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Cidade de Ladrões (Cód: 2608843)

BENIOFF ,DAVID

Alfaguara / Objetiva

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Descrição

Em Cidade de ladrões, um jovem escritor, convidado para escrever um ensaio autobiográfico, decide trocar o relato de sua própria vida, 'intensamente maçante', pela história do avô, que combateu os alemães durante o cerco a Leningrado, na Segunda Guerra Mundial. Relutante, o avô aceita contar, pela primeira vez, o que ocorreu naqueles dias: uma odisséia de dois jovens determinados a sobreviver a todo custo, em meio ao frio, à fome, à loucura dos oficiais russos e ao perigo iminente do Exército alemão.

O mote do romance de David Benioff, conhecido roteirista de cinema, é inspirado na história real de seus avós, cujo sobrenome russo ele decidiu adotar profissionalmente. Freedman é o nome de batismo de David Benioff, autor de roteiros como O Caçador de Pipas, Tróia e X-Men - Wolverine.

Lev Beniov, protagonista deste romance que tem como pano de fundo eventos marcantes da História contemporânea, é um jovem tímido e solitário. Preso pelos russos por não respeitar o toque de recolher, acaba dividindo a cela com Kolya, um rapaz carismático, acusado de abandonar a frente de batalha. Para que não sejam executados, os dois recebem de um coronel uma missão aparentemente impossível: encontrar, na cidade gelada e sem alimentos, uma dúzia de ovos para que a filha do oficial tenha um bolo de casamento decente.

Esse é o início de uma jornada às mais perigosas zonas de guerra - povoadas por canibais, prostitutas, crianças esfomeadas e implacáveis nazistas -, mas que os leva a conhecer o valor da verdadeira amizade e, no caso de Lev, à descoberta do primeiro amor

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Alfaguara / Objetiva
Cód. Barras 9788560281688
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788560281688
Profundidade 1.00 cm
Número da edição 1
Ano da edição 2008
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 296
Peso 0.44 Kg
Largura 15.00 cm
AutorBENIOFF ,DAVID

