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Claro Como o Dia - Como a Certeza da Morte Mudou a Minha Vida (Cód: 1465482)

O'Kelly,Eugene

Nova Fronteira

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Descrição

Um executivo de sucesso descobre, quando alcança o ponto máximo de sua carreira, que tem apenas três meses de vida. O curto prazo foi dado em maio de 2005 a Eugene O'Kelly, então presidente de uma das maiores empresas de consultoria do mundo, a KPMG. O diagnóstico de câncer no cérebro não o fez perder o hábito de planejar tudo, mas foi mudando sua maneira de encarar a vida que o executivo conseguiu transformar seus últimos dias nos melhores que já tinha vivido, superando o peso da morte anunciada. As lições que aprendeu são contadas em Claro como o dia - Como a certeza da morte mudou a minha vida.
Aos 53 anos, a notícia do fim próximo também serviu para o executivo rever toda a vida. Descobriu que poderia ter acompanhado melhor o crescimento das filhas e convivido mais com a esposa. Pessoas que, por causa do trabalho, se alimentam mal, não se cuidam, viajam mas não conhecem de fato os lugares, vivem ligados nos e-mails e nas chamadas do celular vão se identificar profundamente com o relato de 'Claro como o dia'.
'Se você tem 50 anos e planeja pensar na morte aos 55, antecipe-se. Se tem 30 e planeja pensar na morte daqui a 20 anos, antecipe-se', aconselha o autor.
A Editora Nova Fronteira destina parte da renda obtida com a venda deste livro para o INCA (Instituto Nacional do Câncer).

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Nova Fronteira
Cód. Barras 9788520919514
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 8520919510
Profundidade 0.80 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2006
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 155
Peso 0.19 Kg
Largura 14.00 cm
AutorO'Kelly,Eugene

Leia um trecho

Um presente Fui abençoado. Disseram que eu tinha três meses de vida. Você deve achar que estou brincando por emendar essas duas frases. Ou que sou louco. Vai ver, eu tinha uma vida infeliz, sem realizações, e quanto mais rápido ela chegasse ao fim, melhor. Nada disso. Eu amava a minha vida. Adorava a minha família. Curtia meus amigos, a carreira que segui, as empresas generosas de que fazia parte e o golfe. Estou bastante lúcido. E falo sério, também: o veredicto que recebi na última semana de maio de 2005 — que era improvável que eu vivesse até o primeiro dia de aula da minha filha, Gina, na 8ª série, na primeira semana de setembro — acabou sendo uma dádiva. Sinceramente. Porque fui forçado a pensar sobre a minha própria morte e, como conseqüência, passei a refletir melhor do que nunca sobre a minha vida. Apesar de ser desagradável, reconheci que estava no último estágio da vida, me obriguei a decidir como passar os meus últimos cem dias (umas poucas semanas a mais ou a menos) e me esforcei para levar a cabo essas decisões. Resumindo, fiz a mim mesmo duas perguntas: “Será que o fim da vida precisa ser a pior parte?” e “Posso fazer dele uma experiência construtiva — quem sabe até transformá-lo na melhor parte da vida?” Não. Sim. Estas viriam a ser as minhas respostas, respectivamente. Consegui abordar o fim ainda mentalmente lúcido (quase sempre) e fisicamente apto (mais ou menos), com meus entes queridos à volta. Como eu disse: uma bênção. É claro que quase ninguém imagina em detalhes a própria morte. Nem eu, realmente, até precisar fazê-lo. Sentimos uma ansiedade geral e profunda em relação à morte, mas descobrir os detalhes e as formas de aproveitar ao máximo os nossos últimos dias e, depois, garantir que o planejado seja cumprido para ajudar a nós mesmos e àqueles que amamos não são hábitos típicos dos moribundos e menos ainda de quem está saudável e cheio de vida. Alguns não pensam na morte porque ela nunca lhes foi anunciada, chega repentina e prematuramente. Uns poucos que morrem dessa maneira — em um acidente de carro, por exemplo — nem sequer haviam começado a se perceber como mortais. A minha morte, por outro lado, embora meio prematura (eu tinha 53 anos na época do veredicto), não pode ser chamada de repentina (ao menos não há como fazê-lo duas semanas depois de digerir a sentença fatal), já que fui informado de forma bastante explícita que o meu último dia de vida nesta Terra teria lugar durante o ano de 2005. Alguns não pensam em como aproveitar ao máximo