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Memórias de Um Sargento de Milícias - Col. Saraiva de Bolso (Cód: 3649217)

Almeida,Manuel Antônio De

Saraiva De Bolso

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Descrição

As “Memórias” saíram primeiramente em periódico, de¬pois, nos anos de 1854 e 1855, elas foram lançadas em livro (dois volumes), com a assinatura “Um Brasileiro”. Narrativa com ritmo, de estrutura linear, o romance re¬lata a história de um pícaro com muita espontaneidade, com uma sátira contundente que costura o espírito cômico às aventuras de inúmeros personagens — nobres e burgueses, políticos e funcionários, padres e leigos, — todos eles representantes desse Brasil com questões já próprias.

Biografia e introdução: Afrânio Coutinho

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Saraiva De Bolso
Cód. Barras 9788520925102
Altura 17.50 cm
I.S.B.N. 9788520925102
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2011
Idioma Português
País de Origem Brasil
Peso 0.44 Kg
Largura 10.50 cm
AutorAlmeida,Manuel Antônio De

Leia um trecho

Introdução A fortuna crítica das Memórias de um sargento de milícias, entre 1855, quando do seu aparecimento em livro, com a autoria disfarçada sob a forma de “Um Brasileiro”, e a atualidade, obedeceu à mais caprichosa modalidade. Na época da publicação, o livro não agradou, atribuída a autoria a alguma pessoa de mais ida de, dado que a época em que se passa a história era muito anterior. Ademais, não estava o livro em acordo com a atmosfera romântica do tempo em que se publicou, o que dava lugar a certa incompreensão por parte dos leitores, acostumados aos dramas românticos ou aos personagens encharcados de lirismo e às deformações da realidade. Daí fi casse mergulhada em completo esquecimento a obra, guardada em edição que se tornou raridade, de pois na que editou Quintino Bocaiuva em 1863, e na clandestina de 1862, lançada em Pelotas. Havia um público das Memórias, mas era marginal e a literatura não tinha incorporado o livro aos seus anais. Só com o Naturalismo e depois é que o romance encontraria o julgamento adequado e o seu renome daí cresceria constantemente, até o pleno reconhecimento por parte da crítica, máxime depois do Modernismo. O problema inicial das Memórias é o da sua classificação. Muito se tem dito acerca da sua natureza de romance realista avant la lettre, de sua condição de precursor da ficção realista. Na verdade, essa alegação é um esforço de supervalorização a partir de um nacionalismo mal-entendido, que procura emprestar ao romancista brasileiro uma posição de antecipador do re alismo à francesa, segundo uma influência que se ligaria sobretudo a Balzac, como sugeriu Ronald de Carvalho. Em verdade, o suposto realismo das Memórias remonta a fontes mais distantes. Mostrou-o Josué Montello de maneira cabal. O pro cesso do realismo a que se fi lia difere essencialmente daquele em pregado pelo autor da Comédia humana e dos que se lhe sucederam nas literaturas europeias do século XIX. Na essência, o seu realismo nada tem da teoria e da prática do romance realista. Falta-lhe o gosto da “verdade áspera” que apaixonava Stendhal. Falecem-lhe a técnica psicológica, a pintura real do coração humano, a tendência às paixões violentas e aos desenlaces trágicos, a presença dos grandes conflitos humano-sociais, a ideologia da vida social, da vida individual, do caráter humano. Os dois grandes romances de Stendhal apareceram em 1830 e 1839. De Balzac, cuja vasta série inicia-se em 1829, também é dife rente a obra de Almeida. É ausente dele a preocupação balzaquiana com o naturalismo para a classificação das famílias como espécies animais. Não lhe escapou a fidelidade de Balzac à fisiologia de Lava ter, mas não se lhe encontra qual quer traço da sua presença no seu romance, apesar de no assunto aludir em crônica sobre a “fisiologia da voz”. Mas Balzac, também como Stendhal, faz viver a paixão no quadro social e os seus personagens não apaixonados