Leia um trecho

Nunca tínhamos sentido tanta fome; nunca tínhamos sentido tanto frio. Quando dormíamos, se dormíamos, sonhávamos com as delícias que tínhamos comido de maneira tão descuidada sete meses antes — todo aquele pão com manteiga, os bolinhos de batata, as salsichas — comidos com desatenção, engolindo sem sentir o gosto, deixando grandes sobras em nossos pratos, restos de gordura. Em junho de 1941, antes de os alemães chegarem, achávamos que éramos pobres. Mas junho fi cou parecendo o paraíso quando veio o inverno. À noite o vento soprava com tanto barulho e durante tanto tempo que nos assustávamos quando ele parava. As dobradiças das janelas do café abandonado que fi cava na esquina paravam de ranger por alguns segundos agourentos, como se um predador estivesse se aproximando e os animais menores fi casse em silêncio, aterrorizados. As próprias janelas haviam sido arrancadas em novembro para serem usadas como lenha. Não havia mais restos de madeira em Leningrado. Todas as placas de madeira, os sarrafos dos bancos do parque, as tábuas do assoalho das casas despedaçadas — tudo havia desaparecido, queimado no fogão de alguém. Os pombos também tinham desaparecido, pegos e cozidos em gelo derretido do Neva. Ninguém se importava em abater os pombos. Eram os cachorros e gatos que causavam problema. Ouvimos um boato em outubro de que alguém tinha assado o vira-lata da família e cortado em quatro para servir na ceia; demos risada e balançamos a cabeça, sem acreditar, e também nos perguntando se cachorro não teria um gosto bom com bastante sal — ainda havia muito sal, mesmo quando todo o resto acabou, nós tínhamos sal. Por volta de janeiro, os boatos haviam se tornado fatos comuns. Tirando aqueles que eram bem relacionados, ninguém mais conseguia alimentar um animal de estimação, então os bichinhos nos alimentavam. Havia duas teorias sobre os gordos versus os magros. Alguns diziam que aqueles que eram gordos antes da guerra tinham mais chance de sobrevivência: uma semana sem comida não iria transformar um homem gorducho em um esqueleto. Outros diziam que as pessoas magricelas estavam mais acostumadas a comer pouco e podiam lidar melhor com o choque da fome. Eu me posicionava no segundo grupo, totalmente por interesse próprio. Fui raquítico desde que nasci. Nariz grande, cabelo preto, a pele rabiscada pela acne — reconheço que eu não era o ideal de bom partido de nenhuma garota. Mas a guerra me tornou mais atraente. Outros defi nhavam à medida que os cartões de racionamento eram cada vez mais reduzidos, diminuindo pela metade aqueles que pareciam os fortões de circo antes da invasão. Eu não tinha músculos para perder. Como os pequenos roedores que continuaram vivendo de porcarias enquanto os dinossauros tombavam ao redor deles, eu estava preparado para a privação. Na véspera do ano-novo me sentei no telhado do Kirov, o prédio de apartamentos onde morei desde os cinco anos (embora ele não tivesse nome até 1934, quando Kirov foi assassinado e metade da cidade recebeu seu nome), olhando os dirigíveis antiaéreos cinzentos e rechonchudos como um enxame sob as nuvens, à espera dos bombardeiros. Naquela época do ano o sol fi cava no céu por apenas seis horas, apressando-se para atravessar de um horizonte a outro como se estivesse assustado. Todas as noites quatro de nós fi cávamos no telhado em turnos de três horas, armados com baldes de água e de areia, tenazes de ferro e pás, vestindo todas as camisas, suéteres e casacos que pudéssemos encontrar, vigiando os céus. Nós éramos os bombeiros. Os alemães tinham decidido que atacar a cidade seria muito custoso, então, em vez disso, eles nos cercaram, pretendendo nos matar de fome, jogando bombas e queimando tudo. Antes da guerra mil e cem pessoas moravam no Kirov. Quando o ano-novo chegou, esse número estava perto de quatrocentos. A maioria das crianças pequenas fora evacuada antes que os alemães fechassem o cerco em setembro. Minha mãe e minha irmã menor, Taisya, foram para Vyazma para fi car com o meu tio. Na noite antes de partirem, eu briguei com minha mãe, na única briga que tivemos — ou, mais exatamente, a única vez em que reagi. Ela queria que eu fosse