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Cai o Pano - Col. Saraiva de Bolso (Cód: 3649351)

Christie,Agatha

Saraiva De Bolso

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Cai o Pano - Col. Saraiva de Bolso

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Descrição

Já aposentado, Hercule Poirot volta, com seu velho amigo, o capitão Hastings, à mansão Styles, cenário da primeira investigação que os dois fizeram juntos. Hospedado na antiga residência, agora transformada em hotel, está um misterioso assassino, responsável por cinco crimes que, à primeira vista, não têm qualquer relação entre si. Desta vez, Hastings será os olhos e os ouvidos encarregados de fornecer todas as informações necessárias para que a mente ainda afiada de Poirot desvende mais um caso que pode ser o último de sua gloriosa carreira.

Tradutor: Clarice Lispector

Características

Peso 0.44 Kg
Produto sob encomenda Não
Editora Saraiva De Bolso
I.S.B.N. 9788520924983
Altura 17.50 cm
Largura 10.50 cm
Profundidade 1.00 cm
Idioma Português
Acabamento Brochura
Cód. Barras 9788520924983
Número da edição 1
Ano da edição 2011
AutorChristie,Agatha

Leia um trecho

Capítulo 1 Quem nunca sentiu uma súbita pontada ao reviver uma velha experiência ou ao sentir uma emoção antiga? “Isso já me aconteceu antes...” Por que essas palavras nos tocam sempre tão profundamente? Foi essa a pergunta que me fiz, sentado no trem, olhando a monótona paisagem de Essex. Há quanto tempo fiz essa mesmíssima viagem? Absurdamente, na época eu achava que o melhor da minha vida já tinha passado, ferido que fui naquela guerra, para mim sempre a guerra — agora superada por uma segunda ainda mais sangrenta. Parecia ao jovem Arthur Hastings, em 1916, que já estava velho e acabado. Não podia imaginar que minha vida só então começava. Viajava, embora não o soubesse, para encontrar o homem cuja influência haveria de moldar e modelar toda a minha vida. Na verdade, ia para ficar com meu velho amigo, John Cavendish. Sua mãe havia acabado de se casar pela segunda vez e passava uma temporada na casa de campo, Styles. Pensava que iria somente rever velhas amizades, não imaginava estar bem perto de me envolver nas obscuras tramas de um misterioso assassinato. Em Styles encontrei outra vez aquele homenzinho estranho, Hercule Poirot, que havia conhecido na Bélgica. Lembrava-me bem do meu espanto quando vira aquela figura de bastos bigodes vindo pela rua, em minha direção. Hercule Poirot! Desde então tem sido meu maior amigo, tendo influenciado profundamente minha vida. Com ele, investigando um outro assassinato, conheci minha esposa, a companheira mais maravilhosa e sincera que um homem poderia querer para si. Ela descansa agora em solo argentino, morreu como desejara, sem maiores sofrimentos ou debilidades características da velhice. Mas deixou para trás um homem muito triste e solitário. Ah! Se eu pudesse voltar — viver a vida toda outra vez. Se este pudesse ser aquele dia de 1916 em que viajei para Styles pela primeira vez... Quantas mudanças aconteceram desde então! Quantos rostos conhecidos não existem mais! Styles mesmo já não pertence aos Cavendish. John Cavendish está morto, mas sua esposa Mary — que figura fascinante e misteriosa! — ainda vive, morando em Devonshire. Lawrence está com sua esposa e filhos na África do Sul. Mudanças — mudanças em toda parte. Mas uma coisa, por mais estranho que pareça, permanecia igual. Eu estava indo para Styles encontrar Hercule Poirot. Fiquei surpreso quando recebi sua carta, endereçada de Styles Court, Styles, Essex. Há quase um ano não via meu velho amigo. Do nosso último encontro tinha-me ficado uma impressão de tristeza e desprazer. Poirot estava velho e quase entrevado pela artrite. Tinha ido ao Egito ver se melhorava um pouco, mas voltou, assim me