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Kama Sutra - Col. Saraiva de Bolso (Cód: 3649508)

Vatsyayana

Saraiva De Bolso

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Descrição

Divulgado no Ocidente pelo orientalista Richard Burton, em fins dos Oitocentos, esse texto hindu é considerado a mais antiga obra sobre a sexualidade humana que chegou a nossos dias. Escrito em sânscrito, provavelmente no início da era cristã, o “Kama Sutra” é um dos primeiros estudos sistemáticos acerca do comportamento sexual dos seres humanos e também um precioso documento sobre o erotismo na sociedade indiana.

Traduzido da versão de Sir Richard Burton por Maria Clara de Biase W. Fernandes

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Saraiva De Bolso
Cód. Barras 9788520925478
Altura 17.50 cm
I.S.B.N. 9788520925478
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2011
Idioma Português
Peso 0.44 Kg
Largura 10.50 cm
AutorVatsyayana

Leia um trecho

Prefácio

Na literatura de todos os países existe um certo número de obras que tratam especialmente do amor, abordando o tema de modos diferentes e de vários pontos de vista. Esta é uma tradução completa do que se considera um clássico sobre o amor na literatura sanscrítica — O Vatsyayana Kama Sutra, ou Aforismos sobre o amor, de Vatsyayana.
Na introdução trataremos das evidências existentes sobre a data em que a obra foi escrita e faremos comentários sobre ela, antes de passarmos à própria tradução.

Contudo, convém fazer aqui uma breve análise de obras da mesma natureza, realizadas por autores que viveram e escreveram anos após o desaparecimento de Vatsya, e que o consideravam a grande autoridade e sempre o citavam como o principal guia para a literatura erótica indiana. Além do tratado de Vatsyayana, podem ser encontradas, na Índia, as seguintes obras sobre o assunto:
1. Ratirahasya, ou Segredos do amor.
2. Panchasakya, ou As cinco setas.
3. Smara Pradipa, ou A luz do amor.
4. Ratimanjari, ou A grinalda do amor.
5. Rasmanjari, ou O nascimento do amor.
6. Anunga Runga, ou O palco do amor; também chamada Kamaledhiplava, ou Um barco no oceano do amor.
O autor de Segredos do amor (nº 1) era um poeta chamado Kukkoka. Ele compôs a sua obra para agradar a um certo Venudutta, que era, talvez, um rei. Quando escrevia o seu próprio nome ao final de cada capítulo ele se autodenominava “Siddha patiya pandita”, isto é, um homem talentoso entre sábios.

A obra foi traduzida para o indiano anos atrás, e nessa versão o nome do autor foi abreviado para Koka. Como o mesmo nome começou a ser usado em todas as versões para outras línguas indianas, o livro tornou-se muito conhecido e o assunto passou a ser popularmente chamado de Koka Shastra, ou doutrinas de Koka, e a identificar-se com Kama Shastra, ou doutrinas do amor. As palavras Koka Shastra e Kama Shastra são hoje usadas indiscriminadamente.
A obra contém quase oitocentos versículos, e é dividida em dez capítulos, chamados Pachivedas.

Alguns dos assuntos abordados nesse livro não serão encontrados no Vatsyayana, como os quatro tipos de mulheres — Padmini, Chitrini, Shankini e Hastini — e a enumeração dos dias e horas em que as mulheres dos diferentes tipos ficam mais vulneráveis à influência do amor. O autor informa que escreveu seu trabalho baseado nas opiniões de Gonikaputra e Nadikeshwara, ambos mencionados também por Vatsyayana, mas as obras daqueles escritores se perderam. E difícil fazer uma ideia do ano em que a obra foi escrita, mas pode-se supor que o foi depois da Kama Sutra e antes das outras sobre o mesmo tema que chegaram até nós.

Vatsyayana cita dez autores que escreveram sobre o tema, e cujas obras consultou, mas se perderam, e não menciona a de Kukkoka. Isso tende a confirmar que Kukkoka escreveu depois de Vatsya, caso contrário Vatsya certamente o teria mencionado como um autor nesse ramo da literatura, junto com os outros. O autor de As cinco setas (nº 2 na lista) foi um certo Jyotirisha, a quem consideravam “principal ornamento de poetas”, “tesouro das 64 artes”, e o “melhor mestre das regras da música”. Ele afirma ter composto a obra depois de refletir sobre os aforismos do amor como foram revelados pelos deuses, e de estudar as opiniões de Gonikaputra, Muladeva, Babhravya, Ramtideva, Nundikeshwara e Kshemandra.

