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Elogio da Loucura - Col. Saraiva de Bolso (Cód: 3649573)

Roterdã, Erasmo de

Saraiva De Bolso

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Elogio da Loucura - Col. Saraiva de Bolso

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Descrição

Escrito em latim, publicado no ano de 1509, o 'Elogio da loucura' foi um dos best-sellers do século XVI. De rara violência contra os poderosos da época, o livro e seu autor só escaparam à fogueira porque Erasmo se escondeu atrás de uma máscara, como faziam os bobos da cor¬te, únicas pessoas a quem se permitia serem insolentes por sua condição de corcundas ou aleijados. No caso, a máscara escolhida foi a loucura, narradora em primeira pessoa dessa prosopopeia.

Tradutor: Paulo M. Oliveira
Introdução: Antônio Olinto

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Saraiva De Bolso
Cód. Barras 9788520925911
Altura 17.50 cm
I.S.B.N. 9788520925911
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2011
Idioma Português
ANO 2000
MÊS JULHO
País de Origem Brasil
Ano da Publicação 2000
Peso 0.44 Kg
Largura 10.50 cm
AutorRoterdã, Erasmo de

Leia um trecho

Carta de Erasmo a Tomás Moro

Achando-me, dias atrás, de regresso da Itália à Inglaterra, a fi m de não gastar todo o tempo da viagem em insípidas fábulas, preferi recrear-me, ora volvendo o espírito aos nossos comuns estudos, ora recordando os doutíssimos e ao mesmo tempo dulcíssimos amigos que deixara ao partir. E foste tu, meu caro Moro, o primeiro a aparecer aos meus olhos, pois que malgrado tanta distância, eu via e falava contigo com o mesmo prazer que costumava ter em tua presença e que juro não ter experimentado maior em minha vida. Não desejando, naquele intervalo, passar por indolente, e não me parecendo as circunstâncias adequadas aos pensamentos sérios, julguei conveniente divertir-me com um elogio da loucura.

Por que essa inspiração?1 — perguntar-me-ás. Pelo seguinte: a princípio, dominou-me essa fantasia por causa do teu gentil sobrenome, tão parecido com a Mória2 quanto realmente estás longe dela e, decerto, ainda mais longe do conceito que em geral dela se faz. Em seguida, lisonjeou-me a ideia de que essa engenhosa pilhéria pudesse merecer a tua aprovação, se é verdade que divertimentos tão artificiais, não me parecendo plebeus, naturalmente, nem de todo insulsos, te possam deleitar,3 permitindo que, como um novo Demócrito, observes e ridicularizes os acontecimentos da vida humana.

Mas assim como, pela excelência do gênio e de talentos, estás acima da maioria dos homens, assim também, pela rara suavidade do costume e pela singular afabilidade, sabes e gostas, sempre e em toda parte, de habituar-te a todos e a todos parecer amável e grato. Por conseguinte, gostarás agora, não só de aceitar de bom grado esta minha pequena arenga, como um presente do teu bom amigo, mas também de colocá-la sob o teu patrocínio, como coisa sagrada para ti e, na verdade, mais tua do que minha. Já prevejo que não faltarão detratores para insurgir-se contra ela, acusando-a de frivolidade indigna de um teólogo, de sátira indecente para a moderação cristã, em suma, clamando e cacarejando contra o fato de eu ter ressuscitado a antiga comédia4 e, qual novo Luciano,5 ter magoado a todos sem piedade.

Mas os que se desgostarem com a ligeireza do argumento e com o seu ridículo devem ficar avisados de que não sou eu o seu autor, pois que com o seu uso se familiarizaram numerosos grandes homens. Com efeito, muitos séculos antes, Homero escreveu a sua Batraquiomaquia, Virgílio cantou o mosquito e a amoreira, e Ovídio a nogueira; Policrates chegou a fazer o elogio de Busíris, mais tarde impugnado e corrigido por Isócrates; Glauco enalteceu a injustiça, o filósofo Favorino louvou Tersites e a febre quartã; Sinésio a calvície e Luciano a mosca parasita; finalmente, Sêneca ridicularizou a apoteose de Cláudio, Plutarco escreveu o diálogo do grilo com Ulisses, Luciano e Apuleio falaram do burro; e um tal Grunnio Corocotta fez o testamento do porco, citado por são Jerônimo.

