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Jogo Duro - A História de João Havelange (Cód: 1973435)

Rodrigues, Ernesto

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Descrição

Durante quase trinta anos, aprendi, como jornalista, a desconfiar da importância de João Havelange. Rezavam as redações que ele era um mero predador do campo sagrado do futebol, patrimônio do povo brasileiro, da humanidade e, principalmente, da crônica esportiva. Enquanto eu aprendia essas certezas e sentenças, ele se tornava o brasileiro mais influente e poderoso do mundo. E revolucionava o futebol, sem tomar conhecimento de adversários, torcidas, regimes, ideologias e, sobretudo, de jornalistas - estivessem certos ou não.
Depois de quase dois anos de pesquisa, e de mais de uma centena de entrevistas, conheci um personagem instigante e complexo, bem diferente daquele que havia herdado, embrulhado em tantas certezas e sentenças.
João Havelange foi o primeiro leitor deste livro. Ele não gostou de tudo o que leu. Mas não me negou o direito de revelar o que descobri, além do mito e da lenda.

Ernesto Rodrigues

Características

Peso 0.44 Kg
Produto sob encomenda Sim
Editora Record
I.S.B.N. 9788501078575
Altura 23.00 cm
Largura 16.00 cm
Profundidade 0.00 cm
Idioma Português
Cód. Barras 9788501078575
Número da edição 1
Ano da edição 2007
País de Origem Brasil
AutorRodrigues, Ernesto

Leia um trecho

CAPÍTULO 1 Primeiras travessias Lições de Faustin e Juliette —Seu pai não passa de amanhã. Ao ouvir o prognóstico seco do médico sobre o estado de saúde do pai, na porta do quarto que Faustin Joseph dividia com a mulher Juliette na casa que tinham no bairro do Cosme Velho, Rio de Janeiro, na tarde de 7 de novembro de 1934, Jean-Marie Faustin Godefroid Havelange teve um impulso violento. Com 18 anos, mais de 80 quilos, alto, forte e acostumado às disputas viris do water polo, ele quis bater no médico. Conteve-se porque não tinha mais dúvidas de que o estado do pai era gravíssimo e, principalmente, porque sabia que o derrame cerebral que Faustin sofrera aos 54 anos fora apenas conseqüência do profundo abatimento físico e emocional que ele tivera ao tentar fazer negócios com o Ministério da Guerra do então presidente Getúlio Vargas. Setenta e um anos depois daquela tarde no Cosme Velho, Havelange ainda tinha indignação na voz e no olhar, ao lembrar a lição que marcou sua vida: “Aprendi a nunca querer emprego ou negócio com o governo. Você vira um infeliz quando se mete com o governo.” Dois anos antes do derrame, em 1932, Faustin Joseph Godefroid Havelange, representante no Brasil da Fábrica Nacional de Armas de Guerra da Bélgica e da Sociedade Francesa de Munição, fabricante de cartuchos, entrara em uma concorrência pública aberta pelo governo Vargas para reequipar o Exército com mosquetões. O principal concorrente de Faustin era a Skoda, indústria controlada pelos alemães. Aberta a concorrência, o pai de Havelange venceu, mas, pouco tempo depois, o processo foi anulado. Mais alguns meses e, já em 1933, ele venceu a segunda, que também acabou anulada. Aos filhos, Faustin dizia, segundo Havelange, que as anulações eram “políticas”. Da terceira vitória anulada, já em 1934, Faustin jamais se recuperaria. A vida do pai de João Havelange, até aqueles momentos finais, tinha sido uma sucessão incomum de lugares e acasos decisivos. Nas conversas de família que ficaram na memória de Havelange, Faustin gostava de comemorar a sorte que teve em 1912, quando decidiu encerrar dez anos de trabalho em Lima, como comerciante e professor de engenharia da Universidade de São Marcos. Na última ida ao Peru, antes de voltar à Bélgica para se casar com a noiva, Juliette Ludivine Calmeau, filha de um industrial de zinco e cobre de Liège, e tentar vida nova no Brasil, Faustin comprou uma