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Firebelly - Uma Viagem ao Coração do Pensamento (Cód: 2608727)

Michaels,J.c.

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Descrição

Uma menina que deseja desesperadamente a reconciliação de seus pais. Uma adolescente solitária, que odeia o mundo e a si mesma, luta para descobrir a diferença entre o que pode ser e o que deve ser. Um sapo, aparentemente insignificante, que inicia uma longa jornada para escolher entre uma vida confortável como animal de estimação ou a aventura da vida selvagem. Três vidas, três histórias. Em torno delas J.C. Michaels tece um romance delicado, tocante, que questiona a importância das escolhas, o peso da responsabilidade, o nosso lugar no mundo.

Características

Produto sob encomenda Não
Editora MERCURYO
Cód. Barras 9788572722414
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 9788572722414
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2008
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 272
Peso 0.44 Kg
Largura 14.00 cm
AutorMichaels,J.c.

Leia um trecho

Nas páginas seguintes estão três introduções para esquentar vocês – assim como se pode esquentar um motor antes de dar a partida em uma manhã fria ou pintar primeiro uma parede de branco antes de aplicar uma cor forte. Em vez de uma explicação que descreva os personagens, a trama ou o lugar, prefiro lhes oferecer uma base de idéias que relacionem o nosso mundo diário com o conteúdo e a excitação da filosofia. Estas histórias vão tornar vocês aptos a pensar de modo diferente e prepará-los para explorar uma maneira exclusiva de ver a vida, conhecida como existencialismo. Decida qual a sua idade usando o método tradicional, cronológico – a habitual contagem dos anos – ou o mais subjetivo – “que idade eu sinto que tenho” –, e então leia a introdução que lhe pareça mais apropriada. Se quiser, pode ler mais de uma. A opção é sua. Introdução para crianças Quando eu estava na quinta série, boa parte do meu tempo era gasta inventando travessuras. Quando não escapava escondido da sala de aula, estava aprontando alguma outra molecagem, como colocar giz na cadeira da professora ou transformar uma caneta em estilingue e atirar papel molhado com cuspe. Meus colegas me achavam divertido e me incentivavam a ser ainda mais atrevido. Mas meus professores me achavam um desordeiro e queriam que eu passasse mais tempo fora da sala de aula, ou seja, no corredor, na sala do diretor ou em casa. Mesmo quando eu estava quietinho, em silêncio, dando a impressão de estar ouvindo, normalmente minha atenção estava muito longe dali. Se eu era chamado para responder a uma pergunta, fosse sobre o assunto da aula ou sobre algo mais geral, como “Você sabe o que eu acabei de dizer?”, era comum eu pedir para a professora repetir a pergunta. E enquanto eu pensava na melhor maneira de responder, fazia de conta que estava considerando cuidadosamente a minha resposta. E depois de muita hesitação e de muito mexer no lápis e no papel, eu respondia dando de ombros e dizendo alguma bobagem, como “É claro que eu sei o que a senhora disse!”. Embora a professora muitas vezes me acusasse de não ouvir nem prestar atenção ou de não ter interesse algum pela aula, isso nem sempre era verdade. O que para ela era “devanear”, para mim era “pensar”. Olhando de fora, talvez eu parecesse mesmo estar em transe e sem nenhum interesse, mas por dentro, no mundo da minha imaginação e das possibilidades ilimitadas, havia um mar de idéias em turbilhão. Ela não percebia, mas muitas vezes meu devaneio era provocado por algo que ela mesma tinha dito. Eu examinava suas palavras com o maior cuidado, como se estivesse andando de quatro em um quarto escuro, procurando um tesouro escondido com a ajuda de uma pequena lanterna. Tal como uma queda-d’água despencando em um rio faminto, para cada pergunta que ela fazia, dez outros pensamentos se desdobravam na minha mente. Eu queria saber: Por que ela tinha feito aquela pergunta? Quantas soluções diferentes poderia haver? A resposta seria