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Jonathan Strange & Mr. Norrell - Capa Branca (Cód: 184395)

Clarke, Susanna

Companhia Das Letras

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Descrição

A prática da magia foi considerada extinta da Inglaterra desde os tempos medievais do Rei Corvo. Em 1806, aqueles que se intitulam magos são apenas estudiosos da história da magia. Mas, um dia, dois desses magos teóricos resolvem investigar os motivos do desaparecimento da magia. E assim conhecem Mr. Norrell, um mago recluso que desafia a todos ao mostrar seus poderes. Para provar que a magia ainda existe, Mr. Norrell reúne os magos teóricos na catedral de York e faz com que as estátuas de pedra comecem a falar. Em troca de seu ato, exige a imediata dissolução da Sociedade de Magos. Agora com fama e poder, ele abandona a reclusão e vai para Londres, onde colabora com o governo no combate a Napoleão Bonaparte. Começa então a colocar em prática seu plano secreto de controlar a magia na Inglaterra. Tudo vai bem, até o momento em que seu discípulo, o arrogante e impetuoso Jonathan Strange, resolve se rebelar contra a visão restrita de Norrell sobre o lugar destinado à magia. Strange decide seguir seu próprio rumo como mago e resgatar os poderes do lendário Rei Corvo, mas acaba colocando em risco a si próprio, aos que o cercam e à toda a Inglaterra. Tudo vai bem, até o momento em que seu discípulo, o arrogante e impetuoso Jonathan Strange, resolve se rebelar contra a visão restrita de Norrell sobre o lugar destinado à magia. Strange decide seguir seu próprio rumo como mago e resgatar os poderes do lendário Rei Corvo, mas acaba colocando em risco a si próprio, aos que o cercam e à toda a Inglaterra. Acontecimentos inusitados e personagens deste e do outro mundo, familiares e estranhos, atravessam o romance com uma boa dose de ironia e engenhosidade. Misturando ficção e fatos históricos, 'Jonathan Strange & Mr. Norrell' levou dez anos para ser escrito e foi baseado em uma extensa pesquisa da autora sobre a história da magia inglesa. Apelidado de 'Harry Potter para adultos', o livro combina a mitologia fantástica de J.R.R. Tolkien com a comédia de costumes de Jane Austen, de quem Clarke é admiradora confessa, e ainda acena ao romantismo, à observação social de Charles Dickens e à literatura gótica de Anne Radcliffe.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Companhia Das Letras
Cód. Barras 9999001843956
Altura 23.00 cm
Profundidade 4.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2005
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 824
Peso 1.07 Kg
Largura 16.00 cm
AutorClarke, Susanna

Leia um trecho

3. As pedras de York Fevereiro de 1807 Uma igreja antiga e magnificente em pleno inverno é um lugar desalentador mesmo nas melhores ocasiões; o frio de centenas de invernos parece ter sido preservado nas pedras e transpirar delas. No interior frio, úmido e crepuscular da catedral, os cavalheiros da Sociedade de York viram-se obrigados a ficar de pé, esperando ser surpreendidos, sem certeza alguma de que a surpresa seria agradável. Mr. Honeyfoot sorriu com alegria para os colegas, mas, para um cavalheiro tão experiente na arte de um sorriso cordial, fora uma tentativa insatisfatória. Nesse momento, os sinos começaram a tocar. Os sinos da St. Miguel-le-Belfrey apenas assinalavam a passagem de meia hora, mas, no interior da catedral, soava um estranho e remoto som de sinos de um outro mundo. Não era um som alegre. Os cavalheiros da Sociedade de York sabiam muito bem que quase sempre os sinos soavam com magia, em particular com a magia dos seres sobrenaturais, os seres mágicos de um outro reino; sabiam que, outrora, sinos de prata quase sempre soavam quando um inglês ou uma inglesa de virtude ou beleza especial estava para ser raptado por seres mágicos e levado para viver eternamente em terras estranhas e fantasmagóricas. Até o Rei Corvo, que não era um ser sobrenatural, mas um inglês, tinha o costume um tanto lastimável de seqüestrar homens e mulheres e levá-los para viver com ele no castelo nas Outras Terras. Agora, se o leitor e eu tivéssemos o poder de