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Getúlio (1945-1954) - da Volta Pela Consagração Popular ao Suicídio (Cód: 7823606)

Neto, Lira

Companhia Das Letras

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Descrição

Na terceira e última parte da consagrada série biográfica sobre Getúlio Vargas, Lira Neto reconstitui os acontecimentos políticos e pessoais mais importantes dos anos finais do ex-presidente. Entre a deposição por um golpe militar, em outubro de 1945, e o suicídio, em agosto de 1954, o livro revela como a história do Brasil se entrançou com a vida de Getúlio, inclusive enquanto afastado do poder.

“Entrei para o governo por uma revolução, saí por uma quartelada”, lamentou-se Getúlio Vargas numa carta enviada de seu exílio rural em São Borja (RS), em novembro de 1945, ao amigo e correligionário João Neves da Fontoura. Depois de quinze anos no Palácio do Catete, emendando na sequência da Revolução de 1930 a chefia dos governos provisório e constitucional e a ditadura do Estado Novo, Getúlio fora obrigado a se retirar para sua região natal, na fronteira entre o Brasil e a Argentina, pelos mesmos militares que haviam apoiado seu projeto nacionalista de poder.

Os tempos estavam mudados, a Segunda Guerra Mundial já era história e ao ex-ditador, convertido num modesto estancieiro, apenas restavam as distrações das cavalgadas, do mate e dos charutos.
Mas Getúlio, animal político com aguçado senso de sobrevivência, não estava totalmente acabado, apesar do que pensavam os jornais do Rio de Janeiro, quase todos alinhados ao conservadorismo da União Democrática Nacional (UDN) e do Partido Social Democrático (PSD).

Sua filha Alzira — que havia permanecido na capital federal na companhia do marido, Ernani do Amaral Peixoto, e da mãe, Darcy — tornou-se uma espécie de embaixadora plenipotenciária do getulismo, possibilitando ao ex-presidente perscrutar os bastidores do governo do general Eurico Gaspar Dutra e manter o controle sobre o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Com sua consagradora eleição ao Senado e as imunidades de constituinte, em 1946 Getúlio pôde voltar ao Rio de Janeiro num primeiro movimento de preparação do almejado retorno ao Catete.

Mas a hostilidade aberta da oposição udenista e as tentações de uma velhice tranquila no pampa gaúcho fizeram de seu mandato parlamentar pelo PTB um breve interlúdio do confinamento em São Borja, com raras aparições em plenário. Alzira, sempre no Rio, permaneceu no entanto sua conselheira e informante privilegiada por meio de detalhadas cartas-relatórios.

Apesar da derrota de candidatos que havia apoiado nas eleições regionais de 1947 e 48, Getúlio deu sinais à imprensa, com a sagacidade que lhe era peculiar, de que poderia tentar reconquistar o protagonismo político. O movimento queremista, que jamais havia se apagado, explodiu em todo o país, exigindo a candidatura do senador e “pai dos pobres” à presidência da República.

O retorno triunfal ao Catete, com a esmagadora votação obtida nas eleições de outubro de 1950, deu início a um dos períodos mais conturbados da política brasileira. A oposição ferrenha do udenismo e da imprensa, personificada pelo jornalista Carlos Lacerda, combateu incessantemente todas as iniciativas populares (ou populistas) do segundo governo Getúlio. Realizações como a fundação da Petrobras e o aumento do salário mínimo foram ofuscadas por um sinistro clima de guerra psicológica.

O “mar de lama” denunciado à exaustão por seus inimigos manietou o envelhecido presidente, dividido entre os afagos à classe trabalhadora e a obediência devida à praxe anticomunista da Guerra Fria. O atentado a Lacerda — coberto ainda hoje de mistérios e para o qual o livro apresenta múltiplas possibilidades e versões —, no início de agosto de 1954, foram a senha para a precipitação dos acontecimentos. Acuado por um iminente golpe militar, Getúlio chegou a esboçar uma resistência, mas, politicamente isolado, preferiu o suicídio à desonra da renúncia.

Nos sessenta anos desse desfecho trágico, Lira Neto reconstitui todos os lances do tenso xadrez político que se entrelaçou com os últimos anos da vida de Getúlio. Amparado numa minuciosa pesquisa, que incluiu centenas de livros e milhares de páginas de manuscritos e documentos originais, o autor elucida um período capital da história do Brasil e interpreta a personalidade de seu mais importante ator político no século XX.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Companhia Das Letras
Cód. Barras 9788535924701
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788535924701
Profundidade 2.60 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2014
Idioma Português
Número de Páginas 432
Peso 0.62 Kg
Largura 16.00 cm
AutorNeto, Lira

