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Diário de um Ano Ruim (Cód: 2575638)

Coetzee,J. M.

Companhia Das Letras

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Descrição

Por encomenda de seu editor, um renomado escritor sul-africano radicado em Sydney, Austrália, escreve um livro com suas opiniões a respeito dos temas mais quentes dos nossos dias: conflitos étnicos, terrorismo, economia globalizada, desastres
ecológicos,experiências genéticas. Como já não é capaz de digitar seus próprios textos, o velho escritor contrata uma vizinha
de apartamento, a jovem e sedutora filipina Anya, para transcrever as fitas onde grava suas polêmicas reflexões.
'Diário de um Ano Ruim' entrelaça esse “livro dentro do livro”com os relatos íntimos, em primeira pessoa, de Anya e do próprio escritor. O pessoal e o universal se iluminam reciprocamente, colocando em evidência a dificuldade de comunicação entre a tradicional cultura humanista do velho autor e a energia quase amoral da jovem digitadora.
Comprovando mais uma vez seu domínio sobre várias vozes, gêneros e registros narrativos, Coetzee discute ao mesmo
tempo o mundo contemporâneo e a sua representação no imaginário e na literatura. Aprofunda e radicaliza, assim, experiências empreendidas em outros romances híbridos seus, como 'A Vida dos Animais' e 'Elizabeth Costello'.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Companhia Das Letras
Cód. Barras 9788535912449
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 9788535912449
Profundidade 1.00 cm
Ano da edição 2008
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 248
Peso 0.44 Kg
Largura 14.00 cm
AutorCoetzee,J. M.

Leia um trecho

01. Da origem do Estado Todo relato sobre as origens do Estado parte da premissa de que “nós” — não nós leitores, mas algum nós genérico, tão amplo a ponto de não excluir ninguém — participamos de seu nascimento. Mas o fato é que o único “nós” que nós conhecemos —nós mesmos e as pessoas próximas a nós —nascem dentro do Estado; e nossos antepassados também nasceram dentro do Estado até onde possamos situar. O Estado existe sempre antes de nós. (Até onde no passado conseguimos situar? No pensamento africano, o consenso é que depois de sete gerações não conseguimos mais distinguir entre história e mito.) Se, apesar das provas dos nossos sentidos, aceitamos a premissa de que nós ou nossos antepassados criaram o Estado, então temos de aceitar também suas implicações: que nós ou nossos antepassados poderíamos ter criado o Estado de alguma outra forma, se tivéssemos escolhido; e também, que poderíamos transformá-lo se assim decidíssemos coletivamente. Mas o fato é que, mesmo coletivamente, aqueles que estão “sob” o Estado, que “pertencem” ao Estado, acharão muito difícil mesmo mudar sua forma; eles — nós — são com certeza impotentes para aboli-lo. Meu primeiro vislumbre dela foi na lavanderia. Era o meio da manhã de um dia calmo de primavera e eu estava sentado, olhando a roupa girar, quando essa mulher jovem tão surpreendente entrou. Surpreendente porque a última coisa que eu esperava era uma aparição dessas; e também porque o vestido soltinho vermelho-tomate que ela usava era de uma surpreendente brevidade. Dificilmente estará em nosso poder mudar a forma do Estado e é impossível aboli-lo porque, diante dele, nós somos, precisamente, impotentes. No mito da fundação do Estado, conforme estabelecido por Thomas Hobbes, nossa descida à impotência foi voluntária: a fim de escapar da violência da guerra mutuamente mortal e sem fim (represália sobre represália, vingança sobre vingança, a vendetta), nós individualmente e separadamente cedemos ao Estado o direito de usar força física (direito é força, força é direito), conseqüentemente entrando no reino (na proteção) da lei. Aqueles que escolheram e escolhem ficar fora do bloco são foras-da-lei. A lei protege o cidadão respeitador das leis. Chega a proteger, até certo ponto, o cidadão que, sem negar a força da lei, mesmo assim usa a força contra o concidadão: a punição prescrita para o criminoso deve ser condigna do crime. Nem mesmo o soldado inimigo, na medida em que é representante de um Estado rival, deve ser morto se capturado. Mas não existe lei para proteger o fora-da-lei, o homem que pega em armas contra seu próprio Estado, isto é, o Estado que o considera como seu. O espetáculo de minha pessoa pode tê-la surpreendido também: um velho