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Eu Hei de Amar uma Pedra (Cód: 1974425)

Antunes, António Lobo

Alfaguara / Objetiva

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Descrição

Um homem examina antigas fotografias de família e se recorda do tempo passado. De quando era criança, de um primo de partida para os Estados Unidos, de um fotógrafo no estúdio a ajustá-lo no colo da mãe, do farmacêutico pesando-o numa balança. Recorda-se, aos poucos, do que ocorreu desde então.
Mas há outras lembranças mais profundas e dolorosas: um amor impossível, interrompido na juventude e restabelecido décadas mais tarde, quando o casal se reencontra casualmente na rua. Ele, já na faixa dos 50 anos, havia se casado, tido duas filhas, mas não se esquecera daquela mulher. Os dois, então, voltam a se encontrar clandestinamente numa pensão de baixa reputação em Lisboa.
Em 'Eu Hei de Amar uma Pedra', António Lobo Antunes apresenta um texto radical e inovador, como poucas vezes se viu na literatura contemporânea. Numa história em que passado e presente se fundem, acontecimentos paralelos à vida do protagonista são narrados por personagens que giram em torno dele: suas duas filhas, sua mulher, a amante e um médico. Juntas, essas narrativas compõem uma visão multifacetada e rica dos acontecimentos, na qual passado e presente se fundem num constante fluxo de pensamento.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Alfaguara / Objetiva
Cód. Barras 9788560281107
Altura 23.40 cm
I.S.B.N. 9788560281107
Profundidade 0.00 cm
Ano da edição 2007
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 560
Peso 0.44 Kg
Largura 15.00 cm
AutorAntunes, António Lobo

Leia um trecho

UM: As Fotografi as PRIMEIRA FOTOGRAFIA Tenho dois anos e estou ao colo da minha mãe: é um retrato de estúdio assinado Photo Royal Lda a letras em relevo, caprichadas, a cadeira onde nos sentaram servia para os clientes todos, majestosa, de veludilho gasto e cunha de cartão na perna direita, tão alta que os sapatos da minha mãe não alcançavam o soalho (pés rígidos, quietos, de enforcado) mudavam o telão do fundo (uma cena de circo, uma praça de toiros, uma fl oresta com jibóias e zebras não mencionando as camisolas sem pessoa dos gorilas penduradas nos cabides das árvores por um único braço) e a cadeira continuava, o telão que desta vez encostaram à parede atrás da gente (por sinal fi cou torto de maneira que metade a desfocar-se) representava o castelo da Bela Adormecida no pico de um monte, janelas em ogiva, ameias, a Princesa de laçarote no cabelo remando num barquinho de pescar limos no Tejo, existia a marca de um polegar no meu ombro, o empregado — Qual marca? a aproximar o nariz, a mentir — Não vejo marca nenhuma a esfregar com um pano mentindo de novo— Nem se nota e a notar-se mais, pintaram de cor-de-rosa o laçarote e de azul os meus calções, um pingo azul no meu joelho, outro no barquinho que parecia nascer-me da orelha (se a coçasse tirava-o) cabos eléctricos no chão e a haste do refl ector ao canto, imaginava-se alguém a fazer sinais ou a dizer não sei quê junto à câmara porque a boca da minha mãe — Perdão? a Photo Royal Lda do Beato e a sua montra de noivas alternando com bebés nus em almofadas, diante do mesmo castelo e do mesmo lago que nós mas num formato maior e sem polegar, com o tempo decifravam-se mal as nossas caras, a boca para os sinais já não — Perdão? não boca ainda que a Princesa continue a remar, o pingo no meu joelho dissolvendo-se (dissolvi-me) fi cou parte da gola e o telão uma névoa, suponho que a Photo Royal Lda uma névoa também, uma névoa o empregado de mãos amarelas dos ácidos que nos arrumou na cadeira, uma névoa o espelho com uma escova e um pente de acertar carrapitos, melenas, o Beato mudado, prédios e prédios a esconderem o rio que o tempo dissolvia igualmente, eu a escorregar da minha mãe e o empregado ajustando lentes, invisível a seguir as