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Lanier,Jaron

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Descrição

O livro discute os problemas técnicos e culturais que podem resultar de um design digital pouco ponderado e nos alerta que nossos mercados financeiros e sites como a Wikipédia, o Facebook e o Twitter estão elevando a “sabedoria” das multidões e os algoritmos de computador acima da inteligência e da capacidade de julgamento das pessoas. Lanier também nos mostra como a paranoia antigoverno dos anos 1960 influenciou o design do mundo on-line e permitiu a agressividade e a trivialização do discurso on-line; como o compartilhamento de arquivos está matando a classe média artística; como uma crença em um “arrebatamento” tecnológico motiva alguns dos tecnólogos mais influentes do mundo; e por que uma nova tecnologia humanista é necessária. Controverso e fascinante, este livro representa uma profunda defesa dos seres humanos por um autor mais do que qualificado a discorrer sobre como a tecnologia interage com a nossa cultura.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Saraiva
Cód. Barras 9788502101739
Altura 22.40 cm
I.S.B.N. 9788502101739
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2010
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 248
Peso 0.33 Kg
Largura 15.20 cm
AutorLanier,Jaron

Leia um trecho

CAPÍTULO 1 PESSOAS PERDIDAS Um software expressa ideias sobre tudo, desde a natureza de uma nota musical até o que constitui uma pessoa. Um software também está sujeito a um processo excepcionalmente rigoroso de "aprisionamento tecnológico". Dessa forma, as ideias (na era atual, quando as questões humanas são cada vez mais orientadas por software) se tornaram mais um objeto de aprisionamento tecnológico do que em eras anteriores. A maioria das ideias que foram sujeitas ao aprisionamento tecnológico até agora não é tão ruim, mas algumas ideias da chamada web 2.0 são desprezíveis, de forma que precisamos rejeitá-las enquanto ainda podemos. A fala é o espelho da alma; o homem é o que diz. Públio Siro FRAGMENTOS não são pessoas Alguma coisa começou a dar errado na revolução digital na virada do século XXI. A World Wide Web foi varrida por uma onda de designs insignificantes algumas vezes chamados de web 2.0. Essa ideologia promove a liberdade radical na superfície da web, mas essa liberdade, ironicamente, aplica-se mais a máquinas do que a pessoas. Mesmo assim, algumas vezes isso é chamado de "cultura aberta". Comentários anônimos em blogs, insípidas videopegadinhas e mashups sem importância podem parecer triviais e inocentes, mas, como um todo, essa prática disseminada de comunicação impessoal tem rebaixado a interação interpessoal. A comunicação agora é muitas vezes vivenciada como um fenômeno super-humano que se eleva acima das pessoas. Uma nova geração cresceu com uma expectativa reduzida do que uma pessoa pode ser e do que cada pessoa pode se tornar. O MAIS IMPORTANTE DA TECNOLOGIA é como ela muda as pessoas Quando trabalho com gadgets digitais experimentais, com novas variações na realidade virtual, em um ambiente de laboratório, sempre me lembro de como pequenas mudanças nos detalhes de um design digital podem ter profundos e imprevistos efeitos sobre as experiências dos seres humanos que o estão manipulando. A menor mudança em um detalhe aparentemente tão trivial quanto a facilidade de utilização de um botão algumas vezes pode alterar por completo os padrões de comportamento. Por exemplo, Jeremy Bailenson, um pesquisador da Stanford University, tem demonstrado que alterar a altura de seu avatar em uma realidade virtual imersiva transforma a autoestima e a autopercepção social. As tecnologias são extensões de nós mesmos e, da mesma forma como os avatares no laboratório de Jeremy, nossas identidades podem ser alteradas pelas idiossincrasias dos gadgets. É impossível trabalhar com tecnologia da informação sem também se envolver na engenharia social. Alguém pode perguntar: "Se estou muito envolvido em escrever comentários em blogs, enviar mensagens de texto, postar mensagens no Twitter e alterar entradas na Wikipédia, como isso muda quem eu sou?" ou "Se a 'inteligência coletiva' é o meu público, quem sou eu?". Nós, os inventores das tecnologias digitais, somos parecidos com comediantes ou neurocirurgiões, no sentido de que nosso trabalho ressoa com profundas questões filosóficas; infelizmente, temos mostrado há algum tempo que somos péssimos filósofos. Quando os desenvolvedores das tecnologias digitais projetam um programa que requer que você interaja com um computador como se ele fosse uma pessoa, eles pedem que você aceite, em algum canto de seu cérebro, que você também pode ser visto como se fosse um programa. Quando projetam um serviço da Internet editado por uma imensa multidão anônima, eles estão sugerindo que uma multidão aleatória de pessoas é um organismo com um ponto de vista legítimo. Diferentes designs de mídia estimulam diferentes potenciais da natureza humana. Não deveríamos buscar fazer o comportamento de manada ser o mais eficiente possível. Em vez disso, deveríamos buscar inspirar o fenômeno da inteligência individual. "O que é uma pessoa?" Se eu soubesse a resposta a essa questão, talvez pudesse programar uma pessoa artificial em um computador. Mas não posso. Ser uma pessoa não é uma fórmula imutável, mas uma busca, um mistério, um salto de fé. OTIMISMO Seria difícil para qualquer pessoa, quanto mais a um tecnólogo, acordar de manhã sem acreditar que o futuro pode ser melhor do que o passado. Nos anos 1980, quando a Internet só estava disponível a um pequeno número de pioneiros, eu muitas vezes fui confrontado por pessoas que temiam que as estranhas tecnologias nas quais estava trabalhando, como a realidade virtual, pudessem liberar os demônios da natureza humana. Por exemplo, as pessoas se viciariam na realidade virtual como se ela fosse uma droga? Elas poderiam se ver presas na realidade virtual, incapazes de escapar de volta ao mundo físico onde o resto de