seu último estágio porque, quando o fim se aproxima, já não se encontram em condição, física ou mental, de gozar seus últimos dias como deveriam. O alívio da dor é seu principal objetivo. Comigo, não. Eu não passaria por esse tipo de sofrimento. Nas semanas que antecederam o diagnóstico, quando coisas atípicas (ainda que em geral despercebidas) começaram a me acontecer, não senti dor alguma, nada mesmo. Fui informado depois que o próprio fim seria igualmente indolor. As sombras que muito lentamente vinham se avolumando na minha mente aumentariam de tamanho, exatamente como acontece no campo de golfe no finzinho da tarde, naquela hora mágica que é também o meu momento favorito. A luz diminuiria. O buraco — objeto do meu foco — ficaria mais e mais difícil de enxergar. Acabaria sendo difícil de identificar. O brilho embaçaria. Viria o coma. Cairia a noite. Eu morreria. Devido aos fatores que cercavam minha morte — minha relativa juventude, o fato de continuar no gozo das minhas faculdades mentais e em bom estado geral de saúde, sem dores diárias e próximo aos meus entes queridos, a maioria deles ainda na flor da idade —, abordei de maneira diferente os meus últimos cem dias, maneira esta que exigia que eu mantivesse mais do que nunca os olhos abertos. Mesmo com a visão turva. Ah, sim... Um outro fator, provavelmente o principal, influenciou a forma como abordei a partida: a minha mente. O meu jeito de pensar. Primeiro como contador, depois como empresário ambicioso e finalmente como presidente de uma importante empresa americana. Minhas convicções sobre trabalho e conquistas, sobre coerência, continuidade e compromisso tinham raízes tão profundas na minha vida profissional e foram tão úteis nesse terreno, que não podia deixar de aplicá-las à minha derradeira empreitada. Assim como um executivo de sucesso é levado a usar de estratégia e a se preparar o melhor possível para “vencer” em tudo, eu estava agora motivado a ser o mais metódico possível durante meus últimos cem dias. O conjunto de talentos de um alto executivo (capacidade para pensar em todos os aspectos, lidar com um vasto leque de problemas, fazer planos alternativos etc.) me ajudou na preparação para a minha morte (e — não devo ignorar — a minha experiência final me ensinou algumas coisas que, se aprendidas mais cedo, teriam feito de mim um executivo — e uma pessoa — melhor). Ao abordar metodicamente minha derradeira empreitada, eu esperava transformá-la numa experiência positiva para todos à minha volta, bem como nos melhores três meses da minha vida. Eu era um cara de sorte. *** Suponhamos que não tivessem me dado apenas cem dias. O que eu teria feito? Teria pensado na minha próxima viagem de negócios, provavelmente à Ásia. Planejaria como atrair novos clientes, ao mesmo tempo em que cuidaria das contas já existentes. Formularia novas investidas para os seis meses, um ano, cinco anos seguintes. Minha agenda era montada com 12 a 18 meses de antecedência: ossos do ofício. O meu cargo exigia que eu pensasse o tempo todo no futuro. Como construir o sucesso da firma, como garantir a qualidade dos serviços prestados. Sim, tecnicamente, eu vivia no presente, mas com os olhos sempre focados em um lugar mais impalpável, aparentemente mais importante no tempo (antes do diagnóstico, meu último pensamento toda noite antes de adormecer costumava ser sobre algo que aconteceria de um a seis meses mais tarde. Após o diagnóstico, meu último pensamento antes de adormecer passou a ser... o dia seguinte). Em 2002, quando fui eleito presidente do conselho e presidente executivo da KPMG (nos EUA), meu mandato teria seis anos, mas em 2006, se tudo corresse conforme o planejado, eu esperava me tornar o presidente da organização global, talvez por um período de quatro anos. E em 2010? Provavelmente, a aposentadoria. Nunca fui dado a formular hipóteses — meu raciocínio era demasiado direto para isso — mas, por um momento apenas, suponhamos que não surgisse uma sentença de morte. Não seria ótimo ainda poder por muitos anos mais planejar e construir, conduzir e colocar em prática, como eu vinha fazendo? Sim e não. Sim, porque logicamente eu gostaria de continuar por aqui por diversos motivos. Para ver a minha filha Gina se formar no colégio e na faculdade, casar, ter filhos e reinventar o futuro (seja qual for a ordem dos acontecimentos). Para passar a próxima noite de Natal, véspera do