informava, mais para pior do que para melhor. Mesmo assim, sua carta tinha um tom alegre... Não lhe causa surpresa, meu amigo, o endereço de onde estou escrevendo esta carta? Traz de volta velhas lembranças, não é? Pois é, estou aqui em Styles. Imagine você, Styles agora é o que chamam de pensão, um pequeno hotel. Administrado por um daqueles coronéis antigos, tão britânicos — bem do tipo “minha velha escola” e “Poona”. É sua esposa, bien entendu, que faz o negócio ir em frente. Ela sim é uma excelente administradora, mas tem uma língua de cobra e o pobre do coronel, como ele sofre! Se fosse comigo eu a cortaria ao meio! Vi o anúncio da pensão no jornal e o destino quis que voltasse ao lugar que foi minha primeira casa neste país. Na minha idade, é agradável reviver o passado. Então, imagine você, encontro aqui um cavalheiro, um baronete que é amigo do patrão da sua filha. (Essa última frase parece um exercício de francês, não parece?) Imediatamente arquitetei um plano. Ele quer persuadir os Franklin a passar o verão aqui. Eu, por minha vez, quero persuadir você, assim nós ficaremos todos juntos, en famille. Vai ser bastante agradável. Portanto, mon cher Hastings, dépêchez-vous, venha o mais rápido possível. Eu lhe reservei um quarto com banheiro (está modernizada, como você vê, a velha Styles) e barganhei com a senhora do coronel até chegar a um acordo très bon marché. Os Franklin e sua encantadora Judith já estão aqui há alguns dias. Está tudo arrumado, portanto, não venha com estórias. A bientôt. Do seu, Hercule Poirot. As perspectivas eram tentadoras, e me rendi aos desejos de meu velho amigo sem restrições. Não tinha laços nem endereço fixo. Dos meus filhos, um rapaz estava na Marinha, o outro casado e administrando o rancho na Argentina. Minha filha Grace casou-se com um militar e, no momento, estava na Índia. Judith, a outra filha, era de quem, em segredo, sempre gostei mais, embora nunca a tivesse compreendido bem. Uma criança estranha, sombria e fechada, obstinada quanto a suas opiniões, o que em algumas ocasiões muito me preocupou e afrontou. Minha mulher era mais compreensiva. Ela me assegurava que não era falta de confiança de Judith em nós ou em si mesma, e sim uma espécie de compulsão selvagem. Mas às vezes ela mesma ficava preocupada com as atitudes de Judith. Dizia que as emoções da filha eram muito intensas, muito concentradas, e, sendo reservada por natureza, não dispunha de nenhuma válvula de escape. Tinha estranhos acessos de silêncio e uma quase que amarga tendência a ser facciosa. Era a mais inteligente da família e muito nos alegrou seu desejo de entrar para a universidade. Formou-se há mais ou menos um ano e, desde então, trabalha como assistente de um médico pesquisador de doenças tropicais. A mulher dele sofria de algum tipo de doença nervosa. Ocasionalmente me perguntara, com certa aflição, se o envolvimento de Judith com o trabalho e a devoção a seu chefe não seriam sinais de que ela estivesse apaixonada. Mas a impressão que me davam suas relações era de que não passavam mesmo de exigências profissionais. Acreditava que Judith gostasse de mim, mas ela quase não demonstrava. Além disso, muitas vezes se mostrava desdenhosa e impaciente com o que chamava de minhas ideias românticas e antiquadas. Para ser franco, não me sentia muito à vontade com minha filha! Nesse ponto meus pensamentos foram interrompidos pela chegada do trem à estação de Styles St. Mary. Pelo menos isto não havia mudado. O tempo não passara por ali. Ainda estava assentada entre os campos, sem nenhuma razão aparente para existir. Mas quando o táxi passou pelo vilarejo, percebi a passagem do tempo. Styles St. Mary estava irreconhecível. Postos de gasolina, um cinema, mais duas hospedarias e várias casas daquelas que a prefeitura aluga. Logo chegamos ao