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Enigmas da Culpa - Col. Filosófica (Cód: 1978508)

Scliar, Moacyr

Objetiva

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Descrição

Ao dissecar a culpa com paciência e sabedoria, o escritor e médico gaúcho Moacyr Scliar enlaça o leitor neste enigma: afinal por que a culpa é um fenômeno universal, presente em qualquer cultura e tão demasiado humana?
Com conhecimento de causa e respaldado por uma sólida pesquisa, Scliar resgata as origens da culpa dos pontos de vista pessoal, histórico, religioso e psicanalítico. Em Enigmas da Culpa, o autor provoca o riso ao lembrar de situações tragicômicas e suscita a reflexão ao discorrer sobre Freud e Marx.
Para apresentar os mais variados aspectos da culpa no cinema e na literatura, Scliar recorre a Kafka, Dostoiévski, Woody Allen, Phillip Roth e Mel Brooks, entre outros artistas de origem judaica.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Objetiva
Cód. Barras 9788573028515
Altura 18.50 cm
I.S.B.N. 9788573028515
Profundidade 2.00 cm
Acabamento Brochura
Ano da edição 2007
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 248
Peso 0.44 Kg
Largura 12.00 cm
AutorScliar, Moacyr

Leia um trecho

A culpa que nos movia A culpa é um dedo que aponta, implacável. Aponta para quem? Para nós, claro. Um gesto que implica inevitável acusação: é o fi nger ponting dos americanos, uma situação em que o indicador assume o comando, com apoio dos outros dedos, que fl etidos sobre a palma da mão, recolhem-se à sua insignifi cância, mas confi guram um punho ameaçador. Tu és o culpado, diz o indicador, tu serás julgado, condenado, punido. O dedo acusador não precisa ter nenhum característico especial, aliás não deve ter nenhum característico especial: unha manicurada, anel, nada disto é necessário; ao contrário, para os fi ns da metáfora, o dedo deve ser neutro, severo e ascético, como um profeta, como um eremita. E porque não é aristocrático, porque não ostenta riqueza e não demonstra vaidade, não nos dá a mínima chance de defesa: "Você não pode me acusar, porque...". Pode, sim. Pode nos acusar. Aliás, é a única coisa que faz: acusa-nos. Desta acusação não escapamos. Não adianta fi ngir que não é conosco. Não adianta mentir. Não adianta fugir. Não adianta exibir atestado de bons antecedentes, não adianta o "só falo na presença de meu advogado". Ao apontar, o dedo da culpa gera uma espécie de campo magnético que nos atrai irresistivelmente, como o ímã atrai a limalha de ferro (diante da culpa somos isso, limalha, partículas). Corremos para o dedo da culpa, e diante dele fi camos, prostrados, trêmulos, submissos. Não há exceção: culpa é um fenômeno universal, presente em qualquer cultura; humano, profundamente humano. E culpar a si mesmo é fácil. Como diz Shakespeare em Henry VI: "A staff is quickly found to beat a dog", logo se acha uma vara para bater num cachorro. A culpa é um fardo que carregamos. Pesa sobre os nossos ombros, fazendo com que nos curvemos diante da vida, derruba nossa face. Na testa, e como uma espécie de reação a este peso, os músculos se contraem formando uma ruga típica, que tem o formato da letra grega ômega: é o ômega melancólico, de que falavam os antigos textos de psiquiatria. Aliás, não poderia haver letra mais simbólica: é a última do alfabeto grego - alfa e ômega representam o princípio e o fi m. O fi m: na balança do Juízo Final a culpa pesará, e não a nosso favor. O peso da culpa é sentido internamente: o coração pesado, aquela sensação que difi culta a respiração livre, libertadora. A culpa nos faz suspirar, mas o suspiro é apenas um alívio transitório. Se, por acaso, nos libertamos da culpa, sentimo-nos leves; mas, cuidado: leveza pode dar origem à leviandade, por sua vez causa de nova culpa. Neste texto vamos falar sobre a culpa. E vamos começar com uma pequena história, com um depoimento. É, como se diz em medicina, um estudo decaso. Não é o caso de uma pessoa, é o caso de umgrupo cuja trajetória foi marcada, em grande parte,pelo signo da culpa. Esta trajetória construiu-se numahistória natural, para usar a expressão introduzidapelo inglês Thomas Sydenham no século XVII, e quedesigna o previsível curso por uma doença: o períodode incubação, os primeiros sintomas, a emergênciado quadro clínico, o desfecho. O grupo humano doqual faço parte teve uma história natural.Que se inicia nos anos quarenta em Porto Alegre, então uma cidade pequena, provinciana, cujos bairros tinham um perfi l característico. O Bom Fim, cenário de nosso estudo de caso, era considerado um bairro judaico. Não era inteiramente judaico, obviamente, mas era grande o número de famílias judias que ali residiam. Nossos pais eram imigrantes, em geral vindos da Rússia (sobretudo da região conhecida como Bessarábia) e da Polônia, onde os judeus haviam vivido, em lírica miséria, nas pequenas aldeias às quais confi - nara-os o governo tzarista. Os homens tinham profi s12 sões humildes: pequenos comerciantes, vendedores ambulantes, alfaiates, marceneiros, leiteiros como o Tevie das histórias de Scholem Aleichem e nas quais baseou-se o fi lme O Violinista no Telhado. As mulheres cuidavam da casa, dos fi lhos; na verdade, era em torno a elas que gravitava a família. Vida bucólica, pacífi ca, aparentemente. Mas a tensão social de uma sociedade violentamente polarizada entre uns poucos ricos e uma imensa massa miserável precisava encontrar uma válvula de escape e - os judeus eram o alvo preferido. As convulsões que abalaram o império tzarista ao fi nal do século XIX e começo do século XX (culminando com a derrota militar frente ao Japão em 1905) traduziram-se em espantosos massacres, os pogroms: cossacos bêbados, enlouquecidos, invadiam aldeias em furiosa cavalgada para destruir, queimar, violar, matar. No começo do século XX, a Bessarábia foi cenário de vários e violentos pogroms, particularmente o de Kíshinev (1903), que deixou centenas de vítimas. As agruras dessa sofrida gente encontraram eco nas comunidades judaicas da Europa Ocidental. Benefi ciárias do progresso e de afl uência trazidos pela Revolução Industrial, e benefi ciárias igualmente das idéias liberais que se traduziam no reconhecimento dos direitos humanos e da cidadania, tais comunidades resolveram ajudar os judeus da Europa Oriental. Era uma questão de solidariedade grupal, e era também a obediência ao tradicional preceito ético do juE N I G M A S D A C U L PA 13 daísmo, segundo o qual, ajudar os necessitados não é questão de caridade, mas de justiça; este é o sentido dos termos hebraicos tzedaká e tzadik, justo, o mais alto título a que um judeu pode aspirar. Filantropos fi zeram doações para companhias de colonização, semelhantes àquelas que estavam levando colonos alemães e italianos para a América do Sul, Argentina e Brasil sobretudo. Nosso país representava, como sugere o título do livro de Sérgio Buarque de Holanda, uma visão do paraíso, um lugar onde o céu era azul, o sol brilhava, as temperaturas eram amenas. Escreve Marcos Iolovitch, imigrante, em Numa Clara Manhã de Abril: "Numa clara manhã de abril do ano de 19... quando a estepe começava a reverdecer à entrada alegre da primavera, apareceram em Zagradowka, pequena aldeia russa da província de Kersan, lindíssimos prospectos com ilustrações coloridas, descrevendo a excelência do clima, a fertilidade da terra, a riqueza e a variedade da fauna, a beleza e exuberância da fl ora de um vasto e longínquo país da América, denominado BRASIL." O tom entusiástico com que o autor fala dos prospectos sobre o Brasil, as maiúsculas com que grafa o nome do país não são ocasionais, nem se devem à retórica de um escritor arrebatado pelas próprias palavras. Refl etem uma esperança, antiga como a humanidade: a esperança de mudar de vida emigrando. O Brasil seria um equivalente da Terra Prometida menciona da na Bíblia hebraica. Uma Terra Prometida que os pros14 pectos retratavam com detalhes convincentes. Marcos Iolovitch: "Sob um céu límpido e distante, de um azul muito doce, um lavrador, chapéu de abas largas, camisa branca arremangada, empunhava, encurvado, as rabiças de um arado, puxado por uma junta de bois, revolvendo a terra virgem. Um pouco mais longe, no fundo, o ouro vegetal de extensos trigais maduros. Mais além, azulados pela distância, coqueiros, palmeiras e fl orestas misteriosas. E, no primeiro plano, destacando-se em cores vivas e fortes, um enorme pomar em que predominavam laranjeiras, a cuja sombra porcos comiam lindas laranjas caídas no chão." Esta menção a laranjas - tão abundantes que ninguém se dava ao trabalho de recolhê-las, deixandoas para os porcos (mas o que estavam fazendo num prospecto destinado a judeus?) - deve ter sido particularmente entusiasmante. Porque laranjas, e outras frutas, eram, na Europa Ocidental, o equivalente do fruto proibido - por causa do preço, não da interdição divina. Laranjas eram caríssimas; às vezes (numa festa de aniversário, por exemplo) a família comia laranja - mas era uma única laranja, dividida entre todos. Quando a família era numerosa, como freqüentemente ocorria, não dava muita laranja para cada um de seus membros. Mas o Brasil tinha laranjas, e tinha o céu azul, e o clima ameno, e praias... E assim, nos precários navios de emigrantes tão pungentemente retratados por Lasar Segall, centenas de famílias vieram realizar o seu sonho. No Rio Grande do Sul seu E N I G M A S D A C U L PA 15 destino inicial eram as colônias agrícolas localizadas na região central do estado. Um projeto que não deu certo. A região era escassamente povoada e sem recursos; a qualidade da terra nem sempre era adequada, os imigrantes tinham pouca experiência no trabalho agrícola. O êxodo rural foi inevitável e as famílias dirigiram-se para cidades próximas, Erechim, Passo Fundo, Santa Maria ou para Porto Alegre, onde se localizaram no Bom Fim. O Bom Fim dos anos trinta e quarenta era um verdadeiro shtetl, uma