caixas, arcos voltaicos, panos, a desordem de porão dos bastidores — Aguente-o madame na parte do bairro em que morávamos hortazinhas, quintais, adivinhava-se a chuva pela exasperação das gaivotas, lamentos que procuravam navios e encontravam gasóleo, tinha a certeza que eram as noivas da montra a soluçarem nos pântanos de caniços ou empoleiradas nos algerozes catando algas das asas, os bebés de nariz para cima e as noivas a enfi arem-lhes pedaços de peixe na goela, sacudidas, grasnando, iam e vinham à tarde sobre os telhados arrastando grinaldas, fl orinhas brancas, véus e a montra da Photo Royal Lda deserta, as molduras somente, o empregado roído pelos ácidos chamava-as em vão da soleira, os bebés arreganhavam-se de fome nas almofadas de cetim dos ninhos, lembro-me da tarde em que o hidroavião (ou um albatroz?) caiu, vinha a planar direito a Cabo Ruivo espreitando alforrecas e nisto a carlinga a arder, as noivas encolhidas de medo no petroleiro persa que se decompunha na margem, passeavalhe no convés e um eco antigo no qual parentes muito idosos estremeciam — Pimpolho ou seja senhoras a erguerem-se bengala acima de camarotes na penumbra apontando chávenas de chá — Tu és fi lho de quem? perfumes estagnados, escalfetas, novenas, um cacho de bebés na chaminé reclamando os mexilhões da vazante, o empregado da Photo Royal Lda trotava no pontão, o albatroz inclinou-se a suspirar, perdeu um fl utuador, uma hélice, topavam-se os passageiros nos vidros de goela aberta e nariz para cima se calhar a agitarem-se por comida também, um rastro de gasolina avançou no lodo incendiando os caniços, Cabo Ruivo um deserto de charcos em cujas ervas se escondiam patos bravos e andorinhas do mar, suspeitava que Alcochete para além do silêncio, uma noiva roçou-nos a janela e logo as parentes muito idosas que escutavam a missa pelo rádio nos camarotes do petroleiro persa — O que é isto? oliveiras de província que a cidade esquecera, relógios de ponteiros ao longo do corpo desinteressados do tempo, o hidroavião reconheceu um caranguejo porque tombou de unhas de fora numa nódoa de rio despindo-se de sacos, malas, roupa que a enchente trazia e as noivas em torno da roupa provocando-se, discutindo, rasgando tecidos no meio de fragmentos de alumínio e madeira, preferia que tivéssemos tirado o retrato num telão assim, quer dizer o petroleiro, as gaivotas e o jipe da Guarda a afugentar os pássaros, o empregado da Photo Royal Lda — Aguente o pimpolho madame que lhe escorrega do colo e de facto eu a descer para o tapete que os sapatos da minha mãe não alcançavam, toda a noite à cabeceira da cama, desabitados, ela cabelo e lençóis e eu percorrendo os lençóis — Que será feito dos seus pés mãezinha? ombros que protestavam ao mudar de lugar, talvez olhos debaixo das madeixas mas onde param os olhos, um deles veio a custo do travesseiro até mim desembrulhando-se de pestanas — Não se pode dormir Jesus Cristo? principiou a desfocar-se e dúzias de pálpebras, sobrepondo-se, levaram-no, os ombros não protestavam sequer, ancorados — Tornou-se o petroleiro persa mãezinha? (o motor dos pulmões a trabalhar em surdina) qual motor, o petroleiro sem motor, uma camioneta estrangeira desmontou-o, meteu-o na arrecadação e portanto não o motor dos pulmões, cardumes que entravam nela e a deixavam, o empregado da Photo Royal Lda acabando de regular as lentes — Sente-se bem madame? o lago, o castelo, a Princesa a remar no barquinho, uma das noivas da montra desatou a sorrir, imensa, no caixilho, pedi-lhe (eu uma fi ta de líquen) — Não me coma as que se mantinham no Tejo abandonaram o pontão e ocuparam a loja, o primo Casimiro pegava-me pela cintura, erguia-me no ar, fazia-me cócegas, zangava-se (cuidava eu que zangado) — Estás a rir-te de quê? depois de o meu pai se ir embora a afastar-nos — Trambolhos estrangulava-me com o guardanapo, a voz proprietária, solene — Não te sujes pimpolho instalava-se no lugar