É impossível dizer se ele leu mesmo todos esses autores, ou se apenas ouviu falar neles; seja como for, nenhum trabalho deles existe agora. Este livro contém apenas seiscentos versículos e é dividido em cinco capítulos, chamados Sayakas (Setas). O autor de A luz do amor (nº 3) foi o poeta Gunakara, filho de Vechapati. Sua obra contém quatrocentos versículos, e provê somente um resumo das doutrinas do amor, lidando mais com outras questões.

A grinalda do amor (nº 4) é de autoria do famoso poeta Jayadeva, que se dizia um escritor sobre vários temas. No entanto, este tratado é muito curto: contém apenas 125 versículos. O autor de O nascimento do amor (nº 5) foi um poeta chamado Bhanudatta. O último versículo do manuscrito indica que ele morava na província de Tirhoot e que era filho de um brâmane chamado Ganeshwar, também poeta. A obra, escrita em sânscrito, descreve diferentes tipos de homens e mulheres, segundo a idade, aspecto físico, conduta etc. Contém três capítulos, e não temos meios de saber quando foi escrita.

O palco do amor (nº 6), do poeta Kullianmull, foi composto para o entretenimento de Ladkhan, filho de Ahmed Lodi, o próprio Ladkhan aparecendo em alguns pontos da obra com o nome de Ladana Mull, e em outros, como Ladanaballa. Supõe-se que o autor tenha tido uma relação de parentesco com a casa de Lodi, que reinou no Industão entre 1450 e 1526. Portanto, a obra teria sido escrita no século XV ou XVI. Ela contém dez capítulos, e foi traduzida para o inglês, mas apenas seis exemplares foram publicados, para circulação privada. Ao que parece, foi a última das obras sanscríticas sobre o tema, e as ideias que divulga foram evidentemente baseadas em escritos anteriores da mesma natureza.
O conteúdo dessas obras é, sem dúvida, uma curiosidade literária.

Encontramos na poesia e no drama sanscrítico uma certa dose de sentimento e romance poético, que tem, em todos os países e em todas as línguas, conferido uma aura imortal ao tema. Na presente obra, porém, o tema é tratado de um modo simples, direto e prosaico. Homens e mulheres são divididos em classes e tipos, tal como Buffon e outros escritores naturalistas classificaram e dividiram o mundo animal. Vênus foi apresentada pelos gregos como símbolo do tipo de beleza feminina; os indianos descrevem a Padmini, ou mulher Lótus, da mesma forma:

A mulher que apresentar os seguintes sinais e traços é chamada Padmini. Seu rosto é agradável como a lua cheia; seu corpo, carnudo, é macio como as Shiras, ou a flor da mostarda; sua pele é fina, suave e clara como o lótus amarelo, nunca escura. Os olhos são brilhantes e belos como os da corça, bem rasgados e com cantos avermelhados. Os seios são firmes, fartos e altos; o pescoço é bonito; o nariz é reto e gracioso, e três pregas ou rugas acompanham sua cintura — perto da região umbilical. Sua yoni lembra o botão da lótus e seu fluido do amor (Kama salila) é perfumado como o lírio que acabou de desabrochar. Caminha com a graça de um cisne e tem a voz baixa e musical como o canto do pássaro Kokila; deleita-se com o uso de roupa branca, joias finas e vestidos suntuosos. Come frugalmente, tem o sono leve e, sendo tão reverente e piedosa como é inteligente e cortês, está sempre disposta a adorar os deuses e apreciar o convívio com os brâmanes. Assim é a Padmini ou mulher Lótus.

Seguem-se descrições detalhadas da Chitrini ou mulher Arte; da Shankhini ou mulher Concha; e da Hastini ou mulher Elefante: seus dias de prazer, suas várias zonas erógenas, o modo como elas devem ser manipuladas e tratadas na relação sexual, bem como as características de homens e mulheres das várias regiões do Industão. Os detalhes são tão numerosos, e os temas tratados de uma maneira tão séria e com tanta profundidade, que não há tempo ou espaço para avaliá-los aqui.