passagem para a viagem inaugural do transatlântico Titanic. O plano era ir até Nova York e lá pegar outro navio para Lima, mas ele perdeu o trem em Liège e não teve como atravessar o Canal da Mancha a tempo para o embarque, no porto de Southampton, na Inglaterra. A viagem perdida garantiu que o noivado de cinco meses de Faustin com Juliette não terminasse em tragédia. Eles se casaram no dia 14 de janeiro de 1913, a Europa à beira da Primeira Guerra Mundial. Faustin, antes de ir para o Peru, tinha conseguido várias representações comerciais no Brasil. Além da Fábrica Nacional de Armas de Guerra da Bélgica e da Sociedade Francesa de Munição, ele venderia aço da United Steel e da Bethlem Steel, além dos tradicionais fios de lã produzidos em Vervier, na Bélgica, em Manchester, na Inglaterra, e em Sidney, na Austrália. A idéia era passar alguns anos e voltar para a Bélgica quando a situação na Europa melhorasse. Semanas depois do casamento, Faustin e Juliette se hospedaram em uma pensão de luxo situada na rua Pedro Américo, no Catete, para logo depois se mudarem para a casa de número 51 da rua dos Ourives, no centro do Rio de Janeiro, onde se concentravam os principais joalheiros do Rio do início do século XX. O endereço ficava a poucos metros do local onde o segundo filho de Faustin mandaria erguer, cinqüenta anos depois, o edifício-sede da CBD, a Confederação Brasileira de Desportos. Fluente em francês, espanhol, inglês e alemão, Faustin não demorou a dominar o português e a construir uma sólida rede de amizades com a elite brasileira da época. Um dos primeiros amigos e clientes foi Carlos Martins da Rocha, o Carlito Rocha, industrial da área têxtil que se notabilizaria, nas décadas seguintes, como dirigente do Botafogo. Contra João Havelange. Outro cliente que se tornou amigo de Faustin, neste caso também do filho João, dando-lhe o primeiro emprego da vida, foi Jules Verelst, presidente da Companhia Siderúrgica Belgo Mineira. Os mosquetões e a munição também facilitariam o relacionamento de Faustin com os oficiais militares brasileiros da época. Mas não o suficiente para garantir o resultado daquelas licitações do governo Vargas. Faustin morreu no dia seguinte à visita do médico à casa do Cosme Velho, confirmando o prognóstico. Pouco antes, num dos três momentos em que recuperou a consciência, fez ao filho João um pedido que seria cumprido com orgulho e determinação menos de um ano depois, nas piscinas de Berlim: —Gostaria que você fosse um atleta olímpico. Beijos e castigos Acontecia toda noite. João, ainda menino, 4 ou 5 anos de idade, já estava deitado na cama quando a mãe se aproximava com uma preocupação em forma de pergunta. A preocupação de Juliette explica, segundo Havelange, a proverbial capacidade que ele desenvolveu ao longo da vida de cumprimentar as pessoas de forma sincera e fraterna, fosse um desconhecido na rua, o rei da Espanha ou o primeiroministro de um país tribal esquecido da África. A mãe ajeitava o lençol, fazia uma carícia na fronte do filho e perguntava, em francês, já sabendo que a resposta era afirmativa: —Já destes um beijo na empregada? Aquele quarto e a casa da rua Cosme Velho, construída num terreno de 100 metros de frente que dava nas encostas do bairro de Santa Teresa, na parte mais alta da cidade do Rio, foram o cenário da infância de João Havelange. Ele nasceu no segundo andar da primeira casa dos Havelange, na rua dos Ourives, no dia 8 de maio de 1916, onde, um ano antes, também nascera o irmão mais velho Jules, ou Júlio, como seria chamado o resto da vida. A mudança de endereço aconteceria depois de uma viagem do casal Havelange à Bélgica, em 1918, para uma decisão final sobre o plano de voltar para a Europa. A Primeira Guerra Mundial estava terminando, mas Faustin preferiu continuar no Brasil. E em 20 de