do meu pai a explorar a terrina, a distribuir o almoço, ralhava à minha mãe — Vais fi car a pensar nele toda a vida pequena? e ao — Vais fi car a pensar nele toda a vida pequena? o meu pai em casa de novo, à mesa connosco apesar de não ter colher, não ter prato, no sítio onde a minha mãe o interrogava (ela nesses momentos duas palmas nas bochechas, os olhos iguais às lentes do fotógrafo) — Porquê? ao passo que o meu pai não ombros nem olhos, cotovelos que desdenhavam — Trambolhos o que fi cou dele foi o pincel da barba no lavatório com espuma seca nos pêlos, cruzetas que a minha mãe remexia no armário a questioná-las — Porquê? as cruzetas baloiçavam no varão motivos que ninguém entendia, fechávamos-lhes a porta e calavam-se, a minha mãe acabou por deitar o pincel da barba no lixo, gastou eternidades a limpá-lo (não precisava de ser limpo) e a pedir-lhe desculpa, imaginava o meu pai a tossir nas tardes de junho e afi nal um cano, qualquer coisa na rua, o estalar da mobília, o primo Casimiro devolvia a garrafa ao aparador, as palavras não ganhavam força na boca, pingavam, recolhia-as no lenço que depois de falhar a algibeira se preocupava no interior do casaco (o lenço, visto que o primo Casimiro mudo) — Vais fi car a pensar nele toda a vida pequena? introduziu o cachaço no buraco do telão da Photo Royal Lda com jibóias e zebras, surgiu no retrato a matar uma onça mas o capacete colonial não coincidia com a cabeça, o corpo pintado agachava-se num tronco, uma das pernas gorda e a outra magrinha, o primo Casimiro a comparar espessuras — Magrinha uma gaita pimpolho havia uma rasgadura num lombo de zebra e pela rasgadura os trapezistas do circo, no buraco do segundo caçador, desocupado, um indiano de turbante equilibrava espadas no queixo (as noivas abandonaram à uma a varanda do engenheiro, num ruído de papel pardo quando um paquete silvou) no que sobrava do buraco do primo Casimiro uma porção de circo igualmente ou seja uma nesga de foca a jogar com uma bola, qualquer coisa de coelho no focinho da onça, a delicadeza, os dentinhos, a garrafa ergueu-se do aparador indecisa mas com esperança — Estou bem em África não estou? nos dias sem clientes o empregado das mãos amarelas, ajudado por uma lata de tinta e uma brocha, dromedários, rinocerontes, carregadores com uniforme de ascensorista de hotel que transportavam baús, o empregado, didáctico — É a selva madame talvez o baú da nossa casa (com quem dentro?) que a madrinha da minha mãe ofereceu, visitávamo-la num segundo andar do Jardim Constantino longíssimo do Tejo, sem hidroaviões nem noivas, onde a madrinha da minha mãe, ou seja mantas e xailes, oculta numa poltrona entre sombras de plantas ou de cantoneiras dado que as cantoneiras se movem também, devagar, à tardinha, um brilho de faiança, sempre o mesmo (uma terrina presumo eu) a espreitar-nos ora aí ora acolá, agudo, furtivo (afi rmo que a terrina) e a afastar-se de nós (a terrina ou um gato?) a madrinha da minha mãe uma sombra igual às outras, as mantas sombras, os xailes sombras, a voz sombras, uma sombra emergiu das sombras, tornou-se indicador ao encontrar-me, retraiu-se de imediato e de novo não mais que a poltrona, os xailes para a minha mãe a sacudirem uma lata de biscoitos, de sílabas confundidas nas migalhas, no açúcar — O pimpolho cresceu tanto este ano (quem morava no nosso baú acontecia achar-me, eu minúsculo no sofá — Não) na vizinhança da terrina um castiçal de piano oscilou um momento e adeus, a minha mãe abria o baú e toalhas, fechava- o e uma pessoa que não gostava de mim revolvendo-se na alfazema a desordenar os vincos, os biscoitos pegavam-se às gengivas impedindo-me de respirar, eu encostado de embaraço à minha mãe a pisar-me e a pisar-me (— Não me agradeces pimpolho?) para me sentir a mim próprio, certifi car-me quem era, não uso as botas do meu pai, uso sandálias (— Trago calções reparem) de crescer tanto este ano tornei-me