capturar pela magia um ser humano que nos atraísse e o poder de conservar essa pessoa ao nosso lado por toda a eternidade, e se tivéssemos o mundo inteiro à disposição, creio que escolheríamos alguém um pouco mais cativante do que um membro da Sociedade Culta dos Magos de York. Acontece que esse pensamento confortador não ocorreu aos cavalheiros no interior da catedral de York; vários deles puseram-se a imaginar que a carta do Dr. Foxcastle irritara muitíssimo Mr. Norrell e começaram a ficar assustados. Quando os sons dos sinos se extinguiram, uma voz começou a falar do alto das sombras lúgubres que pairavam acima deles. Os magos aguçaram os ouvidos para escutá-la. Muitos se encontravam num estado de nervosismo tão grande que imaginaram que lhes eram dadas instruções tal qual num conto de fadas. Pensaram que misteriosas proibições estavam relacionadas a elas. Tais instruções e proibições, os magos sabiam pelos contos de fadas, costumam ser um tanto estranhas, mas não é tão difícil adaptar-se a elas, ou assim parece à primeira vista. Em geral seguem este estilo: "Não coma a última ameixa em calda do pote azul no canto do armário", ou "Não sove a sua senhora com uma vara de losna". Contudo, como narram os contos de fadas, as circunstâncias sempre conspiram contra a pessoa que recebe as instruções e ela acaba fazendo a coisa proibida, daí que um destino terrível se abate sobre ela. No mínimo, os magos supuseram que lhes pronunciavam pouco a pouco a condenação. Mas não era muito claro o idioma em que a voz falava. Num momento, Mr. Segundus achou ter ouvido uma palavra que soava como "maléfico", noutro momento, "interficere", palavra do latim antigo que significa "matar". A voz mesma não era fácil de entender; não tinha a menor semelhança com uma voz humana, o que só serviu para aumentar o receio dos cavalheiros de que era iminente a aparição de seres mágicos. A voz era de uma estridência extraordinária, profunda e áspera, como duas pedras brutas raspando uma contra a outra, mas os sons que produziam pretendiam claramente ser falas - e de fato eram falas. Os cavalheiros olhavam para dentro da penumbra com uma expectativa cheia de temor, mas tudo o que conseguiam ver era o pequeno e indistinto contorno de uma escultura de pedra que se ressaltava num dos eixos de um enorme pilar e se projetava no vazio sombrio. À medida que se acostumavam ao estranho som, reconheciam mais palavras; palavras inglesas antigas misturavam-se com palavras latinas antigas, como se o locutor não tivesse a menor noção de que eram dois idiomas diferentes. Por sorte, essa abominável confusão apresentava poucas dificuldades para os magos, muitos dos quais afeitos a deslindar as divagações de estudiosos de outrora. Traduzida para um idioma claro e compreensível, era algo assim: Há muito, muito tempo (dizia a voz), há quinhentos anos ou mais, no crepúsculo de um dia de inverno, um jovem entrou na igreja com uma jovem que tinha folhas de hera no cabelo. Não havia ninguém ali, a não ser as pedras. Ninguém que o visse estrangulá-la, a não ser as pedras. Ele a deixou cair morta sobre as pedras e ninguém viu, a não ser as pedras. Ele nunca foi punido por seu pecado, porque não houve testemunhas, a não ser as pedras. Os anos passaram e toda vez que o jovem entrava na igreja e se misturava aos fiéis as pedras diziam que aquele era o jovem que assassinara a moça com folhas de hera no cabelo, entretanto ninguém jamais nos ouviu. Mas nunca é tarde demais! Sabemos onde ele está enterrado! No canto do transepto sul! Apressem-se! Apressem-se! Tragam picaretas! Tragam pás! Arranquem as pedras do calçamento. Desenterrem os ossos! Que sejam despedaçados pelas pás! Lancem o crânio contra os pilares e quebrem-no! Que as pedras também se vinguem! Nunca é tarde! Nunca é tarde demais! Mal os magos tiveram tempo de compreender isso e continuar se perguntando quem falava, outra voz de pedra começou a soar. Dessa vez parecia saída do santuário e falava apenas em inglês, mas um inglês estranho, cheio de palavras antigas e esquecidas. A voz se queixava de soldados que invadiram a igreja e quebraram janelas. Cem anos depois, voltaram e