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Ayrton - O Herói Revelado (Cód: 149855)

Rodrigues,Ernesto

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Descrição

Esta biografia nos deixa mais próximos, mais íntimos e um pouco mais capazes de decifrar Ayrton Senna - seu sorriso, sua tristeza, e o inesquecível impacto que provocou em nossas vidas. Numa narrativa de tirar o fôlego, que prende a atenção do leitor da primeira à última página, o livro do jornalista Ernesto Rodrigues emociona e surpreende ao revelar episódios desconhecidos da vida pessoal e profissional do tricampeão mundial de Fórmula 1, num perfil fascinante que vai muito além da imagem de um piloto obcecado pelas vitórias e recordes. Concebido, produzido e escrito na delicada e emocionante fronteira entre o Ayrton e o Senna, a pessoa e o esportista, o homem e a celebridade; a biografia procura desvendar enigmas, mas também ultrapassar o mito criado em torno do piloto, traçando um retrato mais profundo de Ayrton Senna como homem, filho, namorado e amigo - com suas virtudes e defeitos, seus segredos e manias, suas alegrias e frustrações.
Fruto de minucioso trabalho de pesquisa e mais de 200 entrevistas, Ernesto Rodrigues narra em ritmo arrebatador, cada etapa da vitoriosa carreira de Senna e traz revelações inéditas sobre as dificuldades e os momentos de superação, as amizades e intrigas, a solidão e os amores da vida deste ícone do povo brasileiro. Abrangente, profundo e criterioso, 'Ayrton, o Herói Revelado' é leitura indispensável para todos que desejam conhecer a fundo a vida de um dos maiores ídolos de nosso esporte.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Objetiva
Cód. Barras 9788573026023
Altura 23.50 cm
I.S.B.N. 8573026022
Profundidade 3.50 cm
Acabamento Flexível
Número da edição 1
Ano da edição 2004
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 640
Peso 0.98 Kg
Largura 16.00 cm
AutorRodrigues,Ernesto

Leia um trecho

Palmas no Tremembé Milton Guirado Theodoro da Silva sempre foi o primeiro a dizer que jamais planejou ou sonhou que o filho se tornasse um piloto de competição, mesmo quando construiu para ele, em seis meses, o kart equipado com freios a disco e o motor de picadeira de cana que permitia uma velocidade de até 60 quilômetros por hora. No início, era mesmo uma brincadeira a mais para o filho inquieto e agitado, facilitada pelo fato de Milton ser dono de uma metalúrgica. Um homem de origem simples, filho de um motorista do Horto Florestal de São Paulo, Milton começou a construir sua fortuna pessoal no ramo de compra e venda de automóveis, negociando com as lojas situadas nas proximidades do complexo penitenciário do Carandiru, no bairro de Santana, Zona Norte de São Paulo. Habilidoso e rigoroso no trato com o dinheiro, Milton não demorou a acumular um capital que lhe permitiu não só financiar os donos das lojas como ampliar os negócios e montar a metalúrgica Universal, que o transformou num próspero fornecedor da nascente indústria automobilística brasileira. Milton também entrou no ramo da construção civil e, anos depois, tornou-se proprietário de dezenas de fazendas e milhares de cabeças de gado na região Centro-Oeste e na Bahia. "Miltão", como sempre foi tratado pelos amigos e pela família, incluindo a mulher, dona Neyde, gostava de carros e de corridas. Por mais que gostasse, no entanto, é possível afirmar que nunca passou por sua cabeça que Ayrton pudesse se tornar piloto de competição. Nem no âmbito sul-americano o automobilismo brasileiro era uma força. As poucas corridas, naquele início dos anos 60, eram muito perigosas e às vezes fatais, para pilotos e espectadores, principalmente quando disputadas em circuitos de rua, como os de Piracicaba, Petrópolis e Rio de Janeiro. Um retrato da época: num fim de semana de outubro de 1964, no circuito da Barra da Tijuca, houve um episódio que muitos do esporte consideram um acontecimento único no automobilismo mundial: um mesmo carro, uma Alfa-Giulia, matou duas pessoas, na mesma corrida, em dois momentos diferentes, com dois pilotos diferentes ao volante. No primeiro acidente, o piloto Mário Oliveti atropelou dois guardas da Polícia Militar, um dos quais morreria dias depois. Depois, Carlos Augusto Lamego assumiu a direção da mesma Alfa-Giulia para concluir a corrida, mesmo não estando inscrito na prova. Derrapou, perdeu o controle do carro e foi em direção aos espectadores. Uma jovem morreu na hora. O kart era para ser, portanto, um brinquedo. Uma alternativa às bicicletas e carrinhos de rolimã daquele menino que nascera de parto normal no início da madrugada do dia 21 de março de 1960, na tradicional maternidade Pro Matre, na Bela Vista, região central da cidade. A casa em que Ayrton passou os primeiros quatro anos de vida pertencia a João Senna, pai de dona Neyde, e ficava na esquina da rua Aviador Gil Guilherme com avenida Santos Dumont, a menos de 100 metros do Campo de Marte, uma grande área onde funcionavam o Parque de Material da Aeronáutica e um aeroporto. I n c a s Venusianos Ayrton, o Beco, um pequeno paulistano inquieto, estabanado e comilão. Nos primeiros anos de vida, Ayrton não deu o menor sinal de que poderia se tornar o prodígio de precisão e concentração que assombraria o mundo do automobilismo. Dona Neyde e a irmã mais velha, Viviane, eram testemunhas diárias de seu jeito desastrado e de sua média preocupante de tombos, tropeções e batidas de cabeça, algumas delas fortes o suficiente para deixar grandes marcas pelo corpo e galos na cabeça. Ser canhoto, naquela época, no Brasil, era motivo de preocupação até para educadores. Dona Neyde chegou a agradecer a oferta curiosa de uma professora de Ayrton: ela se ofereceu para forçar Senna a trocar a mão esquerda pela direita, na hora de escrever. A preocupação de dona Neyde com o que no futuro se chamaria de hiperatividade do filho a levou a procurar até um neurologista. O resultado do exame foi tranqüilizador. Ayrton não tinha nada de errado. Na verdade, era desajeitado, soube a mãe, por ser rápido demais em tudo o que fazia. Era voraz na hora de experimentar, veloz na hora de aprender. Faltava apenas descobrir um pouco mais de precisão na ocupação dos espaços físicos. E era apenas uma questão de tempo para o problema desaparecer, levando com ele o estilo e a fama de desastrado. O neurologista não fez apenas um diagnóstico. Tateou um fenômeno. Em 1964, Milton da Silva, cada vez mais bem-sucedido nos negócios, levou a família para a região mais alta e nobre do bairro de Santana, uma área onde, graças ao aclive geográfico, os moradores tinham uma das mais belas vistas da cidade. A nova casa, situada na esquina das ruas Pero Leme e Condessa Siciliano, tinha dois pavimentos, jardim e garagem. Era a mais confortável e bonita da rua. Os pais de Senna eram admirados por serem pessoas simples, apesar da notória e crescente riqueza. Robinson Gaeta, morador da rua e amigo de Ayrton quando os dois tinham entre quatro e sete anos, era