portão de Styles. Aqui parecíamos retornar aos tempos antigos. O parque estava quase a mesma coisa, mas o caminho estava muito malconservado e cheio de mato crescendo entre as pedras. Dobramos uma curva e a casa surgiu. Vista de fora também não mudara nada, mas precisava de uma boa mão de tinta. Como em minha chegada há tantos anos, havia uma mulher curvada sobre um dos canteiros do jardim. Meu coração quase parou. Então a pessoa aprumou-se e veio na minha direção. Soltei uma boa gargalhada interior. Não poderia imaginar tamanho contraste com a robusta Evelyn Howard. Era uma frágil senhora de idade, de abundantes cabelos brancos encaracolados, faces rosadas e uns olhos azuis frios e distantes que em muito contrastavam com a afabilidade de suas maneiras, um pouco efusivas demais para o meu gosto. — O senhor é o capitão Hastings, não é? — perguntou. — E eu com as mãos sujas sem poder cumprimentá-lo. Que ótimo que o senhor veio, ouvimos falar tanto no senhor! Deixe-me me apresentar. Sou a sra. Luttrell. Meu marido e eu compramos esse lugar num acesso de loucura e estamos tentando torná-lo um negócio compensador. Jamais imaginei que seria algum dia uma hoteleira! Mas lhe digo, capitão Hastings, tenho muito de negociante. Descubro despesas extras por todo o lado. Nós dois rimos como se tivéssemos ouvido uma boa piada, mas me ocorreu que o que a sra. Luttrell tinha acabado de dizer era, com toda a certeza, a expressão da verdade. Por trás da aparência cativante de seus modos de velhinha charmosa, vislumbrei uma dureza de pedra. Embora a sra. Luttrell ocasionalmente mostrasse um leve sotaque irlandês, não possuía antepassados na Irlanda. Era mera afetação mesmo. Perguntei por meu amigo. — Ah, coitadinho do M. Poirot. Como vem aguardando sua chegada. Derreteria um coração de pedra. Morro de pena dele, sofrendo daquele jeito. Enquanto caminhávamos em direção à casa, ela foi tirando suas luvas de jardinagem. — E sua linda filha — continuou. — Que amor de garota! Nós todos a admiramos profundamente. Mas sou meio antiquada, sabe, e me parece um pecado que uma moça daquelas, que deveria estar indo a festas, dançando com os rapazes, deva usar todo o seu tempo cortando coelhos ou ficando curvada sobre o microscópio o dia inteiro. Devia deixar esse tipo de coisa para as feias. — Onde está Judith? — perguntei. — Está aqui por perto? A sra. Luttrell fez uma careta maternal. — Coitadinha. Está enfurnada naquela casinha lá no fundo do quintal. Estou alugando-a ao doutor Franklin. Ele arrumou a casa todinha. Está cheia de porquinhos-da-índia, pobrezinhos, ratos e coelhos. Não sei se estou gostando de toda essa ciência, capitão Hastings. Ah, aí vem meu marido. O coronel Luttrell surgiu naquele instante de um dos lados da casa. Era um velho alto, meio enfraquecido, de rosto chupado, doces olhos azuis e uma mania de puxar, hesitante, seus pequenos bigodes brancos. Tinha um jeito meio confuso, meio nervoso... — Ah, George, chegou o capitão Hastings, afinal. O coronel Luttrell me cumprimentou. — Você chegou pelo das 17h40, hem? — Em qual outro ele podia ter vindo? — replicou, ríspida, a sra. Luttrell. — E de qualquer jeito, isso não importa. Leve-o lá para cima e mostre-lhe o quarto, George. E então talvez ele queira estar logo com M. Poirot, ou prefere tomar chá antes? Garanti que não queria chá e preferiria ir saudar logo meu amigo. O coronel Luttrell disse: — Está bem. Vamos indo. Espero... hum... que já tenham levado suas coisas para o quarto... hem, Daisy? A sra. Luttrell respondeu de modo rude: — Isso é problema seu, George. Estava trabalhando no jardim. Não posso tomar conta de tudo. — Não, não, claro que não. Eu... eu vou providenciar isso, meu bem. Segui-o pela escada da frente. No vão da entrada encontramos com um senhor grisalho, franzino, que saía correndo com