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As Doze Tribos de Hattie (Cód: 7396644)

Mathis, Ayana

Intrinseca

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As Doze Tribos de Hattie

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Descrição

Em 1923, aos quinze anos, Hattie Shepherd deixa a Geórgia para se estabelecer na Filadélfia, na esperança de uma vida melhor. Mas se casa com um homem que só lhe traz desgosto e observa indefesa quando seu casal de gêmeos sucumbe a uma doença que poderia ter sido evitada com alguns níqueis. Hattie dá à luz outras nove crianças, que cria com coragem e fervor, mas sem a ternura pela qual todos anseiam. Em lugar disso, assume o compromisso de preparar os filhos para as calamitosas dificuldades que certamente enfrentarão e de ensiná-los a encarar um mundo que não os amará nem será gentil. Contadas em doze diferentes narrativas, essas vidas formam a história da coragem monumental de uma mãe e da trajetória de uma família. Belo e inquietante, o primeiro romance de Ayana Mathis é assombroso do início ao fim — épico, angustiante, imprevisível, vibrante e cheio de vida. Uma história envolvente e cativante, um retrato marcante de uma luta tenaz diante de adversidades insuperáveis e uma celebração da resiliência do espírito humano. As doze tribos de Hattie é um romance de estreia de rara maturidade.

Características

Peso 0.35 Kg
Produto sob encomenda Sim
Editora Intrinseca
I.S.B.N. 9788580574920
Altura 23.00 cm
Largura 16.00 cm
Profundidade 1.00 cm
Idioma Português
Acabamento Brochura
Cód. Barras 9788580574920
Número da edição 1
Ano da edição 2014
AutorMathis, Ayana

Leia um trecho

—FILADÉLFIA E JUBILEU ?! — exclamou August quando Hattie mencionou os nomes que queria para os gêmeos. — A gente não pode dar nomes malucos assim para os bebês! A mãe de Hattie, se ainda estivesse viva, teria concordado com August. Diria que a filha escolhera nomes vulgares; “baixos e pedantes”, teria definido. Mas ela estava morta, e Hattie queria para os filhos nomes que não estivessem gravados em lápides dos mausoléus de família da Geórgia, por isso deu a eles nomes de promessa e esperança, buscando-os à frente, não no passado. Os gêmeos nasceram em junho, no primeiro verão de Hattie e August como marido e mulher. Os dois tinham alugado uma casa na Wayne Street — uma casa pequena, mas num bom bairro e, como dizia August, apenas temporária. — Até comprarmos nossa casa própria — explicava Hattie. — Até assinarmos na linha pontilhada — concordava August. No final de junho, os sabiás invadiram as árvores e telhados da Wayne Street. O bairro vibrava com o canto dos pássaros. Os trinados embalavam o sono dos gêmeos e deixavam Hattie num bom humor tão grande que ela vivia rindo. Chovia todas as manhãs, mas as tardes eram ensolaradas e o pequeno gramado era verde como o primeiro dia do mundo. As mulheres do bairro começavam a cozinhar bem cedo, e ao meio-dia o quarteirão recendia aos bolos de morango postos nas janelas para esfriar. Os três, Hattie e os gêmeos, cochilavam na sombra da varanda. No próximo verão Filadélfia e Jubileu já estariam andando; com passos vacilantes, como velhos meigos e desajeitados. HATTIE SHEPHERD vigiava seus dois filhos nos moisés. Os gêmeos estavam com sete meses. Respiravam com mais facilidade quando sentados, por isso ela usava pequenas almofadas. Só assim ficaram mais calmos. A noite fora difícil. Pneumonia podia ser curada, ainda que não tão facilmente. Melhor isso que caxumba, gripe ou pleurisia. Melhor pneumonia do que cólera ou escarlatina. Hattie sentou-se no chão do banheiro e se apoiou na privada, as pernas esticadas à frente. A janela estava embaçada com o vapor condensado e gotas escorriam pelas vidraças e caixilhos de madeira branca para se depositar em poças na ranhura do azulejo atrás do vaso. Hattie deixara a água quente correr por horas. August passara metade da noite no porão botando carvão no aquecedor de água. Ele não queria sair para trabalhar e deixar Hattie e os filhos sozinhos. Bem, mas... um dia de trabalho é um dia de pagamento, e o depósito de carvão andava