aniversário da minha filha mais velha, Marianne, comprando presentes de última hora com ela, comendo, conversando e rindo, como fazíamos todos os anos nesse dia. Para viajar e jogar golfe com a minha mulher, Corinne, companheira durante 27 anos, a garota dos meus sonhos, e partilhar com ela a tranqüila aposentadoria no Arizona que há tanto fantasiávamos e planejávamos. Para ver a minha firma, na qual trabalho desde antes de me formar em administração, há mais de três décadas, criar novos padrões de qualidade e sucesso. Para assistir à vitória dos Yankees em outro Campeonato Mundial, ou em mais três. Para ir às Olimpíadas de 2008 em Pequim. Para ver meus netos crescerem. Mas também houve o não. Não, porque, graças à minha situação, atingi um novo nível de consciência, ao qual não tive acesso nos primeiros 53 anos da minha vida. É simplesmente impossível, para mim, imaginar uma volta àquela outra maneira de pensar, quando esta nova tanto me enriqueceu. Perdi sim, mas também ganhei algo muito precioso. Um dia, não faz muito tempo, estive no topo do mundo. De lá, eu gozava de uma vista que é relativamente rara para um empresário americano, uma perspectiva que me revelava o acesso ao funcionamento interno de várias das maiores e mais bemsucedidas empresas do mundo, de todas as indústrias e até das mentes extraordinárias que as gerenciam. Eu podia ver tudo ao meu redor. Podia ter uma boa idéia de como as coisas evoluiriam economicamente em um futuro próximo. Às vezes, eu me sentia como uma enorme águia no pico de uma montanha — não por causa da invencibilidade, mas pela visão panorâmica. Da noite para o dia, me vi pousado em lugar bem diverso: numa cadeira dura de metal, encarando, do outro lado da mesa, um médico cuja expressão revelava empatia demais para o meu ou para o gosto de qualquer pessoa. Seus olhos me diziam que eu morreria em breve. Estávamos no final da primavera. Eu tinha visto meu último outono em Nova York. Todos os planos que fiz como presidente de empresa foram por água abaixo — ao menos da maneira como eu os via. Embora acreditasse que a firma havia progredido um bocado graças à minha visão, outra pessoa teria agora que liderar a luta. Tudo o que Corinne e eu planejáramos para o nosso futuro iria para o lixo. Foi difícil aceitar o fato de que um dos maiores motivos para sacrificar boa parte do nosso tempo juntos, ao longo de tantos anos, enquanto eu viajava pelo mundo e trabalhava até altas horas, de modo a poder, em compensação, aproveitar uma próspera aposentadoria, havia sido ilusório, embora não soubéssemos disso. Na minha carteira, eu chegava a carregar uma foto do lugar maravilhoso onde sonhávamos curtir a aposentadoria — Stone Canyon, no Arizona —, mas este sonho, agora, já tinha acabado. O mesmo se aplicava a todas as outras metas pessoais para 2006, 2007 e para cada um dos anos seguintes. Sempre fui movido por metas. Como Corinne. Durante todo o tempo da nossa vida em conjunto, fixamos nossas metas de longo prazo e nos empenhamos em realizá-las, ou seja, formulávamos nossos objetivos imediatos de modo a ter maiores chances de cumprir os objetivos futuros. Sempre que a situação mudava — o que acontecia a toda hora — reavaliávamos as nossas metas, imediatas e futuras, e fazíamos ajustes para aumentar as possibilidades de um bom resultado final. As metas desejadas na semana anterior àquela em que o médico me lançou seu olhar infeliz já não eram realizáveis. Quanto mais rápido eu me livrasse dos planos irrealizáveis, melhor. Eu tinha que fixar novas metas. Rápido. Durante a vida, um certo talento para enfrentar a realidade me foi muito útil. Eu o usara quarenta anos antes, em causa muito mais simples, mas ainda assim penosa. Cresci em Bayside, no Queens, um bairro de classe média nos limites de Nova York, que parece não pertencer realmente à cidade. Eu adorava beisebol. Jogava o tempo todo. Fui arremessador do time da escola e me achava ótimo. Cheguei mesmo a sair no jornal do bairro, certa vez, por ter conseguido a vitória para a minha equipe no último lance do jogo, quando tudo já parecia perdido. Eu supunha que teria um futuro no esporte. Um dia, aos 14 anos, minha mãe, que durante anos testemunhara a minha paixão pelo beisebol, me disse que era importante que eu distinguisse paixão de talento. — Como assim? — perguntei. — Você pode ter a paixão necessária para ser um grande jogador — disse ela —, mas