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Crianças de Grozni (Cód: 2313527)

Seierstad,Åsne

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Descrição

Nas primeiras horas de 1994, tropas russas invadiram a Tchetchênia, levando o país a um prolongado e violento conflito. Como correspondente internacional em Moscou naquela época, Åsne Seierstad viajou regularmente à Tchetchênia para fazer reportagens sobre a guerra e descrever os seus efeitos sobre aqueles que tentavam viver normalmente, apesar das circunstâncias desfavoráveis.
Na década seguinte, Seierstad tornou-se uma autora internacionalmente conhecida e viajou aos Bálcãs, ao Afeganistão, ao Iraque e a outras regiões devastadas pela guerra, sem jamais perder de vista o conflito que observou de perto no início de carreira. Durante esses anos, ela viu a Rússia suprimir uma rebelião islâmica em duas guerras sangrentas e o mundo se apavorar diante da ameaça de um novo episódio de terrorismo internacional.
Em 2006, ela retornou à Tchetchênia e se deparou com uma sociedade ainda embrutecida. Encontrou crianças traumatizadas e percebeu, naquele cenário, a impossibilidade de crescimento sadio para pessoas que só haviam conhecido a guerra e que se acostumaram à violência.
Depois de percorrer os vilarejos pobres da Tchetchênia e ouvir as histórias dramáticas de um povo marcado pelo sofrimento causado por guerras e confrontos, Seierstad viajou à capital do país para investigar junto aos poderosos as razões da atual miséria tchetchena e as políticas implementadas pelo governo no sentido de conduzir o país à prosperidade. Em Grozni a autora entrou em contato com universitários, ministros, assessores do governo e empresários, tendo oportunidade de registrar as ambigüidades de uma democracia autoproclamada envolta num véu de censura feroz. Ela visitou ainda instituições oficiais do país e observou o funcionamento de um aparelho burocrático servindo ao único propósito de incensar e promover o presidente da república, Ramzan Kadirov, que em entrevista aqui reproduzida não consegue dissimular os maniqueísmos de uma administração atroz e assassina.
Um retrato emocionante, pessoal e preciso da Tchetchênia de hoje, Crianças de Grozni conta a história de uma terra violenta e de sua luta presente pela liberdade.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Record
Cód. Barras 9788501082220
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 9788501082220
Profundidade 0.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2008
Idioma Português
Número de Páginas 448
Peso 0.44 Kg
Largura 14.00 cm
AutorSeierstad,Åsne

Leia um trecho

O Filho do Lobo O SANGUE ESCORRE PELA lama, abrindo estreitos sulcos vermelhos. O barranco escuro exala o bolor do apodrecimento. Logo o sangue será absorvido e desaparecerá. O crânio está despedaçado, os membros, inertes. Da garganta não sai mais nenhum gemido. As gotas vermelhas respingaram nas suas calças, mas basta enxaguá-las no leito do rio. Ainda com o tijolo na mão, o menino se sente forte, invencível e calmo. Fica parado, encarando aqueles olhos sem vida. O sangue ainda goteja antes de ser sugado pela lama. Ele dá um chute no cadáver e desce até a água. Em breve, o cachorro magricela se transformará em comida para novos cães vadios e, depois, alimentará vermes e moscas e outros bichos nojentos. Certa vez ele chegou a afogar um gato num cano de esgoto, mas matar cachorros lhe dava outra sensação. Agora, na verdade, prefere matar os cães. E pombos. Eles ficam empoleirados em grande número no alto dos prédios. Ele os aterroriza e persegue da cozinha até a sala, passando pelo quarto e o banheiro, atravessando buracos em paredes arranhadas das quais pendem enormes fragmentos de concreto. Os apartamentos parecem cascos semiquebrados, os cômodos enfileirados existem apenas como pilhas de concreto e poeira. Tudo de útil que não havia sido estraçalhado durante os ataques foi roubado, devorado, destruído. Sobra um ou outro pedaço de pano, uma banqueta torta, uma prateleira quebrada. Quando os primeiros mísseis foram lançados contra a cidade, os prédios permaneceram em pé como fortificações da planície. Aqui os defensores se entrincheiraram, pensando