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As Memórias do Livro (Cód: 2312237)

Brooks, Geraldine

Ediouro

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Descrição

Na Bósnia arrasada por anos de guerra civil, um raro manuscrito judeu medieval reaparece. É a lendária Hagadá de Saravejo, um volume único, que contrariava as restrições judaicas da época em relação às ilustrações. Um livro com uma história cercada de enigmas. Como esse manuscrito foi feito, apesar das restrições rabínicas? E como sobreviveu a séculos de anti-semitismo na Europa? Para desvendar esses mistérios, Geraldine Brooks apresenta aos leitores Hanna Heath, a restauradora australiana para analisar e recuperar o manuscrito.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Ediouro
Cód. Barras 9788500023323
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788500023323
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2008
Idioma Português
Número de Páginas 384
Peso 0.44 Kg
Largura 15.50 cm
AutorBrooks, Geraldine

Leia um trecho

A asa de um inseto Sarajevo, 1940 Aí está a tumba. Fiquem, por um instante, enquanto a floresta escuta. Tirem os quepes! Aqui repousa a flor de um povo que sabe morrer. — INSCRIÇÃO EM MEMORIAL À SEGUNDA GUERRA MUNDIAL, BÓSNIA O VENTO SOPRAVA SOBRE o rio Miljacka, cortante como um tapa no rosto. O casaco fino de Lola não oferecia proteção alguma. Ela corria pela ponte estreita, com as mãos enfiadas nos bolsos. Do outro lado do rio, erguiam -se abruptamente degraus toscos esculpidos em pedra que iam dar em um emaranhado de vielas estreitas, ladeadas por p rédios residenciais mal conservados. Lola galgou os degraus, dois a cada passo, e virou na segunda viela, finalmente encontrando proteção das fortes lufadas de vento. Ainda não era meia-noite; por isso a porta de entrada do prédio não estava trancada. Lá dentro estava muito mais confortável que no frio da rua. Ela parou por um momento, para recuperar o fôlego. O saguão estava impregnado com o cheiro de repolho cozido e urina de gato. Lola subiu devagar a escada e girou cuidadosamente o trinco do apartamento de sua família. Embora sua mão direita se estendesse instintivamente para tocar o Mesusá na soleira da porta antes de entrar, ela não saberia dizer por que fazia isso. Tirou o casaco, desamarrou os sapatos e os levou para dentro na mão, andando nas pontas dos pés enquanto passava pelas formas adormecidas de sua mãe e seu pai. O apartamento era de um cômodo, tendo como única privacidade uma cortina divisória. Sua irmãzinha era apenas uma saliência por baixo da colcha. Lola levantou a coberta e deslizou para o lado da irmã. Dora estava enrolada como um animal pequeno, irradiando um bem-vindo calor. Lola se aproveitou do calor das costas da irmã, que reclamou em meio ao sono, emitindo um baixo resmungo choroso e se afastando. Ela colocou as mãos geladas debaixo das próprias axilas. Apesar do frio, seu rosto ainda estava quente, e a testa ainda suada de tanto dançar; se seu pai acordasse, poderia notar. Lola adorava dançar. Era a única coisa que a atraía para os encontros dos Jovens Guardiões. Ela gostava de caminhadas, também; as longas e duras caminhadas nas montanhas até um lago suspenso ou às ruínas de uma antiga fortaleza. Quanto o restante, ela não ligava muito. Achava enfadonhas as infindáveis discussões políticas. E hebraico — não gostava de ler nem na própria língua, muito menos se esforçar para decodificar os estranhos rabiscos pretos que Mordechai estava sempre tentando lhe ensinar. Ela pensava no braço dele sobre seus ombros, no círculo. Ainda sentia o peso agradável do corpo dele, musculoso pelo trabalho na fazenda. Quando ele arregaçou as mangas, revelou antebraços bronzeados e duros como avelãs. Embora ela não soubesse os passos, era fácil seguir a dança com ele ao seu lado, encorajando-a com um sorriso. Uma nativa de Sarajevo — mesmo pobre como Lola — jamais olharia duas vezes para um camponês bósnio. Ainda que o fazendeiro estivesse muito bem de vida, um morador da cidade se sentia superior a ele. Mas, com Mordechai, a situação era totalmente diferente. Ele crescera em Travnik, que, embora não fosse como Sarajevo, era uma cidade boa também. Ele era uma pessoa estudada; freqüentara o ginásio. Dois anos antes, porém, com dezessete anos de idade, partira de barco para a Palestina, para trabalhar em uma fazenda. E, pela descrição dele, não era uma fazenda nada próspera; um pedaço de terra estéril, seco, onde as pessoas quebravam as costas para cultivar qualquer coisa. E sem lucros, apenas a comida na boca e as roupas de trabalho. Pior que um camponês, na verdade. Entretanto, quando ele falava disso, era como se não houvesse no mundo profissão mais fascinante ou nobre que cavar valas para irrigação e colher tâmaras. Lola adorava ouvir Mordechai quando ele falava de todas as coisas práticas que um pioneiro tinha que saber, por exemplo, tratar uma picada de escorpião ou estancar o sangue de um corte feio; como fazer uma latrina sanitária ou improvisar um abrigo. Lola sabia que jamais sairia de casa para ser uma pioneira na Palestina, mas gostava de pensar no tipo de vida aventurosa que exigia essas técnicas. E gostava de pensar em Mordechai. O jeito que ele falava fazia-a se lembrar das antigas canções ladinas que seu avô cantava para ela quando era garotinha. Ele tinha uma barraca de sementes em uma feira pública, e a mãe de Lola às vezes a deixava lá enquanto ia trabalhar. Seu avô sempre tinha um grande repertório de histórias de cavaleiros e fidalgos, e poemas de um lugar mágico chamado Sepharad, onde, ele dizia, seus ancestrais tinham vivido muito tempo atrás. Mordechai falava de sua nova terra como se fosse Sepharad. Ele dizia ao grupo que mal podia esperar para voltar àquele lugar, a Eretz Israel. — Tenho inveja de cada nascer do sol em que eu não estou lá para ver as pedras brancas do vale do Jordão virarem ouro. Lola não falava durante as discussões em grupo. Ela se sentia ignorante, em comparação com os outros. Muitos deles eram Svabo Jijos, judeus que falavam iídiche, que tinham vindo para a cidade após a ocupação austríaca, no fim do século XIX. Famílias que falavam a língua ladina, como a de Lola, habitavam a cidade desde 1565, quando Sarajevo fazia parte do império otomano, e o sultão muçulmano lhes oferecia refúgio da perseguição cristã. Os que vieram eram, na maioria, indivíduos errantes desde a expulsão da Espanha em 1492, incapazes de encontrar um lar permanente. Em Sarajevo, encontraram paz e aceitação, mas apenas algumas poucas famílias prosperaram. A maioria continuou na atividade de pequeno mercador, como seu avô, ou os artesãos com habilidades simples. Os Svabo Jijos eram mais educados, mais europeus em sua aparência. Não tardou até conseguirem empregos melhores e se mesclarem com as altas camadas da sociedade de Sarajevo. Seus filhos freqüentavam o ginásio e às vezes entravam para a universidade. Nos Jovens Guardiões, eles eram os líderes natos. Uma era filha de um conselheiro da cidade; um era o filho do farmacêutico, um viúvo, para quem a mãe de Lola lavava roupa. O pai de outra garota era guarda-livros no ministério das finanças, onde o pai de Lola trabalhava como zelador. Mas Mordechai tratava todos como iguais, de modo que aos poucos eles tinham coragem de fazer perguntas. — Mas, Mordechai — ela havia perguntado —, você não se sente feliz por estar de volta ao seu país, falando a sua língua, não tendo que trabalhar tanto? Mordechai se voltou para ela com um sorriso. — Meu lar não é aqui — ele disse, com delicadeza. — Nem o seu. O único verdadeiro lar para os judeus é Eretz Israel. E é por isso que estou aqui, para lhe falar da vida que você poderia ter, para preparála e levá-la comigo, para construirmos nossa terra natal judaica. Ele levantou os braços, como que para incluí-la em um abraço comunal. — Se você desejar, mesmo, não é um sonho. — Fez uma pausa, deixando as palavras pairando no ar. — Um grande homem disse isso uma vez, e eu acredito. E você, Lola, vai fazer seus sonhos se tornarem realidade? — Ela corou, não acostumada a receber atenção; e Mordechai sorriu, benevolente. E, então, estendeu as mãos para incluir o grupo todo. — Mas pensem nisso. O que vocês desejam? Fazer a dança do pombo, rastejando para pegar as migalhas dos outros, ou querem ser gaviões do deserto, e voar alto, para o seu destino? Isak, o filho do farmacêutico, era um garoto estudioso, magérrimo, com braços e pernas finos como lápis. A mãe de Lola vivia dizendo que, apesar de toda a sua cultura, o farmacêutico não tinha a mínima idéia de como alimentar direito uma criança em fase de crescimento. Mas, de todos os jovens na sala, Isak era o único que se mexia impacientemente durante a preleção retórica de Mordechai. Mordechai observou isso e dirigiu toda a força de seu entusiasmo para ele. — O que foi, Isak? Tem alguma coisa que gostaria de partilhar conosco? Isak empurrou para trás seus óculos de armadura fina, e disse: — O que você diz pode ser verdade para os judeus na Alemanha. Todos nós ouvimos notícias preocupantes de lá. Mas, aqui, não. O anti-semitismo nunca fez parte de nossa vida, em Sarajevo. Veja onde está a sinagoga: entre a mesquita e a igreja ortodoxa. Desculpe, mas a Palestina é o lar dos árabes, não o seu. E, com certeza, não o meu. Nós somos europeus. Por que daríamos as costas a um país que nos ofereceu prosperidade e educação, e nos tornaríamos camponeses em meio a um povo que não nos quer? — Então, você se contenta em ser um pombo? — Mordechai perguntou, sorrindo, mas sua intenção de diminuir Isak era clara, mesmo para Lola. Isak beliscou o osso do nariz e coçou a cabeça. — Talvez — disse. — Mas pelo menos o pombo não faz mal a ninguém. O gavião vive à custa de outras criaturas que habitam o deserto. Lola tinha ouvido os dois discutirem, até sentir dor de cabeça. Ela não tinha idéia de quem estava certo. Virou-se sobre o colchão fino e tentou aquietar a mente. Precisava dormir; do contrário, ficaria sonolenta durante as tarefas no dia seguinte, e seu pai quereria saber por quê. Lola trabalhava na lavanderia com a mãe, Rashela. Ficava cansada da tarefa de andar pelas ruas entregando roupa limpa e engomada e pegando roupas sujas. O vapor quente, úmido, a deixava com sono, quando ela deveria cuidar do cobre. Sua mãe às vezes a encontrava encolhida num canto, enquanto a água esfriava e uma escória gordurosa se formava na superfície. Lujo, o pai, não era um homem agressivo, mas era rigoroso e prático. A princípio, ele tinha permitido a Lola ir aos encontros dos Jovens Guardiões, Hashomer Haza’ir em hebraico, depois que terminasse o trabalho. Seu amigo, Mosa, o custódio do centro da comunidade judaica, havia falado bem do grupo, dizendo que era uma saudável e inofensiva organização de jovens, assim como os escoteiros dos gentios. Mas Lola tinha caído no sono e deixado o fogo que aquecia o cobre apagar. Sua mãe a repreendeu, e o pai perguntou por quê. Quando soube que era por causa da dança, a hora, que meninos e meninas faziam juntos, ele proibiu Lola de freqüentar outras reuniões. “Você só tem quinze anos, filha. Quando for um pouco mais velha, nós lhe arrumaremos um noivo para ser seu parceiro, e aí você poderá dançar.” Ela implorou para que ele reconsiderasse, dizendo que ficaria sentada durante a dança. — Há coisas lá que eu posso aprender — disse. — Coisas! — repetiu Lujo, em tom de desprezo. — Coisas que a ajudarão a ganhar o pão para a sua família? Não? Achei que não, mesmo. Idéias loucas. Idéias comunistas, pelo que eu sei. Idéias que são proibidas em nosso país, e que vão colocá-la numa encrenca da qual você não precisa. E uma língua morta que ninguém fala, exceto alguns velhos na sinagoga. Realmente, eu não sei o que passou pela cabeça de Mosa. Vou zelar pela sua honra, mesmo que os outros se esqueçam do valor de tal coisa. Com a caminhada, aos domingos, eu