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Descobrindo Deus nos Lugares Mais Inesperados (Cód: 191934)

Yancey, Philip

Mundo Cristão

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Descrição

Os balcões de indulgências deixaram de funcionar há séculos, entretanto o cristianismo institucional, clássico, conservador, burocrático, ou seja lá qual for o nome que melhor lhe couber, ainda firma - senão explicitamente, pelo menos na sutileza das entrelinhas dos sermões bradados no púlpito e pautados pela conveniência do poder temporal: 'A igreja é o único lugar onde é possível ter encontro com Deus'. Sacramentos, profecias e curas são algumas das evidências apresentadas em defesa da mesma fé cartorial que Jesus condenou. O autor também contesta esse monopólio. Textos originais, artigos, anotações e relatos foram reunidos em 'Encontrando Deus Nos Lugares Mais Inesperados'. O autor aponta para o inusitado: o Criador manifesta-se nas ruas estreitas e sujas de uma favela; na placidez de um grupo de baleias; no ascetismo de uma academia de ginástica; nas celas fétidas de uma penitenciária; na genialidade de uma peça de Shakespeare.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Mundo Cristão
Cód. Barras 9788573254150
Altura 22.50 cm
I.S.B.N. 8573254157
Profundidade 1.50 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2005
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 277
Peso 0.37 Kg
Largura 15.50 cm
AutorYancey, Philip

Leia um trecho

Comecei minha carreira em 1972 como jornalista de revistas. Todos os meses escrevia quatro ou cinco artigos sobre uma grande variedade de assuntos. Gostava do ritmo acelerado, da emoção vicária de me aproveitar de outras vidas mais emocionantes do que a minha, além da sensação de escrever sem peso na consciência (revistas normalmente são jogadas fora e, assim, se eu escrevesse algo entediante ou estúpido em determinado mês, poderia melhorar na edição seguinte). O processo de escrever livros exigiu alguns ajustes. Tinha de ser mais cuidadoso porque um livro pode ficar disponível por um longo tempo. Se cometesse erros sobre um fato ou assumisse uma posição controversa, poderia ficar ouvindo sobre isso uma década depois. Também tive de aprender a ajustar meu tempo de concentração. Li em algum lugar que, nos primeiros tempos da rodovia do Alasca, os caminhões articulados faziam sulcos profundos no cascalho quando transportavam materiais de construção das cidades apinhadas para o norte. Alguém colocou uma placa no começo da estrada: escolha bem seu sulco: você vai ficar nele pelos próximos 300 quilômetros. Levo cerca de um a dois anos para escrever um livro, e se não fizer cuidadosamente as escolhas, aquele período pode bem se parecer com um sulco interminável. Talvez por nunca ter superado meu instinto jornalístico, intercalo os projetos de livros com viagens e artigos. Durante vinte anos escrevi uma coluna na contracapa da revista Christianity Today e habituei-me a não pensar naquela coluna até que o dia do prazo máximo chegasse. Pelo menos por um dia no mês consigo manter um pouco de espontaneidade em minha vida de escritor. No dia seguinte retomo o sulco. Este livro é um tanto híbrido, porque nele juntei trabalhos espontâneos, adicionei outros e os reformulei em algo que - espero - tome a forma de um livro. Consigo olhar para trás, para os trabalhos dos últimos anos, e ver quais assuntos e tendências chamaram minha atenção como escritor e observador. Tenho observado uma polarização na sociedade americana. À medida que as decisões judiciais e o turbilhão da cultura em geral empurram a religião para as margens, alguns cristãos agem cada vez mais como se pertencessem a uma religião marginal. Cristãos pressionados normalmente mostram a tendência de se afastar do mundo, erguer a ponte levadiça e se refugiar atrás de um fosso protetor. Entristeço-me com essa tendência porque é diametralmente oposta ao mandamento de Jesus para agirmos como sal para a carne e luz no meio das trevas. O sal não tem qualquer efeito quando guardado num frasco na prateleira, e uma lâmpada