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História da Guerra Fria (Cód: 4052662)

Gaddis,John Lewis

Nova Fronteira - Singular

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Descrição

Livro mapeia os anos de apreensão e medo em que a civilização conviveu com a ameaça de sua própria aniquilação. O livro possui um caderno de fotos com 16 páginas.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Nova Fronteira - Singular
Cód. Barras 9788520930557
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788520930557
Profundidade 1.80 cm
Acabamento Capa dura
Número da edição 1
Ano da edição 2012
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 346
Peso 0.52 Kg
Largura 16.00 cm
AutorGaddis,John Lewis

Leia um trecho

Prefácio Todas as tardes de segundas e quartas-feiras do segundo semestre, dou aula a várias centenas de estudantes de Yale sobre a história da Guerra Fria. Preciso sempre lembrar a mim mesmo que quase nenhum deles tem recordações de qualquer dos acontecimentos que lhes descrevo. Quando falo em Stalin e Truman e até mesmo em Reagan e Gorbachev, é como se contasse histórias de Napoleão, César ou Alexandre, o Grande. A maioria da classe de 2005, por exemplo, tinha apenas cinco anos quando veio abaixo o muro de Berlim. Eles sabem que a Guerra Fria enformou-lhes a vida de várias maneiras porque ouviram dizer que afetou suas famílias. Alguns – não todos, claro – percebem que se algumas decisões tivessem sido diferentes em certos instantes críticos daquele conflito, eles poderiam nem ter tido uma vida a viver. Mas meus alunos se inscrevem no curso com pouquíssima noção de como a Guerra Fria começou, em que consistiu ou por que terminou da forma como terminou. Para eles é história: em nada diferente da Guerra do Peloponeso. No entanto, quando fica sabendo da grande rivalidade que dominou a segunda metade do século passado, a maioria de meus alunos fica fascinada, muitos espantados e uns poucos – geralmente depois da palestra sobre a crise dos mísseis de Cuba – deixam a sala de aula abalados. “Pôxa” – exclamam (limpei o termo um pouco) – “não fazia prefácio viii História da Guerra Fria a menor idéia de que chegamos tão perto!” E invariavelmente acrescentam: “Impressionante.” Para sua primeira geração “pós,” então, a Guerra Fria é ao mesmo tempo distante e perigosa. Que poderia alguém temer, surpreendem-se os jovens estudantes, de um país que acabou se revelando tão fraco, atrapalhado e temporário como a União Soviética? Mas também ficam indagando a si mesmos e a mim: como foi que conseguimos sair da Guerra Fria vivos? Escrevi este livro tentando responder essas perguntas, mas também para responder – em nível muito menos cósmico – outra que meus alunos sempre fazem. Não escapou a sua atenção o fato de que escrevi vários livros anteriores sobre a história da Guerra Fria; aliás, em geral especifico que leiam um deles que leva quase 300 páginas para chegar a 1962. “Não dá para ter mais anos com menos palavras?” – alguns têm perguntado educadamente. Pergunta razoável, e que me pareceu ainda mais razoável quando meu agente literário Andrew Wylie, pessoa tremendamente persuasiva, resolveu me convencer da falta de um livro curto, abrangente e acessível sobre a Guerra Fria – forma sutil de dar a entender que os anteriores não o são. Uma vez que considero ouvir meus alunos e meu agente apenas um pouquinho menos importante do que ouvir minha mulher (e ela também gostou da idéia) o projeto pareceu valer a pena. Portanto, História da Guerra Fria se destina principalmente a uma nova geração de leitores para quem a Guerra Fria nunca foi assunto “do noticiário.” Espero que os leitores que viveram a Guerra Fria também possam achar o livro útil, pois, como certa vez disse Marx (Groucho, não Karl): “Fora do cão, um livro é o melhor amigo do homem. Dentro do cão é muito escuro para ler.” Enquanto a Guerra Fria estava em curso, era difícil saber o que estava acontecendo. Agora que terminou – e agora que os arquivos soviéticos, da Europa oriental e chineses começaram a ser abertos – sabemos muito mais: aliás, sabese tanto que é fácil ficar assoberbado. Essa é ainda outra razão para escrever um livro curto. Obrigou-me a aplicar a toda essa massa de nova informação o teste simples de importância tornado famoso por meu falecido colega de Yale, Robin Winks: “Sim, e daí?” Agora, uma palavra, também, sobre o que este livro não pretende ser. Prefácio ix Não é um trabalho acadêmico original. Os historiadores da Guerra Fria acharão familiar muito do que digo, em parte porque extraí bastante de seus trabalhos e, em parte, porque repeti muita coisa dos meus. Tampouco o livro procura raízes, dentro da Guerra Fria, de fenômenos posteriores a ela, tais como globalização, limpeza étnica, extremismo religioso, terrorismo ou revolução da informação. Também não dá qualquer contributo à teoria das relações internacionais, campo que já tem suficiente complicação sem que eu ainda acrescente alguma. Ficarei satisfeito, entretanto, se esta visão da Guerra Fria em seu conjunto criar novas formas de ver seus componentes. Uma que me surpreendeu especialmente é o otimismo, qualidade que, em geral, não se liga à Guerra Fria. O mundo, tenho certeza, é um lugar melhor pelo fato de o conflito ter-se travado da forma como o foi e ser vencido pelo lado que o venceu. Hoje em dia, ninguém se preocupa com uma nova guerra mundial, ou com um triunfo total de ditadores, ou com a perspectiva do fim da civilização. Não era o caso quando começou a Guerra Fria. Com todos seus perigos, atrocidades, custos, torvelinho mental e concessões morais, a Guerra Fria – tal como a Guerra de Secessão americana – foi um confronto necessário que resolveu questões fundamentais de uma vez por todas. Não há por que ter saudade dela. Porém, considerando as alternativas, temos também pouca razão para lamentar que ela tenha ocorrido. A Guerra Fria foi travada em diferentes níveis, de formas distintas, em múltiplos lugares por um tempo muito longo. Qualquer tentativa de reduzir-lhe a história ao papel de grandes forças, grandes potências ou grandes líderes não lhe faria justiça. Qualquer esforço de amarrála em simples narrativa cronológica só daria numa massa informe. Preferi, em vez disso, focalizar cada capítulo num tema importante: por isso, eles se sobrepõem no tempo e movem-se no espaço. Sentime à vontade para aproximar o foco do geral para o particular, depois afastá-lo de novo para o geral. Não hesitei em escrever com uma perspectiva que leva em plena conta como terminou a Guerra Fria: não vejo outro modo. Por fim, quero agradecer aos que inspiraram, facilitaram e pacientemente aguardaram este livro. Certamente incluem-se meus alunos, História da Guerra Fria cujo permanente interesse na Guerra Fria alimenta o meu próprio. Também sou grato a Andrew Wylie, como o serão os futuros estudantes, por ter sugerido este método de cobrir mais anos com menos palavras – e por haver, desde então, auxiliado muitos de meus ex-alunos a publicarem seus próprios livros. Scott Moyers, Stuart Proffitt, Janie Fleming, Victoria Klose, Maureen Clark, Bruce Giffords, Samantha Johnson e seus colegas da editora Penguin foram de admirável condescendência com prazos perdidos e de exemplar eficiência na produção deste livro em atraso, tão logo ficou pronto. Dificilmente seria escrito sem o apoio de Christian Ostermann e seus colegas do Cold War International History Project, cuja energia e meticulosidade em coletar documentos no mundo inteiro (no dia em que escrevo chegou o último conteúdo escondido dos arquivos albaneses) deixaram todos os historiadores da Guerra Fria em débito com eles. Em último lugar, mas muito longe de menos importante, agradeço a Toni Dorfman, a melhor editora e revisora de provas e a mais adorável esposa do mundo. O homenageado a quem dedico meu livro foi uma das mais importantes figuras da história da Guerra Fria – e um amigo de longa data – cuja biografia agora será meu compromisso escrever. J.L.G. New Haven Sumário prefácio vii prólogo: A Vista para a Frente 1 1. A Volta do Medo 5 2. Barcos da Morte e Barcos Salva-vidas 46 3. Comando versus Espontaneidade 80 4. Desperta a Autonomia 114 5. A Volta da Eqüidade 149 6. Atores 187 7. O Triunfo da Esperança 229 epílogo: A Vista para Trás 251 Notas 259 Bibliografia 290 Índice 309 Mapas mudanças territoriais