aldeia da Europa Oriental no meio de Porto Alegre. Predominavam ali as casinhas de porta e janela. Porta e janela que estavam sempre abertas; a segurança não era importante naquele tempo, mesmo porque pouco havia para roubar. Tão pequenas eram as casas, que seus moradores preferiam a rua. Os garotos jogavam futebol no leito de pedra irregular, interrompidos apenas, e muito raramente, pela passagem de um ou outro automóvel. As meninas brincavam de roda, gordas senhoras dissecavam minuciosamente a vida alheia, vendedores gritavam seus pregões, ansiosas mães perseguiam os rebentos com bananas e bolachinhas. Nas noites de verão, cadeiras eram trazidas para a calçada e ali os vizinhos fi cavam conversando. No inverno era nas casas (agora aconchegantes) que se reuniam para o chá, freqüentemente preparado em samovar - evocação nostálgica da velha Rússia -, para o bate-papo, para o joguinho de dominó ou de cartas. 16 Bairros judeus. Não guetos; guetos, não. O gueto implicava confi namento forçado, o mais das vezes com muros e portões. Do gueto não se saía (a não ser, na época do nazismo, para os campos de extermínio); do bairro era possível sair, mudar até - e muitos realmente mudavam, na medida em que a ascensão econômica o permitia. Mas no bairro havia a sensação de comunidade, como se fôssemos uma grande família. Todos sabiam de todos, ninguém tinha segredos: privacidade ali era um conceito estranho, ofensivo até. Nossos pais eram lutadores. Pequenos comerciantes, pequenos industriais, artesãos, vendedores ambulantes, trabalhavam sem descanso para manter suas famílias; não tinham muito tempo para dedicar a seus próprios problemas. Mas, apesar disso, não se pode dizer que estivessem livres da culpa. A ancestral culpa judaica, em primeiro lugar, aquela culpa que, como veremos, resulta de uma longa história e de uma longa tradição cultural, mas também a culpa que resultara de sua opção. Quem viera para o Brasil? Aqueles que não se haviam conformado com a dura situação na Europa, aqueles que tinham decidido lutar. Como na história dos dois ratinhos que, numa despensa, caíram, cada um deles, em vasilhas cheias de leite. O primeiro ratinho, que não sabia nadar, resignou-se ao cruel destino, despediu-se da vida e morreu afogado. O segundo ratinho também não sabia nadar, mas não se entregaria sem luta; passou a noite inteira esperneando, e, de manhã, estava salvo, sobre um monte E N I G M A S D A C U L PA 17 de queijo fresco que o frenético movimento de suas patinhas tinha produzido (e que ele, naturalmente, comeu). Ou seja: salvou-o o jus esperneandi, o direito de espernear. Mas, salvo da morte, estava o roedor também salvo da culpa? Certamente não. Afi nal, o seu companheiro morrera ingloriamente, enquanto ele sobrevivera. A culpa dos sobreviventes perseguia, como uma sombra, os imigrantes, do mesmo modo como perseguiria depois aqueles que escaparam ao campo de concentração (um grupo no qual, aliás, eles de certa maneira se incluíam). Mais: com o passar do tempo, os imigrantes foram melhorando de vida, ascendendo socialmente. No Brasil pós-guerra muitas oportunidades surgiam: a construção civil, por exemplo, estava em plena expansão, como o comércio, a indústria. Aquele que vem de fora não raro tem a capacidade de ver coisas que os habitantes do lugar não enxergam - sua visão microscópica percebe os poros da sociedade de que falava Marx, e nos quais se introduzem. Em alguns casos, para solapar e mudar a estrutura social: é o que fazem os revolucionários, como foi o caso do próprio Marx e de Trotsky. Em outros casos, porém, fazem-no para aproveitar oportunidades de riqueza e de ascensão social. Foi o que ocorreu com o cinema nos Estados Unidos. Para a aristocracia americana, tratava-se apenas de uma invenção popularesca, desprezível. Samuel Goldwyn, os irmãos Warner e outros perceberam o potencial daquele meio de diversão e fi - 18 zeram dele uma poderosa indústria. Judeus tornavamse magnatas ou revolucionários, coisa que sempre intrigou os anti-semitas e reforçou neles a idéia de uma conspiração judaica, uma sinistra e inusitada união que ia da extrema direita até a extrema esquerda. Ainda que no Bom Fim a ascensão social não tenha sido tão espetacular, as pessoas melhoraram de vida, tornaram-se classe média. Os fi lhos já não tinham de passar por sacrifícios. O pai, e sobretudo a mãe, faziam o possível e o impossível para poupá-los disto. A mãe judia. Ah, a mãe judia. Eis uma personagem que vive na fronteira entre a realidade e a fi cção, como mostram os livros de Philip Roth e os fi lmes de Woody Allen. É uma fi gura relativamente recente na história judaica. O rótulo não se aplica, por exemplo, às matriarcas bíblicas ou a Maria, mãe de Jesus, que é uma mater dolorosa, mas que em momento algum tenta impedir o fi lho de seguir um caminho que previsivelmente conduzirá ao martírio. A mãe judia nasce nas aldeias da Europa Oriental. Permanentemente alarmada pela ameaça dos