com elas, é claro, longe dos invasores, bem no centro do país, onde os bombardeiros não poderiam nos encontrar. Mas eu não ia abandonar Piter. Eu era um homem, ia defender a minha cidade, seria uma Nevski do século XX. Talvez eu não fosse assim tão ridículo. Eu tinha um bom argumento: se cada pessoa fi sicamente capaz fugisse, Leningrado cairia nas mãos dos fascistas. E sem Leningrado, sem a Cidade dos Trabalhadores construindo tanques e fuzis para o Exército Vermelho, que chances a Rússia teria? Minha mãe achava que era um argumento idiota. Eu mal tinha completado dezessete anos. Não soldava blindagens nas fábricas e não poderia me alistar antes de quase um ano. A defesa de Leningrado nada tinha a ver comigo; eu era apenas mais uma boca para alimentar. Eu ignorava esses insultos. — Sou bombeiro — disse-lhe, porque aquilo era verdade, o conselho municipal havia ordenado a criação de dez mil unidades de bombeiros, e eu era o orgulhoso comandante da Brigada do Quinto Andar do Kirov. Minha mãe não tinha quarenta anos, mas seu cabelo já estava grisalho. Ela estava sentada na minha frente à mesa da cozinha, segurando uma de minhas mãos entre as suas. Era uma mulher muito pequena, mal chegava a um metro e meio, e tive medo dela desde o meu nascimento. — Você é um idiota — disse ela. Talvez isso possa soar ofensivo, mas minha mãe sempre me chamava de “meu idiota”, e àquela altura eu considerava a palavra um apelido afetuoso. — A cidade estava aqui antes de você. Ela vai estar aqui depois de você. Taisya e eu precisamos de você. Ela estava certa. Um fi lho melhor, um irmão melhor, teria ido com ela. Taisya me adorava, pulava sobre mim quando eu chegava da escola, lia para mim uns poeminhas tolos que ela escrevia como dever de casa, para honrar os mártires da revolução, desenhava caricaturas de meu perfi l narigudo em seu caderno. Geralmente eu queria estrangulá-la. Eu não tinha vontade de atravessar o país com minha mãe e minha irmã menor. Eu tinha dezessete anos, inundado em uma crença em meu próprio destino heróico. A declaração de Molotov durante seu discurso pelo rádio no primeiro dia da guerra (NOSSA CAUSA É JUSTA. O INIMIGO SERÁ DERROTADO. NÓS TRIUNFAREMOS.) havia sido impressa em milhares de cartazes que foram colados nos muros da cidade. Eu acreditava na causa; não ia fugir do inimigo; não ia fi car fora do triunfo. Mamãe e Taisya partiram na manhã seguinte. Elas foram de ônibus uma parte do caminho, conseguiram carona em caminhões do Exército, e andaram por quilômetros intermináveis nas estradas do campo com suas botas de solas abertas. Levaram três semanas para chegar lá, mas conseguiram, fi nalmente seguras. Ela me mandou uma carta descrevendo a jornada, o terror e o cansaço. Talvez quisesse me fazer sentir culpa por tê-las abandonado, e eu senti, mas também sabia que era melhor que elas tivessem ido embora. O grande combate estava próximo e a linha de frente não era lugar para elas. No dia 7 de outubro os alemães tomaram Vyazma, e parei de receber cartas dela. Eu gostaria de dizer que sentia falta das duas depois que foram embora, em algumas noites me sentia solitário, e sempre sentia falta da comida que minha mãe fazia, mas desde pequeno sonhei em viver por conta própria. Minhas histórias favoritas eram protagonizadas por órfãos diligentes que atravessavam a fl oresta escura, sobrevivendo a todos os perigos com esperteza, levando a melhor sobre seus inimigos, encontrando seu destino no meio de suas perambulações. Eu não diria que estava feliz — nós todos estávamos com fome demais para estarmos felizes —, mas eu acreditava que aqui fi nalmente estaria o Signifi cado. Se Leningrado caísse, a Rússia cairia; se a Rússia caísse, o fascismo conquistaria o mundo. Todos nós acreditávamos nisso. E ainda acredito. Eu era jovem demais para o Exército, mas tinha idade sufi ciente para cavar valas antitanque durante o dia e guardar os telhados à noite. Na minha equipe estavam os meus amigos do quinto andar — Vera Osipovna, uma talentosa violoncelista, os gêmeos ruivos Antokolsky, cujo único talento conhecido era a habilidade de peidar em harmonia. Nos primeiros dias da guerra nós fumávamos no telhado, fazendo