junho daquele ano, para comemorar o nascimento da filha Paule, comprou para Juliette a casa do Cosme Velho. Mandou plantar um pomar com todos os tipos de frutas na parte inclinada do terreno e construiu um campo de futebol gramado e uma piscina na parte plana. A partir daquele momento, por causa dos negócios e do fervoroso catolicismo de Faustin e Juliette, Havelange, ainda menino, conheceria, nos cômodos daquela casa, as pessoas que mandavam no Brasil da época. E até um futuro presidente da República. Faustin era amigo do padre Jean Moureau, conhecido como Padre Chico, que trabalhara na diocese de Montes Claros, norte de Minas Gerais. Entre os fiéis amigos de Padre Chico na cidade e em Diamantina estavam os pais e tios de Juscelino Kubitscheck e José Maria Alckmin. O padre ajudava os dois nos estudos e, ao ser transferido para o Rio, providenciou para que Juscelino e José Maria tivessem onde ficar quando fossem à cidade, de férias. Havelange tinha 6 e JK tinha 18 anos quando passaram férias, juntos, no Cosme Velho. E ao contrário do que aconteceria em várias ocasiões, trinta, quarenta anos depois, não tiveram muito assunto. Paule, irmã de Havelange, foi amiga íntima das irmãs Luísa e Leda Collor. Nos finais de tarde, Luísa e Leda costumavam sair do Colégio Sion, do outro lado da rua, direto para um chá na casa dos Havelange. Quase trinta anos depois, Fernando, um dos três filhos que Leda teria com o político alagoano Arnon de Mello, se tornaria um sobrinho afetivo de Paule. De João Havelange, o filho de Leda Collor de Mello receberia, muitas décadas depois daqueles chás no Cosme Velho, um conselho inútil e tardio, no gabinete da presidência, no Palácio do Planalto. Havelange cumpriu todos os rituais de filho de um típico católico praticante: fez catecismo, foi batizado, crismado, fez primeira comunhão e, durante muitos anos, foi à missa aos domingos. Mas cresceria cada vez mais distante dos bancos de igreja, freqüentando protocolarmente, sem a menor dificuldade, mesquitas, sinagogas, templos budistas e palácios dedicados ao culto de ditadores comunistas: “O sujeito não precisa estar na missa todo dia para fazer o bem. O radicalismo, tanto de um lado como de outro, chega quando você se apaixona.” Muito mais decisiva que a religião foi, na lembrança de Havelange, a rigorosa disciplina que imperava, sempre no idioma francês, na casa do Cosme Velho. Ele jamais esqueceria um passeio a cavalo na fazenda da família durante o qual Faustin, insatisfeito com o boletim do filho no Liceu Francês, não apenas proibiu João de andar a cavalo como fez valer a punição imediatamente, determinando que ele cumprisse a pé o longo trajeto até a estação onde todos entrariam num trem de volta para o Rio. No dia seguinte, depois de uma noite mal-dormida, incomodado com o sofrimento que impusera ao filho, Faustin comentou com Juliette a idéia de reduzir a punição, caso Havelange mostrasse uma melhora nas notas do Liceu. Carinhos de mãe à parte, a resposta de Juliette mostrou que o rigor era em dose dupla: —Se foi castigado, tem que cumprir o castigo. Paixão secreta A desobediência mais secreta de João Havelange, pelo menos no início da década de 1930, praticada quase diariamente, começava quando ele pegava o bonde Águas Férreas, que ligava as casas e chácaras do Cosme Velho ao centro da cidade. Havelange saltava na portaria principal da sede do Fluminense e ia direto para uma quadra de tênis que ficava próxima ao ginásio do clube. Ali encontrava os amigos para uma atividade que o pai não queria que ele praticasse nem de brincadeira. Era tão severa a proibição que um porteiro do clube, amigo da turma, ficava de sobreaviso. Se Faustin chegasse, ele imediatamente avisava um outro cúmplice, o roupeiro, encarregado de dar o alerta na quadra. Havelange tinha então tempo