pogroms, da fome e da doença (a tuberculose, a peste branca, espectro do século XIX e do começo do século XX, era muito freqüente entre os judeus) ela recorria ao antídoto universal, a comida. Superprotetora, a mãe judia traduzia sua proteção no alimento. "Come!", era a sua palavra de ordem. A mãe judia passava horas na cozinha no preparo de uma comida que fosse, antes de tudo, nutritiva, E N I G M A S D A C U L PA 19 isto é, que resultasse em aumento de peso: gordura era saúde. Para isso, transformava os precários ingredientes de que dispunha em pratos característicos, como o tchulent. O termo vêm do francês, chaud lent (na Rússia, o francês era de rigueur entre as classes mais abastadas, e às vezes chegava aos pobres). O que era o tchulent? Basicamente, um cozido de carne com legumes. Uma cocção que se prolongava por vários dias e que acabava por tornar mastigável a dura carne que os pobres podiam comprar. No Bom Fim não faltava comida; ao contrário, era oferecida, nas casas judaicas, em quantidades pantagruélicas. Mas a esta oferta não correspondia uma equivalente demanda. As crianças eram inapetentes, exatamente porque o alimento lhes era oferecido a todo instante. Não era raro ver mães correndo atrás dos fi lhos com um prato de comida em plena rua. Magrinho, sem apetite, eu nunca soube o que queria dizer a palavra "fome". Quando ouvia meus amigos (os não-judeus, bem entendido, os góim) dizerem que estavam com fome eu fi cava intrigado: fome, o que era aquilo? Como era a sensação de estar esfomeado? Durante muito tempo isto foi uma de minhas aspirações: ter fome. Espontaneamente eu nunca ia em busca de comida. Para que eu tomasse um pouco de sopa (e não há coisa mais densa e nutritiva que a sopa judaica) minha mãe levava-me à marcenaria do meu tio e pedia que ligassem as máquinas; distraído com os movimentos destas, eu fi cava de boca aber20 ta, minha mãe despejando ali as colheradas de sopa (note-se que ela era professora, mulher culta e lida, mas nem por isso livre dos condicionantes de mãe judia). Retratei um pouco destas vivências no livro O Exército de um Homem Só. A história é narrada por Avram Guinzburg, irmão do protagonista, o revoltado Mayer: Mayer era muito magro. Seu crânio se revelava debaixo da pele esticada do rosto, sob o couro cabeludo raspado - seu duro crânio branco. Tão mal forrada, nenhuma cabeça poderia pensar direito. Na busca de alimentos para Mayer, nossa mãe revelava diligência, argúcia, arrojo, destemor; perícia e espírito de improvisação; carinho. Perseguia tenras galinhas, suas e dos vizinhos; levava-as em pessoa ao schochet, o homem que as matava, assistia ao sacrifício ritual, cuidando assim que a carne (especialmente a do peito, que era a que Mayer abominava menos) recebesse as bênçãos divinas. Viajava quilômetros para conseguir de certa mulher, moradora no Beco do Salso, leite de cabra - único preventivo contra a tuberculose que ameaçava os meninos magros. Ia bem cedo à venda comprar maçãs para Mayer; por mais que madrugasse, contudo, já lá achava as vizinhas, comprando maçãs. Para entrar na luta pelas maçãs maiores e mais maduras, nossa mãe desenvolveu habilidades especiais; seus cotovelos, apoiados nas barrigas das outras, impulsionavam-na como remos; sua voz ressoava como uma sirena no nevoeiro; E N I G M A S D A C U L PA 21 e seu peito rompia o mar de gente como a dura quilha de um barco. Finalmente ela chegava ao caixote de maçãs. De posse das frutas corria para casa - e lá encontrava a cara de nojo de Mayer. O arroz saboroso, Mayer recusava; os bolinhos quentes, recusava; os biscoitos doces, recusava. Nossa mãe então sentava à frente dele com um prato de sopa. - Come. Mayer não queria comer. Nossa mãe empunhava a colher. Mayer cerrava a mandíbula, fechava os olhos e fi cava imóvel. - Come. Nossa mãe metia-lhe a ponta da colher na boca. Mayer sentia o gosto da sopa, aquela sopa boa e quente, aquela rica sopa que nossa mãe fazia - e mesmo assim não abria a boca. Nossa mãe insistia com a colher em busca de uma brecha para entrar. Houve uma época em que Mayer perdeu dois ou três dentes e fi cou com uma falha; por ali nossa mãe derramava um pouco do líquido. Depois que os dentes cresceram, ela descobriu, entre a bochecha e a gengiva, um reservatório que considerou providencial; acreditava que bastaria depositar ali um pequeno volume de sopa; mais cedo ou mais tarde Mayer teria de engoli-la. A resistência de meu irmão, contudo, era fantástica; podia fi car com a sopa ali minutos, horas - dias, acredito. - Come. Come. 22 Nossa mãe começava a fi car nervosa. Nosso pai vinha em auxílio dela, inutilmente. Mayer não abria a boca. - Come! Nossa mãe abandonava a sopa e tentava o pão, a batata, o bife, a massa, o bolinho, o pastelão, o embutido, o frescal, o quente, o frio, o sólido. Nada. Mayer não comia. Se não tínhamos fome, tínhamos culpa. Nossas mães preparavam com desvelo, com dedicação, o nosso alimento, e nós não comíamos. Tanta