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Flavia de Luce e o Mistério da Torta (Cód: 2880904)

Bradley,Alan

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Descrição

Flavia de Luce é uma jovem garota que vive numa mansão em estilo vitoriano na Inglaterra da década de 1950. Especialista em venenos, é uma versão pré-adolescente de Sherlock Holmes, o célebre personagem de Conan Doyle. Torna-se detetive a partir de um crime que acontece dentro de sua casa, tema do primeiro volume da série.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Arx
Cód. Barras 9788502092273
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788502092273
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2010
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 352
Peso 0.60 Kg
Largura 16.00 cm
AutorBradley,Alan

Leia um trecho

Dentro do armário estava tudo escuro como sangue velho. Elas me empurraram para lá e trancaram a porta. Inspirei forte, lutando para permanecer calma. Tentei contar até dez a cada inspiração, e até oito ao liberar o ar lentamente para dentro das trevas. Para minha sorte, elas tinham prendido a mordaça tão apertado em minha boca aberta que minhas narinas ficaram desobstruídas, e fui capaz de encher vagarosa e plenamente o pulmão com o ar viciado e mofado. Tentei enfiar as unhas por baixo do xale de seda que me amarrava as mãos atrás das costas, mas como eu sempre as roí até a carne, não tinha como agarrar o tecido. Sorte eu ter me lembrado de juntar as pontas dos dedos, usando-as como dez bases pequenas e firmes para afastar as palmas, quando elas amarraram fortemente os nós. Girei os pulsos, apertando um contra o outro até sentir um pouco de folga. Usei os polegares para puxar a seda para baixo até os nós ficarem entre minhas palmas e, então, entre meus dedos. Se elas tivessem sido espertas o bastante para pensar em amarrar meus polegares juntos, eu nunca teria conseguido escapar. Que completas idiotas elas eram. Com as mãos por fim livres, me desfiz rapidamente da mordaça. Agora, a porta do armário. Mas, primeiro, para certificar-me de que elas não estariam de tocaia me aguardando, agachei-me e espiei através do buraco da fechadura que estava livre. Graças aos céus, elas tinham levado a chave. Ninguém à vista! Com exceção do perpétuo emaranhado de sombras, trastes velhos e deploráveis bugigangas, o comprido sótão estava vazio. A área estava livre. Esticando a mão acima da cabeça no armário, desatarraxei o gancho de um cabide para casaco. Enfiei a parte curva no buraco da fechadura e usei a outra ponta como alavanca. Depois de cutucar e futucar um pouco, o mecanismo produziu um gratificante clique. Foi quase fácil demais. A porta se abriu, e eu estava livre. Desci aos pulos a larga escadaria de pedra até o vestíbulo, parando na porta da sala de jantar só o tempo suficiente para jogar minhas tranças para trás por cima dos ombros, como uso sempre. O pai ainda insistia em que o jantar fosse servido na hora exata e comido na maciça mesa de carvalho, exatamente como quando a mãe ainda estava viva. — Ophelia e Daphne ainda não desceram, Flavia? — ele perguntou em um tom irritado, olhando por cima da última edição do British Philatelist, aberto ao lado da sua carne com batatas. — Eu não as vejo há séculos — respondi. Era verdade. Eu não as via desde que me amordaçaram e me vendaram, depois me arrastaram com as mãos amarradas pelas escadas sótão acima e me trancaram no armário. O pai olhou para mim por cima dos óculos pelos quatro segundos de sempre antes de voltar a murmurar algo sobre seus tesouros. Lancei-lhe um sorriso suficientemente amplo para apresentar-lhe uma boa visão do aparelho que engaiolava meus dentes. O pai sempre gostou de ser lembrado de que seu dinheiro estava sendo bem empregado. Mas desta vez ele estava preocupado demais para notar. Levantei a tampa da tigela de