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Fragilidade (Cód: 1974422)

Carriere,Jean-claude

Objetiva

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Fragilidade

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Descrição

Fazemos de tudo para parecermos fortes, invencíveis, como super-heróis. Mas somos mortais - logo, frágeis - expostos diariamente a perigos físicos e mentais, dos quais fazemos de tudo para esquecer. No entanto, tentamos esconder esta nossa fragilidade, nossa 'essência de vidro', de nós mesmos e dos outros, sem suspeitar de que ela, na verdade, impulsiona nosso dia-a-dia.
A fragilidade aproxima uns dos outros. Segundo Jean-Claude Carrière, sem fragilidade, não há ação, amor ou emoção. Toda forma de expressão - cinema, teatro, ou literatura - está calcada na fragilidade, na vulnerabilidade. 'Eu não poderia amar a mulher de ferro de Metrópolis', diz Carrière. 'Com Shakespeare, Dostoievski, Corneille, Chateaubriand, Balzac e Proust, entre outros, aprendi aquilo que sem dúvida já sabia: um personagem não pode nos tocar a não ser que nós encontremos nele o que chamamos de vulnerabilidade', completa.
Em 'Fragilidade', Carrière oferece ao leitor uma profusão de observações provocadoras, tecendo pensamentos sobre história, literatura e cinema com relatos sobre a existência moderna: aeroportos, campeonatos esportivos, dietas, televisão, terrorismo e guerra. Também faz associações surpreendentes entre sua experiência com os índios Yanomami e a destruição de nosso meio ambiente, o pecado, as utopias, a velhice, a religião, as nações, a ignorância e o saber.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Objetiva
Cód. Barras 9788573028645
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788573028645
Profundidade 0.00 cm
Ano da edição 2007
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 216
Peso 0.44 Kg
Largura 16.00 cm
AutorCarriere,Jean-claude

Leia um trecho

1 Começando pelo fim Viemos todos ao mundo com a etiqueta “frágil”. Um nada nos fere e até mesmo nos mata. Acidente, doença brutal, bomba dentro do metrô, uma guerra, uma bala perdida, um carro que derrapa ou que explode no meio da multidão, um degolador, um curto-circuito, uma cascavel, um passo em falso, tudo pode ser fatal. Inocentes morrem de uma picada de abelha, de uma queda na escada, de um acesso de raiva, de um espirro. Morremos também durante o sono, se nosso coração parar. Temos apenas nosso ser, nada mais somos. Desde nossa chegada ao mundo, estamos à mercê do fi m do ser, ou seja, da morte, e esse risco se agrava à medida que nossa vida avança. Costuma-se dizer: não vemos o fi nal do caminho, sabemos simplesmente que ele se aproxima a cada segundo. O que nos surpreende, o que nós recusamos com indignação, até com um sentimento de injustiça, não é tanto a necessidade de morrer, que aprendemos a aceitar ao longo da vida à custa de ver morrer os outros, mas sim essa instantaneidade imprevisível, essa ausência de garantia de viver algum tempo ainda, de completar esta noite o que empreendemos de manhã. A morte nos espreita a cada instante do nosso percurso. Chegamos a sentir que ela se adianta ao nosso passo, que ela segura nossa mão, que em alguns momentos nos fala em voz baixa. Como sob o efeito de um capricho, de um cansaço súbito ou de abatimento, ela pode de repente decidir que nosso passeio terminou. Aqui, agora. Nem mais um sopro. Vivemos com essa possibilidade de tudo parar subitamente e para sempre, tropeçando, engolindo um osso de galinha, correndo para nos atirar no mar em um dia de calor. Ou mesmo não fazendo nada. Podemos morrer dando um suspiro, como Diderot. Isso para falar apenas nos ataques físicos à nossa pessoa, que nos ferem, mutilam, acabam com a vida, deixando de lado os ataques de surpresa lançados contra nossa consciência, nosso pensamento, contra nossa segurança interior, e outros estragos íntimos, secretos, roedores silenciosos, tanto mais prejudiciais por serem invisíveis. Todo