escondida num armário não ilumina nada. O "castelo" no qual os cristãos se refugiam é a igreja. Isso também me entristece porque, para muitas pessoas, o lugar mais improvável para um encontro com Deus pode ser a igreja. O próprio Jesus procurou Deus não entre os piedosos na sinagoga, mas numa viúva que tinha apenas dois centavos e num cobrador de impostos que não conhecia nenhuma oração formal; encontrou lições espirituais em pardais vendidos no mercado, em campos de trigo e festas de casamento e, sim, até nas observações de uma estrangeira miscigenada que teve cinco casamentos fracassados. Jesus era mestre em encontrar Deus em lugares inesperados. Em minha peregrinação, precisei olhar para além dos muros da igreja para encontrar Deus. Tendo crescido em meio ao fundamentalismo sulista, minha busca por Deus foi obstruída pelo racismo, medo e julgamento. No mundo belo e ordenado da natureza tive os primeiros vislumbres de um Criador que foi generoso ao nos presentear com um mundo bom e cheio de graça. Conforme começava a acreditar, encontrava traços de transcendência - as pegadas de Deus - em lugares nos quais jamais pensara em procurar. O teólogo John S. Dunne conta de um antigo grupo de marinheiros espanhóis que alcançou o continente sul-americano depois de uma viagem árdua. As caravelas navegavam pelas águas do rio Amazonas, uma extensão de água tão imensa que os marinheiros pensaram ser a continuação do Oceano Atlântico. Nunca lhes ocorreu beber daquela água, uma vez que imaginavam ser salgada e, em decorrência disso, alguns desses marinheiros morreram de sede. Essa cena - homens morrendo de sede enquanto os barcos flutuavam sobre a maior reserva de água potável - tornou-se para mim uma metáfora de nossa época. Algumas pessoas morrem de fome espiritual enquanto o maná que as cerca apodrece. As pessoas meneiam a cabeça em desespero por causa do estado em que o mundo se encontra, a despeito do fato de que em muitos quesitos - alfabetização, nutrição, saneamento básico, moradia - as coisas realmente melhoraram nos últimos cinqüenta anos. Perto do fim do século passado, um terço de todas as pessoas da terra foi libertado daquela que, talvez, tenha sido a maior tirania da história sem que um único tiro fosse disparado. No Leste Europeu, um deus caiu por terra, arrancado de seu pedestal, e em sua base estavam cristãos, armados com velas e com o poder da oração. Na África do Sul, o líder do último partido na terra com bases teológicas racistas abriu o caminho da reconciliação. O próprio F. W. de Klerk informou o motivo: depois de tomar posse, em lágrimas, ele disse à igreja que sentira o chamado de Deus para salvar todo o povo sul-africano, mesmo sabendo que seria rejeitado por seu próprio povo. Na China, o maior despertamento de fé da história irrompeu num Estado ateu que tentava desesperadamente sufocá-lo. Temos a tendência de enxergar o que procuramos. Na época em que o microscópio foi inventado, os cientistas acreditavam que o esperma tinha a forma de pequenos embriões e a mulher servia de incubadora. Investigando com os primeiros microscópios, eles viram e desenharam esses embriões, homúnculos ou "homenzinhos". Eles viram o que esperavam ver. De forma semelhante, quando o grande astrônomo Percival Lowell recebeu seu novo telescópio de 24 polegadas, numa montanha em Flagstaff, Arizona (eua), ele "viu" uma rede de canais em Marte que confirmou as teorias dos astrônomos italianos. Ele fez mapas desses canais num globo e, em seu livro, de 1908, Mars as the abode of life exibiu as provas de que tais canais foram construídos por seres inteligentes. Às vezes, como Lowell, vemos coisas que na realidade não estão lá e, às vezes, como os marinheiros espanhóis, deixamos de notar o próprio elemento sobre o qual estamos flutuando. No mundo da fé, particularmente, é preciso acreditar em algumas coisas antes de vê-las. O trabalho de um jornalista é, simplesmente, o de ver. Somos olhos profissionais. Como jornalista cristão, aprendo a procurar pelos rastros de Deus. Tenho encontrado esses rastros em lugares inesperados: entre os principais