gente passando fome, e nós não comíamos. A comida que sobrava em nossos pratos era a que faltava para milhões de famintos, aqueles que reviravam as latas de lixo em busca de sobras. E nossas mães não hesitavam em mobilizar esta culpa para fazer com que comêssemos. Era uma chantagem emocional. Elas não apenas faziam a comida, elas estavam na comida (como, bem guardadas as proporções, Cristo está na hóstia). Se não comíamos, era a elas que estávamos recusando. E com isto correndo o risco da doença. Estas coisas mudaram. O problema hoje é a obesidade, e não a desnutrição. Alertada contra os riscos do excesso de peso, a mãe judia já não é alimentadora, nem mesmo superprotetora. Na verdade, a mãe judia clássica é uma espécie em extinção. As novas mães são diferentes: cultas, informadas, não raro analisadas, têm com os fi lhos uma relação muito diferente. Nenhuma delas pensa em preparar tchulent (para quê, E N I G M A S D A C U L PA 23 com fi lé mignon disponível?). Nenhuma delas corre atrás dos fi lhos com um prato de sopa (correr, só no parque ou na esteira). Comendo ou não, chegava o momento em que a família deixava de ser o núcleo básico de convivência. Isto acontecia quando entrávamos no colégio. No Bom Fim havia uma pequena escola judaica, em que se estudava iídiche, o idioma usado pelos judeus da Europa Oriental, uma mistura de hebraico com alemão antigo e palavras eslavas. A escola limitava-se ao que era então conhecido como primário; o ginásio, que vinha em seguida, tinha de ser cursado em outro estabelecimento escolar, em geral o Júlio de Castilhos, uma tradicional escola pública conhecida pela excelência do ensino e pelo espírito liberal. Do qual algumas pessoas, inclusive no Bom Fim, não gostavam: preferiam um ensino mais disciplinador. Seguindo o conselho de parentes, minha mãe matriculou- me num tradicional colégio católico. Ali o ensino religioso era diário. Todos os dias rezávamos. Todos os dias tínhamos aula de catecismo. Eu não era discriminado, ao contrário, os professores tratavamme muito bem, mas toda vez que a palavra "judeu" era mencionada, muitos alunos voltavam-se para mim, com olhar acusador. Eu era o único judeu na turma. Havia um outro, descobri depois, que não se identifi cava, protegido por um enigmático sobrenome 24 que, com boa vontade, poderia passar por brasileiro. O que não aconteceria nunca com Scliar. As eventuais zombarias podiam até ser pesadas, mas não se comparavam ao confl ito interior no qual eu fora precipitado com a descoberta do cristianismo. Eu carregava a culpa de pecados atrozes. Quem tinha pregado as mãos de Jesus à cruz? Eu tinha pregado as mãos de Jesus à cruz. E por que tinha pregado as mãos de Jesus ao madeiro? Para que seu dedo não apontasse para mim, não me acusasse. Mas isto era inútil. Mesmo sem nada dizer, mesmo sem me olhar, Cristo me acusava. Eu era responsável por sua morte e pagaria por isso. Iria para o Inferno, sem sequer uma escala no Purgatório. Eu sabia até onde fi cava a porta do dito Inferno: atrás do altar da igreja que fi cava próxima à minha casa. Ali introduzido, eu cairia num lago de fogo e queimaria por toda a eternidade, sem apelação. O tempo passou, mudei de escola, e aos poucos a idéia do castigo eterno foi sumindo de minha cabeça. Mas não me livrei da culpa. Eu já tinha introjetado os estereótipos antijudaicos. Sim, os judeus eram mesquinhos. Sim, os judeus eram avarentos. E ricos. Uma imagem que aliás começava a ter contrapartida na realidade. Com o fi nal da Segunda Guerra o Brasil ingressou num surto de prosperidade que acabou chegando ao Bom Fim. Os judeus agora não se limitavam ao pequeno comércio; entravam na construção civil, edifi cando pequenos prédios de aparE N I G M A S D A C U L PA 25 tamentos que alugavam ou vendiam. A pobreza foi fi cando coisa do passado. Àquela altura já não éramos mais crianças. Éramos adolescentes, revoltados como todos os adolescentes. Revoltados e amargurados. Revoltados, amargurados e culpados. O dedo da culpa voltava-se constantemente para nós. Por que sentíamos culpa? Por causa dos hormônios, decerto, e por causa da masturbação, e por causa das escapadas aos bordéis (onde deixávamos o suado dinheiro de nossos pais). Mas sentíamos culpa porque tínhamos o que comer, quando tantos passavam fome. Sentíamos culpa porque tínhamos casa onde morar, enquanto tantos dormiam ao relento. Sentíamos culpa por descender de um grupo que tinha em seu passado a usura, a especulação fi nanceira. Era preciso mudar. Mudar o mundo, obviamente. Todo jovem revoltado quer mudar o mundo. Em nosso grupo este projeto tinha características peculiares. Nenhum de nós aderiu a seitas religiosas, por exemplo. Ninguém se tornou budista, ou evangélico; nem mesmo a ortodoxia judaica nos atraía. Também não nos voltamos para as drogas, o álcool ou a boemia comum. Os hippies ainda não existiam; nem a idéia de drop out, de cair fora, de se refugiar numa praia, e lá fi car cantando e fumando