frequente mente pela sede do dinheiro, do que resulta o choque com a sociedade e o drama. A objetividade é a da pró pria vida, e a pintura exata do ambiente e dos costumes do tempo não deixa que se esqueça a análise dos caracteres, tudo feito com a máxima e esgotante precisão e minúcias. Há um vasto afresco histórico, social e econômico, dentro do qual os personagens avultam em tipos imensos. Assim, a pintura de costumes associa-se habilmente à análise dos caracteres e à ação, tudo encaminhado para a eclosão do drama. O realismo de Balzac é severo, rigoroso, preciso, minucioso, na ação, nas descrições. Imaginação e observação não se opõem, ao contrário, somam-se, fazendo com que se encontrem nele o visionário e o observador, a visão partindo da observação e do real. A arte da descrição é um ponto alto de Balzac. De Flaubert nem se deve falar, primeiro porque a cronologia não permite — o romance Madame Bovary é de 1857 — e nada há no brasileiro da arte impessoal, objetiva, fria, pessimista, da análise psicológica quase científica, que seriam características da arte flaubertiana. Há um vezo da crítica em pro curar valorizar certos romances anteriores ao Romantismo — como é o caso de Fielding, fazendo-os passar como precursores do realismo. Esse vezo se repete no caso do brasileiro Manuel Antônio de Almeida. No entanto, examinados propriamente, aqueles romancistas do século XIX que marcaram a passagem do Romantismo para o Realismo não podem deixar de re velar certo hibridismo romântico-realista, como é notório em Stend hal, Balzac e outros. Basta que levemos em conta a presença em grande parte dos romances da época; — e no Brasil do início do romance o fato é evidente — de elementos típicos do Romantismo como o humor negro, o romance alegre e vaudevilesco, o traço caricatural, o gosto da aventura romanesca e melodramática. A tradição a que parece ligarem-se mais adequadamente as Memórias ainda é à romântica. Não há uma só família romântica: há a do romance pessoal, a do romance histórico, a do romance da aventura, a do romance filosófico, a do romance campestre, ora tendências pessoais e íntimas, ora históricas e pitorescas, ora sentimentais, ora naturalistas, ora líricas, ora dramáticas, ora épicas. Não se pode recusar a fi liação romântica das Memórias só porque elas não se enquadram no tipo do romance vi gente na época de seu aparecimento e representado fosse pelos livros de Macedo, de romantismo sentimentalesco, fosse pelo romantismo alencariano de cunho indianista ou regionalista ou de costumes urbanos pequeno-burgueses. O romance-confidência e de mal do século, à Chateaubriand e Mus set, em nada se aproxima do romance histórico à Walter Scott. Levado possivelmente pelo temperamento, Manuel Antônio de Almeida faz no seu livro a evocação histórica de uma época (“Era no tempo do Rei”, referindo-se à época de D. João VI, no Rio de Janeiro), sem todavia subordinar- -se à técnica do romance histórico à Walter Scott e mesmo Victor Hugo, diferindo nisso de seu contemporâneo José de Alencar. É antes um cronista, de exatidão reconhecida e até surpreendente aos leitores do livro, que imaginaram, naquele “Um Brasileiro” com que se escondia, um velho contemporâneo do período retratado. Tem-se afirmado que a sua recompensa é tão fi el que o livro pode passar como um retrato da vida entre os anos de 1810 e 1850 no Rio de Janeiro, inclusive pela reprodução de tipos populares reais, como o major Vidigal, homem da polícia do tempo. Isso, contudo, não obsta a que seja o livro considerado romântico. É à fonte do século XVIII que remonta a origem do tipo de narrativa a que obedecem as Memórias. A árvore genealógica das Memórias mergulha em dois fecundos mananciais, oriundos dos séculos XVII e XVIII: de um lado na cor rente francesa que provém do romance realista e popular, reação contra o idealismo aristocrático do século XVII e que tem no Roman comique (1649-57) de Scarron e no Roman bourgeois (1666) de Furetière as suas expressões mais destacadas; de