nós vivia? Algumas das questões eram tolas, mas outras eram visionárias. COMO A POLÍTICA INFLUENCIA a tecnologia da informação Eu fiz parte de um grupo de idealistas na época. Se você almoçasse, nos anos 1980, digamos, comigo e John Perry Barlow, que viria a fundar a Electronic Frontier Foundation, ou Kevin Kelly, que viria a ser o editor fundador da revista Wired, esse era o tipo de ideias que você nos veria discutindo. Os ideais eram importantes no mundo da tecnologia, mas o mecanismo pelo qual os ideais influenciam os eventos é diferente em relação a qualquer outra esfera da vida. Os tecnólogos não utilizam a persuasão para influenciar as pessoas - ou pelos menos eles não fazem isso muito bem. Existem alguns excelentes comunicadores entre nós (como Steve Jobs), mas, em geral, não somos particularmente sedutores. Criamos extensões para o ser, como olhos e ouvidos remotos (webcams e telefones celulares) e memória expandida (o mundo de detalhes que você pode encontrar on-line). Essas extensões se tornam as estruturas por meio das quais você se conecta ao mundo e a outras pessoas. Essas estruturas, por sua vez, podem mudar a forma como você vê a si mesmo e ao mundo. Nós aprimoramos a sua forma de pensar por manipulação direta da sua experiência cognitiva, não indiretamente, pela argumentação. Basta um pequeno grupo de engenheiros para criar uma tecnologia capaz de moldar todo o futuro da experiência humana com uma incrível velocidade. Dessa forma, discussões cruciais sobre o relacionamento do ser humano com a tecnologia deveriam ser conduzidas entre desenvolvedores e usuários antes que essas manipulações diretas sejam projetadas. Este livro diz respeito a essas discussões e argumentações. O design da web, como ela é atualmente, não foi inevitável. No início dos anos 1990, havia talvez dezenas de tentativas viáveis de criar um design para apresentar informações digitais em rede de forma que pudesse atrair uma utilização mais popular. Empresas como a General Magic e a Xanadu desenvolveram designs alternativos com características fundamentalmente diferentes e que nunca chegaram a ser lançados. Uma pessoa sozinha, Tim Berners-Lee, inventou o design específico da web que temos nos dias de hoje. A web, na época de seu lançamento, era minimalista, no sentido de incorporar o mínimo possível do que uma página da Internet viria a ser. Ela também era aberta, no sentido de que não havia preferência a uma arquitetura de página sobre a outra, e todas as páginas eram acessíveis a todos. A web também enfatizava a responsabilidade, porque só o proprietário de um website podia se certificar de que o site fosse disponibilizado à visitação. A motivação inicial de Berners-Lee era atender a uma comunidade de físicos, não o mundo todo. Mesmo assim, o clima com o qual o design da web foi recebido pelos adotantes imediatos foi influenciado por discussões idealistas. No período anterior ao nascimento da web, as ideias eram radicalmente otimistas e ganharam impulso na comunidade e depois no mundo todo. Considerando que criamos tanta coisa do zero quando construímos tecnologias de informação, como escolhemos as melhores opções? O tipo de liberdade radical que encontramos em sistemas digitais vem acompanhado de um desafio moral desnorteante. Nós inventamos tudo... então o que devemos inventar? Infelizmente esse dilema - de ter tanta liberdade - é quimérico. À medida que um programa cresce em termos de tamanho e complexidade, o software pode se transformar em um emaranhado cruel. Quando outros programadores são envolvidos, o programa pode se parecer com um grande labirinto. Se você for esperto o suficiente, pode desenvolver qualquer pequeno programa do zero, mas é necessário um enorme esforço (mais do que um pouco de sorte) para modificar com sucesso um grande programa, em especial se outros programas já dependerem dele. Até os melhores grupos de desenvolvimento de software periodicamente se veem presos em um enxame de bugs e problemas de design. É um prazer escrever pequenos programas em isolamento, mas o processo de manter um software de grande escala é sempre uma tortura. Em função disso, a tecnologia digital tende a levar a psique do programador a uma espécie de esquizofrenia. Existe uma constante confusão entre computadores reais e ideais. Os tecnólogos gostariam que todos os programas se comportassem como um recém-criado e divertido pequeno programa, e utilizarão qualquer estratégia psicológica disponível para evitar pensar com realismo sobre os computadores. A delicada natureza da maturação de programas de computador pode fazer designs digitais ficarem paralisados por um processo chamado "aprisionamento tecnológico". Isso acontece quando muitos programas são projetados para funcionar com um software existente. O processo de alterar significativamente o software em uma situação na qual muitos outros programas dependem dele é extremamente difícil. Dessa forma, ele quase nunca é realizado. VEZ OU OUTRA SURGE um paraíso digital Um dia, no início dos anos 1980, um designer de sintetizadores musicais chamado Dave Smith criou por acaso uma forma de representar notas musicais, o MIDI. Essa abordagem considerava a música do ponto de vista de quem toca com um teclado eletrônico. O MIDI era composto de padrões digitais que representavam eventos do teclado como "key-down" - pressionar uma tecla - e "key-up" - liberar uma tecla. Isso significa que essa representação não conseguia descrever as expressões voluptuosas e breves que um cantor ou um saxofonista é capaz de produzir. Ela só podia descrever o mundo em mosaico de quem toca em um teclado, não o mundo em aquarela do violino. Mas não havia razão para o MIDI se preocupar com a totalidade da expressão musical, já que Dave Smith só queria conectar alguns sintetizadores uns aos outros para ter uma paleta mais variada de sons ao tocar com um único teclado. Apesar de suas limitações, o MIDI se tornou o esquema padrão para a representação musical em software. Programas musicais e sintetizadores foram projetados