porcelana com legumes e, das profundezas de suas borboletas e framboesas pintadas à mão, pesquei uma generosa colherada de ervilhas. Usando a faca como régua e o garfo como ancinho, organizei as ervilhas para que formassem meticulosas fileiras e colunas ao longo do meu prato; fileira após fileira de pequenas esferas verdes, espaçadas com uma precisão que teria deleitado o coração do mais exigente relojoeiro suíço. Então, começando da esquerda, espetei a primeira ervilha com o garfo e a comi. Foi tudo culpa de Ophelia. Ela, afinal, tinha dezessete anos e, portanto, esperava-se que possuísse um mínimo de maturidade. Que ela se enturmasse com Daphne, que tinha treze, simplesmente não era justo. Suas idades combinadas totalizavam trinta anos. Trinta anos! — contra meus onze. Não era apenas antiesportivo, era absolutamente desprezível. E simplesmente clamava por vingança. Na manhã seguinte, eu estava atarefada no meio dos frascos e vasos do meu laboratório químico, no piso superior da ala leste, quando Ophelia invadiu o recinto e perguntou: — Cadê meu colar de pérolas? Encolhi os ombros e respondi: — Não sou guardiã das suas bugigangas. — Eu sei que você pegou. As pastilhas de menta que estavam na minha gaveta de lingerie também sumiram, e observei que as pastilhas de menta desaparecidas nesta casa parecem acabar sempre na mesma boquinha suja. Ajustei a chama de uma lamparina a álcool que estava esquentando uma proveta de líquido vermelho. — Se está insinuando que minha higiene pessoal não tem o mesmo padrão da sua, você pode ir lamber minhas galochas. — Flavia! — Bem, você pode, sim. Estou cansada de ser culpada por tudo, Felinha. Mas minha virtuosa indignação foi interrompida bruscamente quando Ophelia espiou com olhinhos míopes para dentro do frasco cor de rubi, que justamente começava a ferver. — O que é esta massa grudenta no fundo? — perguntou, dando pancadinhas no vidro com suas unhas compridas e esmaltadas. — É um experimento. Cuidado, Felinha, é ácido! O rosto de Ophelia ficou branco. — São as minhas pérolas! Pertenciam à mamãe! Ophelia era a única das filhas de Harriet que se referia a ela como “mamãe”: a única de nós velha o bastante para ter quaisquer lembranças reais da mulher de carne e osso que nos carregou em seu corpo, fato que ela nunca se cansava de nos lembrar. Harriet morrera em um acidente de alpinismo quando eu tinha apenas um ano, e não se falava muito dela em Buckshaw. Se eu ficava com inveja das lembranças de Ophelia? Se eu ficava ressentida com elas? Não, era mais profundo que isso. De um jeito um tanto estranho, eu desprezava as lembranças dela sobre nossa mãe. Ergui os olhos lentamente do meu trabalho para que as lentes redondas dos meus óculos relampejassem um brilho de luz branca e vazia para ela. Eu sabia que, sempre que fazia isso, Ophelia tinha a horrenda impressão de que estava na presença de algum cientista louco alemão como num filme em preto e branco da Gaumont. — Besta!— vociferou ela. — Megera! — retruquei. Mas não antes de Ophelia girar nos calcanhares — impecavelmente, eu achei — e sair pela porta. A retribuição não demorou a chegar. Aliás, com Ophelia nunca demorava. Ela não era, como eu, uma planejadora a longo prazo acostumada a deixar a sopa da vingança ferver em fogo lento até a perfeição. De repente, depois do jantar, com o pai seguramente recolhido ao seu estúdio para examinar sua coleção de cabeças de papel, seus queridos selos estampados com o perfil da rainha, Ophelia pôs de lado, em silêncio, a faca de manteiga de prata, na qual, como um periquito australiano, estivera olhando sua própria imagem durante o último quarto de hora. Sem preâmbulos, ela disse: — Eu não sou realmente sua irmã, você sabe... nem Daphne. É por isso que somos tão diferentes de você. Suponho que nunca lhe ocorreu que você foi adotada. Deixei cair minha colher com barulho. — Isso