não me importo, se sua mãe não tiver tarefas para você. Mas de agora em diante você vai passar as noites em casa. Desde aquele dia, Lola começara a viver uma exaustiva vida dupla. O Hashomer se reunia duas noites por semana. Nessas noites, ela ia para a cama cedo, com sua irmãzinha. Às vezes, depois de ter trabalhado muito, precisava de uma tremenda força de vontade para permanecer acordada, ouvindo a respiração suave, regular do corpinho de Dora ao seu lado. Mas geralmente a expectativa facilitava-lhe manter-se acordada, fingindo dormir, até perceber, pelo ronco dos pais, que já podia sair. Esgueirava-se furtivamente, vestindo as roupas no corredor e torcendo para que nenhum vizinho abrisse a porta e a visse. Na noite em que Mordechai disse ao grupo que ia embora, Lola, a princípio, não entendeu. — Vou para casa — ele disse. Lola achou que ele estava falando de Travnik. Finalmente, porém, compreendeu que ele ia embarcar num trem de carga para a Palestina, e que ela nunca mais o veria. Ele convidou a todos que fossem se despedir dele na estação, no dia da partida. Em seguida, anunciou que Avram, um aprendiz de gráfico, decidira ir com ele. — Ele é o primeiro. Espero que muitos de vocês venham em seguida. — Ele olhou para Lola, e ela teve a impressão que o rapaz não ia desviar o olhar. — Quando vierem, nós estaremos lá, para lhes dar as boas-vindas. No dia em que Mordechai e Avram iam partir, Lola queria ir à estação de trem, mas sua mãe tinha uma pilha imensa de roupas para lavar e engomar. Rashela pelejava com o ferro pesado enquanto Lola assumia seu lugar costumeiro com o cobre e o rolo. Na hora em que o trem ia partir para o litoral, Lola olhou para as paredes cinza da lavanderia, observando o vapor condensar e escorrer pela pedra fria. O cheiro de mofo lhe enchia as narinas. Ela tentou imaginar os fortes e brancos raios de sol que Mordechai descrevera, tingindo de dourado as oliveiras, e o aroma dos brotos de laranja nascendo nos jardins circundados por muros de pedra, em Jerusalém. O líder que assumiu o lugar de Mordechai, um jovem chamado Samuel, de Novi Sad, era um competente e habilidoso professor de atividades ao ar livre, mas não possuía aquele carisma que deixava Lola acordada durante as reuniões. Agora, mais do que nunca, ela adormecia enquanto esperava seus exaustos pais dormirem. Ela acordava com o chamado à oração da madrugada pelo khoja, convidando seus vizinhos muçulmanos à devoção. Percebia então que havia perdido uma reunião e se sentia apenas levemente arrependida. Outros garotos e garotas seguiram Avram e Mordechai à Palestina, sempre com a despedida dos outros na estação de trem. De vez em quando, escreviam para o grupo. Seus relatos eram sempre parecidos; o trabalho era duro, mas a terra valia o esforço, e o que mais importava era você ser um judeu construindo uma terra judaica. Lola às vezes achava o tom das cartas estranho. Com certeza, algum deles deveria sentir falta de casa! Com certeza, nem todos deviam se dar bem com aquele tipo de vida! Mas parecia que aqueles que partiam se tornavam uma única pessoa, falando com a mesma voz monótona. O ritmo das partidas foi aumentando à medida que as notícias da Alemanha pioravam. A anexação da Áustria deixava o Reich bem próximo das fronteiras. Mas a vida no centro comunitário prosseguia, como de costume, os velhos se encontrando para tomar café e conversar, os religiosos para o Oneg Shabbat, nas noites de sexta-feira. Não havia o senso de perigo, mesmo quando o governo fechou os olhos para as gangues fascistas que começavam a rondar as ruas, molestando todos que eles sabiam ser judeus, e entrando em luta física com os ciganos. “São só uns arruaceiros tolos”, Lujo dizia, dando de ombros. “Toda comunidade tem arruaceiros, mesmo a nossa. Isso não significa nada.” Às vezes, quando Lola estava pegando roupas sujas de um apartamento na parte afluente da cidade, ela via Isak, sempre carregando nos ombros uma pesada mochila com livros. Ele estava na universidade agora, estudando química, como fizera seu pai. Lola queria lhe perguntar o que ele achava dos arruaceiros, e se estava preocupado com a ocupação da França. Mas ela tinha vergonha, por causa do cesto de roupa malcheirosa que carregava. E não tinha certeza se sabia o suficiente para fazer perguntas de uma maneira que não parecesse tola. Quando Stela Kamal ouviu a suave batida na porta de seu apartamento, levou as mãos até o alto da cabeça e puxou o véu de renda, antes de abrir. Estava em Sarajevo havia mais de um ano, mais ainda seguia os costumes conservadores de Prístina, onde nenhuma família muçulmana tradicional permitia que suas mulheres mostrassem o rosto a um homem estranho. Àquela tarde, porém, a visita não era de um homem, e sim apenas da lavadeira que seu marido havia arrumado. Stela tinha pena da menina. Ela carregava nas costas um cesto de vime cheio de roupas passada s. Sobre os ombros se apoiavam sacos de morim, cheios de roupas sujas. A jovem parecia cansada e com frio. Stela lhe ofereceu uma bebida quente. A princípio, Lola não entendeu o sotaque albanês. Stela, então, tirou o fino tecido rendado que lhe cobria o rosto e repetiu a oferta, fazendo o gesto de despejar café de um dz‡ ezva. Estava muito frio lá fora, e ela tinha andado quilômetros. Stela a convidou para entrar e foi até o mangala, onde as brasas ainda estavam quentes. Ela jogou o café no dz‡ ezva e deixou ferver uma, duas vezes. Lola sentiu água na boca com o delicioso aroma. Olhou ao redor. Ela nunca tinha visto tantos livros. As paredes do apartamento estavam forradas deles. Não era um apartamento grande, mas tudo nele tinha uma certa graça, como se sempre estivesse lá. Mesas de madeira baixas, incrustadas com madrepérola em estilo turco, sobre as quais se encontravam ainda mais livros abertos. Selins em cores neutras acentuavam o piso encerado, brilhante. O mangala era muito velho, com o cobre lustrado, e a tampa hemisférica decorada com luas crescentes e estrelas. Stela se virou e deu a Lola um delicado fildz‡ an de porcelana, também decorado com lua crescente e estrelas, no fundo da xícara. Ela ergueu o dz‡ ezva e deixou escorrer longamente o café. Lola segurou com todos dedos a xícara sem asa e sentiu o calor fragrante acariciarlhe o rosto. Enquanto bebia o café forte, olhou por cima da beira da xícara, para a jovem mulher muçulmana. Mesmo em casa, Stela deixava os cabelos amarrados, puxados para trás e presos, por baixo de uma seda branca imaculada, seu véu de seda elegantemente dobrado por cima, mas pronto para ser puxado de novo, se a modéstia assim o exigisse. A jovem era muito bonita, com seus olhos escuros e pele cor de creme. Logo notou, surpresa, que as duas deviam ter mais ou menos a mesma idade. Ela sentia uma ponta de inveja. As mãos de Stela, segurando o dz‡ ezva, eram macias e pálidas, não vermelhas e ásperas como as de Lola. Como devia ser bom ter uma vida tão tranqüila, em um apartamento tão bom, com outra pessoa para fazer as tarefas deploráveis. Lola viu, em seguida, uma fotografia emoldurada em prata da jovem mulher talvez no dia de seu casamento, embora sua expressão não demonstrasse alegria alguma. O homem ao seu lado era alto e distinto, usando um fez e uma túnica escura longa. Mas ele parecia ter o dobro da idade dela. Um casamento arrumado, provavelmente. Lola tinha ouvido dizer que a tradição albanesa exigia que a noiva permanecesse absolutamente quieta, do amanhecer até o escurecer, no dia de seu casamento, proibida de participar da celebração. Um mero sorriso era considerado imodesto e repreensível. Lola, acostumada a festejar com muita alegria até nos casamentos dos judeus mais conservadores, não podia sequer imaginar uma coisa dessas. Gostaria de saber se era verdade, ou apenas um dos boatos que as diferentes comunidades criavam uma da outra. Olhando para a fotografia, não sentiu mais inveja. Ela, pelo menos, se casaria com alguém jovem e forte. Como Mordechai. Stela viu Lola examinando a foto. — É meu marido, Serif efêndi Kamal — ela disse. Estava sorrindo agora, e ligeiramente corada. — Você o conhece? Parece que a maioria das pessoas em Sarajevo conhece. — Lola balançou a cabeça. Não havia o menor ponto de intersecção entre sua família pobre, inculta, e os Kamal, um grande e influente clã de álimes, ou intelectuais, muçulmanos. Os Kamal tinham dado à Bósnia muitos muftis, o mais alto posto religioso em uma província. Serif Kamal estudara teologia na universidade em Istambul e línguas orientais em Sorbonne, Paris. Tinha sido professor e oficial superior no ministério de questões religiosas antes de se tornar bibliotecário- chefe no Museu Nacional. Falava dez línguas e tinha escrito livros acadêmicos de história e arquitetura, embora sua especialidade fosse o estudo de manuscritos antigos. Sua paixão intelectual era a literatura que se desenvolveu no cruzamento cultural de Sarajevo: poesia lírica escrita por eslavos muçulmanos na língua árabe clássica, 66 As memórias do livro seguindo, no entanto, sonetos petrarquianos que entraram no continente provindos da corte de Diocleciano na costa da Dalmácia. Serif tinha postergado o casamento até completar seus estudos, mas acabara se casando, finalmente, apenas para calar aqueles em seu círculo que o pressionavam para isso. Ele costumava ir à casa do pai de Stela, que lhe ensinava a língua da Albânia. Seu velho professor começara a cutucá-lo por sua já prolongada vida de solteiro. Impertinente, Serif disse que só se casaria se seu professor e amigo lhe desse uma de suas filhas. Quando Serif menos esperava, já tinha uma noiva. Mais de um ano depois, ele ainda se surpreendia com a felicidade de ter aquela presença jovem e doce em sua vida. Principalmente, após ela lhe ter contado que estava grávida. Stela tinha dobrado com esmero os lençóis e as roupas sujas. Entregou-os a Lola, quase com desconfiança. Ela sempre lavara a própria roupa. Era algo que se esperava dela. Mas, com o bebê chegando, Serif tinha insistido em diminuir as tarefas domésticas da esposa. Lola apanhou o cesto, agradeceu a Stela pelo café, e seguiu seu caminho. Em uma manhã de abril, quando a neve recém-derretida liberava os primeiros perfumes da grama das montanhas, a Luftwaffe mandou uma onda após outra de bombardeiros Stuka para atacar Belgrado. Exércitos das quatro nações hostis irrompiam fronteiras adentro. Em menos de duas semanas, a Iugoslávia se rendeu. Mesmo antes desse dia, a Alemanha já tinha declarado Sarajevo parte de um novo estado. “Essa terra agora é o Ustashe e o estado independente da Croácia”, declarou o líder nomeado pelos nazistas. “Deve ser purificada dos sérvios e dos judeus. Não há espaço para eles aqui. Não sobrará pedra sobre pedra do que já pertenceu a eles.” No dia 16 de abril, as tropas alemãs entraram em Sarajevo, e nos dois dias seguintes dizimaram o setor judeu. Tudo que era de valor fora saqueado. Incêndios se alastravam, sem controle, nas velhas sinagogas. As leis antijudaicas para a “proteção do sangue ariano e da honra do povo croata” fizeram com que Lujo, o pai de Lola, perdesse seu emprego no ministério das finanças. Ele foi forçado a entrar para uma A asa de um inseto 67 brigada de trabalho com outros homens judeus, inclusive profissionais como o pai de Isak, o farmacêutico. Todos eram obrigados a usar uma estrela amarela. A irmãzinha de Lola, Dora, foi expulsa da escola. A família, sempre pobre, agora tinha que depender das poucas moedas que Lola e Rashela pudessem ganhar. Stela Kamal estava preocupada. Seu marido, geralmente tão cortês, tão interessado na condição dela, mal havia trocado seis palavras com a mulher em dois dias. Ele voltara tarde do museu, mal tocara o jantar, e havia se fechado em seu escritório. Pela manhã, falara pouco durante o desjejum, saindo cedo. Quando Stela foi arrumar o escritório, viu a mesa do marido coberta de páginas, algumas cheias de correção, com