baixo. Hattie lhe garantiu: os gêmeos iam ficar bem agora que a noite tinha passado. O médico tinha vindo no dia anterior e aconselhado o tratamento com vapor. Receitou uma pequena dosagem de ipecacuanha e alertou contra remédios antigos do interior como cataplasmas de mostarda, mas massagens com unguentos eram aceitáveis. Diluiu a ipecacuanha com um líquido claro e oleoso, deu a Hattie dois conta-gotas e mostrou como pressionar a língua dos bebês com o dedo para o remédio descer pela garganta. August pagou três dólares pela visita, e começou a preparar um cataplasma de mostarda assim que o médico saiu pela porta. Pneumonia. Em algum lugar do bairro, uma sirene uivou tão aguda que era como se estivesse na frente da casa. Hattie levantou do chão para enxugar um círculo na janela embaçada do banheiro. Nada além de uma fileira de casas brancas do outro lado da rua, amontoadas como dentes, e manchas de gelo acinzentado na calçada e brotos quase mortos nos quadrados de terra congelados que ocupavam. Aqui e ali se acendia uma luz numa janela de cima — alguns vizinhos trabalhavam nas docas como August, outros entregavam leite ou trabalhavam no serviço postal; havia professores, também, e um punhado de outros sobre os quais Hattie nada sabia. Por toda a Filadélfia as pessoas se levantavam no frio de rachar para alimentar as fornalhas nos porões. Todos partilhavam dessa labuta. Uma neblina granulada embaçava o céu no horizonte. Hattie fechou os olhos e recordou o sol nascente de sua infância: essas visões estavam sempre atormentando- -a, suas lembranças da Geórgia se tornando mais urgentes e forçosas a cada dia que passava na Filadélfia. Todas as manhãs de sua infância o apito para o trabalho soava ao raiar do dia, pelos campos, pelas casas e pelos ciprestes. Da cama, Hattie via os trabalhadores da lavoura marchando pela estrada em frente a sua casa. Os mais lentos passavam depois do primeiro apito: as mulheres grávidas, os doentes e os aleijados, os velhos demais para a colheita, as que tinham bebês presos às costas. A sirene os impulsionava como um açoite. Solene a estrada e solenes os rostos; os campos começando a se iluminar, os colhedores se espalhando por esses campos como gafanhotos. Os bebês de Hattie piscaram para ela, devagar; ela coçou os dois debaixo do queixo. Logo seria hora de trocar os cataplasmas de mostarda. O vapor subia da água quente na banheira. Acrescentou mais um punhado de eucalipto. Na Geórgia, havia um eucalipto plantado no bosque do outro lado da rua, mas era uma madeira difícil de ser obtida no inverno da Filadélfia. TRÊS DIAS ANTES, a tosse dos bebês tinha piorado. Hattie vestiu o casaco e foi até o mercado perguntar ao dono do local onde poderia encontrar eucalipto. Foi enviada a uma casa a alguns quarteirões. Hattie era nova em Germantown, e logo se perdeu no emaranhado de ruas. Quando chegou ao destino, a pele queimada pelo frio, pagou quinze centavos a uma mulher por um saco do que poderia ter de graça na Geórgia. — Ora, você é tão pequenina! — disse a mulher do eucalipto. — Quantos anos você tem, garota? Hattie se empertigou com a pergunta, mas disse que tinha dezessete e acrescentou, para que a mulher não a confundisse com qualquer outra infeliz recém-chegada do Sul, que era casada, que o marido era aprendiz de eletricista e que haviam acabado de se mudar para uma casa na Wayne Street. — Que bom, querida. Onde está sua família? Hattie hesitou por um instante, engoliu em seco. — Na Geórgia, senhora. — Você não tem parentes aqui? — Minha irmã, senhora. Não disse que a mãe tinha morrido um ano antes, quando Hattie estava grávida. O choque da morte da mãe, de se tornar órfã e ser uma estranha no Norte, fez a irmã mais nova de Hattie, Pearl, voltar à Geórgia. A irmã mais velha, Marion, também havia retornado, embora tenha dito que regressaria após dar à luz e depois que o inverno passasse. Hattie não sabia se ela voltaria. A mulher examinou-a mais de perto. — Eu vou junto com você para dar uma olhada nos seus filhinhos — falou. Hattie recusou. Foi uma tolice, coisa de garota idiota e orgulhosa demais para admitir que