que poderiam deter a invasão. Durante um inverno rigoroso e gélido, as lutas eram travadas de quarteirão em quarteirão, de rua em rua, de casa em casa. Os guerrilheiros foram forçados a bater em retirada, distanciando-se cada vez mais da cidade e deixando as fileiras de casas vazias como alvos espectrais para os mísseis russos. Dentro de alguns prédios ainda se podem ler pichações nas paredes: Svoboda ili Smert — Liberdade ou Morte! Nas escadas sem corrimãos; nos patamares, onde um único passo para fora leva à queda vertical; nos quartos, onde poderá desmoronar, a qualquer momento, o teto sobre sua cabeça ou o chão sob seus pés; ali vive Timur. Do topo dos esqueletos de concreto ele pode avistar, pelas frestas da parede, as pessoas que estão embaixo. Quando fica com fome, assusta os pombos, que fogem atarantados. Persegue-os até algum canto e escolhe a vítima. O mais gordo. Segura-o pelas pernas e com destreza quebra-lhe o pescoço. Torce a cabeça, vira rapidamente a ave de cabeça para baixo, segurando-a até todo o sangue ter escorrido. Então depena o corpo, espeta-o num pauzinho e assa-o na fogueira que acende no andar do teto explodido. Às vezes, assa dois pombos. No lixão da encosta, ele desenterra tomates quase podres, frutas meio comidas, um pedaço de pão endurecido. É melhor procurar nas camadas superiores, porque os restos de comida são logo cobertos de sujeira e poeira, e, quando chove, tudo se mistura com cacos de vidro, latas e sacos plásticos velhos. O lixão é um lugar morto. Só em cima do barranco, na faixa de asfalto, há movimento. Pessoas, carros, ruídos. Embaixo, no meio da terra apodrecida, ele se sente protegido da vida lá em cima, a vida das ruas, a vida das pessoas. Assim como no último andar do prédio, quase no céu, onde fica escondido do mundo lá embaixo. Rápido como um esquilo, escorregadio como uma enguia, ágil como uma raposa, com olhos de corvo e coração de lobo, ele esmaga tudo que encontra pela frente. É forte e rijo, tem ossos protuberantes e está sempre faminto. A franja loura e suja cai sobre dois olhos verdes. O rosto, alerta e de traços belos, é perturbador justamente por esse olhar que vagueia inquieto de um lado para outro. Fugindo, sempre fugindo. Pronto para a luta. É bom chutador. Seu melhor golpe é aquele em que ele finge que vai atacar com as mãos, vira rapidíssimo e, com o pé esticado, dá um chute alto e forte. Pratica no prédio, dando pontapés e pancadas em um inimigo imaginário. No cinto, carrega uma faca, que, além dos tijolos, é sua arma. A vida de Timur é uma luta sem regras. Ele é covarde demais para ser um bom ladrão. É que tem medo de uma coisa: apanhar. Por isso, só rouba os mais fracos. Ao cair da noite, fica à espreita das criancinhas que pedem esmola perto do bazar ou da ponte sobre o Sunzja e obriga-as a dar-lhe as moedinhas que ganharam durante o dia. Com braço forte, espanca os que protestam ou tentam se esquivar. Os infelizes ficam chorando, enquanto o jovem predador se afasta furtivamente. O verão está chegando, e, em breve, o Filho do Lobo completará doze anos. No final de 1994, com apenas alguns meses de idade, Timur ouviu o estrondo das bombas pela primeira vez. Naquele inverno do início da guerra ele estava embrulhado no colo da mãe, num porão escuro, e suas primeiras lembranças são as dos estrondos que feriam os ouvidos. Antes de saber andar, viu pessoas cambaleando, caindo, permanecendo prostradas. O pai se alistou na Resistência para a luta. Quando Timur fez um ano, o pai foi morto durante um ataque de mísseis em Bamut, nas montanhas do sul. Ao ficar sozinha, a mãe carregou o menino enrolado num pano até a casa dos sogros. Poucos anos depois, ela também partiu. Timur foi criado no campo, na casa dos avós. Durante alguns anos reinou certa paz, antes de a guerra irromper de novo, dessa vez mais violenta e mais sangrenta que antes. A essa altura, Timur tinha cinco anos. Após o primeiro ano da segunda fase da guerra, entrou para a escola, mas as aulas eram interrompidas por mísseis, e meses a fio eles viveram no porão, porque os ataques eram muito freqüentes. Numa clara noite de primavera, enquanto se escondiam na escuridão úmida, a casa vizinha