para trabalhar com o MIDI, e rapidamente passou a ser impraticável alterar ou descartar todo esse software e hardware. O MIDI criou raízes e, apesar de tentativas hercúleas de reformá-lo em muitas ocasiões por um batalhão de poderosas organizações comerciais, acadêmicas e profissionais internacionais ao longo de várias décadas, ele continua sendo o padrão. Os padrões e sua inevitável falta de visão do futuro impuseram um problema para a computação, é claro. Os padrões de ferrovias - as dimensões dos trilhos - constituem um bom exemplo disso. O metrô de Londres foi projetado com trilhos estreitos e túneis de dimensões correspondentes que, em várias linhas, não conseguem acomodar aparelhos de ar-condicionado porque não há espaço para ventilar o ar quente saído dos trens. Em consequência, dezenas de milhares de atuais residentes de uma das cidades mais ricas do mundo são obrigados a usar um meio de transporte em condições sufocantes devido a uma decisão inflexível de design tomada há mais de cem anos. Mas o software é pior do que as ferrovias, porque deve sempre aderir com absoluta perfeição a um caos imensamente específico, arbitrário, confuso e persistente. Os requisitos de engenharia são tão rigorosos e perversos que a adaptação a novos padrões pode ser uma batalha interminável. Dessa forma, apesar de o aprisionamento tecnológico poder ser um gângster no mundo das ferrovias, ele é um tirano absoluto no mundo digital. A VIDA NA SUPERFÍCIE CURVA da Lei de Moore O aspecto inevitável e enervante da tecnologia da informação é que um design específico esporadicamente preencherá um nicho e, uma vez implementado, acabará sendo inalterável. Ele passa a ser um elemento imutável a partir de então, apesar do fato de que um design melhor poderia muito bem ter tomado seu lugar antes da padronização. Um pequeno aborrecimento explode em um problema de dimensões cataclísmicas porque o poder bruto dos computadores cresce exponencialmente. No mundo dos computadores, isso é conhecido como a Lei de Moore. Os computadores ficaram milhões de vezes mais poderosos e imensamente mais comuns e mais conectados desde o início de minha carreira - o que não foi muito tempo atrás. É como se você se ajoelhasse para plantar a semente de uma árvore e ela crescesse tão rápido que engolisse todo o seu quarteirão antes de você conseguir se levantar. Desse modo, o software apresenta o que muitas vezes parece ser um nível injusto de responsabilidade aos tecnólogos. Como os computadores estão ficando mais poderosos em uma velocidade exponencial, os designers e programadores da tecnologia devem ser extremamente cautelosos ao fazer escolhas de design. As consequências de decisões pequenas e inicialmente irrelevantes muitas vezes se estendem para torná-las regras definidoras e imutáveis na vida. O MIDI agora é encontrado no telefone celular e em bilhões de outros dispositivos. Ele é a estrutura sobre a qual quase todas as músicas populares que você ouve são construídas. Grande parte do som que nos cerca - a música ambiente e os bipes sonoros, os tons de chamada e alarmes - é concebida em MIDI. Toda a experiência auditiva humana passou a ser repleta de notas distintas que se encaixam em um grid. Algum dia um design digital para descrever a fala, permitindo que os computadores soem melhor do que hoje quando falam conosco, será sujeito ao aprisionamento tecnológico. Então esse design pode ser adaptado à música e talvez um tipo de música digital mais fluida e expressiva venha a ser desenvolvido. Mas, mesmo se isso acontecer, daqui a mil anos, quando um descendente nosso estiver viajando em velocidades relativísticas para explorar um novo sistema estelar, ele provavelmente se aborrecerá com algum horrível alarme baseado em MIDI para alertá-lo de que seu filtro antimatéria precisa ser recalibrado. O APRISIONAMENTO TECNOLÓGICO transforma pensamentos em fatos Antes do MIDI, uma nota musical era uma ideia insondável que transcendia a definição absoluta. Era uma forma que um músico tinha para pensar ou uma maneira de ensinar e documentar a música. Era uma música mental distinguível da música em si. Pessoas diferentes podiam fazer transcrições da mesma execução musical, por exemplo, e acabar com partituras ligeiramente diferentes. Depois do MIDI, uma nota musical deixou de ser apenas uma ideia, tornando-se uma estrutura rígida e obrigatória que você não tem como evitar em certos aspectos da vida que se tornaram digitais. O processo do aprisionamento tecnológico é como uma onda alterando aos poucos o livro de regras da vida, eliminando as ambiguidades de pensamentos flexíveis à medida que cada vez mais estruturas de pensamento são engessadas em uma realidade permanente. Podemos comparar o aprisionamento tecnológico a um método científico. O filósofo Karl Popper estava certo quando afirmou que a ciência é um processo que desqualifica pensamentos à medida que progride - não é mais possível, por exemplo, acreditar em um planeta plano que surgiu do nada alguns milhares de anos atrás. A ciência elimina ideias empiricamente por um bom motivo. O aprisionamento tecnológico, contudo, elimina opções de design com base na facilidade de programação, no que é politicamente viável, no que está na moda ou no que é criado por acaso. O aprisionamento tecnológico remove ideias que não se adequam ao esquema vencedor de representação digital, mas também reduz ou restringe as ideias que o imortalizam, eliminando a imperscrutável penumbra de significado que distingue uma palavra na linguagem natural de um comando em um programa de computador. Os critérios que orientam a ciência podem ser mais admiráveis do que os que orientam o aprisionamento tecnológico, mas, a menos que consigamos nos sair com um modo totalmente diferente de criar software, não temos como escapar de novos aprisionamentos tecnológicos. O progresso científico, porém, sempre requer determinação e pode ficar paralisado devido a questões políticas, falta de financiamento ou curiosidade. Temos, com isso, um problema interessante: como