outro lado, no romance também realista de costumes do tipo do Diable boiteux (1707) e do Gil Blas (1715-1735) de Lesage, precisamente dedicados à pintura dos costumes e sua sátira (como é o caso das Memórias); e ainda na cor rente do romance de aventuras, no gênero do de Cirano de Bergerac, a histoire comique. Aventura, costumes, realismo popular e gosto do pitoresco desenvolvem-se a partir daí até frutificar no século XIX em diversas formas da ficção romântica. E a preferência de Almeida por Alexandre Dumas é seguro indício de seus parentescos. Mas é mister não desdenhar ou trafonte, que tem sido recente mente posta em relevo: a do romance picaresco espanhol assina lada primeiro por Mário de Andrade, a que se deve também associar a do costumbrismo de mesma origem. Josué Montello, Eugênio Gomes e Eduardo Frieiro mostraram diversos encontros entre o romance do brasileiro e obras da escola espanhola, de influência acentuada na literatura brasileira, não se de vendo esquecer que a própria co média de Martins Pena trai essa marca, fato de importância, dada a contemporaneidade dos dois escritores. Assim entrevisto, o livro não foge à participação no Romantismo. Aliás, Eugênio Gomes não aceita a tese da reação anti-romântica do livro, no que parece ter toda razão. O romance de Manuel Antônio de Almeida obedece a uma narrativa corrida, em primeira pessoa, mas sem participação do narrador nos acontecimentos, é de estrutura simples, linear, sem maiores com plicações de enredo, em maneira negligente, desleixada, e relata a história e as aventuras de um pícaro, sem demasias de cor local nas descrições, nem tampouco de minuciosidades, mas com muita naturalidade e espontaneidade. O tipo do livro liga-se nitidamente aos romances de aventura, no gê nero Alexandre Dumas, varrido por um sopro de vingança social “contra a hipocrisia, a venalidade, a in justiça e a corrupção social”, como muito bem diz Eugênio Gomes. O pendor do autor para o romance de aventuras está explícito na sua tradução, publicada em 1861, do romance O rei dos mendigos, de Paul Féval, romancista típico da fase do início do século XIX e rival de Eugène Sue na exploração do gênero de aventuras e picaresco, ao lado de Alexandre Dumas. Esse caráter picaresco, pela primeira vez assinalado por Mário de Andrade em relação às Memórias, é real mente o traço predominante e típico do livro, a justificar, ao lado das linhagens francesas acima apontadas, o traço realista da obra, que tanto enganariam a críticos menos prevenidos, a começar por José Veríssimo, que insistem em arrolá-lo como um precursor do re alismo do século XIX. Filiação impossível, dadas as diferenças fundamentais de técnica e ideologia, mais acordes com o enquadramento no Romantismo, em vez de ser uma reação anti-romântica. Uma tônica do romance é a sua linguagem. Pela primeira vez na ficção brasileira, a língua falada é utilizada por um escritor sem a menor reserva e com toda a dignidade e naturalidade. A isso deve-se o caráter espontâneo da narrativa, que corre despretensiosa, tal como é falada pelo personagem, sem os artifícios a que a submetem ainda os escritores do tempo. Por todo o livro, perpassa o espírito de comicidade a caricatura do autor, muito na linha do pitoresco e do romacomique. É saborosa a sua veia satírica aos costumes da sociedade do tempo retrata do, a época do rei, durante a qual sobrados motivos havia para a aná lise cruel de um espírito sarcástico. Nada lhe escapa, nobres e burgueses, policiais e funcionários, pequenos e grandes, padres e leigos, políticos e serventuários da justiça. De modo geral, é consumada a arte do narrador, daí que seu livro ainda hoje resista de pé, como dos mais significativos da ficção brasileira. Aí está a caricatura de uma época, feita por um gênio da narrativa. Leonardo-Pataca, o Vidigal, Luisinha, Maria, o compadre, a comadre, o mestre de cerimônias, o fi dalgo, o capuchinho, Chico-Juca, José Manuel, Chiquinha, Vidinha, Teotônio, Maria-Regalada, mula tos, meirinhos, comadres, escravistas, casamentos, padres, eis alguns representantes desse mundo verdadeiro de um Brasil que começa a mostrar uma sociedade já autônoma, e que se traduzia nos modos de ser e sentir próprios. Não se esqueça tampouco um traço marcante: a intenção de procurar, pela sátira, a correção dos costumes. Nisso, como em tudo o mais, um romântico, para quem a arte deve ter um propósito de saneamento e re forma. Afrânio Coutinho 1 - Origem, nascimento e batizado Era no tempo do rei. Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo — O canto dos meirinhos — e bem lhe assentava o nome, porque era aí o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra cari cata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes, tocando-se, fechavam o círculo dentro do qual se passavam os terríveis combates das citações, provarás, razões principais e finais, e todos esses trejeitos judiciais que se chamava o processo. Daí sua influência moral. Mas tinham ainda outra influência, que é justamente a que falta aos de hoje: era a influência que derivavam de suas condições físicas. Os meirinhos de hoje são homens como quaisquer outros; nada têm de imponentes, nem no seu semblante nem no seu trajar; confundem-se com qualquer procurador, escrevente de cartório ou contínuo de repartição. Os meirinhos desse belo tempo não, não se confundiam com ninguém; eram originais, eram tipos: nos seus semblantes transluzia um certo ar de majestade forense, seus olhares calcula dos e sagazes significavam chicana. Trajavam sisuda casaca preta, calção e meias da mesma cor, sapato afivelado, ao lado esquerdo aristo crático espadim, e na ilharga direita penduravam um círculo branco, cuja significação ignoramos, e coroavam tudo isto por um grave chapéu armado. Colocado sob a importância vantajosa destas condições, o meirinho usava e abusava de sua posição. Era terrível quando, ao voltar uma esquina ou ao sair de ma nhã de sua casa, o cidadão esbarrava com uma daquelas solenes fi guras que, desdobrando junto dele uma folha de papel, começava a lê -la em tom confidencial! Por mais que se fizesse não havia remédio em tais circunstâncias senão deixar es capar dos lábios o terrível — Dou-me por citado. — Ninguém sabe que significação fatalíssima e cruel tinham estas poucas palavras! eram uma sentença de peregrinação eterna que se pronunciava contra si mesmo; queriam dizer que se começava uma longa e afadigosa viagem, cujo termo bem distante era a caixa da Relação, e durante a qual se tinha de pagar importe de passagem em um sem-número de pontos: o advogado, o procurador, o inquiri dor, o escrivão, o juiz, inexoráveis Carontes, estavam à porta de mão estendida, e ninguém passava sem que lhes tivesse deixado, não um óbolo, porém todo o conteúdo de suas algibeiras, e até a última par cela de sua paciência. Mas voltemos à esquina. Quem passasse por aí em qualquer dia útil dessa abençoada época, veria sentado em assentos baixos, então usa dos, de couro, e que se denominavam — cadeiras de campanha — um grupo mais ou menos numeroso dessa nobre gente conversando pacificamente em tudo sobre que era lícito conversar: na vida dos fidalgos, nas notícias do Reino e nas astúcias policiais do Vidigal. Entre os termos que formavam essa equação meirinhal pregada na esquina havia uma quantidade constante, era o Leonardo- Pataca. Chamavam as sim a uma rotunda e gordíssima personagem de cabelos brancos e carão avermelhado, que era o de cano da corporação, o mais antigo dos meirinhos que viviam nesse tempo. A velhice tinha-o tornado moleirão e pachorrento; com sua vagareza atrasava o negócio das partes; não o procuravam; e por isso jamais saía da esquina; passava ali os dias sentado na sua cadeira, com as pernas estendidas e o queixo apoiado sobre uma grossa bengala, que depois dos cinquenta era a sua infalível companhia. Do hábito que tinha de queixar-se a todo o instante de que só pagassem por sua citação a módica quantia de 320 réis, lhe viera o apelido que juntavam ao seu nome. Sua história tem pouca cousa de notável. Fora Leonardo algibebe em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, uma certa Maria da Hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitona. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal-apessoado, e sobretudo era maganão. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Ma ria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra; levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença de serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos. Quando saltaram em terra começou a Maria a sentir certos enojos; foram os dous morar juntos: e daí a um mês manifestaram-se claramente os efeitos da pisadela e do beliscão; sete meses depois teve a Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas se guidas sem largar o peito. E este nascimento é certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa, porque o menino de quem falamos é o herói desta história. Chegou o dia de batizar-se o rapaz: foi madrinha a parteira; sobre o padrinho houve suas dúvidas: o Leonardo queria que fosse o Senhor juiz; porém teve de ceder a Memorias instâncias da Maria e da comadre, que queriam que fosse o barbeiro de de fronte, que afinal foi adotado. Já se sabe que houve nesse dia função: os convidados do dono da casa, que eram todos dalém-mar, cantavam ao desafio, segundo seus costumes; os convidados da comadre, que eram todos da terra, dançavam o fado. O compadre trouxe a rabeca, que é, como se sabe, o instrumento favo rito da gente do ofício. A princípio o Leonardo quis que a festa tivesse ares aristocráticos, e propôs que se dançasse o minuete da Corte. Foi aceita a ideia, ainda que houvesse dificuldades em encontrarem-se pares. Afinal levantaram-se uma gorda e baixa matrona, mulher de um convidado; uma companheira desta, cuja fi gura era a mais completa antítese da sua; um colega do Leonardo, miudinho, pequenino, e com fumaças de gaiato, e o sacristão da Sé, sujeito alto, magro e com pre tensões de elegante. O compadre foi quem tocou o minuete na rabeca; e o afilhadinho, deitado no colo da Ma ria, acompanhava cada arcada com um guincho e um esperneio. Isto fez com que o compadre perdesse mui tas vezes o compasso, e fosse obrigado a recomeçar outras tantas. Depois do minuete foi desaparecendo a cerimônia, e a brincadeira aferventou, como se dizia naquele tempo. Chegaram uns rapazes de viola e machete: o Leonardo, instado pelas senhoras, decidiu-se a romper a parte lírica do divertimento. Sentou-se num tamborete, em um lugar isolado da sala, e tomou uma viola. Fazia um belo efeito cômico vê-lo, em trajes do ofício, de casaca, calção e espadim, acompanhando com um monótono zum- zum nas cordas do instrumento, o garganteado de uma modinha pá tria. Foi nas saudades da terra natal que ele achou inspiração para o seu canto, e isto era natural a um bom português, que o era ele. A modinha era assim: Quando estava em minha terra, Acompanhado ou sozinho, Cantava de noite e de dia Ao pé dum copo de vinho! Foi executada com atenção e aplaudida com entusiasmo; somente quem não pareceu dar-lhe todo o apreço o pequeno, que obsequiou o pai foi como obsequiara ao padrinho, marcando-lhe o compasso a guinchos e esperneios. À Maria avermelharam-se-lhe os olhos, e suspirou. O canto do Leonardo foi o derradeiro toque de rebate para esquentar-se a brincadeira, foi o adeus às cerimônias. Tudo daí em diante foi burburinho, que depressa passou à gritaria, e ainda mais depressa à al gazarra, e não foi ainda mais adiante porque de vez em quando viam-se passar através das rótulas da porta e janelas umas certas figuras que denunciavam que o Vidigal andava perto. A festa acabou tarde: a madrinha foi a última que saiu, deitando a bênção ao afilhado e pondo-lhe no cinteiro um raminho de arruda. 