adulto e não me apetece ser adulto, não me conhecerem no Beato — Não pertences ao bairro o do baú não sufocado por biscoitos que eu bem o entendia através da alfazema — Ajuda-me e se não pertenço aqui a solução é dormir com as noivas na Photo Royal Lda ou nos armazéns do rio, perseguir numa fúria a espuma das traineiras, alimentar os bebés nus, de garganta para cima, que nascem de ovos de tule, a criada do engenheiro a expulsar-me da varanda — Estragam-me tudo rua e o castiçal do piano com as falhas de metal a crescerem, discos de ópera em que o tenor e o soprano, amparados a violoncelos, se ameaçavam aos berros lançando um ao outro clarinetes e tubas, as sombras interromperam-se um instante quando o vento bisbilhotou nas cortinas e dei com os arbustos do Jardim Constantino lá fora, o talho carneiros tão despidos nos ganchos, os parentes da camilha em cercaduras ovais com Sempre Querido por baixo a decidirem de mim — O que lhe fazemos cunhado? — Metemo-lo no baú? — Roubamo-lo? acendia-se o candeeiro e eles mascarados de pessoas de dantes, inofensivos, aprisionados no vidro, apagava-se o candeeiro e um frenesim de gabardinas — Roubamo-lo? o papel de parede a descolar-se e sob o papel de parede um segundo papel mais escuro, mais na trama, a descolar-se também, retirando-o Lisboa isto é uma senhora a massajar o tornozelo num banco entre árvores, pombos, quer dizer noivos para cá e para lá de mãos atrás das costas, à espera enquanto as gaivotas coscuvilhavam cheiros de vazante no Beato, o lábio da água franzido ao retirar-se e uma franja de detritos penso que muito usada dado que enfeites de caravela, mastros, barricas, as fortunas da Índia que não valiam um chavo, no telão que eu mais gostava punha-se o queixo no rebordo de maneira a acertar com um pulôver de ciclista (o empregado a orientar-nos — Um palmo para a esquerda cuidado com os pregos) e pedalava-se uma bicicleta vermelha a caminho da meta com um dos pneus oval à medida que a assistência sem membros nem feições, desenhada a trouxe-mouxe (uns riscos e pronto) aplaudia, pedalar para longe na noite em que o primo Casimiro e a minha mãe não existiam, existia o seu joelho, um pé descalço de frente e o primo Casimiro a respirar de costas (ou o Beato inteiro que fungava por ele, um galho de laranjeira inchando e desinchando, os tropeços do Tejo) com a gravata aos quadradinhos pendurada da nuca, os objectos estranhos, da mesma cor, do mesmo feitio e estranhos como se não estivessem habituados a nós, os houvessem colocado de propósito na sala para me magoarem, me fazerem mal, a miniatura da Estátua da Liberdade, a jarra, o Santo Expedito que prevenia — Não olhes e não olhes porquê, aconselhava — Não compreendas (pedalar muito depressa na bicicleta vermelha) e não compreendas porquê, se lhe perguntasse — Não compreendas porquê? ele a teimar — Não compreendas ponto fi nal não posso dizer-te eu de nariz no guiador, a assistência desenhada a trouxemouxe a aplaudir, o empregado da Photo Royal Lda — Ninguém te apanha pimpolho o sofá fora do lugar, o tapete enrugado e o sofá e o tapete — Não compreendas que mania, eu a aceitar — Acabou-se a conversa não compreendo deslarguem-me ou — Acabou-se a conversa para que me deslarguem dado que tudo gritava apesar do silêncio e mistérios, segredinhos, cochichos — A tua mãe — O vosso primo eu — A minha mãe e o nosso primo o quê? em lugar de me responderem, conversarem comigo, soslaios de condescendência, de pena, isto não unicamente a Estátua da Liberdade e o Santo Expedito, umas notas que a jarra prendia e as notas — A tua mãe rica já viste? a casa inteira cheia de movimentos, gestos (ela sempre tão quieta, alheada das marés) a tentar explicar-me alínea por alínea o que eu recusava saber, apetecia-me a bicicleta do telão, a minha cabeça a acertar com o pulôver e nisto o joelho da minha mãe imóvel, mais agudo e branco do que se eu lhe tocava, o pé imóvel, não semelhante