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Black Music (Cód: 2598354)

Dapieve, Arthur

Objetiva

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Saraiva MegaStore Shopping Eldorado Av. Rebouças, 3970 - 1º piso - Pinheiros CEP: 05402-600 - São Paulo - SP

Descrição

Um ônibus escolar está descendo uma rua sinuosa de um bairro carioca quando é interceptado por um carro em que estão três Bin Ladens. Um deles salta do veículo, entra no ônibus segurando uma Uzi e pergunta, com uma voz rouca:

— Maicon Filipe?

Depois dessa cena, a vida de três pessoas nunca mais será a mesma. Um deles é Michael Philips, garoto de 13 anos que sabe tudo de jazz e basquete, mas quase nada de sexo. Por trás de seu seqüestro está He-Man, traficante de 17 anos que sonha em se tornar o maior rapper do Brasil. Ele coleciona namoradas no morro e uma delas se chama Jô, de 16 anos, que aprendeu a maior parte do que sabe conversando com uma irmã ex-prostituta e ouvindo os funks de Tati Quebra-Barraco.
Em comum, os três protagonistas de Black Music, segundo romance do jornalista, escritor e cronista Arthur Dapieve, só têm mesmo a certeza do que querem na vida. E uma rotina logo se estabelece entre eles. Enquanto o pai do americano não paga o resgate, He-Man fica encarregado de aterrorizar Michael (ou, como ele diz, Maicon). Cabe a Jô limpar e alimentar o seqüestrado. Aos poucos, no entanto, começa a surgir um vínculo entre os três. Uma ligação marcada por sensações conflitantes, até proibidas. Sonhos são revelados e, por alguns breves momentos, compartilhados. A raiva e o medo dos que estão em campos opostos dão lugar a sentimentos menos sombrios, como amizade, compaixão e, quem sabe?, amor.

Para dar voz a Jô, meio 'surda de tanto ficar perto das caixas de som nos baile funk', Dapieve cria, em um dos mais originais trechos de sua narrativa, um monólogo devastador em letras garrafais:
'O HE-MAN ME COME DIREITO, NÃO ME BATE, ME DÁ UMA MESADA PRAS ROUPA E NÃO SE IMPORTA SE EU VOU SOZINHA NO BAILE FUNK. O NEGÓCIO DELE É RAP, SABE? E AQUI NO MORRO FUNK E RAP NÃO SE BICAM. É CADA UM PRA UM LADO. CLARO, NÃO SOU OTÁRIA, NÃO VOU CUSPIR NO PRATO EM QUE ELE ME COME. VOU SOZINHA PRO BAILE, MAS NÃO FICO DANDO MOLE PRA OUTRO HOMEM. NEM NENHUM OUTRO HOMEM QUE SAIBA DE QUEM EU SOU VAI DAR EM CIMA DE MIM. EU VOU NO BAILE COM AS MINHAS COLEGAS. A GENTE FICAMOS DANÇANDO ENTRE A GENTE, FAZENDO TRENZINHO E DESCENDO O POPOZÃO ATÉ O CHÃO, FAZENDO CARA DE SAFADA. NÃO É MUITO DIFÍCIL PRA GENTE FAZER CARA DE SAFADA, SABE? OS HOMENS FICA TUDO DOIDO. ELES GOSTAM DE FICAR EM VOLTA, VENDO A GENTE. ACHO QUE ELES SÃO CHEGADO NUMA SAPATÃO. SÓ QUE NÓS NÃO É SAPATÃO NÃO. SÓ TIRA UMA ONDA DE SAPATÃO, TIPO LÉBISCA CHIQUE.'
'Jô pertence a uma parte da população jovem que se comunica num dialeto particular, no qual não existem concordâncias e nenhuma regra gramatical é seguida. Enquanto escrevia, fiquei tão obcecado em reproduzir fielmente esse vocabulário, que andava na rua pescando frases para incluir no texto”, conta o autor, que consegue construir uma narrativa dentro da favela sem, no entanto, resvalar na mais do que batida literatura da miséria. Em vez disso, nos oferece outra visão. Perturbadora, sim, mas também delicada e bem-humorada.