não é verdade. Sou a cara de Harriet. É o que todo mundo diz. — Ela escolheu você no Lar para Mães Solteiras por causa da evidente semelhança com ela — disse Ophelia, fazendo uma cara enojada. — Como poderia haver semelhança se ela era uma adulta e eu um bebê? — eu sem dúvida sacava as coisas depressa. — Porque você a fez lembrar das próprias fotografias de bebê. Sabe, ela até as carregava com ela para exibi-las ao seu lado para as pessoas poderem compará-las com você. Apelei para Daphne, cujo nariz estava enfiado em um exemplar encadernado em couro de O castelo de Otranto. — Isso não é verdade, não é, Dafi? — Infelizmente é — disse Daphne, virando preguiçosamente uma página do livro. — O pai sempre disse que seria um choque para você. Fez nós duas jurarmos nunca contar. Ou, pelo menos, até você fazer onze anos. — Uma valise verde — disse Ophelia. — Vi com meus próprios olhos. Vi mamãe enfiar as fotografias dela de bebê em uma valise verde quando foi até o Lar. Embora eu tivesse só seis anos na época, quase sete, nunca vou esquecer das mãos brancas dela... os dedos no fecho de latão. Saltei da mesa e fugi da sala aos prantos. Na verdade só pensei no veneno na manhã seguinte, no desjejum. Como acontece com todos os grandes planos, esse era bem simples. Buckshaw foi o lar da nossa família, os De Luce, desde tempos imemoriais. A atual casa georgiana foi construída para substituir a original elisabetana, totalmente queimada por aldeões que suspeitavam que os De Luce tinham simpatia pelos Orange, os protestantes irlandeses. O fato de termos sido católicos fervorosos por quatrocentos anos, e permanecido assim, não significava nada para os inflamados cidadãos de Bishop’s Lacey. A “Casa Velha”, como era chamada, fora destruída pelas chamas, e a casa nova que a substituiu já estava em seu terceiro século. Dois ancestrais mais recentes dos De Luce, Antony e William de Luce, que discordavam acerca da Guerra da Crimeia, estragaram as linhas arquitetônicas da estrutura original. Cada um deles acrescentara à casa uma ala: William, a ala leste, e Antony, a oeste. Cada um tornou-se recluso em seu próprio domínio, e cada qual proibiu o outro de pôr os pés além da linha preta que mandaram pintar bem no centro do vestíbulo que passava pela entrada e ia até a toalete do mordomo, atrás das escadas do fundo. Seus dois anexos de tijolos amarelos, terrivelmente vitorianos, voltavam-se para trás como as asas cortadas de um anjo de cemitério. Aos meus olhos, eles davam às janelas altas e às venezianas da fachada georgiana de Buckshaw a aparência empertigada de uma solteirona cujo coque está apertado demais. Um De Luce posterior, Tarquin — ou Tar, como era chamado—, na esteira de um colapso mental, arruinou o que prometia ser uma carreira brilhante em química e foi expulso de Oxford no verão do Jubileu de Prata da Rainha Vitória. O indulgente pai de Tar, preocupado com a saúde instável do rapaz, não poupou despesas ao equipar um laboratório no andar superior da ala leste de Buckshaw. Era repleto de vidraria alemã, microscópios alemães e um espectroscópio alemão, balanças químicas de latão de Lucerna e um tubo de Geisler de vidro soprado, com formato complexo, ao qual Tar podia acoplar bobinas elétricas para estudar o modo como diversos gases fluorescem. Sobre uma mesa junto das janelas havia um microscópio Leitz, cujo latão ainda brilhava com o mesmo luxo cálido do dia em que fora trazido de charrete do trem em Buckshaw Halt. O ângulo do seu espelho podia ser ajustado para captar os primeiros raios pálidos do sol matinal. Para dias nublados ou depois de escurecer, ele era equipado com uma lamparina a parafina para microscópios feita pela Davidson & Co., de Londres. Havia até mesmo um esqueleto humano articulado, disposto sobre uma plataforma com rodas, que fora dado a Tar quando ele tinha apenas doze anos pelo grande