destroçaram o anteparo da cruz, rasparam o rosto dos santos, roubaram o conteúdo de um prato de coleta. Numa ocasião, afiaram a ponta das flechas na borda da pia batismal; trezentos anos mais tarde, dispararam as pistolas na casa do cabido. A segunda voz não parecia entender que, enquanto uma igreja grandiosa pode permanecer de pé por milênios, os homens não vivem tanto tempo. "Têm prazer na destruição", dizia. "E eles só merecem ser mortos!" Como o primeiro, esse locutor parecia ter estado na igreja anos incontáveis e provavelmente escutado uma enorme quantidade de sermões e orações, mas desconhecia as mais cativantes virtudes do cristianismo: misericórdia, amor, humildade. E o tempo todo a primeira voz continuava a lamentar a morte da jovem com folhas de hera no cabelo, e as duas vozes enérgicas se chocavam de forma bastante desagradável. Mr. Thorpe, que era um cavalheiro corajoso, foi sozinho dar uma espiada no santuário, para descobrir quem estava falando. - É uma estátua - disse. Em seguida, os cavalheiros da Sociedade de York olharam mais uma vez na penumbra acima deles, na direção da primeira voz espectral. E dessa vez pouquíssimos deles tiveram dúvida de que quem falava era uma estatuazinha de pedra, porque, enquanto olhavam, notaram os braços de pedra rígidos agitando-se em aflição. Então, todas as outras estátuas e monumentos da catedral começaram a falar e a relatar com vozes petrificadas tudo o que haviam presenciado em suas vidas petrificadas, e a algazarra foi, como mais tarde Mr. Segundus contou a Mrs. Pleasance, indescritível. Porque na catedral de York havia muitas pessoas pequeninas esculpidas e muitos animais estranhos que batiam asas. Muitos se queixavam dos vizinhos, o que talvez não surpreenda, uma vez que se viram obrigados a ficar juntos durante centenas de anos. Num enorme anteparo de pedra havia quinze reis de pedra sobre um pedestal também de pedra. Tinham cabelos rigidamente cacheados, como se tivessem sido enrolados em papelotes e jamais penteados; toda vez que Mrs. Honeyfoot os via ela dizia que tinha vontade de pentear cada uma daquelas cabeças da realeza. Desde o primeiro momento em que foram capazes de falar, os reis começaram a discutir e a ralhar uns com os outros, porque os pedestais eram todos altos, e reis, mesmo os de pedra, detestam estar à mesma altura de outros. Ademais, havia um pequeno grupo de estranhas esculturas de braços dados que olhavam com olhos de pedra do alto de uma antiga coluna. Assim que o encantamento teve efeito, cada uma delas procurou afastar de si as demais, como se mesmo braços de pedra começassem a doer depois de cerca de um século e as figuras de pedra começassem a se cansar de estar encadeadas umas às outras. Uma estátua falou aparentemente em italiano. Ninguém entendeu por quê, mas Mr. Segundus descobriu mais tarde que se tratava da cópia de uma obra de Michelangelo. Ela descrevia uma igreja diferente, em que sombras negras vívidas contrastavam nitidamente com uma luz brilhante. Em outras palavras, descrevia o que a estátua original em Roma era capaz de ver. Mr. Segundus ficou satisfeito de perceber que os magos, embora muito assustados, permaneceram confinados às quatro paredes da igreja. Alguns, tão maravilhados com o que viam, logo esqueceram completamente o medo e começaram a correr de lá para cá, a fim de descobrir mais e mais milagres, tecendo comentários, fazendo anotações a lápis em pequenos livros de apontamentos, como se esquecidos do documento pérfido que a partir daquele dia os impediria de estudar magia. Durante muito tempo, os magos de York (que logo, ai!, deixariam de ser magos) andaram a esmo pelas naves laterais e presenciaram maravilhas. E a cada instante seus ouvidos eram assaltados pela medonha dissonância de mil vozes de pedra a falarem ao mesmo tempo. Na casa do cabido havia sobrecéus de pedra com muitas cabecinhas de pedra estranhamente adornadas tagarelando entre si. Viam-se ali assombrosos entalhes de centenas de árvores inglesas: pilriteiros, carvalhos, abrunheiros, losnas, cerejeiras e briônias. Mr. Segundus encontrou dois dragões de pedra não maiores do que seu antebraço, que se moviam