não tem o talento. Gastei a maior parte daquele verão digerindo o que mamãe, carinhosamente, me dissera. Seu desejo era que eu conservasse a paixão e, ao mesmo tempo, procurasse um caminho onde o meu talento pudesse florescer. Não parei totalmente de jogar bola nem deixei de ser fã de beisebol, e com o tempo percebi que ela estava certa. No primeiro ano na Universidade Penn State, tentei conseguir um lugar no time como jogador reserva, mas não fui aceito. Eu não possuía o talento do meu irmão, e nem ele era bom o bastante para ultrapassar um certo nível. Gostasse ou não, essa era a minha realidade. Adaptei-me. À medida que ficava mais velho, aprendi a me adaptar mais rápido. Ganhei a capacidade de efetuar grandes guinadas depressa, quase instantaneamente. Quando alguma coisa na minha vida já não funcionava direito, eu a abandonava sem grande sofrimento. Esquecia e tentava me concentrar em meu novo caminho. Minha sensação era a de que não adiantava fingir o que costumava ser verdade, evidentemente, se já não era, ou o que era verdade, por mais incômodo que fosse, se na verdade já era falso. Quanto mais rápido me adaptasse, melhor. Esse foi um talento especialmente útil nos negócios, um mundo no mínimo tão apressado e implacável quanto o mundo em geral. Poucos dias depois do diagnóstico, admiti que a minha vida era diferente da maioria das pessoas. É desse jeito agora, admiti. O que preciso é formular metas tangíveis nesse tempo. Felizmente, segui uma carreira para a qual, ao que parece, não me faltava talento (e pela qual, em última análise, também era apaixonado), e eu podia agora utilizar a minha habilidade e o meu conhecimento para aproveitar ao máximo esta nova e grave realidade. Em lugar de me comportar como uma empresa, me reposicionar rapidamente para me ajustar às novas circunstâncias do mercado, eu precisei descobrir, como indivíduo, a maneira de me reposicionar rapidamente para me ajustar às novas circunstâncias da vida. Minha experiência e perspectiva me conferiam o potencial para administrar a minha última jogada melhor do que a maioria; eu encarei tal oportunidade como uma dádiva. A palavra-chave da frase anterior não é dádiva nem oportunidade, mas potencial. Transformar essa oportunidade numa dádiva genuína, que jamais poderá ser tirada de mim ou da minha família e dos meus amigos, viria a ser o maior desafio da minha vida. *** Talvez seja difícil acreditar nisso. Eu entendo. Afinal, quem encara a morte assim? Como a morte pode ser organizada — mesmo para um contador? Como é possível manter a calma? Como evitar a óbvia busca, ainda que quixotesca, por milagres? Será que é mesmo possível lidar com a morte de forma construtiva — como qualquer outra fase da vida? Com ânimo (se não com esperança)? Não existe aqui uma contradição implícita? E — talvez o mais inacreditável — de que jeito é possível transformar este período terrível no melhor de todos os períodos da sua vida? Para a maioria das pessoas, é extremamente difícil aceitar o fantasma da morte. Ninguém quer passar sequer um minuto pensando nela. É preferível tirá-la da cabeça, deixar para pensar — se é que se vai — mais tarde. Muito, muito mais tarde. No entanto, ninguém conseguia continuar ignorando a noção de morte — prematura, quase acidental — depois de olhar para mim. Dava para perceber nos olhos de todos. Eu aparentava muito mais do que os meus 53 anos — 70, no mínimo, quem sabe 75. O lado direito do meu rosto desabou. A impressão era de que eu sofrera um derrame, dos graves. Logo depois fiquei careca, devido à radioterapia, e a pele da minha cabeça adquiriu a textura de papel-toalha (minha filha Gina me disse que eu lembrava um dr. Evil bonzinho, saído de um filme de Austin Powers). Minha fala às vezes enrolava, como se eu mastigasse bolas de gude. Um colega comentou que eu parecia ter adquirido, de uma hora para outra, o sotaque de Massachusetts. De vez em quando, até os parentes precisavam de tempo para entender o que eu dizia. Era comum me implorarem para tentar — por favor — algum tratamento radical, na esperança de um milagre. Certos amigos e colegas se mostraram quase ofendidos pela minha decisão e pelo meu método, como se, assim, eu alardeasse uma rejeição aos milagres ou mesmo a possibilidade deles (claro que parte de mim ansiava por encontrar na primeira página do New York Times, no dia seguinte, uma descoberta médica miraculosa capaz de