européias, 1939-1947 11 alemanha e áustria divididas 23 a guerra da coréia, 1950-1953 43 alianças e bases dos eua e da urss, início dos anos 1970 94 oriente médio, 1967, 1979 198 oriente próximo em turbulência, 1980 202 uma visão soviética, anos 1980 212 europa pós-guerra fria 250 –––––– Prólogo –––––– A Vista para a Frente ––––––––––––––––– Em 1946, um inglês de quarenta e três anos chamado Eric Blair alugou uma casa no fim do mundo, onde pretendia morrer. Ficava na ponta norte da ilha escocesa de Jura, no fim de uma trilha de terra, inacessível por automóvel, sem telefone e sem luz elétrica. O comércio mais próximo, único da ilha, ficava cerca de vinte e cinco milhas ao sul. Blair tinha razões para querer isolamento. Abatido com a morte recente da esposa, estava com tuberculose e logo começaria a tossir sangue. Seu país cambaleava sob o custo de uma vitória militar que não trouxera segurança, prosperidade e nem mesmo a certeza de sobrevivência da liberdade. A Europa ia se dividindo em dois campos inimigos e o mundo parecia acompanhar. Com a probabilidade de emprego de bombas atômicas, qualquer nova guerra seria apocalíptica. E ele precisava acabar um livro. O título foi 1984, uma inversão do ano em que o terminou, e saiu na Inglaterra e nos Estados Unidos em 1949 com o pseudônimo de Blair, George Orwell. As críticas, disse o New York Times, foram “esmagadoramente favoráveis,” mas “com gritos de terror subindo do aplauso.”1 Nada de surpreender, pois 1984 evocava uma época, apenas três décadas e meia à frente, em que o totalitarismo triunfara em toda parte. A individualidade estava sufocada, assim como lei, ética, criatividade, clareza lingüística, honestidade sobre história e até amor – não contando, claro, o amor que todos eram obrigados História da Guerra Fria a sentir pelo ditador modelo Stalin “Big Brother” e seus congêneres, que governavam um mundo em guerra permanente. “Se queres ter uma visão do futuro,” dizem a Winston Smith, o herói de Orwell, submetido a mais uma sessão de tortura implacável, “imagina um tacão chutando um rosto humano – para sempre.”2 Orwell morreu no início de 1950 – num hospital de Londres e não em sua ilha – sabendo apenas que o livro tinha impressionado e aterrado seus primeiros leitores. Leitores subseqüentes reagiram da mesma forma: 1984 se transformou na mais convincente visão, logo após a Segunda Guerra Mundial, sobre o que viria a seguir. À medida que se aproximou o verdadeiro ano de 1984, foram inevitáveis as comparações com o ano imaginário de Orwell. O mundo ainda não era totalitário, mas ditadores dominavam grandes partes dele. O perigo de guerra entre os Estados Unidos e a União Soviética – duas superpotências em vez das três que Orwell previra – era maior do que fora por muitos anos. E o conflito que parecia permanente, conhecido como “Guerra Fria” e que começara enquanto Orwell ainda estava vivo, não dava a mínima indicação de chegar ao fim. Foi quando, na noite de 16 de janeiro de 1984, um ator que Orwell reconheceria de seus tempos de crítico de cinema, apareceu na televisão em seu mais recente papel, o de presidente dos Estados Unidos. A reputação de Ronald Reagan, até aquele instante, era a de guerreiro ardoroso da Guerra Fria. Agora, entretanto, ele entreviu um futuro diferente: Por um instante, suponham comigo que um Ivan e uma Anya se encontrassem, digamos, numa sala de espera, ou num abrigo da chuva ou de uma tempestade com um Jim e uma Sally, e não houvesse barreira de idioma a impedi-los de se conhecerem. Conferenciariam eles sobre a diferença entre seus respectivos governos? Ou acabariam trocando comentários sobre as crianças e sobre os empregos de cada um? (…) Provavelmente resolveriam sair juntos para jantar uma noite dessas. Provariam, sobretudo, que pessoas não fazem guerras.3 Foi um convite inesperadamente gentil para que rostos humanos prevalecessem sobre tacões, ditadores e mecanismos de guerra. Desencadeou, no ano 1984 de Orwell, a seqüência de eventos por meio Prólogo dos quais isso aconteceria. Apenas um ano depois do discurso de Reagan, um ardente inimigo do totalitarismo subiu ao poder na União Soviética. Em seis anos, desmoronou o controle daquele país sobre metade da Europa. Em oito anos, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – o país que provocara a grande profecia deprimente de Orwell – deixara de existir. Essas coisas não aconteceram só porque Reagan fez um discurso ou porque Orwell escreveu um livro: o restante deste trabalho vai complicar as causas. Mas vale a pena começar com visões, pois elas criam as esperanças e os medos. Depois, a história determina o que vai prevalecer. ––––––– 1 ––––––– A Volta do Medo –––––––––––––––– Era assim que a guerra devia acabar: com vivas, apertos de mão, bebida, dança e esperança. A data era 25 de abril de 1945, o local a cidade de Torgau sobre o Elba, leste da Alemanha; o evento, primeiro encontro entre os dois exércitos que tinham cortado a Alemanha nazi em duas, convergindo de extremos opostos da terra. Cinco dias depois, Adolf Hitler estourou os miolos debaixo dos escombros que eram tudo que restara de Berlim. Cerca de uma semana depois, os alemães se renderam incondicionalmente. Os líderes da vitoriosa Grande Aliança, Franklin D. Roosevelt, Winston Churchill e Iosef Stalin já tinham trocado seus apertos de mão, brindes e esperanças de um mundo melhor em duas reuniões de cúpula durante a guerra – Teerã, em novembro de 1943, e Yalta, em fevereiro de 1945. Todavia, estes gestos pouco significariam se as tropas que comandavam não fossem capazes de fazer suas próprias e ruidosas celebrações onde realmente importava: nas linhas de frente de um campo de batalha do qual o inimigo agora desaparecia. Esperamos que eles chegassem até nossa margem. Podíamos ver os rostos. Parecia gente comum. Tínhamos imaginado algo diferente. Bem, eram americanos! Liubova Kozinchenka, Exército Vermelho, 58ª Divisão de Guardas Acho que não sabíamos o que esperar dos russos, mas quando a gente olhou bem para eles, podiam ser uma coisa ou outra, sabe? Se botar um uniforme americano neles, podiam ser americanos! Al Aronson, Exército dos EUA, 69ª Divisão de Infantaria1 História da Guerra Fria Por que motivo, então, os exércitos se aproximaram um do outro tão cuidadosamente em Torgau, como se estivessem esperando encontrar visitantes interplanetários? Por que a semelhança que notaram lhes pareceu tão surpreendente e reconfortante? Por que, apesar disso, seus comandantes insistiram em cerimônias de rendição separadas, uma para o ocidente, em Reims, França, dia 7 de maio, e outra para a frente leste, em Berlim, dia 8 de maio? Por que as autoridades soviéticas tentaram conter as manifestações pró-americanas espontâneas que surgiram em Moscou depois do anúncio oficial da capitulação alemã? Por que as autoridades americanas, na semana seguinte, suspenderam abruptamente embarques críticos da ajuda do Lend-Lease para a União Soviética e depois os retomaram? Por que Harry Hopkins, assessorchave de Roosevelt, que desempenhara papel crucial na criação da Grande Aliança, em 1941, teve que correr a Moscou seis semanas após a morte de seu chefe para tentar salvá-la? Por que, aliás, anos mais tarde, Churchill intitularia suas memórias desses acontecimentos Triunfo e Tragédia? A resposta a todas estas perguntas é praticamente a mesma: venceu a guerra uma coalizão cujos membros mais importantes já estavam em guerra – ideológica e geopoliticamente, se não militarmente – entre si. Quaisquer que fossem os triunfos da Grande Aliança na primavera de 1945, seu êxito sempre dependera da busca de objetivos compatíveis por sistemas incompatíveis. A tragédia foi esta: aquela vitória exigiria que os vencedores deixassem de ser o que eram ou desistissem de muito do que esperavam atingir com aquela guerra. I Houvera de verdade um visitante extraterrestre nas margens do Elba em abril de 1945, ele ou ela ou a coisa poderia, de fato, ter notado semelhanças superficiais nos exércitos americano e russo que ali se encontraram, bem como nas sociedades de que provinham. Ambos, Estados Unidos e União Soviética, nasceram em revoluções. Ambos abraçaram ideologias com aspirações globais: o que funcionou para eles em casa, presumiram os líderes, funcionaria para o resto do mundo. Ambos, estados continentais, avançaram por extensas