ao dela e no entanto seu, o galho de laranjeira de que comecei a contar as laranjas na mira que a árvore sem inchar e desinchar, tudo regressado à normalidade de dantes — Não preciso da bicicleta obrigado ao passar de seis para sete laranjas o primo Casimiro imóvel por seu turno, uma pupilazinha a dar por mim, espantada primeiro e alerta depois (continuar com as laranjas, nove, dez, onze) focando-me do vértice da gravata, eu empanado no doze — Após o doze? e vazio, atirem-me o número após o doze que coisa, não dezasseis, não dezanove, a laranjeira a auxiliar-me — Treze e embora ouvisse — Treze quase a alcançar o — Treze e a safar-me, eu — Não consigo voltar à Photo Royal Lda, declarar ao balcão — Refl ectindo melhor preciso da bicicleta senhor Querubim desculpe no momento em que o cérebro se me desimpedia e — Treze os meus lábios radiantes — Treze o pé da minha mãe a alargar-se no tapete, felizmente o pé dela (nessa época conhecia-lhe melhor os pés do que a cara) e com o pé o joelho, o resto do corpo a ganhar espessura a partir do joelho, a pupila que faltava ao primo Casimiro a juntar-se à primeira e a trazer os pormenores do rosto assim de perto tão esquisitos (orelhas, testa, bochechas, coisas sem relação entre elas) a gravata não na nuca, direita (a mãozinha a assegurar-se que a gravata direita) os objectos não estranhos, nossos Eu Hei-De Amar.indd 19 20/6/2007 07:54:08 20 (olá mesa, olá jarra) um bater de solas aproximando-se rápidas e por azar eram as bielas de uma corveta na margem, não o meu pai que voltava, não me recordo só de — Trambolhos recordo-me de canas de pesca na marquise, de tempos a tempos ele para a minha mãe — Anda cá e o joelho, e o pé, o meu pai a respirar de costas para mim (ou o Beato inteiro que fungava por ele) os objectos diferentes mas menos diferentes que com o primo Casimiro, uma parte nossa e uma parte não, o empregado sugerindo-me a bicicleta e eu a hesitar — Vamos esperar um minuto o meu pai afastava-se conforme na capoeira da minha avó em Condeixa os galos se afastavam das galinhas sacudindo a papada, nem a miniatura da Estátua da Liberdade nem a jarra — Não olhes ocupadas consigo mesmas, naturais, distraídas, o meu pai solitário no pontão com as canas de pesca (o fumo do cigarro maiorzíssimo que ele) e a minha mãe a livrar-se da caliça e da terra copiando as frangas mal os galos chauzinho, examinava-lhe a saia e nem caliça nem terra e sem caliça nem terra a livrar-se de quê, eu para a franga que se limpava ainda — Está a livrar-se de quê? o primo Casimiro um par de pupilas e a gravata direita, um galo de Condeixa sacudindo a papada, eu — Após o doze? vendo bem tão fácil, treze, qualquer pessoa — Treze sem difi culdade, sem pensar — Treze o primo Casimiro a avaliar o dinheiro entalado na jarra e a desistir do dinheiro afi ando os esporões, vinte e uma laranjas isto é treze mais oito, nunca mais esqueço, treze, até hoje, se me vem essa noite à ideia, eu — Treze Eu Hei-De Amar.indd 20 20/6/2007 07:54:08 21 sem me fazer cócegas, me pegar ao colo (tenho dois anos e estou ao colo da minha mãe na Photo Royal Lda) — Estás a rir-te de quê? o empregado a espanejar o castelo, desconfi ando de mim — Estás a rir-te de quê se ainda não comecei? quando não me lembro de rir, lembro-me que sentia medo dos gorilas e das jibóias pintadas, dos crocitos das noivas a invadirem a montra adejando grinaldas, dúzias de noivas porque se calhar a minha mãe e eu uma mancha de gasóleo no Tejo, uma suspeita de enguias, quem me garante que as zebras e os equilibristas indianos não trocaram o cenário pelo reposteiro destinado a impedir a janela, o empregado a sossegar-me — Nenhuma zebra não vês? mas as riscas do estore no sobrado, ora brancas ora pretas, disparavam a galope mal o reposteiro ondulou, a traça inventou um olho no tecido e o olho a esverdear-se do Tejo arregalado para mim, o empregado deixou cair o reposteiro procurando enganar-me