propagandistas de uma nação outrora atéia e os refugiados de uma nação atéia no presente; numa capela ajeitada num depósito no Ponto Zero em Nova York, numa favela em Atlanta e até numa academia de Chicago; numa reunião da Anistia Internacional, num retiro de fim de semana com vinte judeus e muçulmanos, e num painel em que se debatia a pergunta "Por que os muçulmanos nos odeiam?"; nas prisões do Peru e do Chile e em orfanatos na África do Sul e em Mianmá; nos discursos de Vaclav Havel e mesmo nas peças de Shakespeare. Este livro, boa parte do qual adaptado a partir de escritos esporádicos, é o relato do que tenho visto nos últimos anos. Encontrei desconforto em meio à abundância e esperança contagiante em circunstâncias que deveriam provocar desespero. Encontrei maldade nos lugares mais inesperados, e Deus também. Este livro foi inicialmente publicado em 1995,1 mas depois de 2001 o mundo passou por tantas mudanças que senti a necessidade de revisá-lo. Em 1995 a economia estava aquecida, a guerra fria era memória que se esvaía rapidamente, e os Estados Unidos não enfrentavam nenhuma oposição. Agora, todos os que passam pela segurança nos aeroportos ou abrem um envelope de aparência suspeita sabem que o mundo mudou. Agora o medo é reinante. Removi nove capítulos que pareciam relevantes antes de 11 de setembro de 2001, mas nem tanto depois dessa 1A primeira edição em português foi publicada em 2002 pela Editora United Press. data, e acrescentei 14 capítulos novos, incluindo uma parte inteira sobre "Descobrindo Deus nos escombros". Não peço que você creia em tudo que creio, ou ande no mesmo caminho em que tenho andado. Tudo o que peço é que mantenha a mente aberta e olhe o mundo através de meus olhos. Conheci uma mulher notável numa viagem à África do Sul; chamava-se Joana. Ela pertencia a uma raça miscigenada, parte negra e parte branca, uma categoria conhecida lá por "coloridos". Quando era estudante incitou movimentos de mudança do apartheid, e então viu o milagre que ninguém previa, o desmantelamento pacífico daquele sistema maligno. Logo depois, durante várias horas ela sentou-se com o marido, assistindo às transmissões ao vivo das audiências da Comissão de Verdade e Reconciliação. Em vez de simplesmente exultar com a liberdade recém-adquirida, o passo seguinte de Joana foi eleger como alvo a prisão mais violenta na África do Sul, na qual Nelson Mandela passou muitos anos. Membros de uma gangue - o corpo coberto de tatuagens - controlavam a prisão, impondo com rigor uma regra que exigia dos novos membros um teste de admissão: agredir prisioneiros indesejáveis. As autoridades faziam vistas grossas, deixando aqueles "animais" se espancar e até mesmo se matar. Sozinha, essa jovem e atraente mulher começou a visitar dia após dia os interiores daquela prisão. Ela levou uma mensagem simples de perdão e de reconciliação, tentando pôr em prática, numa escala reduzida, aquilo que Mandela e o Bispo Tutu estavam tentando realizar na nação como um todo. Ela organizou pequenos grupos, ensinou jogos que estimulavam a confiança, conseguiu que os prisioneiros revelassem detalhes horripilantes da infância. No ano anterior ao início das visitas, a prisão tinha registrado 279 atos de violência; no ano seguinte houve dois. Os resultados obtidos por Joana foram tão impressionantes que a bbc enviou de Londres uma equipe de filmagem para produzir dois documentários, de uma hora cada, sobre ela. Conheci Joana e seu marido, que desde então se juntara a ela no trabalho na prisão, num restaurante da área portuária da Cidade do Cabo. Como sempre fazem os jornalistas, pressionei-a a fim de obter os detalhes do que aconteceu para aquela prisão ser transformada. Ela parou com o garfo a meio caminho da boca, levantou os olhos e disse, quase sem pensar: "Bem, Philip, Deus já estava presente na prisão. Tive apenas que torná-lo visível". Tenho pensado com freqüência naquela frase de Joana, que seria um excelente testemunho de missão para todos os que procuram conhecer e seguir a Deus. Deus já está presente, e nos lugares mais inesperados. Precisamos