amassado num canto, que, à primeira vista, podia parecer um vagabundo de rua. Olá, ela disse, fria, e começou a cuidar de seus afazeres, que era esvaziar duas sacolas de lona branca numa máquina de carregar por cima, sacolas em que a roupa de baixo masculina parecia predominar. Fora do Estado (da comunidade, do statum civitatis), diz Hobbes, o indivíduo pode sentir que goza de perfeita liberdade, mas essa liberdade não lhe faz nenhum bem. Dentro do Estado, por outro lado, “é conservada por todo súdito tanta liberdade quanto lhe seja suficiente para viver bem e de maneira tranqüila e é tirado dos outros aquilo que é preciso para perdermos o medo deles... Fora [do governo civil] assistiremos ao domínio das paixões, da guerra, do medo, da miséria, da imundície, da solidão, da barbárie, da ignorância e da crueldade; nele, ao domínio da razão, da paz da segurança, das riquezas, da decência, da sociedade, da elegância, das ciências e da benevolência”.1 O que o mito hobbesiano das origens não menciona é que a entrega de poder ao Estado é irreversível. Não está aberta a opção de mudarmos de idéia, de decidirmos que o monopólio do exercício da força mantido pelo Estado, codificado pela lei, não é o que queríamos afinal de contas, que preferiríamos retornar ao estado natural. Lindo dia, disse eu. É, disse ela, de costas para mim. Você é nova?, eu perguntei, querendo dizer nova nas Torres Sydenham, embora outros sentidos também fossem possíveis, É nova nesta terra?, por exemplo. Não, disse ela. Que problema, puxar conversa. Eu moro no térreo, eu disse. Eu posso fazer abordagens assim, que elas são tomadas por loquacidade. Um velho tão falante, ela dirá ao dono da camisa rosa com colarinho branco, foi difícil me livrar dele, a gente não quer ser rude. Eu moro no térreo desde 1995 e ainda não conheço todos os meus vizinhos. É, disse ela, e mais nada, querendo dizer É, estou ouvindo o que você diz e concordo, é uma tragédia não saber quem são seus vizinhos, mas é assim que é na cidade grande, e tenho mais o que fazer agora, então podemos deixar esta troca de gentilezas morrer de morte natural? Nascemos sujeitos. Desde o momento de nosso nascimento somos sujeitos. Uma marca dessa sujeição é a certidão de nascimento. O Estado aperfeiçoado detém e mantém o monopólio de certificar o nascimento. Ou você recebe (e leva consigo) uma certidão do Estado, adquirindo assim uma identidade que no curso da vida permite que o Estado o identifique e localize (vá em seu encalço), ou você segue em frente sem uma identidade e se condena a viver fora do Estado como um animal (animais não têm documentos de identificação). Não apenas lhe é vedado entrar no Estado sem identificação: aos olhos do Estado, você não morre enquanto não tiver uma certidão de óbito; e a certidão de óbito só lhe pode ser dada por um funcionário que possua ele (ela) próprio (a) uma certidão do Estado. O Estado procede com extremo rigor na certificação da morte — veja-se o envio de uma horda de cientistas forenses e burocratas para esquadrinhar, fotografar, cutucar e espetar a montanha de corpos humanos deixada pelo grande tsunami de dezembro de 2004 a fim de determinar suas identidades. Não se poupam despesas para garantir que o censo de sujeitos esteja completo e acurado. Se o cidadão vive ou morre não é preocupação do Estado. O que importa para o Estado e seus registros é se o cidadão está vivo ou morto. • Ela tem cabelo preto preto, ossos bem formados. Um certo brilho dourado na pele... radiosa podia ser a palavra. Quanto ao vestido vermelho, talvez não seja o tipo de roupa que teria escolhido se estivesse esperando a companhia de um homem desconhecido na lavanderia às onze da manhã de um dia de semana. Vestido vermelho solto e sandálias de dedo. Do tipo que a tira dá a volta no pé. Os sete samurais é um filme que tem completo domínio de sua mídia, porém é ingênuo o suficiente para tratar simples e diretamente das coisas primeiras. Trata, de maneira específica, do nascimento do Estado, e o faz com clareza e abrangência shakespearianas. De fato, o que Os sete samurais propõe é nada menos que a teoria de Kurosawa para a origem do Estado. A história contada no filme é a história de uma aldeia durante uma época de desordem política — uma época em que o Estado efetivamente cessou de existir —e das relações dos aldeões com uma tropa de bandidos armados. Depois de anos baixando sobre a aldeia