fronteiras A volta do medo e, naquele momento, eram o primeiro e o terceiro maiores países do mundo. E ambos tinham entrado na guerra em resultado de ataques de surpresa: a invasão alemã da União Soviética começada em 22 de junho de 1941 e o ataque japonês a Pearl Harbor de 7 de dezembro de 1941, que Hitler usou como escusa para declarar guerra aos Estados Unidos, quatro dias mais tarde. As semelhanças, no entanto, ficariam nisto. As diferenças, que qualquer observador habitante da Terra apontaria rapidamente, eram muito maiores. A revolução americana, ocorrida mais de um século e meio antes, refletiu uma grande desconfiança da concentração de autoridade. Liberdade e justiça, tinham insistido os Fundadores, só viriam pela constrição do poder. Graças a uma constituição engenhosa, a seu distanciamento geográfico dos rivais em potencial e à magnífica dotação de recursos naturais, os americanos puderam construir um estado extraordinariamente poderoso, fato que ficou óbvio durante a Segunda Guerra Mundial. Porém chegaram a este resultado limitando fortemente a capacidade do governo de controlar a vida quotidiana, fosse pela difusão de idéias, pela organização da economia ou pela conduta da política. Apesar da herança da escravidão, do quase extermínio dos americanos nativos e de persistente discriminação racial, sexual e social, os cidadãos dos Estados Unidos podiam perfeitamente proclamar, em 1945, que viviam na mais livre sociedade da face da Terra. A revolução bolchevique, que ocorrera apenas um quarto de século antes, tinha, em contraste, adotado a concentração da autoridade como forma de derrubar os inimigos de classe e consolidar uma base da qual a revolução proletária se pudesse espalhar pelo mundo. Karl Marx asseverou, no Manifesto Comunista de 1848, que a industrialização que os capitalistas haviam desencadeado expandia e explorava ao mesmo tempo a classe operária, que, mais cedo ou mais tarde, se libertaria. Não querendo esperar que isso acontecesse, Vladimir Ilyich Lênin procurou acelerar a história em 1917, assumindo o controle da Rússia e impondo o marxismo, ainda que o país estivesse contrariando a predição de Marx, segundo a qual a revolução só poderia acontecer em uma sociedade industrial avançada. Por sua vez, Stalin resolveu este problema redesenhando a Rússia a fim de caber na ideologia História da Guerra Fria marxista-leninista: forçou um país eminentemente agrário com pouca tradição de liberdade a virar uma nação fortemente industrializada e absolutamente sem liberdade. Em conseqüência, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas era, ao final da Segunda Guerra Mundial, a sociedade mais autoritária da face da Terra. Se as nações vitoriosas não podiam ser mais diferentes, o mesmo se pode dizer com relação às guerras que travaram entre 1941 e 1945. Os Estados Unidos enfrentaram guerras separadas simultaneamente – contra os japoneses no Pacífico e os alemães na Europa – mas sofreram baixas notavelmente pequenas: pouco menos de 300 mil americanos morreram em todos os teatros de operações. Geograficamente distante de onde ocorriam os combates, o país não sofreu grandes ataques, com exceção do primeiro, em Pearl Harbor. Com sua aliada, a Inglaterra (que teve cerca de 357 mil mortos de guerra), os Estados Unidos foram capazes de escolher onde, quando e em que circunstâncias combateriam, fato que reduziu muito os custos e riscos de entrar na luta. Mas, ao contrário dos ingleses, os americanos emergiram da guerra com sua economia próspera: as despesas de guerra tinham causado a quase duplicação do produto interno bruto em menos de quatro anos. Se já houve uma coisa chamada “boa” guerra, esta, para os Estados Unidos, chegou perto. A União Soviética não teve tais vantagens. Travou apenas uma guerra, mas talvez a mais terrível da história. Com grandes e pequenas cidades e o interior devastados, suas indústrias arruinadas ou transferidas às pressas para além dos Urais, a única opção, afora render-se, era a resistência desesperada, em terreno e circunstâncias escolhidos pelo inimigo. As estimativas de baixas, incluindo civis e militares, são notoriamente inexatas, mas é provável que uns 27 milhões de cidadãos soviéticos tenham morrido em conseqüência direta da guerra, isto é, quase noventa vezes mais do que os mortos americanos. A vitória não poderia ter preço mais alto: em 1945, a URSS era um país destruído, feliz só por sobreviver. A guerra, disse um observador da época, era “tanto a mais apavorante como a mais orgulhosa lembrança do povo russo.”2 Chegada a hora de dar forma aos acertos de pós-guerra, porém, os A volta do medo vitoriosos estavam mais equilibrados do que esta assimetria poderia indicar. Os Estados Unidos não tinham compromisso de reverter sua longa tradição de alheamento dos assuntos europeus. Roosevelt chegara a garantir a Stalin, em Teerã, que as tropas americanas voltariam para casa dentro de dois anos após o fim da guerra.3 Tampouco, em face da depressão que caracterizara os anos 30, podia haver certeza de que a expansão econômica do tempo de guerra persistiria, ou que a democracia lançaria raízes além das relativamente poucas nações em que ainda existia. A rematada verdade de que os americanos e ingleses não teriam derrotado Hitler sem a ajuda de Stalin significou que a Segunda Guerra Mundial foi só uma vitória sobre o fascismo – não sobre o autoritarismo e suas perspectivas para o futuro. Já a União Soviética contou com vantagens, a despeito das imensas perdas. Sendo parte da Europa, suas forças militares não se retirariam da Europa. Sua economia dirigida mostrara-se capaz de manter o pleno emprego, enquanto as democracias capitalistas, nos anos anteriores à guerra, tinham fracassado neste intento. Sua ideologia gozava de amplo respeito na Europa, pois lá os comunistas tinham comandado a maior parte da resistência aos alemães. Finalmente, a carga desproporcional que recaiu sobre o Exército Vermelho para derrotar Hitler deu à URSS a reivindicação moral de uma influência substantiva, talvez predominante, na formulação dos acordos de pós-guerra. Em 1945, foi no mínimo tão fácil acreditar que a onda do futuro era o comunismo autoritário quanto crer que era o capitalismo democrático. A União Soviética teve ainda a vantagem de ser a única das nações vitoriosas a sair da guerra com uma liderança experimentada. A morte de Roosevelt em 12 de abril de 1945 catapultara seu inexperiente e pouco informado vice-presidente Harry S. Truman para a Casa Branca. Três meses depois, a inesperada derrota de Churchill na eleição geral inglesa fez primeiro-ministro o líder do Partido Trabalhista, Clement Attlee, homem de muito menos estatura. A União Soviética, em contraste, tinha Stalin, seu indiscutível chefe desde 1929, o homem que reconstruíra o país e o trouxera à vitória na Segunda Guerra Mundial. Astucioso, temível e aparentando calma determinação, o ditador do 10 História da Guerra Fria Kremlin sabia bem o que queria após a guerra. Truman, Attlee e as nações que eles governavam pareciam muito menos fixos. II Bem, e daí? Que queria Stalin? Faz sentido começar por ele, pois só ele, entre os três líderes do pós-guerra, tivera tempo com autoridade para identificar e escolher suas prioridades. Com sessenta e cinco anos de idade ao final da guerra, o homem que governava a União Soviética estava fisicamente exaurido, rodeado de sicofantas, pessoalmente solitário – mas ainda no controle de modo firme, amedrontador. Como assinalou um diplomata americano, o bigode mal cuidado, os dentes manchados, o rosto com marcas de varíola e os olhos amarelos “davam- lhe o aspecto de um tigre velho curtido na luta. (…) Um visitante desinformado não imaginaria o quanto de maquinação, ambição, amor ao poder, desconfiança, crueldade e dissimulada índole vingativa se escondiam por trás daquela aparência despretensiosa.”4 Por uma série de expurgos na década de 30, havia muito Stalin tinha eliminado todos os seus rivais. Um arquear de sobrancelha ou estalar de dedos, como sabiam seus subordinados, poderia ser a diferença entre vida e morte. Surpreendentemente baixo – apenas 1,63m – apesar disso o homenzinho barrigudo era um gigante que dominava um país gigantesco. Os objetivos de Stalin no pós-guerra eram segurança para si mesmo, para seu regime, para seu país e para sua ideologia, exatamente