Artboard 33 Artboard 16 Artboard 18 Artboard 15 Artboard 21 Artboard 1 Artboard 2 Artboard 5 Artboard 45 Artboard 45 Artboard 22 Artboard 9 Artboard 23 Artboard 17? Artboard 28 Artboard 43 Artboard 49 Artboard 47 Artboard 38 Artboard 32 Artboard 8 Artboard 22 Artboard 5 Artboard 25 Artboard 1 Artboard 42 Artboard 11 Artboard 41 Artboard 13 Artboard 23 Artboard 10 Artboard 4 Artboard 9 Artboard 20 Artboard 6 Artboard 11 Artboard 7 Artboard 3 Artboard 3 Artboard 12 Artboard 25 Artboard 34 Artboard 39 Artboard 24 Artboard 13 Artboard 19 Artboard 7 Artboard 24 Artboard 31 Artboard 4 Artboard 14 Artboard 27 Artboard 30 Artboard 36 Artboard 44 Artboard 12 Artboard 17 Artboard 17 Artboard 6 Artboard 27 Artboard 19 Artboard 30 Artboard 29 Artboard 29 Artboard 26 Artboard 18 Artboard 2 Artboard 20 Artboard 35 Artboard 15 Artboard 14 Artboard 48 Artboard 50 Artboard 26 Artboard 16 Artboard 40 Artboard 21 Artboard 29 Artboard 10 Artboard 37 Artboard 3 Artboard 3 Artboard 46 Artboard 8

Luz em Agosto (Cód: 1709507)

Faulkner, William

Cosac Naify

Ooopss! Este produto está temporariamente indisponível.
Mas não se preocupe, nós avisamos quando ele chegar.

Ooops! Este produto não está mais a venda.
Mas não se preocupe, temos uma versão atualizada para você.

Ooopss! Este produto está fora de linha, mas temos outras opções para você.
Veja nossas sugestões abaixo!

R$ 79,00

em até 2x de R$ 39,50 sem juros
Cartão Saraiva: 1x de R$ 75,05 (-5%)

Total: R$0,00

Em até 1x sem juros de R$ 0,00


Origem

R$ 49,90

Crédito:
Boleto:
Cartão Saraiva:

Total: R$0,00

Em até 2x sem juros de R$ 0,00


Luz em Agosto

R$79,00

Descrição

Joe Christmas é um mulato em quem, aparentemente, não se nota o sangue negro, mas a quem a marca do passado miscigenado não abandona nunca. Sua história se cruzará com a de Lena Grove, uma jovem que busca desesperadamente o pai do filho que carrega ba barriga e que fugiu, tendo mudado de nome. Com elo da narrativa, está o não menos desesperado reverendo Hightower, um pastor rejeitado e traído por todos. São essas personagens que fazem de 'Luz em Agosto' um romance de arquitetura complexa, em uma narrativa que se constrói entre idas e vindas do tempo.

Características

Peso 0.44 Kg
Produto sob encomenda Não
Editora Cosac Naify
I.S.B.N. 9788575035658
Altura 23.00 cm
Largura 16.00 cm
Profundidade 0.00 cm
Número de Páginas 448
Idioma Português
Cód. Barras 9788575035658
País de Origem Brasil
AutorFaulkner, William