um binóculo nas mãos. Mancava e tinha uma cara de menino impaciente. Disse ele, gaguejando um pouco: — Tem um casal de filhotes naquele ninho perto do plátano. Ao entrarmos no salão, Luttrell explicou: — Aquele é Stephen Norton. Bom sujeito. Doido por passarinhos. No salão propriamente dito, um homem enorme estava em pé ao lado da mesa. Tinha certamente acabado de telefonar. Levantando o rosto, exclamou: — Gostaria de enforcar, estripar e esquartejar todos os construtores e empreiteiros. Nunca fazem nada direito, os imbecis. Sua fúria era tão engraçada e tão sentida, que nós dois rimos. Simpatizei de imediato com o homem. Era muito bem-apessoado para alguém que já passara dos cinquenta, com um rosto bem queimado de sol. Parecia ter levado uma vida ao ar livre, e aparentava ser um tipo de homem que está se tornando cada vez mais raro, um inglês da velha-guarda, franco, amante da vida ao ar livre e o tipo de pessoa que sabe comandar. Não fiquei muito surpreso quando o coronel Luttrell apresentou-o como Sir William Boyd Carrington. Sabia que ele tinha sido governador de uma província na Índia, onde obteve um sucesso tremendo. Era também um renomado caçador de feras assim como um exímio atirador. O modelo de homem, refleti pesaroso, que não parece mais florescer nestes tempos de decadência. — Ah! — disse. — Estou contente de encontrar em carne e osso esse famoso personagem, mon ami Hastings. — Riu a valer. — Aquele simpático sujeito belga fala muito de você, sabe. E ainda, é claro, temos sua filha por aqui. Muito boa moça. — Não creio que minha filha fale muito de mim — respondi, sorrindo. — Não, não, ela é muito moderninha. Essas meninas de hoje sempre ficam sem graça de admitir que têm um pai ou uma mãe. — Os pais — disse — são praticamente uma desgraça, uma vergonha. Ele riu. — Bem... meu problema é outro. Não tenho filhos, menos sorte ainda. Sua Judith é uma bonita moça, mas demasiadamente sofisticada. Realmente, demais — apanhou outra vez o telefone. — Espero que você não se importe, Luttrell, de eu mandar esse seu centro telefônico para aquele lugar. Não tenho muita paciência com telefonistas. — Elas merecem — respondeu Luttrell. Subiu as escadas e fui atrás dele. Ele me levou pela ala esquerda da casa até uma parte no fim do corredor. Percebi então que Poirot havia reservado para mim o mesmo quarto em que fiquei da outra vez. Havia umas modificações. Ao passar pelo corredor notei algumas portas abertas. Observei que os cômodos enormes antiquados haviam sido subdivididos em vários quartos menores. Mas o meu quarto, que não era grande, não sofreu qualquer modificação a não ser pelas instalações de água quente e fria e a construção de um pequeno banheiro. Estava mobiliado num estilo moderno, vulgar, que não me agradava. Teria preferido que a decoração fosse mais de acordo com a arquitetura da casa. Minha bagagem já estava no meu quarto e o coronel explicou que o quarto de Poirot ficava bem em frente, no outro lado do corredor. Estava prestes a me levar até lá quando um grito bem agudo de “George” veio lá de baixo. O coronel Luttrell tremeu como um cavalo inquieto. Levou a mão aos lábios. — Tem certeza de que está tudo bem? Chame quando precisar de alguma coisa. — George! — Já estou indo, meu bem, já estou indo. Saiu apressado pelo corredor. Permaneci de pé olhando-o se afastar. Depois, com o coração batendo um pouco mais ligeiro, atravessei o corredor e bati levemente na porta do quarto de Poirot. Capítulo 2 Na minha opinião, nada é tão triste quanto a ruína pacientemente forjada pela idade. Pobre amigo! Já o descrevi muitas vezes, mas agora é preciso lhes dar uma ideia de como estava diferente... Entrevado pela artrite, andava agora numa cadeira de rodas. Seu porte meio cheio já não existia mais, era um homenzinho seco. As faces marcadas e