'Apesar do cenário, do enredo e das imagens bastante violentas, este não é um mais um livro sobre violência, sobre a miséria nas favelas. Minha intenção aqui foi justamente mostrar como a violência pode interromper, cortar futuros e sonhos. Ao mesmo tempo, para revelar o absurdo de tudo isso, inverti papéis e criei uma fábula, na qual o rico é negro e o bandido é louro', explica Dapieve.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Objetiva
Cód. Barras 9788573029208
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 9788573029208
Profundidade 1.00 cm
Ano da edição 2008
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 112
Peso 0.44 Kg
Largura 14.00 cm
AutorDapieve, Arthur

Leia um trecho

O menino ruivo apertou as pernas. A acentuada curva à direita na saída do túnel Rebouças torturava sua bexiga cheia. Além disso, uma voz solene latejava em sua cabeça: Lembre-se, William Cuthbert F., o príncipe Charles disse que a melhor coisa que a nobreza lhe ensinou foi ir ao banheiro antes de sair de qualquer lugar. Você nunca sabe quando terá a próxima oportunidade. Portanto, filho, não vá molhar as calças em público. Billy quase desapontou o pai e o herdeiro do trono quando, finda a curva, o ônibus do Shakespeare Lyceum se reaprumou na rua Cosme Velho. A perspectiva de alívio trombou com o engarrafamento formado já no trevo sob o viaduto José de Alencar, entre as galerias do túnel. Aquilo era anormal, embora fosse, e o garoto estava dolorosamente ciente disso, a hora de troca do turno da manhã pelo da tarde nos dois grandes colégios católicos (bloody papists!) rua abaixo, primeiro o São Vicente, logo depois o Sion. Billy teve vontade de chorar ao atinar que era 28 de outubro. Dia de São Judas Tadeu, aprendera em dois anos de Brasil, dois anos de Cosme Velho. A igreja perto de sua casa ficava cheia de fiéis e sitiada por ambulantes, flanelinhas, mendigos. Ele cogitou pedir ao motorista para abrir a porta e deixá-lo ir se aliviar num trecho a céu aberto do rio Carioca, quase puro em comparação com a nojeira que se lançava na baía, a 2 milhas. Seria uma admissão de derrota. O garoto, então, suportou cada jarda, cada pé, cada polegada dali até a esquina da sua rua, a Dr. Efigênio de Sales. Sua cabeça girava. A Mansão dos Abacaxis, a entrada para o largo do Boticário, a ladeira do Cerro Corá, o ponto final dos ônibus, a casa onde morou o acadêmico Austregésilo de Athayde, o bar moderninho, a oficina mecânica, o Consulado Geral da Romênia, o Museu Internacional de Arte Naïf. O buraco. Havia cinco dias um buraco da companhia de gás estava aberto na esquina da Smith de Vasconcellos. Ninguém trabalhava nela havia quatro dias e meio, mas o buraco, cercado por um tapume baixo, no qual se lia “Obra emergencial”, continuava estreitando a Cosme Velho num ponto normalmente já tão apertado quanto o pequeno Billy. Só havia espaço para um ônibus, subindo ou descendo a rua. Assim, o motorista do ônibus azul-escuro do Shakespeare Lyceum teve de negociar no olhar e na boa vontade a vez de passar com o motorista do ônibus branco com faixas azuis e vermelhas, linha 498, Penha-Cosme Velho. Definitivamente não era um bom dia para se estar com vontade premente de fazer xixi. Mr. Alves só abriria a porta do ônibus na pracinha depois da Smith de Vasconcellos, depois da estação do trenzinho do Corcovado, depois até da Dr. Efigênio de Sales. Mais 10 ou 12 jardas aflitivas. Quando afinal Billy pôde descer, bem em frente à estátua do engenheiro João Teixeira Soares, despediu-se dos colegas e atirou-se Dr. Efigênio de Sales acima, rumo à casa da família F. A calça do terninho grená estava miraculosamente seca. Na pressa, e engolfado pela multidão de católicos que gravitava em torno da igreja do outro lado da rua, Billy não notou que o ônibus fora obstruído por um Golf gelo, dentro do qual estavam três homens usando máscaras de plástico com o rosto de Osama bin Laden. Um permaneceu ao volante, dois apearam do