a mesma para um aluno que tivesse vivido cem anos atrás ou que viveria cem anos à frente, no futuro? E o que dizer de alguém que vivesse do outro lado do mundo, talvez em uma ilha sem estradas, edifícios nem máquinas, alguém que nunca tivesse ouvido falar em escola ou sala de aula – será que essa pessoa responderia da mesma forma? Quando eu ficava completamente perdido na minha teia de perguntas, quando não conseguia mais escutar a professora ali ao meu lado tentando chamar minha atenção, quando minha cabeça começava a doer com tantas idéias conflitantes e irreconciliáveis, eu me forçava a sair daquele pântano mental cada vez mais fundo. Às vezes eu revelava meus pensamentos para a professora, especialmente para alguma professora nova, que ainda não tinha me definido como aluno-problema. Eu lhe dizia, educadamente, que queria fazer uma pergunta muito importante. Se eu falasse com o tom de voz certo, sempre despertava seu interesse. Só para saber o que ela pensava, eu perguntava: “O que é que eu estou aprendendo que será sempre verdade?”. Sua reação imediata era revirar os olhos para o teto com impaciência, franzir a testa e, por fim, fazer algum comentário breve para encerrar o assunto. E é alarmante lembrar quantas vezes recebi a mesma resposta: “Tudo”. Lembro-me claramente do dia em que percebi pela primeira vez que uma simples pergunta pode causar uma grande encrenca. Estávamos aprendendo sinônimos para cores, tais como castanho, carmesim, escarlate, índigo etc. Tínhamos que escrever essas palavras no caderno e depois usá-las em frases. Eu estava achando esse exercício tedioso e aborrecido. Meu interesse desapareceu e logo minhas palavras se transformaram em rabiscos e desenhos. Com cada traço errante do lápis comecei a criar um mundo de florestas e lagoas, sapos e cobras, linhas curvas simples e formas geométricas extravagantes. Cada objeto que desenhava era reconhecível, mas as cores daqueles objetos desenhados a lápis eram diferentes, indescritíveis, algo que ninguém jamais tinha visto. Reclinei-me na minha cadeira, olhei para minha folha de papel e fiquei pensando como poderia explicar aquelas cores para outra pessoa. Primeiro pensei em usar cores que eu já conhecia. Podia dizer algo como é mais ou menos azulado ou meio rosado com traços de amarelo. Mas se as cores fossem muito estranhas, muito diferentes das que eu já havia visto, isso não daria certo. Será que eu poderia mesmo descrever algo que só eu tinha visto? Poderia, por exemplo, descrever o amarelo tendo apenas sinônimos para azul? Levantei a mão. A professora olhou para mim e desviou o olhar. Estendi o braço na direção dela e levantei a mão bem aberta. Ela fingiu que não viu. Estiquei o braço mais ainda, balançando-o para lá e para cá como uma bandeira ao vento. Ela continuou escrevendo no quadro. Logo eu estava sentado na beira da cadeira, quase pulando do meu lugar. Os outros alunos começaram a virar para trás, olhando para mim e rindo das minhas macaquices. A professora não podia mais continuar fingindo que não me via. “Sim?”, disse ela, virando-se para mim com um olhar nem um pouco interessado. Levantei-me ao lado da minha carteira e fiz uma pausa. Queria mostrar a ela que minha pergunta era importante. Respirei fundo. Em um tom de voz mais sério do que de costume, perguntei-lhe: “Como posso descrever uma cor que até hoje ninguém viu?”. Ela respirou fundo e olhou para o teto. Aí perguntou: “Como assim?”. “E se eu nunca tivesse visto outra cor, só o azul e o verde? E um dia eu visse alguma coisa vermelha... por exemplo, um sapo vermelho. O que eu diria? Como poderia descrevê-lo?” A professora cruzou os braços e olhou brava para mim. Fez uma pausa, soltou o ar e disse: “Sente-se e fique quieto!”