um dos que admiravam a família Senna. O pai de Robinson, Martino, não escondia dele, também, a admiração que tinha pela beleza de dona Neyde. E dizia que a avó de Ayrton era chamada na vizinhança de Maria Bonita pelos mesmos motivos. Dentro de casa, a preocupação de Senna era com a destruição do planeta pelos incas venusianos e, posteriormente, pelos seres abissais, vilões submarinos que emergiam do fundo do mar e provocavam terremotos, sempre no Japão.Todos exemplarmente derrotados, ao final de 39 episódios, por Nacional Kid, herói da tevê de Senna e dos meninos de sua geração. Alguns anos depois, Ayrton passou a ser um entusiasmado fã do desenho animado Speed Racer, um jovem piloto de competição, sempre disposto a lutar pelos amigos, pela justiça e para ser o melhor corredor do mundo, ao volante do Mach 5. Um carro construído pelo pai. Na rua, Senna era o menino que tinha sempre os brinquedos mais bonitos e caros, pelo menos na memória de Virgínia Bertinni, vizinha três anos mais velha. Muito tímido, Ayrton gostava de emprestar tudo o que levava para a rua: "Ele era uma graça.Tão bonzinho que alguns até se aproveitavam e tentavam fazer ele de bobo. Tudo o que falavam para ele fazer, ele fazia. E pediam tudo emprestado. Ele sempre emprestava e ficava sentadinho na calçada, olhando." Quando o menino entrou no kart pela primeira vez, a ternura que ele despertava deu lugar à incredulidade. Seria assim por 30 anos. João Alberto, um vizinho, seis anos mais velho que Senna, amigo de Viviane, estava entre as pessoas que testemunharam a primeira vez em que Ayrton se ajeitou no banco anatômico do kart fabricado pelo pai e acelerou: "Foi arrepiante. Ele tinha uns quatro anos e todo mundo ficou vendo ele andar no kart. Já na primeira volta na rua de terra, ficamos todos impressionados com a noção que ele já tinha." Em pouco tempo, aos sábados, domingos e feriados, Milton começou a levar Ayrton, os amigos e o kart para locais mais amplos e fechados, para que eles se divertissem com mais segurança. Podia ser um loteamento próximo à rodovia Fernão Dias, na saída de São Paulo para o sul de Minas, ou as áreas ainda em construção da Marginal do Tietê. O local preferido, por anos a fio, foi outro loteamento, situado na parte alta do bairro, o Palmas do Tremembé, futuro bairro de mansões, ainda vazio na época. João Alberto foi um dos primeiros adversários de Senna no volante: "Não dava. Eu tinha uns 12 anos e não corria como ele, que tinha somente seis." No início, Milton acompanhou o show de kart dos meninos com preocupação. Sempre havia um adulto por perto, ele ou Pedro, o motorista da família. Depois, aos poucos, o Ayrton foi ganhando autonomia. Aos sete anos, já ia por conta própria até a oficina mecânica de Martino Gaeta, pai do amigo Robinson, para providenciar "uma graxinha" para as rodas do kart. E acabava ficando: "Ele punha a graxinha no kart e ficava por lá. Adorava observar os carros e o trabalho na oficina." Em 1968, durante um fim de semana na cidade de Itanhaém, litoral de São Paulo, a família tomou um susto que depois virou motivo de muitas risadas. Ayrton, então com apenas oito anos, foi conduzido à casa de praia da família pelo delegado da cidade, que o flagrara dirigindo, sozinho, a camionete Veraneio do pai. Ayrton era tão pequeno, que a primeira impressão do delegado foi de que o carro estava sem motorista. Aos dez anos, Senna tinha uma espécie de aventura secreta. Vizinhos de porta da família no alto da rua Condessa Siciliano, Norberto Vieira Lima, então com 18 anos, e a irmã mais nova,Vera, saíam com ele de carro, um Puma, e, sem que Milton e dona Neyde soubessem, entregavam o volante para ele. Ayrton, de acordo com Vera, mal conseguia alcançar os pedais: "A gente colocava almofada para ele dirigir o carro. E ele adorava. Nunca aconteceu nada porque ele sempre foi muito ponderado. Ayrton era audacioso, sim, mas muito responsável, sabia o que estava fazendo." Trinta anos depois daquelas escapadas para matar a fome precoce e intensa de dirigir, Senna foi visto por Vera em uma rua do bairro do Morumbi, logo depois de vencer o GP do Japão de 1993.Vera estava com o filho Renato, de 12 anos, e se aproximou da Mercedes em que Senna estava. A surpresa e a satisfação foram tão grandes que Ayrton fez questão de que ela entrasse no carro com o filho, para que ele retribuísse as voltas de carro às escondidas nas ruas de Santana. Vera entrou e Ayrton pôs o filho dela no volante da Mercedes. Deram uma volta para lembrar os tempos do Puma. Susto e m Campinas Aos nove anos de idade, Ayrton ganhou um kart de verdade. O novo brinquedo era um pequeno foguete que pesava menos de 50 quilos, tinha volante igual ao dos carros de Fórmula 1, freios a discos hidráulicos e era empurrado por um motor com cerca de 100 cilindradas. Chegava a mais de 100 quilômetros por hora, em pistas que tinham como proteção alguns metros de gramado e pilhas de pneus velhos. "Mataram o moleque." Milton da Silva lembrou, em depoimento ao jornalista Lemyr Martins, que levou um grande susto logo na primeira corrida em que o filho enfrentou os pilotos oficiais da categoria. Ao defender a liderança, numa prova amistosa realizada em Campinas, Ayrton e seu novo kart sumiram no meio de uma nuvem de poeira, depois de um estrondo. Já antes da corrida, Milton, assustado com o ar carregado de competição, com a média de idade dos concorrentes, quase todos mais velhos que o filho, e com o zumbido impressionante daqueles pequenos bólidos, tremeu com o resultado do sorteio da ordem de largada. Na sorte, aos nove anos de idade, Senna conquistou a primeira pole position de sua carreira. Em pânico, Milton partiu para uma solução radical: "Fiz tudo para ele não entrar na pista. Retirei a inscrição e guardei o kart. Mas a insistência dele foi tão grande, que acabei concordando, com uma exigência: não sair na pole position e sim em último. Também perdi essa parada." Ayrton não apenas aproveitou a pole position como manteve a liderança da prova por 35 voltas, resistindo à pressão dos veteranos que o seguiam. A cinco voltas do final, o acidente. Milton correu para o local pensando no pior: "Cheguei na curva, ele já estava de pé, sacudindo a poeira e olhando feio para o garoto que o tirou da pista." A brincadeira dos loteamentos tinha acabado. Mas o gosto do menino só aumentava. Dever de Casa Antes de completar 12 anos, quando freqüentava a piscina do clube Macabi, Ayrton costumava dar caldos em uma menina de olhos claros que tinha sua idade. Ela era filha de Grizelda, uma amiga de dona Neyde, casada com o psicoterapeuta Fábio de Vasconcellos. A menina era a bela Lilian de Vasconcellos, que, anos depois, seria namorada e única mulher a se casar com ele. Mais de 30 anos depois, ela identificou, no padrão ético e moral dos Senna da Silva, a mesma herança que tinha em casa. O "lado ruim" da herança das duas famílias, de acordo com Lilian, era "a falta de permissão para errar". Uma situação que, para ela, muitas vezes