Existe uma obra inglesa um pouco similar às obras dos hindus. Seu título é Kalogynomia: or the Laws of Female Beauty, e ela apresenta os princípios básicos dessa ciência. É de autoria do médico T. Bell, contém 24 gravuras e foi editada em Londres, em 1821. Trata da beleza, do amor, das relações sexuais, das leis que as regulam, da monogamia e da poligamia, da prostituição e da infidelidade, terminando com um catálogo raisonnée das imperfeições da beleza feminina.

Outras obras inglesas também entram em amplos detalhes sobre a vida privada e doméstica: The Elements of Social Science, or Physical, Sexual and Natural Religion, de um médico (Londres, 1880), e Every Woman’s Book, do dr. Waters (1826). As pessoas interessadas encontrarão nessas obras detalhes que antes só raramente foram publicados, e que serão muito bem-compreendidos por todos os filantropos e benfeitores da sociedade.

Depois de uma leitura cuidadosa da obra indiana, e dos livros ingleses mencionados anteriormente, o leitor conhecerá o assunto, pelo menos de uma perspectiva materialista, real e prática. Se toda a ciência se baseia, em maior ou menor grau, num conjunto de fatos, não há inconveniente em divulgar entre os seres humanos certos temas intimamente ligados à vida privada, doméstica e social.

Lamentavelmente, a total ignorância desses assuntos destruiu muitos homens e mulheres, quando um pouco de conhecimento sobre uma questão amiúde ignorada pelas massas faria inúmeras pessoas compreenderem coisas que elas consideravam incompreensíveis, ou que achavam não merecer sua atenção.

Introdução

Deve interessar a algumas pessoas saber como a obra de Vatsyayana foi descoberta e traduzida para a língua inglesa. Vamos contar: quando se estava traduzindo com os pânditas o Anunga Runga, ou O palco do amor, foram encontradas muitas referências a um certo Vatsya. O sábio Vatsya tinha esta ou aquela opinião, disse isto e aquilo, e assim por diante. Naturalmente, surgiram perguntas sobre quem era esse sábio.

Os pânditas responderam que Vatsya era o autor do clássico sobre o amor na literatura sânscrita, que nenhuma biblioteca sanscritista estaria completa sem a sua obra, e que era extremamente difícil encontrá-la intacta. Como a cópia do manuscrito obtida em Bombaim não era completa, os pânditas escreveram para Benares, Calcutá e Jeypoor pedindo cópias às bibliotecas sanscríticas desses lugares. Quando as receberam, compararam umas com as outras e, com a ajuda de um comentário intitulado Jayamangla, prepararam uma cópia revisada de todo o manuscrito. A partir dessa cópia foi feita a tradução inglesa. O que se segue é o certificado do pândita mais importante:

"O manuscrito anexo foi corrigido por mim depois de ter comparado quatro cópias diferentes da obra. Servi-me de um comentário intitulado Jayamangla para corrigir as cinco primeiras partes, mas achei muito difícil corrigir o restante porque, com exceção de uma cópia razoavelmente certa, todas as outras de que eu dispunha eram bastante irregulares. No entanto, considerei correta a parte em que a maioria das cópias concordava entre si."

Os Aforismos sobre o amor, de Vatsyayana, contêm cerca de1.250 slokas ou versículos, e são divididos em partes, as partes em capítulos e os capítulos em parágrafos. No total são sete partes, 36 capítulos e 64 parágrafos. Bem pouco se sabe sobre o autor. Supõe-se que o seu verdadeiro nome era Mallinaga ou Mrillana, Vatsyayana sendo o nome de família. No final da obra, eis o que ele escreve sobre si mesmo:

"Depois de ler e refletir sobre as obras de Babhravya e de outros autores antigos, e de pensar sobre o significado das normas prescritas por elas, este tratado foi composto, segundo os preceitos da Sagrada Escritura, para benefício do mundo, por Vatsyayana, quando estudava religião em Benares e dedicava-se inteiramente à contemplação da Divindade. Esta obra não é para ser usada apenas como um instrumento para satisfazer os nossos desejos. Uma pessoa versada nos verdadeiros princípios dessa ciência, que preserva os seus Dharma (virtude ou mérito religioso), Artha (bens materiais) e Kama (prazer ou satisfação sexual) e que se interessa pelos costumes do povo, certamente dominará os seus sentidos. Em resumo, uma pessoa inteligente e sagaz, que leva em consideração Dharma, Artha e Kama, sem se tornar escrava das suas paixões, obterá sucesso em tudo que realizar."