um músico pode apreciar o conceito mais amplo e menos definido de uma nota que precedeu o MIDI enquanto o utiliza o dia inteiro e interage com outros músicos por meio de seu filtro? Será que vale a pena tentar? Um artista digital não deveria simplesmente se entregar ao aprisionamento tecnológico e aceitar a ideia finita e infinitamente explícita de uma nota MIDI? Se for importante desvendar o mistério em sua totalidade, ponderar coisas que não podem ser definidas - ou representadas em um padrão digital -, precisamos continuamente buscar ideias e objetos completamente novos, abandonando os antigos, como as notas musicais. Ao longo deste livro, investigarei se as pessoas não estão se transformando em notas MIDI - definidas em excesso e restritas na prática ao que pode ser representado em um computador. Isso tem enormes implicações: é possível abandonar notas musicais, mas não podemos abandonar a nós mesmos. Quando Dave Smith criou o MIDI, eu fiquei empolgado. Alguns amigos meus da equipe original do Macintosh rapidamente construíram uma interface de hardware de forma que um Mac pudesse utilizar o MIDI para controlar um sintetizador, e eu trabalhei em um programa de criação de músicas. Nós nos sentíamos tão livres... mas deveríamos ter sido mais ponderados. Agora passou a ser extremamente difícil alterar o MIDI, de forma que a cultura mudou para que ele parecesse ser mais rico do que pretendia ser no início. Nós reduzimos o que esperamos das formas mais comuns de sonoridade musical para que a tecnologia nos seja adequada. Não foi culpa de Dave. Mas quem poderia ter previsto isso? RETIFICAÇÃO DIGITAL: o aprisionamento tecnológico transforma a filosofia em realidade Muitas das ideias sujeitas ao aprisionamento tecnológico referentes à criação de software provêm de um antigo sistema operacional chamado UNIX. Esse sistema operacional tem as mesmas características que vimos em relação ao MIDI. Enquanto o MIDI comprime a expressão musical em um modelo restritivo das ações das teclas de um teclado musical, o UNIX faz o mesmo para toda a computação, mas utilizando as ações das teclas de um teclado de computador. Muitas vezes um programa UNIX é parecido com uma simulação de uma pessoa digitando rapidamente. Existe um recurso básico de design no UNIX chamado de "interface de linha de comando". Nesse sistema, você digita instruções, pressiona o botão "return" e as instruções são executadas. Um princípio de design unificador do UNIX é que o programa não tem como saber se a tecla "return" foi acionada por uma pessoa ou um programa. Como as pessoas reais são mais lentas do que pessoas simuladas na operação de teclados, a importância de um timing preciso é suprimida por essa ideia específica. Em consequência, o UNIX é baseado em eventos distintos que não precisam ocorrer em um momento preciso no tempo. O organismo humano, enquanto isso, baseia-se em processos sensoriais, cognitivos e motores contínuos que precisam ser sincronizados com precisão. (O MIDI fica em algum ponto entre o conceito de tempo incorporado no UNIX e o do corpo humano, sendo baseado em eventos distintos que ocorrem em momentos específicos.) O UNIX expressa uma crença exagerada nos símbolos abstratos distintos e uma crença insuficiente na realidade temporal, contínua e não abstrata; é mais como uma máquina de escrever do que um parceiro de dança. (Talvez as máquinas de escrever ou processadores de texto devessem ter uma reação sempre instantânea, como um parceiro de dança, mas este ainda não é o caso.) O UNIX tende a "querer" se conectar à realidade como se ela fosse uma rede de digitadores ultrarrápidos. Se você espera que os computadores sejam projetados para servir pessoas incorporadas, bem como pessoas possíveis, então precisamos considerar o UNIX um design ruim. Eu descobri isso nos anos 1970, quando tentei fazer instrumentos musicais responsivos com ele. Eu estava tentando fazer o que o MIDI não faz, isto é, trabalhar com aspectos musicais fluidos, de difícil notação, e descobri que a filosofia básica do UNIX era rigorosa e tosca demais para isso. Os argumentos a favor do UNIX se concentravam em como os computadores ficariam literalmente milhões de vezes mais rápidos nas décadas seguintes. A lógica era que o aumento da velocidade sobrepujaria os problemas de timing que me preocupavam. Os computadores atuais são de fato milhões de vezes mais rápidos, e o UNIX se tornou uma parte comum da vida. Foram criadas algumas ferramentas razoavelmente expressivas com o UNIX, de forma que o aumento de velocidade bastou para compensar os problemas do UNIX em alguns casos. Mas nem todos. Eu tenho um iPhone no bolso e, sem dúvida, o aparelho contém algo que pode ser considerado, em essência, o UNIX. Um enervante elemento desse gadget é que ele é assombrado por estranhos e imprevisíveis tempos de espera na interface do usuário. A mente da pessoa espera pela resposta ao apertar de um botão virtual, mas a resposta demora um tempo para vir. Uma estranha tensão se intensifica durante esse momento, e a fácil intuição é substituída pelo nervosismo. É o fantasma do UNIX, ainda se recusando a se adaptar aos ritmos do meu corpo e da minha mente, mesmo depois de todos esses anos. Não quero ser particularmente crítico em relação ao iPhone (que elogiarei em um outro contexto mais adiante). Eu poderia com a mesma facilidade ter escolhido qualquer computador pessoal contemporâneo. O Windows não é o UNIX, mas compartilha a ideia dele de que um símbolo é mais importante do que o fluxo do tempo e a continuidade fundamental da experiência. A relutante relação entre o UNIX e o mundo temporal no qual o corpo humano se move e a mente humana pensa é um exemplo decepcionante de aprisionamento tecnológico, mas não um exemplo desastroso. Pode até ajudar se facilitarmos para as pessoas apreciarem o antiquado mundo físico, à medida que a realidade virtual melhora. Se for o caso, podemos descobrir uma dádiva oculta. AS TRADICIONAIS FILOSOFIAS DO SOFTWARE se tornam invisíveis devido à sua onipresença Uma