carro. Destes, um postou-se ao pé da escadinha que o garoto acabara de descer e o outro subiu-a, revelando ao motorista a Uzi sob a jaqueta de náilon verde e perguntando, voz rouca, para o fundo do veículo: — Maicon Filipe? Quase ninguém notou a cena, não notou a moça que, bem atrás do Osama ao pé da escadinha, espalhava corações de frango, salsichões, quadradinhos de carne de vaca no braseiro colocado sobre o balcão da barraquinha de madeira, nem as duas meninas que na venda vizinha dividiam uma latinha de guaraná diet, nem o flanelinha que gesticulava para os motoristas do Golf gelo e do ônibus azul-escuro andarem e assim deixarem fluir o trânsito que, Deus é pai, traria carros para estacionar no seu lote de calçada, não notaram nada sobretudo os dois PMs que conversavam animadamente com a empregada doméstica baiana em frente à cabine da sua centenária corporação, ao lado da estátua do engenheiro, nem, claro, o guarda municipal que cochilava ao volante da sua viatura, nem os devotos e turistas ansiosos por qualquer ônibus urbano que descesse o Cosme Velho, de volta à Penha ou em direção a Copacabana, nem notou nada o velho que, por trás do grupo, abanava com um jornal dobrado os paralelepípedos de queijo coalho sobre a grelha posta no chão, muito menos o vendedor na carrocinha de milho cozido, de costas para a rua, não notou a senhora de 77 anos que, contra todas as probabilidades de sobrevivência, pretendia atravessar a mão dupla fora do sinal, também não notou o guarda municipal que apitava histérico para o ônibus do Shakespeare Lyceum se mover, sem enxergar o Golf gelo meio atravessado na sua frente, o Osama tranqüilão ao volante, nem os dois moleques da favela do Cerro Corá, sem nada melhor para fazer, a não ser ver o ovimento na igreja e quem sabe descolar algum, nem o motorista do Ford Escort verde que começava a aumentar a velocidade naquele trecho (só para pegar outro engarrafamento, criado pela troca de turno no São Vicente, pouco adiante, quase em frente a onde um dia estivera a casa de Machado de Assis), não notou o motoboy do Mamma Rosa que havia ido entregar uma pizza margherita lá em cima, no Hospital Silvestre, nem, já na mão que subia a rua, a mulher de cabelos alourados ao volante do Mitsubishi Pajero dourado de vidros enegrecidos, falando ao celular, infração grave, pontos na carteira, multa, se algum guarda a pudesse enxergar, lógico, nem o motorista de mais um 498 a trazer devotos de São Judas Tadeu de longe, desde a tão devota Penha, o bairro a igreja dos 365 degraus entalhados na pedra, nem notaram a cena no ônibus azul-escuro as mulheres que vendiam velas flores medalhinhas anéis canetas camisetas bolsas, tudo com a efígie do santo, nem a que vendia imagens representando o santo na sua gruta nos fundos da igreja do Cosme Velho, nem o homem que distribuía santinhos em papel, nem o que vendia fitas alusivas à data para se amarrar no pulso, nem o jornaleiro, ocupado demais em vender água fresca a fiéis suados, nem os motoristas de táxi que buscavam fisgar alguém para dar uma volta a preços extorsivos lá por cima, nas Paineiras, no Corcovado, no Cristo Redentor, tão concentrados estavam em segurar seus álbuns de fotos amarelecidas das maravilhas que o turista poderia apreciar durante o passeio, os fiéis, então, estes é que não notaram Osama nenhum mesmo, ansiosos por fazerem seus pedidos ao santo das causas impossíveis, emprego, doença na família, loteria federal, vitória para o Flamengo, progresso para o Brasil, isto porque, passados os portões da igreja, galgados os primeiros dez degraus, galgados os cinco degraus suplementares, miravam direto a nave circular, onde receberiam rosas vermelhas aspergidas com água benta, e logo rezariam, em voz alta ou em corações cansados, uma oração a São Judas Tadeu glorioso apóstolo fiel servo e amigo de Jesus o nome de Judas Iscariotes o traidor de Jesus foi causa de que fôsseis esquecido por muitos mas agora a Igreja vos honra e