furtivamente um atrás do outro, sobre, sob e entre os galhos do pilriteiro de pedra, das folhas do pilriteiro de pedra, das raízes do pilriteiro de pedra e das gavinhas do pilriteiro de pedra. Moviam-se, parecia, com a mesma facilidade de qualquer outra criatura, porém o som de tantos músculos de pedra em movimento sob uma pele de pedra, que raspavam costelas de pedra, que se batiam contra um coração de pedra, e o som de garras de pedra estrepitando sobre galhos de pedra, era por demais insuportável, e Mr. Segundus se perguntava como conseguiam agüentar. Observou nuvenzinhas de pó granulado, semelhantes às presentes no trabalho de um escultor, que envolviam as criaturas e se erguiam no ar, e achou que, se o encantamento as fizesse continuar em movimento por um tempo indefinido, elas se reduziriam a uma lasca de calcário. Folhas e ervas de pedra vibravam e tremulavam, como se agitadas pela brisa, e algumas imitavam suas contrapartes vegetais a ponto de também crescer. Mais tarde, quebrado o encantamento, fragmentos de hera de pedra e sarças de pedra seriam encontrados enrolados em cadeiras, estantes e livros de orações, onde nem heras nem sarças de pedra jamais estiveram. Entretanto, nem só os magos da Sociedade de York viram maravilhas nesse dia. Tivesse Mr. Norrell pretendido ou não, a magia se estendera do confinamento da catedral para a cidade. Três estátuas da frente ocidental da catedral haviam sido levadas para as oficinas de Mr. Taylor para restauração. Séculos de chuva no condado de York corroeram essas imagens e ninguém mais sabia que personagens grandiosas representavam. Às dez e meia, um dos alvanéis de Mr. Taylor tinha acabado de erguer o cinzel na direção do rosto de uma dessas estátuas, com a intenção de talhar as feições de uma bela santa, quando a estátua emitiu um grito e levantou o braço para afastar o cinzel, fazendo o pobre artesão cair desmaiado. Mais tarde, as estátuas foram levadas de volta ao exterior da catedral, intactas, os rostos desgastados lisos como biscoitos, suaves como manteiga. Então, de súbito, o som pareceu se alterar e as vozes cessaram uma após outra, até que os magos ouviram os sinos da São Miguel-le-Belfrey assinalarem meia hora novamente. A primeira voz (a voz da pequena figura nas alturas da escuridão) continuou por um tempo após as demais terem se calado, discorrendo sobre o antigo tema do assassino não descoberto (Nunca é tarde! Nunca é tarde demais!), até também se calar. O mundo se transformara durante a permanência dos magos na igreja. A magia voltara à Inglaterra, quisessem ou não os magos. Outras mudanças de natureza mais prosaica também haviam ocorrido: o céu se enchera de nuvens pesadas e carregadas de neve. Não eram nuvens de modo algum cinzentas, mas uma estranha mistura de azul-cinza e verde-mar. Essa curiosa coloração criava uma espécie de crepúsculo que, se imagina, seja a iluminação habitual em reinos lendários do fundo do mar. A aventura fatigou Mr. Segundus. Outros cavalheiros haviam sentido mais medo do que ele; ele vira a magia e a julgara mais maravilhosa do que qualquer coisa que imaginara. Contudo, agora que chegara ao fim, sua mente estava agitada e ele desejava muitíssimo voltar tranqüilamente para casa sem falar com ninguém. Enquanto se achava nesse estado suscetível, foi interpelado pelo procurador de Mr. Norrell. - Meu senhor - disse Mr. Childermass -, creio que agora a Sociedade deve se dissolver. Sinto muito. Bem que isto poderia ser posto na conta do desânimo que Mr. Segundus sentia, mas ele suspeitou que, apesar da atitude bastante respeitosa de Mr. Childermass, no íntimo o procurador estava ridicularizando os magos de York. Childermass era o tipo inquietante de homem nascido em berço humilde e destinado a passar a vida servindo seus superiores, mas cuja inteligência e habilidades astuciosas o fazem almejar reconhecimento e recompensas que vão muito além do que pode alcançar. Às vezes, por uma estranha combinação de circunstâncias felizes, esse tipo de homem encontra o próprio caminho para a grandeza, mas quase sempre o pensamento do que poderia ter sido o amarga; ele se transforma num servo relutante e executa