Leia um trecho

1. “Talvez só com meu sacrifício eu consiga libertar-me das mesquinharias”, escreveu Getúlio em São Borja (1945) De acordo com os anúncios publicados nos jornais e revistas da época, o remédio disponível em vidrinhos de cor marrom e rótulo esverdeado prometia “dias calmos” e “noites mais relaxantes”.1 Recomendado como tranquilizante, antiespasmódico e analgésico, o Nembutal — nome comercial do pentobarbital sódico — possuía indicações paralelas, de amplo conhecimento público. Barbitúrico poderoso, comercializado na forma de drágeas e elixir em todo o mundodesde 1930, a droga sempre fora empregada também para fins veterinários, ministrada por via endovenosa, nos casos de necessidade de anestesia cirúrgica ou mesmo, em altas dosagens, para o sacrifício de animais. O noticiário daquele tempo estava cheio de casos de enamorados de coração partido, empresários arruinados e melancólicos em geral que recorriam ao mesmo artifício para abreviar a existência de forma rápida, certeira e praticamente indolor. Bastava uma dose muito além da prescrita para fazer do Nembutal uma porção mortífera. Naquele final de 1945, após quinze anos ininterruptos no exercício do podermáximo da República, um humilhado Getúlio Vargas retornara a São Borja, na qualidade de cidadão comum, recebido como “hóspede” na velha propriedade dafamília, a estância Santos Reis, da qual era sócio minoritário. De lá, em carta à filha Alzira — que ficara no Rio de Janeiro, ao lado do marido, Ernani do Amaral Peixoto —, solicitou a remessa de dois frascos de Nembutal para abastecer as gavetas da mesinha de cabeceira, já entulhadas de medicamentos. À primeira vista, não havia nada de estranho no pedido. O ex-presidente, aos 63 anos, utilizava uma quantidade considerável de remédios para combater insônias, enxaquecas, indisposições estomacais, dores ósseas, incômodos renais e aflições musculares recursivas. Ampolas de Sterogyl, fonte de vitamina D, entravam como coadjuvantes nesse coquetel diário, remetido a Santos Reis em lotes periódicos, que chegavam pelas mãos de portadores de confiança — os mesmos que lhe levavam as cartas, os jornais do Rio e os exemplares da revista de variedades Fon-Fon!, a preferida do destinatário. Ao longo dos anos seguintes, amigos, parentes e políticos que passaram a visitá-lo em São Borja fariam as vezes de solícitos pombos-correios.3 Getúlio utilizava o Nembutal como analgésico e sonífero, dadas as queixas mencionadas insistentemente em sua correspondência familiar. Entretanto, é improvável que desconhecesse os efeitos letais da droga, capaz de induzir o coma e provocar paradas respiratórias e cardíacas de modo instantâneo, tendo sido por isso mesmo utilizada em alguns países para casos de eutanásia e suicídio assistido. Em se tratando de Getúlio, há um histórico de bilhetes, anotações e cartas que não pode ser desprezado. Quando confrontado com situações-limite, já dera sinais de que a hipótese da autoimolação seria, no seu entender, a única forma de responder com alguma decência aos agressores. Por mais de uma ocasião deixara evidente que jamais aceitaria conviver com o estigma da infâmia e da traição. Não se tratava da ideia fixa de um homem depressivo. Para Getúlio, a possibilidade do sacrifício pessoal era relacionada a uma questão de brio, de preservação da honra, de um sentido heroico de posteridade. Basta recuar um pouco no tempo para que não restem dúvidas a respeito disso. Ainda em 1930, no dia 3 de outubro, data da eclosão do movimento civil-militar que o levou ao poder, Getúlio plantara no diário um primeiro registro de teor abertamente fatalista: “Quatro e meia. Aproxima-se a hora. […] E se perdermos?Serei depois apontado como o responsável, por despeito, por ambição, quem sabe. Sinto que só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso”. Três dias depois, já a bordo do comboio revolucionário, reforçou: “Começo a fazer meus preparativos a fim de seguir para o teatro de operações, no Paraná. Desejo fazê-lo, porque esse é o meu dever, decidido a não regressar vivo ao Rio Grande, se não for vencedor”. Getúlio venceu e se tornou presidente. Porém, cerca de dois anos mais tarde, em 10 de julho de 1932, no dia seguinte ao estopim da chamada Revolução Constitucionalista de São Paulo, sentindo-se acuado e traído pelos chefes militares, rabiscou uma inconfundível carta de despedida: “Reservava para mim o direito de morrer como soldado, combatendo pela causa que abraçara. A ignomínia duma revolução branca não m’o permitiu. Escolho a única solução digna para não cair em desonra, nem sair pelo ridículo”.6 Mais uma vez, ao contrário de uma resignação acabrunhada, a mensagem apontava para um gesto de resistência ativa, na qual a apresentação do próprio cadáver funcionaria como a melhor insígnia de altivez e coragem. Os paulistas foram derrotados e Getúlio continuou governando nos anos seguintes, com poderes cada vez mais dilatados. Entretanto, em 19 de janeiro de 1942, ao receber no Palácio Guanabara o então subsecretário de Estado norte-americano, Sumner Welles, registrou em seu diário uma nova advertência de que não se permitiria passar à história como um líder vencido — ou como alguémque arrastara seu país a uma catástrofe irreparável. Welles lhe fizera ver que a posição geográfica do território brasileiro seria crucial para os Estados Unidos, uma vez que ainda se cogitava a possível invasão nazista ao continente pela América Latina. “Respondi-lhe que ele poderia contar com o Brasil, mas que nessa decisão eu jogava a minha vida, porque não sobreviveria a um desastre para a minha pátria”. A decisão de Getúlio se mostrou a mais acertada. O país entrou na guerra como parceiro dos Aliados e o Eixo nazifascista foi batido. Mas em abril de 1945, tão logo percebeu os indícios de que a cúpula do Exército brasileiro tramava sua deposição, Getúlio voltou à carga ainda mais enfático. “Resistir à violência para me depor do governo é um dever. Primeiro, porque não resistir seria um ato de fraqueza, incompatível com a dignidade do cargo e a felonia dos agressores. Segundo, porque constituiria um mau exemplo para o futuro.” Categórico, completou: “Lúcido e consciente, estou resolvido ao sacrifício para que ele fique como um protesto, marcando a consciência dos traidores. […] Sinto que o povo brasileiro, a quem nunca faltei, no amor que por ele tenho e na defesa de seus direitos e legítimos interesses, está comigo. Ele me fará justiça!”