e ao deixá-lo cair o estore encabritou-se de raiva, o senhor Querubim ciente que a zebra permanecia na loja — Qual zebra pimpolho? a minha mãe tentou ajudar-me e o empregado crucifi - cou-a no espaldar com as mãos amarelas — Não me estrague a pose madame de relógio de pulso fosforescente idêntico às Virgens de mesa de cabeceira que aumentam na insónia, os ponteiros abertos perdoando, a auréola o círculo dos números, se a minha avó desse por ele em Condeixa não via as horas, rezava-lhe, até ao degolar a criação continuava a rezar, as caudas abanavam-se eternidades contra o avental, as patas imóveis, os crânios imóveis e as caudas zuca zuca tão velozes quanto o moinho da rega, os cabos dos holofotes jibóias vivas à espera ou enguias que as noivas cobiçavam com o baton dos bicos, o primo Casimiro emigrou para a América e chovia, julguei que lágrimas e não lágrimas, chuva no bigode, o perfume de verbena da loção Eu Hei-De Amar.indd 21 20/6/2007 07:54:08 22 — Um dia destes volto pimpolho comigo a pensar volte se lhe der na gana e entretanto seque a chuva com o lenço senhor, dava-me nervoso a tremurazinha do beiço, o não achar a mala, o facto de a poisar quando a achou e as sobrancelhas vibrando — Juro que um dia destes volto pimpolho a dirigir-se não a mim, à minha mãe através de mim, fez menção de me pegar ao colo, me fazer cócegas, se espantar — Estás a rir-te de quê? buscando engolir a chuva antes que a chuva no queixo, a minha mãe não — Porquê? como sucedia com o meu pai, a escapar-se de um abraço que não chegou a abraço, as mangas do primo Casimiro dançaram um momento, vacilaram, desistiram, uma delas roçou na minha mãe, gaguejante, tímida, desceu em espiral, sem acreditar em si mesma, para o cimento do cais — Jurei que um dia destes voltava (e eu a amolecer de piedade) em que pinças desajeitadas de gruas só médio e polegar (a pinça do açucareiro da madrinha da minha mãe assim) erguendo não torrões, sujidade, vapores, uma carroça da época das naus esquecida num telheiro, justamente a que transportava os condenados à forca em Belém, o povo de Portugal, coitado, a sonhar Goas, Brasis, a minha mãe com vontade de voltar para casa seguindo as gaivotas e a propósito de gaivotas o vestido de noiva dela no baú sob fronhas, lençóis, desejando libertar-se de tanto aroma antigo, tanta recordação (laços, fi tas, violetas) a suplicar — Pimpolho eu sem força de abrir o baú e valer-lhe — A chave do baú mãezinha que o seu vestido pediu-me a minha mãe arrependida do joelho, do pé, a seguir as gaivotas, faça-me cócegas se o alivia primo Casimiro, não me importo, consinto, corrija o bigode, tire essa gota com o punho da camisa vá Eu Hei-De Amar.indd 22 20/6/2007 07:54:09 23 pergunte de que me estou a rir, não chova, se ao menos a minha mãe uma simpatia, uma mostra de interesse, por exemplo — Porquê? um jeitinho mãe tenha paciência, não comece a levarme, repare nele fi ngindo que me faz cócegas a assobiar num murmúrio — Estás a rir-te de quê? a pegar fi nalmente na mala no modo como me pegava ao colo e eu pesado, eu grande, ainda magro mas grande, eu isto, as borbulhas do acne, a voz que falha o degrau dos graves e me atraiçoa ao deslizar num agudo, os meus traços incompletos e o castiçal do piano a concordar — Tu isto pimpolho deixei de sentir o perfume de verbena e vi-o no portaló esticando e encolhendo os dedos num último belisco, os lábios impossíveis de entender derivado às caldeiras dos barcos, ignoro se — Estás a rir-te de quê? se (a calcular pelo encolher dos ombros) — Tu isto? em chegando ao Beato mãe não quer pôr o veuzinho, a grinalda, esvoaçar pontão fora na ânsia que o meu pai com o cigarro e as canas de pesca, você desejosa de uma razão — Porquê? o primo Casimiro nunca escreveu da América a censurá-la — Trambolho não existia sequer, nunca existiu pois não mãe, oferecialhe pacotes de broas, ovos de chocolate sem bebés de goela aberta trepidando de fome