foi atingida. Quando os estrondos cessaram, Timur olhou para fora e viu uma coisa que passou girando pelo portão. A cabeça do vizinho descia rolando pela rua. Os avós faleceram quando Timur estava na segunda série. Depois do enterro, ele foi mandado para a casa do irmão do pai, Omar, que tinha vinte e poucos anos. Para lá iria também Liana, uma menina um ano mais velha. Eles tinham o mesmo pai e mães diferentes. Meios-irmãos que ainda não se conheciam. Foram viver com o tio, que morava num apartamento de quarto e cozinha num prédio bombardeado no bairro de Zavodskoi, em Grozni. À noite, Omar sentou-se com uma garrafa na mão, e as crianças, de sete e oito anos, receberam ordem de dormir no chão sujo da cozinha. Os meios-irmãos deitaram-se um ao lado do outro, escutando os barulhos do prédio em ruínas. Na manhã seguinte, o tio mandou-os sair: se não voltassem para casa com dinheiro, dinheiro suficiente, seriam espancados. Era o que acontecia na maioria das vezes. O tio usava um fio elétrico, que tinha apenas uma pequena ponta de plástico. Segurava nessa ponta para bater. Esquentava o metal sobre o forno até arder e chicoteava as costas nuas das crianças repetidas vezes, enquanto os dois permaneciam em posição fetal, um ao lado do outro. Eles aprenderam rápido. Liana praticava a arte de interpretar os olhares e os movimentos das pessoas para pegá-las num momento de descuido. Então enfiava sorrateiramente as mãos delgadas nas bolsas e nos bolsos. Com aspecto angelical, ela perambulava pelas feiras e ruas. Assim como o meio-irmão, tinha a pele pálida esbranquiçada, quase translúcida, e claros olhos verdes que penetravam as nucas e as costas, as bolsas e os bolsos das pessoas. O olhar era uma espécie de véu tomado pela tristeza. Os irmãos adquiriram a experiência de crianças de rua, mas a vida na sarjeta transformou sua aparência de maneiras opostas. Enquanto Liana parecia mais angelical à medida que se tornava uma ladra mais atrevida — as pessoas só viam nela um grande par de olhos infantis e um corpo esquelético —, Timur ficava cabisbaixo e carrancudo. Ele, que até tinha a aparência de um malandrinho, preferia juntar tijolos de casas em ruínas a correr o risco de ser preso. Pelos tijolos ganhava dois míseros rublos nos canteiros de obras. Era um trabalho árduo, os tijolos não estavam soltos, mas faziam parte de paredes, portões, beirais. Era preciso martelar para soltar os pedaços antes de raspar o reboco, cimento ou concreto. Só assim era possível vendê-los. Ele tinha de lutar duramente pelos escombros, já que muitos tentavam ganhar dinheiro dessa forma, desde adultos com famílias para sustentar até crianças como ele. Para conseguir manobrar as grandes peças, os meninos operavam em grupos. Crianças menores, de apenas seis ou sete anos, raspavam o reboco. Timur martelava curvado; às vezes ficava tão cansado que precisava se agachar. Quando martelava as pedras para limpá-las, seus ossos projetavam-se como duas pontas pelos fundilhos. No bairro de Zavodskoi — “Cidade das Fábricas” — ficavam os grandes complexos de produção. As refinarias de petróleo tinham figurado entre as maiores da União Soviética. Agora eram uma grande ameaça devido ao vazamento químico. Muitas também foram minadas. Timur aprendeu a ter cuidado com minas e explosivos não detonados. Era melhor do que levar mais uma surra de fio elétrico nas costas. Além de martelar tijolos, ele juntava tudo que era de metal: armações de ferro, fios e alumínio. Ganhava dois rublos pelo quilo do metal. Certa manhã, uma placa de ferro caiu e espetou seu pé. A profunda ferida em carne viva que latejava e produzia pus formou uma dolorosa cicatriz lilás. O verão inteiro ele mancava com o martelo na mão e a faca no cinto, assumindo um olhar ainda mais perigoso. Mas, deitado ao lado da meia-irmã no chão frio da cozinha, escutando o ronco do tio no quarto, ele sentia um aperto no peito. Pensava numa vida em que não precisasse ter medo. Passava-lhe pela cabeça que Omar, inconsciente na sua embriaguez, seria uma vítima fácil, um tijolo escondido na mão e, pá, na cabeça, uma faca, zum, pelo pescoço e… Os pensamentos sempre terminavam num pesadelo: o tio acordava e agarrava a mão