precisava de ajuda. Foi para casa sozinha agarrada ao saco de eucalipto. O ar do inverno era como fogo, queimando tudo menos a vontade de fazer com que os filhos melhorassem. Os dedos de Hattie eram garras congeladas cravadas no papel do saco pardo amassado. Entrou na casa da Wayne Street com muita clareza de espírito. Sentiu que conseguia ver através dos bebês, atrás da pele e da carne e no fundo da caixa torácica até seus exaustos pulmões. HATTIE COLOCOU Filadélfia e Jubileu mais perto da banheira. O punhado extra de eucalipto fora demais — os bebês fecharam os olhos na névoa mentolada. Jubileu fechou a mão e tentou erguer o braço, esfregar os olhos lacrimejantes, mas estava fraca demais e sua mão caiu ao lado do corpo. Hattie se ajoelhou e beijou a mãozinha dela. Pegou o braço amolecido da filha — leve como o osso de um pássaro — e usou a mão dela para enxugar as lágrimas, como Jubileu teria feito se tivesse força. — Pronto — disse Hattie. — Pronto, você conseguiu, sozinha. Jubileu olhou para a mãe e sorriu. Mais uma vez, Hattie levou a mão de Jubileu aos olhos embaçados. A menina achou que fosse uma brincadeira de pega-pega e deu uma risada fraca, áspera, baixa e catarrenta, mas ainda assim uma risada. Hattie também riu, porque a filha era muito corajosa e boazinha — mesmo doente como estava, continuava animada como um bichinho. Tinha uma covinha na bochecha. O irmão, Filadélfia, tinha duas. Não se pareciam em nada. O cabelo de Jubileu era preto como o de August, mas o de Filadélfia era claro e leitoso, cor de areia terrosa, como o de Hattie. A respiração de Filadélfia era difícil. Hattie o tirou do moisés e encostou-o na parede da banheira, onde o vapor era mais forte. Parecia um saco de farinha nos braços dela. A cabeça pendia no pescoço e os braços estavam caídos. Hattie deu uma sacudidela delicada para reanimá-lo. Ele não comia desde a noite anterior — os dois tossiram tanto durante a madrugada que vomitaram o pouco de sopa de legumes que Hattie tinha conseguido lhes fazer engolir. Abriu uma pálpebra do filho com o dedo, o globo ocular revirado na órbita. Hattie não sabia se ele estava dormindo ou desmaiado, e se estivesse desmaiado, talvez ele não... talvez não... Mexeu na pálpebra dele outra vez. Dessa vez ele reagiu — meu garoto! — retorcendo os lábios do mesmo jeito de quando ela lhe dava purê de ervilhas ou quando ele sentia o cheiro de alguma coisa de que não gostava. Muito exigente. A brancura do banheiro era demasiada: banheira branca, paredes brancas, teto branco. Filadélfia tossiu, com longos espasmos de ar que fizeram seu corpo tremer. Hattie pegou a lata de mostarda quente do aquecedor e esfregou no peito dele. As costelas pareciam gravetos nos seus dedos; estalariam e cairiam na cavidade torácica com a menor pressão. Ele era, os dois eram tão gordinhos quando estavam bem... Filadélfia levantou a cabeça, mas estava tão cansado que ela caiu; o queixo dele bateu no ombro de Hattie, como acontecia quando era recém-nascido e estava aprendendo a manter a cabeça em pé. Hattie andava em círculos pelo pequeno banheiro, esfregando as costas de Filadélfia entre as escápulas. Quando ele arfava, o pé distendia e chutava a barriga dela; quando respirava, o pé relaxava. O chão era escorregadio. Hattie cantava sílabas sem sentido — tá tá tá, dum dum, tá tá. Não conseguia lembrar a letra de nada. Água gotejava das janelas e das torneiras e pela parede ao redor do interruptor de luz. O banheiro inteiro gotejava como um bosque da Geórgia depois de uma tempestade. Alguma coisa zumbiu, depois chiou atrás da parede, e a luz do teto se apagou. O banheiro ficou todo azul e enevoado. Meu Deus, pensou Hattie, mais isso. Encostou a cabeça no batente da porta e fechou os olhos. Já estava há três dias sem dormir. Foi acometida por uma lembrança que quase pareceu um desmaio: Hattie, a mãe e as irmãs andando pelos bosques ao amanhecer. Mamãe na frente, com duas grandes malas de viagem e as três meninas atrás, levando valises. Atravessavam a névoa matinal e os arbustos baixos no caminho para a cidade, as saias se enroscando nos galhos. Esgueirando- -se