enrugadas. Seus bigodes e cabelos ainda apresentavam um preto-carvão, mas francamente, embora por nada nesse mundo eu goste de magoá-lo, isso não passava de um engano. Há um momento em que pintar o cabelo fica dolorosamente óbvio. Houve uma época em que fiquei boquiaberto ao saber que a cor negra do cabelo de Poirot vinha de um frasco. Mas agora o recurso era visível, e só dava mesmo a impressão de que usava uma peruca e que adornava o lábio superior para divertir as crianças! Somente os olhos eram os mesmos de sempre, sagazes e faiscantes, mas agora — sem dúvida alguma — suavizados pela emoção: — Ah, mon ami Hastings, mon ami Hastings... Inclinei minha cabeça e ele, como de costume, me abraçou afetuoso. — Mon ami Hastings! Afastou-se um pouco e me observou com a cabeça levemente caída para o lado. — É, igualzinho... as costas retas, ombros largos, cabelos grisalhos... très distingué. Sabe, meu amigo, você está bem conservado. Les femmes, elas ainda se interessam por você? Hem? — Francamente, Poirot — protestei. — Será que insiste... — É, mas lhe asseguro, amigo, isso é um teste: “o teste”. Quando as jovenzinhas chegam para você conversando com tanta gentileza, oh, tão gentilmente, é o fim! “Coitado do velho”, dizem, “vamos ser boazinhas para ele. Deve ser horrível ficar assim.” Mas você, Hastings, vous êtes encore jeune. Para você ainda existem chances. Isso mesmo, torça os bigodes, abaixe os ombros, vejo que tenho razão, você não deveria parecer tão acanhado assim. Dei uma boa gargalhada. — Você realmente é demais, Poirot. E como vai você? — Eu? — respondeu com uma careta. — Estou um lixo, uma ruína. Não posso mais andar. Estou todo torto e paralítico. Ainda bem que posso me alimentar sozinho, mas fora isso tenho que ser tratado como um neném. Posto na cama, lavado, vestido. Enfin, não é agradável. Mas pelo menos, enquanto o exterior apodrece, o interior está sempre ótimo. — Realmente. Um inigualável coração de aço. — O coração? Talvez. Mas não estava me referindo a ele. O cérebro, mon cher, isso é o que quis dizer com o interior. Meu cérebro ainda funciona maravilhosamente. Pude pelo menos perceber, e claramente, que não ocorrera nenhuma deterioração do cérebro no tocante à modéstia. — E você gosta daqui? — perguntei. Poirot deu de ombros. — É, dá para o gasto. Não é, você sabe, nenhum Ritz. Não mesmo. O quarto em que fiquei logo que cheguei era pequeno e pessimamente mobiliado. Mudei para este aqui sem acréscimo no preço. A comida, bem, é inglesa no que tem de pior. As couves-de-bruxelas enormes, duríssimas, do jeito que os ingleses gostam. As batatas cozidas ou muito duras ou se desmanchando. Os legumes com gosto de água, água e mais água. A falta absoluta de sal ou pimenta em todos os pratos. — Fez uma pausa expressiva. — Parece terrível — falei. — Não me queixo não — mas continuou a fazê-lo. — E tem também a chamada modernização. Banheiros, torneiras por toda parte, e o que sai delas, meu amigo? Água morna, mon ami, na maior parte do dia. E as toalhas tão fininhas, tão pequenininhas! — É, que saudades dos velhos tempos — falei pensativo. Eu me lembrei das nuvens de vapor que jorravam da torneira de água quente do único banheiro da Styles de antigamente. Era um daqueles banheiros com uma banheira enorme com apoios de mogno, descansada e orgulhosa no meio do assoalho. Lembrei, também, das toalhas de banho, imensas, as vasilhas de latão brilhando, cheias de água quente ao lado das bacias antigas, sempre que precisávamos. — Mas não devemos reclamar — repetiu Poirot. — Não me importo de sofrer, por uma causa justa. Um súbito pensamento me assaltou. — Poirot, você não está, bem, em dificuldades, está? Sei que a guerra afetou seriamente os investimentos... Poirot me tranquilizou logo. — Não, nada disso, meu amigo. Minha situação financeira é