que segurava a faca, virando-a contra Timur. No apartamento vizinho morava outro homem com pequenos parentes órfãos. Com freqüência, o vizinho e o tio bebiam juntos, e às vezes chamavam Timur e o sobrinho do vizinho, Naid, um menino dois anos mais novo, obrigandoos a lutar. O perdedor seria espancado. Os dois bêbados torciam e gritavam. Naid era menor e ainda mais magro que Timur e, na maioria das vezes, acabou levando a surra dos dois homens como castigo por ter perdido a luta. Assim como Timur, o menino vizinho também cresceu com marcas de queimadura nas costas e atrás das coxas. Às vezes a vizinha aparecia, xingando os dois homens pelo barulho e ameaçando denunciá-los à polícia. Timur torcia para que ela fizesse isso, mas o desejo nunca se realizou. A essa altura Grozni estava em ruínas. Havia aviões de caça no ar, tanques de guerra nas ruas, rajadas de tiros à noite. Muitos dos habitantes haviam fugido, os que tinham condições foram embora, enquanto os remanescentes se cravaram ali batalhando para sobreviver em meio ao caos. Poucos davam atenção às crianças. À medida que adquiria habilidade com o martelo, Timur conseguia esconder alguns trocados. Quando estava com dez anos, comprou cerveja e um maço de cigarros pela primeira vez. Pensou que se bebesse ficaria mais forte, porque o tio batia com mais força quando estava bêbado. Timur bebia cerveja e queria achar alguém para espancar. Mas só ficou tonto. Não ficou forte, apenas se sentiu mais infeliz e mais sozinho. O entardecer era pior. Todas as tardes, logo antes de escurecer, ele era expulso do apartamento, mas a irmã tinha de ficar. Timur só podia voltar para casa quando todos os raios do sol tivessem desaparecido. Uma tarde, depois de ter sido trancado do lado de fora, ele perambulou até o rio e ficou jogando pedrinhas na água. Era a hora do pôr-do-sol, e um brilho cor-de-rosa envolvia os telhados, ferindo seus olhos. As pedras formavam círculos ao tocarem a água, que ondulava vagarosamente por baixo da ponte. Ele seguia os desenhos com os olhos até começar a tremer de frio. De repente, a luz quente desapareceu e a cidade retomou sua cor cinzenta. Uns cachorros mancavam em meio ao lixo na beira do rio. O menino olhou a sua volta, pegou uma pedra grande do monte de lixo e assobiou para um deles. Curvou-se, estalando a língua e acenando com os dedos como se tivesse algo a oferecer. Quando o cachorro se aproximou, ele ergueu a mão direita com o tijolo, arremessando-o com toda a sua força contra a cabeça do animal. O cachorro uivou e desabou. Timur pegou a pedra pontuda com ambas as mãos e desferiu golpes. Que criaturas miseráveis aqueles cachorros — esqueléticos, fracos e trêmulos. Cachorros famintos não eram perigosos. Os que mordiam eram os saciados, os bem nutridos. Ele permaneceu sentado à margem do rio. As pedras já haviam esfriado. O ar estava frio e úmido, e a umidade penetrava nas roupas. Ia levantar-se e voltar para casa, mas deixou-se cair de novo. Não agüentou a lembrança do tio, do apartamento fétido, dos soluços da irmã. Resolveu nunca mais voltar para casa. Quando escureceu, foi deitar-se no interior de grandes canos de esgoto um pouco mais adiante na beira do rio. Era uma espécie de abrigo, mas durante a noite o frio o deixava tremendo ao som dos uivos de cachorros selvagens. Os cães, que eram tão fáceis de matar durante o dia claro, transformavam-se em lobos esfomeados. À noite, eles eram os mais fortes. O pequeno canicida mora na Rússia. Nasceu na Rússia, fala russo, parece um russo, com olhos pálidos e cabelos loiros. Durante o breve período em que freqüentou a escola, aprendeu o mesmo alfabeto cirílico que as crianças na Sibéria, a mesma lição de história que os alunos às margens do rio Volga, e decorou as mesmas poesias de Puchkin que as crianças de São Petersburgo. Ele faz parte da população decrescente da Rússia, um indivíduo entre quase 150 milhões. Se houvesse um censo no país e alguém o tivesse achado ali no leito lamacento, ele seria contabilizado como um — 1 — cidadão do vasto território. Mas durante toda a sua vida nenhum Estado desejou levá-lo em conta. Muito menos cuidar dele. Ou se preocupar com o que ele perdeu — pais, infância, ensino. Ou