movimento é rondado pela parada. Nenhum se faz para sempre. E o fato de adivinharmos em nós, de maneira permanente, a partir da idade em que nos tornamos capazes de sentir e identifi car as diferenças entre as coisas, diversos movimentos que se sobrepõem – do coração, do sangue, dos pulmões, sem contar os que não sentimos, o crescimento das unhas, do cabelo, a dança dos neurônios, dos glóbulos – só faz exacerbar nosso estado de alerta, pois todos esses movimentos que compõem nossa vida podem a todo momento dar lugar à imobilidade. Sabemos disso. Caso fôssemos, por dentro, de uma estabilidade de mármore, talvez nos sentíssemos mais seguros. Não é o caso. Ameaça comum, banal. Sentimos também, e tudo nos confi rma, que esses movimentos que nos percorrem são estranhamente solidários e que, se um deles pára, os outros o imitam na mesma hora, o que ceifa para sempre nossa vida, mesmo que alguns nostálgicos relatem com orgulho que as unhas do pé de Napoleão continuaram a crescer depois que ele morreu, furando suas botas. Fato banal, parece. Mas as lendas são feitas às vezes desses detalhes. A impressão de solidez maciça que a aparência de um corpo pode dar não oferece nenhuma garantia de duração. Também sabemos disso. Os caniços sobrevivem aos carvalhos. Arquiteturas de músculos podem desabar de uma vez só, mesmo sem tempestade. E o contrário é verdadeiro também: nada mais raquítico do que o corpo de Gandhi. No entanto, nada mais resistente. O Império Britânico inclinou-se diante desse esqueleto. Uma grande coleção de máscaras Nascemos em uma armadilha. Carregamos dentro de nós não apenas a morte, mas a doença, o sofrimento. O perigo é nosso padrinho. Ele nos acolhe em nossa chegada a este mundo sem que tenhamos pedido. Cânceres e infecções diversas estão inscritas em nossa carne bem antes de nos tornarmos conscientes. Nossos inimigos íntimos, nossas ciladas originais vêm ao mundo antes de nós. Sub-repticiamente, como ladrões. Sem chegar a falar das sordidezes que nos serão fatais, carregamos também mil fontes de dores atrozes, nevralgias, todas as “algias” da Terra, nefrites, ciáticas e muito mais. No começo, tudo isso se camufl a e se dissimula. O real se esconde, e provavelmente há muito tempo. Não a realidade do mundo, que algum deus teria maquilado por conta de nós, e cuja complexidade vamos interpretando passo a passo, mas a nossa própria realidade, o que nós somos e o que nós seremos. Nossa imperfeição, de início insuspeitada, é dura de engolir quando chega a hora. Quando a descobrimos, pouco a pouco, nós a dissimulamos como um segredo inconfessável. Calamos as insídias que sentimos em nós. Não queremos admiti-las, nem mesmo conhecê-las. Nós as negamos, a ponto de enlouquecermos por vezes. Os outros, que contudo são exatamente como nós, não devem suspeitar do que somos. Escondemo-nos dos olhos dos outros. Talvez a história das civilizações não seja senão uma série de tentativas, cada vez mais refi nadas, de mascarar nosso verdadeiro rosto. De início, para escondê-lo de nós mesmos e, depois, dos que poderiam alimentar a vontade de nos atacar, de nos sujeitar, bem como a idéia absurda de nos decifrar, de nos revelar. Indivíduos e grupos: todos calam sua fraqueza, ou então a travestem sob aparências de força. Durante muito tempo não soubemos se os outros povos viviam sob as mesmas ameaças que nós, se eles sofriam dos mesmos “maus espíritos”. Talvez fossem mais resistentes, dotados de qualidades animais ou angélicas, vivendo séculos como os patriarcas da Bíblia, ou mesmo poupados pela morte. A descoberta da superfície da Terra pode também ser vista como uma descoberta do sofrimento e da miséria dos outros. Nós nos juntamos na fragilidade. Contudo, mantemos a máscara. Seja escondido atrás do elmo do cavaleiro ou sob o capuz do ativista, o combatente, o valoroso, se esforça para não mostrar sua fragilidade, suas hesitações, seu tremor incontrolável, seus sofrimentos, o medo profundo. Quanto aos povos, eles