Saibam, pois, esses censores que também, para divertir-me, já joguei xadrez e montei em cavalo de
pau,6 como um menino. Na verdade, haverá maior injustiça do que, sendo permitida uma brincadeira adequada
a cada idade e condição, não poder pilheriar um literato, principalmente quando a pilhéria tem um fundo de seriedade,
sendo as facécias manejadas apenas como disfarce, de forma que quem as lê, quando não seja um solene bobalhão,
mas possua algum faro, encontre nelas ainda mais proveito do que em profundos e luminosos temas?

Que dizer, então, de alguém que, com um longo discurso, depois de muito estudar e fatigar as costas, elogiasse a Retórica ou a Filosofia? Ou de alguém que escrevesse o elogio de um príncipe, outro uma exortação contra os turcos, outro fizesse horóscopos e predições baseado nos planetas, outro questões de lana-caprina7 e investigações futilíssimas? Portanto, assim como não há nada mais inepto do que abordar graves argumentos puerilmente, assim também é bastante agradável e plausível tratar de igual forma as pilhérias, que não têm aqui outro objetivo senão o pilheriar.

Quanto a mim, deixo que os outros julguem esta minha tagarelice; mas, se o meu amor-próprio não deixar que eu o perceba, contentar-me-ei de ter elogiado a Loucura sem estar inteiramente louco. Quanto à imputação
de sarcasmo, não deixarei de dizer que há muito tempo existe a liberdade de estilo com a qual se zomba
da maneira por que vive e conversa o homem, desde que não se caia no cinismo e no veneno. Assim, pergunto se
se deve estimar o que magoa, ou antes o que ensina e instrui, censurando a vida e os costumes humanos, sem
pessoalmente ferir ninguém. Se assim não fosse, precisaria eu mesmo fazer uma sátira a meu respeito, com todas as
particularidades que atribuo aos outros.

Além disso, quem se insurge em geral contra todos os aspectos da vida não deve ser inimigo de ninguém, mas unicamente do vício em toda a sua extensão e totalidade. Se houver, pois, alguém que se sinta ofendido por isso, deverá procurar descobrir as suas próprias mazelas, porque, do contrário, se tornará suspeito ao mostrar receio de ser objeto da minha censura. Muito mais livre e acerbo nesse gênero literário foi são Jerônimo, que nem sequer perdoava os nomes das pessoas!

Nós, porém, além de calarmos absolutamente os nomes, temperamos o estilo, de forma que o leitor honesto verá por si mesmo que o meu propósito foi mais divertir do que magoar. Seguindo o exemplo de Juvenal, em nenhum ponto tocamos na oculta cloaca de vícios da humanidade, nem relevamos as suas torpezas e infâmias, limitando-nos a mostrar o que nos pareceu ridículo. Se, apesar de tudo, ainda houver ranzinzas e descontentes, que ao menos observem como é bonito e vantajoso ser acusado de loucura. Com efeito, na boca da que trouxemos à cena e fizemos falar, foi necessário pôr os juízos e as palavras que mais se coadunam com o seu caráter.

Mas, para que hei de te dizer todas essas coisas, se és emérito advogado, capaz de defender egregiamente mesmo as causas menos favoráveis? Elogio Sem mais, eloquentíssimo Moro, estimo que estejas são e tomes animosamente a parte de tua loucura.

Vila, 10 de junho de 1508.

Declamação de Erasmo de Roterdã

Embora os homens costumem ferir a minha reputação e eu saiba muito bem quanto o meu nome soa mal aos ouvidos dos mais tolos, orgulho-me de vos dizer que esta Loucura, sim, esta Loucura que estais vendo é a única capaz de alegrar os deuses e os mortais. A prova incontestável do que afirmo está em que não sei que súbita e desusada alegria brilhou no rosto de todos ao aparecer eu diante deste numerosíssimo auditório. De fato, erguestes logo a fronte, satisfeitos, e com tão prazenteiro e amável sorriso me aplaudistes, que na verdade todos os que distingo ao meu redor me parecem outros tantos deuses de Homero, embriagados pelo néctar com nepentes.

8 No entanto, antes, estivestes sentados, tristes e inquietos, como se há pouco tivésseis saído da caverna de Trofônio. 9 Com efeito, como no instante em que surge no céu a brilhante fi gura do Sol, ou como quando, após um rígido inverno, retorna a primavera com suas doces aragens e vemos todas as coisas tomarem logo um novo aspecto, matizando-se de novas cores, contribuindo tudo para de certo modo rejuvenescer a natureza, assim também, logo que me vistes, transformastes inteiramente as vossas fisionomias.