muitas frases riscadas, outras amassadas e jogadas no chão. Serif geralmente tinha um ritmo calmo de trabalho. Sua mesa estava sempre impecavelmente limpa e organizada. Quase se sentindo culpada, Stela desamassou uma das folhas jogadas no chão. “A Alemanha nazista é uma cleptocracia”, estava escrito. Ela não conhecia a palavra. “Os museus têm o dever de resistir à pilhagem da herança cultural. As perdas na França e na Polônia poderiam ter sido impedidas se os diretores dos museus não tivessem oferecido sua habilidade e seus conhecimentos para facilitar os saques dos alemães. Em vez disso, para a nossa vergonha, nós nos tornamos uma das profissões mais nazificadas na Europa...” Não havia mais nada na folha. Ela pegou outra, que estava amassada. Esta trazia um cabeçalho sublinhado: O ANTI-SEMITISMO É INACEITÁVEL PARA OS MUÇULMANOS DA BÓSNIA E HERZEGÓVINA. A página parecia conter um artigo, ou alguma espécie de carta aberta, depreciando as novas leis antijudaicas. Havia muita coisa riscada, mas Stela conseguiu ler parte das frases: “... apenas como um pára-raios usado para desviar a atenção das pessoas de seus verdadeiros problemas. [...] Oferecer ajuda aos pobres da população judaica, cujo número é muito maior que o estimado....” Stela amassou o papel e o jogou num cesto de lixo. Pressionou as juntas das mãos contra a nunca, que estava doendo um pouco. Ela nunca tinha duvidado que seu marido era o mais sábio dos homens. E não duvidava agora. Mas seu silêncio, aquelas folhas amassadas, as 68 As memórias do livro frases alarmantes... Pensou em falar com ele sobre tais coisas. O dia todo, ela ficou ensaiando o que poderia dizer. Mas, quando ele chegou em casa, ela lhe serviu o café do dz‡ ezva e não disse nada. Algumas semanas depois, começaram as prisões. No início do verão, Lujo recebeu a ordem de se apresentar para transporte até um campo de trabalho. Rashela chorou e lhe implorou que não atendesse à convocação, que fugisse da cidade, mas Lujo disse que era forte, e um bom trabalhador, e que se daria bem. Ele pôs a mão no queixo da esposa e falou: — É melhor assim. A guerra não pode durar para sempre. Se eu fugir, ele virão pegar você. — Mesmo não sendo um homem que demonstrasse sentimentos, ele a beijou, longa e ternamente, e subiu no caminhão. Lujo não sabia que não havia campos de trabalho, mas apenas lugares de fome e tortura. Antes do fim daquele ano, ele marcharia para as colinas de Herzegóvina, onde a cal é devorada em um labirinto de buracos de minhocas. Lá, os rios desaparecem, entrando por cavernas subterrâneas, subitamente vindo a borbulhar a muitos quilômetros de distância. Com outros homens marcados por hematomas e muito magros — judeus, ciganos, sérvios —, Lujo se encontrava na beira de uma caverna profunda cujo chão ele não conseguia ver. Um guarda do Ustashe bateu-lhe na parte de trás dos joelhos e o empurrou abismo abaixo. Eles vieram buscar Rashela quando Lola estava fora, entregando roupas recém-passadas. Os soldados tinham listas com os nomes de todas as mulheres judias cujos maridos e filhos já haviam sido deportados. Agruparam-nas em caminhões e as depositaram na sinagoga em ruínas. Quando Lola voltou, sua mãe e irmãzinha tinham desaparecido, a porta estava aberta e seus poucos objetos pessoais se encontravam jogados por toda parte, numa vã tentativa de se encontrar algo de valor. Ela correu até o apartamento de sua tia, algumas ruas distante dali, e bateu até sentir dor nas juntas. Uma vizinha muçulmana, uma mulher gentil que ainda usava o tradicional xador, abriu a porta e deixou Lola entrar. A mulher lhe deu água e contou o que tinha acontecido. A asa de um inseto 69 Lola lutou contra o pânico que lhe esvaziava a mente. Ela tinha que pensar. O que deveria fazer? O que poderia fazer? A única idéia que lhe ocorria em meio à confusão era que precisava encontrar sua família. Ela se virou, decidida a ir embora. A vizinha segurou-a pelo braço. — Você será reconhecida lá fora. Leve isto. — Ela deu a Lola um xador. Lola colocou o manto e partiu para a sinagoga. A porta da frente, rachada por golpes de machadinha, estava despregada do batente. Havia guardas lá; então Lola andou sorrateiramente até o lado do edifício, à sala pequena onde os sidurim eram guardados. A janela fora quebrada. Ela puxou um pedaço de vidro partido do suporte da janela, enfiou o braço e puxou o fecho. A estrutura da janela, sem o vidro, tombou para dentro. Lola se forçou para entrar pelo menos até a soleira. A pequena sala estava em total desordem, as prateleiras, arrancadas e os livros de orações espalhados por todo o chão. Havia um fedor no local. Alguém havia defecado sobre as páginas dos livros. Com os braços fortes de tanto levantar roupas molhadas, Lola içou o próprio corpo até encostar as costelas na soleira. Batendo os pés, esperneando, com o parapeito chumbado da janela raspando contra suas roupas, ela conseguiu se espremer e passar pela abertura, pulando para dentro com o maior cuidado possível. Uma vez lá dentro, forçou até rachar e abrir a pesada porte de madeira polida. Um cheiro pungente, de medo e suor, de papel queimado e urina, permeava o santuário deflagrado. A arca que havia abrigado a antiga Torá, trazida em segurança da Espanha tantos séculos atrás, estava escancarada, enegrecida pelas chamas. Os bancos danificados e os corredores cheios de cinza estavam tomados por mulheres entristecidas, velhas, jovens, algumas tentando consolar seus bebês, cujo choro era amplificado pela alta cúpula de pedra da sala. Outras, recurvadas, apoiavam a cabeça nas mãos. Lola andou devagar entre a multidão, tentando não chamar atenção para si. Sua mãe, sua irmãzinha e a tia estavam juntas, encolhidas num canto da sala. Ela chegou por trás da mãe e colocou delicadamente a mão sobre seu ombro. Rashela, pensando que Lola fora presa também, gritou. Lola fez sinal para ela se calar, e disse, com urgência: 70 As memórias do livro — Há uma saída, por uma janela. Foi por lá que eu entrei. Nós podemos fugir, todas. A tia de Lola, Rena, levantou os braços rechonchudos, num gesto de derrota que indicava o estado de seu corpo. — Eu não, minha querida menina — ela disse. — Meu coração não está bem. Estou sem fôlego. Não vou a lugar algum. Lola, exasperada, sabia que a mãe não abandonaria sua amada irmã mais velha. — Eu posso ajudá-la — ela insistiu. — Por favor, vamos tentar. O rosto de sua mãe, sempre marcado por sinais de preocupação, parecia ter adquirido as rugas profundas de uma mulher muito mais velha. Ela balançou a cabeça e disse: — Lola, eles têm listas. Perceberiam nossa falta nos caminhões. E, além do mais, para onde iríamos? — Podemos ir para as montanhas — Lola disse. — Eu conheço os caminhos, há cavernas onde podemos nos abrigar. Chegaríamos às aldeias dos muçulmanos. Eles nos ajudarão, a senhora vai ver... — Lola, os muçulmanos estavam aqui na sinagoga, também. Eles atearam fogo e quebraram as coisas, pilharam e comemoraram, como os Ustashe. — Só alguns deles, os arruaceiros. — Lola, querida. Eu sei que você tem boa intenção, mas Rena está doente, e Dora é muito pequena. — Mas nós conseguiremos. Acredite em mim, eu conheço as montanhas, eu… Rashela segurou com força o braço da filha. — Eu sei que você conhece. Todas aquelas noites no Hashomer, eu espero que lhe tenham ensinado alguma coisa. — Lola arregalou os olhos. — Você achava mesmo que eu estava dormindo? Não. Eu queria que você fosse. Não sou como seu pai, preocupado com sua honra. Eu sei que você é uma garota modesta. Mas agora eu quero que você saia deste lugar. Sim — ela disse, com firmeza, enquanto Lola balançava a cabeça. — Eu sou sua mãe, e nisso você deve me obedecer. Vá. O meu lugar é aqui com Dora e minha irmã. — Por favor, mamãe, por favor, deixe-me ao menos levar Dora. A asa de um inseto 71 Sua mãe balançou a cabeça. Ela estava se esforçando para segurar as lágrimas. A pele já começava a ficar manchada com o esforço. — Sozinha, você tem mais chance. Ela nunca conseguiria acompanhá- la. — Eu posso carregá-la… Dora, agarrada à mãe, olhou para uma, depois para outra das pessoas que ela mais amava, e, percebendo que o resultado da discussão seria a perda de uma delas, começou a chorar. Rashela a acariciou e olhou em volta, esperando que o barulho não atraísse a atenção dos guardas. — Depois da guerra, nós nos reencontraremos. Ela estendeu as duas mãos até o rosto de Lola e acariciou-lhe as faces. — Vá agora — disse. — Permaneça viva. Lola deslizou as mãos pelos cabelos, puxando com força os fios embaraçados, até doer. Em seguida, aproximou-se da mãe e da irmã e abraçou-as com força. E beijou sua tia. Depois se virou e saiu cambaleando entre a multidão de corpos vergados, esfregando os olhos com a palma da mão. Quando chegou à porta do depósito, esperou até os guardas desviarem o olhar para outro ponto, antes de abrir a porta e entrar. Ela descansou as costas contra a porta, limpando o nariz com a manga da blusa. Ao baixar o braço, uma pequena mão branca o tocou. Era de uma menina com uma expressão de fada no rosto, olhos grandes por trás de óculos grossos, e um dedo apertando com firmeza os lábios. Ela puxou Lola para baixo, com força, e apontou para uma janela. Lola viu a forma de um capacete alemão e o cano de um rifle passando pela janela quebrada. — Eu sei quem você é — sussurrou a garota, que parecia ter nove ou dez anos de idade. — Você ia ao Hashomer com meu irmão, Isak. Eu pretendia ir este ano... — Onde está Isak? — Lola sabia que ele tinha sido expulso da universidade. — Foi levado para o trabalho forçado? A menina balançou a cabeça. — Eles levaram papai, mas Isak está com os partidários. Há outros do seu grupo, também. Maks, Zlata, Oskar... talvez mais, agora. Isak não quis me levar com eles porque sou muito nova. Eu disse que 72 As memórias do livro podia levar mensagens. Posso espionar. Mas ele não quis saber. Disse que seria mais seguro eu ficar com os vizinhos. Mas estava enganado. Ele precisa me levar agora, porque aqui só há morte. Lola estremeceu. Uma criança daquela idade não devia dizer aquilo. Mas ela estava certa. Lola tinha visto a morte nos rostos das pessoas que ela amava. Lola observou a irmãzinha de Isak. Uma criancinha, não muito maior que Dora. Seu rosto, porém, era animado pela mesma intensa preocupação que o de seu irmão. — Não sei — Lola disse. — Vai ser uma caminhada dura, e perigosa, sair da cidade... Acho que o seu irmão... — Se você quer saber onde ele está, tem que me levar. Senão, eu não falo. E, seja como for, eu tenho isso. A criança enfiou a mão debaixo do bibe e tirou uma Luger* alemã. Lola ficou boquiaberta. — Onde você arrumou isso? — Roubei. — Como? — Quando eles vieram para nos tirar de casa, eu forcei o vômito em cima do soldado que estava me carregando até o caminhão. Eu tinha comido guisado de peixe, e ficou nojento. Ele me largou e xingou. Enquanto tentava se limpar do vômito, eu arranquei isso do coldre dele e corri. Estava me escondendo naquele prédio onde mora a sua tia. Segui você até lá. Eu sei onde meu irmão está, mas não sei chegar lá. Você me leva ou não? Lola sabia que aquela criança obstinada, manhosa, não se deixaria enganar nem convencer a revelar onde Isak e os outros estavam. Gostasse ou não da idéia, elas precisavam uma da outra. Assim que começou a escurecer, elas escapuliram pela janela e desapareceram nos becos da cidade. Por dois dias, Lola e Ina dormiram em cavernas e se esconderam em celeiros, roubando ovos e comendo-os crus, até chegarem ao terri- * Pistola militar fabricada na Alemanha. (N. do T.) A asa de um inseto 73 tório dos partidários. Isak tinha dado a Ina o nome de um fazendeiro, um senhor idoso com o rosto enrugado e grandes mãos nodosas. Ele não fez perguntas. Abriu a porta do chalé e as deixou entrar. Sua esposa, chocada e reclamando do cabelo imundo das meninas e de seus rostos sujos, ferveu água em uma grande