impediu que Ayrton aproveitasse as coisas boas da vida: "O Ayrton mesmo se cobrava. Ele perdeu algumas coisas, como eu também perdi, pelo excesso da obrigação de ser. O fato de o pai dele ter ficado rico saindo do nada, por exemplo, fez com que ele desejasse percorrer uma trajetória própria, sem nada do seu Milton." Para Lilian, o perfil de comportamento da família de Ayrton combinava bastante com o estilo discreto, caseiro e conservador das famílias abastadas que tinham casas naquela região de São Paulo. E havia, também, para ela, uma grande vantagem naquele jeito de ser da família: "A formação era moralmente rígida e tinha um lado muito bom: princípios, respeito às pessoas e aos compromissos de toda ordem. Foi nesse ambiente familiar que nasceu a determinação com que Ayrton perseguiu os objetivos dele." Nada mais natural, portanto, que Ayrton fosse matriculado pelos pais no austero Colégio Santana, o melhor e mais tradicional do bairro. Em entrevistas futuras, Ayrton reconheceu que seu desempenho escolar diminuiu, à medida que seu envolvimento no mundo do kart ficou mais intenso. Ainda assim, a ex-professora Maria do Carmo, mais de 30 anos depois, lembrou que ele era um aluno educado, cujas notas não destoavam da média da sala. E que muitas vezes ele chegava atrasado do recreio, todo vermelho e suado. Correndo. O velho desafio de canalizar as energias continuou na escola. E, no caso das aulas de judô, o tiro saiu pela culatra nos pátios do Colégio Santana.Em fevereiro de 1989, em entrevista à revista Exame VIP, Ayrton contou: "Como todo ariano, sou um tanto difícil e estourado. Na escola, eu era brigão, com um agravante de saber lutar judô. Minha mãe me pôs na escola de judô naquela de que eu precisava queimar energias, ficar mais calmo. Fiquei cada dia mais brigão. Acabei batendo em muito garoto na escola apenas para treinar um pouco." O Espanhol Maurizio Sandro Sala começou a correr de kart seis meses antes de Ayrton, em 1973, na categoria Júnior. Tinha feito o prestigiado curso da escola de pilotagem de Carol Figueiredo e preparava seu motor na oficina do espanhol Lúcio Pascoal, o Tchê. Maurizio foi a sensação do kartódromo de Interlagos, até um dia em que Tchê avisou: - Tem um moleque muito bom que está treinando na pista do Anhembi. Era Ayrton, que vinha de uma série de vitórias na Categoria Estreantes e Novatos, e estava chegando à categoria Júnior. O que se viu com os dois pilotos, a partir da primeira prova em que eles estiveram na mesma pista, foi um enredo só, até o final da temporada: batidas, rodadas e saídas de pista todas as vezes, sem exceção, em que Ayrton e Maurizio disputaram posição. A razão de tanta encrenca, Maurizio lembrou 30 anos depois, era uma só: "Ele era mesmo mais rápido. Eu que não deixava ele passar." No final daquele ano, Maurizio mudou de categoria, passando a Piloto de Competição (PC). Ayrton ficou na Júnior. Os dois jamais voltaram a se enfrentar em competições oficiais. E ficaram amigos para o resto da vida. Maurizio e outros contemporâneos de Ayrton que não resistiam a ele na pista lembraram que, desde o primeiro momento, Senna teve nas mãos um equipamento de qualidade e um "envolvimento mais profissional" que, na opinião de Maurizio, era decorrente da atitude do pai: "O estilo Miltão era o seguinte: se vai fazer, faz direito." Fazer direito incluía, de acordo com a indicação feita pelo piloto Aloísio Andrade a Milton da Silva, entregar o kart de Ayrton aos cuidados de Tchê: - Se você quer um motor bom, fala com o espanhol da Mooca. Assim foi feito. No dia 26 de junho de 1974, uma quarta-feira, Milton e Ayrton, então com 14 anos, foram até a oficina de Tchê, na Mooca, para pedir que o motor do kart fosse preparado já para a corrida daquele ano, em Interlagos. Tchê sabia o que tinha de ser feito com o motor e o preço era 361 mil cruzeiros. A reação de Milton, de acordo com Tchê, foi o primeiro ruído de um relacionamento que jamais deixaria de ser delicado e tenso: - Está muito barato para ficar bom. - Vai ficar bom. E se o moleque andar certinho, ele vence. O negócio foi feito. Na pista, durante os treinos, o "moleque" teve a primeira lição daquele espanhol que tinha, em comum com o pai dele, um estoque limitado de sorrisos. Senna estava atravessando o kart nas curvas, crente que dava show: - Menino, quem te ensinou a guiar desse jeito? - Aprendi sozinho, na pista do Anhembi. - Não é assim.Tenta andar mais redondinho. No domingo, Tchê teve o orgulho de dar a bandeirada para a primeira vitória oficial de Ayrton Senna da Silva. A foto da bandeirada tornou-se uma espécie de grife da oficina. E logo nos primeiros dias de trabalho com o menino, Tchê viu algo que jamais tinha visto e jamais voltou a ver em mais de 30 anos de kartismo: Ayrton saía para treinar levando, na mão esquerda, um cronômetro. Um caso curioso de acumulação das funções de piloto e chefe de equipe. Senna não cronometrava a volta completa. Ele dividia o kartódromo de Interlagos em quatro trechos e ficava experimentando diferentes freadas, trajetórias, acelerações e regulagens que lhe dessem mais alguns décimos ou centésimos de segundo. Para quem assistia ao treino, ele parecia lento, pois só andava no limite em um dos quatro trechos em cada volta que dava. Só na hora da tomada oficial de tempos é que o kartódromo descobria que o kart número 42 era quase sempre o mais veloz. Sem o cronômetro na mão esquerda, a boa, ele juntava, em uma volta voadora, tudo o que tinha aprendido separadamente nos quatro trechos do circuito. Charles Marzanasco Filho, piloto na época e futuro assessor de imprensa de Ayrton nos tempos da Fórmula 1, lembrou do resultado visual: Junho, 1974. A primeira vitória oficial de Senna na categoria Júnior, em Interlagos. Quem dá a bandeirada é Lúcio Pascoal, o Tchê, preparador que acompanhou Ayrton até a transferência para o automobilismo. "Ele tinha um jeito de frear muito especial. Botava o kart de lado e o motor parecia até apagar. Escorregava por toda a curva até a saída, quando o motor voltava a funcionar já com os pneus numa posição perfeita de aderência para a retomada da aceleração. Ayrton era muito, muito mais rápido que os outros." Um piloto, em especial, quis tirar a prova na pista. O Maior Rival A rivalidade entre Senna e Mario Sergio de Carvalho, seu maior e mais persistente adversário no kart brasileiro, era tanta, e os dois estavam com tal freqüência na primeira fila do grid, que o ato de autorizar uma largada, em movimento, como todas do kartismo, tornou-se um pesadelo para os diretores de prova. Os karts eram empurrados, mas tinham de andar alinhados, lado a lado, até a bandeirada do diretor. Ayrton e Mario, tentando adivinhar, um na frente do outro, o momento em que a bandeira seria agitada, simplesmente não conseguiam ficar lado a lado. Depois de quatro ou cinco voltas lentas, o diretor parava todos os karts e advertia os dois rivais, ameaçando mandá-los para a última fila do grid. Não adiantava. Empurrados os