Leia um trecho

luz em agosto William Faulkner tradução Celso Mauro Paciornik 1 Sentada à beira da estrada, espiando a carroça subir a colina em sua direção, Lena pensa: “Vim do Alabama: um estirão. O caminho todo do Alabama até aqui andando. Um estirão”. Pensando apesar de não fazer nem um mês que estou na estrada já cheguei no Mississippi, o mais longe de casa que já fui. Estou mais longe agora da Serraria do Doane do que já estive desde que tinha doze anos Ela nem mesmo fora à Serraria do Doane antes de seu pai e sua mãe morrerem, embora seis ou oito vezes por ano fosse à cidade nos sábados, na carroça, usando um vestido comprado por reembolso postal e com os pés descalços sobre o assoalho da carroça e os sapatos embrulhados num pedaço de papel ao seu lado no assento. Ela calçaria os sapatos pouco antes de a carroça chegar na cidade. Depois de se tornar uma mocinha, pediria ao pai que parasse a carroça na entrada da cidade, desceria e seguiria andando. Não diria ao pai por que preferia caminhar em vez de seguir na carroça. Ele achava que era por causa das ruas planas, das calçadas. Mas era porque ela acreditava que as pessoas que a vissem ou cruzassem com ela a pé achariam que ela também morava na cidade. Quando tinha doze anos, o pai e a mãe morreram no mesmo verão, numa casa de troncos de três quartos e uma sala, sem telas, num quarto iluminado por um lampião de querosene rodeado por um turbilhão de insetos, o assoalho nu polido como prata velha por pés descalços. Ela era a filha viva mais nova. A mãe morreu primeiro. Ela disse: “Cuide do pai”. Lena obedeceu. Um dia o pai disse: “Você vai até a Serraria do Doane com o McKinley. Prepare-se para ir, esteja pronta quando ele chegar”. E morreu. McKinley, o irmão, chegou numa carroça. Eles sepultaram o pai num bosque atrás de uma igreja rural uma tarde, com laje tumular de pinho. Na manhã seguinte, ela partiu para sempre, ma s é possível que não soubesse que isso ia acontecer na ocasião, na carroça com McKinley, a caminho da Serraria do Doane. A carroça era emprestada, e o irmão prometera devolvê-la ao anoitecer. O irmão trabalhava na serraria. Todos os homens da vila trabalhavam na serraria ou para ela. A serraria cortava pinho. Já estava ali havia sete anos e em outros sete destruiria toda a floresta ao seu alcance. Depois, algumas máquinas e a maioria dos homens que as operavam e viviam delas e para elas seriam colocados em vagões de carga e levados embora. Mas uma parte do maquinário seria abandonada, já que peças novas sempre poderiam ser compradas a prestação — engrenagens gastas, emperradas, petrificadas, projetando-se dos montículos de tijolo quebrado e tufos de mato com uma aparência extremamente assombrosa, e caldeiras destruídas por dentro alçando as chaminés ferrugentas e inativas com um ar teimoso, frustrado e estúpido sobre uma paisagem pustulada de tocos de silenciosa e profunda desolação, não arada, não semeada, esvaindo-se lentamente em ravinas vermelhas cunhadas debaixo das chuvas longas e mansas do outono e da fúria galopante dos equinócios primaveris. E a vila, que mesmo nos seus melhores dias não tivera o nome registrado nos anais dos Correios, agora nem sequer seria lembrada pelos herdeiros opilados, que puseram abaixo os edifícios e os queimaram em seus fogões e lareiras. Eram talvez cinco famílias no lugar quando Lena chegou. Havia um trilho e uma estação, e uma vez por dia um trem misto passava resfolegando por ela. O trem podia ser parado com uma bandeira vermelha, mas em geral surgia das colinas devastadas de repente como uma aparição e gemendo feito uma banshee,* cruzava e deixava para trás aquele menos-que-vilarejo como a conta esquecida de um colar arrebentado. O irmão era vinte anos mais velho. Ela mal se lembrava dele quando fora viver em sua companhia. Ele morava numa casa de quatro quartos sem pintura com a mulher assoberbada de filhos e trabalho duro. Durante quase a metade de cada ano, a cunhada ou estava parindo, ou estava se recuperando. Nesse período, Lena fazia todo o trabalho doméstico e cuidava dos outros filhos. Um dia disse para si mesma: “Acho que foi por isso que tive um tão cedo”. Ela dormia num puxado na parte traseira da casa, que tinha uma janela que ela aprendera a abrir e fechar no escuro, sem fazer barulho, embora também dormissem no puxado, no começo, o sobrinho mais velho, depois os dois mais velhos, depois os três. Vivia ali havia oito anos quando abriu a janela pela primeira vez. Não a abrira mais de uma dúzia de vezes quando descobriu que jamais deveria ter aberto. Ela disse consigo: “É a minha sina”. A cunhada contou ao irmão. Só então ele observou sua mudança de forma, que já deveria ter notado. Era um homem rude. Brandura, bondade e juventude (tinha apenas quarenta) e quase tudo o mais, afora uma espécie de firmeza tenaz e desesperada e a herança sombria de seu orgulho racial, já o tinham abandonado. Chamou-a de puta. Ele acusou o homem certo (de qualquer modo, o número de solteiros jovens ou casanovas de serragem era bem menor que o de famílias), mas ela não o admitiu, apesar de o homem já ter partido havia seis meses. Ela apenas repetia teimosa: “Ele vai mandar me buscar. Ele disse que vai mandar me buscar”; inabalável, simplória, explorando aquela reserva de paciência e inamovível fidelidade de que dependem e em que confiam os Lucas Burch, mesmo não pretendendo estar presentes quando a necessidade surgir. Duas semanas depois, ela tornou a pular a janela. Foi um pouco mais difícil desta vez. “Se tivesse sido difícil assim antes, acho que não estaria fazendo isso agora”, pensou. Poderia ter saído pela porta, à luz do dia. Ninguém a teria impedido. Talvez soubesse disso. Mas preferiu sair de noite, e pela janela. Levava um leque de folha de palma e uma trouxinha habilmente amarrada num lenço grande colorido. Esta continha, entre outras coisas, trinta e cinco cents em moedas de dez e cinco. O par de sapatos tinha sido do irmão, que o dera a ela. Não estava muito gasto porque no verão nenhum deles usava sapatos. Quando sentiu o pó da estrada embaixo dos pés, ela tirou os sapatos e seguiu carregando-os na mão. Já estava nisso há quase quatro