. Era sempre a mesma convicção de que a história o absolveria, de que o gesto extremo neutralizaria a crise e desnudaria a sanha dos inimigos. O detalhe de nunca ter executado, até então, o plano tantas vezes arquitetado se devia ao fato de em todas as ocasiões anteriores o cenário ter revertido rapidamente a seu favor. No dia 29 de outubro de 1945, contudo, aceitara a humilhante queda sem esboçar reação. Pedira apenas 48 horas para encaixotar objetos pessoais e abandonar o palácio. Talvez no íntimo já planejasse o próprio retorno, como sugeria o depoimento do sobrinho Serafim Dornelles, que o acompanhou no voo do Rio de Janeiro a São Borja. “Deves ter ouvido dizer que a política se assemelha a um jogo de xadrez. Indiscutivelmente, em alguns pontos se assemelham”, teria dito Getúlio a Serafim. “Por exemplo, eu sou uma pedra que foi movida da posição que ocupava. E eles pensam que vou permanecer onde me colocaram. É o grande erro deles. Não sabem que vamos começar um novo jogo — e com todas as pedras de volta ao tabuleiro.” Apesar do prognóstico, o ambiente era de indefinições e incertezas. Por isso, pouco depois de chegar a São Borja, Getúlio decidiu redigir um testamento político, cujos rascunhos a lápis ficaram preservados em seus papéis pessoais. Em quatro páginas de papel pautado, após fazer a retrospectiva do início da campanha eleitoral, do movimento queremista e de sua derrubada do poder, lamentou a perseguição que antigos aliados estariam sofrendo por parte do governo interino — entregue meio a contragosto pelos militares ao presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro José Linhares. Especulava-se nos meios políticos que o destino imediato de Getúlio ainda estaria por ser traçado pelo novo regime. Trabalhava-se com a hipótese de ele vir a ser preso ou, no mínimo, como muitos acreditavam, expatriado. Getúlio rematou os rascunhos escritos em São Borja com uma nova ameaça de tirar a vida com as próprias mãos. Como sempre, alegou preferir ser lembrado como um mártir que sucumbira em defesa do povo, da pátria e das causas que defendia a ter que passar à memória coletiva como um poltrão que recolhera as armas e baixara a cabeça aos adversários. A carta, pouco conhecida, afirmava: A situação dramática da minha vida no desenrolar dos últimos acontecimentos políticos pode ser resumida em poucas linhas. Um grupo de políticos, sob o pretexto de democratizar o Brasil, lançou mão de um militar [brigadeiro Eduardo Gomes] como candidato à presidência da República, para com ele fazer a desordem. Eram os golpistas. Lançaram sobre mim, através de uma imprensa sem categoria moral, a conhecida campanha de ódios e difamações. Para manter a ordem, levantei a candidatura doutro militar [general Eurico Gaspar Dutra], declarando reiteradas vezes que não era candidato a qualquer cargo público. Atendi a tudo que reclamavam no terreno das franquias liberais: liberdade de opinião, de reunião, de propaganda, anistia ampla, lei eleitoral, designação da data para as eleições, formação de partidos etc. A campanha sistemática contra mim continuara, mas veio afinal a reação do povo em meu favor, revoltado pela injustiça. E foi tão intensa essa reação e de tal forma cercou-me o calor da solidariedade popular que alarmou os que pretendiam aniquilar-me. Certo dia, um grupo de generais, sob pretexto fútil e abusando dos cargos de confiança de que eu os investia, lançou contra mim um Exército aparelhado de tanques, canhões e metralhadoras, depondo-me do governo. Retirei-me para uma fazenda no meu estado natal. Vivo só, no meio de gente simples que não sabe trair. O novo governo que se instituiu para democratizar o país suprimiu todas as liberdades. Em nome da democracia, dera um golpe de força. Para consolidar essa singular democracia, estabeleceu a censura, proibiu as atividades partidárias e começou a praticar uma série de mesquinharias contra mim, contra minha família, contra meus amigos. Não satisfeitos com isso, querem arrancar-me ao solo da pátria ou sequestrar-me a liberdade. Talvez só com o meu sacrifício eu consiga remir os inocentes que estão sendo perseguidos e libertar-me das mesquinharias do governo de um títere togado influenciado por colaboradores odientos ou covardes, muito inferiores à missão que se arrogaram. Na perspectiva de violências que se aproximam, deixo estas declarações para conhecimento do povo brasileiro.[...] Em tais circunstâncias, os pequenos frascos de Nembutal, solicitados na carta a Alzira, ganhavam inescapável sentido. A simples existência deles em uma gaveta do criado-mudo — quando somada àquela carta à posteridade — já sugeria a possibilidade concreta de um trágico e premeditado desfecho. 2. “Se for jornalista, mando enforcar”, dizia Getúlio, a propósito dos aviões que desciam em Santos Reis (1945) Ao meio-dia, sentado no banco de cimento à sombra de uma árvore — um secular cinamomo —, Getúlio ouviu o ronco do bimotor Junkers que se lançou em voo rasante sobre o dorso de uma coxilha e, em meio à nuvem de poeira vermelha, aterrissou na improvisada pista de pouso da estância Santos Reis, a cerca de vinte quilômetros do centro de São Borja. O ex-presidente, com botas pretas de cano alto, largas bombachas e camisa branca de mangas arregaçadas, levantou-se para recepcionar os passageiros, recém-chegados de Porto Alegre. Era 1o de novembro de 1945, dia de Todos os Santos, quinta-feira. Na véspera, no mesmo local, o próprio Getúlio fizera idêntico desembarque — mas do Lockheed Lodestar presidencial da Força Aérea Brasileira (fab), proveniente do Rio de Janeiro, após esgotado o prazo de 48 horas concedido pelos militares para que abandonasse o Palácio Guanabara. “Entrei para o governo por uma revolução, saí por uma quartelada”, queixava-se.3 O irmão Protásio — um dos três homens que acabavam de descer do pequeno Junkers — era quem administrava o local e respondia pela saúde financeira da fazenda, dedicada à compra e venda de gado de leite e de corte. A casa propriamente dita era simples, térrea, pintada de amarelo. Na área central, após a sala, ficava o quarto de Getúlio, mobiliado apenas com a cama rústica, uma mesa redonda, a cadeira de balanço e dois criados-mudos adornados com vasos de flores naturais. Em vez de armários, caixas e malas desafiveladas, espalhadas pelo chão. Sobre uma das mesinhas de cabeceira ficava a pasta escura de couro, trazida do Catete, com o brasão nacional, dourado, em alto-relevo. Na outra repousavam o estojo de óculos, o relógio de algibeira e um bloco de papéis de carta com o timbre do gabinete da presidência da República. Nas gavetas, frascos de remédios e bisnagas com artigos de perfumaria. Como fazia questão de estar sempre bem barbeado, o estojo amarelo com as