suficiente para correr até a arquibancada da piscina, onde fingia estar esperando pelo pai. Havelange jogava futebol escondido. Beque esquerdo. Na adolescência, o pai não se importara. Havelange tinha até sido campeão carioca juvenil pelo Fluminense, em 1931. Mas o processo de profissionalização do futebol no Brasil e o envolvimento do filho com a bola assustaram Faustin. Mais de setenta anos depois, o filho mostrou que era compreensivo: “Ele me fez ver que natação era melhor. Não queria que eu me transformasse num profissional de esporte. Estudar era mais importante.” Não que Faustin não gostasse de futebol. Adorava. Além de se envolver com o Fluminense, era sócio-fundador do Standard de Liège, um clube de estudantes e operários belgas que tinham em comum a admiração pelo Standard Paris, um dos melhores times do mundo no final do século XIX, e o eterno objetivo de vencer o FC Liège, a agremiação mais aristocrática da Bélgica. Como qualquer pai da época, no entanto, Faustin queria um futuro menos incerto para o filho. Ele não viveria para ver como, mais de meio século depois, o filho transformaria aquele esporte, efetivamente, num negócio de futuro. Além do pai, Havelange, de certo modo, contrariou alguns biógrafos que, muitos anos depois, o definiriam como um ser estranho ao futebol e até ao esporte. Caso do jornalista João Máximo, no livro João Saldanha: sobre nuvens de fantasia: “Havelange, homem de water polo, nunca entendeu muito de futebol. Se chegaria um dia à presidência da Fifa era porque, cartola dos cartolas, poderia alcançar a Lua com suas diplomacias e maquinações. Era um homem político e não um esportista.” Victorio Filellini, parceiro de Havelange em milhares de horas de raias de piscina, partidas de water polo, travessias a nado do rio Tietê e jogos de futebol amador pelo Clube Espéria, sempre achou um absurdo alguém negar a João as características de um esportista. Mario Amato, outro amigo daqueles tempos que se tornaria um dos mais influentes e polêmicos líderes da classe empresarial brasileira nos anos 1980 e 1990, foi outra testemunha ao mesmo tempo do entusiasmo e das limitações técnicas de Havelange, quando se tratava de futebol: “Como jogador de futebol, o João era apenas mediano, mas tinha umas vantagens: era do water polo, sabia marcar e, acima de tudo, era um atleta.” A questão vocacional se tornou completamente irrelevante no dia 8 de novembro de 1934. Faustin Joseph Godefroid Havelange morreu e, nas palavras ditas pelo filho, setenta e um anos depois, “a receita desapareceu de uma hora para outra”. Hora de arrumar um emprego. Justa causa Os bens deixados por Faustin, na lembrança do filho João, resumiam-se a algumas casas que ele comprara no bairro do Méier para alugar. Mas havia outro patrimônio cujo valor ficou evidente quando Juliette, diante das crescentes dificuldades financeiras, aceitou a idéia de os filhos começarem a trabalhar: as amizades que o marido cultivara na elite empresarial do Rio de Janeiro. Uma dessas amizades, a que tornara Faustin padrinho de casamento de Jules Verelst, presidente da poderosa Belgo Mineira, garantiu uma vaga ao jovem Havelange nos escritórios da siderúrgica localizados na Esplanada do Castelo, centro do Rio, em 1937. Ainda sem qualquer qualificação profissional, no meio do curso de advocacia, Havelange começou ganhando 50 mil-réis por semana. Passou pelo balcão de atendimento ao público, arquivo de documentos, datilografia, correspondência comercial, contato com clientes e setor de exportação e importação. Chegou a passar seis meses nas cidades mineiras de Sabará e Monlevade, onde se localizavam as jazidas da companhia. Queria conhecer a chamada “corrida do aço”, o processo industrial de tratamento do minério e do aço. Conheceu. Ambientou-se na empresa. Em 1939, quase três anos