como uma tempestade, estuprando mulheres, matando os homens que resistem e levando embora suprimentos de comida armazenados, os bandidos têm a idéia de sistematizar suas visitas, comparecendo à aldeia apenas uma vez por ano para cobrar ou extorquir tributo (imposto). Isto é, os bandidos deixam de ser predadores da aldeia para se transformar em parasitas. Enquanto eu olhava para ela, uma dor, uma dor metafísica, penetrou em mim e eu não fiz nada para impedir. E de um jeito intuitivo ela sabia disso, sabia que dentro daquele velho sentado na cadeira de plástico a um canto alguma coisa pessoal estava acontecendo, alguma coisa relativa a idade, remorso e lágrimas das coisas. Coisas de que ela particularmente não gostou, não quis evocar, embora fosse um tributo a ela, a sua beleza e frescor, assim como ao vestido tão curto. Tivesse vindo de alguém diferente, tivesse um sentido mais simples e mais direto, ela teria aceitado de modo mais pronto; mas vindo de um velho o sentido era difuso e melancólico demais para um lindo dia, quando se está com pressa de cuidar de suas coisas. Supõe-se que os bandidos têm outras aldeias “pacificadas” sob seu tacão, sobre as quais baixam em rodízio, que em conjunto essas aldeias constituem a base de impostos dos bandidos. Muito provavelmente têm de combater bandos rivais pelo controle de aldeias específicas, embora não vejamos nada disso no filme. Os bandidos ainda não começaram a viver entre seus sujeitos, e suas necessidades são atendidas dia a dia — quer dizer, eles ainda não transformaram os aldeões em uma população escrava. Kurosawa vai assim expondo à nossa consideração um estágio muito precoce do desenvolvimento do Estado. A ação principal do filme começa quando os aldeões concebem um plano de contratar seu próprio bando de durões, os sete samurais desempregados do título, para protegê-los dos bandidos. O plano funciona, os bandidos são derrotados (o corpo do filme é repleto de escaramuças e batalhas), os samurais são vitoriosos. Tendo visto como funciona o sistema de proteção e extorsão, o bando de samurais, os novos parasitas, fazem uma oferta aos aldeões: em troca de um preço, tomarão a aldeia sob sua asa, quer dizer, assumirão o lugar dos bandidos. Mas num final um tanto sonhador, os aldeões declinam: pedem aos samurais que vão embora e os samurais concordam. Só uma semana depois eu a vi de novo — num conjunto de prédios de apartamentos bem projetado como este, não é fácil localizar os vizinhos —, e só de relance, quando ela passou pela porta da frente, num relâmpago, de calça branca que mostrava um derrière tão próximo da perfeição quanto da angelitude. Deus, me conceda um desejo antes de morrer, sussurrei; mas então fui tomado de vergonha pela especificidade do desejo e retirei-o. A história kurosawiana da origem do Estado ainda é vivida na África em nossa época, onde bandos de homens armados arrebatam o poder — quer dizer, se apropriam do Tesouro Nacional e dos mecanismos de aplicar impostos à população —, eliminam seus rivais e proclamam o Ano Um. Embora essas gangues militares africanas muitas vezes não sejam maiores nem mais poderosas dos que as gangues criminosas da Ásia e da Europa oriental, suas atividades recebem respeitosa cobertura da mídia —até mesmo da mídia ocidental —na seção de política (assuntos internacionais), não na seção de crimes. Podem-se citar exemplos de nascimento ou renascimento do Estado também na Europa. No vácuo de poder deixado pela derrota dos exércitos do Terceiro Reich em 1944-45, gangues armadas rivais lutaram para se encarregar das nações recém-libertadas; quem determinava quem ia tomar o poder e onde era quem fosse capaz de contar com o apoio de algum exército estrangeiro. Com o Vinnie, que cuida da Torre Norte, descubro que ela — que sou prudente o bastante para descrever não como a moça naquele vestido curto tentador e agora de calça branca elegante, mas como a moça de cabelo escuro — é mulher, ou pelo menos namorada, do sujeito pálido, apressado, gordinho e sempre suado que cruza comigo algumas vezes no saguão e a quem eu chamo de mr. Aberdeen; mais, que ela não é nova no sentido usual do termo, ocupando (junto com mr. A) desde janeiro um dos maiores apartamentos do último andar desta mesma Torre Norte. Será que alguém, em 1944, disse ao populacho francês: Pensem: a retirada dos nossos dominadores alemães significa que por um breve momento não somos