apenas torná-lo visível. Philip Yancey Rumores de outro mundo capítulo um De acordo com a mitologia grega, houve uma época em que as pessoas sabiam com antecedência o dia exato da morte. Todos sobre a terra viviam com a profunda sensação de melancolia, pois a mortalidade era como uma espada suspensa sobre eles. Tudo isso mudou quando Prometeu introduziu a dádiva do fogo. Agora os humanos podiam ir além de si mesmos e controlar seus destinos; eles podiam se empenhar para ser como os deuses. Tomadas pela emoção causada pelas novas possibilidades, as pessoas logo perderam o conhecimento do dia da morte. Será que nós, modernos, perdemos ainda mais do que isso? Será que perdemos totalmente a percepção de que vamos morrer? Apesar de alguns autores afirmarem exatamente isso (tal como o teórico social Ernest Becker em A negação da morte,1 descobri por trás do ruído da vida cotidiana rumores de outro mundo que ainda podem ser ouvidos. Os sussurros da morte persistem e os ouvi, creio, em três lugares inesperados: numa academia, num grupo de ativistas políticos e num grupo de terapia de grupo de um hospital. Detectei até mesmo nuanças - mas apenas nuanças - de teologia nesses lugares inesperados. Entrei para uma academia em Chicago depois que uma lesão no pé obrigou-me a buscar alternativas para a corrida. Levei um tempo para me adaptar à artificialidade do local. Os clientes ficavam em fila para usar equipamentos cheios de tecnologia, que simulavam a prática do remo. Eram completos, com telas de vídeo e barcos a remo animados, embora o lago Michigan, um lago real que exige remos reais, permanecesse vazio a apenas quatro quadras de distância. Em outra sala, as pessoas se exercitavam em equipamentos StairMaster, que imitavam o ato de subir escadas - isso numa região com grande concentração de prédios enormes. E ficava maravilhado com a tecnologia que adiciona diversão programada por computador à façanha cotidiana de andar de bicicleta. Também me maravilhava com os corpos humanos que usavam todos esses equipamentos: a bela mulher com estampas pretas e rosa, imitando as pintas de um leopardo; a grande concentração de testosterona que se juntava ao redor dos aparelhos de musculação. Apropriadamente, havia espelhos cobrindo as paredes, e uma rápida olhada revelava dúzias de olhos verificando os resultados de todo esse suor e grunhidos, em si mesmos e nos vizinhos. A academia é um templo moderno completo, com ritos de iniciação e rituais elaborados, seus objetos de adoração à mostra de forma constante e gloriosa. Detectei um rastro de teologia ali, pois tal devoção à forma humana é uma evidência da genialidade de um Criador, que se valeu de sua aptidão para a estética em seus projetos. Vale a pena preservar a pessoa humana. Mas, no fim, a academia se mantém como um templo pagão. Seus membros se empenham para preservar apenas uma parte da pessoa: o corpo, a parte menos duradoura de todas. Ernest Becker escreveu seu livro e morreu antes que a mania de exercícios tomasse conta da América, mas imagino que ele veria as academias como um sintoma inconfundível da negação da morte. As academias - junto com a cirurgia plástica, retardadores de calvície, cremes para a pele, e uma proliferação infindável de revistas sobre esportes, moda de praia e dietas - nos ajudam a desviar a atenção da morte para a vida. A vida neste corpo. Se todos nós, juntos, nos esforçamos para preservar o corpo, então, talvez algum dia, a ciência realize o impensável: talvez vença a mortalidade e nos permita viver para sempre, assim como a raça desdentada, sem cabelo e sem memória dos Struldbruggs na história de Gulliver. Certa vez, enquanto pedalava em direção a lugar nenhum numa bicicleta computadorizada, pensei no comentário de Kierkegaard de que o conhecimento sobre a morte é o fato essencial que nos distingue dos outros animais. Olhei à minha volta, para a sala de ginástica, me perguntando se nós, seres humanos modernos, somos assim tão diferentes dos outros animais. A atividade frenética da qual estava participando naquele momento era meramente mais um jeito