naturalista Frank Buckland, cujo pai comera o coração mumificado do Rei Luís XIV. Três paredes dessa sala eram forradas do piso ao teto por armários com frente envidraçada, dois deles repletos, fileira após fileira, de produtos químicos em potes de vidro de boticário, cada qual etiquetado na meticulosa caligrafia de Tar de Luce que, no fim, frustrou o destino e sobreviveu a todos eles. Ele morreu em 1928, com sessenta anos, no meio de seu reino químico, onde foi encontrado certa manhã pela governanta, um dos olhos mortos ainda olhando cegamente através do seu adorado Leitz. Correram boatos de que ele estava estudando a decomposição de primeira ordem do pentóxido de nitrogênio. Se isso era verdade, foi a primeira pesquisa registrada de uma reação que eventualmente levaria ao desenvolvimento da bomba atômica. O laboratório do tio Tar foi trancado e preservado em silêncio ao longo de muitos e poeirentos anos, até que aquilo que o pai chamava de meus “estranhos talentos” começou a se manifestar, e fui capaz de reivindicá-lo para mim. Eu estremecia de alegria sempre que pensava no dia chuvoso de outono em que a química chegou em minha vida. Eu estava escalando as estantes de livros na biblioteca, fazendo de conta que era uma famosa alpinista, quando meu pé escorregou e um livro pesado foi ao chão. Quando o peguei para alisar suas páginas amarrotadas, vi que ele estava repleto não apenas de palavras, mas de dúzias de desenhos também. Em alguns deles, mãos sem corpo despejavam líquidos em curiosos recipientes de vidro, que pareciam instrumentos musicais de outro mundo. O título do livro era Um estudo elementar de química, e em minutos ele me ensinou que a palavra iodo vem de um termo que significa “violeta”, e que o nome bromo deriva de uma palavra grega que significa “mau cheiro”. Isso era o tipo de curiosidade que eu precisava saber! Enfiei o grosso volume vermelho embaixo do meu suéter e o levei para cima. Só mais tarde reparei no nome H. de Luce escrito na folha de rosto. O livro pertencera a Harriet. Logo passei a estudar atentamente suas páginas em todos os momentos livres. Havia noites em que eu mal podia esperar pela hora de ir para a cama. O livro de Harriet se transformara no meu amigo secreto. Nele estavam detalhados todos os metais alcalinos: alguns com nomes fabulosos, como lítio e rubídio; os terrosos, como estrôncio, bário e rádio. Vibrei em voz alta quando li que uma mulher, Madame Curie, descobrira o rádio. E então havia os gases venenosos: fosfina, arsina (do qual se sabe que uma única bolha pode ser letal), peróxido de nitrogênio, ácido hidrossulfúrico... as listas continuavam e continuavam. Quando descobri que eram fornecidas instruções precisas para formular aqueles compostos, fui ao céu. Depois que aprendi a ver sentido em equações químicas como K4FeC6N6 + 2 K = 6KCN + Fe (a qual descreve o que acontece quando o prussiato amarelo de potassa é aquecido com potássio para produzir cianureto de potássio), o universo se abriu diante de mim: era como ter topado com um livro de receitas que antes pertencera à bruxa da floresta. O que me intrigou mais que qualquer outra coisa foi descobrir o modo como tudo, toda a criação era mantida coesa por laços químicos invisíveis. Encontrei um estranho e inexplicável conforto em saber que em algum lugar, muito embora não pudéssemos vê-la em nosso próprio mundo, havia uma estabilidade real. De início não fiz a conexão óbvia entre o livro e o laboratório abandonado que eu descobrira quando criança. Mas quando consegui ligar as coisas, minha vida acordou para a vida — se é que isso faz algum sentido. Aqui no laboratório do tio Tar, fileira sobre fileira, estavam os livros de química que ele tão amorosamente reunira, e logo descobri que, com um pequeno esforço, a maioria deles não estava assim tão além da minha compreensão. Os experimentos simples vieram na