semanas. Nessas quatro semanas decorridas a evocação de longe é um pacato corredor pavimentado com uma fé inquebrantável e tranqüila e povoado de rostos e vozes bondosos e sem nome: Lucas Burch? Não conheço. Não conheço ninguém com esse nome por aqui. Esta estrada? Vai para Pocahontas. Ele poderia estar lá. É possível. Esta carroça vai um bom pedaço naquela direção. Levo você até lá; desenrolando-se agora atrás dela uma longa e monótona sucessão de pacatas e invariáveis mudanças de dia para noite e novamente de noite para dia, pela qual ela avançava em idênticas e anônimas e vagarosas carroças como se por uma sucessão de avatares de rodas rangentes e orelhas caídas, como algo se movendo eternamente e sem progredir na face de uma urna. A carroça sobe a colina na sua direção. Lena a ultrapassara um quilômetro e meio antes. A carroça estava parada à beira da estrada, as mulas adormecidas nos tirantes com as cabeças apontando o rumo que ela seguia. Ela vira a carroça e os dois homens agachados ao lado do celeiro atrás da cerca. Olhara a carroça e os homens ao mesmo tempo: um único olhar de relance, abrangente, rápido, inocente e profundo. Não parou; muito provavelmente os homens além da cerca não a viram olhando para a carroça nem para eles. Tampouco olhou para trás. Prosseguiu até sumir de vista, caminhando devagar, os sapatos desamarrados nos tornozelos, até atingir o topo da colina um quilômetro e meio adiante. Sentou-se na beira da valeta, com os pés na cavidade rasa, e tirou os sapatos. Um momento depois, começou a ouvir a carroça. Ouviu durante algum tempo. Então a carroça despontou, subindo a colina. Os estalos e rangidos agudos e estridentes de seus ferros e madeiras desgastados pela ação do tempo e mal lubrificados são lentos e terríveis: uma série de estampidos secos e indolentes atingindo, a oitocentos metros de distância, o silêncio quente, plácido, com cheiro fresco de pinheiros da tarde de agosto. Mesmo com as mulas se arrastando em constante e inabalável hipnose, o veículo não parece avançar. Parece suspenso a meio caminho para todo o sempre, tão infinitesimal é o seu progresso, como uma conta gasta no cordão vermelho-claro da estrada. Tanto que isso escapa à observação do olhar quando visão e sentidos se misturam e confundem sonolentamente, como a própria estrada, com todas as alterações suaves e monótonas entre sombra e claridade, como linha já medida sendo rebobinada num carretel. De modo que, por fim, como que saindo de alguma região insignificante e trivial mais distante, o som parece chegar lento e terrível e sem significado, como um fantasma viajando oitocentos metros adiante do próprio vulto. “Esse longe ao alcance do ouvido antes que da vista”, Lena pensa. Ela pensa em si mesma como já se movendo, montando novamente, pensando Então será como se eu já tivesse avançado oitocentos metros antes mesmo de subir na carroça, antes até de a carroça chegar aonde eu estava esperando, e como se quando a carroça estiver sem mim de novo ela seguir ainda oitocentos metros comigo Ela espera, sem nem mesmo olhar a carroça agora, enquanto o pensamento devaneia veloz, sereno, repleto de rostos e vozes bondosos e sem nome: Lucas Burch? Disse que tentou em Pocahontas? Esta estrada? Vai para Springvale. Espere aqui. Tem uma carroça que vai passar daqui a pouco e que levará você até onde ela for Pensando: “E se ele está indo até Jefferson, eu estarei ao alcance do ouvido de Lucas Burch antes que da vista. Ele ouvirá a carroça, mas não saberá o que é. Então terá alguém ao alcance do ouvido antes que da vista. E aí ele me verá e ficará emocionado. E serão dois ao alcance da sua vista antes que da sua lembrança”. De cócoras, encostados na parede sombreada do estábulo de Winterbottom, Armstid e Winterbottom a viram passar na estrada. Eles perceberam imediatamente que era uma jovem, grávida e forasteira. “Queria saber onde ela arranjou essa barriga”, disse Winterbottom. “Eu gostaria de saber de que distância ela a trouxe a pé”, disse Armstid. “Visitando alguém no caminho, eu acho”, arriscou Winterbottom. “Acho que não. Senão eu teria ouvido falar. E não há ninguém no caminho até a minha casa, aliás. Eu teria ouvido falar disso, também.” “Acho que ela sabe aonde está indo”, concluiu Winterbottom. “Anda como se soubesse.” “Vai ter companhia logo, logo, antes que consiga ir muito mais longe”, disse Armstid. A mulher já se fora, vagarosa, com sua carga volumosa e inconfundível. Nenhum deles a vira dar uma olhadela sequer ao passar num vestido azul desbotado e disforme, carregando um leque de folha de palma e uma trouxinha de pano. “Não veio de nenhum lugar perto”, disse Armstid. “Ela vai nesse passo como quem está nele há um tempão e ainda tem muito chão pela frente.” “Deve estar visitando alguém das redondezas”, sugeriu Winterbottom. “Acho que eu teria ouvido falar disso”, respondeu Armstid. A mulher seguiu em frente. Não olhara para trás. Sumiu na estrada: inchada, lenta, decidida, sem pressa e inabalável como a própria tarde. Sumiu também da conversa dos dois; talvez até da mente deles, porque um instante depois Armstid disse o que viera dizer. Ele já fizera duas viagens antes, percorrendo oito quilômetros de carroça e se acocorando e cuspindo durante três horas à sombra da parede do celeiro de Winterbottom com a pachorra e a dissimulação imemoriais de sua gente, para dizê-lo. Fazer uma oferta por uma capinadeira que Winterbottom queria vender. Finalmente, Armstid olhou para o sol e ofereceu quanto havia decidido oferecer, deitado na cama, três noites antes. “Conheço um sujeito em Jefferson que me vende por esse preço”, ele disse. “Acho bom você comprar”, rebateu Winterbottom. “Parece um negócio e tanto.” “Tá bem”, disse Armstid. E cuspiu. Olhou de novo o sol, e levantouse. “Bom, acho melhor eu ir pra casa.” Ele subiu na carroça e acordou as mulas. Mais, ele as pôs em movimento, pois só um negro sabe dizer quando uma mula está dormindo ou acordada. Winterbottom acompanhou-o até a cerca, apoiando os braços no varão de cima. “Sim senhor”, disse. “Pois claro que vou comprar a capinadeira por essa quantia. Se você não levar, quero ser um cão se eu não tiver o bom senso de