Bastou, pois, a minha simples presença para eu obter o que valentes oradores mal teriam podido conseguir com um longo e longa mente meditado discurso: expulsar a tristeza de vossa alma. Se, agora, fazeis questão de saber por que motivo me agrada aparecer diante de vós com uma roupa tão extravagante, eu vo-lo direi em seguida, se tiverdes a gentileza de me prestar atenção; não a atenção que costumais prestar aos oradores sacros, mas a que prestais aos charlatães, aos intrujões e aos bobos das ruas, numa palavra, a que o nosso Midas10 prestava ao canto do deus Pã.

E isso porque me agrada ser convosco um tanto sofista: não da espécie dos que hoje não fazem senão imbuir as mentes juvenis de inúteis e difíceis bagatelas, ensinando-os a discutir com uma pertinácia mais do que feminina. Ao contrário, pretendo imitar os antigos, que, evitando o infame nome de filósofos, preferiram chamar-se sofistas,11 cuja principal cogitação consistia em elogiar os deuses e os heróis. Ireis, pois, ouvir o elogio, não de um Hércules ou de um Solon, mas de mim mesma, isto é, da Loucura.

Para dizer a verdade, não nutro nenhuma simpatia pelos sábios que consideram tolo e impudente o autoelogio. Poderão julgar que seja isso uma insensatez, mas deverão concordar que uma coisa muito decorosa é zelar pelo próprio nome. De fato, que mais poderia convir à Loucura do que ser o arauto do próprio mérito e fazer ecoar por toda parte os seus próprios louvores? Quem poderá pintar-me com mais fidelidade do que eu mesma? Haverá, talvez, quem reconheça melhor em mim o que eu mesma não reconheço?

De resto, esta minha conduta me parece muito mais modesta do que a que costuma ter a maior parte dos grandes e dos sábios do mundo. É que estes, calcando o pudor aos pés, subornam qualquer panegirista adulador, ou um poetastro tagarela, que, à custa do ouro, recita os seus elogios, que não passam, afinal, de uma rede de mentiras. E, enquanto o modestíssimo homem fica a escutá-lo, o adulador ostenta penas de pavão, levanta a crista, modula uma voz de timbre descarado comparando aos deuses o homenzinho de nada, apresentando-o como modelo absoluto de todas as virtudes, muito embora saiba estar ele muito longe disso, enfeitando com penas não suas a desprezível gralha, esforçando-se por alvejar as peles da Etiópia, e, finalmente, fazendo de uma mosca um elefante.

Assim, pois, sigo aquele conhecido provérbio que diz: Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo. Não posso deixar, neste momento, de manifestar um grande desprezo, não sei se pela ingratidão ou pelo fingimento dos mortais. É certo que nutrem por mim uma veneração muito grande e apreciam bastante as minhas boas ações; mas, parece incrível, desde que o mundo é mundo, nunca houve um só homem que manifestando o reconhecimento, fizesse o Elogio da loucura.

Não faltou, contudo, quem, com grande perda de azeite e de sono, exaltasse, com elogios estudadíssimos, os Busíris12 e os Faláris,13 a febre quartã e a mosca, a calvície e outras pestes semelhantes. Ireis, pois, ouvir de mim mesma o meu panegírico, o qual, não sendo oportuno nem estudado, será, por isso mesmo, muito mais sincero. Não julgueis que assim vos fale por ostentação de engenho, como costuma fazer a maior parte dos oradores. Estes, como bem sabeis, depois de se esfalfarem bem uns trinta anos em cima de um discurso, talvez surripiado de outrem, são tão impudentes que procuram impingir que o fi zeram, por divertimento, em três dias, ou então que o ditaram.

Eu, ao contrário, sempre gostei muito de dizer tudo o que me vem à boca. Não espereis que, de acordo com o costume dos retóricos vulgares, eu vos dê a minha definição e muito menos a minha divisão. Com efeito, que é definir? É encerrar a ideia de uma coisa nos seus justos limites. E que é dividir? É separar uma coisa em suas diversas partes. Ora, nem uma nem outra me convêm.

Como poderia limitar-me, quando o meu poder se estende a todo o gênero humano? E como poderia dividir-me, quando tudo concorre, em geral, para sustentar a minha divindade? Além disso, por que haveria de me pintar como sombra e imagem numa definição quando estou diante dos vossos olhos e me vedes em pessoa? Sou eu mesma, como vedes; sim, sou eu aquela verdadeira dispenseira de bens, a que os italianos chamam Pazzia e os gregos Mória. E que necessidade havia de vo-lo dizer?