a romperem a casca, ele a matar uma onça num telão desbotado e a minha mãe, sem pegar no retrato, a observar o meu pai que descia as escadas, que não vai ordenar — Anda cá consoante não me apertava o guardanapo ao pescoço nem se ralava comigo, você nenhum aceno para a vigia do paquete mãezinha, o retrato do primo Casimiro na gaveta da lista dos telefones do ano passado, do martelo que se quebrou, das lâmpadas fundidas Eu Hei-De Amar.indd 23 20/6/2007 07:54:09 24 — Hei-de atirar fora estas tretas entregue-o ao senhor Querubim orgulhoso da sua — Bela obra não acham? prendendo-o com um polegar que os ácidos roeram, a assinatura Photo Royal Lda caprichada, em relevo, o perfume de verbena do primo Casimiro permanecia em Alcântara entre a sujidade, os vapores, se ao menos pacotes de broas, trotes na escada aos domingos, o bigode feliz — Ora viva o dedo da madrinha da minha mãe a emergir comovido das sombras — O Casimiro é assim e a terrina (ou o gato?) de acordo com ela, se a beijava à despedida um gostozinho poeirento de sótão, daqui a nada a cercadura oval e o Sempre Querido por baixo, em lugar da poltrona a camilha junto aos outros fi nados, não diga — O pimpolho cresceu tanto este ano madrinha, diga — O que lhe fazemos cunhado? — Metemo-lo num saco? — Roubamo-lo? se o candeeiro aceso você xailes, rugas afl itas a piscarem na luz, uma pagela em que o rei de uniforme, quase nada portanto, se o candeeiro apagado o escuro a preguear-se de tosse que se despenhava em mim enquanto o castiçal do piano fl amejava ternuras — Pimpolho o rei não se compreendia onde derivado ao pigarro modifi car a posição dos objectos, deu-me ideia que o perfume de verbena connosco e o primo Casimiro a surgir da terrina — Cucu para a minha mãe enfadada, o segundo andar do Jardim Constantino cubículos e cubículos nas trevas, o halozito pálido do que seria a cozinha, uma torneira algures (mais perto, mais distante) sem se fi xar nunca, escutava-se uma gota e fi cava-se em pulgas, contando os segundos a suplicar a próxima, a próxima Eu Hei-De Amar.indd 24 20/6/2007 07:54:09 25 plac mais espessa que um fi go esmagado descendo de origens inimagináveis muito acima do tecto, ganhando volume enquanto a gota seguinte, lentíssima, principiava a formar-se, o dedo da madrinha da minha mãe vagueava perdido designando sombras — A vista falha percebes? a proteger-se com elas amontoando-as sobre os xailes e as mantas — Cresceu tanto este ano o pimpolho a envaidecer a minha mãe — Quase da altura do castiçal reparaste? mais alto que o castiçal, o castiçal em baixo ou então com o girar dos meses os móveis sumindo-se devagar no soalho, uma máquina de costura ao fundo passajando o silêncio num compartimento de arrumos (uma despensa, uma copa?) o som da máquina quase pegado a nós apesar da distância, monótono, nítido, alinhavando a terrina (o gato?) e a uni-los à gente, a madrinha da minha mãe a anunciar — A minha fi lha coitada tão fugidia, tão nervosa (— Quase nem vai à rua sabias?) no instante em que outra gota e portanto alinhavem a torneira igualmente, a fi lha com o seu guarda-chuva e a sua malita usada no receio que a mandasse embora porque desde a morte da madrinha da minha mãe eu o responsável, o tutor, eu o dono, a mandasse embora a ela que não morou senão nesta casa em sessenta ou setenta anos de Lisboa (quase setenta, sessenta e oito anos de Lisboa) e em sessenta e oito anos de Lisboa se manteve não a costureira em que se tornou depois mas a camponesa de um lugarejo a onze quilómetros de Arganil que não deixou de ser, vestida como uma caricatura das senhoras da cidade para as quais trabalhava (se é que persistiam senhoras na cidade que lhe dessem trabalho) a roupa de luto provavelmente oferecida Eu Hei-De Amar.indd 25 20/6/2007 07:54:09 26 (ia apostar que oferecida) e não bem negra, cinzenta ou outrora negra e que o tempo acinzentou, por ter acinzentado lha ofereceram — Toma e à qual