geralmente confi am às batidas de tambores, aos toques de clarins, aos desfi les o cuidado de esconder o que são. Somos todos Potemkins,* erguemos às pressas, para a passagem da imperatriz, fachadas brilhantes para dissimular, lá atrás, a ausência do construído, do sólido. E a imperatriz, por sua vez, semelhante a todos os soberanos, fi nge acreditar. Escolhe permanecer cega ao estratagema. Por sua vez, ordena que se ergam palácios gloriosos para desviar os olhos da miséria perseverante do povo. Palácios e catedrais. E jardins desenhados milimetricamente, onde nenhuma folha é maior do que outra, para mostrar aos que passeiam a velha natureza submetida, jardins que são um sonho de terra ociosa, elegante desafi o à dura terra dos campos. Toda aparência de grandeza, de duração, é um trompe-l’oeil, no qual freqüentemente acreditamos, aqui e em outro lugar, quer se trate do vivo ou do inerte. Mas o inerte não é senão uma refl exão longínqua. Impossível nos confundirmos com ele e dizer, como se falássemos de uma montanha, que sofremos uma lenta erosão. Só o vivo nos fala de perto. Para nos dizer, ainda e sempre, que ele se quebra. O que não sabemos, no que diz respeito a nossa pessoa, o que possivelmente não saberemos jamais, é nosso grau de fragilidade, ou então, o que dá no mesmo, de resistência. O que podemos exatamente esperar de nós mesmos, empreender, desejar? Em que ponto estamos? Indivíduos, assim como nações, indivíduos, sobretudo, até que ponto podemos esticar nosso fi o? Em que instante nos despedaçaremos? Lá de cima nada nos é dito. Silêncio e perplexidade. Vemos a cada dia mil sinais de que nosso comportamento, quase sempre, é abertamente comandado ou secretamente dirigido pela nossa fragilidade consubstancial, mesmo que, o mais das vezes, prefi ramos não notá-lo. Desde a infância, dizem-nos para olhar à direita e à esquerda *Marechal-de-campo, favorito de Catarina II da Rússia, que desempenhou papel ativo no governo czarista. (N. da T.) antes de atravessar uma rua. Muito cedo sabemos que, se um carro nos pegar, não é ele que vai se arrebentar. Ele não corre o risco da morte, ele que não é senão um objeto. A fragilidade dos objetos, que os leva ao vazadouro, não é da mesma natureza da fragilidade humana, a única que conduz ao que chamamos de morte. Assim, o vidro parece mais frágil do que nós. Mas nós não dizemos que um vaso de vidro pode morrer. Ele pode se quebrar, nós podemos quebrá-lo. É tudo. Contudo, ao cair, ele pode nos ferir gravemente. O frágil está em perigo, mas o frágil é perigoso. Isso vale para o vidro. E para nós também. Morte, onde está sua derrota? A bela morte era antigamente a que um moribundo recebia na sua cama como quem acolhe uma visita esperada há muito tempo, cercado da família, dos amigos, de um padre que lhe trazia os “últimos socorros”, o viático. Sentindo chegar a grande partida, o moribundo se preparava para ela, resolvia seus negócios, abraçava os seus entes queridos, que diziam compartilhar seus sofrimentos à espera de compartilhar seus bens. Ele – ou ela – tinha tempo de considerar a vida que estava deixando para trás, suas vitórias, seus arrependimentos, uma vida que não se reproduziria jamais, um ato único. Ele aceitava, por bem ou por mal, sua condição mortal, o fato de ser efêmero e logo substituído por um outro mortal. Já tinha visto morrer o pai e a mãe na mesma cama onde, chegada sua hora, ele agonizava, como era o esperado, como era a regra universal. Perdia uma por uma suas derradeiras forças. Restava-lhe ainda, no último momento, sufi ciente lucidez para entrever as portas abertas do Paraíso, ou já sentir o calor das chamas sulfurosas do Inferno? Isso dependia provavelmente dos indivíduos e das circunstâncias. Todos vêem o Céu à sua porta. Mais raramente o Inferno. Eu mesmo conheci essa atmosfera particular por diversas vezes, na minha família e com amigos próximos, essa acolhida entristecida reservada ao inevitável, essa compaixão de acompanhamento, as preces