maconha. Não, a nossa revolta tinha característicos basicamente políticos. Para muitos de nós o projeto transformador seguia um modelo bem defi nido: o comunismo. Cujo apelo então 26 era muito forte. A União Soviética havia derrotado o nazismo na Europa Oriental. E o comunismo parecia a única solução concreta para os males do capitalismo que Marx havia diagnosticado com tanta precisão. Apelo igualmente forte era o do movimento sionista. A criação do Estado de Israel, em 1948, empolgou a comunidade judaica. Representava uma virada, uma transformação radical na existência do povo judeu. Para trás fi cavam as imagens lamentáveis do usurário, do amedrontado judeu do gueto ou da aldeia da Europa Oriental. Os judeus tinham agora sua terra, e eram capazes de defendê-la. A culpa judaica ali tinha sido substituída pelo orgulho, pela altivez, e pela lei do talião: olho (de verdade) por olho (de verdade), dente (de verdade) por dente (de verdade). As agressões eram devolvidas com agressões. Não seremos mais conduzidos como ovelhas para o matadouro, diziam os altivos israelenses, e isto, para a geração do Holocausto, era uma redenção, a defi nitiva abolição da milenar culpa. Mais que isto: nossa revolta juvenil, nossa indignação com a injustiça social (da qual o anti-semitismo era uma faceta) poderiam ser canalizadas para um objetivo: a vida numa célula judaica socialista, o kibutz. Era o antídoto ideal para a culpa que resultava da vidinha judaica, acomodada, pequeno-burguesa. O caminho para chegar ao kibutz começava pelo movimento juvenil. A idéia de movimento empolgava, e empolga, os jovens (e, não raro, os adultos). Em E N I G M A S D A C U L PA 27 primeiro lugar pela imagem de um irresistível avanço rumo a um ideal comum, que pode ser político, ou social, ou religioso. Movimento implica convivência, companheirismo, e, sobretudo, lealdade ao ideal. Um duplo ideal, no caso: o ideal sionista e o ideal socialista, acoplados. Nada de estranho nisso. Eram ideologias nascidas quase ao mesmo tempo, no fi nal do século XIX, correspondendo a ideais de liberdade e de justiça social. Muitos judeus eram líderes socialistas ou comunistas, Leon Trotsky sendo o exemplo mais evidente, mas não único. No Bom Fim, não eram raros os esquerdistas, e minha família disso era um exemplo. Meu tio Henrique Scliar, conhecido anarquista, muitas vezes teve de fugir da polícia. Seu fi lho, Carlos Scliar, era membro do Partido Comunista e amigo de Jorge Amado, que muitas vezes se hospedou com Zélia Gattai na casa do tio Henrique. Quando eu lia os livros de Jorge Amado, o autor preferido de minha geração, era como se estivesse lendo uma mensagem pessoal, exortando-me a seguir o caminho do socialismo. Já o sionismo inscrevia-se, de certa maneira, no quadro dos movimentos nacionalistas, que também ganharam força à época. De início havia uma oposição entre o socialismo, que se pretendia internacionalista ("Trabalhadores do mundo, uni-vos") e o nacionalismo; mas quando este começou a se afi rmar como uma barreira contra o imperialismo, um conceito ao qual Lenin deu muita força, a coisa mudou. Muitos dos ju28 deus que iam para a Palestina antes mesmo da criação de Israel eram socialistas que punham em prática no kibutz as suas idéias coletivizantes. Este era também o nosso propósito, e parecia-nos um propósito redentor, capaz de dar sentido às nossas vidas. Permitia que a culpa fosse neutralizada pela visão entusiasmada de um mundo novo, de uma nova vida. Em Israel trabalharíamosa terra, aquela terra da qual os judeus estavamalienados há séculos, não apenas pelo exílio, mas também por sua doentia inserção na estrutura social (nos poros da sociedade, para usar de novo a expressão de Marx) e que se constituía em sua anomalia básica, uma anomalia que tinha no kibutz a sua radical correção. Não mais comerciantes, não mais fi nancistas, não mais intelectuais, não mais médicos ou advogados ou engenheiros: lavradores, era o que queríamos ser.Queríamos a redenção, grupal e individual, através damais autêntica e honesta das atividades humanas, o trabalho na terra, da qual brotava toda a vida. O movimento do qual fi z parte mais tempo, e ao qual me dediquei mais intensamente, era de inspiração marxista-leninista-estalinista. Nossa ideologia, no entanto, tinha se transformado num verdadeirooxímoro, numa contradição em termos: a União Soviética, depois de apoiar a criação do Estado de Israel(certamente com a esperança de ter um aliado na região) voltara-se contra aquilo que os comunistas chamavam de "ponta de lança do imperialismo no Oriente Médio". Mas nós tínhamos uma explicaçãopara essa atitude. Boa parte da nossa atividade ideológica, como a dos comunistas em geral, consistiaexatamente nisso, em achar explicações, mesmo estranhas, para os fatos, ou para as notícias, que nos surpreendiam e perturbavam. A União Soviética não nos aceitava, dizíamos, porque estava momentaneamenteenganada; se persistíssemos em nossa