excelente. Na verdade, estou rico. Não é a situação econômica que me traz aqui. — Então, tudo certo. — E continuei: — Acho que posso entender o que você está sentindo. Quando uma pessoa vai envelhecendo tende a querer voltar aos velhos tempos; tenta reviver velhas emoções. De certo modo, me é um pouco doloroso estar aqui, e no entanto, mil pensamentos e sensações, quase esquecidas no tempo, me voltam. Acredito que você deve sentir o mesmo. — Nem um pouco. Não sinto nada disso. — Foram ótimos aqueles tempos. — Fale por si, Hastings. Para mim, a chegada a Styles St. Mary foi muito triste e dolorosa. Eu era um refugiado, ferido, exilado, vivendo de caridade num país estranho. Não, não estava nem um pouco feliz. Não sabia naquela época que a Inglaterra viria a ser o meu lar e que seria muito feliz aqui. — Esqueci dessas coisas — admiti. — Exatamente. Você atribui aos outros os sentimentos que você mesmo está sentindo. Se Hastings estava feliz, todo mundo estava feliz. — Não, de jeito nenhum — protestei, sorrindo. — E, de qualquer jeito, nem isso é verdade — continuou Poirot. — Você fala que olha para trás, as lágrimas nascendo nos olhos. “Oh, que dias felizes. Eu era jovem então.” Mas, realmente, meu amigo, você não era tão feliz quanto está pensando. Você tinha acabado de sofrer um ferimento grave, estava preocupado em ficar incapacitado para o serviço ativo, estava deprimidíssimo por causa da sua convalescença numa melancólica casa de repouso e, pelo que me lembro, complicou ainda mais as coisas se apaixonando por duas mulheres ao mesmo tempo. Tive de rir envergonhado. — Que memória, Poirot! — Tá, tá, tá... Estou me lembrando de seus suspiros melancólicos ao murmurar tolices sobre duas mulheres. — E você, se lembra do que me disse? Falou: “E nenhuma das duas é para você. Mas courage, mon ami. Nós podemos caçar juntos outra vez e talvez aí...” Parei. Pois Poirot e eu tínhamos ido “caçar juntos outra vez” na França e foi lá que encontrei a única mulher... Delicadamente, meu amigo deu umas batidinhas no meu braço. — Eu sei, Hastings, eu sei. A ferida ainda é recente. Mas não fique mexendo nela, não olhe para trás. Olhe para a frente, isso sim. Fiz um gesto de desgosto. — Olhar para a frente? O que existe para ser olhado? — Eh bien, meu amigo, há trabalho a fazer. — Trabalho? Onde? — Aqui. Olhei surpreso para ele. — Agora mesmo — disse Poirot — você me perguntou por que eu tinha vindo para cá. Você provavelmente não notou que não lhe respondi. Darei a resposta agora. Estou aqui perseguindo um assassino. Olhei-o com mais surpresa ainda. Por um momento pensei que estava delirando. — Você está falando sério? — Claro que estou. Por que outra razão teria insistido tanto para que você viesse se encontrar comigo? Meus membros podem não ter mais vida, mas meu cérebro, como já lhe disse, não sofreu qualquer dano. Meu sistema, lembra-se, sempre foi o mesmo: sentar e pensar. Isso ainda posso fazer, na realidade é a única coisa que posso fazer. Para a parte mais laboriosa do processo, terei comigo meu inestimável Hastings. — Você está realmente falando sério? — perguntei, ofegante. — Já lhe disse que sim. Você e eu, Hastings, vamos sair para uma nova caçada. Levei alguns minutos para compreender que Poirot estava realmente sendo sincero. Por mais fantásticas que suas palavras me parecessem, não havia nenhuma razão para duvidar de seu discernimento. Com um leve sorriso, ele falou: — Finalmente você se convenceu. A princípio imaginou que eu estivesse com o miolo mole, não é? — Não, não — respondi, ansioso. — Só que esse não parece um lugar apropriado. — Ah, você acha? — É claro que ainda não vi todas as pessoas... — Quem você já conheceu? — Só os Luttrell, e um sujeito, Norton, parece meio inofensivo e Boyd Carrington, com esse eu simpatizei muitíssimo. Poirot concordou