chaleira preta e a despejou em duas tigelas, para as meninas se lavarem. Em seguida, ela colocou uma suculenta caçarola de carneiro com batatas e cenouras na frente delas, a primeira refeição decente que iriam ter desde que tinham fugido da cidade. A mulher tratou as bolhas nos pés das meninas com pomada e colocou-as na cama por dois dias, antes de deixar seu marido levá-las ao acampamento dos partidários na montanha. Lola se sentia gratificada pela comida e pelo repouso, enquanto faziam uma exaustiva escalada sobre rochas quase verticais. Enquanto subia, começava a se dar conta da realidade de sua situação. Tinha pensado, a princípio, apenas em sair da cidade. Não se sentia suficientemente corajosa para ser uma lutadora da resistência. O que uma lavadeira podia fazer de útil? Havia rumores de ataques dos partidários às linhas férreas e pontes, e terríveis relatos de partidários feridos, capturados pelos nazistas. Havia uma história sobre homens feridos estendidos na estrada enquanto os alemães passavam com um caminhão por cima e de volta sobre seus corpos. Lola se agarrou a um sedimento protuberante e se ergueu sobre a rocha, com os pensamentos ocupados com aquelas histórias aterradoras. Quando chegaram a uma ampla serrania, onde o solo era plano e a grama e o musgo cresciam em montículos, como almofadas, ela se jogou no chão, exausta. De repente, uma figura vestida de cinza emergiu por detrás de algumas árvores baixas, à frente deles. O uniforme era alemão. O fazendeiro se estendeu no chão e apontou a espingarda. E então ele riu, levantou-se, e abraçou o rapaz. — Maks! — gritou Ina. Ela correu em direção ao jovem, e ele a levantou nos braços. Maks era um dos melhores amigos de Isak. Ina colocou o dedo no lugar onde a insígnia nazista fora arrancada de seu uniforme. No lugar, havia uma mal costurada estrela de cinco pontas, o emblema da resistência. — Olá, irmãzinha de Isak. Olá, Lola. Então vocês são nossas novas partidárias? 74 As memórias do livro Maks esperou até as meninas agradecerem ao fazendeiro e se despedirem. Então, ele as conduziu pela serrania até uma construção de só um andar, feita com vigas pesadas, pinos de madeira e reboco. Lola reconheceu Oskar, sentado na grama quentinha, recostado contra a parede. Havia dois meninos que ela não conhecia, espreguiçando- se ao lado dele. Todos estavam ocupados tirando piolhos dos casacos, dois dos quais eram uniformes alemães, e o outro fora confeccionado de um cobertor cinza. Passando pelos garotos, Maks conduziu Lola e Ina através do chiqueiro que formava a entrada da única porta da casa. A porta se abria para a cozinha. Um telhado longo, colmado, na parte da frente da casa abria espaço no alto para um sótão, que podia ser alcançado por uma escada. — É um bom lugar para dormir — disse Maks. — Quente. Um pouco enfumaçado. — O piso da cozinha era feito de terra batida, parcialmente coberto de tijolos, e sobre ele ardia um fogo aterrado. A fumaça subia direto até as vigas e saía pelo espaço no colmo. Não havia chaminé. Uma corrente pesada segurava as panelas sobre o fogo. Lola viu várias tinas de água perto da porta. Atrás delas, havia dois cômodos com piso de madeira, com tábuas. Um continha um pec, ou um forno de cimento. Lola viu os mastros para secar roupa suspensos sobre ele e assentiu com a cabeça, aprovando o arranjo. Seria possível deixar a roupa secar mesmo em dias úmidos ou com neve, quando não se podia pendurá-la lá fora. — Bem-vindas ao quartel-general de nossa odred* — Maks disse. — Somos apenas dezesseis... dezoito agora, contando com vocês, se o comandante as aceitar. Nove de nós nos conhecemos de Hashomer. Os demais são camponeses locais. Bons garotos e garotas, mas jovens. Embora não tão jovens quanto você — ele acrescentou, fazendo cócegas em Ina, que riu. — Seu irmão ficará surpreso. Ele é o segundo em comando da odred. Nosso comandante, Branko, é de Belgrado. Era líder estudantil secreto do Partido Comunista lá. * Odred: literalmente, “esquadra voadora”; uma esquadra, ou esquadrão. Neste caso, grupo de resistência. (N. do T.) A asa de um inseto 75 — Onde eles estão? — Lola perguntou. Apesar dos modos gentis de Maks, as palavras “se o comandante as aceitar” a encheram de temor. Por mais medo que tivesse de ser uma partidária, atemorizava- a ainda mais a idéia de ser mandada de volta à cidade mortal. — Foram pegar uma mula. Logo estaremos nos mudando daqui. Precisaremos de uma mula para carregar nossos suprimentos quando partirmos em missão. Da última vez, os explosivos e detonadores que tivemos de carregar ocuparam todo o espaço em nossas mochilas. Ficamos sem comida na metade do caminho até a seção dos trilhos que queríamos explodir. Passamos dois dias sem uma casca de pão. A ansiedade de Lola aumentava com as palavras de Maks. Ela nada sabia sobre explosivos ou armas. Olhou em volta da cozinha, e finalmente viu uma coisa que sabia fazer. — Essa água, eu posso usar? — ela perguntou. — Claro — disse Maks. — Há uma fonte a menos de dez jardas daqui. Use o quanto quiser. Lola encheu a maior das chaleiras pretas e a pendurou sobre o fogo. Atiçou as chamas e colocou um pouco de madeira. Então, saiu da casa. De pé, ela olhou para Oskar e os dois garotos que não conhecia. Nervosa, esfregou o pé sobre a grama. — O que foi, Lola? — Oskar perguntou. Ela sentiu o rosto corar. — Vocês não querem… não querem me dar seus casacos e calças? Os meninos se entreolharam e riram. — Bem que nos disseram que as garotas de Sarajevo eram rápidas! — um deles disse. — Vocês não conseguem se livrar dos piolhos, pegando-os. — Lola falou rápido. — Eles se escondem nas costuras, e não dá para tirá-los de lá. Se eu ferver as roupas, eles morrem. Vocês vão ver. Os jovens, dispostos a fazer qualquer coisa para acabar com a coceira infernal, entregaram suas roupas a ela, cutucando-se um ao outro e brincando na grama, como cachorrinhos. — Dê a ela suas roupas de baixo! — Nem em sonho! 76 As memórias do livro — Bem, eu vou dar. Não adianta tirar os piolhos do casaco se eles continuarem correndo pelos testículos! Pouco depois, Lola estava pendurando as roupas fervidas — casacos, calças, meias e roupas de baixo — sobre os arbustos, quando Branko e Isak surgiram por trás das árvores, trazendo uma mula carregada de sacos. Branko era um rapaz alto, austero, com cabelos escuros e olhos que pareciam sempre semicerrados, numa expressão de ceticismo. Isak mal chegava aos ombros dele. Mas Lola notou, enquanto ele abraçava sua irmãzinha, que o menino parecia mais forte no peito e nos braços do que em seus dias de estudante. Seu rosto havia perdido aquela palidez de falta de sol e ele estava até um pouco bronzeado. Parecia feliz por ver Ina; Lola teve a impressão de que seus olhos estavam um pouco úmidos. Mas, dali a pouco, ele já estava questionando a irmã para ter certeza de que ela não tinha dado nenhum passo em falso, que revelasse a posição deles. Satisfeito, ele se voltou para Lola: — Obrigado por trazê-la. Obrigado por vir. Lola sacudiu os ombros, sem saber o que dizer. Não tivera muita escolha, mas não queria dizer isso na frente de Branko, que decidiria se ela podia ficar ou não. Quanto à pequena Ina, parecia ter utilidade para eles. Uma criança podia passear pela cidade sem ser notada, observando as atividades do inimigo. A utilidade de Lola era menos clara para Branko, e a apresentação de Isak não ajudou. — Lola é uma camarada de Hashomer Haza’ir — Isak disse a Branko. — Ela vinha a todas as reuniões. Bem, a quase todas. É uma boa andarilha... — Nunca tendo prestado atenção a Lola, Isak não tinha mais o que dizer para recomendá-la ao seu comandante. Branko fixou os olhos semicerrados em Lola, até ela sentir o rosto queimar. Ele ergueu uma ponta de um casaco que ela havia estendido para secar. — E uma boa lavadeira — ele disse. — Infelizmente, não temos tempo para esses luxos. — Piolhos! — ela mal conseguia falar. — Eles transmitem tifo — disse apressada, antes de perder de vez a coragem. — Em caso de infestação, você... você tem que ferver todas as roupas e panos, pelo A asa de um inseto 77 menos uma vez por semana... para... matar os ovos... senão, toda a odred pode ficar infectada. — Mordechai tinha lhe ensinado isso. Era o tipo de informação prática que Lola compreendia e se lembrava. — Então — disse Branko —, você sabe alguma coisa. — Eu… eu… sei como amarrar uma fratura, e estancar hemorragia, e tratar de mordidas e picadas… posso aprender… — Bem que precisamos de cuidados médicos. — Branko continuava olhando para ela, como se, com isso, pudesse avaliar suas habilidades. — Isak tem se encarregado disso, mas ele tem outras responsabilidades pesadas. Ele poderia lhe ensinar o que sabe, talvez. E, depois, se você se der bem, podemos enviá-la a um dos hospitais secretos para aprender a tratar feridas. Vou pensar nisso. Ele se virou, e Lola respirou aliviada. De repente, ele pareceu reconsiderar, e mais uma vez voltou os olhos azuis para ela. — Enquanto isso, nós precisamos de muladeiro. O que você sabe de mulas? Lola poderia dizer que nem sabia qual era a frente ou o traseiro da mula. Mas temia que Isak a achasse imbecil demais para ser médica. Ela olhou para o animal, que estava comendo grama. Aproximouse da mula e levantou as correias, no ponto onde elas tinham lhe cortado a pele. Estava em carne viva e sangrando. — Eu sei que é preciso colocar um pano embaixo da sela, quando se usa uma carga pesada assim — ela disse —, se você quiser que o animal trabalhe para você. — Ela abriu os sacos e começou a tirar vários pacotes, levando-os para dentro da casa. Quando Oskar se aproximou para ajudá-la, ela balançou a cabeça. — Pode deixar — disse. E sorriu, tímida. — Na minha família, eu era a mula. Todos riram, inclusive Branko. Nada mais precisou ser dito, e Lola entendeu que fora aceita como membro da odred. À noite, em volta do pec, enquanto Branko falava aos outros de seus planos, as dúvidas de Lola retornaram. Branko era um zelote. Em Belgrado, ele tinha sido interrogado e surrado por seu ativismo político. Falou de Tito e de Stalin, e do dever que eles tinham de seguir aqueles dois gloriosos líderes, sem questionar. — Sua vida não é mais sua — ele disse. — Cada dia extra que vocês vivem pertence 78 As memórias do livro àqueles de sua família que morreram. Nós veremos nosso país livre, ou também morreremos. Não há outro futuro para nós. Mais tarde, deitada sobre sua paleta dura, e ainda acordada, Lola se sentia perdida e sozinha, com saudade do gostoso calor das costas pequenas de Dora. Ela não queria aceitar a verdade do que dissera Branko, que sua família estava morta. O vazio que ela sentia por dentro, no entanto, deixava pouco espaço para esperança. A fuga da cidade e a corrida pelo campo lhe haviam ocupado a mente. Mas agora, ouvindo roncos de estranhos, ela sentia uma dor profunda. Daquele momento em diante, tudo que ela fizesse seria como se andasse em meio a um nevoeiro. Nos dias seguintes, Lola pensou na mula. Ela podia fazer muito pouca coisa com o animal que já não tivesse sido feito. A primeira vez que ficou encarregada de levar o animal até determinado ponto para pegar suprimentos, a mula se rebelou contra o peso e jogou tudo sobre uma plantação de amoreira-preta. Lola precisou se livrar dos espinhos para recolher as caixas de munição, debaixo dos palavrões de Branko desferidos contra ela, como golpes. Todos os dias, Lola se aproximava da mula com cuidado, passando pomada do suprimento limitado do grupo sobre sua ferida aberta, enquanto o animal relinchava e zurrava, como se estivesse apanhando. Aos poucos, a ferida cicatrizou. Lola costurou pequenas almofadas para colocar debaixo da sela. Além disso, ela fez uma estrutura em forma de A, com ramos leves de salgueiro, para distribuir melhor a carga. Em marchas longas, ela pedia que eles deixassem a mula parar um pouco para pastar quando chegavam a uma plantação de