. Fixei o olhar nela e ela em mim, como se estivéssemos prestes a travar uma batalha. Eu queria uma resposta, e ela queria me ignorar. Fiquei ali olhando firme até meu olhar atravessar os olhos dela e perfurar sua cabeça exigindo uma resposta, uma explicação. Ela apontou para a minha cadeira. “Bem”, eu disse, “não sabia que sente-se-e-fique-quieto era o nome de uma cor.” A classe começou a rir histericamente. Alguns davam tapas na carteira, sapateavam no chão. A professora me lançou um olhar zangado e apontou para a porta. Saí rapidamente para o corredor. Em geral, quando me expulsavam da sala para o frio corredor de ladrilhos, eu começava a rastejar de barriga no chão, fazendo de conta que era um soldado escapando da batalha. Dessa vez, porém, sentei-me de pernas cruzadas, o rosto enterrado nas mãos, e comecei a imaginar como seria viver minha vida inteira em um mundo onde não houvesse mais que azul e verde. O sol e o céu, os edifícios, o chão, todas as coisas da natureza, todos os objetos feitos pelo homem – tudo apenas em tons de verde e azul. Então, um dia, um estranho brilho iridescente me atrai para uma floresta. Começo a caminhar entre enormes árvores que se fecham em um dossel muito acima do chão coberto de folhas. Continuo até chegar a uma pequena clareira. Há uma lagoa azul de águas serenas com um único lírio-d’água flutuando na superfície. E em cima dessa folha verde há uma cor que eu nunca tinha imaginado: o vermelho puro, sob a forma de um sapo que brilhava com uma luz radiante. Eu me aproximo até conseguir ver os olhinhos dele piscando. Fico ali alguns momentos, examinando-o, olhando-o fixamente até que a sua forma, em detalhes, fique gravada na minha memória. Não quero esquecer essa imagem extraordinária, com uma cor tão diferente de tudo que já experimentei. Estendo a mão para tocar naquele vermelho-vivo, mas o sapo foge num pulo e mergulha silenciosamente na água. Saio da floresta e volto para o meu mundo familiar. Posso me lembrar do que vi, mas não posso falar a esse respeito. Fecho os olhos e vejo o chão da floresta, a lagoa azulada, as verdes folhas flutuantes do lírio, um incrível sapo, atrevido e imóvel, luminoso, radiante, brilhando contra o céu, mas não posso usar palavras para descrever o que vi. Sem ter uma linguagem comum, sem que alguma outra pessoa também se aventure na floresta para ver aquilo que eu vi, fico sozinho. Quando me perguntam sobre a lagoa, só posso responder com o silêncio. Só quando eu já era bem mais velho descobri outra pessoa que compreendia que minha pergunta sobre o sapo vermelho não era tola nem tinha a intenção de atrapalhar a aula. Não era uma pergunta sobre os mistérios da vida, algo transcendental ou a expressão de uma experiência emocional. Era sobre o modo como podemos conhecer, como conseguimos compartilhar nosso conhecimento com as outras pessoas. Ludwig Wittgenstein escreveu um pequeno livro no qual insistiu em que os limites da linguagem são os limites do que podemos conhecer e compartilhar com os outros. Se não temos palavras para descrever uma experiência, essa experiência se perde e fica inacessível a qualquer outra pessoa. Quando tento falar sobre uma cor vermelha que só eu vi ou experimentei, tudo que eu disser será sem sentido – ninguém poderá realmente compreender. Wittgenstein argumentou que – por incrível que pareça agora – usando a análise lingüística para descrever o pensamento, havia encontrado a solução definitiva para todos os problemas da filosofia. Às vezes você não pode simplesmente sentar e ficar quieto. Introdução para adolescentes Quando eu era adolescente, dormir passou a ser a parte mais emocionante da minha vida. Não era uma tentativa de escapar do mundo real, mas sim de acolher o mundo dos sonhos, um mundo que ampliava minha consciência e minha experiência. Enquanto sonhava, muitas vezes tinha consciên cia de estar deitado na cama, dormindo. Por mais reais que parecessem as imagens e por mais envolvido que eu estivesse na ação e no drama do sonho, sabia que a qualquer momento poderia acordar e aquela experiência desapareceria. Embora achasse fascinante observar a mim mesmo dormindo como se eu fosse um espectador vendo uma peça se desenrolar no palco, a verdadeira aventura começou quando encontrei uma maneira de controlar conscientemente os meus sonhos. No início, quando percebi que tinha essa