substituiu os botões de madrepérola que faltavam por botões de massa, o brochezinho em forma de coração que lhe cerrava a gola (talvez presente em estampas remotas e que ninguém traz hoje em dia) uma caricatura das senhoras da cidade no cabelo dividido ao meio, nos modos (ademanes delicados de fi gurinha de consola que se topavam nos balcões de penhores moldando o ar vazio com palmazitas de loiça) a fi lha que a madrinha da minha mãe expulsou para o compartimento de arrumos com um postigo de trinco soldado pelo óxido e pelo pânico dos gatunos (— Nem sonhas a quantidade de ladrões nesta terra pimpolho) a que faltavam árvores, telhados, somente vidros sujos um único vidro sujo e após o vidro sujo uma ausência suja também em que alguns melros sujos em setembro iluminando uma cama (o empregado da Photo Royal Lda — Não mexeriques na fi cha) uma espécie de cama, vamos dizer um colchão numas tábuas, a roupa oferecida pelas senhoras da cidade num armariozito sem porta, eu o responsável, o tutor, eu o dono a pensar — Não devia ter entrado aqui a pensar — Peço-lhe desculpa por ter entrado aqui? a decidir — Não lhe peço desculpa por ter entrado aqui vou vender esta casa e ao decidir — Vou vender esta casa a assistir-me a informar a fi lha — Até ao fi m do mês tem de sair de cá ela de pé à minha frente com o seu guarda-chuva (— Seque a chuva do bigode primo Casimiro) Eu Hei-De Amar.indd 26 20/6/2007 07:54:09 27 e a sua malita usada, não surpreendida, não furiosa, quando muito tocando no broche a tentar adivinhar quanto dariam por ele no ourives, ciente que nem uma nota, moedas, repetindo no interior do seu espanto — Cinco ou seis moedas meu Deus ela quase sem clientes excepto as que a mantinham por esmola — Ao fi m de tanto tempo a pobre concordando comigo, respondendo que sim, submetendo- se porque o notário na semana anterior, preocupado com um dente que se entendia pelo movimento da língua no interior da bochecha, o universo de repente parado avaliando a gengiva, substituiu a língua pela caneta, solicitou — Um momento para a bater no siso de palma adiante da boca — Um segundo andar no Jardim Constantino faça o favor de assinar nesta linha enquanto a língua regressava ao trabalho, a caneta se achatava numa cruz a lápis — Aqui e a bochecha diminuía no meio de cadernos e pastas semelhantes na textura e na cor ao papel de parede sobre papel de parede da madrinha da minha mãe, o escritório do notário uma divisão de poltronas e sombras em que (era evidente) uma máquina de costura (ou de escrever?) numa despensa ou numa copa com um postigo de trinco soldado pelo óxido e pelo pânico dos gatunos a que faltavam árvores, telhados, somente vidros sujos um único vidro sujo uma ausência suja igualmente onde alguns melros sujos em setembro se é que setembro, se é que melros — Um segundo andar no Jardim Constantino faça o favor de assinar nesta linha a comprovar o nome que escrevi no papel semelhante (na textura, na cor) ao papel de parede sobre papel de parede da madrinha da minha mãe Eu Hei-De Amar.indd 27 20/6/2007 07:54:09 28 — Assinou? ao mesmo tempo que a máquina de costura ou de escrever recomeçava a funcionar, se percebia que qualquer coisa mudara pela inquietação dos pássaros, a fi lha interrompia a bainha, fi tava-me e um brilho de terrina nos olhos dela (de terrina ou um gato?) o empregado junto ao telão da bicicleta — Não te mexas nem um milímetro agora a fi lha um desses frangos ou galinhas ou patos ou noivas que a minha avó em Condeixa afogava nas pernas, saias (ou caudas?) contra o avental enquanto o perfume de verbena do primo Casimiro desaparecia de Alcântara e eu deixava de o sentir, ao colo da minha mãe na Photo Royal Lda, eu dissolvido no postigo em que nem uma árvore, um telhado, somente vidros sujos, um único vidro sujo no qual nenhum mindinho — O pimpolho cresceu tanto este ano escreveria o meu nome.

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