pela floresta como ladras para tomar o primeiro trem que partia da Geórgia. Não fazia nem dois dias que o pai de Hattie tinha morrido, e os homens brancos já estavam tirando a plaqueta com o nome dele da porta da oficina de ferreiro para colocar as próprias. “Tenha piedade de nós”, dissera mamãe quando a primeira trombeta soou no campo. O pé de Filadélfia entrou no umbigo de Hattie e ela teve um sobressalto, retornando ao banheiro com os filhos, assustada e zangada consigo mesma por ter se distraído. Os dois bebês começaram a chorar. Engasgando e tremendo ao mesmo tempo. A doença ganhava força, primeiro numa criança e depois na outra, e em seguida, como se estivesse esperando por aquele momento para fazer o pior, atacando como um raio bifurcado. Piedade, Senhor. Piedade. Os filhos de Hattie ardiam em febre: a temperatura subia, as pernas se agitavam, as bochechas estavam vermelhas como sóis. Hattie pegou o frasco de ipecacuanha e deu uma dose a cada um. Tossiram muito antes de engolir — o remédio escorreu pelos cantos da boca. Hattie limpou o rosto dos dois, ministrou mais ipecacuanha e massageou os peitos arfantes. Suas mãos se moviam com perícia entre as tarefas. Eram mãos rápidas e competentes, mesmo enquanto Hattie chorava e implorava. Como os bebês estavam quentes! Como eles queriam viver! Quando cedia a esses pensamentos, Hattie via as almas dos filhos como uma névoa fraca; diáfana e inalcançável. Ela era apenas uma menina — só dezessete anos a mais de tempo na terra que os filhos. Hattie os entendia como extensões de si mesma e os amava porque eram seus e por serem indefesos e precisarem dela. Mas ao olhar para os filhos agora podia ver que a vida estava se esvaindo deles. — Lutem — exigiu Hattie. — Assim — insistiu, e inspirou e expirou o ar dos próprios pulmões, solidária, para mostrar que era possível. — Assim — repetiu. Hattie estava sentada no chão de pernas cruzadas, com Jubileu equilibrada em um joelho e Filadélfia no outro. Dava tapas nas costas dos dois para tentar fazê-los expectorar o catarro. Os pés dos bebês se entrelaçavam no triângulo formado no espaço entre as pernas dobradas de Hattie — mas a energia fenecia e eles se apoiavam cada vez mais nas coxas dela. Mesmo que vivesse até os cem anos, Hattie continuaria vendo, tão nitidamente como via os filhos derramados à sua frente agora, o corpo do pai caído no canto da oficina, os dois homens brancos da cidade se afastando sem nem ao menos acelerar o passo ou esconder as armas. Hattie tinha visto aquilo, não podia desver. O pastor na Geórgia dissera que o Norte era uma Nova Jerusalém. A congregação o chamou de traidor da causa dos negros do Sul. Ele foi embora no dia seguinte, num trem para Chicago. Outros também estavam partindo, desaparecendo das lojas ou das plantações; deixando os lugares que haviam ocupado nos bancos da igreja na missa do domingo vazios nas orações de quarta-feira. Todas aquelas almas, foragidas do Sul, nesse mesmo momento bruxuleavam em suas ilusões nos miseráveis invernos das cidades do Norte. Hattie sabia que os filhos iriam sobreviver. Apesar de muito pequenos de toda a dificuldade, Filadélfia e Jubileu se encontravam entre as almas luminosas, já no início de uma nova nação. TRINTA E DUAS HORAS DEPOIS que Hattie, a mãe e as irmãs se esgueiraram pelos bosques da Geórgia em direção à estação ferroviária, trinta e duas horas acomodadas em bancos duros no vagão reservado aos negros, Hattie foi despertada de um sono leve pelo aviso do condutor do trem: “Estação Broad Street, Filadélfia!” Hattie desceu do trem, a barra da saia ainda suja da lama da Geórgia, o sonho da Filadélfia redondo como uma bola de gude em sua boca e o medo como uma agulha no peito. Hattie, a mãe, Pearl e Marion subiram os degraus da plataforma para o saguão principal da estação. Estava escuro, apesar do sol da tarde. O teto era em forma de domo. Pombos arrulhavam nas vigas. Hattie tinha só quinze anos, e era magra como um graveto. Ficou ao lado da mãe e das irmãs às margens da multidão, as quatro esperando uma brecha para entrar no fluxo de gente e seguir para as portas duplas