poses de soldados, fortes, corajosos e de queixo reto, vigiando os céus à procura do inimigo. No fi nal de dezembro não havia mais cigarros em Leningrado, pelo menos nenhum feito com tabaco. Algumas almas desesperadas esmagavam folhas caídas, enrolando-as em papel, que chamavam de Luzes de Outono, afi rmando que as folhas certas proporcionavam um cigarro decente, mas no Kirov, longe da mais próxima árvore que ainda estava em pé, aquilo nunca foi uma opção. Passávamos nossos momentos de folga caçando ratos, que devem ter achado que o desaparecimento dos gatos da cidade era a resposta a todas as suas preces mais antigas, até que perceberam que não havia mais nada para comer no lixo. Depois de meses de bombardeios, sabíamos identifi car os diversos aviões alemães pelo som de seus motores. Naquela noite eram os Junkers 88, como vinha sendo há semanas, substituindo os Heinkel e os Dornier que nossos combatentes agora conseguiam acertar com facilidade. Por mais triste que nossa cidade tivesse fi cado sob a luz do dia, à noite havia uma estranha beleza no cerco. Do telhado do Kirov, quando havia lua, podíamos ver toda Leningrado: a torre de ponta de agulha do Almirantado (pintada com tinta cinza para ocultá-la dos bombardeiros); a Fortaleza de Pedro e Paulo (os pináculos envolvidos em malha de camufl agem); as abóbadas de Santo Isaac e o Templo do Salvador sobre o Sangue. Podíamos ver as equipes controlando as armas antiaéreas sobre os telhados dos prédios vizinhos. A Frota do Báltico havia ancorado no rio Neva; fi caram fl utuando ali, gigantescas sentinelas cinzentas, disparando seus enormes canhões das plataformas da artilharia nazista. Os combates aéreos eram muito bonitos. Os Ju-88 e os Sukhoi circulavam sobre a cidade, invisíveis do chão, a menos que fossem pegos pelos fachos dos potentes holofotes. Os Sukhoi tinham enormes estrelas vermelhas pintadas na parte de baixo de suas asas, para que nossas armas antiaéreas não atirassem neles. Em intervalos de poucas noites, víamos uma batalha iluminada como se fosse um palco, os bombardeiros alemães, mais pesados e lentos, inclinavam as asas de maneira acentuada, para permitir que seus atiradores mirassem nos velozes caças russos. Quando um Junkers era abatido, a carcaça em chamas do avião caindo como um anjo expulso do paraíso, um enorme grito de desafi o erguia-se dos telhados por toda a cidade, todos os atiradores e bombeiros erguendo os punhos fechados para saudar o piloto vitorioso. Nós tínhamos um pequeno rádio conosco no telhado. Na véspera de ano-novo, ouvimos os carrilhões do relógio Spassky em Moscou tocando a Internacional. Vera havia encontrado meia cebola em algum lugar; ela a cortou em quatro pedaços em um prato com óleo de girassol. Depois que a cebola desapareceu, limpamos a sobra do óleo com nossa ração de pão. O pão que recebíamos não tinha gosto de pão. Não tinha gosto de comida. Depois que os alemães bombardearam os armazéns de grãos de Badayev, as padarias da cidade tornaram-se criativas. Tudo que pudesse ser acrescentado à receita sem envenenar as pessoas era acrescentado. A cidade inteira estava morrendo de fome, ninguém tinha o sufi ciente para comer, mas mesmo assim todo mundo xingava o pão, o gosto de serragem, o jeito que ele endurecia no frio. Pessoas quebraram dentes tentando mastigálo. Mesmo hoje, mesmo tendo esquecido o rosto das pessoas que amei, eu ainda me lembro do gosto daquele pão. Meia cebola e um pão de 125 gramas divididos por quatro — isso era uma refeição razoável. Ficávamos deitados de costas, embrulhados em cobertores, observando os dirigíveis presos em seus longos cabos fl utuando ao vento, ouvindo o metrônomo no rádio. Quando não havia música ou notícias, a estação de rádio transmitia o som de um metrônomo, o tic-tic-tic interminável informando-nos que a cidade ainda não fora conquistada, que os fascistas ainda estavam fora dos portões. O som do metrônomo no rádio era o coração pulsante de Piter, e os alemães nunca o silenciaram. Foi Vera quem viu o homem caindo do céu. Ela gritou e apontou, e todos fi camos em pé para ver melhor. Um dos holofotes brilhava sobre um pára-quedista que descia em direção à cidade, a