2 - Primeiros infortúnios Passemos por alto sobre os anos que decorreram desde o nascimento e batizado do nosso memorando, e vamos encontrá-lo já na idade de sete anos. Digamos unicamente que durante todo este tempo o menino não desmentiu aquilo que anunciara desde que nasceu: atormentava a vizinhança com um choro sempre em oitava alta; era colérico; tinha ojeriza particular à madrinha, a quem não podia encarar, e era estranhão até não poder mais. Logo que pôde andar e falar tornou-se um flagelo; quebrava e rasgava tudo que lhe vinha à mão. Tinha uma paixão decidida pelo chapéu armado do Leonardo; se este o deixava por esquecimento em algum lugar ao seu alcance, tomava-o imediatamente, espanava com ele todos os móveis, punha-lhe dentro tudo que encontrava, esfregava-o em uma parede, e acabava por var rer com ele a casa; até que a Maria, exasperada pelo que aquilo lhe ha via custar aos ouvidos, e talvez às costas, arrancava-lhe das mãos a ví tima infeliz. Era, além de traquinas, guloso; quando não traquinava, comia. A Maria não lhe perdoava; trazia-lhe bem maltratada uma região do corpo; porém ele não se emendava, que era também teimoso, e as travessuras recomeçavam mal acabava a dor das palmadas. Assim chegou aos sete anos. Afinal de contas a Maria sempre era saloia, e o Leonardo começava a arrepender-se seriamente de tudo que tinha feito por ela e com ela. E tinha razão, porque, digamos de pressa e sem mais cerimônias, ha via ele desde certo tempo concebido fundadas suspeitas de que era atraiçoado. Havia alguns meses atrás tinha notado que um certo sargento passava-lhe muitas vezes pela por ta, e enfiava olhares curiosos através das rótulas: uma ocasião, recolhendo-se, parecera-lhe que o vira encostado à janela. Isto porém passou sem mais novidade. Depois começou a estranhar que um certo colega seu o procurasse em casa, para tratar de negócios do ofício, sempre em horas de encontradas; porém isto também passou em breve. Finalmente aconteceu-lhe por três ou quatro vezes esbarrar-se junto de casa com o capitão do navio em que tinha vindo de Lisboa, e isto causou-lhe sérios cuidados. Um dia de manhã entrou sem ser esperado pela porta adentro; alguém que estava na sala abriu precipitadamente a janela, saltou por ela para a rua, e desapareceu. À vista disto nada havia a duvidar: o pobre homem perdeu, como se costuma dizer, as estribeiras; ficou cego de ciúme. Largou apressado sobre um banco uns autos que trazia embaixo do braço, e endireitou para a Maria com os punhos cerrados. — Grandessíssima!... E a injúria que ia soltar era tão grande que o engasgou... e pôs-se a tremer com todo o corpo. A Maria recuou dois passos e pôs-se em guarda, pois também não era das que se receava com qual quer cousa. — Tira-te lá, ó Leonardo! — Não chames mais pelo meu nome, não chames... que tranco-te essa boca a socos... — Safe-se daí! Quem lhe mandou pôr-se aos namoricos comigo a bordo? Isto exasperou o Leonardo; a lembrança do amor aumentou-lhe a dor da traição, e o ciúme e a raiva de que se achava possuído transbordaram em socos sobre a Maria, que depois de uma tentativa inútil de resistência desatou a correr, a chorar e a gritar: — Ai... ai... acuda, Senhor compadre... Senhor compadre!... Porém o compadre ensaboava nesse momento a cara de um freguês e não podia largá-lo. Portanto a Maria pagou caro e por junto todas as contas. Encolheu-se a choramingar em um canto. O menino assistira a toda essa cena com imperturbável sangue- frio: enquanto a Maria apanhava e o Leonardo esbravejava, ele ocupava-se tranquilamente em rasgar as folhas dos autos que este tinha lar gado ao entrar, e em fazer delas uma grande coleção de cartuchos. Quando, esmorecida a raiva, o Leonardo pôde ver alguma causa mais do que seu ciúme, reparou então na obra meritória em que se ocupava o pequeno. Enfurece-se de novo: suspendeu o menino pelas orelhas, fê-lo dar no ar uma meia -volta, ergue o pé direito, assenta-lhe em cheio sobre os glúteos atirando-o sentado a quatro braças de distância. — És fi lho de uma pisadela e de um beliscão; mereces que um pontapé te acabe a casta. O menino suportou tudo com coragem de mártir, apenas abriu ligeiramente a boca quando