as tarefas nem melhor nem pior do que um colega menos capacitado. Torna-se insolente, perde o lugar e termina mal. - Desculpe-me, senhor - disse Childermass -, mas gostaria de lhe perguntar uma coisa. Espero que não me julgue impertinente, mas gostaria de saber se o senhor lê algum jornal londrino. Mr. Segundus respondeu que sim. - Mesmo? Muito interessante. Também aprecio jornais. Mas me sobra pouco tempo para ler, a não ser os livros com que entro em contato no cumprimento de meus deveres com Mister Norrell. E que tipo de coisas se encontram num jornal londrino hoje em dia? O senhor me desculpe perguntar, mas é que Mister Norrell, que nunca lê jornal, fez-me essa pergunta ainda ontem e não me achei em condições de respondê-la. - Bem - respondeu Mr. Segundus, um tanto intrigado -, há todo tipo de coisas. O que o senhor deseja saber? Há relatos das ações da Marinha de Guerra Real contra os franceses, discursos do governo, notícias de escândalos e divórcios. É isso o que senhor tem em mente? - Ah, sim! - exclamou Childermass. - Foi uma boa explicação, senhor. Eu me perguntava - continuou, mais meditativo - se os jornais londrinos veiculam notícias provincianas, se, por exemplo, os extraordinários acontecimentos de hoje mereceriam um parágrafo. - Não sei - replicou Mr. Segundus. - Parece-me bastante possível, mas, veja o senhor, o condado de York fica tão longe de Londres que talvez os editores londrinos jamais saibam o que aconteceu. - Ah - fez Mr. Childermass, e se calou. A neve começou a cair. Primeiro poucos flocos, depois muitos mais, até que milhões de pequenos flocos desabaram carregados pelo vento de um céu cinza-esverdeado fofo e pesado. Todas as construções de York tornaram-se um pouco mais indistintas, um pouco mais cinzentas na neve; as pessoas pareciam um pouco menores; os berros e os gritos, os sons dos passos humanos e dos cascos dos cavalos, o ranger das carruagens e o bater de portas ficaram mais distantes. E todas essas coisas se tornaram de algum modo menos importantes, até que tudo que o mundo continha era a neve que caía, o céu verde-mar, o turvo e cinzento espectro da catedral de York - e Childermass. E por todo esse tempo Childermass permaneceu calado. Mr. Segundus se perguntava o que mais ele queria, pois respondera a todas as perguntas. Mas Childermass aguardou e observou Mr. Segundus com seus estranhos olhos pretos, como se esperasse que Mr. Segundus dissesse algo mais, como se realmente aguardasse isso de Mr. Segundus - como se nada no mundo fosse mais certo. - Se desejar - disse Mr. Segundus, tirando neve da capa -, posso dirimir todas as dúvidas quanto ao assunto. Posso escrever uma carta ao editor do Times e informá-lo das extraordinárias proezas de Mister Norrell. - Ah! É mesmo muito generoso de sua parte! - disse Childermass. - Acredite, senhor, sei perfeitamente que nem todo cavalheiro é tão magnânimo na derrota. Mas era isso mesmo que eu esperava. Eu disse a Mister Norrell que acreditava não existir cavalheiro mais obsequioso do que Mister Segundus. - Não há de quê - retrucou Mr. Segundus -, não é nada. A Sociedade Culta dos Magos de York se dissolveu e seus membros viram-se obrigados a abandonar a magia (todos menos Mr. Segundus). Mas, ainda que alguns deles fossem tolos e nem todos fossem totalmente afáveis, não creio que mereciam tal destino. Pois, de acordo com o pernicioso contrato, o que pode fazer um mago sem permissão para estudar magia? Ele fica à toa pela casa dia após dia, interrompe a sobrinha (ou a esposa, ou a filha) no trabalho de bordado e incomoda os criados com perguntas sobre assuntos pelos quais nunca se interessou - tudo para ter alguém com quem conversar, até que os criados acabam por se queixar dele com a patroa. Ele pega um livro para ler, mas não presta atenção no que lê e só ao chegar à página 22 se dá conta de que é um romance, o tipo de obra que despreza acima de tudo e, desgostoso, o põe de lado. Pergunta as horas à sobrinha (ou à esposa, ou à filha) dez vezes por dia, porque não acredita que o tempo passe tão lentamente, e se irrita com o relógio de bolso pelo mesmo motivo. Mr. Honeyfoot, alegra-me dizer, saiu-se