lâminas Schick e o aparelho dourado Injector Razor ficava logo à mão. Esquecido em um canto, jazia o saco de tacos de golfe — inúteis, já que não havia, na estância, lugar apropriado à prática do esporte favorito. O gramado rústico era prerrogativa das ovelhas que pastavam logo ali em frente. Apesar do estilo espartano, o visitante que vislumbrasse o jardim e o pomar bem cuidados, o cata-vento gerador de força e o laranjal em flor teria uma boa impressão de Santos Reis. Se não havia luxo, sobrava esmero. Mas o observador não devia se deixar enganar pela placidez e bucolismo da paisagem. O clã se encontrava em estado intestino de guerra. A política, mais uma vez, se colocara no centro de cizânias familiares. Um dos filhos de Getúlio, Manuel Antônio — o Maneco Vargas —, entrara em rota de colisão com o tio Protásio. Maneco vinha trabalhando dia e noite pela instalação, em São Borja, do diretório do Partido Trabalhista Brasileiro (ptb). Protásio, com semelhante afinco, pelo fortalecimento do Partido Social Democrático (psd) no município. Em vez de dividirem o eleitorado de modo equânime, como era desejo de Getúlio, tio e sobrinho vinham disputando graus e áreas comuns de influência, trocando descortesias, numa autofagia que ameaçava extrapolar a esfera íntima para produzir efeitos colaterais mais amplos. A propósito, naquela tarde, Protásio trazia consigo à estância, como companheiro de voo, o correligionário Valter Jobim, ex-promotor público em Passo Fundo, ex-secretário estadual de Obras Públicas e candidato declarado do partido ao governo do Rio Grande do Sul.6 Os dois vinham discutir o quadro eleitoral com Getúlio.7 Uma das primeiras medidas do governo de transição foi revogar o decreto 8063, aquele que, assinado por Getúlio em outubro, antecipara as eleições para governadores fazendo-as coincidir com o pleito presidencial.8 De acordo com o decidido pelo presidente interino José Linhares, dali a um mês, 2 de dezembro, além dos deputados e senadores que comporiam o futuro Parlamento, os brasileiros iriam às urnas para escolher “apenas” o novo presidente da República (as eleições para governador e para as assembleias legislativas só se realizariam em 1947). O brigadeiro Eduardo Gomes, concorrendo pela União Democrática Nacional (udn) — frente ampla que se convertera no baluarte de todos os antivarguistas, reunindo desde os mais aguerridos liberais à chamada esquerda democrática —, era apontado pela imprensa como franco favorito. O outro candidato, general Eurico Gaspar Dutra, enfrentava dificuldades para obter até mesmo a adesão de certos quadros do próprio partido, o psd, constrangidos em sufragar o nome de um dos maiores responsáveis pela derrubada de Getúlio. “Todos sabemos, os teus amigos, que votar no Dutra é tomar um purgante de óleo de rícino. É necessário fazê-lo, ainda que repugnante”, ponderava o pragmático Protásio Vargas, tentando convencer o irmão a também tapar o nariz e engolir o nome do general como único remédio para impedir a chegada dos udenistas ao poder. Getúlio, reticente quanto à questão, recebeu Jobim e Protásio com sorrisos e abraços. Poucos passos atrás da dupla, divisou um terceiro indivíduo, a quem não reconheceu. O estranho se aproximou e fez questão de se apresentar. Era jornalista. Viera de carona no avião, como representante dos jornais Folha da Tarde e Correio do Povo, do mesmo grupo de comunicação, a Companhia Jornalística Caldas Júnior, da capital gaúcha. Desejava uma entrevista exclusiva com Getúlio, a respeito da conjuntura política. Seria, nesse caso, um furo de reportagem. A primeira fala do ex-chefe de Estado após colocar os pés na pequenina São Borja — cidade então com menos de 35 mil habitantes, ruas sem calçamento, casas sem água encanada, eterna porta de entrada para o contrabando a partir do rio Uruguai, marco geográfico da fronteira do Brasil com a Argentina. Com um gesto polido, Getúlio estendeu a mão ao repórter. Pediu-lhe desculpas, mas não iria dar entrevistas a ninguém. Tudo o que tinha a dizer já dissera no dia anterior, por escrito, numa nota concisa aos gaúchos, remetida exatamente ao Correio, pelo rádio, ainda a bordo do avião da fab que o trouxera a Santos Reis: “Ao sobrevoar o solo do Rio Grande, dirijo-lhes esta mensagem de saudação, declarando que já não sou mais prisioneiro senão do afeto do povo”. Era tudo. Nada mais tinha a declarar. Ato contínuo, Getúlio dirigiu-se com Protásio e Jobim para o interior da casa, deixando o jornalista sozinho, ao pé da porteira que dava acesso ao jardim. A reunião que se seguiu, a portas fechadas, estendeu-se por cerca de uma hora e meia, sendo interrompida apenas para o almoço, servido à base do tradicional churrasco de ovelha. Durante o cafezinho, o repórter ousou se aproximar da mesa para tentar de novo entabular a almejada entrevista. Getúlio fez de conta que não entendeu a intenção dele e lançou uma pergunta ao jornalista, invertendo os papéis de entrevistado e entrevistador: o decreto que assinara pouco antes de ser apeado do poder, instituindo o salário mínimo para os profissionais de imprensa, satisfizera as aspirações da categoria? Sem dar tempo para o homem abrir a boca, emendou: “Um dos motivos pelos quais os donos de jornais se voltaram contra mim foi justamente esse decreto…”, sorriu. Protásio aproveitou a deixa e convidou o enviado especial da Folha e do Correio a se retirar, pois a reunião reservada iria prosseguir tarde adentro. “Esta conversa entre os senhores é para deliberar o rumo político a seguir?”, insistiu o jornalista, dirigindo-se a Getúlio. “Depois de tudo o que aconteceu, o senhor aceitará que o psd continue a dar apoio à campanha do general Dutra, candidato oficial do partido à presidência da República?” Getúlio, presidente de honra da legenda, limitou-se a um comentário lacônico: “O psd do Rio Grande saberá honrar os compromissos assumidos”, disse. “E, do ponto de vista estritamente pessoal, o que o senhor acha? O que pretende fazer agora, após ter assinado o termo de renúncia?” “Mas eu não assinei nenhum termo de renúncia…”, contrapôs Getúlio. “Do ponto de vista pessoal, estou aguardando os desdobramentos dos fatos”, disse, encerrando o assunto. Não era exatamente uma entrevista. Mas eram declarações relevantes. O jornalista pediu licença a um funcionário de Protásio para utilizar o telefone da fazenda, a fim de enviar um primeiro comunicado à redação. Com alguma sorte,a informação chegaria a tempo de sair estampada na edição vespertina. De fato, quando a dita reunião foi dada por encerrada, perto do fim da tarde, os leitores da capital gaúcha já tinham