erva-doce ou cravo. Maltratada, a mula se comportava mal. Mas começou a corresponder aos cuidados de Lola, e logo passou a se esfregar nela, mostrando afeição. Lola gostava de acariciar as orelhas sedosas do animal. Ela lhe deu o nome de Vermelha, por causa do tom vermelho-alaranjado de seu pêlo, e também porque o vermelho era a cor do movimento partidário. Lola percebeu rapidamente que, a despeito de toda a conversa de Branko, a odred dele não era uma grande força armada. Com exceção do próprio Branko, só Isak e Maks tinham armas Sten. Os A asa de um inseto 79 garotos e as moças das fazendas haviam chegado com uma espingarda cada um. O comandante da brigada prometeu mais armas, mas após cada contratempo parecia que a odred tinha outras necessidades mais prementes. Oskar era quem mais reclamava disso, até que Branko lhe disse que, se ele queria tanto uma arma, devia capturar uma. — Ina fez isso, e só tem dez anos de idade — ele disse, em provocação. Naquela noite, Oskar saiu do acampamento. Só retornou no dia seguinte. Lola ouviu Isak repreender Branko: — Você o encorajou a fazer uma coisa tola. Como ele pode capturar uma arma, se não tem uma arma para usar? Branko deu de ombros. — Sua irmã fez isso. Ele tinha se apoderado da Luger de Ina, e a carregava agora na cintura, com certa pompa. À noite, Lola estava ajudando Zlata a pegar lenha para cozinhar, quando Oskar chegou esbaforido entre as árvores, com um sorriso tão grande quanto o de um palhaço de circo. Sobre o ombro, ele trazia um rifle alemão. Vestia um uniforme cinza, largo, muitos números maior que o seu tamanho, e carregava uma mochila nazista que transbordava de suprimentos. Ele se recusou a contar a história de seu triunfo até que Branko, Isak e o restante da odred estivessem reunidos. Enquanto distribuía fatias de salsicha alemã, contou que tinha entrado sorrateiramente na aldeia próxima, ocupada, e se escondido entre os arbustos à beira da estrada. — Tive que ficar deitado lá quase o dia todo, vendo os alemães indo e vindo — falou. — Havia sempre dois ou três, andando juntos. Por fim, apareceu um sozinho. Esperei até ele passar. Saltei do meio dos arbustos, encostei com força uma vareta em suas costas, entre os ombros, e gritei: “Stoi!”. O imbecil acreditou mesmo que eu estava armado. Levantou as mãos. Eu peguei sua arma, e disse para tirar toda a roupa, menos a cueca. A essa altura todos se contorciam de tanto rir, exceto Branko. — E, então, você deu um tiro nele — sua voz soou ríspida e fria. 80 As memórias do livro — Não, eu... não achei necessário... Ele estava desarmado... eu pensei... — E, amanhã, ele estará armado novamente, e no dia seguinte matará um camarada seu. Tolo sentimental. Dê a arma a Zlata. Ela saberá como usá-la. Lola não podia ver o rosto de Oskar, no escuro. Mas sentia sua raiva silenciosa. Na noite seguinte, a odred recebeu ordens de ajudar a reforçar a segurança de um ponto de descida e limpar a área. A tarefa de Lola era deixar a mula quieta e calma, pronta para carregar armas, rádios ou equipamentos que desceriam em pára-quedas. Enquanto a odred se escondia pouco atrás da fileira de árvores, partidários de outra odred, trabalhando sob a direção de um estrangeiro — um espião britânico, alguém tinha dito —, preparavam mato seco e faziam mecha para acender pequenas fogueiras como sinais que fossem vistos do alto, dispostos em uma clareira de um modo predefinido para que os pilotos aliados reconhecessem. Lola tremia de medo e de frio. Recostou-se contra o pêlo grosso de Vermelha, procurando se aquecer. Ela não tinha arma, exceto a granada que os partidários eram obrigados a carregar no cinto. — Se você estiver prestes a ser capturada, use-a para se matar e matar o maior número de inimigos que puder — Branko tinha dito. — Sob hipótese alguma, se deixe ser levada viva. Use a granada, e assim não será forçada por meio de tortura a nos trair. A lua ainda não aparecera. Lola olhou para o alto, procurando a luz das estrelas. Mas a folhagem densa das árvores lhe negava até isso. Sua imaginação estava cheia de alemães espreitando no escuro, esperando pelo momento de atacá-los em emboscada. A noite se arrastava. Pouco antes do amanhecer, o vento ficou mais forte, agitando os galhos dos pinheiros. Branko decidiu que a operação deveria ser abortada, e deu um sinal a Lola, para que se preparasse para sair de lá. Cansada, dura de frio, Lola se pôs de pé, e arrumou o cabresto de Vermelha. Nesse exato momento, o discreto ruído de um avião se fez ouvir a distância. Branko gritou, dando a ordem de que os fogos fossem acesos. O sinal de Isak não pegava. Ele xingou e persistiu. Lola não se achava corajosa. Não diria que o sentimento que a dominava agora era de coragem. Só sabia que não podia deixar Isak lá, exposto, se A asa de um inseto 81 esforçando sozinho. Ela correu entre as árvores e até a clareira. Jogouse ao chão, rente à fogueira, soprando com força sobre a mecha recalcitrante. Uma chama surgiu bem no instante em que a silhueta escura do Dakota se tornava visível, no céu acima de suas cabeças. O piloto fez uma volta de reconhecimento e em seguida soltou uma verdadeira chuva de pacotes, cada um com seu pequeno pára-quedas. Os partidários avançaram de dentro da floresta ao redor da clareia, correndo para pegar a preciosa carga. Lola cortou as cordas do pára-quedas e enrolou a seda, que ela usaria depois para fazer bandagens. As odreds trabalharam rápido, pois o céu começava a clarear no leste. Ao romper da manhã, Lola andava com dificuldade ao longo da estreita beira da serrania, com Vermelha caminhando obedientemente ao seu lado, carregando a carga, enquanto todos tentavam aumentar a distância entre si e o ponto de descida, antes que os alemães chegassem ao local. Sempre que passavam por um riacho, Branko ordenava a Maks que entrasse na água para virar as pedras cobertas de musgo. Depois que toda a odred tivesse passado, as pedras eram viradas novamente para sua posição original, com o musgo intacto, sem marcas de botas ou do casco da mula. A odred de Lola passou sete meses de contínua mudança, raramente acampando no mesmo lugar mais que uma ou duas noites, planejando demolições de trilhos férreos ou de pequenas pontes. Vários fazendeiros lhes ofereciam abrigo à noite em seus celeiros, onde dormiam aquecidos, perto de animais, usando a palha como travesseiro. Mas, em outras ocasiões, eles acampavam na floresta, só com um cobertor improvisado de pinhos como proteção contra o frio implacável. Embora nunca estivessem a mais de oito quilômetros do posto inimigo mais próximo, a odred deles conseguiu escapar de emboscadas das quais outras unidades não se livraram. Branko se gabava disso, como se fosse o resultado de sua liderança. Ele esperava ser servido e reverenciado como um general. Em uma ocasião, no fim de uma exaustiva marcha, ele se deitou, recostando-se contra uma árvore, enquanto todos os outros se apressavam em apanhar madeira seca para fazer fogo antes de serem engolidos pela escuridão. Oskar, jogando um feixe pesado de ramos ao lado de Branko, ainda deitado, resmungou algo sobre como os comunistas supostamente acabariam com o privilégio elitista. 82 As memórias do livro Branko se levantou imediatamente. Agarrou Oskar pelo peito, puxando-lhe o uniforme, e o empurrou com força contra o tronco de uma árvore. — Vocês, crianças mimadas, têm sorte por eu ser o líder. Deveriam me agradecer todos os dias por mantê-los vivos. Isak se colocou entre os dois e delicadamente afastou Branko. — O que nos mantém vivos — ele disse, em voz baixa — não é sorte, nem a sua excelente liderança. É a lealdade da população civil. Nós não duraríamos cinco minutos aqui sem o apoio deles. Por um momento, parecia que Branko ia bater em Isak. Mas conseguiu se conter, e deu um passo atrás, cuspindo no chão, em desprezo. Lola já tinha sentido a impaciência crescente de Isak com Branko. Ela sabia que ele deplorava os incessantes discursos de Branko, tarde da noite, mesmo depois de longas marchas, quando os jovens exaustos preferiam dormir a escutar a eterna exegese sobre valor excedente e falsa consciência. Isak tentava encerrar as arengas políticas, mas, muitas vezes, Branko se estendia, em oblívio. A maior frustração estava na diferença entre o autoconceito de Branko e a má opinião que o comandante da brigada tinha dele. Branko prometera armas melhores, mas elas ainda não tinham aparecido. Ele disse a Lola que ela passaria por um treinamento hospitalar, que nunca aconteceu. Mesmo assim, ela se sentia útil como muladeira, e o próprio Branko, econômico nos elogios, de vez em quando a parabenizava. Com a proximidade do inverno, muitos adoeciam. A tosse provocada pela umidade se tornara a cantiga matinal. Lola pedia cebolas aos fazendeiros para fazer cataplasmas. Isak lhe mostrara como preparar os ingredientes para expectorantes, que ela administrava com destreza. Ela propôs uma redistribuição da comida racionada, de modo que aqueles que estavam se recuperando recebessem mais. Branko prometeu levá-los a acampamentos de inverno, mas as semanas passavam e a odred continuava acampada nas cruéis montanhas. O número de partidários diminuía. Zlata, doente havia várias semanas, sofrendo de uma violenta infecção no peito, foi acolhida por uma família de camponeses local e morreu lá, em uma cama quente, ao menos. Oskar, cansado das dificuldades e da constante má vontade de Branko, deA asa de um inseto 83 sertou no meio da noite, levando consigo Slava, uma das garotas que viera das fazendas. Lola se preocupava com Ina. A criança tinha a mesma tosse aguda que a maior parte da odred. Mas, quando mencionou a Isak a possibilidade de encontrar um abrigo de inverno para ela, ele descartou a idéia. — Primeiro, ela não iria. Depois, eu não lhe pediria isso. Prometi a ela que nunca mais a deixaria. É simples assim. Em um dia de forte borrasca, no começo de março, Milovan, o comandante regional da brigada, convocou os membros restantes da odred para uma reunião. Assim que os adolescentes adoentados, magros, se reuniram à sua volta, ele começou a falar. Tito, disse Milovan, tinha uma nova visão para o seu exército. Deveria ser consolidado em unidades fortes, profissionais, que abordariam os alemães diretamente. As forças inimigas seriam forçadas a retroceder às cidades, suas fileiras, rompidas, até que fosse obtido o controle partidário da zona rural. Lola, com um cachecol enrolado em volta da cabeça e o gorro puxado por cima das orelhas, achou que não tinha entendido o que o coronel havia dito em seguida. Mas a expressão de perplexidade no rosto dos outros confirmava o que ela acreditara ter ouvido. A odred deles deveria ser desmanchada, imediatamente. — O marechal Tito agradece a todos pelo serviço, que será lembrado no glorioso dia da vitória. Agora, aqueles de vocês que tiverem armas, por favor, coloquem-nas em uma pilha, para as coletarmos. Você, garota da mula, se encarregará de carregá-las. Partiremos amanhã. Vocês devem esperar até a noite, antes de sair. Todos olharam para Branko, esperando que dissesse alguma coisa. Mas ele baixara a cabeça contra o vento e a neve, e se mantivera calado. Foi Isak quem protestou. — Senhor, posso perguntar para onde o senhor propõe que nós sigamos? — Vocês podem ir para casa. — Casa? Que casa? — Isak já estava gritando. — Nenhum de nós tem mais casa. A maior parte de nossas famílias foi assassinada. Nós somos marginais, agora. O senhor não espera realmente que caminhemos desarmados até as mãos do Ustache! — Ele se virou para Branko. — Diga isso a ele, diabos! 