de negar ou de adiar a morte? Nós, como nação, ficamos mais esguios e saudáveis para não ter de pensar no dia em que nosso corpo musculoso - em vez de estar "malhando" - estará retesado num caixão? Martinho Lutero disse a seus seguidores: "Mesmo no melhor de nossa saúde, devemos manter a morte sempre diante de nossos olhos, para que não fiquemos esperando permanecer eternamente nesta terra, mas tenhamos, por assim dizer, um pé flutuando no ar". Essas palavras parecem um tanto antiquadas hoje, quando muitos de nós, tanto cristãos quanto pagãos, passam os dias pensando em qualquer coisa que não seja a morte. Mesmo a igreja mantém seu foco principal nas coisas boas que a fé pode nos oferecer agora: saúde física, paz interior, segurança financeira, um casamento estável. O treinamento físico tem algum valor, foi o conselho de Paulo a seu protegido Timóteo, mas a santidade tem valor para todas as coisas, sustentando a promessa tanto para a vida presente quanto para a vida no porvir. Enquanto pedalava, enfrentando com valentia montanhas geradas por computador, fui obrigado a perguntar para mim mesmo: qual é meu complemento espiritual para a academia? E depois, mais perturbador: quanta energia reservo para cada atividade? Durante dois anos freqüentei mensalmente as reuniões na sede local da Anistia Internacional. Encontrei lá pessoas boas e sérias: estudantes, executivos e profissionais que se reúnem porque consideram uma atitude intolerável seguir com a vida alegremente enquanto outras pessoas são torturadas e assassinadas. As sedes locais da Anistia Internacional usam uma técnica absurdamente simples para combater os abusos contra os direitos humanos: eles escrevem cartas. Nosso grupo adotou três prisioneiros de consciência: todos eles cumprindo longas sentenças por "atividades antipatrióticas". A cada semana discutíamos seus destinos e relatávamos as cartas que tínhamos escrito para autoridades estimadas em seus respectivos países. Sentados numa confortável casa geminada, fazíamos conjecturas a respeito de como Jorge, Ahmad e José passavam seus dias e noites, enquanto comíamos brownies e vegetais frescos e bebericávamos café. As cartas de suas famílias forneciam insights agonizantes sobre as dificuldades deles. Uma vaga sensação de impotência permeava a sala, a despeito de nossos esforços de resistir a ela. Não tínhamos recebido uma única palavra de Jorge em dois anos, e as autoridades de seu país sul-americano não mais respondiam às nossas cartas. O mais provável era que tenha se juntado aos "desaparecidos". O tom da preocupação sincera no grupo me lembrava as muitas reuniões de oração de que participei. Estas, também, focalizavam a energia do grupo em necessidades humanas específicas. Mas ninguém na Anistia Internacional ousava orar, um fato que talvez aumentasse a sensação de desamparo. Apesar de a organização ter sido fundada sobre princípios cristãos, qualquer rastro de sectarismo desaparecera há muito tempo. "Aqui está uma coisa estranha", pensei numa das noites. Uma organização valiosa que existe com o único propósito de manter as pessoas vivas. Milhares de pessoas brilhantes e dedicadas se congregam em grupos pequenos, centradas em um único objetivo. Mas uma questão nunca é tratada: Por que devemos manter as pessoas vivas? Fiz essa pergunta aos membros da equipe da Anistia Internacional, provocando uma reação de horror silencioso. O próprio fato de colocar essa questão em palavras lhes pareceu herético. Por que manter as pessoas vivas? A resposta é evidente por si mesma, não é? A vida é boa; a morte é ruim (suponho que eles se referem à vida animal, uma vez que estávamos mascando vida vegetal enquanto falávamos). Os membros da equipe não percebiam a ironia de que a Anistia Internacional passou a existir porque nem todas as pessoas na história vêem essa equação como evidente por si mesma. Para Hitler, Stalin e Saddam Hussein, a morte pode ser boa se ela ajudar a atingir certos objetivos. Nenhum valor definitivo é atribuído a nenhuma vida humana. A Anistia Internacional reconhece o valor inerente de cada ser