em mãos, nas esquinas de Porto Alegre, os primeiros exemplares da Folha, ainda cheirando a tinta fresca, com a estrondosa manchete: declara o sr. getúlio Vargas que não assinou nenhum documento de renúncia Retransmitida pelo telégrafo ao Rio de Janeiro, a notícia foi interpretada, na cúpula dos quartéis, como uma ameaça de que Getúlio não se submeteria à deposição. O general José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, presidente do Clube Militar, decidiu expressar a inquietação dos colegas de farda e providenciar uma nota à imprensa da capital federal, na qual afirmava, peremptório: “Como participante dos acontecimentos que culminaram com a substituição do governo da República, julgo do meu dever esclarecer a opinião pública sobre a verdade dos fatos”. O título do texto não deixava brechas para ilações, dubiedades ou possíveis reviravoltas: “O sr. Getúlio Vargas não renunciou, foi deposto”. Ao final da conversa com Protásio e Jobim — e sem ainda ter conhecimento da repercussão de suas palavras ao jornalista gaúcho —, Getúlio decidiu cumprimentar o grupo de são-borjenses que se aglomerava no terreno em frente à casa. O repórter, seguindo-o pelos calcanhares, descreveu a cena, numa segunda mensagem enviada por telefone à redação. “O sr. Getúlio Vargas recebe afavelmente inúmeros amigos e admiradores. Parece-nos um homem que não dá a mínima impressão de haver vivido estes intensos quatro dias que modificaram completamente o ambiente político brasileiro”, escreveu o jornalista, que infelizmente não teve seu texto creditado pelo periódico gaúcho — a reportagem foi publicada sem assinatura, como era comum à época. “O ex-presidente conserva seu bom humor e sua jovialidade, que já se tornaram proverbiais. Quando uma oportunidade se apresenta, não perde a ocasião e lança um dito espirituoso, que festeja ruidosamente com os circunstantes.” Ao entardecer, quando as visitas já haviam partido e as gargalhadas cessado, o repórter teve a oportunidade de flagrar o verdadeiro estado de espírito de Getúlio. Sempre acompanhado de um gato angorá branco que lhe seguia os passos, ele caminhava em seu estilo característico, as mãos postas para trás, o olhar perdido. Fumava então o quinto charuto do dia.19 Longe da curiosidade pública, trocou o característico sorriso por um semblante mais grave: “Ia pensativo, algo melancólico, olhando para um ponto qualquer que nós não enxergávamos, ou fitando o sol que se escondia, no horizonte plano de São Borja”. Ao se perceber vigiado, Getúlio lançou um aceno gentil ao repórter: “Vamos caminhar?”. Agora íamos caminhando, lentamente, em direção a um açude, distante uns oitocentos metros da casa da fazenda. E como de costume — talvez para não dar tem po a que se fizessem perguntas embaraçosas — o sr. Getúlio Vargas começou de novo a entrevistar-nos. Ele seria um bom jornalista… Já não tinha aquela preocupação de mostrar-se jovial e alegre. Deixou que algumas rugas se instalassem, indiscretamente, na testa. E podemos jurar que mal ouvia as respostas banais que dávamos às suas perguntas também banais. O sr. Getúlio Vargas, afinal, sempre foi um bom jogador. A certa altura, Getúlio intensificou o bombardeio de perguntas. O que se dizia em Porto Alegre a respeito de sua queda? O que pensava o povo? E os trabalhadores gaúchos? Houve manifestações de rua? Discursos a favor e contra? O repórter, percebendo a oportunidade de granjear a simpatia e a confiança do interlocutor, tentou resumir-lhe a situação em poucas pinceladas. O interventor gaúcho, tenente-coronel Ernesto Dornelles (primo de Getúlio), assim como todos os governantes regionais nomeados pelo Estado Novo, fora afastado do cargo e substituído por um representante do Judiciário — no caso do Rio Grande, assumira o desembargador Samuel Figueiredo Silva. O secretariado de Dornelles, em bloco, aguardava demissionário a efetivação dos respectivos substitutos. Servidores em funções de confiança, idem. Os prefeitos também estavam em compasso de espera, tendo posto os cargos à disposição, por ordem do novo governo. O general Salvador César Obino, comandante da 3a Região Militar, sediada em Porto Alegre, apoiara o golpe, mas advertira a tropa de que se mantivesse alheia a possíveis provocações e se abstivesse de comentários políticos. As ruas estavam calmas. O povo, em cautelosa expectativa. Getúlio ouviu a síntese sem dizer palavra. Ao final, o repórter tentou provocá-lo a sair do mutismo. Sondou-o a respeito da conversa que mantivera ao longo da tarde com Protásio e Jobim. O que tinham decidido, afinal de contas? Os dois pessedistas haviam conseguido convencê-lo a declarar apoio à candidaturado general Dutra? Mais uma vez, preferiu manter-se em reserva. Apenas voltou a sorrir. O jornalista, imperturbável, resolveu abordá-lo por outro flanco. Comentou que dois meses antes, em 2 de setembro, data na qual se esgotara o prazo de desincompatibilização para os aspirantes ao pleito, muitos getulistas haviam se decepcionado pelo fato de o então ditador não ter se licenciado do Catete para registrar-se candidato, construindo as condições legais para permanecer no poder. “Mas eu não desejava mesmo continuar…”, desdenhou Getúlio. Os vinte passos seguintes foram dados em novo silêncio. Getúlio Vargas levou o charuto aos lábios. E a mancha de uma baforada pensativa ficou por alguns instantes flutuando entre nós. “Eu já estava cansado”, disse ele. “Governar mais seis anos… Num período difícil…”Chegáramos à beira do açude. E o charuto do presidente, jogado com displicência, foi agitar as águas mansas. […] Depois disso, veio o silêncio definitivo. Também o sol desaparecera. E na meia-luz melancólica daquela tarde moribunda, o ex-presidente Vargas perdeu, mais uma vez, o olhar na planície imensa. A foto que ilustrou a matéria mostrou um Getúlio de sobrancelhas arqueadas, o olhar circunspecto, a comissura dos lábios voltada para baixo. “Aí está o homem que governou o país durante quinze anos”, dizia a legenda. “A fisionomia parece sublinhar uma preocupação.” Na manhã seguinte, sexta-feira, 2 de novembro, Getúlio cumpriu o ritual que repetiria dali por diante todos os dias, após o alvorecer, em Santos Reis. Pulou da cama às seis horas, deixando para trás o travesseiro baixo e mole, em cuja fronha se lia o monograma bordado com as iniciais “gv”.26 Provou o primeiro gole de chimarrão ainda no quarto, de pijama. Fez a barba, tomou um banho frio, vestiu as bombachas e seguiu para a mesa do café. Depois, mandou selar um cavalo e saiu a campear pela estância. Não foi sozinho. Entre os companheiros de montaria, três