comprá-la eu mesmo, por esse preço. O dono dela não teria um par de mulas para vender por uns cinco dólares, teria?” “Tá bem”, disse Armstid. E partiu, a carroça iniciando seu chocalhar lento e devorador de milhas. Ele também não olha para trás. Aparentemente, não está olhando para a frente também, porque não vê a mulher sentada na valeta ao lado da estrada até a carroça estar quase no alto da ladeira. No momento em que reconhece o vestido azul, ele não sabe dizer nem se ela chegou a ver a carroça. E ninguém poderia saber se ele chegara a olhar para a mulher também pois, na aparente ausência de progresso de ambos, eles se aproximam devagar enquanto a carroça se arrasta penosamente na direção dela na aura vagarosa e palpável de sonolência e poeira vermelha em que as patas persistentes das mulas se movem como num sonho, pontuadas pelo retinir esparso de arreios e o balouço ágil de orelhas de lebre, as mulas ainda nem adormecidas nem acordadas quando ele as sofreia. Por debaixo de uma touca de sol azul desbotada, agora mais desgastada do que pelo água-e-sabão convencional, ela olha para ele serena e amável: jovem, risonha, cândida, amistosa e alerta. Ela continua parada. Por baixo do vestido puído daquele mesmo azul desbotado, o corpo está disforme e imóvel. O leque e a trouxa repousam no colo. Ela está sem meias. Os pés nus descansam lado a lado na valeta rasa. O par de sapatos pesados, masculinos, empoeirados ao seu lado está igualmente inerte. Na carroça parada, senta-se Armstid, encurvado, os olhos claros. Ele nota a borda do leque cuidadosamente debruada com o mesmo azul desbotado da touca e do vestido. “Até onde você vai?”, ele pergunta. “Estava tentando pegar um pouco mais de estrada antes de escurecer”, ela responde, e já se levanta e pega os sapatos e sobe morosa e resoluta para a estrada, acercando-se da carroça. Armstid não desce para ajudá-la. Ele apenas mantém a parelha quieta enquanto ela sobe com dificuldade passando por cima da roda e acomoda os sapatos embaixo do assento. A carroça segue adiante. “Obrigada”, diz ela. “Já estava cansando de ir a pé.” Aparentemente Armstid em nenhum momento olhara diretamente para ela, mas já notara que não usava anel. Ele não olha para ela agora. De novo a carroça retoma seu lento chocalhar. “De que lonjura você veio?”, ele pergunta. Ela solta o ar. Não é tanto um suspiro mas uma expiração serena, como se de serena admiração. “Um estirão e tanto, parece agora. Venho do Alabama.” “Alabama? Neste estado? Onde está a sua gente?” Ela também não olha para ele. “Estou tentando encontrá-lo neste caminho. Talvez o conheça. O nome dele é Lucas Burch. Disseram bem lá atrás que ele está em Jefferson, trabalhando na serraria.” “Lucas Burch.” O tom de Armstid é quase idêntico ao dela. Eles estão sentados lado a lado no assento vergado com a mola quebrada. Ele pode perceber as mãos dela no colo e o perfil por debaixo da touca de sol; pelo canto dos olhos, ele vê. Ela parece estar fitando a estrada que se estende por entre as orelhas balouçantes das mulas. “E você fez todo esse caminho até aqui a pé, sozinha, atrás dele?” Por um momento ela não responde. Depois diz: “As pessoas foram bondosas. Elas foram muito boa gente”. “As mulheres também?” Pelo canto dos olhos ele observa o perfil da moça, pensando Não sei o que Martha vai dizer pensando: “Acho que sei o que Martha vai dizer. Acho que as mulheres provavelmente serão bondosas sem ser muito gentis. Os homens, bem, eles poderiam. Mas talvez só uma mulher má possa ser muito boa com outra mulher que precise de bondade” pensando Sim, eu sei. Sei exatamente o que Martha vai dizer Ela está sentada um pouco para a frente, perfeitamente imóvel, o perfil perfeitamente imóvel, as maçãs do rosto. “É uma coisa estranha”, diz. “Como as pessoas podem olhar uma mocinha estranha andando pela estrada no seu estado e saber que o marido a abandonou?” Ela não se mexe. A carroça tem agora uma espécie de ritmo, a madeira mal lubrificada e gasta fundindo-se com a tarde arrastada, a estrada, o calor. “E você pretende encontrá-lo aqui.” Ela não se mexe, aparentemente vigiando a estrada vagarosa por entre as orelhas das mulas, a distância, talvez, talhada na estrada e definida. “Acho que vou encontrá-lo. Não vai ser difícil. Ele vai estar onde a maioria dos homens se junta, e onde estiver o riso e a farra. Sempre teve jeito pra isso.” Armstid emite um grunhido, um ruído selvagem, brusco. “Eia, mulas”, exclama; diz para si mesmo, entre pensando e falando em voz alta: “Acho que vai. Acho que esse sujeito está fadado a descobrir que cometeu um grande erro quando parou nestes lados do Arkansas, ou mesmo do Texas”. O sol está baixo, uma hora acima do horizonte agora, acima da rápida chegada da noite de verão. O carreiro sai da estrada, ainda mais quieto que a estrada. “Chegamos”, diz Armstid. A mulher se mexe de repente. Estica o braço e procura os sapatos; parece que não vai retardar a carroça mais que o tempo de calçá-los. “Muito agradecida”, diz. “Foi uma grande ajuda.” A carroça é sofreada de novo. A mulher prepara-se para descer. “Mesmo que chegue ao armazém do Varner antes de escurecer, ainda estará a uns vinte quilômetros de Jefferson”, diz Armstid. Ela segura desajeitada os sapatos, a trouxa, o leque com uma mão, a outra livre para ajudá-la a apear. “Acho bom eu ir andando”, diz. Armstid não toca nela. “Você vem comigo e pernoita na minha casa”, ele insiste, “onde mulheres… onde uma mulher pode… se você… Venha, agora. Levo você até o Varner assim que amanhecer; lá poderá arranjar um transporte até a cidade. Vai ter alguém indo, num sábado. Ele não vai fugir durante a noite. Se estiver mesmo em Jefferson, ainda estará lá amanhã.” Ela permanece sentada, muito quieta, os pertences seguros na mão para apear. Está olhando para a frente, para onde a estrada faz uma curva e desaparece, entrecortada de sombras. “Acho que me restam alguns dias.” “Tá bem. Você ainda tem muito tempo. Só que é capaz de ganhar a qualquer momento uma companhia que será incapaz de andar. Venha lá pra casa comigo.” Ele põe as mulas em movimento sem esperar pela resposta. A carroça entra pelo carreiro, o caminho escuro. A mulher