depois da primeira batida de ponto, cansou. Pediu as contas. Jules Verelst não levou a sério. Deixou passarem os trinta dias que Havelange lhe dera para encontrar um substituto. Acreditou que o filho do amigo voltaria atrás na recusa à contraproposta de ser promovido a secretário particular do próprio Jules Verelst. Ao final do prazo, Havelange foi ao gabinete do chefe: —Senhor Jules, estou aqui para me despedir do senhor. O presidente da Belgo, na lembrança de Havelange, não acreditou. E reagiu mal: —Você não vai sair. Vai ficar comigo. —Não. Nem que o senhor me dê uma pilha de dinheiro, eu fico. —O senhor é teimoso como o seu pai! —O senhor me perdoe ter que contestar, mas meu pai era um homem inteligente e culto. Teimosia é sinal de burrice. O que meu pai era é o que eu sou: determinado. Ele sabia o que queria e eu também. E foi-se. Quase sete décadas depois daquele diálogo, Havelange reconheceu que Jules Verelst teve todas as razões para ficar irritado: “Ele era um senhor. A companhia era um poder e eu, um rapazote, falando daquela maneira com o presidente da companhia.” Formado em Direito e decidido a se mudar para São Paulo, seguindo os passos do irmão Júlio, Havelange jamais voltaria à condição clássica de empregado de um único patrão, com hora para chegar e sair, cartão de ponto, salário fixo, férias, plano de carreira e aposentadoria. O que ele queria era algo que uma carteira de trabalho nunca lhe daria. Poder. Berlim “A organização, a atenção ao detalhe, a eficiência, tudo foi grandioso e perfeito. As Olimpíadas de Berlim foram um dos maiores espetáculos que já presenciei na vida. Viajamos em trens excepcionais, de primeira classe e com desconto de 75% para quem era atleta. Todos pareciam felizes. Foi inegavelmente um momento inesquecível e maravilhoso.” Este foi, com pequenas variações de estilo, durante quase setenta anos, o balanço feito por João Havelange sobre o que ele viu e sentiu em Berlim como nadador da equipe brasileira. O pesadelo totalitário do nazismo, o Holocausto, a destruição de grande parte da Europa, a morte de milhões de pessoas e outras conseqüências trágicas da invasão da Polônia pelas tropas de Hitler em setembro de 1939, três anos depois da festa do esporte olímpico na capital alemã, nunca foram motivo para ele mudar uma linha da avaliação. Muito menos a cobrança posterior, feita por críticos e inimigos, de uma indignação política que ele, grande parte dos 4.066 atletas participantes e a maioria do povo alemão não sentiram na época. Razões familiares até surgiriam, durante a guerra, para uma repulsa aos nazistas, segundo Havelange: Paul, primo de Juliette, seria executado por eles durante a ocupação de uma fábrica da família, na invasão da Bélgica. Por tudo o que disse ao longo da vida a respeito da experiência em Berlim, Havelange não viu e nem estava à procura do ovo da serpente nazista naquela Olimpíada. Em suas palavras, “era esporte e ponto final”. Em janeiro de 2005, em plena vigência do comportamento politicamente correto, ao comentar as críticas que insinuavam uma conexão entre seu cristalino conservadorismo e uma suposta vista grossa para a ameaça e os crimes nazistas, ele desabafou: “Isso é de um ridículo que não tem tamanho. Naquela época, o jovem não fazia política. Eu me lembrarei sempre que assisti a dois ou três concertos da Filarmônica de Berlim dentro da Vila Olímpica. Isso toca a qualquer um em qualquer regime. Eu era atleta, jovem, 20 anos e não tomava conhecimento de política.” Havelange não estava sozinho em seu deslumbramento. Uma jovem integrante da delegação brasileira, a nadadora Maria Lenk, festejada como símbolo da emancipação e do brilho da mulher brasileira no esporte, registrou emoções semelhantes sobre aqueles dias em Berlim, em seu livro Braçadas e abraços: “A massa concentrada