entrecortadas de suspiros, de silêncios, as vozes baixas, as últimas respirações, o peito que não mais se levantará. Nesses momentos, não é a fraqueza do moribundo que surpreende mas, ao contrário, sua resistência. A “agonia” – a palavra está dizendo – é o último combate, aquele que sempre perdemos. Sabemos disso. Contudo, ouvimos falar daquele que o enfrenta: “Como ele é forte”, ou então “Como está lutando...” Em linguagem comum: “Ele tem a vida dura, ela resiste, ela tinha de fato a alma presa ao corpo”, como se fosse o trabalho de um artesão de qualidade. Acompanhamos as peripécias dessa batalha como se assistíssemos a um jogo, a uma fi nal. Contamos os pontos, procuramos, sem vê-lo, o árbitro. Às vezes seguramos a mão do combatente como para oferecerlhe ajuda, enxugamos sua testa, molhamos seus lábios, semelhantes ao auxiliar no canto de um boxeur. Nós lhe falamos: ainda está aí? Está nos ouvindo? Tentamos até encorajá-lo: o adversário não agüenta mais, está sem fôlego, vai sair da luta, abandoná-la. Não é o momento de baixar os braços. Descrevendo a agonia de uma velha dama que ele suspeitava ter sido uma das amantes de Luís XV, Chateaubriand nos diz: “Garantiam-lhe ao pé do leito que só sucumbiríamos se nos entregássemos; que se fi cássemos bem atentos e não perdêssemos de vista o inimigo, não morreríamos: ‘Acredito nisso’, ela diz, ‘mas tenho medo de uma distração.’ Ela expirou.” Lúcida ou não, a última luta é total. Pode durar vários dias, uma semana. O fi m é conhecido antecipadamente: e então? Essa morte, que não se vê mais (ao menos entre nós), era como o sinal de uma força, e não de um defeito na armadura. No momento de depositar todas as máscaras e perder defi nitivamente a batalha, a energia do agonizante nos surpreendia, mais do que seu desespero. Ele nos dava razões novas para admirá-lo, uma coragem e um poder que, com freqüência, havia nos escondido até então, reservados por ele para aquele último encargo. Assim como fazem os chefes muito exaltados nas batalhas evidentemente perdidas, ele resistia, ele não se rendia e, mais tarde, nós fi cávamos com a lembrança de uma vitória. Nossa morte hoje é diferente. É asséptica, anônima, parecida com as outras mortes. Nossos últimos instantes se assemelham. Esta morte é não mais do que uma tabuleta de luzes piscantes que se apagam em um hospital, um tubo que é desligado e lavado, uma voz que nos avisa por telefone, uma assinatura no fi nal de uma folha de papel. O parente, o amigo que deixamos vivo, vamos reencontrá-lo morto. Seu último combate, ele o viveu sozinho. Nem chegou a ser um combate, pois outros lutaram no seu lugar. Não o vimos morrer. Seu rosto está agora gelado, rígido, uma cola mantém seus maxilares, seus olhos foram fechados por outras mãos que não as nossas. Último combate escamoteado, uma vez que a consciência já tinha sido perdida, apagada por calmantes efi cazes. Nesse caso, o sentimento de impotência prevalece. Nada temos a admirar, nada de heróico ou de patético para nos lembrarmos, para ser contado nos anos seguintes. A vida não foi defendida. A derrota é total. Na defensiva Nosso sentimento de fragilidade vem menos da morte propriamente dita do que da maneira de morrer. Há mais de um século, temos feito tudo para nos preservar das surpresas tidas como más. Para nos cobrir com a couraça, para nos alertar, nos defender. Alongamos nossa existência, senão nossas vidas. Tentamos nos prover de proteções de todo tipo e inserir em nosso pensamento, expresso ou secreto, um forte sentimento de solidez. Louvamos com freqüência nossos progressos, nossas conquistas. Instalamos ao longo do caminho vigias que chamamos de check-up ou controles. Munimo-nos de vacinas, terapias, cirurgias, medicinas paralelas, tratamentos exóticos, tendo como resultado possivelmente prolongar nossa vida e, junto, nossa inquietude. De fato, nós a agravamos na maioria das vezes, pois bem sabemos que, sejam quais forem nossas defesas, o grande liquidante nos