invoca por todo o mundo como patrono dos casos desesperados e dos negócios sem remédio rogai por mim que estou tão desolado eu vos imploro fazei uso do privilégio que tendes de trazer socorro imediato onde o socorro desapareceu quase por completo assiste-me nesta grande necessidade para que eu possa receber as consolações e o auxílio do céu em todas as minhas precisões tribulações e sofrimentos São Judas Tadeu alcançai-me a graça que vos peço eu vos prometo ó bendito São Judas Tadeu lembrar-me sempre deste grande favor e nunca deixar de vos louvar e honrar como meu especial e poderoso patrono São Judas Tadeu rogai por nós, tais fiéis não notaram nada mesmo porque já desciam dos ônibus tentando lembrar se depois da oração a São Judas Tadeu deveriam rezar um Pai-nosso, uma Ave-Maria e um Glória ao Pai ou uma Ave-Maria, um Pai-nosso e um Glória ao Pai, e os fiéis que saíam da nave circular tinham agora nova preocupação, comer algo nas barraquinhas autorizadas pela paróquia a funcionar nos vários pátios da igreja, comer bolo de São Judas, bolo de aipim, cocada branca, cocada preta, cocada com leite moça, cocada com melão, cocada com maracujá, cocada com brigadeiro, aipim com carne-seca, maçã do amor, mais salsichão, e tome rissole, coxinha, pastel, a fé dá fome, fome e sede, beber água, Coca-Cola, guaraná em copinho, cerveja em lata e até dose de cachaça, a fé dá fome e sede, lembrai-vos, Jesus multiplicou o pão, o peixe e o vinho, então os fiéis saciados podiam prestar atenção às barraquinhas de lembranças, mas não ao Golf gelo parado com um Osama ao volante, e sim prestar atenção às barraquinhas que vendiam ex-votos, cabeças, mãos, pés, ventres, partes não identificadas do corpo, melhor assim, para agradecer os milagres de São Judas Tadeu, mas não ao Golf gelo parado com um Osama ao volante, como se fosse banal estar sempre um Golf gelo parado com um Osama ao volante bem ali, e os jogadores do Flamengo que foram à igreja pedir ao santo padroeiro do seu time livrá-lo do rebaixamento para a Segunda Divisão e assistir à missa celebrada pelo Cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, eles não notaram nada de mais estranho, imersos na própria vergonha depois de um empate em dois gols com o Juventude, lá na fria Serra Gaúcha, Caxias do Sul, mais de mil milhas em linha reta ao sul dali, empate este que manteve o time na penúltima colocação do Brasileirão 2005, perigo, perigo, o técnico Joel Santana e os 16 jogadores que deixaram quatro camisas rubro-negras atrás do altar (uma delas, autografada por todos, seria rifada em benefício da paróquia) depois de terem sido muito aplaudidos e um pouco vaiados na descida do ônibus do clube na rua Cosme Velho não notaram nada de mais estranho, nem eles nem as demais vendedoras de velas flores medalhinhas anéis canetas camisetas bolsas, algumas velhas e gordas, algumas bastante jovens e usando minissaias tão curtas, tão curtas, tão pouco religiosas, não notaram nada da movimentação as pessoas que esperavam o sinal abrir para cruzar a rua em direção à estação do trenzinho, nem o devoto emocionado que dava entrevista para a equipe do SBT, nem outro guarda municipal apitando para o trânsito que subia na direção do túnel, nem o motorista careca do Fiat Stylo que rezava para conseguir uma vaga perto da igreja, de modo a descer confortavelmente sua tia entrevada, tão precisada de uma última graça, coitada, nem, girando girando girando de volta à mão que descia, o 422 parado atrás do ônibus do Shakespeare Lyceum, ainda vazio de passageiros, mas com o motorista cheio de uma pressa impossível rumo ao Grajaú, orai a São Judas Tadeu, pisando no acelerador a título de buzina, fungando no cangote do veículo escolar, nem, é claro, olha só, a motocicleta com mais dois caras mascarados de Osama, nada notaram dela os flanelinhas que indicavam supostas vagas de estacionamento na Smith de Vasconcellos, nem os vendedores de bugigangas para turistas, facas que