ideia ainda mais profunda sujeita ao aprisionamento tecnológico é a noção de arquivo. Era uma vez, não muito tempo atrás, vários cientistas da computação que achavam que a ideia de arquivo não era tão boa. O primeiro design de algo parecido com a World Wide Web, o Xanadu de Ted Nelson, concebia, por exemplo, um gigantesco arquivo global. A primeira iteração do Macintosh, que nunca foi lançada, não tinha arquivos. Em vez disso, toda a produtividade do usuário se acumulava em uma grande estrutura, similar a uma web page pessoal. Steve Jobs assumiu o projeto do Mac do sujeito que o iniciou, o finado Jef Raskin, e logo os arquivos foram criados. O UNIX tinha arquivos; o Mac que foi lançado tinha arquivos; o Windows tinha arquivos. Os arquivos agora fazem parte de nossas vidas; ensinamos a ideia de um arquivo a alunos de ciência da computação como se fosse uma parte da natureza. Na verdade, nosso conceito de arquivos pode ser mais persistente do que nossas ideias sobre a natureza. Eu consigo imaginar que um dia os físicos possam nos dizer que é hora de parar de acreditar em fótons, porque eles descobriram um jeito melhor de pensar sobre a luz, mas o arquivo provavelmente sobreviverá. O arquivo é um conjunto de ideias filosóficas incorporadas a um "corpo eterno". As ideias expressas pelo arquivo incluem a noção de que a expressão humana vem em blocos divisíveis que podem ser organizados como folhas em uma árvore abstrata - e que esses blocos têm versões e precisam corresponder a aplicativos compatíveis. O que os arquivos implicam para o futuro da expressão humana? É mais difícil responder a essa pergunta do que à questão: "como a língua inglesa influencia os pensamentos dos falantes nativos do inglês?". Pelo menos você pode comparar falantes do inglês com falantes do chinês, mas os arquivos são universais. A ideia de arquivo se tornou tão grande que somos incapazes de conceber uma estrutura ampla o suficiente para comportá-la e avaliá-la empiricamente. O QUE ACONTECEU COM TRENS, arquivos e notas musicais pode acontecer em breve com a definição de um ser humano Vale tentar observar quando as filosofias começam a se ver engessadas em um software sujeito ao aprisionamento tecnológico. Por exemplo, os pseudônimos ou a anonimidade impregnante são fatores positivos ou negativos? Trata-se de uma questão importante, porque as filosofias correspondentes sobre como os seres humanos podem expressar significado estão tão arraigadas nos designs de software tecnologicamente aprisionados da Internet que podemos nunca ser capazes de nos livrar totalmente delas, ou mesmo nos lembrar de que as coisas poderiam ter sido diferentes. Deveríamos ao menos tentar evitar esse exemplo particularmente ardiloso de aprisionamento tecnológico iminente. O aprisionamento tecnológico nos faz esquecer das liberdades perdidas que tínhamos no passado digital. Isso pode dificultar que enxerguemos as liberdades que temos no presente digital. Felizmente, por mais difícil que seja, ainda podemos tentar mudar algumas expressões filosóficas que estão prestes a se tornar tecnologicamente aprisionadas nas ferramentas que utilizamos para compreendermos uns aos outros e ao mundo. UMA BOA surpresa A ascensão da web foi uma ocorrência rara quando aprendíamos informações novas e positivas sobre o potencial humano. Quem poderia ter imaginado (pelo menos no começo) que milhões de pessoas dedicariam tanto esforço a um projeto, mesmo sem a presença de propaganda, motivos comerciais, ameaça de punição, figuras carismáticas, política de identidade, exploração do medo da morte ou quaisquer dos outros motivadores clássicos da humanidade? Em grande número, as pessoas realizaram algo em cooperação, unicamente por ser uma boa ideia, e foi fantástico. Alguns dos excêntricos mais quixotescos do mundo digital imaginaram que isso aconteceria, mas mesmo assim foi um choque quando realmente aconteceu. Acontece que até uma filosofia otimista e idealista é realizável. Coloque uma filosofia de vida em um software e ela pode muito bem se tornar realidade! A CRÍTICA DA TECNOLOGIA não deveria ser deixada aos ludditas Mas nem todas as surpresas foram boas. Este revolucionário digital ainda acredita na maioria dos adoráveis e profundos ideais que motivaram nosso trabalho tantos anos antes. No centro de tudo havia a doce crença na natureza humana. Acreditávamos que, se déssemos autonomia às pessoas, o resultado seria mais positivo do que negativo. O modo como a Internet se deteriorou desde então é verdadeiramente perverso. A crença central no design inicial da web foi substituída por uma crença diferente na importância de entidades imaginárias sintetizadas pela ideia de que a Internet está ganhando vida e se transformando em uma criatura super-humana. Os designs orientados por esse novo e perverso tipo de crença devolveu as pessoas à escuridão. O modismo da anonimidade desfez a grandiosa "abertura das janelas de todos" dos anos 1990. Apesar de essa reversão ter beneficiado, até certo ponto, os sádicos, o pior efeito é a degradação das pessoas comuns. Parte da razão pela qual isso aconteceu é que o voluntariado se provou uma força extremamente poderosa na primeira iteração da web. Quando as empresas correram para capitalizar os acontecimentos, elas depararam com um problema: o aspecto do conteúdo da web, o lado cultural, vinha funcionando relativamente bem sem um plano de negócios. O Google chegou com a ideia de vincular a propaganda às buscas, mas esse negócio ficou na periferia do que as pessoas realmente faziam on-line. Ele teve efeitos indiretos, mas não diretos. As primeiras ondas de atividade na web foram notadamente enérgicas e tinham uma qualidade pessoal. As pessoas criavam páginas pessoais e cada uma delas era diferente e muitas vezes estranha. A web tinha um sabor especial. Os empreendedores naturalmente buscaram criar produtos que inspirariam demanda (ou pelo menos oportunidades hipotéticas de propaganda que um dia pudessem concorrer com o Google), em que não existia uma necessidade a ser