um pouco melhor do que os outros. Ele, uma boa alma, impressionara-se com a história contada pela pequena escultura de pedra nas alturas das sombras. Durante séculos ela guardara o conhecimento daquele crime hediondo em seu pequeno coração de pedra, lembrava-se da jovem morta com folhas de hera no cabelo, quando já não havia pessoa alguma para se lembrar, e Mr. Honeyfoot achava que sua lealdade deveria ser recompensada. Por isso escreveu ao decano, aos cônegos e ao arcebispo, e foi bastante persistente até essas importantes personalidades o autorizarem a arrancar as pedras de calçamento do transepto sul. Quando isso foi feito, Mr. Honeyfoot e os trabalhadores que ele empregara descobriram ossos dentro de um caixão de chumbo, precisamente como a pequena escultura de pedra afirmara que encontrariam. Mas então o decano disse que não poderia autorizar a remoção dos ossos da catedral (era o que Mr. Honeyfoot pretendia) com base no testemunho da pequena estátua de pedra; não havia precedente para tal coisa. Ah!, exclamou Mr. Honeyfoot, pois saiba que há. A discussão se estendeu acalorada por vários anos e, como conseqüência disso, Mr. Honeyfoot não teve nem oportunidade de se arrepender de haver assinado o documento de Mr. Norrell. A biblioteca da Sociedade Culta dos Magos de York foi vendida a Mr. Thoroughgood, da Coffee Yard. Mas, por uma ou outra razão, ninguém pensou em mencionar isso a Mr. Segundus, e ele só veio a sabê-lo por terceiros, quando o balconista de Mr. Thoroughgood contou a um amigo (empregado do fanqueiro Priestley) e esse amigo por acaso mencionou a venda a Mrs. Cockcroft, da estalagem George, que, por sua vez, contou a Mrs. Pleasance, a senhoria de Mr. Segundus. Assim que soube, Mr. Segundus saiu correndo pelas ruas cobertas de neve até a loja de Mr. Thoroughgood, sem se preocupar em pôr chapéu, casaco ou botas. Mas os livros já haviam sido levados. Perguntou a Mr. Thoroughgood quem era o comprador. Mr. Thoroughgood pediu desculpas a Mr. Segundus, mas lamentava não poder revelar o nome do cavalheiro; achava que o cavalheiro não desejava ter seu nome conhecido. Mr. Segundus, sem chapéu, sem casaco, sem fôlego, com sapatos encharcados d'água e borrifos de barro nas meias, sob os olhares de todos na loja, teve satisfação em dizer a Mr. Thoroughgood que não importava se Mr. Thoroughgood lhe revelasse ou não o nome, porque de qualquer forma acreditava conhecer o cavalheiro. A Mr. Segundus não faltava curiosidade por Mr. Norrell. Refletira bastante sobre ele e amiúde trocava impressões com Mr. Honeyfoot. Mr. Honeyfoot estava convencido de que o que sucedera poderia ser explicado por um fervoroso desejo de Mr. Norrell de levar a magia de volta à Inglaterra. Mr. Segundus, em dúvida, começou a procurar conhecidos de Mr. Norrell que pudessem lhe contar algo mais. Um cavalheiro na posição de Mr. Norrell, com uma casa imponente e uma grande propriedade, sempre despertará o interesse dos vizinhos e, a não ser que eles sejam muito obtusos, sempre darão um jeito de saber um pouco sobre o que ele faz. Mr. Segundus descobriu em Stonegate membros de uma família que eram primos de proprietários de uma fazenda situada a cerca de oito quilômetros de Hurtfew Abbey. Ficou amigo da gente de Stonegate e os persuadiu a oferecer um jantar e convidar os primos. (Mr. Segundus ficou deveras impressionado com a própria habilidade de elaborar um pequeno estratagema como esse.) Os primos compareceram e se mostraram prontamente dispostos a falar sobre o vizinho rico e excêntrico que enfeitiçara a catedral de York. Mas tudo que puderam informar era que Mr. Norrell estava para deixar o condado de York e ir para Londres. Mr. Segundus surpreendeu-se. Mais do que isso, surpreendeu-se com o efeito que a notícia teve sobre seu estado de ânimo. Sentiu-se estranhamente frustrado, o que era ridículo, disse a si mesmo. Norrell jamais demonstrara qualquer interesse nele nem lhe fizera a menor gentileza. Entretanto, Norrell era agora o único colega de ofício de Mr. Segundus. Quando partisse, Mr. Segundus seria o único mago, o último mago do condado de York.

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