com a cabeça. — Bem, Hastings, ouça o que estou lhe dizendo, quando você tiver visto o restante das pessoas da casa, minha afirmação vai lhe parecer tão absurda quanto agora. — Quem mais está aí? — Os Franklin, o doutor e a senhora, a enfermeira que cuida da sra. Franklin, e sua filha Judith. Há também um outro homem, Allerton, um dom-juan, e uma srta. Cole, mulher de seus trinta anos. São todos, estou lhe dizendo, excelentes pessoas. — E uma delas é um assassino? — E uma delas é um assassino. — Mas por quê, como, o que faz você pensar que...? Achei difícil ordenar minhas perguntas, elas tropeçavam umas nas outras. — Calma, Hastings. Vamos começar do começo. Apanhe, por favor, aquela caixinha na escrivaninha. Bien. E agora a chave, assim... Destrancando a pasta de couro, tirou dela um bolo de recortes de jornais e papéis datilografados. — Você pode estudá-los à vontade, Hastings. Por ora não vou incomodar você com os recortes dos jornais. São apenas relatos da imprensa de diversas tragédias, às vezes imprecisos, outras vezes sugestivos. Para você ter uma ideia dos casos, sugiro que você leia o sumário que fiz. Profundamente interessado, comecei a ler. CASO A — ETHERINGTON Leonard Etherington. Hábitos desagradáveis — tomava drogas e também bebia. Pessoa esquisita e sádica. Esposa jovem e bonita. Desesperadamente infeliz com ele. Etherington morreu, aparentemente de intoxicação alimentar. Médico não satisfeito. Autópsia revelou morte devido a dose de arsênico. Suprimento de veneno para jardim guardado na casa, mas adquirido muito antes. Sra. Etherington presa e acusada de assassinato. Recentemente, tornara-se amiga de um funcionário público que estava voltando para a Índia. Nenhum sinal concreto de infidelidade, mas evidência de profundo relacionamento entre eles. O jovem depois ficou noivo de uma moça que conheceu em viagem. Alguma dúvida sobre se a carta avisando a sra. Etherington desse fato chegou antes ou depois da morte do marido. Ela diz que antes. Provas contra ela meramente circunstanciais, ausência de qualquer outro suspeito provável, e acidente altamente improvável. Muita compaixão sentida por ela no julgamento por causa do temperamento do seu marido e os maus-tratos sofridos por ela. A súmula do juiz foi favorável a ela, dando ênfase ao fato de que o veredicto deveria estar acima de qualquer suspeita. Sra. Etherington absolvida. Opinião geral, no entanto, é de que foi culpada. Sua vida depois disso ficou muito difícil, devido ao tratamento frio que lhe devotaram os amigos. Morreu de uma dose excessiva de barbitúricos, dois anos depois do julgamento. Resultado do inquérito: morte acidental. CASO B — SRTA. SHARPLES Solteirona idosa. Uma inválida. Rabugenta, sofrendo muita dor. Sua sobrinha, Freda Clay, tomava conta dela. Srta. Sharples morreu por causa de uma dose excessiva de morfina. Freda Clay admitiu ter errado na dose, dizendo que o sofrimento da tia era tão grande que não pôde mais aguentar e deu à tia morfina para aliviar a dor. A opinião da polícia é de que o ato foi deliberado, não um erro, mas consideraram as provas insuficientes para levar o caso adiante. CASO C — EDWARD RIGGS Trabalhador rural. Suspeitava de sua mulher com o inquilino, Ben Craig. Craig e a sra. Riggs encontrados mortos à bala. Tiros vieram da arma de Riggs. Riggs se entregou à polícia, disse que devia ter sido ele, mas que não se lembrava de nada. “Deu um branco na minha cabeça”, disse. Riggs condenado à morte. Pena comutada para prisão perpétua. CASO D — DEREK BRADLEY Tinha um caso com uma garota. Sua mulher descobriu e o ameaçou de morte. Bradley morreu de uma dose de cianureto de potássio na cerveja. Sra. Bradley presa e julgada por assassinato. Confessou no interrogatório. Condenada e enforcada. CASO E — MATTHEW LITCHFIELD Velho tirano. Quatro filhas