karts, Ayrton e Mario voltavam a se vigiar pelo canto dos olhos e a dar falsas largadas por mais quatro, cinco voltas. Era quando geralmente o diretor de prova perdia a paciência e os mandava para a última posição do grid, geralmente atrás de 15 pilotos. Acontecia quase sempre. E quase sempre um dos dois acabava vencendo a prova, mesmo largando lá de trás. Foi em uma dessas corridas que Senna sofreu um acidente assustador, no fim da reta principal do kartódromo de Interlagos. Na luta para voltar à ponta, depois da punição, Ayrton decolou ao tocar na traseira de um adversário. Seu kart saiu capotando para um lado e o capacete voando para o outro. Ayrton terminou estirado no meio da reta. E quem deu de cara com ele foi Mario Sergio, andando no limite, igualmente determinado a voltar à ponta depois da punição da largada. Só teve tempo de desviar do rival caído no asfalto, entrando com duas rodas na grama. Na origem daquele acidente, um provável erro na aplicação da técnica que Ayrton e outros kartistas usavam para tirar os adversários da frente. Tchê, mais de 25 anos depois, explicou: "Ele não batia. Na verdade, empurrava os caras para fora da pista. E empurrava seguindo uma técnica que o mantinha na pista, enquanto os outros iam para a grama. Ela consistia em nunca acertar o carro por trás, para evitar a decolagem. A idéia era se aproximar pelo lado, evitar o toque de rodas e empurrar lateralmente o chassi do adversário." Mario Sergio também usava a técnica, mas achava que Ayrton abusava um pouco dela: "Ele tinha muita dificuldade de negociar as ultrapassagens." A rigorosa economia de amabilidades entre Ayrton e Mario Sergio não impediu que os dois conseguissem, juntos, uma façanha. Nas Três Horas de Interlagos, no segundo semestre de 1976, correndo em dupla e usando pneus nacionais, bem mais lentos, eles deixaram para trás astros das categorias superiores como Chico Serra, Válter Travaglini e outros que usavam pneus Goodyear importados. A vantagem, no final, foi de três voltas e, mesmo assim, Senna e Mario Sergio não se falaram. Os dois tinham em comum a determinação e o profissionalismo. Ayrton estudava de manhã e passava as tardes no kartódromo. Mario Sergio estudava de tarde e, por isso, usava as manhãs para treinar. De segunda a sexta. Fizesse sol, fizesse chuva. Os resultados apareciam nos fins de semana, quando os dois estavam sempre disputando a ponta à frente de 28, 30 adversários. Para Lito Cavalcanti, jornalista especializado e correspondente brasileiro da revista inglesa Autosport, a façanha de Ayrton ultrapassava o duelo com Mario Sergio na pista: "Ayrton era um demônio. Matava o filho do dono do kart." O "dono do kart" era Mario de Carvalho, pai de Mario Sergio, fabricante e fornecedor de peças dos dois pilotos. Lito acrescentou: "Notícia, para nós, era Ayrton Senna não ganhar." Mario Sergio não discutiu, mas registrou uma incorreção que vinha sendo repetida pelos que contavam a história da carreira de Senna no kart: "Parece verdade, mas não é. Ao contrário do que dizem muitos currículos de Ayrton publicados na mídia, ele não foi campeão paulista de kart em 1976. Senna foi vice. O campeão fui eu." Chico Serra, a grande estrela do kart brasileiro na época, revelou, quase três décadas depois, que tinha uma rivalidade "estranha" com Senna. Um clima de animosidade que só existia fora da pista, já que os dois, salvo em competições amistosas ou extracampeonato, nunca se cruzavam. Por causa da idade, Chico, três anos mais velho que Ayrton, estava sempre na categoria de kart imediatamente acima da de Senna. Mesmo assim, os dois não se falavam. Para Chico, o fato de Ayrton chegar muito rápido e chamar logo tanta atenção fez com que o clima ficasse pesado: "Um sabia quem precisava ser derrotado e o outro sabia quem era a ameaça." Apenas um muro separava o kartódromo de Interlagos da pista onde se disputava o GP do Brasil de Fórmula 1 e as provas dos campeonatos brasileiros de automobilismo. De acordo com Tchê,Ayrton nem se dava ao trabalho de subir no muro para ver como era o autódromo. Mas um dia, durante os treinos para o GP do Brasil de 1979, ele ouviu um ronco tão forte, que trepou correndo no muro. Era a Ferrari de Gilles Villeneuve, entrando no antigo retão do circuito. Fórmula 1, para Ayrton, naquela época, ele diria em uma entrevista à revista Exame VIP, era "um sonho absolutamente inatingível". No resto do ano, Ayrton não ligava para o que se passava no autódromo. Tchê tinha uma tese para explicar aquele descaso. Achava que Ayrton não se sentia tão seguro com os carros, pois vivia perdendo rachas para um amigo de Santana, Antônio Português. Oficialmente, porém, o comentário de Senna sobre o autódromo era o seguinte: - Esse negócio é muito lerdo. S o f i a Em uma tarde de julho de 1976, a jovem Barbara Gancia, filha de Piero Gancia, ex-piloto e sócio da Martini no Brasil, foi ao kartódromo de Interlagos acompanhar o treino do irmão Carlo.Ayrton estava na pista e a impressão que Barbara teve do rapaz que Carlo apontou como "futuro campeão do mundo" não foi das melhores: "Ele não era muito simpático, ficava longe do 'auê' dos boxes, não se misturava e não fazia amizades. Não era um ser social." A imagem de Ayrton, para Cristina Sala, irmã de Maurizio Sala e também freqüentadora do kartódromo, era diferente: um rapaz solitário que foi apelidado com o número do kart que pilotava,"42", e que tinha como companhia o preparador Tchê e, de vez em quando, o pai. A mãe e Viviane raramente apareciam. Leonardo, quatro anos mais novo, passou a freqüentar o kartódromo um pouco mais tarde. Cristina e Ayrton começaram a ter mais intimidade quando ele passou a aceitar os convites da turma de pilotos que se reunia na casa dela, antes de programas que geralmente terminavam nas mesas do restaurante Juca Alemão, no bairro do Brooklyn. A casa de Enrico e Maria Luiza Sala, a "Pupi", pais de Maurizio e Cristina, era ponto de reunião de um grupo que incluía Mário Covas Neto, o Zuzinha, Dárcio dos Santos, futuro campeão de monopostos e tio de Rubens Barrichello, e outros, que usavam a garagem do fundo da casa para acertar ou revisar os karts nos fins de semana de corrida. Ayrton era sempre convidado, mas só começou a freqüentar a casa timidamente, quanto mais interessado foi ficando em Sofia Aidar, uma morena de origem árabe extrovertida e atirada, amiga e vizinha de Cristina. Mesmo sendo menor, ele costumava aparecer na casa dos Sala num Corcel amarelo que fazia muito sucesso. Ao contrário dos outros pilotos, mais interessados em passeios de motocicletas e outros programas juvenis, ele era muito sério e, recordou Cristina, adorava o que sua geração chamava de papo-cabeça: conversas filosóficas e existenciais. Gostava tanto, que estava participando de um curso de controle da mente, o Power Mind, do qual falou com entusiasmo, em longos encontros com Cristina na casa dela e a bordo da lancha que ganhara do pai, na represa da Sabesp. Outro assunto obrigatório era o