humano. Diferentemente, digamos, da academia, a ai não coloca no topo belos espécimes de saúde perfeita: na maior parte, os objetos de nossa atenção estavam machucados e espancados, sem alguns dentes, despenteados e com sinais de desnutrição. Mas o que torna essas pessoas dignas de nosso cuidado? Colocando de forma direta: é possível honrar a imagem de Deus num ser humano se não há Deus algum? Levantar tais questões numa reunião da Anistia Internacional é convidar-se a um período de silêncio austero e embaraçoso. Algumas explicações se seguem: "esta não é uma organização religiosa...", "não podemos lidar com essas visões sectárias...", "as pessoas têm opiniões diferentes...", "a questão importante é o destino dos prisioneiros..." Em nossa estranha sociedade, parece que as questões mais dignas de ser levantadas são as questões mais ignoradas. O matemático francês Blaise Pascal viveu durante o Iluminismo do século xvii, época em que os pensadores ocidentais começaram pela primeira vez a desdenhar da alma e da vida após a morte, questões doutrinárias que lhes pareciam primitivas e sem sofisticação. A respeito deles, Pascal afirmou: "Eles professam ter nos deliciado dizendo-nos que consideram nossa alma apenas como um vento e fumaça frágil, especialmente ao nos dizer tal coisa em tom de voz insolente e convencido? É isso algo a se dizer de modo festivo? Não é isso, ao contrário, uma coisa a se dizer com tristeza, como a coisa mais triste do mundo?". Continuo pertencendo à Anistia Internacional e contribuindo financeiramente. Acredito na causa deles, mas acredito nela por razões diferentes. Por que estranhos - tais como Ahmad, José e Jorge - merecem meu tempo e energia? Só consigo pensar numa razão: eles carregam em si um sinal de valor definitivo, a imagem de Deus. A Anistia Internacional ensina uma teologia mais avançada do que a academia, certamente. Ela aponta para além da superfície da pele e das formas para a pessoa interior. Mas a organização pára por aí - afinal, o que torna a pessoa interior digna de ser preservada a menos que seja uma alma? E exatamente por essa razão não deveriam os cristãos abrir caminho em assuntos como os direitos humanos? De acordo com a Bíblia, todos os humanos - incluindo Jorge, Ahmad e José - são seres imortais que ainda carregam algo da marca do Criador. Os freqüentadores de academia dão o melhor de si para desafiar ou, pelo menos, adiar a morte. A Anistia Internacional trabalha com diligência para impedi-la. Mas outro grupo que freqüentei ataca a morte de frente, uma vez por mês. Fui primeiramente convidado a participar do Faça seu Dia Valer, um grupo de apoio para pessoas com doenças de alto risco, por meu vizinho Jim, que acabara de receber o diagnóstico de câncer terminal. Conhecemos lá outras pessoas, a maioria na faixa dos 30 anos, que estavam lutando contra doenças tais como esclerose múltipla, hepatite, distrofia muscular e câncer. Para cada um dos membros do grupo a vida tinha se resumido a duas questões: sobreviver e, não sendo possível, preparar-se para a morte. Sentávamos na sala de espera de um hospital, em cadeiras plásticas de coloração laranja berrante (sem dúvida escolhida para fazer a instituição ter uma aparência mais alegre). Tentávamos ignorar os alto-falantes, periodicamente esganiçando um aviso ou chamando um médico. O encontro começava com a apresentação de cada membro. Jim sussurrou em meu ouvido que essa era a parte mais deprimente do encontro, porque era muito freqüente que alguém tivesse morrido no último mês, desde o último encontro. O assistente social fornecia detalhes dos dias finais e do funeral dos membros que se foram. Os membros do Faça seu Dia Valer se confrontavam com a morte porque não tinham outra escolha. Estava esperando por um clima bastante sombrio, mas o que encontrei foi exatamente o oposto. As lágrimas escorriam livremente, é claro, mas essas pessoas falavam tranqüila e livremente sobre a doença e a morte. Estava claro que o grupo era o único lugar no qual podiam falar abertamente sobre tais assuntos. Nancy exibiu a nova peruca, que comprara para