satisfeita além da ganância. O Google tinha descoberto um novo nicho permanentemente entrincheirado, possibilitado pela natureza da tecnologia digital. Acontece que o sistema digital, criado para representar pessoas e anúncios para que possa haver uma correspondência entre eles, é como o MIDI. É um exemplo de como a tecnologia digital pode provocar um crescimento explosivo da importância do "efeito de rede". Cada elemento do sistema - cada computador, cada pessoa, cada bit - passa a depender de uma adesão opressivamente detalhada a um padrão comum, um ponto de troca comum. Diferentemente do MIDI, o padrão do software secreto do Google fica oculto em sua nuvem computacional, em vez de ser replicado no seu bolso. Qualquer pessoa que queira anunciar deve utilizar esse padrão ou ficará de fora, no frio, relegada a uma minúscula e irrelevante subcultura, da mesma forma como músicos digitais devem utilizar o MIDI para trabalhar juntos no ambiente digital. No caso do Google, o monopólio é opaco e patenteado. (Algumas vezes nichos digitais tecnologicamente aprisionados são patenteados, e algumas vezes não. A dinâmica é a mesma em qualquer caso, apesar de as implicações comerciais poderem ser muito diferentes.) Só pode haver um participante ocupando o nicho do Google, de forma que a maioria dos esquemas competitivos criados posteriormente não conseguiu ganhar dinheiro. Gigantes como o Facebook alteraram a cultura com intenções comerciais, mas sem, até o momento da escrita deste texto, êxito comercial. Em minha opinião, existiam inúmeras formas nas quais novos sucessos comerciais poderiam ter se concretizado, mas a crença dos nerds orientou os empreendedores a uma trajetória específica. A produtividade voluntária precisava ser commoditizada porque o tipo de crença que estou criticando prospera quando é possível fingir que os computadores fazem tudo e as pessoas não fazem nada. Uma série interminável de estratagemas apoiados por gigantescos investimentos incentivou jovens que entravam no mundo on-line pela primeira vez a criar presenças padronizadas em sites como o Facebook. Interesses comerciais promoveram a ampla adoção de designs padronizados como os blogs, e esses designs incentivaram o uso de pseudônimos em pelo menos alguns aspectos de seus designs, como os comentários, em vez da orgulhosa extroversão que caracterizou a primeira onda da cultura da web. Em vez de pessoas sendo tratadas como as fontes da própria criatividade, sites de abstração e agregação comercial apresentavam fragmentos anônimos de criatividade como produtos que poderiam ter caído do céu ou ter sido desenterrados do chão, ocultando as verdadeiras fontes. A ASCENSÃO de uma tribo Chegamos a este ponto porque uma subcultura de tecnólogos recentemente se tornou mais influente do que as outras. A subcultura vencedora não tem um nome formal, mas em algumas ocasiões tenho chamado os seus membros de "totalitaristas cibernéticos" ou "maoístas digitais". A tribo ascendente é composta dos sujeitos do mundo da cultura aberta/Creative Commons, a comunidade do Linux, dos sujeitos associados à abordagem de inteligência artificial à ciência da computação, do pessoal da web 2.0, dos compartilhadores e remixadores de arquivo sem contexto e uma variedade de outros. Sua capital é o Vale do Silício, mas eles têm bases de poder no mundo todo, onde quer que a cultura digital esteja sendo criada. Seus blogs preferidos incluem o Boing Boing, o TechCrunch e o Slashdot, e sua embaixada em seu país de origem é a Wired. Naturalmente, estou retratando esse panorama com amplas pinceladas; nem todos os membros dos grupos que mencionei apoiam todas as crenças que estou criticando. Na verdade, o problema do pensamento de grupo com o qual me preocupo não está tanto nas mentes dos tecnólogos em si, mas nas mentes dos usuários das ferramentas que os totalitaristas cibernéticos estão promovendo. O erro fundamental da recente cultura digital é segmentar uma rede de pessoas em pedaços tão pequenos que você acaba com uma massa disforme. Então você começa a se preocupar mais com a abstração da rede do que com as pessoas reais que participam dela, apesar de a rede por si só ser totalmente inexpressiva. Só as pessoas têm alguma importância. Quando me refiro à tribo, não estou escrevendo sobre "eles", em oposição a "nós". Os membros da tribo são meus velhos amigos, meus mentores, meus alunos, meus colegas e as pessoas que viajam comigo. Muitos de meus amigos discordam de mim. E é um alívio me sentir livre para me expressar sabendo que ainda serei bem recebido em nosso mundo. No entanto, sei que também existe uma tradição distinta na ciência da computação, a tradição humanista. Algumas das personalidades mais famosas dessa tradição incluem o finado Joseph Weizenbaum, Ted Nelson, Terry Winograd, Alan Kay, Bill Buxton, Doug Engelbart, Brian Cantwell Smith, Henry Fuchs, Ken Perlin, Ben Shneiderman (que inventou a ideia de clicar em um link) e Andy Van Dam, um brilhante professor que tem influenciado gerações de protégés, incluindo Randy Pausch. Uma outra importante personalidade da computação humanista é David Gelernter, que concebeu uma enorme parte dos fundamentos técnicos do que passou a ser chamado de computação em nuvem, bem como muitas das aplicações práticas potenciais das nuvens. Mesmo assim, devemos notar que o humanismo na ciência da computação não parece se correlacionar com qualquer estilo cultural particular. Por exemplo, Ted Nelson é uma criatura dos anos 1960, autor do que pode ter sido o primeiro musical de rock (Anything & Everything), uma espécie de andarilho e uma figura da contracultura - se é que já existiu uma. David Gelernter, porém, é um conservador cultural e político que escreve para periódicos como Commentary e leciona na Yale. Mesmo assim eu encontro inspiração no trabalho dos dois. UMA ARMADILHA para uma tribo As intenções da tribo totalitarista cibernética são boas. Eles estão simplesmente seguindo um caminho aberto no passado por freudianos e marxistas bem-intencionados - e eu