É impossível determinar exatamente o período em que Vatsyayana viveu ou escreveu sua obra. Supõe-se que deve ter vivido entre os séculos I e VI da era cristã, porque: ele menciona que Satkami Satvahan, um rei de Kuntal, matou sua mulher Malayevati com um instrumento chamado kartari ao bater nela sob influência de paixão amorosa. Vatsya cita esse caso para prevenir as pessoas contra o perigo de bater nas mulheres sob a influência dessa paixão. Hoje acredita-se que o rei de Kuntal viveu e reinou durante o século I, portanto Vatsya deve ter vivido depois dele.

Por outro lado, Virahamihira, no 18º capítulo de seu Brihatsanhita, trata da ciência do amor, e parece ter aprendido muito sobre o assunto com Vatsyayana. Agora presume-se que Virahamihira viveu no século VI, e como Vatsya deve ter escrito as suas obras antes disso, teria vivido entre os séculos I e VI. Foram descobertos apenas dois comentários ligados ao texto de Aforismos sobre o amor, de Vatsyayana. Um intitulado Jayamangla ou Sutrabashya, e o outro, Sutra vritti.

A data de Jayamangla é fixada entre os séculos X e XIII, porque, ao referir-se as 64 artes, o comentário tira um exemplo de Kávyaprakásha, escrito por volta do século X. Mais uma vez, a cópia do comentário procurado era evidentemente a transcrição de um manuscrito que pertencera à biblioteca de um rei da dinastia Chaulukya chamado Vishaladeva, o que se deduz da seguinte frase em seu final: “Aqui termina a parte relacionada com a arte do amor no comentário sobre o Vatsyayana Kama Sutra, uma cópia da biblioteca do rei dos reis, Vishaladeva, um herói poderoso, como um segundo Arjuna, e figura suprema da família Chaulukya.”

Agora é do conhecimento geral que esse rei governou em Guzerat de 1244 a 1262, tendo fundado uma cidade chamada Visalnagur. Portanto, o comentário deve ter sido escrito entre os séculos X e XIII. Supõe-se que seu autor seja um certo Yashodhara, nome que lhe foi dado por seu preceptor Indrapada. Ele parece tê-lo escrito num momento de aflição causado por sua separação de uma mulher inteligente e sagaz, pelo menos é isso o que ele próprio diz no final de cada capítulo. Presume-se que o título que deu à sua obra foi uma homenagem à mulher ausente, ou a palavra pode ter alguma ligação com o significado do nome dela.

Esse comentário ajudou muito a explicar o verdadeiro significado do texto de Vatsyayana, pois quem o fez parece ter tido um conhecimento profundo da época em que a obra foi escrita, dando em certos trechos informações muito detalhadas. O mesmo não se pode dizer do outro comentário, intitulado Sutra vritti, escrito por volta de 1789 por Narsing Shastri, um discípulo de Sarveshwar Shastri; o último era descendente de Bhaskue, como o era nosso autor, o que se deduz do fato de, na conclusão de todas as partes, ele se intitular Bhaskur Narsing Shastri.

O sábio Raja Vrijalala incumbiu-o de escrever esse comentário quando ele residia em Benares, mas o seu trabalho não é digno de grandes louvores. Em muitos casos Narsing Shastri não parece ter entendido o que queria dizer o autor original, e mudou o texto para adaptá-lo às suas próprias explicações. Segue-se agora uma tradução completa da obra, feita com total fidelidade ao manuscrito; apresentamo-la sem mais comentários, como foi elaborada a partir do original.

PARTE I
O VATSYAYANA SUTRA

I

Prefácio — Saudação a Dharma, Artha e Kama
No princípio, o Senhor dos Seres criou os homens e as mulheres, e na forma de mandamentos dispostos em cem mil capítulos criou regras para regulamentar a sua existência no que diz respeito a Dharma1, Artha2 e Kama3. Alguns desses mandamentos, os que tratavam de Dharma, foram escritos separadamente por Swayambhu Manu; os relacionados com Artha foram compilados por Brihaspati; e os que se referiam a Kama foram apresentados por Nandi, o discípulo de Mahadeva, em mil capítulos.