falsamente atravessam a cabeça, falsas camisetas verde-e-amarelas da Nike, cartões-postais verdadeiros de falsas mulheres do Rio de Janeiro, essas coisas, nem mais uma alcatéia de motoristas de táxi e seus álbuns sujos, nem o cidadão que suava sozinho na barraquinha que anunciava frango empanado com Catupiry, tentando dar conta da multidão faminta naquela hora de aflição que é o almoço, ela, então, ah, não estava nem aí, cega ao tráfego, insensível a tudo, menos a seus ventres, nem acharam nada de anormal naquele caos os japoneses que saíam da estação do Corcovado, máquinas fotográficas e filmadoras digitais de última geração penduradas nos pescoços (por causa de uma daquelas maravilhas, o octogenário de Nagóia seria morto a facadas em Ipanema, na noite seguinte), esses passaram em fila indiana ao lado do ônibus azul-escuro do Shakespeare Lyceum, bonezinhos enfiados na cabeça para proteger a pele alva do sol quente, também sem notar os Osamas, quase ninguém notou a cena, quase ninguém, exceto uma das duas adolescentes de Tóquio que os viu, sim, viu, sorriu e fotografou o mascarado que, subindo a escada por onde William Cuthbert F. acabara de descer, revelou ao motorista a Uzi sob a jaqueta de náilon verde e perguntou, voz rouca, para o fundo do veículo: — Maicon Filipe? Uma voz fina retrucou na última fila: — Michael Philips? Eu era arrastado pelos braços por dois homens que não via, mas ainda não sentia medo do grupo terrorista. A dor nos joelhos que batiam na escada de cimento era maior. O joelho direito doía muito. Pensei que ele podia até estar quebrado. Foi bom chegar a um terreno plano. Nós entramos numa casa, eu percebi a luz morrendo sobre o capuz. Os dois homens me atiraram numa cadeira. Dobrei e desdobrei o joelho direito, que talvez não estivesse quebrado. Fiquei quieto porque era vigiado. No começo, eu ouvia apenas três respirações ofegantes. Uma no meu próprio peito, as outras duas atrás de mim. Acho que minutos se passaram. Depois, eu ouvi as vozes se aproximando. No meio delas, distingui a voz rouca que havia me chamado no ônibus. “Acho que pegamos o garoto errado, chefe. Esse garoto aí é preto.” A voz disse isso em português. Eu entendi. Fiquei confuso porque não tinha entendido a conversa entre os Bins Ladens dentro do carro. Apenas senti que subimos uma ladeira, atravessamos um túnel, descemos uma ladeira, subimos uma escadaria. As vozes aumentaram e então sumiram bem na minha frente. Eu continuei quieto. Tiraram o meu capuz. A luz do começo da tarde passava pelas tábuas de madeira pregadas na única janela do quarto. Ela iluminava cinco negros magrelos e um pigmeu branco. Todos eles usavam máscaras de Bin Laden. O terrorista rouco da jaqueta de nylon verde de novo me apontava a sua Uzi. Os outros também estavam pesadamente armados. Mais uma Uzi, muito pequena, coronha recolhida. Três AR- 15, a típica alça acima do cano. Um Sig Sauer, mais robusto e caro que o AR-15, nas mãos do pigmeu branco. Eu fiquei surpreso de não ver nenhum pente de munição curvado para a frente, nenhum Kalashnikov. O pigmeu branco era o único com o peito ossudo nu. Ele quebrou o silêncio: “Maicon Filipe?” Era a segunda vez que eu ouvia o meu nome errado em menos de meia hora. “Michael Philips.” Minha maldita voz saiu fina. Não entendi se apanhei por causa da minha maldita voz fina ou por ter corrigido o pigmeu branco, mas sei que o tapa dele na minha orelha esquerda me jogou no chão. Dois dos negros magrelos me pegaram pelos braços e me puseram sentado de novo, torto de terror. Um deles encostou um revólver na minha nuca. Acho que era um Rossi. O pigmeu branco seguiu falando num tom indiferente: “Maicon Filipe? Cidadão americano, 13 anos, filho único de Tomás Gordon Filipe, executivo da Ezon no Brasil, morador da Praia do Flamengo, 196, cobertura duplex.” Eu tinha acabado de aprender a não corrigir mais nada nem ninguém. “Sim, sou eu.” Minha maldita voz saiu fina de novo. O pigmeu branco não me