no estádio permanecia numa compenetração quase religiosa, que fazia sentir uma vibração de misteriosa alegria.” Na página 84 de outro livro, Sonho e conquista, editado com a chancela do Comitê Olímpico Brasileiro, lê-se o seguinte: “Com toda a pompa dos espetáculos dirigidos pelo governo de Hitler, Berlim preparou-se com esmero. (...) Na cerimônia de abertura dos XI Jogos Olímpicos, pela primeira vez houve a tocha olímpica. Dez mil integrantes da Juventude Nazista desfilaram para outros 110 mil alemães que se apinhavam na arquibancada do estádio, na presença de Hitler, Rudolph Hess, Joseph Goebbels, Hermann Goering e outros próceres do regime.” Política à parte, havia uma bagunça em curso naquele mundo aparentemente perfeito de Berlim. Bagunça brasileira. Por causa de uma disputa política entre a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), o Brasil se dera ao luxo inútil de mandar duas delegações à Olimpíada. Havelange era integrante da equipe enviada pelo COB, que, ao desembarcar em Hamburgo sob o comando do presidente da entidade, Arnaldo Guinle, foi recebida oficialmente pelos organizadores alemães. A delegação da CBD, presidida por Luiz Aranha, irmão de Oswaldo Aranha, o ex-ministro da Justiça e então embaixador do governo Vargas em Washington, chegou e ficou na estação de trem da cidade, sentada nas malas, esperando uma recepção que não houve. Na prática, com a continuação da briga dos dirigentes, quando amanheceu em Berlim o dia 1º de agosto de 1936, abertura oficial dos jogos, Havelange e todos os atletas das duas delegações brasileiras estavam na cidade na condição de turistas. Uma delegação precisava de documentos expedidos pela outra para que o Comitê Olímpico Internacional (COI) aceitasse a participação dos atletas brasileiros. Na última hora, ainda naquele 1º de agosto, com a intervenção do embaixador brasileiro na Alemanha, Arnaldo Guinle e Luiz Aranha anunciaram uma trégua que permitiu a inscrição de uma equipe unificada. Havelange ainda era apenas um jovem nadador de 20 anos, mas aprendeu muito em Berlim sobre o vespeiro político em que se lançaria de corpo e alma alguns anos depois: “Aquela crise era, na verdade, o reflexo da divisão que havia no futebol carioca: do lado do COB estavam o Fluminense, o Flamengo e o América. Do lado da CBD, o Vasco da Gama e o Botafogo.” Outra preciosa lição de 1936 para Havelange: quando sobra disputa política, costumam faltar estrutura e preparação no esporte. No caso dos nadadores brasileiros, a decisão dos dirigentes de embarcar a delegação para a Alemanha no Presidente San Martin, um navio sem piscina com um itinerário de escalas que o tornara uma espécie de cata-jeca oceânico, foi fatal para qualquer pretensão de grandes resultados. Maria Lenk, uma das vítimas dos 21 dias sem piscina a bordo do San Martin, lembra, em seu livro, que a tripulação do navio teve até boa vontade e montou, no convés, uma tentativa de piscina, com lona, água salgada e um grande caixote de madeira. A idéia do técnico Carlos de Campos Sobrinho de amarrar os nadadores para que eles exercitassem as braçadas naquele tanque improvisado, sem sair do lugar, não foi satisfatória. O navio balançava e a piscina entornava. Na piscina olímpica de Berlim, os registros oficiais do COI mostram que Havelange, com o tempo de 5m31s5, conseguiu o quarto lugar na segunda eliminatória da prova de 400 metros, nado livre. Nos 1.500 metros, nado livre, ele também chegou à segunda eliminatória e, com o tempo de 22m54s1, ficou em quinto lugar. Promessa cumprida. Daquela Olimpíada Havelange guardou uma tristeza que foi sempre menos lembrada que seus derramados elogios à festa dos alemães. Foi quando soube que Adolf Hitler se recusara a cumprimentar o negro americano Jesse Owens, ganhador de quatro medalhas de ouro nas provas de