se recosta sem largar o leque, a trouxa, os sapatos. “Não queria dever favor”, diz ela. “Não queria incomodar.” “Tá bem”, diz Armstid. “Você vem comigo.” Pela primeira vez, as mulas começam a andar prontamente por contra própria. “Cheirando milho”, diz Armstid, pensando “Mas mulher é assim mesmo. É uma das primeiras a puxar o tapete de uma irmã mulher mas circulará em público sozinha, sem vergonha, porque sabe que as pessoas, os homens, cuidarão dela. Ela não se importa com as mulheres. Não foi uma mulher que a meteu no que ela nem mesmo chama de encrenca. Sim senhor. Deixe uma delas se casar ou se meter em encrenca sem estar casada, e na mesma hora e lugar ela se separa da raça e da espécie feminina e passa o resto da vida tentando se juntar com a masculina. É por isso que elas cheiram rapé e fumam e querem votar.” Quando a carroça passa pela casa e segue na direção do celeiro, a esposa o está observando da porta da frente. Ele não olha nessa direção; não precisa olhar para saber que ela estará ali, está ali. “Sim”, pensa, com sardônica aflição, virando as mulas para o portão aberto, “sei exatamente o que ela vai dizer. Acho que sei exatamente.” Pára a carroça. Não precisa olhar para saber que a esposa agora está na cozinha, que ela não está olhando agora; só esperando. Ele pára a carroça. “Você vai para a casa”, diz; ele já apeou, e a mulher agora está apeando devagar, ensimesmada. “Quando encontrar alguém, será Martha. Chego lá assim que alimentar os animais.” Ele não a observa cruzar o quintal e caminhar em direção à cozinha. Não precisa. Passo a passo com ela, entra pela porta da cozinha também e vai até a esposa, que agora vigia a porta da cozinha exatamente como vigiara a carroça passar da porta da frente. “Acho que sei exatamente o que ela vai dizer”, pensa. Ele desatrela a parelha, dá-lhe água, coloca-a no estábulo e a alimenta, e solta as vacas no pasto. Depois vai para a cozinha. Ela ainda está lá, a esposa grisalha com o semblante frio, severo, irascível que gerou cinco filhos em seis anos e os criou até se tornarem homens e mulheres. Ela não é uma indolente. Ele não olha na sua direção. Vai até a pia, enche uma bacia com a água do balde e arregaça as mangas da camisa. “O nome dela é Burch”, diz. “Pelo menos é como ela diz que se chama o sujeito que está procurando. Lucas Burch. Alguém disse no caminho que ele está em Jefferson agora.” Começa a se lavar de costas para a esposa. “Veio do Alabama, sozinha e a pé, assim ela diz.” A sra. Armstid não olha em volta. Está atarefada com a mesa. “Ela vai deixar de estar sozinha muito antes de ver o Alabama de novo”, diz. “Ou esse sujeito Burch também, eu acho.” Ele está muito ocupado na pia, com a água e o sabão. E pode sentir a esposa olhando para ele, para a parte de trás da cabeça, os ombros enfiados na camisa azul desbotada pelo suor. “Ela diz que alguém lá no Samson disse para ela que tem um sujeito chamado Burch ou algo assim trabalhando na serraria em Jefferson.” “E ela espera encontrá-lo por lá. Esperando. Com a casa mobiliada e tudo.” Ele não sabe dizer pela voz se a esposa agora o está fitando ou não. Enxuga-se com um pano feito de saco de farinha aberto. “Talvez encontre. Se o que ele está querendo é fugir dela, acho que vai descobrir que cometeu um grande erro quando parou antes de colocar o rio Mississippi entre eles.” Agora sabe que a esposa está olhando para ele: a senhora grisalha nem gorda nem magra, de um vigor masculino, batalhadora, numa roupa durável, cinzenta, puída, grosseira e áspera, as mãos nos quadris, as feições de um general derrotado em batalha. “Vocês homens”, ela diz. “O que pretende fazer sobre isso? Mandá-la embora? Deixá-la dormir no celeiro, talvez?” “Vocês homens”, ela repete. “Malditos homens.” Elas entram na cozinha juntas, mas a sra. Armstid vai na frente, direto para o fogão. Lena fica parada perto da porta. Está com a cabeça descoberta agora, o cabelo liso penteado. Até o vestido azul parece fresco e bem assentado. Ela observa enquanto a sra. Armstid no fogão bate com estrondo os trempes de metal e maneja as achas de lenha com a brusquidão de um homem. “Gostaria de ajudar”, diz Lena. A sra. Armstid não olha em volta. Ela lida no fogão com uma fúria estrepitosa. “Fique aí onde está. Poupe seus pés agora e poupará suas costas um pouco mais de tempo talvez.” “Seria muita bondade sua se me deixasse ajudar.” “Fique aí onde está. Faço isso três vezes por dia há trinta anos. O tempo em que eu precisava de ajuda já passou.” Atarefada no fogão, ela não olha para trás. “Armstid disse que seu nome é Burch.” “É”, diz a outra. Sua voz está bem grave agora, bastante calma. Ela fica sentada quieta, as mãos imóveis sobre o colo. E a sra. Armstid não olha em volta tampouco. Continua lidando no fogão, que parece exigir-lhe uma atenção absolutamente desproporcional à feroz determinação com que acendera o fogo. Ele parece atrair sua atenção como um relógio caro. “Seu nome já é Burch?”, pergunta a sra. Armstid. A jovem não responde de imediato. A sra. Armstid já não chacoalha o fogão, mas continua de costas para a moça. Então ela se vira. Elas se olham, subitamente nuas, observando-se: a jovem na cadeira, com o cabelo penteado e as mãos inertes sobre o colo, e a mais velha ao lado do fogão, enrolando, imóvel também, um anel rebelde de cabelo grisalho na base do crânio, e com um rosto que poderia ter sido esculpido em pedra. Então a mais jovem fala. “Eu não contei direito. Meu nome não é Burch ainda. É Lena Grove.” Elas se entreolham. A voz da sra. Armstid não é fria nem quente. Não é absolutamente nada. “E então você quer alcançá-lo para que seu nome seja Burch a tempo. É isso?” Lena baixou os olhos agora, como se observasse as mãos sobre o colo. Sua voz é baixa, obstinada. Mas ela está serena. “Não acho que preciso de uma promessa do Lucas. O que aconteceu foi só que infelizmente ele teve de partir. Seus planos não deram muito certo para ele voltar e me buscar como pretendia. Acho que nós não precisamos fazer promessas de boca. Quando descobriu naquela noite que teria de partir, ele…” “Descobriu em qual noite? Na noite em que você lhe contou sobre esse pirralho?” A outra não