não estou sendo irônico. Estou pensando nas primeiras encarnações do marxismo, por exemplo, antes de o stalinismo e o maoísmo matarem milhões de pessoas. Movimentos associados a Freud e Marx alegavam que se fundamentavam na racionalidade e no conhecimento científico do mundo. Os dois movimentos acreditavam estar em guerra contra as estranhas e manipuladoras fantasias das religiões. Mas ambos inventaram as próprias fantasias, que eram tão estranhas quanto as religiosas. E a mesma coisa está voltando a acontecer. Um movimento que se autoproclama materialista e que tenta se fundamentar na ciência começa muito rapidamente a se parecer com uma religião. Ele de imediato apresenta a própria escatologia e as próprias revelações sobre o que realmente está acontecendo - eventos ominosos que só os iniciados conseguem identificar. A Singularidade e a noosfera, a ideia de que uma consciência surge de todos os usuários na web, ecoam o determinismo social marxista e a racionalização das perversões de acordo com Freud. Nós mergulhamos na investigação científica e cética por nossa própria conta e risco, da mesma forma como os marxistas e os freudianos. Os prematuros redutores de mistérios estão sujeitos a divisões e discórdias, como os marxistas e os freudianos sempre estiveram. Eles acham incrível eu perceber uma semelhança no fato de eles pertencerem à tribo. Para eles, os sistemas Linux e UNIX são completamente diferentes, por exemplo, enquanto para mim eles são pontos coincidentes em um amplo panorama de possibilidades, mesmo se grande parte desse panorama já tiver sido esquecida nos dias de hoje. De qualquer forma, o futuro da religião será definido pelas excentricidades do software que se sujeitará ao aprisionamento tecnológico nas próximas décadas, da mesma forma como o futuro das notas musicais e da pessoalidade. ESTAMOS EM UMA jornada Chegou a hora de fazermos um balanço. Algo incrível aconteceu com o advento da World Wide Web. Uma crença na bondade humana foi justificada quando uma ferramenta de informações notadamente aberta e não estruturada foi disponibilizada a um grande número de pessoas. Essa abertura pode, neste ponto, ser declarada "tecnologicamente aprisionada" em certa extensão. Viva! Ao mesmo tempo, algumas ideias não tão boas relativas à vida e ao significado também foram aprisionadas, como o conceito de sonoridade musical sem nuances do MIDI e a incapacidade do UNIX de lidar com o tempo como os seres humanos o vivenciam. Esses são custos aceitáveis, que eu chamaria de perdas estéticas. Eles são contrabalançados, contudo, por algumas vitórias estéticas. O mundo digital parece ser melhor do que soa porque uma comunidade de ativistas digitais, incluindo sujeitos do Xerox Parc (especialmente Alan Kay), da Apple, da Adobe e do mundo acadêmico (especialmente Don Knuth, da Stanford), lutaram a batalha do bem para nos salvar de tipologias inflexíveis e feias e outros elementos visuais dos quais, de outra forma, não conseguiríamos escapar. Depois existem esses elementos recém-concebidos do futuro da experiência humana, como a ideia já tecnologicamente aprisionada do arquivo, que são tão fundamentais quanto o ar que respiramos. O arquivo daqui em diante será um dos elementos subjacentes básicos da história humana, como os genes. Nunca saberemos o que isso significa ou o que as alternativas poderiam ter implicado. No cômputo geral, o resultado é excelente! Mas o desafio atual é diferente dos anteriores. Os novos designs prestes a serem tecnologicamente aprisionados, os designs da web 2.0, exigem que as pessoas se definam ativamente. É uma coisa lançar um conceito limitado da música ou do tempo na competição de qual ideia filosófica será tecnologicamente aprisionada. É outra coisa fazer isso com a ideia do que é ser uma pessoa. POR QUE ISSO É importante? Se você se sente bem com as ferramentas que utiliza, quem sou eu para dizer que há algo de errado nisso? Mas pense nos seguintes pontos: ‹› Enfatizar a multidão significa tirar a ênfase dos seres humanos individuais no design da sociedade e, quando você pede que as pessoas não sejam pessoas, elas voltam a se comportar mal, como uma horda. Isso leva não apenas a trolls com mais poder, mas a um mundo on-line em geral inamistoso e não construtivo. Precisamos pensar agora nas camadas digitais que estamos construindo para beneficiar as gerações futuras. Devemos ser otimistas e pensar que a civilização sobreviverá a este século desafiador e tentar criar o melhor mundo possível para os que herdarão o fruto de nossos esforços. ‹› As finanças foram transformadas pelas nuvens computacionais. O sucesso nas finanças passou a estar cada vez mais relacionado à manipulação da nuvem, em detrimento de princípios financeiros sólidos. ‹› Existem propostas para conduzir a ciência numa direção similar. Os cientistas então terão um menor entendimento do que fazem. ‹› A cultura pop entrou em uma indisposição nostálgica. A cultura on-line é dominada por mashups triviais da cultura que existia antes da origem dos mashups e por aplausos ao definhamento dos postos avançados da mídia de massa centralizada. É uma cultura de reação sem ação. ‹› Espiritualidade é cometer suicídio. Consciência é tentar deixar de existir. Pode parecer que estou reunindo um catálogo de todos os detalhes possíveis que podem dar errado no futuro da cultura devido às alterações provocadas pela tecnologia, mas esse não é o caso. Todos esses exemplos são na verdade apenas diferentes aspectos de um grande e inigualável erro. O profundo significado da pessoalidade está sendo reduzido por ilusões de bits. Como, de agora em diante, as pessoas estarão inexoravelmente se conectando umas com as outras por meio de computadores, precisamos encontrar uma alternativa. Diante dos vários problemas que o mundo enfrenta hoje, discussões sobre a cultura on-line podem não parecer tão prementes. Precisamos lidar com o aquecimento global, mudar para um novo ciclo de energia, evitar guerras de destruição em massa, sustentar populações em envelhecimento, descobrir