luta revolucionária,se fi zéssemos sacrifícios pela causa, elaacabaria vendo a luz e nos aceitaria de braços abertos. Ao fi m e ao cabo, éramos progressistas, e esta era uma defi nição fundamental, já que progressistas e reacionários (os burgueses) acabariam se enfrentando numa batalha decisiva. Como dizia a letra do hino da Internacional Comunista (que cantávamos em hebraico): "Ze ihe krav acharon/ be milchemet haolam", esta será a derradeira batalha, na guerra do mundo. O conceito de batalha fi nal, aliás, é antigo; vem dos movimentosmessiânicos - como os essênios, uma seita contemporânea de Jesus Cristo, que via no confronto decisivo entre os Filhos da Luz e os Filhos das Trevas o sinal do fi m dos tempos. Como Marx, concebíamosa batalha de outra maneira, em termos de luta de classes: a burguesia de um lado, com sua arrogância, sua depravação, sua decadência, e de outro a classe operária, pura, idealista, cheia de esperança. Não era muito difícil adivinhar quem venceria, e qual seria o destino da burguesia. Uma cançãozinha esquerdista da época o anunciava: "Sabãozinho, sabãozinho/ de burguês gordinho/ toda vil reação/ vai virar sabão." A letra despertava em nós sentimentos contraditórios, não só por causa dos gordinhos (categoria em que alguns de nós se enquadravam), mas do "sabãozinho":nos campos de concentração nazista muitos prisioneiros tinham sido transformados em sabão. Ajudavam assim a limpar o mundo da sujeira da qual haviamsido parte, segundo a ideologia nazi. Que a esquerda usasse uma metáfora baseada nestes macabros fatos parte dos equívocos que o tempo se encarregaria de esclarecer. Antes da grande batalha muitas escaramuças haveriam de ocorrer; por exemplo, os bate-bocas que tínhamos com nossos inimigos, membros de movimentos juvenis com ideologia diferente. Para vencer estas discussões usávamos todos os recursos, inclusivea mentira, porque, para nós, uma mentira progressista ajudava mais a causa do que uma verdade reacionária. A verdade defi nitiva, a grande verdade, era a do comunismo soviético. Do comunismo tínhamosa disciplina férrea, expressa em verdades defi nitivas, consumadas; o nosso catecismo tinha respostas para tudo. Pergunta: o Partido Comunista francês tem uma gráfi ca, vende jornais e livros; o dinheiro assim obtido é mais-valia, aquela seiva do capitalismo? Resposta: não, não é mais-valia, porque o Partido não é capitalista, o Partido é o povo organizado, o dinheiro que ele ganha benefi cia as massas. A disciplina era garantida por rígidos costumes. Não fumávamos, não bebíamos, não usávamos gravata, não íamos a bailes (mas podíamos namorar, desde que o namoro estivesse baseado no companheirismo).Entregávamos à caixa coletiva do grupo todo o dinheiroque nossos pais nos davam. A disciplina era também mantida por rituais como as sessões de crítica e autocrítica, consagradas pelo stalinismo e que fi zeram,como adiante mencionaremos, numerosas vítimas.Era uma reunião em que o companheiro acusava-se a si próprio de "desvios burgueses"(usar gravata, porexemplo) mas também acusava os outros. Ou seja, um festival de acusações, o caldeirão da culpa em franca ebulição. Havia alguma catarse, mas não havia perdão, só a exigência da disciplina revolucionária, único antídotopara a nossa inata podridão judaico-burguesa.A verdade, porém, é que estes momentos penososeram raros. De modo geral a experiência de movimentojuvenil era muito gratifi cante, e representava um aprendizado, tanto em termos de cultura (judaica e marxista) como de convivência pessoal. Líamos os mesmos livros - e sempre literatura engajada (o resto era "reacionário" ou "alienado"). Michael Gold fazia bater mais forte o meu coração, assim como Howard Fast, autor de uma série de obras sobre lutas de libertação, incluindo um Spartacus fi lmado por Stanley Kubrick. Dele, Meus Gloriosos Irmãos, que descrevia a epopéia dos macabeus, guerrilhei ros que libertaram a Judéia, era obrigatório (mais tarde, foi condenado pelo Partido Comunista, por "desvio sionista", e acabou expurgado. Converteu-se ao budismo). Líamos Jorge Amado, líamos a coleção "Romances do Povo", dedicada ao realismo socialista. A idéia de que estávamos lutando por uma causa justa e generosa neutralizava nossa culpa, substituindo-a pelo fervor revolucionário. O marxismo era particularmente importante. Ali estava um instrumento que nos provia de uma completa fórmula para o entendimento da realidade e da vida, neutralizando portanto nossa ansiedade. Graças ao marxismo, podíamos explicar tudo, e podíamos separar de forma nítida e defi nitiva o Bem do Mal. Identifi cando o Mal, combatendo-o, livrávamo-nos de nossa culpa. Uma lógica implacável, que proporcionava um completo diagnóstico do mundo, baseado no materialismo histórico e no materialismo dialético (que diagnóstico perfeito nem sempre corresponde ao tratamento perfeito, só descobriríamos depois). Mas viver num kibutz signifi cava deixar os estudos, deixar nossas casas, nossas