responde por um momento. Seu rosto está impassível como uma rocha, mas não duro. Sua obstinação tem um quê de suave, uma qualidade íntima de tranqüila e calma irracionalidade e alheamento. A sra. Armstid a observa. Lena não está olhando para ela ao falar. “Ele tinha recebido um aviso de que poderia ter de partir muito antes daquilo. Só não me contou antes porque não queria me preocupar. Quando ficou sabendo que poderia precisar partir, percebeu que seria melhor partir logo, que poderia se dar bem mais depressa em algum lugar onde o capataz não ficasse pegando no pé dele. Mas continuou deixando pra lá. Só que quando isto aqui aconteceu, não podíamos mais deixar pra lá. O capataz estava pegando no pé do Lucas porque não gostava dele porque ele era jovem e cheio de vida o tempo todo e o capataz queria dar o emprego do Lucas para um sobrinho. Ele não tinha me contado porque isso só ia me amofinar. E quando isto aqui aconteceu, não podíamos esperar mais. Fui eu que disse para ele ir. Ele falou que ficaria se eu quisesse, mesmo que o capataz não o tratasse bem. Mas eu disse para ele partir. Mesmo assim ele não queria. Mas eu falei para ele ir. Só me mandasse dizer quando estivesse pronto, para eu vir. E aí seus planos simplesmente não deram certo, de modo que ele não pôde mandar me buscar a tempo, como pretendia. Vivendo entre estranhos desse jeito, um rapaz precisa de tempo para se arranjar. Ele não sabia, quando foi embora, que precisaria de mais tempo para se arranjar do que imaginava. Especialmente um rapaz cheio de vida como o Lucas, que gosta das pessoas e de se divertir, e que agrada muito as pessoas. Ele não sabia que demoraria mais do que tinha planejado, moço que é, e as pessoas sempre procurando por ele porque ele tem jeito para o riso e as brincadeiras, interferindo no seu trabalho sem que percebesse, porque ele não gostava de ferir o sentimento de ninguém. E eu queria que ele tivesse essa última diversão, porque o casamento é diferente com um moço, um moço cheio de vida, e uma mulher. Ele dura tanto com um moço cheio de vida. Não acha?” A sra. Armstid não responde. Ela olha para a outra sentada na cadeira com o cabelo alisado e as mãos imóveis ainda pousadas no colo, e o rosto doce e pensativo. “É mais provável que já tenha me mandado o recado e ele tenha se extraviado no caminho. É bem longe daqui até o Alabama, e ainda nem cheguei em Jefferson. Eu disse para ele que não o esperaria escrever, que ele não tem jeito para cartas. ‘Basta você me enviar um recado dizendo que está pronto para me receber’, eu disse para ele. ‘Estarei esperando.’ No começo eu me preocupei um pouco, depois que ele partiu, porque meu nome não era Burch ainda, e o meu irmão e a sua gente não conheciam Lucas tão bem quanto eu. Como poderiam?” Em seu rosto vai surgindo lentamente uma expressão de doce e luminosa surpresa, como se acabasse de pensar em algo que nem mesmo tinha consciência de ignorar. “Como esperar isso deles, não é? Mas ele precisava se estabelecer primeiro; ele é que teria todo o incômodo de estar entre estranhos, e eu não teria nada para me preocupar, tinha apenas de esperar enquanto ele ficava com todo o aborrecimento e as dificuldades. Contudo, depois de um tempo, acho que fiquei ocupada demais preparando esta criatura para a sua hora para me preocupar com qual era o meu nome ou com o que as pessoas iriam pensar. Mas eu e o Lucas não precisamos de promessas de boca. Foi algum imprevisto que surgiu, ou então ele mandou o recado e ele se extraviou. Aí um dia resolvi agir e não esperar mais.” “Como sabia que direção seguir quando saiu?” Lena está fitando as mãos. Elas estão se mexendo agora, vincando em absorta concentração uma dobra da saia. Não é acanhamento, timidez. É aparentemente algum reflexo pensativo da própria mão. “Ficava me perguntando. Como o Lucas é um jovem cheio de vida que logo se dá bem com as pessoas, eu sabia que por onde ele tivesse passado as pessoas se lembrariam dele. Então fui perguntando. E as pessoas foram muito bondosas. E, de fato, ouvi dois dias atrás na estrada que ele está em Jefferson, trabalhando na serraria.” A sra. Armstid observa o rosto abaixado. As mãos plantadas nos quadris, ela olha a mulher mais jovem com uma expressão de frio e impessoal desprezo. “E acredita que ele estará lá quando você chegar. Se é que ele esteve lá algum dia. Que ficará sabendo que você está na mesma cidade que ele, e ainda estará lá quando o sol se puser.” O rosto abaixado de Lena está grave, sereno. A mão agora parou de se mexer, repousa totalmente imóvel no colo, como se tivesse morrido ali. A voz é serena, tranqüila, obstinada. “Acho que uma família deve estar junta quando vem um bebê. Especialmente o primeiro. Acho que o Senhor cuidará disso.” “E eu acho que Ele terá mesmo de fazer isso”, diz a sra. Armstid, rude, áspera. Armstid está na cama com a cabeça soerguida, olhando-a por sobre a tábua do pé da cama enquanto, ainda vestida, ela se inclina sob a luz da lâmpada no toucador, vasculhando freneticamente uma gaveta. Ela retira dali uma caixa de metal, destranca-a com uma chave que traz pendurada no pescoço e tira um saco de pano que abre e de cujo interior retira uma pequena efígie de louça de um galo com uma fenda nas costas. As moedas em seu interior tilintam quando ela a retira, vira de cabeça para baixo e sacode com violência em cima do tampo do toucador, extraindo moedas pela fenda num lento gotejar. Da cama, Armstid a observa. “O que está pretendendo fazer com seu dinheiro dos ovos a esta hora da noite?”, pergunta. “Acho que ele é meu para eu fazer o que quiser.” Ela se inclina sob a luz da lâmpada, o rosto ríspido, amargo. “Deus sabe que fui eu que suei por eles e os poupei. Você nunca levantou um dedo.” “Tá bem”, diz ele. “Acho que não há ser humano neste país para disputar essas galinhas com você, tirando os gambás e as cobras. Esse cofre de galo tampouco.” Isso porque, abaixando-se de repente, ela arranca um sapato e arrebenta o cofre de louça com uma única pancada. Da cama, reclinado, Armstid a observa catar as moedas restantes em meio aos fragmentos de louça e despejá-las junto com as outras no saco e amarrá-lo com um nó e mais