cobrir a calvície causada pelo tratamento quimioterápico. Ela brincou dizendo que sempre quis ter cabelo liso e, agora que tinha um tumor cerebral, finalmente encontrou a desculpa de que precisava. Estêvão, um homem com a doença de Hodgkin, admitiu estar aterrorizado com o que viria pela frente. Sua noiva se recusou terminantemente a discutir o futuro com ele. Como ele poderia romper a barreira que ela colocara? Marta falou da morte. A esclerose lateral amiotrófica (a "doença de Lou Gehrig") já tinha deixado suas pernas e braços inertes. Agora respirava com grande dificuldade, e sempre que adormecia à noite havia o risco de morrer por causa da falta de oxigênio. Marta tinha 25 anos. Alguém perguntou: "o que é que você teme a respeito da morte?" Marta pensou por um minuto, depois disse o seguinte: "Fico ressentida por tudo o que vou perder - os grandes filmes do ano que vem, por exemplo, e o resultado das eleições. E temo que um dia serei esquecida, que vou simplesmente desaparecer, e que ninguém vai sentir saudades de mim". Mais que quaisquer outras pessoas que tenha conhecido, os membros do Faça seu Dia Valer se concentravam em questões de importância última. Eles, diferentemente dos freqüentadores das academias de ginástica, não podiam negar a morte; seus corpos carregavam o memento mori, lembretes da morte prematura e inevitável. Todos os dias eles eram, nas palavras de Santo Agostinho, "ensurdecidos pelo estrépito das cadeias da mortalidade". Queria usá-los como exemplos para meus amigos hedonistas, e andar pelas ruas e interromper festas para anunciar que "todos nós vamos morrer. Tenho provas disso. Bem ali na esquina há um lugar onde vocês podem ver isso com os próprios olhos. Vocês já pensaram a respeito da morte?". Mas tal consciência mudaria alguém por mais do que alguns minutos? Como diz uma das personagens do romancista Saul Bellow, o viver se apressa como aves sobre a superfície da água, e uma delas mergulhará ou se atirará subitamente nela, e não mais voltará, não será vista novamente. Mas a vida continua. Cinco mil pessoas morrem por dia na América. Numa noite Donna, membro do grupo Faça seu Dia Valer, contou que estava assistindo a um programa de televisão da emissora de serviços públicos. No programa, Elisabeth Kübler-Ross discutia o caso de um menino na Suíça, que estava morrendo por causa de um tumor inoperável no cérebro. Kübler-Ross pediu-lhe que fizesse um desenho de como se sentia. Ele desenhou um tanque militar grande e feio, e atrás do tanque, uma casinha com árvores, grama, um sol brilhante e uma janela aberta. Na frente do tanque, bem no fim do canhão, ele desenhou uma pequenina figura segurando na mão uma placa vermelha de "Pare". Ele próprio. Donna disse que o desenho capturou com precisão seus sentimentos. Kübler-Ross passara a descrever os cinco estágios de pesar, culminando com o estágio da aceitação. E Donna sabia que deveria trabalhar pela aceitação. Mas ela nunca conseguia passar pelo estágio do medo. Como o menininho de frente para o tanque, ela via a morte como um inimigo. Alguém trouxe à baila a fé religiosa e a crença na vida após a morte, mas o comentário evocou no Faça seu Dia Valer a mesma reação que evocara na Anistia Internacional: um longo silêncio, pessoas pigarreando para limpar a garganta e alguns poucos olhos vagueando. Pelo resto da noite, o grupo se concentrou nas maneiras pelas quais Donna poderia superar seus medos e desenvolver-se até o estágio de aceitação do pesar. Saí daquele encontro com o coração pesado. Nossa cultura materialista e sem dogmas estava pedindo a seus membros que desafiassem os sentimentos mais profundos. Donna e o menininho suíço com tumor cerebral tinham, por puro instinto primal, esbarrado na base fundamental da teologia cristã. A morte é um inimigo, um inimigo encarniçado, o último inimigo a ser conquistado. Como poderiam os membros de um grupo - que a cada mês viam famílias se desintegrar e corpos se deteriorar diante de seus olhos - ainda desejar um espírito de branda aceitação? Conseguia pensar apenas numa reação apropriada para a morte