sequência, e tentei me lembrar de seguir as instruções ao pé da letra. Não vou dizer que não aconteceram umas poucas e fedidas explosões, mas quanto menos for dito sobre isso, melhor. Com o passar do tempo, meus cadernos de anotações foram ficando mais gordos. Meu trabalho se tornava cada vez mais sofisticado à medida que os mistérios da química orgânica se revelavam para mim, e me regozijei com o conhecimento recém-adquirido daquilo que podia tão facilmente ser extraído da natureza. Minha paixão especial— venenos. Saí golpeando a folhagem com uma bengala de bambu surrupiada de um porta-guarda-chuvas do vestíbulo da frente. Ali atrás, no jardim da cozinha, os muros altos de tijolos vermelhos ainda não tinham deixado entrar o sol acalentador; ainda estava tudo encharcado da chuva que caíra durante a noite. Abrindo caminho por entre os restos da grama não aparada do ano passado, fui cutucando ao longo da parte de baixo do muro até encontrar o que estava procurando: um macinho de folhas brilhantes cujo tom escarlate tornava seus ramos de três folhas fáceis de localizar entre as outras trepadeiras. Puxando um par de luvas de jardinagem de algodão que estavam enfiadas no meu cinto, dei início a uma ruidosa versão assobiada de Bibbidi-Bobbidi-Boo e comecei a trabalhar. Mais tarde, na segurança do meu sanctum sanctorum, meu Santo dos Santos — eu topara com essa deliciosa expressão em uma biografia de Thomas Jefferson e adotei-a como minha —, enfiei as folhas coloridas em uma retorta de vidro, tomando o cuidado de não remover as luvas até que a lustrosa folhagem estivesse seguramente tampada. Agora vinha a parte que eu adorava. Arrolhando a retorta, conectei-a de um lado a um frasco no qual a água já estava fervendo e, de outro, a um tubo de vidro espiralado cuja ponta aberta ficava suspensa sobre uma cuba vazia. Com a água borbulhando furiosamente, observei o vapor encontrar seu caminho através do tubo e escapar para dentro do frasco por entre as folhas. Elas já começavam a se enroscar e amaciar, enquanto o vapor abria pequeninas bolsas entre suas células, liberando os óleos que eram a essência da planta viva. Esse era o modo como os antigos alquimistas praticavam sua arte: fogo e vapor, vapor e fogo. Destilação. Como eu amava esse trabalho. Destilação. Eu pronunciei em voz alta. — Des-ti-la-ção! Fiquei olhando maravilhada como o vapor esfriava e se condensava na serpentina e torci as mãos em êxtase quando a primeira gota de líquido pairou suspensa e depois caiu com um barulhinho no receptáculo que a aguardava. Plop! Depois que a água evaporou até o fim e a operação estava completa, apaguei a chama, apoiei o rosto entre as mãos para observar com fascínio o fluido se depositando na cuba em duas camadas distintas: a água destilada clara no fundo, flutuando sobre um líquido de tom amarelo claro. Era o óleo essencial das folhas. Era chamado urushiol e usado, entre outras coisas, na manufatura do verniz. Enfiei a mão no bolso e extraí de lá um tubo dourado brilhante. Removi a tampa e não pude deixar de sorrir quando se revelou uma ponta vermelha. O batom de Ophelia, surrupiado da gaveta de sua cômoda, juntamente com as pérolas e as pastilhas de menta. E Felinha — Miss Lenço Sujo de Meleca— ainda nem notara que ele se fora. Lembrando-me das pastilhas de menta, joguei uma na boca, esmagando a bala ruidosamente entre os molares. O batom saiu com facilidade do tubo, e reacendi a lamparina a álcool. Era preciso apenas um calor suave para reduzir o material a uma massa de cera. Se Felinha ao menos soubesse que batom era feito de escamas de peixe, ela poderia ficar um pouco menos ávida por besuntar a boca inteira com aquilo. Precisava me lembrar de contar a ela. Sorri arreganhando os dentes. Mais tarde. Com uma pipeta, extraí alguns milímetros do óleo destilado que flutuava na cuba e então, gota a gota, pinguei-o