plano de namorar a amiga de Cristina: - Eu vou conseguir namorar a Sofia, eu vou conseguir. A hesitação de Sofia deixava Ayrton exasperado. E Cristina tinha uma explicação: "Ela jogava muito charme, mas caía fora na hora do vamos ver." Os outros pilotos aceleravam motocicletas e tomavam sorvete nos pontos da moda.Ayrton, obstinado, chegou a chorar por Sofia na frente de Cristina: - Ela me deixa louco. Não sei o que fazer. Quando Cristina já começava a se incomodar com o papel de inútil intermediária, Senna e Sofia finalmente se entenderam e começaram a namorar: "Ele se revelou um namorado possessivo e conservador,mas afetuoso. Como confidente, não foi difícil, para mim, perceber a influência, nos gestos, idéias e reações, da postura provinciana de sua família e do estilo autoritário do pai." Em poucos meses, o namoro acabou. Logo depois, Mário Covas Neto, o Zuzinha, começou a namorar Sofia. E nos meios do kartismo paulistano, na memória de Cristina, Zuzinha foi chamado por uns tempos de "namorado da namorada do 42". Ayrton deixou de freqüentar a casa dos Sala algum tempo depois. Alfredão e as Minas Os amigos de verdade continuavam do outro lado da cidade, no bairro de Santana. Alfredo Popesco, um deles, era o filho mais velho de Ilse, uma viúva, imigrante romena, que sustentava os filhos com a venda de roupa na garagem da casa simples em que morava, na mesma rua dos Senna. No começo,Ayrton era mais chegado ao irmão de Alfredo, Ricardo, um ano mais novo. Mas logo a experiência, a segurança e a liberdade dos 17 anos de Alfredo fizeram com que Senna, então com 16, ficasse mais ligado a ele. A amizade construiu-se a partir do intenso sentimento de competição de Ayrton. Primeiro, na mesa de pingue-pongue. Alfredo jogava muito bem. Senna não se conformava em perder e chegou a deixar o novo amigo irritado com a insistência para novos tira-teimas. E jogou muito até conseguir, finalmente, vencer Alfredo, meses depois de muito treino. E bastou Ayrton botar a lancha Sissa nas águas da represa de Mairiporã para perceber que tinha outra obsessão pela frente: esquiar melhor que Alfredo, uma fera no esporte, que, por não ter dinheiro suficiente, vivia encostado nos donos de lancha do lugar. Alfredo mesmo se chamava de "puta de barco". Trocava sorrindo uma faxina ou um pequeno conserto por uma esquiada. Quase três décadas depois, Alfredo disse que Senna ficou "desesperado" no dia em que o viu esquiar pela primeira vez. Imediatamente, começou, nas águas da represa, um processo muito semelhante ao que tinha ocorrido nas mesas de pingue-pongue. Ayrton treinou à exaustão até ter um desempenho comparável ao do amigo "puta de barco". E conseguiu, Alfredo reconheceu. A disposição de "guia turístico" que tomava conta de Ayrton quando ele estava com os amigos mais chegados levou os dois a viverem uma situação arriscada. Em 1977, eles se encontraram uma noite na praia de Bertioga, litoral de São Paulo.Alfredo estava com o velho Fusca ano 73 amarelo da mãe e já deu uma bronca quando Ayrton encostou com o seu Corcel 77 também amarelo, equipado com rodas de magnésio e teto solar: - Você é um bundão. Por que não trouxe alguma coisa? A lancha, por exemplo? - Vamos buscar, então. No início da madrugada, os dois já estavam em São Paulo no Corcel amarelo. Na nova casa de Ayrton, uma mansão no alto da rua Nova Cantareira, Alfredo teve de acompanhar, impotente, o ritual perfeccionista do amigo: calibragem dos pneus do reboque, amarração da lancha, conferência da documentação, engate, corrente e combustível para a Caravan do pai de Senna que puxaria o reboque. Tudo pronto, eram 3h30 da madrugada quando eles partiram novamente de São Paulo para Bertioga. Duas horas depois, o dia já amanhecendo, nem Ayrton, nem Alfredo conseguiam mais ficar de olhos abertos. Na chegada a Guarujá, depois de os dois se alternarem no volante entre uma e outra cochilada, Alfredo dormiu de vez e a Caravan saiu da pista, parando num brejo com o páralamas amassado e um furo no casco da lancha. Minutos depois, um carro da polícia se aproximou, e os dois amigos inventaram rapidamente que tinham sido fechados por um caminhão. O policial acreditou, partiu correndo em busca do motorista irresponsável do caminhão e chamou um trator para tirar a Caravan dos pobres rapazes do brejo. Ninguém se feriu. Não foi a primeira encrenca rodoviária de Ayrton Senna. Alguns anos antes, de acordo com Alfredo Popesco, a frota de carros da família, então formada por uma Mercedes verde de duas portas, outra branca, de quatro portas, a Caravan do brejo de Guarujá e uma Belina, foi subitamente reduzida. O máximo que Alfredo se permitiu revelar foi que, depois de um fim de semana no Guarujá, Senna chegou em casa apenas com o volante da Belina nas mãos. Em 1976, Ayrton ganhou do pai uma moto Suzuki de 185 cilindradas. Imediatamente, começou a tentar a façanha de praxe: empinar a moto. Mas caía muito. E também não parava de tentar empinar e continuar levando dezenas de tombos. A situação chegou a um ponto em que Milton da Silva decidiu simplesmente vender a moto. Ao saber da decisão do pai de Senna, Alfredo sugeriu que ele aproveitasse a oportunidade para pedir uma lancha. Conselho dado, pedido feito, e Senna, em vez de apenas perder a moto, trocou-a por uma lancha branca de 19 pés, motor Johnson de 115 HP, batizada posteriormente de Sissa. A partir deste momento, a represa de Mairiporã passou a ser um lugar muito freqüentado por Senna. Alfredo foi o guia de Senna no mundo das mulheres. Ayrton, ingênuo e romântico demais para a média da turma, admirava a experiência e a firmeza de Alfredo com as moças. Em uma ocasião, porém, a abertura oficial do kartódromo de Natal, no Rio Grande do Norte, os dois ficaram iguais em matéria de inexperiência. Pela primeira vez, estiveram diante de um cigarro de maconha. Aceso. Alfredo garantiu que, na última hora, assustados, os dois recusaram a experiência e optaram apenas por beber. E que foram dez dias de muita farra durante os quais, além de namorar, os dois tiveram nas mãos, por gentileza dos organizadores da festa, duas vedetes das ruas brasileiras na época: um Opala "seis cilindros" e um Maverick "V8". Quem queria saber de maconha? As dunas quentes de Natal e suas experiências assustadoras foram exceção. Normalmente, Ayrton, Alfredo e Américo Jacoto Júnior procuravam se enroscar com as moças do bairro durante a missa dominical das dez horas da manhã, na igreja Salete, na rua Doutor Zurquim, centro de Santana. Foi na chamada "missa da paquera", o agitado ponto de encontro dos filhos e filhas de classe média do bairro, que Alfredo apresentou Ayrton a Rosângela, uma morena bonita que acabou se tornando sua primeira namorada "firme". O namoro durou mais de um ano, mas a primeira reação de Rosângela, após o encontro na missa, resumiu-se a uma frase meio decepcionada dela para Alfredo, longe de Ayrton: - Puta orelhudo, meu! Não tinha um melhor para apresentar? De acordo com Alfredo, no dia seguinte, ao