em casa, sem permissão para qualquer divertimento e sem dinheiro para gastar. Uma noite, voltando da rua, foi atacado em frente a sua casa e morto com uma pancada na cabeça. Mais tarde, depois da investigação da polícia, sua filha mais velha, Margaret, foi até a delegacia e confessou o assassinato do pai. Ela fez aquilo, segundo suas próprias palavras, para que as irmãs mais novas pudessem viver a vida enquanto havia tempo. Litchfield deixou uma imensa fortuna. Margaret Litchfield foi declarada louca e enviada a Broadmoor, mas morreu pouco depois. Lia com toda atenção, mas com um sentimento crescente de espanto. Finalmente pus os papéis no colo e olhei inquisitivo para Poirot. — Bem, mon ami? — Ainda me lembro do caso Bradley — falei devagar. — Li sobre o assunto na época. Ela era uma mulher muito bonita. Poirot concordou com a cabeça. — Mas você tem de me esclarecer umas coisas. De que se trata tudo isso? — Você me diga primeiro como isso se afigurou a seus olhos. Estava bastante intrigado. — O que você me mostrou foi o relato de cinco assassinatos. Ocorreram em lugares e em meios sociais diferentes. Sobretudo não há qualquer semelhança entre eles, pelo menos superficialmente. Quer dizer, um foi um caso de ciúme, outro uma esposa infeliz querendo acabar com o marido, em outro o motivo era dinheiro, outro, pode-se dizer, teve um motivo altruísta, já que o assassino não tentou escapar da punição, e o quinto foi francamente brutal, provavelmente cometido sob influência alcoólica. — Fiz uma pausa e disse com incerteza: — Há algo em comum entre eles que não peguei? — Não, de maneira alguma, você foi muito preciso em seu relato. O único fator que você poderia ter mencionado, mas que não mencionou, foi que em nenhum dos casos houve qualquer tipo de dúvida real. — Acho que não estou entendendo. — A sra. Etherington, por exemplo, foi absolvida. Mas todo mundo, apesar disso, tinha certeza de que ela era culpada. Freda Clay não foi abertamente acusada, mas ninguém pensou em qualquer alternativa para solucionar o caso. Riggs afirmou não se lembrar de ter matado a mulher e o amante, mas ninguém perguntou se outra pessoa poderia tê-lo feito. Margaret Litchfield confessou. Em cada caso, você está notando, Hastings, há somente um suspeito considerado. Franzi a testa. — É verdade, mas não vejo que conclusões você tira daí. — Ah, mas note bem, estou chegando a um fato que você ainda desconhece. Suponhamos, Hastings, que em cada caso desses houvesse um elemento estranho comum a todos. — O que você quer dizer? Poirot falou devagar: — Pretendo ser bem cuidadoso no que vou dizer, Hastings. Deixe-me colocar a coisa deste modo. Existe uma certa pessoa, X. Em nenhum desses casos X (aparentemente) teve motivo para liquidar as vítimas. Num dos casos, tanto quanto fui capaz de descobrir, X estava efetivamente há uns duzentos quilômetros de distância quando o crime se deu. Não obstante, vou lhe dizer o seguinte: X era íntimo de Etherington, X morou por uns tempos na mesma aldeia que Riggs, X conhecia pessoalmente a sra. Bradley. Tenho uma foto de Freda Clay e X passeando na rua, e X estava perto da casa quando o velho Matthew Litchfield morreu. Que você me diz disso? Olhei para Poirot. Respondi devagar: — É um pouco demais. Coincidência pode ser, em dois casos, até três, mas cinco é um pouco pesado. Por mais estranho que pareça, deve haver alguma ligação entre os assassinatos. — Você supõe, então, o que eu supus? — Que X é o assassino? Claro. — Nesse caso, Hastings, você vai querer dar comigo um próximo passo. Deixe-me contar uma coisa. X está nesta casa. — Aqui? Em Styles? — Em Styles. E qual a conclusão lógica que se tira daí? Sabia o que estava por vir quando insisti: — Vamos, diga. Hercule Poirot declarou solene: — Um assassinato será cometido brevemente aqui, aqui.