com aquilo que nunca teve — carinho, educação, segurança —, por causa de uma guerra iniciada pelo próprio Estado. Timur não é o que a maioria dos russos consideraria “um de nós”. Ao contrário, meninos como ele são um problema. Uma ameaça contra os cidadãos de verdade, os verdadeiros russos. Há duas palavras que definem o que significa ser russo. Uma é rossianin, que se usa para designar o cidadão russo, e a outra é russki, que se refere à etnicidade. Apenas um eslavo pode ser russki — “um de nós”. Em seus discursos à população, o presidente Vladimir Putin evidentemente usa a palavra correta, rossianin, que inclui todos os cidadãos, sejam eles ortodoxos, muçulmanos, budistas ou judeus. Timur é rossianin, mas não russki. É cidadão da Rússia, mas não russo. Timur é tchetcheno. Além de russo, ele fala sua língua materna, o tchetcheno, mas nunca foi alfabetizado nessa língua. Conhece sua cultura por meio de lendas e mitos, mas nunca lhe aprendeu a história. Sabe que é muçulmano, mas nunca aprendeu a rezar. Procura ter orgulho, mas não sabe muito bem do que se orgulhar. Sabe que quer lutar e sabe contra quem. Um censo revelaria muito. Os dados soviéticos mostram que os tchetchenos atingiram a marca de um milhão em 1989. Desde o início das guerras, ou seja, desde 1994, cerca de 100 mil foram mortos ou desapareceram. Entre os mortos há milhares de crianças. Dificilmente podem ser tachadas de bandidos ou terroristas, que é como o governo classifica os integrantes da Resistência. Pelo menos, ainda não. Mas se perguntarmos a Timur o que ele quer ser quando crescer, a resposta será guerrilheiro. Ele quer trocar a faca por um kalachnicov. Quer lutar, se defender aguerridamente. Quer trocar os cachorros pelos russos. Quer que as pessoas o temam. Mais do que tudo, é isso o que ele quer. É possível fazer estimativas sobre o número de mortos. Os números podem ser discutidos. É possível contar os mutilados. Esses números também podem ser debatidos. Como calcular a perda de uma perna? Um braço? A paralisia? A cegueira? A perda da audição numa explosão? Em que lugar das estatísticas há registros de crianças que foram estupradas? De 1994 até hoje o Unicef informa que 25 mil crianças na Tchetchênia perderam um ou ambos os pais. Alguns desses órfãos vivem em caixas de papelão, prédios bombardeados, esgotos na ribanceira etc. A noite gélida o oprime. A noite o fere com seus dentes. Os uivos são de cachorros ou de lobos? Talvez de chacais? Ele tenta ficar acordado dentro do cano porque tem medo de que os animais selvagens o abocanhem enquanto dorme, e, aos primeiros raios de luz que penetram suas pálpebras, sai rastejando e tremendo de frio, tentando juntar tábuas e papelão para um abrigo. Antes do nascer do sol já transformou o cano de concreto num barraco à margem do rio. Não oferece proteção contra o frio noturno, mas Timur espera que ajude contra os cachorros. Ele finge que é um lobo, um lobo impiedoso, ágil, com dentes afiadíssimos, mas a brincadeira não o aquece, e ele acaba desistindo. Depois de algum tempo, Timur junta-se aos ciganos. Em troca de alguns rublos pode dormir em suas barracas e ficar na roda da fogueira. Mas sonha com um lugar na verdadeira alcatéia, entre os guerrilheiros, os heróis, os que das bases nas montanhas atacam os russos, os que explodem os veículos blindados. Quer ir para lá, para as montanhas cobertas de neve. Quer lutar como os lobos do passado, os quais, segundo as histórias do avô, lutaram por trezentos anos. Embora ele se embruteça, os pensamentos ruins continuam vivos no seu interior. Abandonou a meia-irmã sozinha com o tio. Sua mente fantasia sobre um modo de salvá-la. Como arrombar a porta quando o tio estiver no torpor da embriaguez, ameaçá-lo com uma faca e salvar a irmã do inferno. Para compensar, mata um cão. Chuta mais um cadáver. Droga-se, cheira cola. Acaba brigando com os meninos ciganos e é expulso do grupo de itinerantes. Mais uma vez dorme sozinho perto da margem do rio com as carcaças caninas a sua volta. Cães que ele é capaz de matar a qualquer momento. São tão subjugados, tão fracos, resmunga, esqueceram que afinal são lobos.

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