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Banalogias - Col. Filosófica (Cód: 1978505)

Bosco,Francisco

Objetiva

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Descrição

Paixão, estética, futebol, sexualidade, dança, jogos, lingüística, morte, música, comportamento, luto e artes-marciais. Nos 26 artigos reunidos em Banalogias, Francisco Bosco filosofa, com bom humor e originalidade, sobre temas do cotidiano. Ao mesmo tempo em que diverte, incita a reflexão sobre os valores da sociedade contemporânea.
Bosco levanta questões como: 'por que odiar a figura de Michael Jackson, fruto da sociedade racista norte-americana?'; 'por que nós, ocidentais, escondemos tatuagens pelo corpo no intuito de revelá-las?'; ou 'letra de música é poesia?'.
Destacam-se também as referências do autor à banalização da cirurgia estética, que visa à adequação aos padrões aceitos; à moralidade da magreza - que representa o signo da urgência; e a imobilidade a que os playboys estão condenados, entre outros aspectos que permeiam nosso cotidiano.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Objetiva
Cód. Barras 9788573028508
Altura 18.50 cm
I.S.B.N. 9788573028508
Profundidade 0.00 cm
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 208
Peso 0.44 Kg
Largura 12.00 cm
AutorBosco,Francisco

Leia um trecho

Dialética dos Playboys Eles sentavam no fundo da sala de aula. Iam de chinelo. Não tinham caderno; na véspera da prova davam uma olhada nas anotações dos outros, quando se davam o trabalho. Ou inventavam técnicas de colar. Ou nem isso. Assinavam a prova em branco e entregavam. Se estivessem sentados nas primeiras filas, era para sacanear os nerds, queimar a bunda deles com isqueiro, dar uns tapas em suas cabeças. Quando pegos em fl agrante, os mais ousados não demonstravam culpa; respondiam com arrogância ao professor. Eram mandados para a diretoria. Respondiam novamente com arrogância. Eram mandados para casa. Aos pais não é certo que respondessem com arrogância, pois aí já não havia platéia. Ostentavam suas carteirinhas como os viajantes seus passaportes: repletas de assinaturas dos responsáveis, convocações dos pais, suspensões, todo tipo de carimbo vermelho. No recreio eles não andavam — desfi lavam. Às vezes com direito a séquito. Os meninos tinham medo e admiração, as meninas achavam-nos o máximo. Eles iam à praia todos os dias. Se fazia frio, iam de casaco. Eles pegavam onda, é claro. E fumavam maconha. Muita maconha. Estranha ética essa em que se engajavam: quanto mais maconheiro, mais corajoso. Eram verdadeiros revolucionários, pequenos heróis. Falavam muitas gírias. Suspeita-se até que inventavam gírias. Todos fi cavam atentos quando surgia uma, para entender seu sentido e começar a usá-la. As gírias eram uma das formas de acesso ao mundo deles. Eles eram belos e saudáveis. Eles não precisavam trabalhar, eles tinham dinheiro para o que desejassem, eles eram admirados pelas meninas e respeitados pelos meninos. O mundo lhes sorria. Eles estavam com tudo. Mas não podiam ver que aquilo mesmo pelo que eles eram tudo viria a ser o que tudo lhes tiraria. Eles estavam alimentando uma dialética dramática. Pois a ética social adolescente que os entronizava era uma ética da inconseqüência. Não estudar, viver na praia, não trabalhar, fumar maconha todo dia — são práticas que manifestam uma rebeldia contra os valores e a lógica do mundo adulto, mundo do trabalho, mundo de direitos e deveres. Mas uma tal ética só é sustentável quando há uma estrutura por trás — leia-se: a família — cuidando das conseqüências da inconseqüência. É esse paradoxo que fatalmente transforma, com o tempo, uma conduta transgressora em uma postura infantilizada. Pois chega um ponto em que os valores sociais mudam bruscamente, e esse ponto é quando s adolescentes se vêem obrigados a tornar-se adultos, isto é, a ganhar a própria vida. Aí o destino dos playboys começa a mostrar sua cara. Tudo aquilo que eles encarnavam como virtude, agora encarnam como defeito. Não é um processo instantâneo, é claro, mas é indefectível. Aos poucos, os valores vão mudando, mas alguns não conseguem se transformar junto com eles: precisamente, o drama dos playboys é que