84 As memórias do livro Branko ergueu a cabeça e olhou friamente para Isak. — Você ouviu o coronel. O marechal Tito disse que não há mais lugar para bandos de crianças maltrapilhas carregando varetas e rojões. Agora, nós somos um exército profissional. — Ah, entendo! — a voz de Isak estava carregada de desprezo. — Você pode ficar com a sua arma, a arma que minha irmãzinha, uma “criança maltrapilha”, arrumou para você. E o resto de nós recebe a pena de morte! — Silêncio! — Milovan levantou a mão enluvada. — Obedeça às ordens, e seu serviço será recompensado no futuro. Desobedeça, e serão fuzilados. Lola, mortificada e confusa, colocou a carga sobre Vermelha, como fora ordenada a fazer. Com os poucos rifles e o saco de granadas devidamente atrelados com segurança, ela segurou o focinho macio da mula com as duas mãos, olhou-a nos olhos, e disse: — Fique segura, amiga — sussurrou. — Você, pelo menos, tem alguma utilidade para eles. Espero que a tratem com mais lealdade e atenção do que a nós. Ela deu o cabresto ao ajudante de Milovan e lhe entregou um saco onde guardava uma preciosa quantidade de aveia. Ele olhou dentro do saco e, pela expressão em seu rosto, Lola percebeu que dificilmente Vermelha veria a aveia de novo, antes que o precioso alimento esquentasse a barriga do ajudante. Ela, então, enfiou as mãos enluvadas no saco e tirou duas generosas porções. O hálito úmido de Vermelha aqueceu suas mãos por um momento. Antes de o animal desaparecer entre vento e neve, sua saliva havia se congelado em suas luvas de lã. Ela notou que Branko não olhou para trás. O grupo dos remanescentes se reuniu em torno de Isak, esperando que ele lhes oferecesse um plano. — Acho que o melhor é nos dividirmos em pares ou grupos pequenos — Isak disse. Sua intenção era procurar território liberado. Lola se sentou em silêncio, enquanto a discussão passava de um para outro, em torno da fogueira. Alguns queriam ir para o sul, para áreas ocupadas pelos italianos. Outros diziam que procurariam o auxílio de membros distantes da família. Lola não tinha ninguém, e a idéia de fazer uma A asa de um inseto 85 jornada incerta a uma cidade desconhecida no sul a assustava. Ela esperou até alguém lhe perguntar quais eram seus planos, e lhe oferecer um lugar ao seu lado. Mas ninguém disse nada. Era como se ela já não existisse mais. Quando se levantou e saiu do círculo, ninguém lhe desejou boa-noite. Lola encontrou um lugar num canto da clareira e se deitou, agitada. Tinha enrolado seus pertences e amarrado os pés em camadas de tecido que havia guardado para fazer bandagens. Estava deitada, com os olhos fechados, mas não dormia, quando sentiu os firmes olhos castanhos de Ina voltados para ela. A criança estava envolta em seu cobertor, como se fosse um casulo. Estava usando um chapéu de lã, que puxara apertado sobre a testa, de modo que os olhos eram o único traço visível. Lola só percebeu que tinha adormecido quando sentiu a mãozinha de Ina sacudindo-a. Ainda estava escuro, mas Ina e Isak estavam de pé, com suas mochilas já prontas. Ina põs a mão sobre a boca, pedindo para a outra ficar quieta, e estendeu a outra mão a Lola, ajudando- a a se levantar. Com dificuldade, ela enrolou o cobertor e o enfiou na mochila com seus parcos suprimentos; e seguiu Ina e seu irmão. Os detalhes dos dias e noites que se seguiram voltariam a Lola em sonhos. Mas, enquanto estava acordada, eles nada mais eram que um borrão misto de dor e medo. Os três andavam no escuro e se escondiam durante as curtas horas do dia, dormindo pouco e mal quando encontravam um celeiro ou uma pilha de feno para se abrigarem, acordando assustados ao som de cães latindo, pois poderiam ser de uma patrulha alemã. Na quarta noite, a febre de Ina piorou. Isak teve de carregá-la, tremendo, suando, murmurando em delírio. Na quinta noite, a temperatura caiu. Isak tinha dado suas meias a Ina, e a enrolara em seu casaco, numa vã tentativa de parar os tremores. Na metade do caminho, em uma de suas marchas noturnas, logo depois de terem atravessado um rio congelado, ele parou e se sentou sobre os pinhos enrijecidos e frios. — O que foi? — Lola sussurrou. — Meu pé. Eu não sinto — Isak disse. — Em um lugar de gelo fino, meu pé mergulhou, ficou molhado; e agora está duro. Não posso mais andar. 86 As memórias do livro — Não podemos parar aqui — Lola disse. — Precisamos encontrar algum abrigo. — Vá você. Eu não posso. — Deixe-me ver. — Lola dirigiu o facho de sua lanterna para o couro rasgado e aberto da bota de Isak. A carne exposta estava preta, com ulceração. O pé já estava machucado muito antes do acidente no rio. Ela pôs as mãos enluvadas sobre o pé de Isak, tentando aquecêlo. Mas não adiantava. Os artelhos estavam congelados e duros, quebradiços como ramos secos. A menor pressão os deceparia. Lola tirou o casaco e o colocou no chão. Ergueu Ina e a deitou sobre o casaco. A respiração de Ina era fraca e irregular. Ela tentou sentir o pulso da menina, mas não conseguiu. — Lola — Isak disse —, eu não posso mais andar, e Ina está morrendo. Você tem que ir sozinha. — Não vou abandonar vocês — ela disse. — Por que não? — perguntou Isak. — Eu abandonaria você. — Talvez. — Ela se levantou e começou a arrancar varetas congeladas do chão duro. — Fazer fogo é perigoso demais — disse Isak. — E, além disso, você não pode acender nada com essa madeira congelada. Lola sentiu a exasperação, a raiva, crescer por dentro. — Você não pode desistir — falou. Isak não respondeu. Com dificuldade, se apoiou sobre as mãos e os joelhos e, de alguma forma, conseguiu se levantar. — Seu pé — disse Lola. — Não preciso ir muito longe com ele. Lola, confusa, tentou pegar Ina. Delicadamente, Isak a empurrou para o lado. — Não — ele disse. — Ina vem comigo. Ele pegou a criança, tão magra agora que quase não tinha peso. Mas, em vez de prosseguir adiante, ele se virou e cambaleou de volta ao rio. — Isak! O rapaz não se virou. Abraçando sua irmãzinha, ele deu um passo para fora da margem, e pisou no rio congelado. Caminhou até o centro, onde o gelo estava fino. A cabeça de sua irmã repousava em A asa de um inseto 87 seu ombro. Eles ficaram ali por um momento, enquanto o gelo guinchava e se partia. E, então, o gelo cedeu. Lola chegou a Sarajevo quando os primeiros raios de sol iluminavam as bordas das montanhas e tingiam de prata os becos molhados de chuva. Sabendo que ela não conseguiria chegar sozinha ao território liberado, ela resolvera voltar à cidade. Caminhou por ruas conhecidas, passando pela fileira de edifícios, procurando qualquer pequena proteção que encontrasse neles, contra a chuva e os olhos inamistosos. Ela sentiu o cheiro familiar da cidade, do asfalto molhado, de repolho podre e carvão em brasa. Faminta, ensopada, e em desespero, andou sem destino, até perceber que estava nos degraus do ministério das finanças, onde seu pai havia trabalhado. O edifício estava deserto, em silêncio. Lola subiu os amplos degraus da entrada. Passou a mão sobre o baixo-relevo escuro que adornava a entrada, e se agachou, ficando encolhida em frente à porta. Via os pingos de chuva cair sobre os degraus, cada um formando círculos concêntricos que se ligavam por um instante para depois se dissolver. Nas montanhas, ela se recusara a abrir a porta para a dor da lembrança de sua família, temendo que, do contrário, não pudesse mais fechá-la. Ali, naquele edifício, porém, não se lembrar do pai era impossível. Ela queria ser criança de novo, protegida, segura. Devia ter adormecido por alguns minutos. Passos, vindos de trás da porta pesada, acordaram-na. Ela se encolheu nas sombras, incerta se devia correr ou ficar ali. Os ferrolhos foram puxados com um guincho de metal que precisasse de óleo, e um homem com macacão de operário apareceu, com cachecol alto cobrindo-lhe o queixo. Ele ainda não a tinha visto. Ela disse as palavras tradicionais de cumprimento: — Que Deus nos salve. O homem se virou, assustado. Seus olhos de um azul-água se arregalaram quando viu aquela figura espectral, molhada, encolhida nas sombras. Ele não a reconheceu, tão mudada a menina estava após meses de uma vida dura nas montanhas. Mas ela o conhecia. Era Sava, um velho bondoso que trabalhara junto com seu pai. Ela disse o nome dele, depois o dela. 88 As memórias do livro Quando ele percebeu quem era, estendeu a mão e a ergueu, abraçando- a. Sentindo-se aliviada e comovida pela gentileza, ela começou a chorar. Sava vasculhou a rua para ter certeza de que ninguém os observava. Com o braço ainda em volta dos ombros trêmulos de Lola, ele a levou para dentro, fechou a porta e passou os ferrolhos. Ele a levou até o vestuário dos zeladores e a envolveu em seu casaco. Do dz‡ ezva, serviu-lhe um café forte. Quando conseguiu falar, Lola lhe contou sobre o exílio da unidade partidária. No ponto em que falaria da morte de Ina, não conseguiu continuar. Sava colocou o braço em torno dos ombros da jovem e a balançou, gentilmente. — O senhor pode me ajudar? — ela perguntou, enfim. — Se não puder, por favor entregue-me agora ao Ustashe, porque não posso mais correr. Sava a observou por um momento, sem dizer coisa alguma. Então, levantou-se e pegou-lhe a mão. Conduziu-a para fora do ministério, trancando a porta atrás de si. Os dois andaram em silêncio por uma, duas quadras. Quando chegaram ao Museu Nacional, Sava a levou até a entrada dos atendentes e fez um gesto para que esperasse num banco dentro de uma alcova próxima à porta. Ele demorou a voltar. Lola ouvia pessoas começando a se mexer em volta do prédio. Ela pensou que talvez Sava a tivesse abandonado lá. Mas a exaustão e o sofrimento a tinham deixado apática. Ela não podia mais tomar nenhuma atitude para se salvar. Por isso, se sentou e se pôs a esperar. Sava voltou em companhia de um homem alto. Era de meiaidade e estava muito bem vestido, usando um fez vermelho que cobria parte de seus cabelos escuros, marcados com tons grisalhos. Havia algo familiar nele, mas Lola não imaginava onde eles teriam se conhecido. Sava pegou-lhe a mão e a apertou, com carinho. E depois foi embora. O homem alto fez um gesto, pedindo que Lola o seguisse. Eles saíram do prédio. Ele a conduziu até o banco de trás de um carro pequeno, indicando-lhe por meio de gestos que ela deveria se deitar no chão. Só quando ele ligou o motor e o carro saiu, o homem falou. Seu sotaque era refinado e a voz, gentil quando ele perguntou a Lola onde ela tinha estado e o que tinha feito. Não tinha ido muito longe quando ele parou o carro e saiu, dizendo a Lola que ficasse onde estava. O homem se ausentou apenas A asa de um inseto 89 por alguns minutos. Quando voltou, deu um xador a ela. Em seguida, fez um gesto insistindo para que ela ficasse deitada. — Que Deus nos salve, efêndi! — ele disse, trocando gentilezas com o vizinho que passava por ali, fingindo estar procurando algo no bagageiro do carro. Quando o homem virou a esquina, ele abriu a porta de trás e gesticulou novamente, pedindo que Lola o seguisse. Ela puxou o xador sobre o rosto e voltou os olhos para baixo, como vira muitas modestas mulheres muçulmanas fazer. Dentro do prédio, ele bateu ruidosamente na porta, e ela abriu imediatamente. Sua esposa o aguardava. Lola levantou os olhos e a reconheceu. Era a jovem esposa que lhe servira café quando ela fora buscar a roupa para lavar. Stela não demonstrava reconhecê-la, o que não a surpreendeu, tendo em vista a mudança em sua aparência. Aquele ano a envelhecera. Ela estava pálida e magra, com os cabelos cortados bem curtos, como os de um menino. Stela olhou para o rosto abatido de Lola e depois para o do marido, preocupada. Falou com ele em albanês. Lola não tinha idéia do que fora dito, mas viu Stela arregalar os olhos. Ele continuou falando, de modo gentil, mas com um tom de urgência. Os olhos de Stela se encheram de lágrimas, mas ela os enxugou com um lenço de renda e, depois, olhou para Lola. — Seja bem-vinda à nossa casa — ela disse. — Meu marido me disse que você sofreu muito. Venha se lavar, comer, descansar. Mais tarde, depois que você tiver dormido, vamos conversar sobre a melhor maneira de mantê-la em segurança. Serif olhou para sua mulher, com uma doce expressão que era um misto de ternura e orgulho. Lola viu o olhar, e percebeu como Stela