nesta ordem. Procurou se assegurar de que nenhum desafio no plano interno pudesse jamais pôr em risco seu governo pessoal e que nenhuma ameaça externa pudesse algum dia pôr de novo em risco seu país. O interesse de comunistas noutras partes do mundo, admiráveis como fossem, nunca poderia se sobrepor às prioridades do estado soviético como ele as estabelecera. Narcisismo, paranóia e poder absoluto juntaram-se em Stalin:5 dentro da União Soviética e do movimento comunista internacional, ele era tremendamente temido – mas ao mesmo tempo, idolatrado. Stalin achava que o custo da guerra em vidas e bens devia ditar, após a guerra, quem ficava com que: logo, a União Soviética ficaria com muito.6 Não apenas retomaria os territórios perdidos durante a MAPA mudanças territoriais européias 1939-1947 12 História da Guerra Fria Segunda Guerra, mas reteria aqueles que tomara em razão do oportunista porém míope Pacto de “não-agressão” que Stalin celebrara com Hitler em agosto de 1939 – porções da Finlândia, da Polônia e da Romênia, além dos estados bálticos inteiros. Exigiria que os estados além destas fronteiras expandidas ficassem na esfera de influência de Moscou. Queria concessões territoriais às custas do Irã e da Turquia (inclusive o controle dos Estreitos turcos), assim como bases navais no Mediterrâneo. Finalmente, uma Alemanha derrotada e devastada ele puniria com ocupação militar, expropriação de bens, pagamento de indenizações e transformação ideológica. Contudo, havia aqui um penoso dilema para Stalin. Prejuízos desproporcionais durante a guerra podiam perfeitamente valer para a União Soviética ganhos desproporcionais no pós-guerra, mas também retiravam do país o poder indispensável para garantir unilateralmente esses ganhos. A URSS precisava de paz, de ajuda econômica e do assentimento diplomático de seus antigos aliados. Por ora, não teve escolha a não ser buscar a cooperação de americanos e ingleses; tanto quanto eles tinham dependido de Stalin para derrotar Hitler, agora Stalin dependia da constante boa-vontade anglo-americana para alcançar seus objetivos de pós-guerra a um custo razoável. Portanto, não queria uma guerra, quente ou fria.7 Se ele seria hábil o suficiente para evitar estas alternativas, era outra questão bem diferente. Pois a compreensão de Stalin dos seus aliados do tempo da guerra e dos objetivos deles se baseava mais no que ele desejava que fossem do que numa avaliação criteriosa das prioridades conforme Washington e Londres as enxergavam. Foi aqui que a ideologia marxista-leninista influenciou Stalin, pois suas ilusões derivaram dela. A mais importante foi a crença, que recuava até Lênin, de que os capitalistas nunca seriam capazes de cooperar entre si por muito tempo. A ganância inerente ao capitalismo – a irresistível necessidade de pôr o lucro acima da política – mais cedo ou mais tarde prevaleceria, exigindo simplesmente que os comunistas tivessem paciência para esperar a autodestruição de seus adversários. “A aliança entre nós e a facção democrática dos capitalistas está dando certo porque eles tinham interesse em impedir o domínio de Hitler,” comentou Stalin A volta do medo 13 quando a guerra chegava ao fim. “No futuro, estaremos contra essa facção dos capitalistas também.”8 A idéia de uma crise interna do capitalismo era até certo ponto plausível. Afinal, a Primeira Guerra Mundial fora uma guerra entre capitalistas; e veio por ali a oportunidade para surgir o primeiro estado comunista do mundo. A Grande Depressão deixou os países capitalistas restantes engalfinhados entre eles para salvar-se em vez de cooperar na reabilitação da economia global e em vez de sustentar o acordo de pós-guerra: como resultado, surgiu a Alemanha nazi. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, achava Stalin, a crise econômica ressurgiria. Então, os capitalistas precisariam da União Soviética e não o contrário. Eis porque ele esperava firmemente que os Estados Unidos emprestassem à União Soviética vários bilhões de dólares para a reconstrução: os americanos de outra forma não teriam mercado para seus produtos durante a crise que se avizinhava.9 Seguia-se daí, naturalmente, que a outra potência capitalista, a Inglaterra – cuja fraqueza Stalin nunca percebeu bem – mais cedo ou mais tarde romperia com seu aliado americano em função de rivalidades econômicas. “A inevitabilidade de uma guerra entre os países capitalistas continua,” insistiu ele, já em 1952.10 Da perspectiva de Stalin, as forças históricas de longo prazo compensariam a catástrofe que a Segunda Guerra Mundial fora para a União Soviética. Não seria preciso confrontar diretamente americanos e ingleses a fim de alcançar seus objetivos. Podia simplesmente esperar que os capitalistas começassem a brigar uns com os outros e que os europeus desgostosos abraçassem o comunismo como alternativa. Portanto, a meta de Stalin não era restaurar o equilíbrio de poder na Europa, mas dominar o continente tão completamente quanto Hitler quisera. Ele reconheceu, num pensativo comentário muito revelador, feito em 1947, que “se Churchill retardasse mais um ano a abertura da segunda frente no norte da França, o Exército Vermelho teria chegado à França. (…) Chegamos a entreter a idéia de entrar em Paris.”11 Ao contrário de Hitler, porém, Stalin não tinha um calendário fixo. Acolheu satisfeito os desembarques do Dia-D, apesar do fato de impedirem o Exército Vermelho de chegar em pouco tempo 14 História da Guerra Fria à Europa ocidental: a derrota da Alemanha era a primeira prioridade. Também não ia abandonar a diplomacia na conquista do objetivo, em boa parte porque esperava – ao menos pelo momento – a cooperação americana para alcançá-lo. Pois não havia Roosevelt dado a entender que os Estados Unidos não procurariam ter uma esfera de influência própria na Europa? Visão grandiosa a de Stalin: o domínio da Europa atingido pacificamente mas determinado historicamente. Defeituosa visão também, pois deixou de levar em conta os desdobrados objetivos americanos de pós-guerra. III Que queriam os americanos após a guerra? Sem dúvida, também segurança, só que, ao contrário de Stalin, tinham muito menos certeza do que fazer para isso. A razão tinha a ver com o dilema que a Segunda Guerra Mundial lhes armara: os Estados Unidos não podiam continuar servindo de modelo para o resto do mundo e, ao mesmo tempo, permanecrem isolados do resto do mundo. Exatamente o que ao longo da maior parte de sua história os americanos tentaram. Não tinham de se preocupar muito com segurança porque oceanos separavam-nos de todos os outros países que pudessem representar eventual ameaça. Sua própria independência da Inglaterra resultou, tal como Thomas Paine predisse em 1776, da impropriedade de “um continente ser governado perpetuamente por uma ilha.”12 Malgrado sua superioridade naval, os ingleses jamais conseguiram projetar suficiente poder militar por 3 mil milhas de água para manter os americanos no império ou para impedi-los de dominarem o continente norte-americano. A probabilidade de outros europeus virem a fazê-lo era ainda mais remota, pois sucessivos governos em Londres concordaram com os americanos que não haveria qualquer outra colonização no hemisfério ocidental. Os Estados Unidos desfrutavam, portanto, o luxo de manter uma vasta esfera de influência sem o risco de, com isso, reptar os interesses de qualquer outra grande potência. Os americanos buscaram a influência global no plano das idéias: sua Declaração de Independência, afinal, promovera a radical afirmação de que todos os homens nascem iguais. Mas não mostraram empenho, nas A volta do medo 15 primeiras quatorze décadas de independência, em dar conseqüência a essa assertiva. Os Estados Unidos lá estavam como exemplo; o resto do mundo que decidisse como e em que circunstâncias seguiria o exemplo. “Nossa nação deseja a liberdade e independência de todas as outras,” declarou o ministro do Exterior John Quincy Adams em 1821, mas “é paladina e vindicante da idéia apenas para si mesma.”13 Apesar de ostentarem uma ideologia internacional, portanto, as práticas americanas eram isolacionistas: a nação ainda não chegara à conclusão de que sua segurança requeria o transplante de seus princípios. Sua política externa e militar era muito menos ambiciosa do que se poderia esperar de uma nação de tal tamanho e