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Meu Destino É Pecar (Cód: 1915862)

Flag,Suzana ( Nelson Rodrigues )

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Descrição

Escrito sob o pseudônimo de Suzana Flag, este romance de Nelson Rodrigues conta a história da bela Leninha, obrigada a se casar com o rude Paulo por causa das dívidas da família. Após a cerimônia, Leninha vai morar na fazenda do marido. Não aceitando a situação, ela planeja fugir, mas se torna prisioneira em sua nova casa. E, para completar, se apaixona pelo irmão de Paulo, um homem bonito e cheio de mistérios.

Características

Produto sob encomenda Não
Editora Agir
Cód. Barras 9788522007523
Altura 20.80 cm
I.S.B.N. 8522007527
Profundidade 0.00 cm
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 656
Peso 0.44 Kg
Largura 13.50 cm
AutorFlag,Suzana ( Nelson Rodrigues )

Leia um trecho

LENINHA olhou pelo vidro do automóvel. A paisagem ia passando, as casas, as pessoas, pequenos morros, bois, um menino. Anoitecia; daqui a pouco, tudo estaria escuro, talvez chovesse, nuvens pesadas e negras acumulavam-se no horizonte. "Estou casada, estou casada", era o que ela pensava, chegando-se mais para o canto. Não queria ter nenhum contato com o marido; se pudesse mandava parar o automóvel, sairia correndo. A planície era grande, imensa: ela poderia correr muito, correr sempre, cair talvez, rasgar o vestido nas pedras, em algum espinho; o que havia em todo o seu ser, naquele momento ou desde que se casara, era a vontade da fuga. Fugir do marido, do casamento, daquela desconhecida e ameaçadora fazenda Santa Maria, para onde ele a levava. Era lá que ia viver sua lua-demel com esse homem, esse estranho, tão estranho quanto o chofer. "E não há divórcio, aqui não há divórcio, no Brasil não há divórcio", era outra coisa em que ela pensava. "Vou ter que aturar a vida inteira um desconhecido; vai viver comigo; vai mandar em mim." Mas ele sempre seria um desconhecido, sempre. Nunca poderia suportá-lo, ela teria sempre horror - nem ao menos indiferença pura e simples, mas horror. "Um dia talvez eu ame alguém; e como será, meu Deus?" Era mulher e frágil; frágil a sua vontade e talvez não resistisse a um amor que surgisse na sua vida, que fatalmente surgiria, era inevitável. Paulo de Oliveira. Paulo. Era o nome do seu esposo, "Eu seria capaz de matá-lo? Seria capaz de matar meu marido?" 6 daquele homem que ia a seu lado, mudo, olhando a paisagem que não acabava de passar, vendo a noite descer. Até agora, ele não pedira nada; não tentara uma carícia, um galanteio. Parecia, inclusive, não considerá-la uma mulher. "Ah, meu Deus, se esse homem me der um beijo, eu nem sei o que faço!" Mas ao mesmo tempo, pensava: uma esposa poderia recusar um beijo ao marido? Ela não queria saber se podia ou não, se fi cava feio, ridículo, irrisório, inverossímil: "Não dou, não dou, não adianta." Na sombra, seu rosto endurecia, sentia uma determinação implacável. Mas ele podia querer usar a força; ela mesma, agora, no interior do carro em penumbra, concebia uma cena de violência; ele tomando-a nos braços, de repente, triturando-a, procurando sua boca e ela gritando, gritando, chamando-o "miserável", dizendo "não fi co mais aqui"! Então teve vontade de chorar, uma necessidade de dissolver aquele ódio concentrado em lágrimas livres e fartas. Afi nal de contas - e só agora percebia com nitidez a sua verdadeira situação - estava perdida, perdida. Não tinha ninguém para quem apelar; não podia esperar socorro de espécie nenhuma; o destino era mais forte - tão mais forte - do que a sua vontade de mulher. De que vale a resistência de uma mulher diante do homem que é seu marido? - Posso beijá-la? Mas o via. Teve um gesto ingênuo de defesa, o coração batia como um pássaro desesperado: - Não! - foi quase um grito; e instantaneamente emendou: - Agora, não! Houve um silêncio. Os pneus chiaram na curva asfaltada. Ela teve a impressão de que o sangue subira todo para a cabeça. Paulo não disse mais nada. Leninha começou a pensar uma porção de coisas desesperadas: "Meu Deus! Eu sempre quis amar e ser amada, sempre, mas não assim. Sempre quis ter um namorado, um noivo, um marido que eu amasse, que eu pudesse beijar na boca..." E casara-se com um bêbado, quase um débil mental. Quando ele virara-se para pedir - "Posso beijá-la?" - ela sentira o hálito de álcool, de aguardente, de bebida barata. "Recusei, mas disse estupidamente. Agora não.." O marido com certeza tinha entendido que "agora, não; mas depois, sim". Era uma estúpida, uma idiota, tão covarde; aquilo inclusive fora uma falta de dignidade. Deveria ter dito logo, de uma vez para sempre: - "Eu odeio você, o senhor, nem tenho coragem de tratá-lo por você; tenho horror de si, mas horror, ouviu? Sou capaz de seguir com outro, se aparecer alguém." Porque o que defende uma esposa é o amor. Em vez disso, aquele pusilânime "agora, não", que signifi cava, na melhor das hipóteses, um pequeno retardamento. Um estímulo. Então, de repente, ele começou a falar do seu canto, dizendo coisas simples e banais que, entretanto, horrorizavam a esposa, faziamna encolher-se mais, num desconforto intolerável. Ela pensava, ouvindo-o, que até o som de sua voz a irritava, que lhe fazia mal aos nervos, que era quase que uma tortura física. - Você vai gostar da fazenda - dizia o pobre-diabo. - O pessoal é muito bom, camarada, você vai ver. De Nana, então, você vai gostar muito. Preta, quer dizer, mulata, tem uns dentes formidáveis, até hoje. Me viu nascer, está velha, mas forte ainda, gorda, e como trabalha! Os outros... parou e perguntou: - Incomodo-a? - O quê? Tinha ouvido muito bem. Achara aquele "incomodo-a" muito mais imbecil do que ingênuo. Perguntara "o quê?" com irritação ostensiva, maus modos, hostilidade. - Pergunto se... Não quer conversar agora? Talvez esteja cansada. - Não sei. Não me pergunte nada. Tenho uma dor de cabeça horrível. - É o calor. Por que não tinha fi cado calado, meu Deus! Que é que tinha o calor? E que coisa estúpida responsabilizar o calor por uma dor de cabeça. De novo o silêncio, graças a Deus. Ah, se ele fi casse sempre calado e imóvel, sempre, durante os dias, meses e anos, sem dizer nada e sem nada fazer. Mas para isso seria preciso que ele morresse. Essa passividade absoluta só quem dá é a morte. Ela, então, perguntou a si mesma, com certo medo de obter uma resposta demasiado honesta: "Desejo eu que ele morra? Vou, de agora por diante, desejar a sua morte?" Este raciocínio desenvolveu-se até uma outra pergunta mais perturbadora: "Eu seria capaz de matá-lo?" Meu Deus que coisa horrível! Teve vontade de rezar, mas não completou a oração, fi cou no começo.

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