. Mas pessoas difíceis são pessoas difíceis. "Entre tapas e beijos..." não há amor; há neurose. Desculpem-me Leandro e Leonardo, mas eu estou fugindo de gente louca. Lembro-me de uma tarde que passamos no clube, juntos: eu, na piscina, começava a me afogar ao brincar com uma bóia, e ele estava lá para me tirar da água. Me lembro ainda, com a boca cheia d’água, das saladas que meu pai preparava apenas para nós dois, com "muito limão e pimenta-do-reino, que é o segredo" – dizia. Foi ele que me ensinou a ser compulsivo por livros também. Por tudo isso e por muito mais, por ter me levado a parar para pensar na vida e em suas inúmeras possibilidades, dedico a ele minha história. E, logo abaixo, como não poderia deixar de ser, a lista do segundo lugar no podium de dedicatórias: A Deus e todas as pessoas maravilhosas que ele colocou em meu caminho, começando por minha mãe e irmãos, por serem como são, vinte e quatro horas por dia, faça chuva ou caia neve; minha tia Adélia (in memorian) e tios, por tudo que fizeram e fazem por mim; a toda a equipe médica de Brasília, em especial à tia da farmácia do posto (Elisabeth), que vai ser madrinha de meu casamento. Além deles, dedico minha história a todos os que me fizeram rir e proporcionaram bons momentos, cada um a seu modo, cumprindo papel de amigo a seu tempo, mas que não me permitiram colocar seus nomes aqui. A dedicatória estende-se, claro, à equipe da CN-DST/Aids (Coordenação Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids), por toda a força que me deram na edição do "Arqhivo", primeira versão deste livro. Meu agradecimento mais que especial ao Gil, que pariu a primeira edição comigo, e sofreu todas as dores ao meu lado. Dedico minha história, por fim, a todos os que, de uma forma ou de outra, fazem parte desta obra ou do meu trajeto para me "reencontrar" em meio a tantas vias de mão tripla; especialmente ao Rogério, quem comigo segue tais caminhos. "Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando... foi justamente..." (Raul Seixas) ...assim que aconteceu...

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