capacidade, a onda de excitação e expectativa muitas vezes me acordava. Mas se eu ficasse calmo e lidasse com esse estado como se fosse um acontecimento cotidiano, começava a passar lentamente para o mundo dos sonhos, onde sentia tudo exatamente como no mundo real. Nos sonhos, meu corpo era capaz de cheirar, tatear, degustar, ver e ouvir. Eu podia dar uma dentada em uma deliciosa maçã e sentir o suco escorrendo pelos cantos da boca; podia viajar para terras distantes e, montado em um camelo, atravessar as dunas varridas pelo vento; podia voar livremente em um céu sem nuvens e ver o mundo se desenrolando lá embaixo. Podia ir a qualquer lugar, da maneira que quisesse. Podia enxergar através dos objetos, podia me tornar invulnerável à dor. Podia fazer praticamente tudo o que quisesse. Nos sonhos, minha mente continha todos os conhecimentos que eu possuía quando acordado. Eu podia usar essas informações para resolver um problema ou descobrir uma solução. Certa vez, em um sonho, encontrei uma arca do tesouro. Era muito pesada e estava submersa no fundo do mar. Usando meus conhecimentos de física, pensei em diferentes maneiras de trazê-la até a superfície. Optei por fazer uma série de mergulhos com pequenos balões inflados. Pelo meu raciocínio, se amarrasse muitos desses balões na arca, ela começaria a flutuar. Minha estratégia deu certo. Quando a arca subiu à superfície, eu a arrastei até a praia. Dentro dela descobri um tesouro fantástico: ouro, jóias e moedas. Mas recuperar o tesouro não bastava. Eu queria mais: queria trazer o tesouro para o mundo da vigília, o mundo “real”, onde eu vivia acordado. Sentindo grande confiança na minha capacidade de fazer isso, apanhei um punhado de moedas em cada mão e me preparei para a passagem. Lembro-me vividamente da sensação dos dois corpos se mesclando, um deles se inclinando sobre uma arca e agarrando as moedas de ouro, e o outro deitado de costas na cama, de olhos fechados – ambos os corpos dirigidos pela mesma mente. Quando os dois mundos se fundiram, por um momento, acreditei firmemente que conseguira, que tinha trazido o tesouro. Examinando melhor, porém, ficou clara a facilidade com que a mente pode ser enganada: meus braços estavam paralelos ao corpo, as mãos bem fechadas como se agarrassem alguma coisa, porém vazias. O sonho era o meu palco e eu, o diretor de cada uma das ações. Podia não só fazer tudo o que quisesse como também convencer os outros a obedecer às minhas ordens. Se quisesse uma companhia para viajar, era só pensar em um amigo que ele se materializava na minha frente; ou criar um monstro que eu iria matar; ou viajar no tempo; voltar ao passado e ser um rei ou ir para o futuro e viver em outro planeta. Tudo isso acontecia de uma forma tão real e vívida como acontece no mundo cotidiano. Bastava pensar em fazer algo e, de imediato, estava realizando aquela ação. Esse foi o início da minha onipotência. Um poder tão descomunal pode ter seu lado negativo, mesmo que seja apenas em sonhos. Certa vez, depois de um dia muito cansativo, cheio de atividades, fui me deitar e comecei a sonhar de uma maneira extremamente lúcida, com uma nova idéia para uma invenção. Quando despertei, fiz um esboço do projeto em meu diário. Desci para tomar café e contei ao meu pai o que tinha escrito, dizendo-lhe que eu podia utilizar meus sonhos para acessar as partes mais criativas da minha mente. Quando lhe contei sobre a invenção, ele ficou muito agitado. Disse, então, de uma maneira estranha: “Pensar pode causar muitos problemas. Jogue fora esse seu diário dos sonhos!”