do outro lado da estação. Hattie entrou na multidão. Mamãe chamou: “Volta aqui! Você vai se perder no meio de tanta gente. Você vai se perder!” Hattie olhou em pânico por cima do ombro; achou que a mãe estivesse logo atrás dela. O fluxo era intenso demais para voltar, ela foi levada pela correnteza de gente. Chegou às portas duplas e foi empurrada para a calçada. A avenida principal estava congestionada; Hattie nunca tinha visto tanta gente num só lugar. O sol estava alto. A fumaça dos automóveis pairava no ar junto com o cheiro do asfalto novo e do odor nauseante de lixo em decomposição. Rodas ressoavam nas ruas pavimentadas, motores aceleravam, jornaleiros anunciavam as manchetes. Do outro lado da rua, um homem de roupas sujas numa esquina gemia uma canção, as mãos ao lado do corpo, palmas para cima. Hattie resistiu ao anseio de tapar os ouvidos para não ouvir os sons frenéticos da cidade. Sentiu o cheiro da ausência de árvores antes de notar a inexistência delas. As coisas eram maiores na Filadélfia — isso era verdade — e havia mais de tudo, demais de tudo. Mas Hattie não viu uma terra prometida naquele tumulto. Era apenas, pensou, Atlanta em escala maior. Dava para encarar. Mas, no exato momento em que se declarou adequada à cidade, seus joelhos fraquejaram e o suor escorreu pelas costas e por baixo da saia. Centenas de pessoas passaram por ela no pouco tempo em que esteve na rua, mas não sua mãe ou suas irmãs. Os olhos de Hattie doíam com o esforço de examinar os rostos que passavam Uma carrocinha no final da calçada chamou sua atenção. Hattie nunca tinha visto um carrinho vendendo flores. Um homem branco estava sentado num banquinho com as mangas arregaçadas e o chapéu puxado para a frente para se proteger do sol. Hattie pôs a sacola na calçada e limpou as palmas das mãos suadas na saia. Uma mulher negra se aproximou da carrocinha. Apontou um maço de flores. O homem branco se levantou — ele não hesitou, seu corpo não se contorceu numa postura ameaçadora — e pegou as flores de um balde. Antes de embrulhá-las num papel, balançou o ramalhete com delicadeza para tirar a água das hastes. A mulher negra deu um dinheiro a ele. Será que as mãos dos dois se tocaram? Quando a mulher pegou o troco e se virou para guardar o dinheiro na bolsa, desequilibrou três dos arranjos de flores. Vasos e botões caíram da carroça e se quebraram na calçada. Hattie enrijeceu, esperando a inevitável explosão. Esperou que outros negros se afastassem do foco de violência que por certo iria irromper. Esperou o momento em que teria de desviar o olhar da mulher e do horror que se seguiria. O vendedor se abaixou para arrumar a bagunça. A negra gesticulou um pedido de desculpas e levou a mão à bolsa outra vez, provavelmente para pagar pelo prejuízo. Em poucos minutos estava tudo resolvido e a mulher voltou a andar pela rua com o nariz no cone de papel com as flores, como se nada tivesse acontecido. Hattie observou a multidão na calçada com mais atenção. Os negros não saíam para a sarjeta para deixar os brancos passarem e não baixavam os olhos obstinadamente para os próprios pés. Quatro garotas negras passaram, adolescentes como Hattie, conversando. Apenas garotas conversando, dando risadinhas à vontade, do jeito que somente as garotas brancas caminhavam e conversavam nas ruas das cidades na Geórgia. Hattie as seguiu com o olhar até o final do quarteirão. Finalmente, a mãe e as irmãs saíram da estação e se aproximaram dela. “Mamãe”, disse Hattie. “Eu nunca mais vou voltar. Nunca mais.” FILADÉLFIA CAIU PARA A FRENTE e bateu a testa no ombro de Jubileu antes que Hattie pudesse impedir. Respirava em cicios úmidos e roufenhos. As mãos estavam abertas e caídas ao lado do corpo. Hattie deu uma chacoalhada; ele desmoronou como uma boneca de pano. Jubileu também estava ficando mais fraca. Hattie conseguia manter a cabeça dela em pé, mas os olhos continuavam desfocados. Hattie segurou os dois bebês nos braços e tomou um desas- AS DOZE TRIBOS DE HATTIE 17 trado impulso para pegar o frasco de ipecacuanha. Filadélfia tossiu baixo e olhou para a mãe, confuso. — Desculpe — disse