força. Só com a Primeira Guerra Mundial os Estados Unidos quebraram o padrão. Temeroso de que a Alemanha imperial pudesse vencer a Inglaterra e a França, Woodrow Wilson convenceu seus compatriotas de que o poderio militar americano era necessário para restaurar o equilíbrio de poder na Europa – mas ele mesmo justificou este objetivo geopolítico em termos ideológicos. O mundo, insistiu ele, tinha de se tornar “seguro para a democracia.”14 Wilson foi além ao propor, como base para um acordo de paz, a criação de uma Liga de Nações que imporia aos estados algo semelhante ao império da lei que os estados – ao menos os esclarecidos – impunham aos seus cidadãos. A idéia de que “só força cria direito” devia, esperava ele, desaparecer. Tanto a visão quanto a restauração do equilíbrio foram prematuros. A vitória na Primeira Guerra Mundial não fez dos Estados Unidos uma potência global: ao contrário, para muitos americanos confirmou o perigo do excesso de comprometimento. Os planos de Wilson para uma organização de segurança coletiva no pós-guerra iam muito além do que seus compatriotas estavam dispostos a ir. Enquanto isso, a desilusão com os aliados – ao lado da mal concebida e tíbia intervenção militar contra os bolcheviques na Sibéria e no norte da Rússia, em 1918-1920 – azedaram os frutos da vitória. A conjuntura externa estimulou um retorno ao isolacionismo: as visíveis iniqüidades do Tratado de Paz de Versalhes, os primeiros sinais de uma depressão global, depois, a ascensão de estados agressores na Europa e na Ásia oriental tiveram o dom de convencer os americanos de que melhor estariam evitando 16 História da Guerra Fria de todo envolvimentos internacionais. Para um estado poderoso, foi uma retirada insólita de responsabilidades além-fronteiras. Chegado à Casa Branca em 1933, Franklin D. Roosevelt se esforçou sempre – muitas vezes por vias tortuosas – para levar os Estados Unidos a um papel mais ativo em política mundial. Não foi fácil: “Sinto-me tateando por uma porta na parede nua.”15 Mesmo depois que o Japão foi à guerra com a China, em 1937, e da eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, FDR fez apenas mínimo progresso em persuadir a nação de que Wilson estava certo: a segurança do país podia ver-se ameaçada pelo que sucedia na outra metade do mundo. Foram necessários os terríveis acontecimentos de 1940-1941 – a queda da França, a Batalha da Inglaterra e, por fim, o ataque japonês a Pearl Harbor – para causar um retorno dos americanos à tarefa de restabelecer um equilíbrio de poder fora dos limites do hemisfério ocidental. “Aprendemos com nossos erros no passado,” assegurou o presidente em 1942. “Desta vez, saberemos fazer pleno uso da vitória.”16 Roosevelt teve quatro grandes prioridades na guerra. A primeira foi sustentar aliados – principalmente a Inglaterra, a União Soviética e (com menos sucesso) a China nacionalista – porque não havia outro caminho para chegar à vitória: os Estados Unidos não poderiam lutar sozinhos contra a Alemanha e o Japão. A segunda foi assegurar a cooperação aliada em dar forma ao acerto de pós-guerra, pois, sem isso, haveria pouca esperança de paz duradoura. A terceira tinha a ver com a natureza de tal acerto. Roosevelt esperava que seus aliados endossassem um arranjo que afastasse as causas mais prováveis de guerras futuras. Isto queria dizer um novo órgão de segurança coletiva com poder para dissuadir e se necessário punir agressão, bem como o restabelecimento de um sistema econômico global equipado para prevenir nova depressão mundial. Finalmente, o acordo deveria ser “vendável” ao povo americano: FDR não pretendia repetir o erro de Wilson levando a nação além do que queria ir. Não haveria reversão ao isolacionismo, então, depois da Segunda Guerra Mundial. Mas os Estados Unidos tampouco estavam dispostos – não mais do que a União Soviética – a aceitar um mundo pós-guerra que lembrasse o mundo de antes da guerra. A volta do medo 17 Cabe uma palavra sobre os objetivos ingleses. Churchill definiu que eram muito mais simples: sobreviver ao custo que fosse, mesmo que significasse renunciar à liderança da coalizão anglo-americana em favor de Washington, mesmo que significasse enfraquecer o Império Britânico e até mesmo que significasse colaborar com a União Soviética, regime que Churchill mais jovem quisera esmagar após a revolução bolchevique.17 Os ingleses tentariam influenciar os americanos o mais possível – aspiravam ao papel dos gregos tutelando os romanos – mas em hipótese nenhuma ter com eles qualquer rixa. A idéia de Stalin de uma Inglaterra independente capaz de resistir aos Estados Unidos ao ponto de ir à guerra, teria parecido realmente estranha aos que formulavam a grande estratégia inglesa de guerra e de pós-guerra. IV Em vista dessas prioridades, que perspectivas havia de se chegar a um acordo capaz de preservar a Grande Aliança? Roosevelt, Churchill e Stalin sem dúvida ansiavam por esse desfecho e nenhum deles tão cedo queria novos inimigos, depois de ter vencido aqueles. Mas desde o começo a coalizão fora simultaneamente uma forma de cooperação para derrotar o Eixo e um instrumento pelo qual cada um dos vitoriosos procurava ter o máximo de influência no mundo de pós-guerra. Nem poderia ser doutra forma. Apesar de os “três grandes” declararem que não se podia pensar em política com a guerra em curso, nenhum deles acreditava neste princípio ou pensava em obedecê-lo. O que realmente fizeram – em comunicados e conferências, quase sempre sem conhecimento público – foi tentar conciliar objetivos políticos divergentes, tal como se visassem a uma operação militar de interesse comum. Em grande parte fracassaram, e foi este fracasso que originou a Guerra Fria. Os principais problemas foram os expostos a seguir. A segunda frente e uma paz em separado. À parte uma derrota propriamente dita, o que os anglo-americanos mais temiam era que a União Soviética celebrasse de novo um acordo com a Alemanha nazi, como já fizera em 1939, pondo grande parte da Europa sob controle autoritário. Daí a importância que Roosevelt e Churchill atribuíam 18 História da Guerra Fria à manutenção da União Soviética na guerra. Significava dar-lhe toda ajuda possível em alimento, roupa e armas, mesmo por meios arriscados e de alto custo: não era fácil mandar comboios para Murmansk e Archangel evitando ataques de submarinos. Também significava não contrariar a exigência de Stalin de recuperar territórios perdidos, apesar do fato inconveniente de alguns deles – estados bálticos, Polônia oriental, parte da Finlândia e Romênia – terem ficado sob domínio soviético unicamente em razão do pacto com Hitler. Finalmente, evitar uma paz em separado implicava criar uma segunda frente no continente europeu tão cedo fosse militarmente possível, embora em Londres e Washington se entendesse que isso requeria o adiamento da operação até o sucesso se afigurar provável e a um custo aceitável. Em conseqüência, a segunda frente – mais precisamente, as segundas frentes – se materializaram gradativamente, fato que aborreceu os russos atolados na guerra, que não se davam ao luxo de reduzir o número de baixas. A primeira foi aberta no norte da África sob controle de Vichy, onde as forças americanas e inglesas desembarcaram em novembro de 1942. Seguiram-se as invasões da Sicília e do sul da Itália no verão de 1943. Mas só em junho de 1944, com os desembarques na Normandia, as operações militares anglo-americanas começaram a retirar pressão significativa sobre o Exército Vermelho, que havia muito já virara a maré da guerra na frente oriental e agora expulsava de vez os alemães do território soviético. Stalin cumprimentou seus aliados pelo sucesso do Dia-D, mas permaneceu a suspeita de que o atraso fora deliberado, visando a deixar o peso da luta desproporcionalmente sobre a URSS.18 O plano, como mais tarde escreveu um analista soviético, fora os Estados Unidos participarem “apenas no último minuto, quando poderiam influir com facilidade no desfecho da guerra, assegurando plenamente seus interesses.”19 A importância política das segundas frentes foi pelo menos tão grande quanto sua expressão militar, pois significavam que americanos e ingleses estariam presentes, ao lado da União Soviética, na rendição e ocupação da Alemanha e seus satélites. Mais por razões de conveniência do que qualquer outra, o