como nos beneficiar dos mercados abertos sem ficarmos desastrosamente vulneráveis a seus fracassos e cuidar de outros aspectos básicos. Mas a cultura digital e tópicos relacionados ao futuro da privacidade e dos direitos autorais são questões pertinentes à sociedade futura se conseguirmos sobreviver a tudo isso. Cada causa para salvar o mundo tem uma lista de sugestões para "o que cada um de nós pode fazer": ir de bicicleta ao trabalho, reciclar e assim por diante. Eu posso propor uma lista como esta, referente aos problemas que discuto neste livro: ‹› Não poste uma mensagem anonimamente a não ser que você realmente esteja em perigo. ‹› Se você se esforça para ajudar na elaboração de artigos da Wikipédia, empenhe-se ainda mais para utilizar sua voz e expressão pessoais fora do wiki para ajudar a atrair pessoas que ainda não sabem que podem se interessar pelos tópicos com os quais você contribui. ‹› Crie um website que expresse algo sobre quem você é e que não se encaixe no modelo disponível para você em um site de rede de relacionamentos sociais. ‹› Publique de tempos em tempos um vídeo que levou cem vezes mais tempo para criar do que leva para assistir. ‹› Escreva em um blog uma mensagem que levou semanas de reflexão antes de você ter ouvido a voz interior que exigia expressão. ‹› Se você postar mensagens no Twitter, inove para encontrar uma maneira de descrever o seu estado interior em vez de eventos externos triviais para evitar o perigo cada vez maior de acreditar que você é definido pela descrição de eventos objetivos, como se fosse uma máquina. Essas são algumas das coisas que você pode fazer para ser uma pessoa em vez de uma fonte de fragmentos a serem explorados pelos outros. Existem aspectos de todos esses designs de software que poderiam ser mantidos de modo mais humanista. Um design que compartilhasse o recurso do Twitter de proporcionar um contato contínuo entre as pessoas talvez pudesse abandonar a adoração do Twitter por fragmentos. Não sabemos ao certo, por se tratar de um espaço de design inexplorado. Se você não for definido pelo software, estará ajudando a ampliar a identidade das ideias que serão tecnologicamente aprisionadas para as gerações futuras. Na maioria das áreas de expressão humana, não há problemas se uma pessoa adorar o veículo que tem disponível para trabalhar. Adore a tinta se for um pintor, adore um clarinete se for um músico. Adore sua língua natal (ou a odeie). O amor a essas coisas é um amor de mistério. Mas, no caso dos materiais criativos digitais, como o MIDI, o UNIX ou até a World Wide Web, é uma boa ideia manter uma postura cética. Esses designs foram criados muito recentemente, e a qualidade deles é fortuita e acidental. Resista aos caminhos fáceis que o orientam. Se você adorar um veículo feito de software, corre o perigo de ficar aprisionado nos recentes pensamentos descuidados de alguém. Lute contra isso! A IMPORTÂNCIA DA política digital Houve uma campanha ativa nos anos 1980 e 1990 para promover a elegância visual no software. Esse movimento político gerou frutos quando influenciou engenheiros de empresas como a Apple e a Microsoft, que tinham uma chance de definir o direcionamento que o software estava tomando antes de o aprisionamento tecnológico tornar seus esforços questionáveis. É por isso que temos hoje tipologias agradáveis e opções de design flexíveis nas telas. De outra forma, isso não teria ocorrido. A força aparentemente invencível das correntes predominantes no mundo dos engenheiros de software estava forçando a computação na direção de telas feias, mas esse destino foi evitado antes que fosse tarde demais. Uma campanha similar deveria estar ocorrendo agora, influenciando engenheiros, designers, executivos e todas as pessoas a apoiar alternativas humanistas sempre que possível. Infelizmente, contudo, o oposto parece estar ocorrendo. A cultura on-line está cheia até a borda de uma retórica sobre qual deveria ser o caminho para um mundo melhor e, nos dias de hoje, esse discurso tende intensamente na direção de uma forma anti-humana de pensar. O FUTURO A verdadeira natureza da Internet é um dos temas mais comuns do discurso on-line. É notável que a Internet tenha crescido o suficiente para conter o enorme número de comentários sobre a própria natureza. A promoção da mais recente ortodoxia tecno-política-cultural, que estou criticando, tornou-se incessante e generalizada. O New York Times, por exemplo, promove diariamente a chamada política aberta, apesar de esse ideal e do movimento por trás dele estarem destruindo aquele jornal, bem como outros periódicos. Parece ser um caso de Síndrome de Estocolmo jornalística. Ainda não foi feita uma representação pública adequada de uma visão de mundo alternativa que se oponha à nova ortodoxia. Para me opor à ortodoxia, preciso dar mais do que alguns poucos golpes. Eu também preciso perceber um ambiente intelectual alternativo que seja amplo o suficiente para perambular nele. Alguém que esteja profundamente imerso na ortodoxia precisa vivenciar uma reversão do tipo "figura e fundo" para obter uma nova perspectiva. Isso não resultará da exposição a apenas alguns pensamentos heterodoxos, mas apenas de uma nova e abrangente arquitetura de pensamentos interconectados que possam engolfar uma pessoa em uma visão de mundo diferente. Dessa forma, neste livro, eu relato uma longa história de crença nos opostos do computacionalismo, a noosfera, a Singularidade, a web 2.0, a cauda longa e todo o resto. Espero que esta minha oposição consiga promover um ambiente mental alternativo no qual a empolgante oportunidade de começar a criar um novo humanismo digital possa ter início. Um efeito colateral inevitável deste projeto de desprogramação pela imersão é que eu direcionarei um fluxo sustentado de negatividade nas ideias que estou criticando. Leitores, fiquem certos de que a negatividade mais cedo ou mais tarde esmorecerá e que os últimos capítulos assumirão um tom otimista.

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