seda do pára-quedas como uma tulipa branca acima dele. — Um Fritz — disse Oleg Antokolsky, e ele estava certo; nós conseguíamos ver o uniforme cinza da Luftwaffe. De onde teria vindo? Nenhum de nós tinha ouvido sons de combate aéreo, nem o estrondo de uma arma antiaérea. Não ouvíamos um bombardeiro passar por lá havia quase um hora. — Talvez tenha começado — disse Vera. Durante semanas estivemos ouvindo rumores de que os alemães estavam preparando um lançamento maciço de soldados pára-quedistas, um ataque fi nal para arrancar o miserável espinho de Leningrado do traseiro do exército que avançava. A qualquer minuto esperávamos olhar para cima e ver milhares de nazistas fl utuando em direção à cidade, uma nevasca de páraquedas brancos encobrindo o céu, mas dúzias de holofotes rasgaram a escuridão e não encontraram mais inimigos. Havia apenas aquele ali, e a julgar pela moleza do corpo suspenso pelas correias do pára-quedas, já estava morto. Ficamos observando enquanto ele descia, congelado na luz do holofote, baixo o sufi ciente para podermos ver que havia perdido uma de suas botas pretas. — Ele está vindo na nossa direção — falei. O vento levou-o para a rua Voinova. Os gêmeos se entreolharam. — Luger — disse Oleg. — A Luftwaffe não usa Lugers — disse Grisha. Ele era cinco minutos mais velho e a autoridade em armamento nazista. — Walther PPK. Vera sorriu para mim. — Chocolate alemão. Corremos para a porta da escadaria, abandonando nossas ferramentas de bombeiro, e descemos correndo no escuro. Nós éramos idiotas, é claro. Um escorregão em um daqueles degraus, sem gordura ou músculos para amortecer a queda, significava um osso quebrado, e um osso quebrado signifi cava a morte. Mas nenhum de nós se importava. Éramos muito jovens, e um alemão morto estava caindo na rua Voinova trazendo presentes da Vaterland. Atravessamos o pátio correndo e escalamos o portão trancado. Todos os postes da rua estavam apagados. A cidade toda estava no escuro — para tornar mais difícil o trabalho dos bombardeiros e porque a maior parte da eletricidade tinha sido desviada para as fábricas de munição —, mas a lua oferecia claridade o bastante para enxergarmos. A Voinova estava desimpedida e deserta, seis horas depois do toque de recolher. Não havia carros à vista. Apenas os militares e o governo tinham acesso a gasolina, e todos os automóveis civis tinham sido requisitados durante os primeiros meses da guerra. Tiras de papel atravessavam as vitrines das lojas, o que, segundo nos dizia o rádio, tornava-as mais resistentes à quebra. Talvez aquilo fosse verdade, embora eu tivesse passado na frente de muitas lojas em Leningrado onde só o que havia sobrado nas vitrines era uma tira de papel pendurada. Já na rua, olhamos para o céu, mas não conseguimos encontrar nosso homem. — Para onde ele foi? — Você acha que ele caiu em um telhado? Os holofotes estavam vasculhando o céu, mas todos estavam montados no topo dos prédios altos e nenhum deles tinha ângulo para iluminar a rua Voinova. Vera deu um puxão na gola de meu sobretudo, um enorme casaco da marinha que eu havia herdado de meu pai e que ainda era grande demais para mim, mas mais quente do que qualquer outra roupa que tinha. Eu me virei e o vi deslizando em direção à rua, o nosso alemão, a bota preta única deslizando sobre a calçada congelada, o enorme pára-quedas branco ainda inchado no vento, levandoo na direção dos portões do Kirov, o queixo enterrado no peito, o cabelo preto salpicado de cristais de gelo, o rosto lívido sob o luar. Ficamos imóveis, olhando-o aproximar-se. Tínhamos visto coisas naquele inverno que os olhos de ninguém jamais deveriam ver, achávamos que nada poderia nos surpreender, e se o alemão tivesse sacado sua Walther e começado a atirar, nenhum de nós teria conseguido fugir a tempo. Mas o morto continuou morto, e por fi m o vento cedeu, o pára-quedas se esvaziou, e ele caiu bruscamente na calçada, sendo arrastado por mais alguns metros de rosto para baixo em uma humilhação fi nal. Fizemos um círculo em volta do piloto. Grisha ajoelhouse e abriu o coldre do alemão. — Walther PPK. Não falei? Rolamos o alemão para que ele fi casse de costas. O rosto pálido