comando militar anglo-americano deixou os russos fora deste processo por ocasião da capitulação da A volta do medo 19 Itália, em setembro de 1943. O fato deu a Stalin o pretexto para algo que provavelmente teria feito de qualquer jeito, isto é, negar papel relevante a americanos e ingleses na ocupação da Romênia, Bulgária e Hungria, quando o Exército Vermelho entrou nesses territórios em 1944-45. Em outubro de 1944, Stalin e Churchill tinham concordado sem dificuldade que a União Soviética deveria ter influência predominante naqueles países, em reconhecimento da preponderância inglesa na Grécia. Sob a superfície, porém, as preocupações persistiram. Roosevelt protestou por não ter sido consultado sobre o acerto entre Stalin e Churchill e, quando ingleses e americanos começaram a negociação para a rendição das forças alemãs no norte da Itália, na primavera de 1945, Stalin teve uma reação que beirou o pânico. Alertou seus comandantes militares de que poderia ser um acordo para que os alemães cessassem os combates no Ocidente e continuassem a resistir no Leste.20 Desta forma, revelou a profundidade de seus temores de uma paz em separado. O fato de admitir, depois de tanto tempo, que seus aliados fossem capazes de celebrar acordo desse tipo mostra o pouco que as segundas frentes serviram para despreocupá-lo – e como era mínima sua disposição em confiar. Esferas de influência. A divisão da Europa em esferas de influência – como transpareceu do acordo entre Stalin e Churchill – deixaria pouco espaço para os europeus decidirem sobre seu futuro: por isso Roosevelt estava preocupado. Por mais que justificasse para si mesmo a guerra em termos de equilíbrio de poder, ele explicara ao povo americano como Wilson poderia ter feito – como uma luta pela autodeterminação. Churchill concordara com esta idéia em 1941, ao aceitar a Carta do Atlântico, uma reafirmação por FDR dos princípios de Wilson. Um importante objetivo anglo-americano era, portanto, conciliar estes ideais com as exigências territoriais de Stalin, bem como com sua insistência numa esfera de influência que assegurasse a presença de nações “amigas” ao longo das fronteiras soviéticas após a guerra. Roosevelt e Churchill insistiram repetidamente com Stalin para que permitisse eleições livres nos estados bálticos, na Polônia e 20 História da Guerra Fria noutras áreas da Europa oriental. Na Conferência de Yalta ele concordou em fazê-lo, mas sem a menor intenção de cumprir o prometido. “Não se preocupem,” acalmou ele seu ministro do Exterior Vyacheslav Molotov. “Implementaremos à nossa moda mais tarde. O cerne da questão é a correlação de forças.”21 E assim, Stalin conseguiu as aquisições territoriais e a esfera de influência que queria: os limites da União Soviética andaram várias centenas de milhas para oeste e o Exército Vermelho implantou regimes subservientes por todo o restante da Europa oriental. Nem todos eram ainda comunistas – o chefe do Kremlin, por ora, estava flexível neste ponto – mas nenhum prejudicaria a projeção da influência soviética para a Europa central. Americanos e ingleses tinham esperado um desfecho diferente em que os europeus orientais, particularmente os poloneses – primeiras vítimas da Segunda Guerra Mundial – escolheriam seus próprios governos. As duas posições poderiam ter se ajustado se os países da Europa oriental estivessem dispostos a eleger líderes que atendessem às exigências de Moscou, coisa que a Finlândia e a Tchecoslováquia fizeram. Para a Polônia, contudo, foi difícil seguir este caminho, pois as próprias ações de Stalin tinham havia muito eliminado qualquer possibilidade de que um governo polonês subserviente à União Soviética contasse com apoio popular. As afrontas incluíam o Pacto Nazi-Soviético de 1939, que extinguira a independência da Polônia, somado à subseqüente descoberta de que os russos tinham massacrado cerca de 4 mil oficiais poloneses na Floresta de Katyn, em 1940, além de 11 mil desaparecidos sem explicação. Stalin rompeu com o governo polonês no exílio de Londres em torno desta questão, em 1943, passando a apoiar um grupo de comunistas poloneses baseados em Lublin. Depois, nada fez quando os nazis esmagaram brutalmente o levante de Varsóvia de 1944 organizado pelos poloneses de Londres, embora o Exército Vermelho, naquele momento, já estivesse nos subúrbios da capital polonesa. A insistência de Stalin em se apossar de um terço do território polonês depois da guerra exacerbou ainda mais a nação; sua promessa de compensação às custas da Alemanha pouco fez para reparar o dano causado. A volta do medo 21 Já que os poloneses jamais elegeriam um governo pró-soviético, Stalin lhes impôs um. O preço, entretanto, foi uma Polônia permanentemente ressentida, assim como, entre seus aliados americanos e ingleses, uma crescente sensação de que não podiam mais confiar nele. Como disse um decepcionado Roosevelt duas semanas antes de sua morte: “Stalin quebrou todas as promessas feitas em Yalta.”22 Inimigos derrotados. Em contraste com o controle unilateral soviético sobre a Europa oriental, nunca restou qualquer dúvida – pelo menos depois do Dia-D – de que a Alemanha seria ocupada em conjunto. Entretanto, a forma como isso aconteceu deu aos russos a impressão de que tinham sido trapaceados. Os Estados Unidos, a Inglaterra e (graças à generosidade anglo-americana) a França terminaram controlando dois terços da Alemanha, não como decorrência da quantidade de sangue derramado durante a guerra, mas em conseqüência da proximidade geográfica da vanguarda de seus exércitos, além do fato de Stalin ter dado substancial parte da Alemanha oriental aos poloneses. Embora a zona soviética de ocupação envolvesse os setores da capital Berlim ocupados pelos aliados, cobria apenas um terço da população alemã e percentual ainda menor das instalações industriais. Por que Stalin aceitou esta divisão? Provavelmente por acreditar que o governo marxista-leninista que planejava implantar na Alemanha oriental funcionaria como “ím㔠para alemães nas zonas ocidentais de ocupação, levando-os a escolherem líderes que acabariam por unificar todo o país sob controle soviético. A longamente atrasada revolução do proletariado que Marx previra para a Alemanha então aconteceria. “Toda a Alemanha deve ser nossa, isto é, soviética, comunista,” comentou Stalin em 1946.23 Porém, havia dois grandes problemas nessa estratégia. O primeiro tinha a ver com a brutalidade com que o Exército Vermelho ocupou a Alemanha oriental. As tropas soviéticas não apenas se apossaram de propriedades e exigiram indenizações em escala indiscriminada, mas também perpetraram maciçamente violações sexuais. Cerca de dois milhões de mulheres alemãs sofreram esse destino entre 1945 e 1947.24 Este fato provocou o repúdio de todos os alemães e, 22 História da Guerra Fria portanto, uma assimetria que persistiria ao longo de toda a Guerra Fria: o regime implantado por Stalin no leste carecia da legitimidade que seu correspondente do ocidente rapidamente conquistou. O segundo problema tinha a ver com os aliados. O modo unilateral com que os soviéticos levaram as questões na Alemanha e na Europa oriental fez ingleses e americanos mais relutantes em confiarem na cooperação com Moscou, ao ocuparem o restante da Alemanha. Deste modo, aproveitaram todas as oportunidades para consolidar a ocupação em suas próprias zonas, assim como a dos franceses, aceitando de antemão a divisão do país. A idéia foi preservar o máximo possível de território alemão sob controle ocidental, em vez de correr o risco de deixar todo o país cair em mãos soviéticas. A maioria dos alemães, à medida que tomou consciência do que significava a dominação por Stalin, apoiou relutante essa política anglo-americana. O que aconteceu na Alemanha e Europa oriental, por sua vez, deixou os Estados Unidos pouco dispostos a incluírem a União Soviética na ocupação do Japão. A URSS não tinha declarado guerra ao Japão após Pearl Harbor e tampouco os aliados esperavam isto justamente quando o exército alemão estava nos subúrbios de Moscou. Contudo, Stalin prometera entrar na guerra do Pacífico três meses depois da rendição alemã e, em retribuição, Roosevelt e Churchill concordaram em devolver aos soviéticos as ilhas Kurilas, pertencentes aos japoneses, assim como a metade sul da ilha Sakalina e os direitos territoriais e bases