Esses Kama Sutra (Aforismos sobre o amor), escritos por Nundi em mil capítulos, foram reproduzidos por Shvetaketu, o filho de Uddvalaka, numa forma abreviada em quinhentos capítulos, obra que por sua vez foi resumida em 150 capítulos por Babhravya, herdeiro da região de Punchala (ao sul de Déli). Esses 150 capítulos foram então reunidos em sete partes, ou títulos, relacionados abaixo:

1. Sadharana (assuntos gerais)
2. Samprayogika (abraços etc.)
3. Kanya Samprayuktaka (união de homens e mulheres)
4. Bharyadhikarika (sobre a própria esposa)
5. Paradika (sobre as esposas dos outros)
6. Vaisika (sobre as cortesãs)
7. Aupamishadika (sobre as artes da sedução, os tônicos etc.)

A sexta parte desta última obra foi comentada separadamente por Dattaka, a pedido das mulheres públicas de Pataliputra (Patna), e da mesma forma Charayana explicou a primeira. As partes restantes, como a segunda, a terceira, a quarta, a quinta e a sétima foram apresentadas separadamente por:

Suvarnanabha (segunda parte)
Ghotakamukha (terceira parte)
Gonardiya (quarta parte)
Gonikaputra (quinta parte)
Kuchumara (sétima parte)

Como a obra foi escrita em partes por autores diferentes, era quase impossível reuni-la; além disso, como as partes apresentadas por Dattaka e os outros autores tratavam apenas de campos específicos do assunto com o qual cada parte se relacionava, e o original de Babhravya era difícil de ler por ser longo, Vatsyayana compôs a sua obra em um volume pequeno, como um resumo das obras dos autores mencionados anteriormente.

II
A aquisição de Dharma, Artha e Kama

O homem, cujo período de vida é de cem anos, deveria praticar Dharma, Artha e Kama em momentos diferentes e de modo a que pudessem harmonizar-se entre si sem qualquer atrito. Ele deveria adquirir conhecimento na infância. Na juventude e na meia-idade, deveria dedicar-se a Artha e Kama, e na velhice, a Dharma, procurando assim conquistar Moksha, isto é, libertar-se de novas transmigrações. Ou, por causa da incerteza da vida, pode praticá-los em momentos indicados. Mas uma coisa deve ficar clara: o homem deve levar a vida de um estudante religioso até completar sua educação.

Dharma é a obediência ao mandamento de Shastra, ou a Sagrada Escritura dos hindus, no que diz respeito a certas situações, como a realização de sacrifícios, que geralmente não são feitas porque não pertencem a este mundo e não produzem resultados visíveis; e não praticar outras ações, como comer carne, o que frequentemente é feito porque isso pertence a este mundo e produz resultados visíveis.

Dharma deveria ser aprendido a partir da Shruti (Sagrada Escritura), com aqueles que nela são versados.
Artha é a aquisição de artes, terra, ouro, gado, riquezas, bens e amigos. Além disso, é a proteção do que se adquire, e o aumento do que se protege. Artha deveria ser aprendida com os funcionários do rei e mercadores, que são versados na arte do comércio.

Kama é o gozo dos objetos adequados pelos cinco sentidos — audição, tato, visão, paladar e olfato — com a ajuda da mente e da alma. A essência disso é um contato peculiar entre o órgão do sentido e seu objeto. A consciência do prazer que advém desse contato é chamada Kama.

Kama deveria ser aprendido no Kama Sutra (Aforismos sobre o amor) e com a prática dos cidadãos. Quando todos os três, Dharma, Artha e Kama, se unem, o anterior é superior ao seguinte, isto é, Dharma é superior a Artha, e Artha é superior a Kama. Mas Artha deveria ser sempre praticada primeiro pelo rei, porque apenas de Artha depende a sobrevivência dos homens. Como Kama é a ocupação das mulheres públicas, elas deveriam preferi-lo aos outros dois, e essas são exceções à regra geral.

Objeção 1

Alguns sábios afirmam que, como Dharma está ligado a coisas que não pertencem a este mundo, é abordado de maneira adequada em um livro; o mesmo pode ser dito sobre Artha, porque é praticada apenas pela aplicação dos meios adequados, e um conhecimento desses meios só pode ser obtido através do estudo e dos livros. Mas sendo Kama algo praticado até pelos animais irracionais e que se encontra em toda parte, não precisa ser aprendido em livro algum.

Resposta

Isto não é verdade. Sendo a relação sexual algo que depende do homem e da mulher, exige a aplicação, por eles, de meios adequados, que devem ser aprendidos no Kama Shastra. A não aplicação desses meios, como vemos nos irracionais, deve-se ao fato de eles não estarem sujeitos a restrições, das fêmeas só estarem aptas para as relações sexuais em determinados períodos, e das relações sexuais não serem precedidas por nenhum tipo de reflexão.