governados por ninguém. Queremos terminar esse momento, ou queremos talvez perpetuá-lo — tornamo-nos o primeiro povo dos tempos modernos a reduzir o Estado? Vamos, nós, enquanto povo francês, usar nossa nova e súbita liberdade para debater a questão sem limitações. Talvez algum poeta tenha pronunciado essas palavras: mas, se o fez, sua voz deve ter sido imediatamente silenciada pelas gangues armadas, que nesse caso e em todos os casos têm mais em comum umas com as outras do que com o povo. • Na época dos reis, dizia-se ao sujeito: Você era súdito do rei A, agora o rei A morreu e olhe!, você é súdito do rei B. Então chegou a democracia e o sujeito pela primeira vez se defrontava com uma escolha: Vocês (coletivamente) querem ser governados pelo cidadão A ou pelo cidadão B? O sujeito se vê sempre confrontado com o fato consumado: no primeiro caso com o fato de sua sujeição; no segundo, com o fato da escolha. A forma da escolha não está aberta a discussão. A cédula de votação não diz: Você quer A ou B ou nenhum dos dois? Certamente jamais dirá: Você quer A ou B ou ninguém? O cidadão que expressa sua infelicidade com a forma de escolha oferecida através do único meio que lhe resta —não votar ou anular o voto — simplesmente não é contado, quer dizer, é descontado, ignorado. Obrigado, eu disse a Vinnie. Em um mundo ideal, eu podia ter pensado num jeito de interrogá-lo mais (Qual apartamento? Em nome de quem?) sem impropriedade. Mas não estamos num mundo ideal. Diante da escolha entre A e B, dado o tipo de A e o tipo de B que geralmente chega à cédula de votação, a maioria das pessoas, pessoas comuns, tende, em seu coração, a não escolher nenhum. Mas isso é só uma tendência, e o Estado não lida com tendências. Tendências não fazem parte da moeda corrente da política. O Estado lida é com escolhas. A pessoa comum gostaria de dizer: Alguns dias eu tendo para A, outros dias para B, a maior parte dos dias eu sinto simplesmente que eles deviam sumir; ou então, Um pouco A, um pouco B às vezes, e outras vezes nem A nem B, mas alguma coisa bem diferente. O Estado sacode a cabeça. Você tem de escolher, diz o Estado: A ou B. • “Disseminar democracia”, como vem sendo feito pelos Estados Unidos no Oriente Médio, quer dizer espalhar as regras da democracia. Quer dizer falar às pessoas que, onde antes não tinham escolha, agora têm uma escolha. Antes tinham A e nada além de A; agora têm uma escolha entre A e B. “Disseminar a democracia” quer dizer criar condições para as pessoas escolherem livremente entre A e B. O disseminar da liberdade e o disseminar da democracia andam de mãos dadas. As pessoas engajadas em disseminar liberdade e democracia não enxergam nenhuma ironia na descrição do processo feita anteriormente. A ligação dela com o mr. Aberdeen, que sem dúvida tem as costas sardentas, é uma grande decepção. Dói pensar nos dois lado a lado, quer dizer, lado a lado na cama, já que isso é o que conta, afinal. Durante a Guerra Fria, a explicação dada pelos Estados democráticos ocidentais para banir seus partidos comunistas era que um partido cujo objetivo declarado é a destruição do processo democrático não pode ter permissão para participar de um processo democrático, definido como a escolha entre A e B. • Por que é tão difícil falar alguma coisa sobre política fora da política? Por que não pode haver discurso sobre política que não seja ele próprio político? Para Aristóteles, a resposta é que a política está embutida na natureza humana, isto é, faz parte de nosso destino, como a monarquia é o destino das abelhas. Lutar por um discurso sistemático, suprapolítico sobre política é inútil. Não só por causa do insulto —o insulto à justiça natural —de um homem tão sem graça em posse de uma amante tão celestial, mas por causa do aspecto que teria o fruto dessa união, o fulgor dourado dela lavado pela palidez céltica dele. 02. Da anarquia Quando a expressão “os bastardos” é usada na Austrália, por todo lado se entende a que ela se refere. “Os bastardos” foi um dia o termo do prisioneiro para se referir aos homens que se diziam seus superiores e o açoitavam se ele discordava. Hoje, “os bastardos” são os políticos, homens e mulheres que controlam o Estado. O problema: como afirmar a legitimidade da velha perspectiva, a perspectiva de baixo, a perspectiva do prisioneiro, quando está na natureza dessa perspectiva ser ilegítima, contra a lei, contra os bastardos. Eu