encontrará, mais cedo ou mais tarde, e não nos poupará. Vai nos reconhecer sob nossa maquilagem, nosso rosto remodelado, por trás dos vidros blindados. Nossa fortaleza, por mais consolidada, por mais magnifi camente instalada que tenha sido, deixou fi ssuras entre as pedras. É atacada, como imaginou Tolkien, por tropas de criaturas assustadoras, surgidas de abismos desconhecidos: aids, obesidade, terrorismo suicida, comércio sexual de bebês, vírus ocultos nas sombras, contaminação planetária, fanatismo da virtude de mãos ensangüentadas. Estandartes negros se levantam em toda parte. E a angústia de sermos submergidos é mais forte por acharmos que nossos redutos são inexpugnáveis. O sonho incessante de imortalidade, que volta com regularidade em escritas distraídas, reforça igualmente nosso medo. Antigamente, procurávamos a imortalidade no contato com os deuses, bebendo licores estranhos, recitando litanias mágicas. Sabíamos que era longínqua e, por assim dizer, mítica, reservada a alguns heróis. Ela é hoje anunciada, às vezes profetizada, pelas pesquisas médicas, o que provavelmente dá no mesmo. O mito se deslocou do tabernáculo para o laboratório. O elixir da longuíssima vida, que está sendo preparado, vai ser reembolsado pela Previdência Social? Em caso afi rmativo, durante quanto tempo? Se vivermos por muito tempo, muitíssimo tempo, quem pagará nosso sustento? São questões para o amanhã. Os bebês de hoje terão que resolvê-las. A vida anuncia com fanfarras seu triunfo defi nitivo sobre o nada, para o século que começa ou para o seguinte, o mais tardar. Não para o mundo, bem entendido, mas para alguns, para aqueles que tiverem os meios e que, suprimindo a morte, a sua morte, aceitarem também dizer adeus ao nascimento. Pois um não funciona sem o outro. Nosso planeta já está sobrecarregado. Amanhã teremos que nos empilhar. O que acontecerá se, ainda por cima, indivíduos continuarem nascendo enquanto os velhos param de morrer? Será, pois, preciso parar nesse ponto. E depressa. Para almejar com dinheiro a imortalidade médica, será preciso renunciar a dar a vida, uma outra vida. De uma só vez, a grande estréia da história: não há mais crianças. De agora em diante é proibido nascer. Supomos que nossa evolução natural esteja consumada, que nada pode nos modifi car - nos melhorar? – pela lenta força das coisas. Uma parte da espécie humana se aglutina por trás de uma imensa barragem e permanece lá, imobilizada. É mais ou menos como uma clonagem geral, um mundo de adultos, sem recémchegados, com fi nanças confortáveis e aplicações de longo prazo. Não será o caso para todo mundo, evidentemente. Mas, que os pobres morram como antes é problema deles, eles têm esse direito (aliás é um dos raros direitos que conservaram), e ademais, perguntam-se os ricos, por que eles quereriam a qualquer preço prolongar uma existência de miséria? Eles poderão fazer fi lhos? Veremos. Mas, de qualquer modo, se continuarem a morrer, continuarão a nascer. Não se poderá impedi-los. E como conseqüência, enquanto os ricos vão fi car patinando no lugar, os infortunados evoluirão. Com lentidão, como o Universo, mas com plena certeza. Em qual direção? Ninguém sabe. Talvez, dentro de alguns séculos, com a natureza do lado deles, venham a deixar os clonados bem atrás. No que nos diz respeito, dizem os afortunados, que são também os instruídos, nós somos perfeitos, basta olhar para nós, nós continuamos aqui. Chegamos quase a afi rmar que a morte não é biologicamente programada, que ela não está inscrita na nossa carne. Como se a morte fosse apenas um fenômeno biológico, até bioquímico, quando na verdade ela pode vir de mil ataques exteriores, renovados a cada época e também, freqüentemente, de nós mesmos. “A morte não mata ninguém”, diz um texto hindu antigo. “As criaturas matam a si mesmas e até os deuses morrem.” Voltaremos, provavelmente, aqui e ali, a essa última máscara, a esse desafi o maio r lançado à fragilidade. Desafi o no ar, por enquanto, pois