petebistas gaúchos serviram-lhe de escolta. O primeiro era o filho Maneco. O segundo, o primo Dinarte Dornelles, diretor da Caixa Econômica Federal no Rio Grande do Sul. O terceiro, um jovem advogado e fazendeiro de São Borja, amigo da família. Seu nome: João Belchior Marques Goulart — mais conhecido, desde a infância, como “Jango”. A ligação dos Goulart com os Vargas era antiga. O pai de Jango, Vicente Goulart, estudara com Getúlio nos tempos da escola primária do professor Fabriciano Júlio Braga em São Borja. Mais tarde adquirira, em sociedade com Protásio, um frigorífico na cidade vizinha de Itaqui. O empreendimento, todavia, não prosperou. Quando Vicente morreu em 1943, de câncer, quase falido, o filho assumiu os negócios familiares e, por meio de sucessivos empréstimos bancários, passou a comprar gado e arrendar terras ao redor da propriedade original. O método de o rapaz fazer dinheiro era tão simples quanto infalível: deixava as vacas no pasto para a engorda — nas chamadas “invernadas” — e depois as revendia para abate, com dilatada margem de lucro. Ao oferecer os próprios animais como garantia, levantava novos créditos e assim, sucessivamente, multiplicava o capital a cada operação. A esse tempo, com 26 anos, calculava-se que Jango já fosse dono de cerca de 15 mil cabeças de gado bovino e outras 5 mil de ovinos, avaliadas então em torno de 10 milhões de cruzeiros (cerca de 16 milhões de reais, em valores atualizados). Bon vivant, dono do próprio avião Cessna e de um automóvel Ford — um dos únicos dez carros de toda São Borja —, Jango vivia rodeado de belas mulheres. Dado a festas e outros prazeres, contraíra sífilis, doença sexualmente transmissível, o que lhe deixou como sequela uma lesão no joelho esquerdo. Daí o fato de ter manquitolado de uma perna o resto da vida, embora a família preferisse difundir a versão de que o problema fosse oriundo de uma queda de cavalo ou, em outra variante mais prosaica, de um coice de burro. Bem-apessoado, dono de uma conversa fácil, não demorou para que João Goulart fosse cortejado não apenas pelas moças casadoiras do lugar, como também pelos caciques políticos de São Borja. Protásio tentou arrastá-lo para as hostes do diretório municipal do psd, mas a amizade com Maneco Vargas influenciou sua decisão de cerrar fileiras no ptb. cavalgada daquela manhã serviu para Getúlio debater com Jango, Dinarte e Maneco a atitude do partido em face das eleições presidenciais que se aproximavam. O trio compartilhava de uma mesma opinião. À falta de candidato próprio, o ptb deveria se abster de apoiar qualquer uma das duas candidaturas militares já lançadas. Mas, no âmbito federal, os petebistas estavam rachados. Parte do diretório nacional também defendia a tese da abstenção, posição defendida por dois dirigentes do alto escalão partidário, Paulo Baeta Neves e José de Segadas Viana, respectivamente presidente e secretário-geral da comissão executiva. Havia uma parcela considerável de militantes que preferia, ao contrário, apostar numa aliança estratégica com o psd, para tentar preservar inalteradas — em um possível governo Dutra — as conquistas da legislação trabalhista. Sempre que instado a se pronunciar sobre o assunto, Getúlio desconversava: “Meu desejo é permanecer calado até as eleições, para não aumentar a confusão já existente.” Na volta da campeada, perto da hora do almoço, o grupo foi surpreendido com a presença de outro repórter no galpão da fazenda. Em meio à roda de peões de bombachas e facas na cintura, destacava-se um indivíduo de paletó e gravata, o bloquinho de anotações em punho. Em princípio, Getúlio não atinou para a identidade daquele homem miúdo, de cabeçorra quadrada e máquina fotográfica a tiracolo. “Bom dia, dr. Getúlio, permite bater uma chapa?”, perguntou o homenzinho, apontando-lhe a objetiva. Houve um instante de tensão. Maneco olhou para o pai, em estado de alerta. Jango e Dinarte se mostraram igualmente apreensivos. “Pode bater...”, sorriu Getúlio, desanuviando o ambiente. “Quem é mesmo o senhor?”, perguntou, ao descer do cavalo. O jornalista apresentou as credenciais. Era Edmar Morel, repórter dos Diários Associados, o grupo de jornais de Assis Chateaubriand, o Chatô. Getúlio não o conhecia pessoalmente. Mas é evidente que já ouvira falar do sujeito. Morel, a esse tempo, era uma lenda viva da imprensa nacional. Suas reportagens lhe haviam rendido notoriedade e prestígio, mas também poderosos desafetos. Entre estes, os censores do Departamento de Imprensa e Propaganda, o dip. No extenso currículo de proezas jornalísticas, Morel entrevistara o tristemente célebre Manso de Paiva, o assassino do senador gaúcho Pinheiro Machado, morto com uma punhalada nas costas em 1915, no Hotel dos Estrangeiros, no Rio de Janeiro. A entrevista, porém, fora censurada pelo Estado Novo, sob a justificativa de que o mau exemplo do criminoso poderia enfiar caraminholas na cabeça de algum outro “lunático” e, dessa forma, pôr em risco a integridade física do então ditador, Getúlio Vargas. Morel também tivera problemas com os censores do dip ao denunciar as precárias condições de vida a que foram submetidos os chamados “soldados da borracha”, os nordestinos despachados à Amazônia para garantir o abastecimento de látex ao exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial. Outra matéria de sua autoria, ilustrada pela foto de um menino disputando com um vira-lata os restos de comida de uma base militar dos Estados Unidos em Pernambuco, também provocara incômodos aos burocratas da censura. Entre tantas reportagens de impacto, o feito então mais recente de Morel fora a cobertura do último dia do Estado Novo, realizada de dentro de um dos tanques de guerra que, em 29 de outubro, cercaram os jardins do Palácio Guanabara. Getúlio, é claro, entendeu a situação. Chateaubriand mandara um dos melhores repórteres dos Diários Associados a São Borja para retratar o drama de um inimigo caído em desgraça. No dia seguinte à derrocada do regime, em artigo intitulado “O triste fim de Policarpo Vargas”, Chatô tripudiara: “As circunstâncias que cercam o ocaso do sr. Getúlio Vargas oferecem a sensação do fenômeno da decrepitude de um homem”. Em tom de deliciada vingança, o texto zombara do fato de Getúlio ter supostamente alimentado a ilusão de que as massas tomariam as ruas em protesto contra sua destituição. “Entretanto, não apareceu nenhum ‘trabalhador do Brasil’, ou mesmo um simples malandro dos morros cariocas, para se despedir dele no Aeroporto Santos Dumont”, aguilhoara Chatô. Nitidamente aborrecido, Getúlio fechou o cenho para Morel. O jornalista, sem