delicadamente na massa de batom derretido, dando à mistura uma vigorosa mexida com uma espátula de madeira. Fino demais, pensei. Baixei um pote e acrescentei uma boa porção de cera de abelhas para restaurar a consistência anterior. Hora de usar as luvas de novo — e o molde de projéteis de ferro, que eu surrupiara do — bastante decente — museu de armas de fogo de Buckshaw. Estranho, não é mesmo, que um batom seja precisamente do mesmo tamanho que uma bala calibre .45? Só uma pequena informação útil. Eu teria de pensar em suas ramificações esta noite, quando estivesse seguramente acomodada em minha cama. Naquele momento, estava ocupada demais. Extraído do molde e resfriado sob água corrente, o batom vermelho reformulado encaixou perfeitamente de volta em seu recipiente dourado. Testei várias vezes para me certificar de que estava funcionando direito. Então recoloquei a tampa. Felinha havia dormido até tarde e ainda estaria embromando no café da manhã. — Onde está meu batom, sua porquinha? O que você fez com ele? — Está na sua gaveta — eu disse. — Reparei nele quando surrupiei suas pérolas. Em minha breve vida, espremida entre duas irmãs, eu tinha necessidade de me tornar mestra da língua afiada. — Não está na minha gaveta. Acabei de olhar e não está lá. — Você pôs os óculos? — indaguei com um sorriso forçado. Muito embora o pai tivesse equipado todas nós com óculos, Felinha se recusava a usar os dela. Os meus continham pouco mais que vidro de janela. Eu os usava somente no laboratório para proteger os olhos, ou quando queria ganhar simpatia. Felinha bateu forte com as palmas das mãos na mesa e saiu da sala tempestuosamente. Voltei a sondar as profundezas de minha segunda tigela de cereais. Depois, escrevi em meu caderno: Sexta-feira, 2 de junho de 1950, 9h42. Aparência da cobaia normal, porém mal-humorada. (Ela não está sempre assim?) O ataque pode variar entre 12 e 72 horas, eu podia esperar. A sra. Mullet, que era baixa, cinzenta e redonda como uma pedra de moinho e que, tenho certeza, via a si mesma como uma personagem de um poema de A. A. Milne, estava na cozinha preparando uma de suas tortas de creme que mais pareciam ser recheadas com pus. Como de costume, estava lutando com o enorme fogão que dominava a pequena e entulhada cozinha. — Oh, srta. Flavia! Venha cá, ajude-me com o forno, querida. Mas, antes que eu pudesse pensar em uma resposta adequada, o pai apareceu atrás de mim. — Flavia, uma palavrinha. — Sua voz estava pesada como o chumbo nas botas de um mergulhador de águas profundas. Relanceei para a sra. Mullet, para ver como ela estava aceitando aquilo. Ela sempre fugia ao menor sinal de desconforto. Certa vez, quando o pai ergueu a voz, ela se enrolou em um tapete e se recusou a sair até que mandassem chamar seu marido. Ela fechou cuidadosamente a tampa do forno como se fosse feita de cristal. — Preciso sair — disse ela. — O almoço está no réchaud. — Obrigado, sra. Mullet — falou o pai. — Nós nos arranjamos. Nós estávamos sempre nos arranjando. Ela abriu a porta da cozinha — e deixou escapar um grito repentino, como um texugo acuado. — Oh, meu bom Deus! Com seu perdão, Coronel De Luce, mas oh, meu bom Deus! O pai e eu tivemos de empurrá-la um pouco para ver. Era um pássaro, um jack snipe — ou bico-de-ferro — morto. Estava caído de costas na soleira da porta, as asas rígidas estendidas como um pequeno pterodátilo, os olhos desagradavelmente velados, o longo bico negro de agulha apontando para cima. Alguma coisa espetada nele se movia com a brisa matinal — um pequenino pedaço de papel. Não, não um pedaço de papel, mas um selo postal. O pai se curvou para olhar mais de perto, então deu um pequeno suspiro. E de repente estava agarrando a garganta, suas mãos tremendo como folhas de álamo no outono, o rosto da cor de cinzas quando molhadas...

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