estava ferido, a pele esfolada sobre o asfalto, as escoriações descoradas como a pele intacta. Os mortos não se ferem. Eu não conseguia dizer se ele havia morrido assustado, desafi ador ou sereno. Não havia traço de vida ou de personalidade em seu rosto — ele parecia um cadáver que tinha nascido como cadáver. Oleg tirou as luvas pretas de couro, enquanto Vera pegou o cachecol e os óculos de proteção. Encontrei uma bainha presa ao tornozelo do piloto e tirei dela uma faca de aço temperado, com um guarda-mão de prata e uma lâmina de corte único de quinze centímetros gravada com palavras que eu não conseguia ler sob a luz do luar. Recoloquei a lâmina na bainha e prendi-a ao meu próprio tornozelo, sentindo pela primeira vez em meses que meu destino de guerreiro estava fi nalmente se tornando realidade. Oleg encontrou a carteira do morto e sorriu ao contar os marcos alemães. Vera embolsou um cronômetro, duas vezes maior do que um relógio de pulso, que o alemão usava preso à manga de sua jaqueta de vôo. Grisha encontrou um par de bi nóculos dobrados em um estojo de couro, dois carregadores extras para a Walther, e um pequeno cantil. Ele tirou a tampa, cheirou e me passou o cantil. — Conhaque? Tomei um gole e confi rmei com a cabeça. — Conhaque. — Quando é que você tomou conhaque para saber o gosto? — perguntou Vera. — Já tomei antes. — Quando? — Deixa eu ver — disse Oleg, e o cantil passou pelo círculo, nós quatro de cócoras ao redor do piloto caído, tomando aquela bebida que poderia ser conhaque, brandy ou Armagnac. Nenhum de nós sabia a diferença. Seja lá o que fosse, aquele líquido esquentava a barriga. Vera olhou fi xamente o rosto do alemão. A expressão dela não demonstrava pena, nem medo, apenas curiosidade e desprezo — o invasor tinha vindo jogar suas bombas sobre nossa cidade e em vez disso jogou a si mesmo. Não o tínhamos derrubado, mas nos sentíamos triunfantes mesmo assim. Mais ninguém no Kirov tinha encontrado o cadáver de um inimigo. Pela manhã seríamos o assunto do prédio de apartamentos. — Como você acha que ele morreu? — perguntou ela. Nenhum ferimento de bala manchava o corpo, não havia nenhuma parte chamuscada, nenhum sinal de qualquer violência. A pele estava pálida demais em comparação à dos vivos, mas nada a havia perfurado. — Ele morreu congelado — eu lhes disse. Falei com autoridade porque eu sabia que era a verdade e não tinha como provar. O piloto tinha saltado a milhares de metros acima de Leningrado à noite. O ar no nível do solo era frio demais para as roupas que ele estava usando; lá em cima, nas nuvens, fora de sua cabine quente, não teve chance. Grisha ergueu o cantil, fazendo um brinde. — Viva o frio. O cantil começou a circular novamente. Ele nunca chegou em mim. Nós deveríamos ter ouvido o motor do carro a dois quarteirões de distância, a cidade depois do toque de recolher erasilenciosa como a lua, mas estávamos ocupados tomando nossa bebida alemã, fazendo nossos brindes. Apenas quando o GAZ entrou na rua Voinova, os pneus pesados fazendo barulho sobre o asfalto, os faróis vindo na nossa direção, é que percebemos o perigo. A punição por violar o toque de recolher sem uma autorização era a execução sumária. A punição por abandonar uma posição dos bombeiros era a execução sumária. A punição por pilhagem era a execução sumária. Os tribunais não funcionavam mais; os policiais estavam no front, as prisões com apenas meia capacidade e diminuindo rapidamente. Quem tinha comida para um inimigo do Estado? Se infringisse a lei e fosse pego, você seria morto. Não havia tempo para quaisquer sutilezas legais. Então saímos correndo. Nós conhecíamos o Kirov melhor do que qualquer um. Se conseguíssemos ultrapassar os portões do pátio e entrar na escuridão gélida do espaçoso prédio, ninguém poderia nos encontrar, mesmo que tivesse três meses para procurar. Podíamos ouvir os soldados gritando para que parássemos, mas aquilo não importava; vozes não nos assustavam, apenas balas faziam diferença, e ninguém havia puxado um gatilho ainda. Grisha conseguiu chegar ao portão primeiro — ele era o mais próximo de um atleta entre nós —, pulou sobre as barras de ferro e içou-se sobre elas. Oleg seguia