iminente de Donna: dane-se, morte desgraçada! Há também outro aspecto da teologia cristã que, infelizmente, não era discutido no Faça seu Dia Valer. O garoto suíço incluiu sua visão sobre o céu como pano de fundo, representado pela grama, pelas árvores e pelo chalé com uma janela aberta. Qualquer sentimento do tipo "aceitação" seria apropriado apenas se ele estivesse indo de fato para algum lugar, algum lugar semelhante a um lar. É por isso que considero a doutrina do céu uma das mais negligenciadas de nossa época. "Acho que é muito difícil para homens secularizados morrer", disse Ernest Becker, quando se voltou para Deus em seus últimos meses de vida. No museu do Prado em Madri, Espanha, está exposta uma pintura de Hans Baldung (1545), intitulada As três idades do homem e a morte. Parece uma paródia deliberada da imagem clássica de As três Graças. No chão está uma criança recém-nascida, descansando tranqüilamente. Três figuras desbotadas e alongadas estão sobre ela. À esquerda está uma mulher quase nua, o arquétipo da beleza clássica, com a pele de alabastro, uma figura roliça e acetinada, os cabelos trançados em longas mechas que caem como cascata pelas costas. À esquerda dessa mulher está uma velha caquética, de seios enrugados e murchos, com uma face pronunciada, angulosa. A velha está com a mão direita no ombro da mulher bela e, com um sorriso escarnecedor e desdentado, puxa a jovem mulher em sua direção. O braço esquerdo da velha está entrelaçado com o de uma terceira pessoa, uma figura horrorosa, saída diretamente de um quadro de Hieronymus Bosch, o pintor medieval apaixonado pelo grotesco. Homem ou mulher, não é possível distinguir. Características humanas se fundiram com as de um cadáver macabro e apodrecido, com vermes finos e compridos se esgueirando para fora da barriga cadavérica. A cabeça não tem cabelos, quase uma caveira. O cadáver segura uma ampulheta. A pintura de Hans Baldung restaura, em termos visuais, o que a humanidade perdeu depois de Prometeu. A bela mulher recobrou o conhecimento da hora de sua morte. Nascimento, juventude, velhice - vivemos cada um desses estágios sob a sombra da morte. Falta uma imagem à pintura, uma visão do corpo ressurrecto. É difícil para nós viver com a consciência da morte; pode ser ainda mais difícil viver com a consciência da vida após a morte. Temos esperança de corpos recriados enquanto habitamos um que está envelhecido e atormentado. Charles Williams certa vez admitiu que a noção de imortalidade nunca pareceu instigar sua imaginação, não importava o quanto tentasse. "A experiência que temos na terra torna difícil para nós apreender o bem sem que haja uma armadilha em algum lugar", disse ele. O apóstolo Paulo escreveu estas palavras para pessoas que, como nós, realmente não conseguem imaginar o bem sem que haja uma armadilha em algum lugar: Mesmo que o nosso homem exterior se corrompa [a despeito de todos os esforços feitos na academia de ginástica para reverter à entropia], contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação [Leve e momentânea! As vezes em que Paulo ficou preso, foi espancado e naufragou me lembram das histórias de prisioneiros torturados que ouço na Anistia Internacional] produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que não se vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que não se vêem são eternas... Pois, na verdade, os que estamos neste tabernáculo gememos angustiados [os freqüentadores do Faça seu Dia Valer, com o rosto sugado e abatido dos que passam pela quimioterapia, me vêm à mente], não por querermos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida. Ora, foi o próprio Deus quem nos preparou para isto, outorgando-nos o penhor do Espírito. 2Coríntios 4:16-5:15 Sim, precisamos de uma percepção renovada da morte. Mas precisamos de bem mais do que isso. Precisamos de uma fé, em meio aos nossos gemidos, de que a morte não é a última palavra, mas a penúltima. O que é mortal será engolido pela vida. Um dia todos os sussurros da morte tombarão silentes.

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