. Eu me recusei. Não poderia descartar meses e meses de trabalho. Ele então varreu com o braço a mesa do café, derrubando os pratos de comida no chão. Fiquei ali parado, atônito, chocado, não só com a reação dele, mas também porque a comida caiu no chão formando um arranjo exatamente igual ao que estava antes sobre a mesa. Enquanto eu lutava para compreender aquilo, o véu do sonho começou a se desfazer. De repente, fui dominado por uma forte sensação. Comecei a respirar rapidamente como se precisasse de mais ar do que o necessário. Meu coração disparou. Gotas de suor caíam da minha testa – estava sonhando que tinha sonhado. Depois disso, nunca mais tive certeza de que finalmente despertara para a realidade. Tinha medo de confundir a realidade com os sonhos e fazer alguma coisa extremamente tola ou embaraçosa – até mesmo criminosa. Passei a ter mais cuidado com o que dizia e fazia. Se não podia ter certeza de onde terminava o sonho e começava o mundo real, o que, então, eu podia realmente saber? Eu não era a única pessoa profundamente perturbada por essa pergunta. Quando comecei a ler a obra de Descartes, descobri outra pessoa que tinha as mesmas preocupações sobre a realidade. Ele afirmava que tudo o que podemos saber sobre o mundo real deve primeiro passar pelos “guardas do portão” – os cinco sentidos. Mas os sentidos podem ser enganados tal como acontece quando dormimos. As experiências que entram na nossa mente talvez não sejam nada mais do que sonhos involuntários ou ilusões. Podemos acreditar que estamos sentados ao pé da lareira, lendo, quando na realidade estamos dormindo na cama. Descartes afirmou que, uma vez que as nossas percepções podem ser inexatas ou sujeitas a enganos, a certeza e o verdadeiro conhecimento só podem surgir se ignorarmos os sentidos e confiarmos no pensamento e na razão. Qual é a verdade que podemos conhecer que não necessita dos sentidos; qual é a verdade que podemos conhecer simplesmente pensando? Duas: a verdade da matemática e a existência de Deus. (Duas idéias que me desviariam tanto do assunto em pauta que esta história jamais começaria.) Não é apenas o filósofo que nos pede que questionemos os sentidos e as percepções – o artista também. Monet, por exemplo, pintou dezenas de quadros sobre o mesmo tema em diferentes horas do dia e em diferentes estações do ano. Ele queria mostrar como os efeitos da luz podem mudar radicalmente a aparência física de um objeto. A cor de um monte de feno numa manhã de outono parece muito diferente sob o sol brilhante do verão ou sob um céu escuro, antes da tempestade. O objeto subjacente da nossa sensação permanece o mesmo; são as nossas percepções que mudam com as alterações de luz e sombra. E se o artista e o filósofo estiverem certos? E se de fato não pudermos confiar nos sentidos? E se o importante não for o mundo físico, mensurável, mas apenas a vida interior, subjetiva da mente? Esse pensamento, essa possibilidade pode criar um verdadeiro abismo que passa despercebido. Quando a pintura se torna real demais, quando valorizamos apenas o pensamento puro, quando os sonhos se tornam mais empolgantes do que a própria vida, estamos à beira de algo que começa a nos separar dos outros; começamos a criar qualquer realidade que desejarmos. Corremos o risco de não perceber que esse mundo que nós mesmos criamos não pode mais pertencer a alguém. Podemos não saber que estamos muito perto de um abismo do pensamento. Podemos não compreender que, se escorregarmos, voltar pode ser difícil – talvez impossível. Podemos não saber quando a queda começa até batermos no fundo – e então será tarde demais. Quem pode compreender esse tipo de problema, esse tipo de insanidade? Quem pode nos ajudar? Por favor, não me fale em psiquiatra; olhe para o horizonte, bem longe, e me encontre um poeta. Gabriel Gale, poeta e detetive, ganhou vida na obra de G. K. Chesterton. Gale tinha a notável capacidade de acompanhar e deduzir os pensamentos de outras pessoas até a beira de um precipício, onde um passo em falso do discernimento podia levar um personagem a uma tragédia irreversível. Em O crime de Gabriel Gale, o poeta acompanha de perto as ações de um jovem clérigo. Esse jovem está a ponto de acreditar que o único mundo real é o mundo que ele percebe e sobre o qual ele pensa. Como Gale também já esteve bem perto de acreditar nisso, ele compreende como tudo isso é poderoso, e perigoso. Bem no momento em que o jovem começa a acreditar que consegue controlar o mundo da vigília, Gabriel aplica um remédio simples, mas