logo atrás, e eu estava bem atrás de Oleg. Nossos corpos eram fracos, os músculos retraídos pela falta de proteína, mas o medo nos ajudou a escalar o portão com mais rapidez do que nunca. Perto do topo do portão eu olhei para trás e vi que Vera havia escorregado em uma camada de gelo. Ela olhou para mim, os olhos arregalados e cheios de medo, apoiada sobre as mãos e joelhos enquanto o GAZ freava ao lado do corpo do piloto alemão e quatro soldados desciam. Eles estavam a uns seis metros de distância, empunhando fuzis, mas eu ainda tive tempo de pular sobre o portão e desaparecer dentro do Kirov. Gostaria de poder lhe dizer que a idéia de abandonar Vera nunca passou pela minha cabeça, que minha amiga estava em perigo e que fui resgatá-la sem hesitar. Mas a verdade é que, naquele momento, eu a odiei. Eu a odiei por ter sido desajeitada na pior hora possível, por olhar para mim com seus olhos castanhos cheios de pânico, elegendo-me para ser seu salvador, muito embora Grisha tivesse sido o único que ela alguma vez beijou. Eu sabia que não poderia viver com a lembrança daqueles olhos implorando para mim, e ela sabia, também, e eu a odiei mesmo quando desci do portão com um pulo, levantei-a do chão e a puxei até as barras de ferro. Eu era fraco, mas Vera não chegava a pesar quarenta quilos. Eu a levantei sobre o portão enquanto os soldados gritavam e os saltos de suas botas estalavam sobre a calçada e seus fuzis eram engatilhados. Vera conseguiu passar por cima do portão e eu subi com difi culdade atrás dela, ignorando os soldados. Se eu parasse, eles se reuniriam ao meu redor, diriam que eu era um inimigo do Estado, me forçariam a ajoelhar e me dariam um tiro na nuca. Eu era um alvo fácil, mas talvez eles estivessem bêbados, talvez fossem rapazes da cidade como eu, que nunca tinham dado um tiro antes em suas vidas, talvez errassem de propósito porque sabiam que eu era um patriota e defensor da cidade e que eu tinha saído furtivamente do Kirov apenas porque um alemão tinha caído de uma altura de seis mil metros na minha rua, e qual garoto russo de dezessete anos não sairia de fi ninho para dar uma espiada em um fascista morto? Meu queixo estava nivelado com o topo do portão quando senti mãos enluvadas envolverem os meus tornozelos. Mãos fortes, as mãos de soldados do Exército que faziam duas refeições por dia. Eu vi Vera correndo para dentro do Kirov, sem sequer olhar uma vez para trás. Tentei subir pelas barras de ferro, mas os soldados me arrastaram para baixo, me jogaram na calçada e fi caram sobre mim, os canos de seus fuzis Tokarev espetando o meu rosto. Nenhum dos soldados parecia ter mais do que dezenove anos e nenhum deles parecia relutante em espalhar os meus miolos pela rua. — Esse aqui parece que vai cagar nas calças. — Estava dando uma festa aqui, fi lho? Encontrou um pouco de aguardente? — Ele vai ser bom para o coronel. Podemos colocá-lo junto com o Fritz. Dois deles se curvaram, agarraram-me pelas axilas, sacudiram-me para que eu fi casse em pé, guiaram-me até o GAZ e me empurraram para dentro, no banco de trás. Os outros dois soldados ergueram o alemão pelas mãos e pelos pés, jogando-o no carro ao meu lado. — Para te esquentar — disse um deles, e todos riram como se fosse a piada mais engraçada do mundo. Eles se apertaram dentro do carro e bateram as portas. Decidi que eu ainda estava vivo porque queriam me executar em público, como um aviso para outros saqueadores. Alguns minutos antes eu tinha me sentido mais poderoso do que o piloto morto. Agora, enquanto passávamos correndo pela rua escura, ziguezagueando para desviar das crateras de bombas e dos amontoados de entulho, ele parecia estar zombando de mim, os lábios pálidos como uma cicatriz dividindo seu rosto congelado. Estávamos indo na mesma direção.

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Avaliação geral: 5

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Gabriela recomendou este produto.
23/05/2016

Excelente

Uma ficção histórica que consegue, por meio da simplicidade, nos transportar para a intensidade de uma guerra. Certamente, uma obra que merece ser lida.
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