enrubesceu ao olhar para ele. Ser amada daquela forma, ela pensou, devia realmente ser maravilhoso. — Preciso voltar ao museu agora — ele disse. — Vejo você hoje à noite. Minha esposa cuidará bem de você. O toque da água quente e o aroma fragrante de sabonete eram luxos que, para Lola, pareciam pertencer à outra existência. Stela lhe deu uma sopa quente e pão fresco, e Lola se esforçou para comer devagar, embora, em sua fome extrema, ela poderia agarrar a tigela com as duas mãos e tomar tudo de uma vez. Quando terminou, Stela 90 As memórias do livro a conduziu a uma saleta pequena. Havia lá um berço, e nele dormia um bebê. — É meu filho, Habib, que nasceu no outono passado — ela disse. Indicou um sofá baixo e longo, ao longo da parede. — Pode ser o seu quarto, também. Lola se deitou, e, mesmo antes de Stela voltar com uma colcha, ela já tinha caído no sono, de tão exausta que estava. Quando acordou, parecia que estava nadando em águas profundas. O berço ao lado dela estava vazio. Ela ouvia vozes discretas, uma ansiosa, outra reconfortante; e, depois, o delicado chorinho de um bebê, rapidamente tranqüilizado. Lola viu que havia roupas colocadas para ela na cama. Eram roupas estranhas, uma saia longa, como de uma camponesa muçulmana da Albânia, e um grande cachecol branco para cobrir seus cabelos curtos, que também podia ser puxado sobre o osso do nariz para esconder a parte inferior do rosto. Ela sabia que suas roupas, trapos partidários costurados meses atrás a partir de um pedaço de cobertor cinza, seriam queimadas. Vestiu-se, pelejando um pouco com o esquisito cachecol de cabeça. Quando entrou na sala de estar forrada de livros, Serif e Stela estavam sentados juntos bem próximos, em profunda conversa. Serif segurava o filho, um bonito garotinho com cabelos escuros, que estava sentado em seu joelho. A outra mão segurava a de sua esposa. Eles olharam quando Lola entrou e rapidamente largaram as mãos. Lola sabia que os muçulmanos conservadores achavam inapropriado, mesmo para pessoas casadas, expressar afeição física na presença de outros. Serif sorriu para Lola, gentil. — Puxa, você será uma boa camponesa! — ele disse. — Se não se importar, a história que contaremos para explicar sua presença aqui é que você é uma empregada enviada pela família de Stela, para ajudála com o bebê. Você vai fingir que não sabe falar a língua bósnia, assim não terá que conversar com ninguém. Na presença dos outros, Stela e eu falaremos com você em albanês. Só precisa assentir com a cabeça a tudo que lhe dissermos. Será melhor você não sair do apartamento, assim pouquíssimas pessoas saberão que está aqui. Teremos de lhe dar um nome muçulmano... Leila está bom? A asa de um inseto 91 — Eu não mereço essa gentileza — ela sussurrou. — Vocês, muçulmanos, ajudando uma judia... — Ora, vamos! — disse Serif, percebendo que ela ia chorar. — Judeus e muçulmanos são primos, descendentes de Abraão. Sabe que seu novo nome significa “noite” tanto em árabe, a língua de nosso sagrado Alcorão, quanto em hebraico, a língua de sua Torá? — Eu… eu… nunca aprendi hebraico — ela balbuciou. — Minha família não era religiosa. Os pais de Lola iam ao clube social judaico, mas nunca à sinagoga. Tentavam dar roupas novas às suas crianças no Hanuká, nos anos em que podiam se dar a tal luxo; mas, fora isso, Lola pouco sabia de sua religião. — Bem, é uma língua bonita e fascinante — disse Serif. — O rabino e eu estávamos trabalhando juntos na tradução de alguns textos, antes... bem, antes de começar este pesadelo que estamos vivendo. — Ele esfregou a mão sobre a testa e suspirou. — Ele era um bom homem, um grande estudioso, e sinto por seu passamento. Nas semanas seguintes, Lola foi aos poucos se adaptando aos ritmos de uma vida muito diferente. O medo de ser descoberta se dissolvia com o passar do tempo, e, logo, a longa e tranqüila rotina da vida como babá do bebê dos Kamal parecia mais real que sua vida de antes como partidária. Ela se acostumou à voz suave, insegura de Stela, chamando-a pelo novo nome, Leila. Ela amara o bebê desde a primeira vez que o segurara. E rapidamente se afeiçoara a Stela, cuja vida física em famílias muçulmanas conservadoras sempre fora doméstica e privada, mas cujos horizontes intelectuais, como filha e esposa de indivíduos cultos, haviam-se expandido. A princípio, Lola tinha um pouco de medo de Serif, que era quase tão frio quanto seu pai. Mas seus modos gentis e bondosos logo a deixaram tranqüila. Por algum tempo, ela não saberia dizer o que havia de tão diferente entre ele e a maioria das pessoas que ela conhecia. De repente, um dia, enquanto ele pacientemente a incluía em um ou outro assunto, escutando sua opinião como se fosse digna de consideração, e em seguida guiando-a com sutileza a um panorama mais amplo, ela compreendeu qual era a diferença. Serif, o indivíduo mais culto que ela já conhecera, era também o único que nunca a fazia se sentir nem um pouco estúpida. 92 As memórias do livro O dia dos Kamal era organizado em torno de duas coisas, oração e aprendizagem. Cinco vezes por dia, Stela parava o que estava fazendo, lavava-se com todo o esmero, e colocava perfume. Em seguida, estendia um pequeno tapete de seda que ela usava apenas para orações, e fazia as prostrações e recitações exigidas por sua religião. Lola não entendia as palavras, mas achava tranqüilizador ouvir as rimas sonoras da língua árabe. À noite, Stela trabalhava com seu bordado enquanto Serif lia em voz alta para ela. No começo, Lola se retirava com Habib nesse momento, mas eles a convidaram para ficar e ouvir, se quisesse. Ela se colocava um pouco fora do círculo de luz amarela projetada pela lâmpada, segurando Habib sobre o joelho, balançando-o delicadamente. Serif escolhia histórias animadas ou lindos poemas para a leitura, e Lola percebeu que aguardava, cada vez mais animada, aquelas horas da noite. Se Habib se incomodasse e ela tivesse de sair da sala com ele, Serif esperava seu retorno ou resumia o que ela tinha perdido. Às vezes ela acordava no meio da noite, suada após sonhar que os cães das tropas alemãs a estavam perseguindo, ou que sua irmãzinha chamava por ela aos prantos, pedindo-lhe ajuda, enquanto as duas tropeçavam no caminho, em meio a densas florestas. Em outros sonhos, Isak e Ina desapareciam repetidas vezes através do gelo que se partia. Quando ela acordava, tirava Habib do berço e o abraçava, sentindo o conforto do peso de seu corpinho contra o dela. Um dia, Serif chegou cedo da biblioteca. Ele não cumprimentou a mulher nem perguntou pelo filho, sequer tirou o casaco ao entrar, como sempre fazia; foi direto ao escritório. Alguns minutos depois, ele as chamou. Lola não costumava entrar no escritório de Serif. Era Stela quem arrumava aquela sala. Dessa vez, ela olhou para os livros que forravam as paredes. Os volumes eram mais velhos e requintados que aqueles que se encontravam em outras partes do apartamento; livros em uma meia dúzia de línguas antigas e modernas, com uma encadernação primorosa feita à mão, de couro reluzente. Mas Serif segurava nas mãos enluvadas um livro pequeno, de encadernação simples. Ele pôs o livro sobre a mesa à sua A asa de um inseto 93 frente e ficou olhando para ele, com a mesma expressão que demonstrava ao olhar para o filho. — O general Faber visitou o museu hoje — disse. Stela perdeu o fôlego e bateu com uma das mãos na cabeça. Faber era o temível comandante das unidades da Mão Negra, supostamente o responsável pelo massacre de milhares de pessoas. — Não, não, nada de terrível aconteceu. Na verdade, o que aconteceu foi muito bom. Hoje, com a ajuda do diretor, nós conseguimos salvar um dos grandes tesouros do museu. Serif não pretendia contar em detalhes o que havia ocorrido no museu aquele dia. Nem ao menos planejara lhes mostrar a Hagadá. Mas a presença do livro — em sua casa, em suas mãos — parecia vencer sua prudência. Ele virou as páginas para que elas pudessem admirar a arte do livro, e lhes disse apenas que o diretor do museu lhe havia confiado os cuidados do volume. O superior de Serif era o Dr. Josip Boscovic, um croata que conseguira negociar uma aparente cumplicidade com o regime do Ustashe em Zagreb enquanto seu coração ainda era de Sarajevo. Boscovic era curador de moedas antigas antes de entrar para a administração do museu. Era uma figura popular em Sarajevo, presença marcante em eventos culturais. Seus cabelos pretos eram lisos e puxados para trás, com uma pasta altamente perfumada, e suas idas semanais à manicure eram um rito imutável. Quando Faber mandou informar que ele pretendia visitar o museu, Boscovic percebeu que era hora de começar realmente a andar na corda bamba. Como não falava bem o alemão, chamou Serif ao seu escritório e disse que ele seria necessário como intérprete. Ele e Serif tinham uma formação diferente, bem como interesses distintos. Mas os dois homens partilhavam do mesmo inquebrantável compromisso para com a história da Bósnia e do amor pela diversidade que moldara essa história. Os dois também reconheciam que Faber representava a extinção da diversidade. — Você sabe o que ele quer? — perguntou Serif. — Ele não disse. Mas posso imaginar. Meu colega em Zagreb me disse que eles pilharam a coleção judaica do museu. Você sabe e eu 94 As memórias do livro sei que o que nós temos aqui é infinitamente mais importante. Creio que ele quer a Hagadá. — Josip, não podemos entregá-lo. Ele o destruirá, como seus homens destruíram tudo que é judaico na cidade. — Serif, meu amigo, que escolha nós temos? Talvez ele não o destrua. Ouvi dizer que Hitler planeja um Museu para a Raça Perdida, para exibir os mais belos objetos judaicos, depois do desaparecimento das pessoas... Serif bateu no encosto da cadeira à sua frente. — Não há limite para a depravação dessas pessoas? — Shhh! — Boscovic levantou as duas mãos para silenciar seu colega. Baixou o tom de voz, sussurrando. — Eles estavam fazendo piadas disso, em Zagreb, no mês passado. Chamavam a empreitada de Judenforschung ohne Juden: estudos dos judeus sem judeus. — Boscovic saiu de trás de sua mesa e colocou a mão sobre o ombro de Serif. — Se você tentar esconder esse livro, colocará sua vida em perigo. Serif olhou para ele, sério. — E que escolha eu tenho? Sou kustos. Será que o livro sobreviveu por quinhentos anos para ser destruído enquanto estiver sob minha tutela? Se você pensa que eu posso permitir tal coisa, meu amigo, não me conhece. — Faça o que tiver de fazer, então. Mas seja rápido, eu lhe peço. Serif voltou à biblioteca. Com as mãos trêmulas, ele tirou uma caixa onde havia colocado uma etiqueta, ARCHIV DER FAMILIE KAPETANOVIC — TURKISHCHE URKUNDEN (Arquivos da família Kapetanovic — documentos turcos). Levantou algumas escrituras de terras turcas de cima da caixa. Por baixo delas, havia vários códices judaicos. Pegou o menor deles e o colocou por baixo do cinto, puxando o casaco por cima, escondendo a saliência. Recolocou as escrituras turcas na caixa e a lacrou novamente. Faber era um homem reservado, magro e não exatamente alto. Tinha uma voz suave, e raramente falava em um tom muito acima de um sussurro, de modo que as pessoas tinham de prestar muita atenção ao que ele dizia. Seus olhos tinham a tonalidade fria, verde opaca da ágata, incrustados em uma pele tão pálida e translúcida quanto a carne de um peixe. A asa de um inseto 95 Josip fora promovido a administrador por causa de seus modos encantadoramente educados, que às vezes beiravam a insinceridade. Quando ele cumprimentou o general, dando-lhe calorosas boas-vindas, ninguém diria que a parte de trás de seu pescoço pinicava com um suor nervoso. Pediu desculpas por seu alemão ruim, mais enfático do que necessário. Serif apareceu à porta, e Josip o apresentou: — Meu colega é um excelente lingüista; envergonho-me perto dele. Serif se aproximou do general e lhe estendeu a mão. O aperto de mão do general era inesperadamente delicado. Serif sentiu uma mão flácida mal tocando a sua. Percebeu que o manuscrito se movia um pouco, pressionado contra a cintura. Faber não informou o propósito de sua visita. Em um silêncio constrangedor. Josip ofereceu ao general mostrar-lhe as coleções. Enquanto andava em meio às amplas salas abobadadas, Serif falava, com autoridade, das várias exibições, enquanto Faber caminhava atrás dele, batendo com as luvas de couro pretas contra a pálida palma da outra mão, sem dizer nada. Quando chegaram à biblioteca, Faber assentiu com a cabeça, friamente, e falou pela primeira vez. — Deixe-me seus manuscritos e incunábulos judaicos. Estremecendo ligeiramente, Serif selecionou volumes das prateleiras e os dispôs sobre a mesa grande. Havia um texto de matemática de Elia Mizahi, uma edição rara de um dicionário hebraico-árabe-latino publicada em Nápoles em 1488 e um volume do Talmude impresso em Veneza. As mãos pálidas de Faber acariciaram cada um dos volumes. Ele virou as páginas com todo o cuidado. Quando tocou os códices mais raros, observando a tinta desbotada e os delicados pergaminhos nervurados, sua expressão mudou. Umedeceu os lábios. Serif notou que suas pupilas se dilatavam, como as pupilas de um amante. Serif desviou o olhar. Sentiu um misto de desgosto e violação, como se estivesse assistindo a um espetáculo pornográfico. Por fim, Faber fechou o exemplar do Talmude veneziano e levantou os olhos, franzindo a testa, em gesto de interrogação. — E agora, por favor, a Hagadá. 