me presentear com duas décadas extras de vida, mas eu não podia me dar ao luxo de desperdiçar nem um pouco de energia nessa possibilidade). A maioria das pessoas que eu conhecia me queria vivo para sempre — ou ao menos por outros vários anos. Dessa forma, minha morte não soaria como uma representação da proximidade da morte deles. Tem gente que escreve o próprio obituário. Muitos, sem dúvida, já escolheram seus túmulos e deixaram instruções e preferências específicas, enterros, cremação, doação de seus corpos para pesquisas médicas. Antes, porém, da hora de elaborar a derradeira e mais importante lista de afazeres da minha vida, eu jamais encontrara alguém empenhado em administrar a própria morte de forma tão consciente. Fiz isso simplesmente por ser quem eu era: metódico, organizado, direto, meticuloso. Que culpa tenho eu? Fui contador não apenas por formação, mas por temperamento. As mesmas características que me fizeram capaz de crescer no mundo das finanças e da contabilidade também me tornaram incapaz de agir sem planejar — inclusive morrer. Há muito eu acreditava que um empresário bem-sucedido podia, se assim quisesse, levar uma vida espiritualizada e que, para isso, não precisaria pedir demissão do conselho, mandar tudo às favas e morar num mosteiro, como se só um afastamento dramático como este confirmasse sentimentos profundos e sérios, provenientes da própria alma. Após o meu diagnóstico, continuei a acreditar nisso, mas também descobri uma profundidade que um empresário raramente atinge e aprendi como vale a pena chegar até lá, e antes tarde do que nunca, pois isso é capaz de nos tornar vitoriosos tanto como empresários quanto como pessoas. Você pode chamar a minha de viagem espiritual, uma viagem à alma. Uma viagem que me permitiu vivenciar o que sempre existiu, mas estava oculto graças às distrações do mundo. Aprendi tantas coisas que me pareceram extraordinárias nas minhas últimas semanas de vida (como desconfiei que aprenderia), que segui o impulso de ajudar outras pessoas a encararem esta etapa como algo que merece ser vivenciado se você se preparar para isso. Enquanto caminhava pelo Central Park num dia deslumbrante, umas duas semanas depois do meu diagnóstico, comentei com um dos meus maiores amigos, o mentor que me orientou para o meu último cargo: — A maioria das pessoas não tem esta oportunidade. Ou está doente demais ou não tem a mínima idéia da proximidade da morte. Tenho a oportunidade única de montar o melhor planejamento possível. Acho que o olhar dele foi mais de admiração do que de espanto, mas não tenho certeza. Quando fui presidente da empresa, expandi o nosso programa de orientação de modo que todos tivessem um mentor. Mais tarde, com meus dias contados, evidentemente pensei que todo o meu aprendizado sobre a proximidade da morte me conferiu a responsabilidade de partilhar a minha experiência. Eu queria ensinar, ainda que fosse a uma pessoa apenas, todo o conhecimento que adquiri. Conhecimento sobre como desanuviar os relacionamentos. Sobre como aproveitar de tal maneira cada momento que o tempo parece efetivamente andar mais devagar. Sobre a única coisa que é mais importante que o tempo (e não estou falando de amor). Sobre clareza e simplicidade. Sobre a morte da espontaneidade e a necessidade de revivê-la em nossa vida. Será que os indivíduos sadios não podem aprender essas coisas, será que é preciso ser doente terminal para que tais idéias penetrem em nós? Por mais mórbido que pareça, a experiência me ensinou que devemos pensar sobre a nossa morte e sobre o que queremos fazer com os nossos últimos dias enquanto ainda podemos. Passei a meditar, quase maravilhado, sobre a seguinte pergunta: se a maneira de morrer é uma das decisões mais importantes que podemos tomar (mais uma vez, nas situações possíveis, ou ao menos, previsíveis), por que a maioria das pessoas desiste de tal responsabilidade? E assim fazendo, sacrifica os benefícios que elas mesmas e os que ficam poderiam ter? Para os que estão pensando em algum dia planejar suas últimas semanas e meses, uma palavrinha de alerta: antecipem-se. Se você tem 50 anos e planeja pensar na morte aos 55, antecipe-se. Se tem 30 e planeja pensar na morte daqui a 20 anos, antecipe-se. Enquanto quem descobre ter uma doença terminal se sente motivado a adotar uma rotina mais turbinada, alguém em boa saúde encontra pouca motivação para antecipar o tema