atletismo: “Fiquei triste. Um atleta excepcional não ser recebido por ser um ‘homem de cor’ foi uma coisa que nos chocou. No Brasil, nós não tínhamos isso.” O episódio seria desmentido posteriormente pelos historiadores e pelo próprio Owens. Na verdade, depois de saudar pessoalmente alguns medalhistas alemães, Hitler foi advertido pelas autoridades olímpicas de que teria de fazê-lo com todos os vencedores ou com nenhum. O ditador preferiu não cumprimentar mais ninguém e seu gesto acabou se tornando um emblema mundial do racismo. Trinta e oito anos depois daquele incidente, Havelange conquistaria a presidência da Fifa com os votos decisivos dos homens de cor da África. Surra A idéia era disputar os jogos olímpicos e, depois, aproveitar o desconto de 75% que o governo de Berlim oferecera aos atletas que quisessem passear de trem pela Alemanha, de primeira classe. Depois, mais dez dias na Bélgica com a tia, Lambertine, irmã mais nova de Juliette. O retorno ao Brasil seria mais rápido e bem mais confortável do que a ida, no cargueiro Presidente San Martin e seu caixote que virou piscina. Na volta da Bélgica, Havelange pegaria um trem até Hamburgo e lá embarcaria no luxuoso transatlântico alemão Cap Arcona, um dos mais modernos da época. Em doze dias, metade do tempo do San Martin, ele estaria no Rio. Não foi bem assim. Ao chegar a Hamburgo para o embarque, Havelange ficou sabendo que o Cap Arcona partiria com uma semana de atraso. Num primeiro momento, não pareceu má idéia ficar na Europa mais uma semana, mas havia um problema. Ele fez as contas, conferiu as economias que haviam sobrado e concluiu que corria sério risco de passar fome. Sem amigos ou parentes por perto, Havelange hospedou-se num hotel barato. Nos dois primeiros dias, adotou a tática de comer até a última migalha do pão do café-da-manhã, incluído na diária, e sair batendo perna pela cidade até o mais tarde possível da noite, quando então tomava um prato quente de sopa e desabava na cama, a fome vencida pelo cansaço. Funcionou, em termos, até a fome começar a empatar. No final do terceiro dia, ele passeava pelas ruas do bairro boêmio de Saint Pauli e entrou num cabaré cuja atração, no centro do salão, era um ringue de boxe no qual um mestre-de-cerimônias promovia lutas a dinheiro entre os freqüentadores. Quem batesse mais no final de três rounds levava 1.000 marcos. O perdedor, metade. Havelange fez os cálculos e conferiu quanto precisava para comer e dormir até o dia do embarque. Setenta anos depois daquela noite, ele lembrou a nova conta que fez: “Eu não era boxeador e perderia a luta. Mas os 500 marcos do perdedor teriam um valor imenso.” E se apresentou para a luta. Do outro lado do ringue surgiu um marinheiro alemão: “Ele era mais baixo do que eu, mas fortíssimo, vinte e poucos anos, um braço e um antebraço imensos. Meus músculos de nadador, perto dos dele, eram flácidos.” Ao soar o gongo, Havelange fechou os punhos na altura do nariz, recuou para o canto do ringue e, como previsto, apanhou, apanhou muito. Sozinho, no córner, durante o intervalo, tomou outra decisão: “Eu decidi que tinha de ser nocauteado pra deixar de apanhar.” O segundo round estava pela metade quando um cruzado do marinheiro alemão pôs fim à pancadaria: “Caí, mas com o pensamento firme de que aquilo ia acabar.” Vaiadíssimo pela platéia do cabaré, tradicionalmente não muito seleta, Havelange se levantou, recebeu os 500 marcos e começou a aproveitar a parte mais agradável daquele plano inusitado: “Jantei divinamente bem até a saída do Cap Arcona, quatro dias depois.” Amigos como o empresário e ex-deputado Fernando Carvalho, a quem Havelange confidenciou esse desfecho nada olímpico da viagem a Berlim, consideraram o episódio um exemplo de uma característica que marcou toda a sua vida de dirigente. Pragmatismo.