poderoso, para reverter o mergulho do rapaz totalmente absorvido em si mesmo nesse mundo solipsista. O remédio de Gabriel foi muito radical, um delito passível de punição sob as leis de qualquer sociedade. Mas há muitos outros exemplos de acontecimentos simples e até insignificantes que servem para nos reorientar no momento certo. Simples até que ponto? Insignificantes até que ponto? Será que realmente precisamos de um poeta que faça sombra sobre nós e nos proteja dos nossos próprios pensamentos? Às vezes nossa vida dá uma reviravolta completa devido a algo tão despretensioso e sem importância como um simples sapo. Introdução para adultos depois de me formar na faculdade, adotei um estilo de vida itinerante que ocasionalmente me levava de volta à casa do meu pai para poder me recuperar em um ambiente tranqüilo, onde eu era aceito sem problemas. Certa manhã de verão, quando olhava pela grande janela panorâmica da sala, notei um rapaz atarracado caminhando em direção a nossa casa. Ele poderia ter a aparência de um profissional, só que a gravata torta, a camisa para fora da calça e as roupas amassadas sugeriam alguém mais próximo de um andarilho. Atendi a porta. Ele deu um rápido bom-dia e em seguida passou a descrever, de maneira educada e cortês, diversos tipos de escovas, esfregões, líquidos para limpar tapetes e outras utilidades domésticas. Remexia em uma grande pasta preta, tirando amostras e folhetos para reforçar seus elogios aos produtos. Eu não estava interessado naquilo, e sabendo como meu pai tratava os vendedores ambulantes, tinha certeza de que o dono da casa não seria mais acessível. Mesmo assim, por educação e pelo desejo de dar ao rapaz alguns minutos de esperança, na expectativa de uma venda, fiquei parado na soleira da porta concordando com a cabeça enquanto olhava para longe. Em vez de prestar atenção ao conteúdo do que ele dizia, concentrei-me no tom da sua voz. Era uma voz que eu já tinha escutado. Virei-me para ele, curioso, e o reconheci. Olhei para os pés dele e, devagar, examinei-o por inteiro. Ele fez uma pausa no seu monólogo e me olhou como um sapo de olhos bem abertos. Ficamos os dois em silêncio, constrangidos, por um longo tempo – tão longo que poderia ser considerado sinal de agressividade ou ameaça em certas situações. Não conseguia mais conter um enorme sorriso prestes a se espalhar pela minha cara. O nome dele era Will, um amigo do tempo da faculdade. Tínhamos passado, juntos, noites memoráveis conversando sobre filosofia. “É você?”, ele perguntou, passando a mão pelo cabelo ruivo todo cacheado. “Sim, senhor”, respondi. “Essa sua gravata, essa maleta cheia de tranqueiras... no início tudo isso me enganou.” Fiz um gesto convidando-o para entrar. “Não acredito que seja você! Você mora aqui?” “Só por algumas semanas. Depois vou voltar para a faculdade e começar a pós-graduação.” Sentamos para conversar. Respondi brevemente às suas perguntas e depois perguntei como ele vivia. “Não estou na rua, mas também não estou muito longe disso. Passei um tempo morando no meu carro, mas agora tenho um apartamentinho perto da biblioteca.” “Você vende bem essas coisas?” “Na verdade não; mas o bom é que eu faço os meus horários. Bem, tenho uma coisa para lhe mostrar!” Com isso sua voz ficou muito animada, como se ele tivesse um tesouro escondido para revelar. “Você vai gostar!” Começou a remexer naquela maleta do tipo acordeão, deixando cair cartões de visita e amostras de escovas. Por fim tirou algumas páginas datilografadas já muito gastas e passou-as para mim em um gesto de triunfo. No alto da primeira página estava o título: Dicionário Will Wall. “É uma coleção de aforismos que escrevi”, explicou. “Sempre levo comigo para o caso de encontrar um cliente interessante.Chamo isso de filosofia da rua – lembre-se de Hipócrates: ‘A vida é curta, a arte é longa, a oportunidade é fugidia’” Dei uma passada de olhos naquelas frases breves e saborosas, fazendo pausas aqui e ali para assimilar o significado mais profundo das palavras e as motivações do meu amigo. Havia