um minuto sequer, o que pode já ser um atraso. Essa é a sua desvantagem, talvez até a sua maldição. Antecipe-se. Um amigo que foi convidado a participar de um Renaissance Weekend* — aquelas reuniões de alto nível de políticos, artistas, intelectuais, magnatas da indústria, ganhadores de Prêmio Nobel e outros — me contou que, no final do evento, um seleto grupo de participantes foi instado a fazer um pequeno discurso para a platéia. Cada escolhido tem três minutos e recebe a instrução de imaginar que, assim que terminar de falar, vai morrer. Segundo o meu amigo, todos os discursos prenderam a atenção, mas o mais curioso é que foram surpreendentes. Os homens e mulheres que tiveram a honra de discursar, sem dúvida, pensaram muito no que de mais essencial teriam a dizer e a maioria não correspondeu ao que seria de esperar de um senador, de um físico renomado ou de um diretor financeiro. Antecipe-se. Não fiz tudo totalmente certo. Tive muito trabalho. Errei muito. Quando queria me conscientizar plenamente do momento, várias vezes penei para evitar que a minha mente viajasse para o futuro ou para o passado. Senti raiva. Chorei um bocado. Vez por outra fiquei obcecado. Fracassei repetidamente nas minhas tentativas, mas nem uma vez me arrependi por ter exercido controle sobre a minha vida, sobre os minutos finais e mais preciosos dela, da última vez em que fui realmente capaz de fazê-lo. *** O que há de errado em tudo isso? Eu não podia mergulhar na morte pensando, a sério, que a minha cabeça de empresário agora revelaria a mim, e ao mundo em geral, todas as verdades supremas sobre as questões mais profundas que enfrentamos, podia? Não. Seria arrogância minha. Nunca fui muito chegado a meditar ou filosofar. Embora acredite que a mente empresarial seja, sob importantes aspectos, útil no fim da vida (como foi útil no passado, quando me sentia vigoroso, infatigável e praticamente imortal), é muita maluquice tentar presidir a própria morte. Devido à profundidade da morte e ao fato de tal situação diferir da vida que levei, tive que desfazer no mínimo tantos hábitos profissionais quanto tentei manter. Com efeito, embora nem sempre me sobrasse tempo para refletir, o conflito entre esses dois pólos — meu antigo eu e o eu que precisei criar dia a dia — foi o meu maior desafio, não a morte propriamente dita. Era difícil tentar liderar e administrar, por um lado e, por outro, me libertar de uma vez por todas deste hábito. Que parte de mim sobrou? Que parte de mim se perdeu? Qual delas me ajudaria? Qual delas me faltaria? Terei me tornado uma espécie de antese-depois híbrido? Isso foi bom? Inevitável? O verdadeiro eu venceria no final? O que outros poderiam aprender e aproveitar desse conflito na minha vida? Conto a minha história para que os que não receberam a minha “dádiva” possam descobrir nela algo de útil para o seu futuro (longo, espero) e/ou seu presente (profundo, espero). Ficarei feliz se eles vierem a perceber o valor de confrontar a própria mortalidade e as questões que a circundam, cedo ou tarde; se minha abordagem e perspectiva os ajudarem a morrer melhor no futuro — e a viver melhor hoje. Há quase exatos 14 anos, no dia em que a minha filha Gina nasceu, a enfermeira a pôs nos braços de Corinne. Aproximeime da minha esposa e da minha filhinha boquiaberto. Minha filha recém-nascida era incrivelmente linda, ainda que meio amassadinha da viagem. Antes que eu a tocasse, ela estendeu a mão e agarrou meu dedo, apertando-o com força. Uma expressão de choque endureceu meu rosto. Naquele dia e no seguinte, me senti mergulhado numa neblina. Corinne notou meu comportamento estranho e disperso. Finalmente, ela disse: — O que houve? — perguntou. — Você está muito estranho. Desviei o olhar. — O que foi? — disse ela. — Fale para mim. Não consegui mais esconder. — Na hora em que ela agarrou o meu dedo — expliquei —, me dei conta de que um dia vou ter que me despedir dela. É uma bênção. É uma maldição. É o preço que se paga por dizer “oi” a alguém. Em algum momento, também virá um adeus. Não só aos que amamos e nos amam, mas ao mundo igualmente. Eu adorava ser um líder nos negócios, mas chegou o dia em que não pude mais ser aquele homem. Antes que a luz desaparecesse na minha mente e as sombras crescessem demais para que eu continuasse enxergando, escolhi ser, no mínimo, dono do meu adeus.

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