poderia passar dias inventando felizes coincidências que permitissem que a breve conversa na lavanderia fosse retomada em outro lugar. Mas a vida é curta demais para tramas. Então, me deixem simplesmente dizer que nossos caminhos se cruzaram uma segunda vez num parque público, o parque do outro lado da rua, onde eu a vi descansando debaixo de um chapéu de sol extravagantemente grande, folheando uma revista. Estava com um humor mais afável dessa vez, menos seca comigo; pude confirmar através de seus próprios lábios que ela estava, no momento, sem nenhuma ocupação significativa, ou, como ela disse, entre empregos: daí o chapéu de sol, daí a revista, daí o langor de seus dias. Seu emprego anterior, disse, havia sido na área da hospitalidade; no devido momento (não havia pressa), ela procuraria colocação no mesmo campo. A oposição aos bastardos, a oposição ao governo em geral sob a bandeira do libertarismo, adquiriu um nome feio porque com muita freqüência suas raízes se encontram na relutância em pagar impostos. Seja qual for a posição da pessoa sobre pagar tributo aos bastardos, um primeiro passo estratégico tem de ser distinguir-se desse traço libertário particular. Como fazê-lo? “Pegue metade do que eu possuo, pegue metade do que eu ganho, eu cedo a você; em troca, me deixe em paz.” Será que isso basta para alguém provar sua boa-fé? Etienne de La Boétie, o jovem amigo de Michel de Montaigne, escrevendo em 1549, viu a passividade das populações em relação a seus governantes primeiro como um vício adquirido, depois como um vício herdado, uma obstinada “vontade de ser governado” que acaba ficando tão profundamente enraizada “que mesmo o amor pela liberdade passa a parecer não tão natural”. O tempo todo em que ela transmitia essa informação bastante inconsistente, o ar à nossa volta decididamente estalava com uma corrente elétrica que não podia vir de mim, eu não exsudo mais correntes, portanto devia vir dela e se dirigir a ninguém em particular, emitida apenas ao ambiente. Hospitalidade, ela repetiu, ou, melhor talvez, recursos humanos, tinha alguma experiência também em recursos humanos (fossem eles quais fossem); e mais uma vez uma sombra de dor passou por cima de mim, a dor que mencionei antes, de um tipo metafísico ou, senão, pós-físico. Incrível ver como o povo, uma vez submetido, cai de repente num tão profundo esquecimento de sua liberdade anterior que lhe é impossível despertar e recuperá-la; o povo serve tão bem, e tão voluntariamente, que ao vê-lo dir-se-ia que não apenas perdeu sua liberdade, mas conquistou sua servidão. É verdade que, de início, a pessoa serve por coação e dominada à força; mas aqueles que vêm depois servem sem lamentar, e realizam de livre vontade o que os seus predecessores realizavam sob coação. Os homens nascidos sob o jugo, depois alimentados e criados na servidão, sem olhar adiante, contentam-se em viver como nasceram... Eles tomam como seu estado natural o estado em que nasceram.2 Bem colocado. No entanto, La Boétie entende de maneira errada um aspecto importante. As alternativas não são plácida servidão de um lado e revolta contra a servidão de outro. Existe uma terceira via, escolhida por milhares e milhões de pessoas todos os dias. É a via do quietismo, do obscurantismo voluntário, da emigração interior. 19 Enquanto isso, continuou ela, ajudo Alan com os relatórios dele e tal, para ele poder me incluir nas despesas de secretária. Alan, eu digo. 03. Da democracia O problema principal da vida do Estado é o problema da sucessão: como garantir que o poder será passado de uma mão para outra sem o recurso das armas. Em épocas confortáveis, esquecemos como é terrível a guerra civil, como ela depressa decai para o assassinato impensado. A fábula dos gêmeos guerreiros, de René Girard, é pertinente: quanto menos diferenças substantivas entre as duas partes, mais amargo é o ódio mútuo. Lembremos o comentário de Daniel Defoe sobre o conflito religioso na Inglaterra: que os partidários da igreja nacional juravam detestar os papistas e o papado sem saber se o papa era um homem ou um cavalo. Soluções antigas para o problema da sucessão têm um ar notavelmente arbitrário: com a morte do soberano, seu primogênito homem o sucederá no poder, por exemplo. A vantagem da solução do primogênito homem é que ele é único; a desvantagem é que o primogênito homem em questão pode não ter aptidão para governar. Os