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Assim na Terra (Cód: 4869788)

Enia,Davide

Alfaguara / Objetiva

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Descrição

O boxe é o ponto de partida para contar a história de um menino de 9 anos que mora em Palermo durante a II Guerra Mundial. Sua intenção de se tornar um grande boxeador traz conflitos familiares, seu pai e tio já trilharam esse mesmo caminho, sem sucesso. Nas palavras do autor: é a história de uma batalha contínua, uma luta num mundo sempre em guerra contra o sentimento de culpa, contra a fome e a miséria, encarando as próprias sombras e de repente se sentindo abençoados por intensos momentos luminosos: um beijo na boca, o sorriso cúmplice de um tio idoso, a tranquilidade que nos transmite o mar ou a descoberta que uma planta germinou.  Porque é na terra que caimos, é da terra que nos levantamos e é nessa terra que lutamos.  O estilo de Enia é comparado ao de Ernest Hemingway.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Alfaguara / Objetiva
Cód. Barras 9788579622144
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788579622144
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Tradutor Federico Carotti e Denise Bottmann
Número da edição 1
Ano da edição 2013
Idioma Português
Número de Páginas 312
Peso 0.29 Kg
Largura 15.00 cm
AutorEnia,Davide

Leia um trecho

Primeira Parte
O tubarão vai à guerra

— Não, é como estou dizendo. Quando a gente mete pela primeira vez, o fiozinho se solta.
Nino Pullara foi peremptório. Era o mais velho, o mais alto e o mais forte do grupo. Decerto tinha razão.
— É assim, meu primo Girolamo me contou, ele já meteu doze vezes, tem quinze anos, na primeira vez o fiozinho do pinto se solta.
— Dói? — perguntou Lele Tranchina, pouco se lixando que perguntar sobre a dor é sinal de fraqueza.
— Dói sim, sai sangue, mas Girolamo falou que, se a gente enfia certo, o prazer bate de longe o pouco de dor.
Nos bancos da praça reinavam palavras feitas a canivetes rebeldes.
POLÍCIA DE BOSTA
ESTADO = MÁFIA
MENOS MEGANHA, MAIS HEROÍNA
Nino Pullara tirou um maço de cigarros, acendeu um, fez circular pelo grupo.
— Gerruso, imbecil que você é, quando tragar, empurre a fumaça toda para baixo, senão você não sente nada e aí não adianta.
— Mas me dá vontade de tossir.
— Isso porque você é um viado.
Gerruso, para ficar no grupo, suportava de tudo: pontapés, cusparadas, arranhões. Estava tão resignado com a ideia de levar um monte de bordoada que já nem resistia. O resultado era que dava cada vez menos satisfação espancá-lo.
— Eu — retomou Pullara — quando crescer quero fazer duas coisas: a primeira é meter na Fabrizia.
— Aquela da padaria? — perguntou Danilo Dominici, arregalando os olhos.
— Aquela mesma.
Fabrizia, dezessete anos retumbantes, dois peitos firmes. Desde que ela começou a trabalhar na padaria, todo o bairro ia comprar pão lá.
— Nunca se viu tanto homem querendo fazer compras — insinuava com malícia minha avó Provvidenza.
— Na Fabrizia vou meter mesmo, mas só depois de soltar o fiozinho.
Pullara ostentava a segurança de quem está no alto de seus doze anos.
— E a segunda coisa que você quer fazer, o que é? — perguntou Guido Castiglia.
Guido Castiglia nunca deixava passar nenhum detalhe. E com ele, com o Castiglia, era melhor não criar encrenca. Uma vez, pediu um chiclete a Paolo Vizzini e ele negou, não quis dar. Castiglia, quieto, sem pestanejar, foi embora. Dois meses depois, Vizzini despencou de uma alfarrobeira e caiu por cima da perna esquerda. Ficou com a carne toda estraçalhada, via-se o branco do osso.
— Socorro! Socorro! — gritava.
Guido Castiglia apareceu na rua de terra.
— Quer que eu vá chamar ajuda?
Vizzini implorava que sim.
— Assim você aprende a não me dar chiclete.
Largou-o lá sozinho, com a perna quebrada, chorando feito uma menina.
— Quero fazer o trabalho de meu pai: ser frentista.
A frase de Pullara soou como uma sentença. O tom de voz ressaltava a inexorabilidade do futuro. Ser frentista era um trabalho incomparável: ficar sentado à sombra, entre o mágico perfume da gasolina; um cão de companhia, preso na corrente, que, em caso de tédio, sempre se podia moer de pancadas; no bolso de trás da calça, um maço gordo e imponente de trocados.
— Eu também, quando crescer, quero fazer o que meu pai faz — comunicou Danilo Dominici. — É bom, fica sempre ao ar livre.
Seu pai asfaltava estradas.
— Também quero fazer o trabalho de meu pai, guarda de trânsito.
Olhamos para Gerruso com desdém, ser guarda de trânsito é trabalho imprestável, nem revólver tem.
— Gerruso, olha aqui.
Assim que se virou, Pullara lhe deu um tapa com a mão espalmada. Depois, virou-se para mim.
— E você, Davidù? No que quer trabalhar?
Respondi a primeira verdade que me passou pela cabeça, sem refletir muito a respeito.
— Eu? Hmm, não sei, não sou como vocês que querem fazer o que os pais fazem, posso fazer o que quiser, tenho mais sorte que vocês, sou órfão.

Em frente de casa encontrei minha avó, sentada num banquinho na sombra do jacarandá. Fumava um cigarro, apoiada no encosto verde e enferrujado.
— Alegria dos meus olhos, sente aqui do meu lado, teu avô está lá em cima, está fazendo o jantar.
— Mamãe ainda não voltou do hospital?
— Não. Parece que explodiu uma bomba na tua cabeça.
Ria, entre uma tossida e uma tragada.
Minha avó cheirava a tabaco e giz.
Era professora primária. Me ensinou a ler e a escrever.
Eu tinha quatro anos.
Ficava me amolando.
— Davidù, vamos aprender a ler e a escrever?
Todo santo dia.
Venceu pelo cansaço. E também porque prometeu que depois me ensinaria a soltar arrotos conforme eu quisesse.
Cumpriu a palavra.
— O que você fez hoje?
— Na escola nada, a professora nos mandou desenhar porque está acabando os boletins, na praça conversei com os amigos sobre quando crescemos.
— Crescermos.
— Tá, mas dava para entender.
— Davidù, não interessa se o outro entende, precisa cuidar das palavras. O que a vó te ensinou? O que são as palavras?

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