perder a desenvoltura — e para forjar uma intimidade inexistente —, informou que o estava aguardando ali desde o início da manhã, após enfrentar uma maratona iniciada dois dias antes, no Rio de Janeiro. Na quarta-feira, desembarcara em Porto Alegre e, durante 48 horas, viajara de trem, sacolejando por mais de quinhentos quilômetros, até alcançar a estação de São Borja. De lá, chegara à estância a bordo de um automóvel alugado. Estava exausto, comentou Morel. “O senhor não cansa quando faz um passeio demorado desses pelo campo?”, perguntou. “Não! Para descansar o espírito, nada como cansar o corpo”, cortou Getúlio. “Os jornais estão publicando que o senhor não assinou nenhum documento pedindo renúncia…”, prosseguiu o repórter. Getúlio apanhou a cuia de chimarrão das mãos de um peão da fazenda, chupou a bomba de prata e, após alguns segundos de estudado suspense, resmungou a resposta entre os dentes: “Isso não tem importância…” Para não aborrecer de vez o entrevistado, Morel mudou de estratégia. Pediu licença para ficar em Santos Reis alguns dias, a fim de acompanhar a rotina do mais novo e ilustre morador da fazenda. Pretendia realizar uma série de “reportagens apolíticas” — conforme definiu —, para oferecer aos leitores da capital federal um relato completo da nova vida daquele que fora, até há bem pouco tempo, o homem mais poderoso do Brasil. “Em qual rede de jornais o senhor disse mesmo que trabalha?”, perguntou Getúlio, com entonação irônica, dando-lhe as costas e deixando escapar um muxoxo. Morel, em ato reflexo, levantou a câmera e o fotografou no momento exato em que caminhava jardim adentro, cruzando o portão em direção à casa. A imagem de Getúlio de costas, pisando duro, estamparia a capa do carioca Diário da Noite, acompanhada da seguinte manchete: zangou-se com o repórter Maneco Vargas, ao perceber que o pai estava sendo fotografado em situação desfavorável, pegou Morel pelo braço e o convidou a se retirar. “Faça o favor!”, rugiu Maneco, apontando a saída. A imprensa do Rio de Janeiro fez um escarcéu. Os principais jornais do país — alinhados à udn e à candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes — afirmaram que as longas conversas de Getúlio com representantes regionais do psd e ptb em São Borja faziam parte de uma insidiosa manobra política. Havia Ru mores de que pessedistas e petebistas gaúchos disputavam entre si o direito de lançara candidatura do ex-presidente ao Congresso, informação que gerou uma maré de editoriais, manchetes e artigos indignados. “Mal apeado do poder, com uma semana apenas entre o Guanabara e São Borja, já está o ditador numa inquietação reprovável”, condenou o Diário da Noite, que lamentava o fato de os militares não terem deportado Getúlio e lhe cassado os direitos políticos logo após tê-lo afastado do Catete, da mesma forma queele próprio fizera, em 1930, com o ex-presidente Washington Luís.“O sr. Getúlio Vargas está sendo imprudentíssimo”, avaliou o Diário. “Enquanto suas futricas em Santos Reis não oferecerem possibilidades de ameaça à marchanormal da redemocratização, poderá beber em paz doméstica sua cuia de chimarrão. Mas, desde que se transforme ou pretenda ser elemento de perturbação política, não lhe restará outro caminho senão, ainda uma vez, correr novos riscos”. O recado era explícito. Os jornais de Chatô garantiam que uma “fonte digna de crédito”, situada na alta cúpula do novo governo, trabalhava com a hipótese de ordenar a deportação de Getúlio a qualquer instante. Quanto à possível candidatura do ex-presidente a um cargo eletivo, o udenista mineiro Virgílio de Melo Franco, interrogado pelos jornalistas, disse pôr tal hipótese na conta de uma insolente piada. “Uma gargalhada sacudirá o país”, previu Melo Franco, caso o ex-ditador esboçasse uma volta ao cenário político. Ao batalhão de repórteres que depois disso continuaria a lhe bater à porta em Santos Reis, Getúlio repetiu a mesma ladainha: não era candidato a nada. E não estaria disposto sequer a montar uma banca de advocacia em Porto Alegre. Os políticos e advogados podiam dormir sossegados. Ele não lhes faria mais nenhuma concorrência. “Na verdade, vou fazer concorrência é aos pecuaristas de São Borja”, disse a outro jornalista do Correio do Povo, prometendo dedicar-se unicamente às atividades do campo durante o tempo que ainda lhe restasse de vida.46 “Não aceitarei, em hipótese alguma, a designação de meu nome, seja para o que for.” Chegara a hora de se preocupar apenas com bois e vacas, garantiu. O jornalista Geraldo Romualdo, enviado de O Globo a Santos Reis, ainda conseguiu lhe arrancar uma declaração por escrito, datilografada e assinada, que foi reproduzida na primeira página do jornal de Roberto Marinho: “Simples cidadão, não sendo candidato a nenhuma função pública e tendo como única arma meu título de eleitor, envio ao povo brasileiro minha comovida saudação, dizendo-lhe que agora, mais do que nunca, estou do seu lado”. Nem todo mundo levou a sério a formalização do compromisso. Em editorial, o Diário da Noite voltou a fustigar: A experiência desses últimos quinze anos, longa experiência que desvendou muitos dos mistérios da personalidade do ex-chefe de governo. […] Agora, em São Borja, após seus longos passeios e horas de meditação, o grande alquimista do despistamento, técnica em que certamente jamais será superado, reafirma seu desinteresse pela política e, consequentemente, pelo poder. […] Volta o sr. Getúlio Vargas à velha técnica: nada desejar, nada querer, desejando e querendo tudo. A partir daquele momento, qualquer estranho que chegasse a Santos Reis seria barrado à entrada da estância. Para ultrapassar os limites da porteira, teria que apresentar a carteira de identidade. O documento era então confiscado, para que Maneco Vargas o levasse até o pai, a quem cabia pessoalmente filtrar o acesso de eventuais bisbilhoteiros. “Se for jornalista que vem aí, mando enforcar”, passou a ironizar Getúlio, sempre que outro avião descia na estância. Na tarde de 7 de novembro, uma semana após a chegada de Getúlio a São Borja, vieram novos visitantes. A filha Alzira, acompanhada do marido Ernani do Amaral Peixoto, trazia a Santos Reis a netinha do ex-presidente, Celina, de apenas um ano de idade.52 Além das demandas de ordem afetiva, o reencontro foi marcado por graves confabulações políticas. Ernani do Amaral Peixoto, virtual candidato do psd ao governo do estado do Rio de Janeiro, pôs Getúlio a par dos acontecimentos na capital federal. A campanha de Dutra claudicava. Péssimo orador — circunstância agravada pelo problema de dicção e a língua