outro e mais três ou quatro com feroz determinação. “Dê isto a ela”, diz a mulher. “E assim que o sol nascer você atrela a parelha e leva a moça embora daqui. Leve-a até Jefferson, se quiser.” “Acho que ela consegue transporte no armazém do Varner”, ele responde. A sra. Armstid levantou-se antes de o dia clarear e preparou o café-da-manhã, que estava na mesa quando Armstid voltou da ordenha. “Vá dizer a ela para vir comer”, disse a sra. Armstid. Quando ele voltou com Lena para a cozinha, a esposa não estava lá. Lena correu o olhar pelo recinto uma vez, demorando-se na porta por menos de uma pausa, o rosto já fixado numa expressão imanente com sorriso, com discurso, discurso preparado, Armstid sabia. Mas ela não disse nada; a pausa foi menos que uma pausa. “Vamos tratar de comer e sair”, disse Armstid. “Você ainda tem muito chão pela frente.” Ele a observou comer, de novo com o mesmo tranqüilo e genuíno decoro da ceia da noite anterior, embora houvesse agora, para corrompê-lo, um quê de polido e quase gracioso comedimento. Depois ele lhe entregou o saco de pano amarrado. Ela o pegou, o rosto alegre, cordial, mas não muito surpreso. “Puxa, é muita bondade dela”, disse. “Mas não vou precisar. Estou tão perto de lá agora.” “Acho melhor você guardar. Acho que percebeu como Martha não gosta de ser contrariada nas suas intenções.” “É muita bondade”, disse Lena. Ela amarrou o dinheiro na trouxa do lenço e vestiu a touca de sol. A carroça estava esperando. Quando seguiram para o carreiro, passando pela casa, ela olhou para trás. “Foi muita bondade de todos vocês”, disse. “Foi ela quem fez isso”, disse Armstid. “Acho que não posso reivindicar nenhum crédito.” “Foi muita bondade, mesmo assim. Precisa se despedir dela por mim. Eu esperava encontrar com ela eu mesma, mas…” “Tá bem”, disse Armstid. “Acho que ela estava ocupada ou algo assim. Eu digo a ela.” Chegaram ao armazém com as primeiras luzes do dia, com os homens acocorados já cuspindo por cima do assoalho roído de esporas da varanda, vendo-a apear devagar e com cuidado do assento da carroça, carregando a trouxa e o leque. Mais uma vez Armstid não se mexeu para ajudá-la. Ele disse, do assento: “Esta aqui é a senhorita Burch. Ela quer ir até Jefferson. Se alguém for para lá hoje, ela ficaria agradecida de ir junto”. Ela pisou o chão com os sapatos pesados, empoeirados. Ergueu os olhos para ele, serena, pacata. “Foi muita bondade”, repetiu. “Tá bem”, disse Armstid. “Acho que consegue chegar à cidade agora.” Ele olhou para ela. Depois pareceu haver um hiato interminável em que ele observou sua língua buscar palavras, pensando silenciosa e rapidamente, o pensamento fugindo Um homem. Todos os homens. Ele trocará uma centena de chances de fazer o bem por uma única chance de se meter onde não é chamado. Ele vai negligenciar e deixar de ver chances, oportunidades de riqueza e fama e boa conduta, e às vezes até de fazer o mal. Mas não perderá nenhuma oportunidade de se meter Nesse momento sua língua encontrou palavras, ele escutando, talvez com o mesmo espanto que ela: “Eu só não poria muita fé no… fé em…” pensando Ela não está ouvindo. Se pudesse ouvir palavras como estas não estaria apeando desta carroça, com essa barriga e esse leque e essa trouxinha, sozinha, indo para um lugar que nunca viu e procurando por um homem que jamais vai ver de novo e que um dia ela já viu demais da conta como é “… a qualquer hora quando estiver voltando por este caminho, amanhã ou mesmo hoje à noite…”. “Acho que vou ficar bem agora”, ela diz. “Me disseram que ele está lá.” Armstid virou a carroça e seguiu para casa, curvado no assento abaulado, os olhos pálidos, pensando: “Não adiantaria nada. Ela não teria acreditado mais no diz-que-diz do que acreditará na idéia que a tem acompanhado o tempo todo… ‘Já são quatro semanas’, ela disse. Não mais do que ela sentirá e acreditará agora. Acomodada ali naquele degrau de cima, com as mãos no colo e aqueles sujeitos acocorados e cuspindo na frente dela na estrada. E nem mesmo esperando eles perguntarem sobre aquilo para começar a contar. Contando já por iniciativa própria sobre aquele tipo como se nunca tivesse nada particular para esconder ou contar, mesmo quando Jody Varner ou algum deles lhe disser que aquele sujeito em Jefferson, na serraria, se chama Bunch, e não Burch; sem que isso a preocupasse também. Acho que ela sabe mais até do que Martha, como quando lhe disse, na noite passada, que o Senhor cuidará para que o que é certo seja feito”. Bastaram uma ou duas perguntas apenas. Então, sentada no degrau de cima, o leque e a trouxa no colo, Lena conta sua história de novo, com aquela recapitulação serena e transparente de uma criança mentindo, os homens de macacão acocorados ouvindo em silêncio. “O nome daquele sujeito é Bunch”, diz Varner. “Ele está trabalhando lá na serraria faz uns sete anos. Como sabe que Burch também está por lá?” Ela contempla a estrada, na direção de Jefferson. Seu semblante é calmo, paciente, um pouco desligado sem ser atônito. “Acho que ele vai estar lá. Naquela serraria e tudo. Lucas sempre gostou de agitação. Ele nunca gostou de viver sossegado. Por isso nunca deu certo na Serraria do Doane. Porque ele… nós decidimos fazer uma mudança: por dinheiro e agitação.” “Por dinheiro e agitação”, diz Varner. “Lucas não é o primeiro sujeitinho que jogou para o alto tudo para o que ele foi criado e os que dependiam disso, por dinheiro e agitação.” Mas ela não parece estar ouvindo. Está sentada tranqüilamente no degrau de cima, contemplando a estrada no ponto em que ela desaparece na curva, deserta e em aclive, na direção de Jefferson. Os homens acocorados ao longo da parede olham seu rosto calmo e plácido e pensam como Armstid pensara e como Varner pensa: que ela está pensando num salafrário que a deixou encrencada e a quem acreditam que ela jamais verá de novo, salvo as abas de sua casaca talvez ainda esvoaçando na corrida. “Ou talvez seja naquela Serraria do Sloane ou do Bone que ela está pensando”, pensa Varner. “Acho que mesmo uma garota tola não precisa vir até o Mississippi para descobrir que o lugar de onde fugiu não é muito diferente ou pior do que o lugar onde está. Mesmo