conhecer mais o novo namorado e também a casa em que ele morava, Rosângela passou a prestar menos atenção às orelhas de Ayrton. O namoro acabou um ano depois, desgastado por uma série de "puladas de cerca" de Senna. Era a praxe na turma: namoro comportado até deixar a namorada em casa. Depois, gandaia. Na abordagem das mulheres, em boates da moda de sua geração, como a Banana Power e a Papagaios, Ayrton fazia questão de não parecer rico. Detestava imaginar que uma garota saísse com ele por causa do dinheiro que tinha. Uma noite, ao volante de uma das Mercedes da família, ele se aproximava do Brunella, outro ponto de encontro famoso dos jovens de classe média de São Paulo no início dos anos 80, na rua Gabriel Monteiro da Silva, Jardins. De repente, Ayrton parou o carro e pediu que Alfredo assumisse o volante. Alfredo sabia do receio do amigo e tentou convencê-lo a continuar no volante da Mercedes: - Ayrton, não interessa, porra. Você não vai mesmo casar com essas mulheres! - Não. Guia você. Cumprindo com sinceridade o papel de amigo, Alfredo reconheceu que adorava passar ao volante da Mercedes na frente das mulheres. Provavelmente por causa da admiração que tinha pelo jeito tranqüilo com que Alfredo lidava com elas, Ayrton tomou uma atitude pouco comum quando Alfredo falou da paixão que estava sentindo por uma modelo da grife Soft Machine. Convidado por ela para um encontro em Ubatuba, ele queria ir, mas não tinha dinheiro. Para sua surpresa, dois dias depois, Ayrton apareceu com uma raquete de tênis importada que tinha acabado de ganhar da mãe: - Fica com ela, vende e eu digo que perdi. Depois você me paga. O dinheiro da raquete permitiu que Alfredo passasse um fim de semana inesquecível com a modelo, em Ubatuba. Américo Jacoto Júnior, o Júnior, outro grande amigo de Santana que acompanhou Ayrton pelo resto da vida, era da mesma idade de Senna. Os dois se aproximaram nos tempos do Colégio Rio Branco, mais exatamente durante as partidas de pingue-pongue disputadas no centro acadêmico. Júnior, conhecido na época como "Jacotinho", era um dos filhos de Américo Jacoto, um industrial do ramo metalúrgico do bairro do Tremembé. A mãe de Júnior, Aldair Marinelli, morta em 1998, era amiga de dona Neyde. Por isso, Júnior era tratado como gente de casa na família Senna da Silva. Ele tinha planos de fazer agronomia, mas terminou sendo piloto de helicóptero. Antes, no entanto, acompanhou Senna ao longo da temporada de 1987 da Fórmula 1. Júnior seria usado por adversários de Ayrton como protagonista principal do boato que marcou o amigo para o resto da vida. Caso Perdido Em 1977, quando Ayrton foi campeão sul-americano de kart, os brasileiros passavam por uma espécie de entressafra de vitórias e boas notícias no automobilismo. O bicampeão mundial Emerson Fittipaldi, decidido a perseguir o sonho de vencer com uma equipe própria, entrava no segundo ano da frustrante saga da equipe Copersucar. José Carlos Pace, esperança brasileira na equipe Brabham, morrera tragicamente num acidente de avião, nos arredores de São Paulo. Nélson Piquet, ainda longe da Fórmula 1, pagava o preço de uma escolha de carro errada e enfrentava uma difícil temporada no campeonato europeu de Fórmula 3. Coincidência ou não, havia um político que defendia, em janeiro daquele ano, a imediata suspensão das corridas de automóvel no Brasil, "pelo menos para dar sentido" às providências que estavam sendo tomadas pelo governo, na época, para conter o consumo de gasolina. Era o deputado governista José Bonifácio, líder da Arena no Congresso Nacional. Ele estava indignado com as exceções abertas pelo programa de racionalização de combustíveis aos pilotos de competição," essa gente que não faz nada": "Não é justo que nos autódromos se continue a desperdiçar gasolina com aqueles carros numa disparada inútil, pois não chegam a lugar nenhum, não trazem divisas para o país e não educam o povo. A medida não implicaria nenhum problema, pois os donos dos automóveis são empresas extremamente ricas e os corredores dispõem de dinheiro suficiente para passar o resto da vida sem trabalhar." Longe da tribuna da Câmara dos Deputados, no kartódromo de Interlagos, Milton da Silva parecia mais distante do que nunca da idéia inicial de que o kartismo era um "brinquedo" para Ayrton extravasar as energias e se manter longe das drogas e de outros perigos. A medida do seu envolvimento na carreira já brilhante do filho no kart, e também da insolúvel rivalidade com o preparador Tchê, foi um episódio na preparação para mais uma prova do campeonato daquele ano. Um erro de Tchê na montagem do motor do kart fez com que Ayrton não fosse bem nos treinos. Foi o que bastou para que Milton, antes da tomada oficial de tempos, fosse duro na cobrança de Tchê. Até Ayrton entrou na discussão para acalmar os dois. O clima ficou mais pesado ainda quando Senna, acostumado às poles, ficou em quinto lugar no grid.Milton manteve a postura de cobrança:- Vamos ver como vai ser essa corrida. No dia seguinte,Tchê já tinha descoberto a razão do surpreendente quinto lugar. Montou a coroa do motor do kart da maneira correta e ficou tranqüilo, confiante para a corrida. Estava certo. Ayrton largou em quinto, mas, no fechamento da primeira volta, para espanto de todos, ultrapassou os quatro competidores que estavam à sua frente na freada do final da reta. Chegou a abrir nove segundos e, de repente, misteriosamente, começou a perder terreno, até ser ultrapassado novamente pelos quatro pilotos, entre eles Mario Sergio de Carvalho, na 12a volta. No boxe, Milton da Silva começou a gesticular, impaciente. Tchê, intrigado, aproximou-se da beira da pista e fez um gesto de quem queria saber o que estava acontecendo. Ayrton tirou as mãos do volante, procurando acalmar Tchê, como quem diz: - Fica tranqüilo que eu sei o que estou fazendo. A cinco voltas do final, Ayrton começou a se aproximar de novo dos líderes. Na penúltima, passou outra vez os quatro pilotos. Na mesma freada. No mesmo ponto. Tchê saboreou a vitória com um olhar provocador para o pai de Senna. Mais de 25 anos depois, Júnior, testemunha próxima do convívio difícil de Tchê com o pai de Senna, explicou: "O Tchê era como um escudeiro sempre leal a Ayrton. Os problemas com o seu Milton tinham dois motivos: diferenças em relação ao que se devia e ao que se pagava e, principalmente, a preocupação da família com o crescente envolvimento de Ayrton com o kart e os riscos do esporte." A mágoa e as palavras duras de Tchê deram lugar a um sorriso orgulhoso, quando ele exibiu, emocionado, em 2003, uma carta de Ayrton, escrita em Milão, no dia 16 de setembro de 1979, às vésperas da disputa do Mundial de Kart. Um dos trechos foi considerado por Tchê, chamado de "espanholo" por Ayrton, uma espécie de testamento sobre sua importância na carreira extraordinária que ele ainda tinha pela frente: "És uma pessoa que tem uma responsabilidade incrível no que diz respeito à minha vida, pois quem me pôs neste mundo do kart foi