famílias. Nossos pais até aceitavam que fôssemos para Israel; mas por que não terminar a universidade antes? Israel não precisava de engenheiros, de médicos, de advogados? Um diploma, para eles, representaria uma garantia. Não podiam entender que não queríamos garantia alguma, queríamos romper com o passado, queríamos viver a aventura da revolução, assumindo nosso papel devanguarda, deixando para trás o passado burguês. * * * Os confl itos que tivemos de enfrentar foram muitos e dolorosos; no fi m, a maioria de nós optou pela família e pela saída do movimento. Uma decisão tomada em meio a muito sofrimento e muitac ulpa. Como aliviar esta culpa? Pela análise. No tratamento, descobríamos que nossa culpa nascia de confl itos psicológicos, que precisávamos entender. Nossos pais não entendiam muito aquela história de análise; alguns achavam meio estranho um tratamento em que a pessoa só falava, falava. Mas, de outro lado, lembravam que Freud era judeu; um judeu certamente diferente do pessoal do Bom Fim, um grande médico, que aparecia nas fotos elegantemente vestido, e fumando charuto; mas judeu, de qualquer modo, e um especialista em culpa judaica. Assim a análise não podia ser coisa ruim, e para alguns era motivo de orgulho, como o ilustra aquela historinha sobre três mães judias que se gabam da dedicação de seus rebentos: a primeira ganhou do fi lho um apartamento espetacular, a segunda foi brindada com uma viagem para a Europa, mas a terceira tem um trunfo imbatível: o fi lho está em análise, paga 200 dólares por sessão, para falar de quem? Dela, mãe judia. Numa cena de O Exército de um Homem Só, Freud aparece em Porto Alegre, escala de uma viagem que o levaria a Buenos Aires (e que, entre parênteses, nunca aconteceu, como tive de explicar várias vezes). Sabendo da chegada do pai da psicanálise, o pai de Mayer, o revoltado, decide falar com Freud no aeroporto e pedir-lhe conselhos sobre como agir. Intromete-se entre os fi gurões que rodeiam o pai da psicanálise, e para surpresa deste, começa a falar nos problemas do fi lho: "Doutor Freud, o senhor tem de me ouvir. O senhor não imagina como esperei por este momento. Quando eu soube que o senhor ia chegar eu disse para minha mulher: o doutor Freud vai resolver nosso problema, tenho certeza. Mayer não quer ir, está certo - ou melhor, está errado, ele deveria vir -, mas eu falo com o doutor Freud, eu explico o caso, o doutor Freud dá um jeito, ele usa o poder da palavra, se for preciso ele usa um sofá do aeroporto. Doutor Freud - eu deito no sofá se o senhor quiser! Eu deito! Eu sei que o senhor tem capacidade, doutor Freud. O senhor me lembra muito um rabino que nós tínhamos na Rússia, um rabino formidável, a gente contava os problemas, ele fechava os olhos, pensava um pouco, e pronto, dizia o que as pessoas tinham de fazer. Não errava nunca! Problemas de marido com mulher, de pais com fi lhos, de dinheiro, de doença - resolvia tudo! Tudo! E ele não escrevia! É o que eu digo para a minha mulher, o doutor Freud, além de falar, ainda escreve... Eu lhe explico num minuto, doutor Freud, o senhor logo vai entender e já me dirá o que tenho de fazer; o meu fi lho, ele - bom, eu queria que ele fosse rabino, o senhor sabe, nós não temos nenhum rabino em Porto Alegre, e ser rabino é uma profi ssão digna, não é, doutor Freud?, é mais ou menos como a sua, é só ouvir e dar conselhos, só que não usa o sofá, mas no fundo é tudo a mesma coisa, não é?, então eu queria - mas ele é um rebelde, ele não quer fazer nada, não estuda, não trabalha, já de pequeno era assim, a mãe dizia: 'Come! Come!', ele não comia nada, nem a sopa, tão boa aquela sopa, que a mãe dele fazia - não é um malvado, doutor Freud? É, sim, é um rebelde, eu lhe garanto...". Freud livra-se com alguma vaga frase que, no entanto, deixa o desesperado pai muito satisfeito: "Grande médico, grande sábio. Acertou direitinho no problema do meu fi lho. E vou dizer uma coisa: não cobra caro." O tratamento não era fácil. Como o ratinho que caiu na vasilha de leite, esperneávamos sem cessar, mas sem produzir muito queijo. Protestávamos contra tudo, contra um tratamento que aparentemente não fazia sentido - um tratamento demorado, caro e não garantido, para usar as palavras de um analista porto-alegrense. Caro: aquilo sobretudo nos incomodava, fazia-nos lembrar os tempos de infância pobre. E protestávamos; um amigo meu pagava a análise em dinheiro, usando notas de menor valor possível. Colocava-as uma a uma na mesa do terapeuta, dizendo, a cada nota: "Ladrão... ladrão... ladrão..." Com o tratamento, e com o passar do tempo, as feridas da juventude iam cicatrizando. Terminávamos a faculdade, recebíamos o diploma, abríamos consultórios ou escritórios, arranjávamos emprego. Comprávamos nossos carros, Fuscas em geral. Namorávamos, noivávamos, casávamos, em geral com gurias do bairro, de famílias conhecidas. Saíamos de nossas

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