foi levantado pelas orelhas: mal caiu, ergueu-se, embarafustou pela porta fora, e em três pulos estava dentro da loja do padrinho, e atrancando -se-lhe às pernas. O padrinho erguia nesse momento por cima da cabeça do freguês a bacia de barbear que lhe tirara dos queixos: com o choque que sofreu a bacia inclinou-se, e o freguês recebeu um batismo de água de sabão. — Ora, mestre, esta não está má!... — Senhor, balbuciou este... a culpa é deste endiabrado... O que é que tens, menino? O pequeno nada disse; dirigiu apenas os olhos espantados para de fronte, apontando com a mão trêmula nessa direção. O compadre olhou também, aplicou a atenção, e ouviu então os soluços de Maria. — Ham! resmungou; já sei o que há de ser... eu bem dizia... ora aí está!... E desculpando-se com o freguês saiu da loja e foi acudir ao que se passava. Por estas palavras vê-se que ele suspeitara alguma cousa; e saiba o leitor que suspeitara a verdade. Espiar a vida alheia, inquirir dos escravos o que se passava no interior das casas, era naquele tempo cousa tão comum e enraizada nos costumes, que ainda hoje, de pois de passados tantos anos, restam grandes vestígios desse belo hábito. Sentado pois no fundo da loja, afiando por disfarce os instrumentos do ofício, o compadre presenciara os passeios do sargento por perto da rótula de Leonardo, as visitas extemporâneas do colega deste e finalmente os intentos do capitão do navio. Por isso contava ele mais dia menos dia com o que acabava de suceder. Chegando ao outro lado da rua empurrou a rótula que o menino ao sair deixara cerrada, e entrou. Dirigiu-se ao Leonardo, que se conservava ainda em posição hostil. — Ó compadre, disse, você per deu o juízo...? — Não foi o juízo, disse o Leonardo em tom dramático, foi a honra!... A Maria, vendo-se protegida pela presença do compadre, cobrou ânimo, e altanando-se disse em tom de zombaria: — Honra!... honra de meirinho... ora! O vulcão de despeito, que as lá grimas da Maria tinham apagado um pouco, borbotou de novo com este insulto, que não ofendia só um homem, porém uma classe inteira! Injúrias e murros à mistura caíram de novo sobre a Maria das mãos e da boca de Leonardo. O compadre, que se interpusera, levou alguns por descuido; afastou-se pois a distância conveniente, murmurando despeitado por ver frustrados seus esforços de conciliador: — Honra de meirinho é como fidelidade de saloia. Enfim serenou a tormenta: a Maria sentou-se a um canto a chorar e a maldizer a hora em que nascera, o dia em que pela primeira vez vira o Leonardo, a pisadela, o beliscão com que tinha começado o namoro a bordo, e tudo mais que a dor dos murros lhe trazia à cabeça. O Leonardo, depois de um pouco de calma, teve um momento de exasperação: avermelharam-se-lhe os olhos e as faces, cerrou os dentes, meteu as mãos nos bolsos do calção, inchou as bochechas, e pôs-se a balançar violentamente a perna direi ta. Depois, como tomando uma resolução extrema, juntou as folhas dispersas dos autos que o menino despedaçara, enterrou atravessado na cabeça o chapéu armado, agarrou na bengala, e saiu batendo com a rótula e exclamando: — Vá-se tudo com os diabos!... — Vai... vai... exclamou a Maria já de novo em segurança, pondo as mãos nas cadeiras, que o caso não há de ficar assim... pôr-me as mãos!... ora... vou com isto à justiça!... — Comadre... — Nada, não atendo, compadre... vou com isto à justiça, e apesar de ser ele um meirinhaço muito velhaco, há de se haver comigo. — É melhor não se meter nisto, comadre... sempre são negócios com a justiça... o compadre é seu oficial, e ela há de punir pelos seus. As ameaças de Maria não passavam de bravatas que lhe arrancava o despeito, e portanto com mais quatro razões do compadre cedeu, e foi restituída a paz em casa. Houve então larga conferência entre os dous, no fi m da qual o compadre saiu dizendo: — Ele há de voltar... aquilo é gênio... há de passar... e se não... o dito está dito; fi co com o pequeno.

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