meu pai, mas quem me colocou realmente na direção certa, quem me ensinou quase tudo que sei, quem me ajudou e esteve ali em todos os momentos, a pessoa que me fez chegar onde estou e que é a maior responsável pelas minhas vitórias é você. E nem imagina o quanto sou grato." O s Mundiais As cores verde, amarela e azul não foram uma escolha de Senna. Eram obrigatórias. Os organizadores do Mundial de Kart de 1978 tinham determinado que os pilotos usassem capacetes com as cores das respectivas bandeiras nacionais. O desenho que Senna ia adotar para o resto da vida não foi nem exclusivo dele, no início. O rival Mario Sergio de Carvalho, que também ia disputar o título mundial em Le Mans, na França, tinha uma pintura idêntica no seu capacete. Na lembrança do designer Sid Mosca, no entanto, a inspiração do desenho foi o estilo de Senna: "Eu queria fazer com que saísse algo agressivo de dentro dos olhos. As duas faixas que fiz, na posição que o Ayrton ficava ao pilotar, dão esse efeito." Campeão brasileiro pela primeira vez naquele ano, Ayrton usava até então um capacete pintado de vermelho e branco. A solução gráfica concebida por Sid Mosca, um fundo amarelo cortado por duas faixas, verde em cima, azul embaixo, e por filetes das mesmas cores, jamais foi alterada. Na volta do Mundial, Ayrton pediu e ganhou de Sid a exclusividade do desenho. Cloacyr Sidney Mosca, um ex-piloto de carrosturismo que trocou o volante pela pistola de pintura e ganhou fama internacional por criar a identidade visual de todos os pilotos brasileiros que foram para o exterior e de alguns estrangeiros, como sempre, não cobrou nada: "Eu fico muito orgulhoso. Ao criar um desenho, vou junto com eles." Ayrton terminou o Mundial em sexto lugar. Um resultado expressivo em uma competição na qual a escolha de equipamento e a estrutura da equipe eram tão decisivas que ótimos pilotos brasileiros, em anos anteriores, não conseguiam nem se classificar.O consolo de Ayrton foi, como sempre, aproveitar a viagem internacional para uma esperta manobra alfandegária que garantia a ele e à oficina de Tchê um precioso estoque de peças importadas. Tchê é o primeiro à esquerda, junto de Ayrton. O piloto argentino Jorge Oswaldo Dias, que fez dupla no kart com Senna, e o mecânico Silvestre, também posam para o fotógrafo, numa cena acompanhada por Leonardo - o irmão caçula, atrás do grupo. Na saída do Brasil,Tchê empacotava para viagem um kart completo e registrava o equipamento, como mandava a legislação. Na volta, Ayrton trazia o mesmo velho chassi, equipado com muitas novidades que teriam preço proibitivo, se taxadas separadamente. Senna jamais conseguiu ser campeão mundial de kart. Em 1979, quando a sede do Mundial foi Estoril, em Portugal, o título foi perdido por causa de uma controvertida interpretação do regulamento, por parte dos comissários. Na pista, Ayrton venceu a bateria final contra o holandês Peter Koene e ficou empatado com ele na primeira colocação. Sem maiores explicações, de acordo com os kartistas da equipe brasileira, os comissários abandonaram o tradicional critério do confronto direto entre Senna e Koene na fase classificatória, pelo qual Senna seria campeão. Decidiram levar em conta uma bateria da fase eliminatória da competição na qual o holandês fora quatro décimos de segundo mais rápido e deram o título a ele. Dez anos depois, em Suzuka,Ayrton perderia a chance de ser campeão em circunstâncias semelhantes: vitória na pista, decepção na hora do resultado oficial. Ainda em 1979,Ayrton mandou para Tchê, de Milão, no dia 16 de setembro, outra carta. Um documento de sua entrega total ao que fazia. Mesmo quem não entende de mecânica ou automobilismo pode sentir a intensidade. E para imaginar o que aconteceu depois, nos boxes da Fórmula 1, basta trocar os nomes: Fullerton por Prost, Angelo por Ron Dennis, Aquiles por Yoshitoshi Sakurai, Parila por McLaren, Parma por Silverstone, carburadores por motores turbo. Alguns trechos da carta: "As coisas por aqui estão bem, pois o Fullerton está muito arrogante e tanto o Angelo quanto o Aquiles (donos da fábrica Parila) estão para explodir com o inglês. Isso tudo, na verdade, porque consegui me entrosar muito bem com os italianos e com isso o inglês naturalmente se morde de ciúmes. Mas tudo bem comigo. Depois de amanhã partiremos de avião para Estoril. [...] E tudo acabou sendo resolvido com a troca do balanceamento do virabrequim, ou seja, foi trocado o alumínio por náilon como o Parila de tempos atrás e também aliviada aquela biela fortíssima que você conhece. Com isso, a vibração dos motores diminuiu bastante e o problema de anéis acabou sendo resolvido. Quanto aos pneus, chegaram da Bridgestone alguns jogos de pneus especiais para cada bateria. Com respeito aos chassis, é o mesmo do ano passado com algumas poucas alterações no caster, mangas e distância entre eixos de um metro e cinco centímetros, pois Estoril parece ser muito veloz. E levando-se em conta que os pneus possibilitam uma velocidade maior Campeonato Mundial de Kart em Estoril, Portugal, 1979. Veloz e agressivo na pista, Ayrton não era de muita conversa quando descia do carro e se mantinha à distância dos outros pilotos, que se referiam a ele como "42". ainda, torna-se necessário aumentar a distância entre eixos. Estamos apenas um pouco atrapalhados com carburadores, pois aquele suíço da fábrica está fazendo um grande mistério para nos vender alguns poucos carburadores, que são de uma importância vital, você sabe bem, não preciso explicar. Bem, espero que tenham saído notícias nos jornais. Procura comprar O Estado de S. Paulo, pois estou passando notícias diretas para esse jornal. Abraços, Ayrton." No Mundial de 1980, em Nivelles, na Bélgica, um menino alemão de 11 anos de idade chamado Michael Schumacher estava na platéia e não tirou o olho do piloto que terminou em segundo no campeonato: "Imediatamente prestei atenção num dos caras, seu traçado e sua tocada precisa. Você podia ver que ele seria verdadeiramente especial, mesmo que não tivesse equipamento especial. Eu me lembro que perguntei a alguém o nome daquele piloto. Era Ayrton Senna." O insuspeito rival Mario Sergio de Carvalho foi quem discordou com veemência dos que viam de forma negativa o fato de Ayrton jamais ter conseguido vencer o Mundial de Kart. Para Mario Sergio, Senna na verdade acabou com a tradição de resultados ruins ou pouco expressivos do kartismo brasileiro na disputa do Mundial: "Piloto brasileiro, antes de Ayrton, às vezes ficava até fora dos 34 classificados para a final. Ayrton mudou esta sina com talento e garra, mas também com a ótima pesquisa que fez antes de decidir qual equipamento usaria na competição. Ele apostou na novidade da época, os motores da fábrica DAP, e terminou vice-campeão mundial." E o que dizer da comparação entre Senna e Terry Fullerton, considerado o melhor piloto de kart do mundo por muitos anos, na época de Ayrton? Mario Sergio não hesitou: "O Fullerton era muito bom e rápido, mas