bateu dessa vez. Ele apenas se virou para o terrorista rouco da jaqueta de nylon verde: “É o garoto, mané.” Em resposta, o terrorista rouco da jaqueta de nylon verde gritou de alívio: “Pô, a Dorô bem podia ter avisado pra gente que o garoto era preto!” A direita do pigmeu branco acertou em cheio o narigão da máscara de Bin Laden do terrorista rouco da jaqueta de nylon verde, mas ele não caiu no chão nem protestou nada. Dorô? Ah, Dorotéia, imaginei. A jovem negra brasileira que tinha trabalhado como faxineira lá em casa por dezenove dias de julho. Eu me lembrava bem porque achava ela quente. E achava que ela se exibia para mim quando limpava o quarto nas tardes chuvosas de inverno. Eu ficava recostado na cama me esforçando para parecer distante, lendo a revista de jazz. Dorotéia ficava na ponta dos pés para espanar a prateleira dos meus velhos bonecos de ação. Ao fazer isso, o vestido cor-de-rosa claro dela subia algumas polegadas pelas coxas. Engraçado. Dorotéia não parecia muçulmana. Uma verdadeira muçulmana não mostraria o corpo daquela forma, mostraria? Por outro lado, talvez uma verdadeira muçulmana se sacrificasse pela guerra santa mostrando as coxas para um cão infiel. Eu tinha aprendido a gíria dos muçulmanos assistindo aos vídeos da al-Qaeda na ABC. O pigmeu branco fez um comunicado oficial: “É você mesmo que a gente queria. Maicon Filipe.” “O que vocês querem de mim?” Minha maldita voz saiu ainda mais fina do que nas duas vezes anteriores. O chute de esquerda do pigmeu branco mascarado de Bin Laden me acertou no joelho que já estava doendo, o direito. Eu quase caí de novo no chão. Quase. Uma ordem veio junto do chute: “Fala que nem homem.” “Eu sou uma criança!” Minha voz saiu grossa e com vibrato. Como uma frase do Ben Webster. Eu não entendi se o pigmeu branco e os cinco negros magrelos mascarados de Bin Laden ficaram silenciosos alguns instantes por causa da reclamação ou por causa da mudança de registro. O chefe da célula terrorista enfim retrucou com uma pergunta: “E quem aqui não é?” Todos eles riram alto. O negro magrelo mascarado mais à direita do grupo riu se contorcendo para a frente e para trás com seu AR-15. Os seis terroristas começaram a falar ao mesmo tempo de pessoas que eu não conhecia, usando gírias que eu não tinha aprendido. Eu sempre tive dificuldade de entender pobres brasileiros falando rápido. Eu tinha tanta dificuldade que nem poderia garantir que aqueles ali estivessem falando mesmo português. Podia ser árabe. Existiam árabes negros magrelos, não existiam? Existiam até árabes pigmeus brancos, não existiam? Existiam inclusive alguns árabes americanos no Afeganistão, não existiam? Eu sabia porque tinha visto uma reportagem na Fox News. Eles ainda falavam coisas que eu não entendia enquanto me amarraram com os braços para trás da cadeira e deixavam o quarto, gargalhando. Ninguém se preocupou em recolocar o capuz ou, ao menos, me amordaçar. Ninguém ficou para me vigiar também. Isso era bom por um lado e ruim por outro. Era bom porque ficar de capuz era horrível. Era ruim porque ficar amarrado também não era legal. Era bom porque não ficou nenhum terrorista muito perto de mim. Era ruim porque isso mostrava que não ia adiantar nada eu gritar por socorro. Fiquei quieto. A única coisa que eu podia fazer livremente era pensar. Quais seriam as exigências dos meus seqüestradores? O desbloqueio das contas da al-Qaeda nos bancos lá da América? A libertação dos terroristas talibãs presos na base de Guantánamo? Ou a retirada imediata das tropas americanas do Iraque? George W. Bush jamais aceitaria nada disso, ao menos não em troca de um menino negro de 13 anos cujo pai era democrata. Eu estava ferrado. Perdi qualquer esperança de voltar a ver mamãe e papai. Eu tinha apenas 13 anos. Idade de má sorte. A gente deveria pular dos 12 para os 14. Os andares dos prédios da minha terra pulam do 12 para o 14. Melhor assim.

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