O meu rosto já não o diz bastante? Se há alguém que desastradamente se tenha iludido, tomando-me por Minerva ou pela Sabedoria, bastará olhar-me de frente, para logo me conhecer a fundo, sem que eu me sirva das palavras que são a imagem sincera do pensamento. Não existe em mim simulação alguma, mostrando-me eu por fora o que sou no coração. Sou sempre igual a mim mesma, de tal forma que, se alguns dos meus sequazes presumem não
passar por tais, disfarçando-se sob a máscara e o nome de sábios, não serão eles mais do que macacos vestidos de
púrpura, do que burros vestidos com pele de leão.

Qualquer, pois, que seja o raciocínio feito para se mostrarem diferentes do que são, dois compridos orelhões descobrirão sempre o seu Midas. Para dizer a verdade, não estou nada satisfeita com essa gente ingrata, com esses perversos velhacos, porque, embora pertençam mais do que os outros ao nosso império, não só publicamente se envergonham de usar o meu nome, como muitas vezes chegam a aplicá-lo aos outros como título oprobrioso. Portanto, sendo eles loucos e arquiloucos, embora assumam a atitude de sábios e de Tales,14 não teremos razão de chamá-los loucamente de sábios?

A esse respeito, pareceu-me igualmente oportuno imitar os retóricos dos nossos dias, que se reputam outras tantas divindades, uma vez que podem gabar-se de outras línguas como a sanguessuga15 e consideram coisa maravilhosa inserir nos seus discursos, de cambulhada, mesmo fora de propósito, palavrinhas gregas, a fi m de formarem belíssimos mosaicos. E, quando acontece que um desses oradores não conhece as línguas estrangeiras, desentranha ele de rançosos papéis quatro ou cinco vocábulos, com os quais lança poeira aos olhos do leitor, de forma que os que o entendem se orgulhem do próprio saber e os que não o compreendem o admirem na proporção da própria ignorância.

Para nós, os tolos, um dos maiores prazeres não consistirá em admirar, com a máxima surpresa, tudo o que nos vem dos países ultramontanos? Finalmente, se houver alguns que, embora não entendendo nada desses velhos idiomas, queiram dar mostras de que os compreendem, nesse caso devem apresentar uma fisionomia satisfeita, aprovar abanando a cabeça, ou simplesmente as longas orelhas de burro, e dizer com um ar de importância: Bravo! Bravo! Muito bem! Justamente! Mas retomemos o fi o do nosso raciocínio. Portanto, sabeis agora o meu nome, homens... Mas, que epíteto poderei aplicar-vos? Sem dúvida que o de estultíssimos!

Que vos parece? Poderia, acaso, a deusa Loucura dar epíteto mais digno aos seus adoradores, aos iniciados nos seus mistérios? Como, porém, poucos dentre vós conhecem a minha genealogia, vou procurar informar-vos a respeito com auxílio das musas. 16 Para dizer a verdade, não nasci nem do Caos,17 nem do Orco, nem de Saturno, nem de Jápeto, nem de nenhum desses deuses rançosos e caducos.

É Plutão, deus das riquezas, o meu pai. Sim, Plutão (sem que o levem a mal Hesíodo, Homero e o próprio Júpiter), pai dos deuses e dos homens; Plutão, que, no presente como no passado, a um simples gesto, cria, destrói, governa todas as coisas sagradas e profanas; Plutão, por cujo talento a guerra, a paz, os impérios, os conselhos, os juízes, os comícios, os matrimônios, os tratados, as confederações, as leis, as artes, o ridículo, o sério (ai! não posso mais! falta-me a respiração), concluamos, por cujo talento se regulam todos os negócios públicos e privados dos mortais; Plutão, se cujo braço toda a turba das divindades poéticas, falemos com mais franqueza, os próprios deuses de primeira ordem18 não existiriam, ou pelo menos passariam muito mal; Plutão, finalmente, cujo desprezo é tão terrível que a própria Palas 19 não seria capaz de proteger bastante os que o provocassem, mas cujo favor, ao contrário, é tão poderoso que quem o obtém pode rir-se de Júpiter e de suas setas.

Pois bem, é justamente esse o meu pai, de quem tanto me orgulho, pois me gerou, não do cérebro, como fez Júpiter com a torva e feroz Minerva, mas de Neotetes,20 a mais bonita e alegre ninfa do mundo. Além disso, os meus progenitores não eram ligados pelo matrimônio, nem nasci como o defeituoso Vulcano, fi lho da fastidiosíssima ligação de Júpiter com Juno. Sou fi lha do prazer e o amor livre presidiu ao meu nascimento; para falar com nosso Homero, foi Plutão dominado por um transporte de ternura amorosa. Assim, para não incorrerdes em erro, declaro-vos que já não falo daquele decrépito Plutão que nos descreveu Aristófanes, agora caduco e cego, mas de Plutão ainda robusto, cheio de calor na flor da juventude, e não só moço, mas também exaltado como nunca pelo néctar, a ponto de, num jantar com os deuses, por extravagância, o ter bebido puro e aos grandes goles.