o Ayrton jantava ele.Com certeza." Lilian - Volta, volta! Ayrton e Alfredo paqueravam de carro pela rua Augusta, no final de 1980. E finalmente surgiu uma oportunidade. Senna queria saber o que Alfredo, o amigo que ele tanto respeitava no assunto mulheres, achava de uma jovem loura que andava pela calçada, acompanhada da mãe: - O que você acha? Alfredo nem precisou responder. Sua boca aberta e os olhos vidrados deixavam claro que ele estava impressionado. Ayrton continuou: - É amiga da minha mãe. Alfredo aprovou com entusiasmo a idéia de Ayrton de "atacar". Eles estavam em frente a uma loja da Kopenhagen no bairro dos Jardins. Lilian de Vasconcellos descia a rua com a mãe, dona Grizelda, e percebeu a aproximação de Senna e Alfredo. "Ele me olhou diferente." Uma semana depois daquele encontro, ela terminou o namoro de quatro anos com um engenheiro civil. O avô do namorado já tinha dado uma casa de presente para eles. E os pais de Lilian já tinham comprado os móveis. Duas décadas depois, no entanto, Lilian avaliou que fez certo: "Caiu a ficha que a gente era muito diferente." No dia seguinte ao fim do namoro, Ayrton apareceu na casa dela com "Filhinho", o dobermann da família. Obra menos do acaso e muito mais da torcida das amigas Neyde e Grizelda. Seguiram-se dias de muita conversa, entremeada de treinos e corridas de kart, até que o namoro dos dois começou pra valer. A rotina era típica das famílias ricas e discretas da Zona Norte: fim de semana na piscina de uma das casas e esqui na represa de Guarapiranga. Ao som da orquestra de Barry White, a "Love Unlimited", eles jogaram muitas partidas de "War" e gamão. De vez em quando, tomavam um vinho. E iam ao cinema. Ayrton assistiu duas vezes, com Lilian, ao filme Nosso Amor de Ontem, com Barbra Streisand e Robert Redford. Religião, nessa época, segundo Lilian, nem pensar: "Zero, nada, simplesmente nada." Numa das brigas durante o namoro, Ayrton e Lilian ficaram sem se falar, e ela resolveu aceitar um convite para ir sozinha à festa da amiga Lilinha. Quando soube, Senna não hesitou: foi até a casa de Lilinha e interrompeu a conversa de Lilian com um dos convidados: - Vamos embora! Foi imediatamente obedecido. Duas décadas depois, Lilian lembrou com carinho aquele "momento machista" do ex- marido: "Achei lindo." Inglaterre Naquele final de 1980, Ayrton conseguiu convencer os pais a deixá-lo disputar o Campeonato Inglês de Fórmula Ford 1600, a chamada categoria de entrada para qualquer piloto que sonhasse fazer carreira no automobilismo europeu. Senna estava seguindo a trajetória que toda a imprensa especializada brasileira já antecipava para ele, depois dos resultados que obteve no kartismo brasileiro e internacional. Lito Cavalcanti, um dos repórteres que cobriram a carreira de Ayrton no kart, deu a ele um conselho simples: - Esquece o automobilismo brasileiro.Vai direto para a Inglaterra. Para dar o novo passo,Ayrton contou com a ajuda de um antigo rival no kart, Chico Serra. Naquele ano, Chico enfrentava uma temporada dificílima na equipe Project Four de Ron Dennis de Fórmula 2 e recebeu uma carta surpreendente de Ayrton. Um trecho: - Posso imaginar o que você deve estar passando. Mas no grid lembre- se de que você é muito bom. Chico jamais esqueceu o gesto: "A gente era moleque. Ninguém sentava para fazer uma reflexão sobre a carreira. Nesse sentido, a carta do Ayrton foi muito especial." Chico Serra indicou Senna para o dono da mais prestigiada equipe inglesa de Fórmula Ford 1600, a Van Diemen, de Ralph Firman. Não que Chico fosse um grande amigo de Ayrton. Mais de 20 anos depois, ele fez questão de deixar claro que sua iniciativa foi muito mais um gesto de gratidão a Ralph, seu ex-patrão na Fórmula Ford 1600, do que uma ajuda de início de carreira a Senna. Chico sabia que Ayrton ia vencer muitas corridas. Daí a idéia de indicá-lo a Ralph. O que nem Chico nem Ralph esperavam semanas depois, durante a conversa, na Inglaterra, foram as exigências cada vez maiores feitas por Ayrton para correr pela Van Diemen. Durante uma providencial ida de Senna ao banheiro, o perplexo Ralph cobrou de Chico: - Quem diabos ele pensa que é? Anos depois de ter contratado Ayrton e vencido com ele o Campeonato Inglês de Fórmula Ford 1600 de 1981, Ralph, ao reencontrar Chico Serra, tinha a resposta: - Acho que ele sabia quem era. Oscar Dantas de Medeiros, dono da Tranzero, uma frota de jamantas que operava na distribuição de carros da General Motors no Brasil, e dos jeans Pool, foi o principal patrocinador de Ayrton em sua primeira incursão no automobilismo europeu. Entrou com 180 mil dólares. Ralph Firman, com tanto dinheiro e um piloto daquele calibre, não esperava tanta gratidão de Chico Serra. Casamento. A farmácia do Bruno era o ponto de encontro da turma de Senna. Foi diante dela que Ayrton fez mais uma consulta sentimental ao amigo Alfredo. Dentro do carro, ele disse que estava pensando em casar com Lilian. E que, além de estar gostando da namorada, tinha outro bom motivo. Queria ter uma companhia na Inglaterra: - Lá fora a vida é muito difícil. Você vê como ela é de família, trata a gente bem e a minha mãe gosta dela. A reação de Alfredo: - Se é para o seu bem, tudo bem. Na verdade, Alfredo estava preocupado com o fato de Ayrton ser muito jovem. Mas só daria uma opinião contrária se Lilian fosse uma das "galinhas" que conhecia no bairro. E não era. Lilian, ao que constava ao bem-informado Alfredão, era virgem. Ayrton propôs casamento a Lilian logo depois de ir para a cama pela primeira vez com ela, no motel Chalé, situado no alto da serra da Cantareira. De acordo com Lilian, a proposta de Senna foi direta: - Eu sei que você é casamenteira. E sei que, se eu for embora pra correr na Europa, quando eu voltar, você já vai estar casada. Portanto, quero casar. E espero que dê certo. - Também espero. Vamos tentar. Depois de uma pausa, Lilian perguntou: - Em quanto tempo você quer casar? - Dois meses... O namoro dos dois ainda não durara o suficiente para que Lilian decidisse que destino dar ao volumoso enxoval que estava fazendo para se casar com o ex-namorado. Dois jogos de lençóis de cetim já estavam até bordados com as iniciais "F" e "L". Dois meses depois, tudo foi embarcado para a Europa em quatro malas pesadas, junto com novas peças compradas por dona Grizelda. Na hora de planejar como seria a cerimônia, a hipótese de um casamento na igreja não foi sequer contemplada por Ayrton:- Casar na igreja não. Eu me sentiria um palhaço. A alternativa foi uma cerimônia dupla e ecumênica. Naquela época, Viviane, casada com Flávio, filho de um pastor, já era uma evangélica convicta e conseguiu convencer a todos de que a melhor solução seria uma cerimônia em que um pastor abençoasse o casamento. A porção católica apostólica romana das duas famílias seria contemplada com a bênção de um padre, horas antes, na manhã do mesmo dia, junto com o casamento civil. E assim foi feito.

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