Objeção 2

Os Lokayatikas dizem: “Os mandamentos religiosos não deveriam ser observados, porque só produzem frutos no futuro, e sequer se sabe ao certo se de fato os produzem. Qual é o tolo que abrirá mão do que já possui a favor de outra pessoa? Além disso, é melhor ter um pombo hoje do que um pavão amanhã; e uma moeda de cobre que com certeza vamos ganhar é melhor do que uma moeda de ouro que talvez não venhamos a possuir.”

Resposta

Isto não é verdade.
1° A Sagrada Escritura, que institui a prática do Dharma, não deixa margem a dúvidas.
2° Os sacrifícios como os que são feitos para a destruição dos inimigos e a precipitação de chuva produzem frutos visíveis.
3° O sol, a lua, as estrelas, os planetas e outros corpos celestes parecem atuar com o propósito de beneficiar o mundo.
4° A existência deste mundo é assegurada pela observação das regras que dizem respeito às quatro classes de homens e às quatro fases da vida.4
5° Vemos que a semente é plantada com a esperança de futuras colheitas. Portanto, Vatsyayana acha que os mandamentos da religião devem ser observados.

Objeção 3

Os que acreditam que o destino é o maior responsável por todas as coisas dizem: “Não devemos nos esforçar para obter riquezas, porque às vezes os nossos esforços nesse sentido são em vão, enquanto em outras ocasiões nós as obtemos sem fazer nada para isso. Portanto, tudo está nas mãos do destino, que determina os lucros e as perdas, o sucesso e a derrota, o prazer e o sofrimento. Assim, vemos que Bali subiu ao trono de Indra levado pelo destino, foi derrubado pelo mesmo poder, e só o destino pode reinstalá-lo nesse lugar.”

Resposta

Não é certo dizer isso. Como a aquisição de todo objeto sempre pressupõe um esforço por parte do homem, a aplicação dos meios adequados pode ser considerada a causa de atingirmos todos os nossos objetivos, sendo a aplicação desses meios necessária (mesmo quando é algo que está destinado a acontecer). Quem nada faz, não alcança a felicidade.

Objeção 4

Os que tendem a achar que Artha é o principal objetivo a atingir dizem que os prazeres não devem ser procurados, porque são obstáculos à prática de Dharma e Artha — que são superiores a eles — e também desprezados pelas pessoas de mérito. Os prazeres levam ainda o homem ao sofrimento e ao contato com pessoas inferiores; eles o fazem cometer atos iníquos e o tornam impuro; fazem-no desprezar o futuro e incentivam o abandono e a leviandade. Finalmente, eles o fazem cair no descrédito geral, ser repudiado e abominado por todos, inclusive por si mesmo.

Além disso, é notório que muitos homens que se entregaram unicamente ao prazer se arruinaram, como arruinaram suas famílias e relações. Foi assim que o rei Dandakya, da dinastia Bhoja, que raptou, com más intenções, a filha de um brâmane, acabou arruinado e perdendo o seu reino. Indra, que violou a castidade de Ahalya, teve de pagar por isso. Da mesma forma, o poderoso Kichaka, que tentou seduzir Draupadi, e Ravana, que tentou abusar de Sita, foram punidos pelos seus crimes. Esses, e muitos outros, caíram em desgraça por causa dos seus prazeres.

Resposta

Esta objeção é insustentável, porque os prazeres, sendo tão necessários para a existência e o bem-estar do corpo quanto o alimento, são igualmente legítimos. Além disso, eles resultam de Dharma e Artha. Portanto, os prazeres devem ser procurados com moderação e cautela. Ninguém deixa de cozinhar por causa dos mendigos que vêm pedir comida, ou de plantar porque a corça pode destruir a seara quando esta crescer.

Portanto, o homem que praticar Dharma, Artha e Kama desfrutará de felicidade tanto neste mundo quanto no mundo vindouro. Os bons praticam as ações cujos resultados não temem no outro mundo, e que não representam um risco para o seu bem-estar. Qualquer ação que conduza à realização de Dharma, Artha e Kama simultaneamente, ou de dois deles, deve ser praticada, mas uma ação que leve à realização de um deles à custa dos dois restantes não deve ser praticada.

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