navais na Manchúria, tudo perdido por ocasião da derrota da Rússia na guerra russo-japonesa de 1904-05. A opinião dominante em Washington e Londres era que a ajuda do Exército Vermelho – principalmente na invasão da Manchúria ocupada pelos japoneses – seria vital para apressar a vitória. Mas isto foi antes de os Estados Unidos testarem com sucesso sua primeira bomba atômica em julho de 1945. Tão logo ficou claro que os americanos possuíam esta arma, desapareceu a necessidade de apoio militar soviético.25 Consciente do precedente do unilateralismo soviético na Europa, o novo governo Truman não se mostrou disposto a admitir o mesmo no nordeste da Ásia. Nesta região, os americanos adotaram o princípio do próprio Stalin que estabelecia a correlação entre san24 História da Guerra Fria gue derramado e influência. Tinham arcado com a maior parte dos sacrifícios na guerra do Pacífico e, por conseguinte, deviam ocupar sozinhos o país que a iniciara. A bomba atômica. Entrementes, a bomba aumentava a desconfiança mútua entre soviéticos e americanos. Os americanos e os ingleses tinham criado secretamente a arma para empregá-la contra a Alemanha, mas os nazis se renderam antes que estivesse pronta. O segredo do Projeto Manhattan não se mantivera o suficiente para impedir que o serviço de informações soviético, por meio de espionagem, descobrisse bastante a seu respeito. Houve pelo menos três tentativas soviéticas bem sucedidas para penetrar a segurança de Los Alamos, onde a bomba estava sendo fabricada.26 O fato de Stalin ter montado uma importante operação para espionar seus aliados em meio a uma guerra que travavam lado-a-lado é outra forte indicação da falta de confiança entre eles – embora se deva reconhecer que os próprios anglo-americanos só preferiram informar Stalin a respeito da bomba quando foi testada com sucesso no deserto do Novo México. Assim, o chefe soviético não se mostrou muito surpreso quando Truman lhe deu a notícia na Conferência de Potsdam– ele sabia da bomba havia muito mais tempo que o novo presidente americano. Mas reagiu fortemente quando os Estados Unidos foram em frente e usaram a bomba contra os japoneses três semanas depois. Um teste no deserto era uma coisa, usar realmente a arma era outra. “A guerra é uma barbárie, mas usar a bomba atômica é superbarbárie,” reclamou Stalin ao saber da destruição de Hiroshima. A descoberta americana era uma nova objeção à sua insistência em que sangue derramado era conquista de influência: subitamente, os Estados Unidos tinham atingido uma capacidade militar que independia do desdobramento de exércitos num campo de batalha. Cérebro – e a tecnologia militar que podia criar – agora valia o mesmo. “Hiroshima abalou o mundo inteiro,” disse Stalin a seus cientistas ao autorizar a implantação de um programa soviético violento destinado a alcançar os Estados Unidos. “O equilíbrio foi destruído (…) Isso não pode ser.”27 Ademais, ao ver a bomba abreviando daquela forma a guerra e, A volta do medo 25 portanto, impedindo os russos de terem um papel relevante na derrota e ocupação do Japão, Stalin também encarou a bomba atômica como um meio de os Estados Unidos tentarem extrair concessões da União Soviética no pós-guerra: “A política americana é chantagear com a bomba A.”28 Havia uma certa dose de verdade nisso. Truman usara a bomba principalmente para terminar a guerra, mas ele e seus assessores realmente esperavam que a nova arma produzisse uma atitude um pouco mais conciliatória por parte da URSS. Não formularam uma estratégia a fim de chegar a este resultado, mas Stalin imediatamente pensou em uma estratégia para contrapor-se. Adotou uma linha ainda mais dura do que a anterior na consecução dos objetivos soviéticos, quando mais não fosse, para deixar patente que não podia ser intimidado. “Está óbvio,” disse a seus mais importantes assessores no fim de 1945, “que (…) não podemos conseguir nada sério se começarmos a ceder à intimidação ou a demonstrar incerteza.”29 As raízes da Guerra Fria na guerra mundial, ajudam, portanto, a explicar porque este novo conflito veio à tona tão rapidamente depois que o anterior acabou. Mas rivalidades de grandes potências de há muito eram pelo menos um padrão tão normal no comportamento de nações quanto alianças de grandes potências. Até um visitante extraterrestre que soubesse disto poderia muito bem esperar o que aconteceu. Certamente um teórico de relações internacionais esperaria. A pergunta interessante é por que os próprios líderes do tempo da guerra se surpreenderam e até se alarmaram com a ruptura da Grande Aliança. Suas esperanças de um desfecho diferente eram reais, ou não teriam se empenhado tanto, enquanto os combates ainda rugiam, num acordo sobre o que aconteceria quando cessassem as hostilidades. Suas esperanças eram paralelas – as visões não eram. Pondo a questão em seus termos mais elementares, Roosevelt e Churchill anteviam um acordo pós-guerra que garantisse equilíbrio de poder, observados certos princípios. A idéia era evitar uma nova guerra, não incorrendo nos erros que levaram à Segunda Guerra Mundial. Para tanto, assegurariam a cooperação entre as grandes potências, reviveriam a Liga criada por Wilson na forma de uma nova organização de segurança coletiva das Nações Unidas e incentivariam 26 História da Guerra Fria ao máximo a autodeterminação política e a integração econômica, de modo que as causas de guerra, como as viam, desaparecessem no devido tempo. A visão de Stalin era muito diferente: um acerto que garantisse sua própria segurança e a de seu país e simultaneamente estimulasse as rivalidades entre os capitalistas que levariam a uma nova guerra. O fratricídio capitalista, por sua vez, permitiria o eventual domínio soviético da Europa. A primeira era uma visão multilateral, que presumia a possibilidade de interesses compatíveis mesmo entre sistemas incompatíveis. A segunda não considerava tal coisa. V Os cientistas políticos gostam de falar em “dilemas de segurança,” situações em que um estado age para aumentar a própria segurança, mas, ao fazê-lo, diminui a de um ou mais outros estados, que, por sua vez, tentam reparar o dano sofrido por meio de medidas que reduzem a segurança do primeiro estado. A conseqüência é um remoinho cada vez mais fundo de desconfiança do qual os líderes mais bem intencionados e dotados de visão mais longa acham difícil escapar, de vez que as suspeitas passam a se auto-realimentar.30 Como as relações anglo-americanas com a União Soviética tinham caído nesse padrão bem antes do fim da Segunda Guerra Mundial, fica difícil dizer precisamente quando começou a Guerra Fria. Não houve ataques de surpresa, não houve declarações de guerra, sequer ameaças de rompimento de relações diplomáticas. Todavia, surgiu uma crescente sensação de insegurança nos mais altos escalões em Washington, Londres e Moscou, diante do esforço dos aliados do tempo da guerra no sentido de cada um garantir a própria segurança no pós-guerra. Com seus inimigos derrotados, pouco incentivo houve para que estes ex-aliados, como passaram a considerar a si mesmos, continuassem mantendo suas ansiedades sob controle. Cada crise surgida alimentou a seguinte, resultando a realidade de uma Europa dividida. Irã, turquia, mediterrâneo – e a contenção. Já tendo obtido as concessões territoriais que desejava na Europa oriental e no nordeste da Ásia, a primeira prioridade de Stalin depois da guerra era eliminar A volta do medo 27 o que considerava vulnerabilidades no sul. Um relato descreve sua satisfação com um mapa das novas fronteiras da União Soviética, mas apontando para o Cáucaso e reclamando: “Não me agrada nossa fronteira nesta região!”31 Seguiram-se três iniciativas: Stalin retardou a retirada das tropas soviéticas do norte do Irã, lá estacionadas desde 1942 como parte de um acordo anglo-soviético para evitar que o suprimento de petróleo daquele país caísse em mãos alemãs; exigiu concessões territoriais da Turquia bem como bases que dariam à União Soviética o efetivo controle dos Estreitos turcos; e reivindicou o papel de administrador de ex-colônias italianas no norte da África, tendo em vista assegurar uma ou mais bases navais adicionais no Mediterrâneo oriental. Porém, logo ficou evidente que Stalin fora longe demais. “Eles não permitirão,” seu habitualmente condescendente ministro do Exterior