meio presa que o fazia trocar o “s” e o “c” pelo “x” —, o general só conseguia arrancar bocejos ou, no máximo, sorrisos maliciosos da assistência quando posto à frente de um microfone. Entre facções pessedistas, ganhava força a ideia de que o melhor a fazer era mudar de candidato, ainda que faltassem menos de quatro semanas para as eleições. Um dos nomes apontados como possível substituto para o lugar de Dutra na cabeça de chapa do psd era o de João Neves da Fontoura, que acabara de pedir exoneração do cargo de embaixador brasileiro em Portugal, em solidariedade a Getúlio. Mas nem mesmo o próprio João Neves se mostrava convencido de haver condições objetivas para tão brusca mudança de planos. “Não só o tempo fugiu de nós, como, em verdade, o abandono do nome do general Dutra não nos colocaria moral e politicamente bem”, considerava Neves. “Do ponto de vista de força, então, o fracasso seria absoluto. É a última segurança que nos resta contra a maior parte das classes armadas, solidárias com o brigadeiro.” Em contraste com a sensaboria de Dutra, o porte garboso do candidato da udn eletrizava o eleitorado, sobretudo o feminino, que pela primeira vez iria às urnas para votar numa eleição presidencial. “Vote no brigadeiro, que é bonito e solteiro”, dizia um dos slogans udenistas.55 Moças e senhoras arrecadavam fundos de campanha vendendo de porta em porta os docinhos esféricos de chocolate com granulado, que por analogia passariam a ser conhecidos em todo o país como “brigadeiros”.56 As más línguas, contudo, fariam outra espécie de associação a respeito: como Gomes saíra ferido no episódio histórico dos Dezoito do Forte — supostamente atingido nos testículos — o apelido da iguaria constituía, segundo a tradição oral, uma alusão ao fato de ela ser preparada sem a necessidade de se acrescentar ovos à receita. Numa outra versão, também recorrente, o nome era devido ao fato de o doce ter uma “bolinha só, assim como o brigadeiro”. Trocadilhos chulos à parte, em todas as bolsas de apostas Eduardo Gomes já era considerado potencialmente eleito. Em editorial, o Correio da Manhã sugeria que os brasileiros, na data da eleição, vestissem as melhores roupas para celebrar a volta da democracia ao país. “O que houver de mais fino deve ser exibido, porque o dia do pleito será um grande dia, um dia azul, depois de imenso período de bruma, de treva, de céus fechados e densos.” Entrevistado pela imprensa, um famoso astrólogo da época, Demetrio de Toledo, autor do livro Eis a astrologia, afirmara que a configuração dos planetas no firmamento do Brasil em 2 de dezembro estaria em plena sintonia cósmica com o mapa astral do brigadeiro Eduardo Gomes. “Haverá no alto do céu um verdadeiro e formidável conjunto de estrelas que lhe assegurarão um triunfo espetacular”, assegurou Toledo. Mas ninguém precisava ser vidente profissional para preconizar o que todos davam como certo. Ante o prenunciado fracasso de Dutra, O Globo chegou a noticiar, na manchete da edição matutina de 4 de novembro, a desistência da candidatura do general e a dissolução do psd.60 Na tarde do mesmo dia, a comissão executiva do partido se apressou em desmentir as duas notícias. Entretanto, durante toda a campanha, o candidato pessedista precisaria justificar o fato de ter sido um dos mentores e, ao longo de oito anos, um dos fiadores militares do Estado Novo, na condição de ministro da Guerra de Getúlio. “Lembrai-vos de 37”, aliás, era outro dos slogans do brigadeiro Eduardo Gomes, associando o adversário à ditadura estado-novista. “Não desejo fugir, de modo nenhum, à responsabilidade que me toca de haver dado o meu apoio à implantação do regime de 10 de novembro de 1937”, foi obrigado a reconhecer Dutra, em comício em Belo Horizonte. Para o general, porém, o governo de exceção se justificara à época pelo “acirramento ideológico” e pela alegada ameaça do “germe comunista”. O velho oficial germanófilo garantia a sua mais sincera conversão ao credo democrático — o que poderia ser atestado por seu protagonismo na queda de Getúlio e no consequente desmantelamento do Estado Novo. De todo modo, verificada a desidratação progressiva da campanha de Dutra, Ernani se arvorava no papel de um dos mais ardorosos defensores do plano alternativo: lançar a candidatura de Getúlio Vargas ao Senado, pelo psd, a fim de puxar votos para a legenda e, posteriormente, articular a condução do ex-chefe de Estado à presidência do Congresso.64 Assim, qualquer que fosse o resultado da eleição majoritária, estaria pavimentado o caminho para se obter uma razoável bancada pedessista no Parlamento. Votos em profusão, por certo, não faltariam ao estadista que havia assinado a Consolidação das Leis do Trabalho (clt). A popularidade de Getúlio, até onde se podia arriscar algum palpite, não fora arranhada junto às classes populares. Ao contrário, parecia mais sólida do que nunca. “Podes estar certo que o teu prestígio na massa não diminuiu um milímetro”, garantiu João Neves, em carta a Getúlio. Havia alguns indícios a fundamentar tal certeza. As salas de cinema do Rio de Janeiro estavam exibindo, antes da projeção dos principais filmes em cartaz, um documentário de curta-metragem intitulado A espetacular deposição do presidente Vargas: As doze horas que abalaram o Brasil. Quando Getúlio aparecia na tela, sua imagem era aplaudidíssima pela plateia. Em compensação, bastava a figura de Dutra entrar em cena para que as vaias irrompessem, ruidosas, no meio do público. Existiam muitos outros exemplos comezinhos, mas igualmente sintomáticos.No dia do golpe, as empregadas do brigadeiro Ivo Borges, presidente do Clube da Aeronáutica e amigo de Eduardo Gomes, haviam pedido demissão em sinal de protesto, abandonando a casa e deixando o patrão sem almoço.“O sr. ajudou a derrubar nosso amigo Getúlio, não lhe serviremos mais!”,teriam dito as domésticas, antes de atirar os respectivos aventais ao chão e desaparecer porta afora. A Galeria Cruzeiro, no centro da cidade, se tornara palco de comícios diários, durante os quais os inconformados “queremistas” — aqueles que pouco tempo antes haviam desfraldado a bandeira “Queremos Getúlio!” — voltavam a subir em caixotes de sabão para bradar palavras de ordem, dessa feita exigindo a volta imediata do grande líder. Bonecos de pano com o rosto de Dutra eram malhados e queimados nas sedes de sindicatos, como Judas em Sábado de Aleluia. Quanto mais se apresentava como um dos articuladores da queda de Getúlio Vargas, mais o general atraía contra si a antipatia dos já saudosos getulistas.

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