Hattie. — Eu também não entendo. Vai ficar tudo bem. Desculpe. A ipecacuanha escorregou da sua mão e se espatifou no chão. Hattie se ajoelhou ao lado do vidro, Filadélfia num braço e Jubileu equilibrado no colo. Abriu a torneira de água quente e esperou. Jubileu tossiu da forma que pôde, e da maneira que pôde aspirou ar para dentro do corpo. Hattie pôs os dedos debaixo da água corrente. Estava gelada. Não havia tempo para abastecer a fornalha no porão nem para esperar a água esquentar. Filadélfia estava apática, as pernas chutando a barriga de Hattie em movimentos involuntários. A cabeça pendia no ombro. Hattie saiu do banheiro. Pisou nos cacos de vidro do frasco quebrado e cortou o pé; manchou de sangue os azulejos brancos e o assoalho de madeira do corredor. No quarto, puxou a manta da cama e enrolou nas crianças. Num instante já tinha descido a escada e estava calçando os sapatos no pequeno vestíbulo. Os cacos de vidro em seu pé se cravaram mais fundo. Saiu pela porta e desceu os degraus da varanda. Nuvens de vapor condensado emanavam de seu vestido molhado e os braços descobertos mergulharam no ar frio e limpo. O sol já estava brilhando. Hattie bateu à porta da vizinha. — Eles estão com pneumonia! — falou para a mulher que atendeu. — Por favor, me ajude. Hattie não sabia o nome dela. Já dentro da casa, a vizinha puxou a coberta para ver Jubileu e Filadélfia inertes no peito da mãe. — Ah, meu Deus — exclamou. Um garoto, o filho da mulher, entrou na sala. — Vá chamar o médico — gritou ela. Tirou Filadélfia do colo de Hattie e correu escada acima com ele nos braços. Hattie foi atrás, Jubileu desfalecida no colo. — Ele ainda está respirando — disse a mulher. — Enquanto estiver respirando... Chegando ao banheiro, ela tapou o ralo da banheira. Hattie ficou na porta, embalando Jubileu, sua esperança esvanecendo ao observar a mulher abrir a água quente com força total. — Eu já fiz isso! — bradou Hattie. — Não há nada mais a fazer? A mulher devolveu Filadélfia a Hattie e contornou o armário de medicamentos. Saiu com uma lata de cânfora, que desatarraxou e passou embaixo do nariz dos bebês como se fosse um sal aromático. Só Jubileu reagiu, afastando a cabeça do odor. Hattie ficou chocada com tanta inutilidade — todo aquele tempo lutando para salvar os filhos, só para terminar em outro banheiro igual ao dela, com uma mulher tão impotente contra a doença quanto ela. — O que eu posso fazer? — Hattie olhou para a mulher através do vapor. — Por favor, diga-me o que fazer. A vizinha encontrou um tubo de vidro com bulbo de borracha na ponta; usou aquilo para puxar muco do nariz e da boca dos bebês. Ajoelhou-se na frente de Hattie, quase aos prantos. — Meu Deus, meu Senhor, nos ajude. A mulher sugava muco e rezava. As pálpebras das crianças estavam inchadas e vermelhas de capilares rompidos. A respiração era superficial. Os peitos subiam e desciam depressa demais. Hattie não sabia se Filadélfia e Jubileu estavam com medo ou se entendiam o que estava acontecendo com eles. Não sabia como consolá-los, mas queria que sua voz fosse a última coisa nos ouvidos dos filhos, que seu rosto fosse a última visão em seus olhos. Hattie beijou a testa e as bochechas dos dois. As duas cabeças tombaram em seus braços. Entre uma respiração e outra, os olhos se arregalaram em pânico. Ouviu um gorgolejo úmido no peito dos dois. Estavam se afogando. Hattie não conseguia aguentar aquele sofrimento, mas queria que partissem em paz, por isso não gritou. Chamou-os de tesouros, chamou-os de luz, de promessa e nuvem. A vizinha chorava num murmúrio contínuo. Mantinha a mão no joelho de Hattie. A mulher não a soltava, nem quando Hattie tentou se livrar. Não era muito, mas o fez para que a garota não passasse por aquilo sozinha. Jubileu lutou mais. Tentou tocar Filadélfia, mas estava muito fraca para estender o braço. Hattie pegou na mão dela. Abraçou os dois bebês. Embalou-os. Apertou o rosto nos cocurutos. Ah, que pele aveludada! Sentiu a morte deles como um rasgo no próprio corpo. Os filhos de Hattie morreram na mesma ordem em que tinham nascido: primeiro Filadélfia, depois Jubileu.