Se, além disso, fazeis questão de saber ainda qual a minha pátria (uma vez que, em nossos dias, é como uma prova de nobreza notificar ao público o lugar no qual demos os nossos primeiros vagidos), fi cai sabendo que não nasci nem na ilha natante de Delos, como Apolo; nem da espuma do agitado Oceano, como Vênus; nem das escuras cavernas. Nasci nas ilhas Fortunadas, onde a natureza não tem necessidade alguma da arte. — Não se sabe, ali, o que sejam o trabalho, a velhice, as doenças; nunca se veem, nos campos, nem asfódelo, nem malva, nem lilá, nem lúpulo, nem fava, nem outros semelhantes e desprezíveis vegetais.

Ali, ao contrário, a terra produz tudo quanto possa deleitar a vista e embriagar o olfato: mólio,21 panaceia, nepente, mangerona, ambrosia, lótus, rosas, violetas, jacintos, anêmonas. Nascida no meio de tantas delícias, não saudei a luz com o pranto, como quase todos os homens: mal fui parida, comecei a rir gostosamente na cara de minha mãe. Não invejo, pois, ao supremo Júpiter, o ter sido amamentado pela cabra Amalteia, pois que duas graciosíssimas ninfas me deram de mamar: Mete,22 fi lha de Baco, e Apédia,23 fi lha de Pan. Ainda podeis vê-las, aqui, no consórcio das outras minhas sequazes e companheiras. Se, por Júpiter, também quereis saber os seus nomes, eu vo-los direi, mas somente em grego. Estais vendo esta, de olhar altivo?

É Philavtia, isto é, o amor-próprio. E esta, de olhos risonhos, que aplaude batendo palmas? É Kolaxia, isto é, a adulação. E a outra, de pálpebras cerradas parecendo dormir? É Lethes, isto é, o esquecimento. E aquela, que se acha apoiada nos cotovelos, com as mãos cruzadas? É Misoponia, isto é, o horror à fadiga. E esta, que tem a cabeça engrinaldada de rosas, exalando essências e perfumes? É Idonis, isto é, a volúpia. E a outra, que está revirando os olhos lúbricos e incertos e parece dominada por convulsões? É Ania, isto é, a irreflexão. Finalmente, aquela, de pele alabastrina, gorducha e bem-nutrida, é Throphis, isto é, a delícia.

Entre essas ninfas, podeis distinguir ainda dois deuses: um é Komo, isto é, o riso e o prazer da mesa; o outro é Nigreton Hypnon, isto é, o sono profundo. Acompanhada, pois, e servida fielmente por esse séquito de criados, estendo o meu domínio sobre todas as coisas, e até os monarcas mais absolutos estão submetidos ao meu império. Já conheceis, portanto, o meu nascimento, a minha educação e a minha corte. Agora, para que ninguém julgue não haver razão para eu usurpar o nome de deusa, quero demonstrar-vos quanto sou útil aos deuses e aos homens e até onde chega o meu divino poder, desde que me presteis ouvidos com bastante atenção. Já escreveu sensatamente alguém que ser deus consiste em favorecer os mortais.

Ora, se com razão foram incluídos no rol dos deuses os que introduziram na sociedade o vinho, a cerveja e outras tantas vantagens proporcionadas ao homem, por que não serei eu proclamada e venerada como a primeira das divindades, eu, que a todos, prodigamente, dispenso sozinha tantos bens? Antes de tudo, dizei-me: haverá no mundo coisa mais doce e mais preciosa do que a vida? E quem, mais do que eu, contribui para a concepção dos mortais? Nem a lança poderosa de Palas, nem a égide24 do fulminante Júpiter, nada valem para produzir e propagar o gênero humano.

O próprio pai dos deuses e rei dos homens, a um gesto do qual treme todo o Olimpo, faria bem em depor o seu fulmíneo trissulco, em deixar aquele ar terrível e majestoso com o qual aterroriza toda aquela multidão de deuses, e em apresentar-se, o pobrezinho, como bom cômico, sob uma forma inteiramente nova, quando quiser desempenhar a função, por ele já tantas vezes desempenhada, de procriar pequenos Jupíteres.

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