páginas e mais páginas de máximas no estilo de O dicionário do diabo, de Ambrose Bierce, e dos escritos de Nietzsche. Ali estava Will, um jovem de vinte e poucos anos, vendendo escovas de porta em porta, mais parecendo um garoto que abandonou o ensino médio do que um universitário formado. Exteriormente tinha a aparência de um vendedor chato, do tipo que faz a maioria das pessoas baterem a porta resmungando: “Não estou interessado”. Mas lá por dentro, na parte que não podemos ver com os olhos nem tocar com as mãos, havia uma mente crítica explorando idéias fantásticas. “O que você tem lido ultimamente?”, perguntei. “Obras dos positivistas lógicos. Quero compreender de que modo a lógica pode ser usada como fundamento para a matemática.” Falou isso com a cara mais séria do mundo. Não estava brincando, de modo algum. Eu hesitava em pedir detalhes ou explicações temendo que só conseguisse concordar com a cabeça, fingindo compreender. Uma luz radiante entrava pela janela iluminando o cabelo ruivo de Will de tal maneira que sua cabeça parecia incandescente, quase como se fosse explodir em chamas. Naquele momento percebi que existe uma região elevada da mente que poucos conhecem, muito menos visitam. “Por que você está vendendo escovas?”, perguntei. “Por que não? Todos nós precisamos de um chão limpo.” Will tinha ido para algum lugar não física, mas mentalmente, e voltado com trajes de vendedor. Talvez parecesse igual e agisse da mesma forma, mas havia nele algo diferente. Percebi isso logo que o conheci, mas agora tudo ficava mais claro. Ele tinha idéias nas quais eu nunca pensara. Nunca sabemos que pensamentos constituem o mundo de outra pessoa, ou como a experiência, às vezes trágica, às vezes cômica, formou e transformou alguém. Penso no cavaleiro da fé de Kierkegaard, que se transformou depois de uma experiência com o sagrado, e penso também em Zorba, o Grego, do romance de Kazantzakis, que se entrega completamente à vida mundana. Na aparência externa, o cavaleiro é exatamente como era antes, mas por dentro, aos olhos da mente, ele deu um grande salto. Já não olha mais para os outros, olha mais além, para algo que fica fora do nível mundano, algo mais do que apenas levar uma boa vida. “Há pessoas que viajam pelo mundo atrás de rios portentosos, altas montanhas, novas estrelas, pássaros de rara plumagem, peixes extraordinários ou das mais absurdas competições da humanidade. Elas contemplam a vida com um estupor bruto e acham que viram alguma coisa. Nada disso me interessa. Mas se eu soubesse onde mora um cavaleiro da fé, viajaria a pé até encontrá-lo. Não o deixaria. Eu me consideraria protegido, bem cuidado pelo resto da vida. Essa maravilha me ocupa inteiramente.” Assim falou Kierkegaard, buscando uma verdade pela qual pudesse viver e morrer. Devido a uma infinita resignação, a uma aceitação do desconhecido, sentimos o que significa estar no mundo. Vemos isso em Abraão segurando a faca, obedecendo ao pedido mais absurdo da divindade; vemos isso no peregrino budista que segue a procissão de joelhos, cantando mantras diante de uma montanha sagrada, pedindo para libertar-se da reencarnação; vemos isso em Heidegger quando nos pede para descascar as várias camadas da sociedade e compreender o que significa estar no mundo; vemos isso em Sartre nos implorando para confrontarmos nossa existência e nos tornarmos criadores da nossa essência; vemos em Martin Buber nos dizendo que, quando falamos “tu”, o “eu” está sempre implícito; e vemos também no meu amigo Will, que vende escovas de porta em porta, mas que se preocupa tão profundamente com o mundo que prefere que os clientes lhe dêem seus pensamentos em vez de dinheiro. Podem me deixar em uma ilha desabitada, abandonar-me em um deserto, esquecer-me na tundra; podem me alienar do mundo – vou encontrar meu caminho de volta e procurar esse homem estranho de cabelo em desalinho. E quando eu voltar ficarei para sempre imaginando se o sapo diante de mim não é na verdade um cavaleiro.

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