96 As memórias do livro Serif sentiu uma torrente de suor queimar-lhe as costas. Virou as palmas das mãos para cima e balançou os ombros. — Isso é impossível, herr General — ele disse. O rosto de Josip, até então vermelho, de repente empalideceu. — Como assim, “impossível”? — perguntou Faber, com um tom frio na voz. — O que o meu colega quis dizer — interveio Josip — é que um de seus oficiais veio aqui ontem e pediu a Hagadá. Disse que o queria para um projeto específico de um museu do führer. Claro que nos sentimos honrados de lhe entregar nosso tesouro para tal propósito... Serif começou a traduzir as palavras de Josip, mas o general o interrompeu. — Que oficial? Quero seu nome. — Ele deu um passo em direção a Josip. Apesar de seu porte modesto, o general, de repente, parecia transmitir ameaça. Josip deu um passo para trás, esbarrando contra a estante. — Senhor, ele não me disse o nome. Eu... eu... não achei que me cabia lhe perguntar... Mas, se vier comigo ao meu escritório, posso procurar o documento que ele assinou, como recibo. Enquanto Serif traduzia as palavras de seu diretor, Faber engolia em seco. — Muito bem — disse. Ele girou sobre os calcanhares e caminhou em direção à porta. Josip não teve mais que um instante para trocar um olhar com Serif. E ele fez questão de que aquele fosse o olhar mais eloqüente se sua vida. Então, em uma voz tão plácida quanto um lago em um dia tranqüilo, Serif chamou o general: — Por favor, senhor, siga o diretor. Ele o conduzirá à escada principal. Serif sabia que tinha muito pouco tempo. Esperava ter adivinhado corretamente o plano do diretor. Escreveu um recibo com os números catalogados da Hagadá e, com uma caneta diferente, assinado abaixo, um garrancho ilegível. Chamou um atendente e disse ao homem que levasse o papel à sala do diretor. — Use a escada de serviço, e vá o mais rápido possível. Coloque- o sobre a mesa, onde ele possa ver assim que entrar. A asa de um inseto 97 Em seguida, de forma deliberada, forçando-se a se mexer devagar, ele caminhou até o porta-chapéus e apanhou seu sobretudo e seu fez. Saiu da biblioteca e atravessou o saguão até a entrada principal do museu. Fez questão de acenar para os homens de Faber, que o aguardavam, cumprimentando-os com um aceno de cabeça, reconhecendo sua presença lá. Na metade do caminho, enquanto descia a escada, parou para conversar com um colega que estava subindo. Passou pelo grande carro preto dos funcionários, estacionado em frente. Sorrindo e cumprimentando seus conhecidos, ele parou no seu café favorito. Saboreou o café lentamente, como um verdadeiro bósnio faria, aproveitando cada gota. Só então resolveu ir para casa. Enquanto Serif virava as páginas da Hagadá, Lola se admirava com o esplendor das iluminuras. — Você deveria ter muito orgulho disso — ele disse à menina. — É uma grandiosa obra de arte que o seu povo deu ao mundo. Stela apertou as mãos e disse algo em albanês. Serif olhou para ela, com uma expressão firme, porém bondosa. Respondeu em bósnio. — Eu sei que você se preocupa, minha cara. E tem todo o direito de se preocupar. Nós damos abrigo a uma judia, e agora abrigamos um livro judaico. Ambos procurados pelos nazistas. Uma vida jovem e um artefato antigo. Ambos muito preciosos. E você diz que não se importa em correr riscos, e eu a louvo por isso, e me orgulho de você. Mas teme por nosso filho. E esse seu medo é muito real. Eu também temo por ele. Tenho planos para Leila, com um amigo meu. Amanhã, nós nos encontraremos com ele. Ele a levará a uma família na zona italiana, que pode mantê-la segura. — Mas e quanto ao livro? — disse Stela. — Com certeza, o general descobrirá o seu truque. Depois de vasculharem o museu, será que não virão aqui? — Não se preocupe — disse Serif, calmo. — Não é certeza que ele descobrirá o que fizemos. O doutor Boscovic teve a presença de espírito de dizer a Faber que um de seus homens viera buscar o livro. Os nazistas são saqueadores por natureza. Faber sabe que seus oficiais são versados em roubo. Ele provavelmente tem uma meia dúzia de homens que acha que são capazes de roubar o livro para se enrique98 As memórias do livro cer. E de qualquer forma — ele acrescentou, envolvendo o pequeno volume em seu tecido —, depois de amanhã, ele não estará mais aqui. — Para onde você o levará? — perguntou Stela. — Não tenho certeza. O melhor lugar para esconder o livro deve ser uma biblioteca. Ele tinha pensado em simplesmente levar o livro de volta ao museu, colocando-o em alguma prateleira errada em meio aos milhares de volumes. Mas lembrou-se de outra biblioteca, muito menor, onde ele havia passado muitas horas alegres ao lado de um querido amigo. Virou-se para Stela e sorriu. — Vou levar o livro — falou — ao último local onde alguém pensaria em procurá-lo. O dia seguinte era sexta-feira, o sabá dos muçulmanos. Serif foi trabalhar, como de costume, mas pediu licença ao meio-dia, dizendo que queria participar das orações comunais. Voltou para casa para pegar Stela, Habib e Lola, de carro. Em vez de rumar para a mesquita mais próxima, ele saiu da cidade, e seguiu em direção às montanhas. Lola segurava Habib no colo, entretendo-o com suas brincadeiras favoritas, puxando-o para perto dela sempre que possível, tentando memorizar o cheirinho de sua cabeça, que a fazia se lembrar da fragrância adocicada de grama cortada. A estrada era ruim, estreita e cheia de curvas. Naquela época do ano, no meio do verão, os campos de trigo e girassóis recebiam luz abundante, adquirindo um aspecto dourado, estendendo-se por toda a esplanada entre as íngremes elevações das montanhas. Quando chegava o inverno, a neve tornava essas vias intransitáveis até a chegada da primavera. Lola se concentrava em Habib para não pensar na náusea provocada pelo movimento do carro, e pela ansiedade. Ela sabia que fora uma sábia decisão sair da cidade, onde o risco de ser descoberta era constante. Mas detestava abandonar os Kamal. Apesar da dor que carregava e do medo sempre à espreita, os quatro meses que ela passara na casa deles haviam-lhe proporcionado uma serenidade que nunca tinha sentido antes. O sol já estava se pondo quando eles atravessaram a última passagem estreita e viram a aldeia, aberta como uma flor em seu pequeA asa de um inseto 99 no vale suspenso. Um fazendeiro estava trazendo suas vacas dos campos, e o chamado para a oração da noite se misturava ao lamento e aos gemidos do gado em movimento. Ali, no alto, no isolamento das montanhas, a guerra e suas privações pareciam muito distantes. Serif parou o carro em frente a uma casa baixa de pedras. As paredes eram brancas, cada pedra colocada ao lado da outra com a precisão de peças montando um quebra-cabeça. As janelas fundas, em nicho, eram altas e estreitas, com venezianas grossas, pintadas de um azul cerúleo, que ofereciam proteção contras as tempestades de inverno. Flores como os delfins silvestres, de um azul mais profundo, cresciam em profusão em volta da casa. Duas borboletas voavam, descontraídas, em meio às flores. Uma velha amoreira espalhava seus ramos sobre o pátio. Assim que o carro estacionou, uma meia dúzia de rostos pequenos espiou por entre a exuberante folhagem. A árvore estava tomada de crianças, como pássaros pousados em seus galhos. Uma a uma, as crianças saltaram da árvore e cercaram Serif, que havia trazido um doce para cada uma delas. Do chalé, uma garota ligeiramente mais velha, com o rosto coberto como o de Stela, saiu e repreendeu as crianças pela bagunça. — Mas o tio Serif chegou! — as crianças gritavam, excitadas, vendo os olhos sorridentes da menina, por cima do véu. — Bem-vindo, seja bem-vindo! — ela saudou. — Papai ainda não voltou da mesquita, mas meu irmão Munib está lá dentro. Por favor, venha, e fique à vontade. Munib, um jovem com aparência intelectual, que devia ter uns dezenove anos, estava sentado a uma mesa, com uma lupa em uma mão, pinças em outra, cuidadosamente montando um espécime de inseto. A mesa reluzia de tantos fragmentos de asas. Munib se virou quando a irmã o chamou, uma expressão de irritação por ter sua concentração interrompida. Mas sua expressão mudou quando viu Serif. — Senhor! Que honra inesperada. Serif, sabendo da grande paixão do filho de seu amigo por insetos, tinha arrumado um emprego para Munib como assistente no Departamento de História Natural do museu durante as férias escolares. 100 As memórias do livro — Fico feliz ao ver que você continua estudando, apesar dos tempos difíceis — Serif disse. — Sei que seu pai ainda espera colocar você na universidade, algum dia. — Insha’Allah — Munib respondeu. Serif se sentou em um sofá baixo, sob uma janela arqueada, e a irmã de Munib conduziu Stela e Lola à sala das mulheres, enquanto as crianças traziam uma fila aparentemente infinita de bandejas: suco de uva, feito das vinhas da própria família, chá — uma raridade, agora, na cidade —, pepinos cultivados em casa e doces caseiros. Por isso, Lola não estava presente quando Serif Kamal pediu a seu bom amigo, o pai de Munib, khoja da aldeia, que escondesse a Hagadá. Ela não viu o entusiasmo no rosto do khoja, impacientemente limpando a mesa de trabalho do filho para abrir espaço para o manuscrito, nem o deslumbramento em seus olhos enquanto virava as páginas. O sol tinha-se posto, banhando a sala em um brilho remanescente vermelho, caloroso. Minúsculas partículas de poeira brilhavam e dançavam na luz que esvaecia. Quando uma criança entrou carregando uma bandeja de chá, um pequeno pedaço de asa de borboleta se ergueu sob a leve brisa da porta aberta e flutuou até pousar, sem que ninguém percebesse, sobre a página aberta da Hagadá. Serif e o khoja levaram a Hagadá à biblioteca da mesquita. Encontraram um lugar estreito para ele em uma prateleira alta, pressionado entre volumes da lei islâmica. O último lugar em que alguém pensaria em procurar. Mais tarde, à noite, os Kamal voltaram de carro pela montanha. Pararam do lado de fora da cidade, em frente a uma bonita casa com um muro de pedras alto. Serif se virou para Stela. — Despeçam-se agora, não podemos ficar aqui. Lola e Stela se abraçaram. — Adeus, minha irm㠗 disse Stela. — Que Deus a guarde viva até nos encontrarmos de novo. A garganta de Lola se contraiu, e ela não conseguiu responder. Ela beijou a cabeça do bebê, e o entregou à mãe, para depois seguir Serif no escuro.

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