que ela tenha por lá um irmão que condene as escapadas noturnas da irmã” pensando Eu teria feito o mesmo que o irmão. O pai teria feito o mesmo. Ela não tem mãe, porque o sangue paterno odeia com amor e orgulho, mas o sangue materno com ódio ama e coabita Ela não está pensando em nada disso. Está pensando nas moedas amarradas dentro da trouxa entre suas mãos. Está se lembrando do café-da-manhã, imaginando como pode entrar no armazém neste instante e comprar queijo e bolachas, e até mesmo sardinhas, se quiser. Na casa de Armstid, ela provara apenas uma xícara de café e um pedaço de pão de milho: nada mais, apesar da insistência de Armstid. “Comi polidamente”, ela pensa, as mãos pousadas sobre a trouxa, consciente das moedas escondidas, recordando a única xícara de café, o decoroso pedaço daquele pão estranho; pensando com uma espécie de orgulho sereno: “Como uma dama, eu comi. Como uma dama em viagem. Mas agora posso comprar sardinhas também se quiser”. Assim, ela parece cismar sobre a estrada em aclive enquanto os homens acocorados e cuspidores a examinam disfarçadamente, achando que ela está pensando no homem e na crise que se aproxima, quando na verdade está travando uma suave batalha com aquela providencial cautela da velha terra da qual, com a qual e pela qual ela vive. Desta vez ela vence. Levanta-se e, com o andar meio desajeitado, meio cauteloso, atravessa a bateria enfileirada de olhares masculinos e entra no armazém, o balconista atrás; “Vou fazer isso mesmo”, ela pensa, no momento mesmo em que pede; “vou fazer isso mesmo”, dizendo em voz alta: “Uma lata de sardinhas”. Ela pronuncia sal-dinhas.* “Uma lata de cinco cents.” “Não temos sardinhas de cinco cents”, diz o balconista. “Elas custam quinze cents.” Ele também diz sal-dinhas. A moça fica matutando. “O que você tem em lata por cinco cents?” “Nada, só graxa de sapato. Não acho que você vá querer isso. Não para comer, de jeito nenhum.” “Acho que vou levar as de quinze cents.” Ela desata a trouxa e desamarra o saco. Demora algum tempo para desatar os nós. Mas o faz pacientemente, um a um, e paga e amarra o saco e a trouxa de novo e leva sua mercadoria. Quando surge na varanda, há uma carroça parada junto aos degraus. Um homem está na boléia. “Essa carroça está indo para a cidade”, eles dizem. “Ele vai levar você.” Seu rosto se anima, sereno, pausado, cordial. “Puxa, vocês são muito bondosos”, ela diz. A carroça avança devagar, persistente, como se ali na vastidão ensolarada da terra imensa ela estivesse fora, além de todo tempo e de toda pressa. Do armazém do Varner a Jefferson são uns vinte quilômetros. “Chegaremos lá antes da hora do almoço?”, ela pergunta. O cocheiro cospe. “Tarveiz ”, responde. Ele aparentemente nem olhou para ela, nem mesmo quando ela montou na carroça. Ela aparentemente também não olhou para ele. Mas o faz agora. “Acho que você vai a Jefferson muitas vezes.” Ele diz: “Argumas”. A carroça prossegue rangendo. Campos e bosques parecem pairar numa invariável média distância, a um tempo estáticos e fluidos, rápidos, como miragens. Mas a carroça os deixa para trás. “Você não conhece ninguém em Jefferson chamado Lucas Burch, conhece?” “Burch?” “Pretendo encontrá-lo lá. Trabalha na serraria.” “Não”, diz o cocheiro. “Não acho que conheça. Mas deve ter um monte de sujeitos em Jefferson que eu não conheço. Pode ser que ele esteja lá.” “Garanto que sim, eu espero. Viajar está ficando muito incômodo.” O cocheiro não olha para ela. “De onde você veio, procurando por ele?” “Do Alabama. É um bom estirão.” Ele não olha para ela. Sua voz é bem casual. “Como foi que seus pais deixaram você sair, nesse estado?” “Meus pais morreram. Vivo com meu irmão. Fui eu que decidi vir.” “Sei. Ele mandou um recado para você vir até Jefferson.” Ela não responde. Ele pode avistar por debaixo da touca de sol o perfil sereno. A carroça avança, lenta, intemporal. O percurso vermelho e moroso se desdobra por baixo das patas firmes das mulas, por baixo das rodas rangentes e estrepitosas. O sol está a pino agora; a sombra da touca desce até o regaço da moça. Ela ergue os olhos para o sol. “Acho que está na hora de comer”, diz. Ele observa pelo canto do olho enquanto ela abre o queijo, as bolachas e as sardinhas, e lhe oferece. “Não, obrigado”, ele diz. “Gostaria que partilhasse.” “Não, obrigado. Vá em frente, coma.” Ela começa a comer. Come devagar, com firmeza, sugando dos dedos o rico óleo de sardinha com vagarosa e absoluta satisfação. De repente pára, não de modo abrupto, mas completamente, com o maxilar paralisado no meio da mastigação, uma bolacha mordida na mão, o rosto um pouco abaixado e os olhos vazios, como que escutando alguma coisa muito distante ou próxima a ponto de estar dentro dela. O rosto perdeu a cor, o sangue copioso e ardente, e ela fica sentada bem quieta, ouvindo e sentindo a terra implacável e imemorial, mas sem medo ou alarme. “São gêmeos, pelo menos”, diz para si mesma, sem mover os lábios, sem nenhum som. Depois o espasmo passa. Ela volta a comer. A carroça não parou; o tempo não parou. A carroça chega no topo da ladeira final, e eles avistam fumaça. “Jefferson”, diz o cocheiro. “Caramba!”, ela responde. “Estamos quase lá, não é?” Agora, é o homem que não escuta. Ele está olhando para a frente, através do vale na direção da cidade na crista oposta. Seguindo o chicote que aponta, ela vê duas colunas de fumaça: uma, a pesada densidade de carvão queimando sobre uma alta chaminé, outra, uma elevada coluna amarela subindo aparentemente de um agrupamento de árvores a certa distância além da cidade. “É uma casa pegando fogo”, diz o cocheiro. “Vê?” Mas ela por sua vez de novo não parece estar escutando, não parece ouvir. “Ora, ora”, ela diz; “fiquei na estrada só quatro semanas, e agora já estou em Jefferson. Ora, ora. O tanto que a gente anda.” * Banshee: no folclore irlandês, espírito na forma de mulher lamuriosa que aparece ou é ouvida por membros da família como sinal de que um deles está prestes a morrer. [n.t.] * No original, o autor faz um trocadilho com “sour-dines”, sendo “sour” a palavra para amargo, ácido, e “sour-dines” uma pronúncia interoriana sulista para “sardines”. [n.t.]