Molotov alertou em relação aos Estreitos. “Vá em frente, pressione-os por uma posse conjunta!” – replicou seu chefe, irritado. – “Exija!”32 Assim fez Molotov, sem resultado. Truman e Attlee rejeitaram netamente a jogada soviética por um reajuste de fronteiras às custas da Turquia, assim como bases navais mediterrâneas e turcas. Surpreenderam Stalin ao submeter ao conselho de segurança das Nações Unidas, já em 1946, a questão da ocupação do norte do Irã pelos soviéticos, na primeira utilização expressiva da nova organização mundial no trato de uma crise internacional. Vendo suas forças militares diluídas em tão amplo dispositivo e suas ambições reveladas, Stalin ordenou, vários meses depois, uma silenciosa retirada do Irã. Àquela altura, porém, Truman tinha reforçado sua própria posição estacionando a 6ª Esquadra americana – em caráter definitivo – no Mediterrâneo oriental. Foi um sinal inconfundível de que Stalin chegara ao limite do que podia conseguir invocando a tradicional cooperação do tempo de guerra.33 Esta nova postura firme de Washington coincidiu com a busca de explicações para o comportamento soviético: por que se desfez a Grande Aliança? Que mais queria Stalin? A melhor resposta veio de George F. Kennan, respeitado mas ainda membro júnior do serviço diplomático na embaixada americana em Moscou. No que ele mais tarde admitiu ter sido uma “atroz obstrução do processo telegráfico,” 28 História da Guerra Fria Kennan respondeu à última de uma longa série de indagações do Departamento de Estado com um telegrama de 8 mil palavras redigido de um impulso e remetido em 22 de fevereiro de 1946. Seria pouco dizer que o documento causou impacto em Washington: o “longo telegrama” de Kennan tornou-se o fundamento da estratégia dos Estados Unidos em relação à União Soviética por todo o restante da Guerra Fria.34 A intransigência de Moscou, insistiu Kennan, não resultava de qualquer iniciativa do Ocidente: decorria das necessidades internas do regime stalinista e nada que o Ocidente pudesse fazer num futuro previsível iria alterar este fato. Os líderes soviéticos tinham que tratar o mundo exterior como hostil porque isso lhes dava o único pretexto “para a ditadura sem a qual não sabiam governar, para as crueldades que não ousavam deixar de infligir e para os sacrifícios que se achavam obrigados a exigir.” Seria ingênuo esperar reciprocidade a concessões: não haveria mudança na estratégia da União Soviética até que ela encontrasse um acúmulo suficientemente grande de fracassos que convencesse algum futuro chefe do Kremlin – Kennan tinha pouca esperança que Stalin jamais notasse isto – de que a conduta do país não estava favorecendo seus interesses. Não seria necessária uma guerra para produzir este resultado. O que seria preciso, como assinalou Kennan em uma versão de suas idéias publicada no ano seguinte, era “uma contenção de longo prazo das tendências expansivas russas, paciente mas firme e vigilante.”35 Kennan não podia saber, na época, que um de seus mais atentos leitores era o próprio Stalin. O serviço soviético de inteligência rapidamente tomou conhecimento do “longo telegrama” – tarefa relativamente fácil porque o documento, embora sigiloso, teve ampla circulação.36 Para não ser ultrapassado, Stalin mandou que seu embaixador em Washington, Nikolai Novikov, redigisse ele próprio um “telegrama,” que foi enviado para Moscou em 27 de setembro de 1946. “A política exterior dos Estados Unidos,” afirmava Novikov, “reflete a tendência imperialista do capitalismo monopolista americano, e se caracteriza (…) por um esforço pela supremacia mundial.” Como conseqüência, os Estados Unidos estavam aumentando em escala “colossal” A volta do medo 29 suas despesas militares, abrindo bases bem além de suas fronteiras e tinham chegado com a Inglaterra a um acordo para a divisão do mundo em esferas de influência. Mas a cooperação anglo-americana estava “contaminada por grandes contradições internas e não poderia durar (…) É bem possível que o Oriente Próximo venha a se transformar em foco de contradições anglo-americanas que implodirão os acordos a que chegaram agora os Estados Unidos e a Inglaterra.”37 A avaliação de Novikov – que refletia o pensamento de Stalin e o próprio Molotov reviu e refez38 – explica perfeitamente a autoconfiança tranqüila com que o líder do Kremlin recebeu o recém-nomeado secretário de Estado de Truman, George C. Marshall, quando os ministros de relações exteriores americano, inglês, francês e soviético tiveram uma reunião em Moscou, em abril de 1947. Era um velho costume de Stalin, ao receber visitantes importantes, desenhar cabeças de lobo em um bloco com lápis vermelho e isso ele fez quando assegurou a Marshall que o fracasso em assentar o futuro da Europa de pós-guerra não era grande problema: não havia pressa. Marshall, o sereno, lacônico, mas arguto general que, mais do que ninguém, dera forma à estratégia militar americana durante a Segunda Guerra Mundial, não se sentiu reconfortado. “Em toda a viagem de volta,” lembrou mais tarde um de seus auxiliares, falou sobre “a importância de encontrar alguma iniciativa para evitar o colapso da Europa ocidental.”39 A doutrina de truman e o pl ano marshall . Se Stalin tivesse prestado aos relatórios da inteligência sobre a conferência de ministros do exterior a mesma atenção que prestara aos que informaram sobre a bomba atômica e o “longo telegrama” de Kennan, poderia ter previsto o que estava para acontecer. Marshall e seus colegas da Inglaterra e da França passaram muitas horas em Moscou – quando não estavam em infrutíferos encontros com Molotov – discutindo a necessidade de cooperar na reconstrução da Europa. As salas em que se reuniam sem dúvida estavam grampeadas. Mas a ideologia se sobrepôs à escuta na mente de Stalin. Lênin não demonstrara que capitalistas jamais cooperavam por muito tempo? O “telegrama” de Novikov não confirmara isso? O chefe do Kremlin tinha suas razões para estar autoconfiante. 30 História da Guerra Fria Porém não eram razões sólidas. Truman já tinha anunciado, em 12 de março de 1947, um programa de assistência militar e econômica à Grécia e à Turquia, motivado pelo inesperado pronunciamento do governo inglês, apenas duas semanas antes, de que não podia mais agüentar o custo do apoio àqueles países. Truman fizera seu anúncio em termos notavelmente amplos, insistindo em que, daquele momento em diante, “a política americana deve apoiar povos livres que estão resistindo a tentativas de submissão a minorias armadas ou a pressões externas (…) Devemos ajudar os povos livres a buscar eles mesmos seus próprios destinos.”40 Stalin deu pouca atenção ao pronunciamento de Truman, embora, naquela primavera, tivesse se preocupado em insistir que uma história da filosofia recentemente publicada fosse reescrita a fim de minimizar a deferência que dispensava ao ocidente.41 Enquanto Stalin se voltava para esta tarefa, Marshall – seguindo a direção de Truman – formulava uma grande estratégia para a Guerra Fria. O “longo telegrama” de Kennan tinha diagnosticado o problema: a União Soviética criava internamente a hostilidade contra o mundo ocidental. Mas não apontara qualquer solução. Agora, Marshall disse a Kennan que pensasse numa, e deu-lhe uma só orientação: “evite o trivial.”42 A recomendação, convém reconhecer, foi obedecida. O programa de recuperação da Europa anunciado em junho de 1947 por Marshall comprometeu os Estados Unidos com nada menos que a reconstrução européia. O Plano Marshall, como ficou logo conhecido, naquele momento não fez distinção entre as regiões do continente que estavam sob controle soviético e as que não estavam – mas o pensamento por trás do conceito certamente fazia. O Plano Marshall se baseou em várias premissas: que a ameaça mais séria aos interesses ocidentais na Europa não era a perspectiva de uma intervenção militar soviética, mas o perigo de fome, pobreza e desespero levarem os europeus a porem no governo seus próprios comunistas, que então atenderiam obedientemente os desejos de Moscou; que a ajuda econômica americana produziria benefícios psicológicos imediatos e, mais adiante, benefícios materiais que reverteriam aquela tendência; que a União Soviética não aceitaria essa ajuda e não deixaria seus satélites aceitarem, provocando tensão nas

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