nos proclamamos imortais (amanhã, daqui a pouco), mas vemos os homens e as mulheres caírem sem cessar à nossa volta. Cada jornal televisionado nos fornece nosso contingente de cadáveres. Vemos até novas razões, novas maneiras de morrer: causas sagradas, epidemias, gripe aviária. Asseguram-nos que vírus assustadores estão treinando na maior severidade em campos mantidos secretos, e que vão dentro em breve se abater sobre nossos povos. E o álcool, que abrevia a vida dos russos e de alguns outros. E mais o quê? Qual será o próximo assassino? Assim, no momento, nossa insegurança, longe de desaparecer, está se agravando, assim como nossa angústia, e em certos casos nosso pânico, tendo como conseqüência nosso recurso acelerado aos artifícios, que são os grandes apagadores de preocupações. A decolagem do peso A morte, hoje como ontem, não atinge somente os velhos. Como sempre fez, ela leva, às braçadas, crianças famintas, em toda parte no planeta. Famintas, sem compreender que nasceram para morrer de fome e sem outra defesa que não seja a ajuda trazida de outro lugar, dos países saciados e ventripotentes em que moramos. O contraste é mais impressionante do que nunca. Nossas jovens gerações estão se tornando mais volumosas de um ano para o outro. Nossas multidões engordam. Não apenas somos cada dia mais numerosos, como ocupamos cada vez mais lugar. Entupida de açúcar e gordura, a espécie humana, do lado do Ocidente, ganha peso. Até outro dia, compridas moças descarnadas desfi lavam nas passarelas da moda, com seu andar de polvo, seus joelhos virados para dentro, os braços secos, ameaçando a cada instante se romper ou cair. Estranhos modelos que afi rmavam, que afi rmam ainda, sua palidez, sua fragilidade doentia. Elas pareciam tender ao imponderável, ao virtual. A forma feminina passa neste momento, sob nossos olhos, de um extremo ao outro, da anorexia à obesidade. É como se, não podendo alcançar a longa e magra silhueta proposta, um furor se apoderasse dos corpos, um desejo louco de revanche e até de revolução. Eu não posso ser o que vocês gostariam que eu fosse. Insistem? Ah, é? Então vou fazer vocês pagarem. Vejam-me inchar, vejam o que eu faço com a sua propaganda. Interrogados, os psicólogos nos dizem algumas vezes que essas “sobrecargas ponderais” nas nossas sociedades cevadas são uma defesa de tipo novo contra as agressões vindas do exterior. Seria mais uma vez uma máscara, uma carapaça de um novo tipo, mole e branca. As novas gerações femininas do Ocidente estariam se cercando de gordura como quem prende uma bóia em torno da barriga antes de se atirar na água. Acordam, levantam-se para ir se empanturrar na geladeira da família, como se comer de noite, freqüentemente no escuro, com a única iluminação que vem do interior do móvel frio, fosse um gesto subversivo mas clandestino, já perdoado, que o próprio corpo ignoraria, que seria consumado sem deixar traços. Esses glutões pensam, naquele momento, nos milhões de crianças descarnadas que comem gravetos ou chupam terra? Eu vi um dia, em Miami, quatro jovens americanas enormes comendo em silêncio, no terraço de um restaurante, uma comida pesada e pastosa, regada a refrigerantes viscosos. Elas comiam sem voracidade mas com convicção, demoradamente, como se quisessem engolir o mundo. Quatro jovens ogras a trabalho. Havia ali alguma coisa de trágico, como em A Comilança, um sacrifício expiatório e também, evidentemente, uma impossibilidade de eliminar, por outros meios que não aquele, uma angústia verdadeiramente moderna. Eu olhei com o canto do olho para aquelas quatro moças por um instante, me perguntando o que elas escondiam, qual desespero, qual insatisfação. Pensei também, vendo-as, e penso ainda – todo mundo pensa nisso, como poderia ser de outra maneira? – nos milhões de crianças que a fome assassina. De um lado o excesso, do outro a penúria. Os dois são inseparáveis. E os dois nos matam, seguramente.

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