eles recusam o tempo. Pois como se reconhece um playboy decadente? Simples: ele é igualzinho ao que era há dez anos. Tudo mudou à sua volta; ele, não. A melancolia dos playboys decaídos decorre desse autoaprisionamento, dessa impossibilidade de reinventar-se. Vestem-se do mesmo jeito, fazem as mesmas coisas, falam a mesma linguagem. Mas aquilo que era liberdade é agora um gritante beco sem saída existencial. Sem ter pra onde ir, eles se repetem. Mas se repetem sem graça, sem beleza, sem vigor. Os playboys estão velhos aos trinta anos. É um triste espetáculo a luta deles contra o envelhecimento. Porque é uma luta sem luta. Eles não sabem lutar, porque nunca precisaram fazê-lo. Eles eram belos, livres, perfeitamente adequados. O que neles envelhece, agora, é sobretudo a liberdade. Precisariam operar-se vivos, mas nunca aprenderam como. Então só o que lhes resta é recalcar o envelhecimento recalcando a história: fingem que o tempo não passa, continuam fazendo as mesmas coisas, gostando das mesmas coisas, falando a mesma linguagem. Pois essas eram as práticas pelas quais eram encantadores em seus anos dourados. Mas agora o excesso de gírias já não soa como código transgressor e up to date, e sim como índice de precariedade subjetiva. É assim que, grosso modo, o destino dos playboys é bipartido. Alguns — talvez aqueles que possuíam a habilidade de engajar-se na ética dos playboys e, ao mesmo tempo, desconfi ar dela — conseguiram fazer uma transição brusca de um dolce far niente para um violento mundo do trabalho. Outros, os mais plenamente playboys, os grandes heróis da adolescência, não puderam abdicar de si e repetem-se infi nitamente. A diferença básica é que aqueles são nostálgicos, estes são tristes. Aqueles se tornaram advogados, casaram, estão comprando apartamento no Recreio, realizaram, em suma, uma verdadeira apostasia: da praia à gravata, da contracultura subsidiada ao conservadorismo mais obediente. Passaram, portanto, do desejo à obrigação, sem mediações. E tornaram-se nostálgicos aos trinta anos, ou antes. Eles continuam fazendo as mesmas coisas e falando a mesma linguagem, mas pagam um pesado tributo ao mundo do trabalho. Aprenderam os seus códigos, os quais exercem, contudo, como um fardo. A nostalgia é justamente o sintoma dessa divisão radical entre o mundo do desejo e o mundo do trabalho. Eles perceberam que a vida de playboy era insustentável e se renderam ao mundo do trabalho. Mas o que se sacrifi cou foi o desejo, e então a vida pós-playboy passa a ser vivida sob o signo de uma perda, daí a nostalgia. Cena real: um playboy convertido se emociona ao ouvir, na jukebox de um botequim na madrugada, Flavio Venturini cantando “Nossa Linda Juventude”. Fala sério. Mas é ainda pior o destino dos sem-gravata. Estes não têm nem ao menos uma outra realidade para fazer contraste. Aqueles perderam algo; estes estão perdendo até hoje. Aqueles ganharam outras coisas; estes, nada. Como a irrefl exão era um dos valores em alta na ética adolescente, entregaram-se a ela com toda radicalidade. É assim que esses pequenos Faustos do litoral não tinham como vislumbrar sua decadência iminente. Quando você for a uma festa de casamento e vir um bando de homens de trinta anos jogando o noivo para o alto, amarrando a gravata na testa, bebendo como se fosse o último dia de suas vidas, pode saber: você está diante de playboys convertidos. E este é mesmo o último dia da vida deles, pois o casamento, enquanto mito de maturidade, atualiza a seus olhos o ponto de suas apostasias, ponto em que tiveram de ingressar violentamente no mundo do trabalho, sem o desejo como mediação. Eles estão catárticos no meio do salão porque se sentem diante de um acontecimento simbolicamente igual àquele que um dia lhes roubou as vidas. E tiram as gravatas. E se abraçam. E se sentem como um dia foram. É a apoteose da nostalgia. E quanto aos outros playboys, os sem-gravata? Esses podem ser vistos penetrando em festas. Ou indo ver se o mar tem onda. Mas não é tão fácil encontrá-los; eles habitam um limbo entre um mundo que passou para sempre e outro que nunca chegou. É, brother, a vida é uma roda-gigante.

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