anais dos reinos são cheios de histórias de príncipes incompetentes, para não falar de reis incapazes de gerar filhos. Alan, disse ela, meu parceiro. E me deu um olhar. O olhar não dizia É, eu sou, sob todos os aspectos e para todos os ropósitos, uma mulher casada, então, se continuar no curso que tem em mente será uma questão de adultério clandestino, com todos os riscos e emoções envolvidos, nada disso, ao contrário, dizia Você parece achar que eu sou meio criança, será que preciso dizer que não sou nada criança? De um ponto de vista prático, não importa como se consegue a sucessão, contanto que ela não precipite o país na guerra civil. Um esquema em que muitos (embora, no geral, apenas dois) candidatos à liderança se apresentam ao populacho e se sujeitam à votação é apenas um do grande número que uma mente inventiva pode formular. Não é o esquema em si que interessa, mas o consenso em adotar o esquema e conformar-se com seus resultados. Assim, em si mesma, a sucessão pelo primogênito não é nem melhor nem pior do que a sucessão por eleição democrática. Mas viver em uma época democrática significa viver numa época em que apenas o esquema democrático tem aceitação e prestígio. Assim como durante a época dos reis teria sido ingênuo pensar que o filho primogênito do rei seria o mais preparado para governar, também em nossa época é ingênuo pensar que o governante eleito democraticamente será o mais preparado. A regra de sucessão não é uma fórmula para identificar o melhor governante; é uma fórmula para atribuir legitimidade a um ou outro e assim evitar o conflito civil. O eleitorado — o demos — acredita que sua tarefa é escolher o melhor, mas na verdade sua tarefa é muito mais simples: ungir um homem (vox populi vox dei), não importa qual. Contar votos pode parece um meio de descobrir qual é a verdadeira (isto é, a mais alta) vox populi; mas Eu também estou precisando de uma secretária, eu disse, valentemente. É?, ela perguntou. o poder da fórmula de contagem de votos, assim como o poder da fórmula do primogênito homem, está no fato de que é uma fórmula objetiva, não ambígua, fora do campo da contestação política. Jogar uma moeda seria igualmente objetivo, igualmente não ambíguo, igualmente incontestável e igualmente se poderia afirmar (como já se afirmou) que representa a vox dei. Não escolhemos nossos governantes jogando uma moeda — jogar moedas está associado ao baixo nível da atividade do jogo —, mas quem ousaria afirmar que o mundo estaria em pior estado se seus governantes tivessem, desde o começo dos tempos, sido escolhidos pelo método da moeda? Imagino, ao escrever estas palavras, que estou discutindo essa questão antidemocrática com um leitor cético que estará continuamente comparando o que digo com os fatos de base: o que eu digo sobre a democracia aplica-se aos fatos da Austrália democrática, dos Estados Unidos democráticos, e assim por diante? O leitor deve ter em mente que para cada Austrália democrática existem duas Bielo-Rússias, ou Chades, ou Fijis, ou Colômbias que igualmente adotam a fórmula de contagem de votos. É, eu disse, sou escritor profissional e tenho um prazo importante a cumprir, por isso preciso de alguém para digitar um manuscrito para mim e fazer, talvez, alguma revisão também e deixar, no geral, a coisa em boa forma. Ela olhou sem entender. A Austrália é, sob muitos aspectos, uma democracia avançada. É também uma terra onde abunda o cinismo sobre a política e o desdém pelos políticos. Mas esse cinismo e esse desdém estão confortavelmente acomodados dentro do sistema. Se você tem reservas sobre o sistema e quer transformá-lo, reza o argumento democrático, faça-o dentro do sistema: apresente-se como candidato a um cargo político, submeta-se à eleição e ao voto de seus concidadãos. A democracia não admite política fora do sistema democrático. Nesse sentido, a democracia é totalitária. Se você questiona a democracia numa época em que todo mundo afirma ser democrata de corpo e alma, você corre o risco de perder contato com a realidade. Para retomar o contato, você tem a todo momento de relembrar a si mesmo como é ver-se cara a cara com o Estado —o Estado democrático ou qualquer outro — na pessoa do funcionário estatal. Então pergunte a si mesmo: Quem serve quem? Quem é o servidor, quem é o senhor? Arrumadinha, organizada e legível, quero dizer, falei.

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