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Mil Dias em Veneza (Cód: 3021391)

De Blasi, Marlena

Sextante / Gmt

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Descrição

Este livro pode parecer um conto de fadas, mas é uma história de amor verídica - o amor entre uma mulher e um homem, o amor pela comida e o amor por uma cidade. Por muito tempo, Marlena de Blasi resistiu a ir a Veneza. Até que, em 1989, seu trabalho como chef e crítica gastronômica tornou impossível continuar adiando a viagem. Assim que pôs os pés na cidade, ela ficou completamente seduzida. Seu encantamento foi tão grande que decidiu voltar todos os anos. Desde aquela primeira visita, Marlena sempre tinha a sensação de que estava indo a um encontro. Em 1993, o encontro finalmente aconteceu. Ela almoçava com amigos quando um garçom se aproximou e lhe disse que havia uma ligação para ela. Do outro lado da linha estava Fernando, um veneziano que, um ano antes, vira Marlena passeando pela Piazza San Marco e se apaixonara à
primeira vista. Alguns meses depois, Marlena largava toda a sua vida nos Estados Unidos e se mudava para Veneza, para se casar com o 'estranho', como costumava chamar Fernando. Ele não falava quase nada de inglês. O italiano dela se resumia a algumas palavras relacionadas a comida. Ele abrira mão de seus sonhos e levava uma vida monótona e previsível. Ela era mestre em recomeçar e se reinventar. Ele gostava de tudo muito simples, inclusive as refeições. Ela adorava cozinhar
pratos elaborados. À medida que eles superam essas diferenças e Marlena vai se familiarizando com as peculiaridades da cultura veneziana, os leitores são presenteados com uma descrição deliciosa e às vezes cômica de duas pessoas de meia-idade que, apesar de tudo, conseguem criar uma relação maravilhosa. Em Mil dias em Veneza, Marlena evoca vividamente as imagens, os sons e os aromas de uma das cidades mais românticas do mundo e divide com os leitores
as receitas que estiveram presentes em alguns dos momentos mais importantes de sua vida.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Sextante / Gmt
Cód. Barras 9788575425602
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 9788575425602
Profundidade 1.00 cm
Ano da edição 2010
Idioma Português
Número de Páginas 240
Peso 0.30 Kg
Largura 14.00 cm
AutorDe Blasi, Marlena

Leia um trecho

Prólogo VENEZA, 1989 Continuo sentada em meu lugar por um longo tempo depois de o trem entrar ruidosamente na plataforma da estação de Santa Lucia. Passo uma nova camada de batom vermelho nos lábios, ponho um cloche de feltro azul, puxando-o até as sobrancelhas, e tento desamarrotar a saia. Penso por um instante na história que contei para o taxista mais cedo nesta mesma manhã, ainda em Roma. Ele me perguntou: – Ma dove vai in questo giorno cosí splendido?Mas para onde a senhora vai neste dia tão esplêndido? – Tenho um encontro em Veneza – respondi com malícia, sabendo que a ideia iria agradá-lo. Depois de me observar arrastar a volumosa mala preta com uma das rodas amassada até a curva das portas da estação de trem, ele jogou um beijo para mim e gritou: – Porta un mio abbraccio a la bella Venezia. Mande meu abraço à bela Veneza. Até os taxistas romanos são apaixonados por Veneza! Todo mundo ama esta cidade. Todo mundo menos eu. Nunca estive em Veneza, pois sempre fui indiferente à ideia de ficar passeando por todos os seus torpo res iridescentes. Mas talvez o que eu disse ao taxista seja verdade. Curiosamente, estou me comportando como uma mulher a caminho de um encontro amoroso. Agora que finalmente cheguei aqui, porém, gostaria de poder desdenhar novamente a Velha Senhora de Bizâncio. Desço do trem já vazio, puxo minha mala pela plataforma depois de chutar a roda quebrada para encorajá-la e passo pelo tumulto da estação, entre vendedores que oferecem água, táxis e hotéis, e viajantes tomados pela aflição das chegadas e partidas. As portas estão abertas e saio para a luz úmida e rosada pisando um lance de degraus baixos e compridos. A água cintila lá embaixo no canal. Não sei para onde olhar. A Veneza das histórias é real e se estende à minha frente. Com chapéus de palha e camisas listradas, os gondolieri são esculturas de si mesmos afixadas à popa de lustrosas embarcações negras sob um sol redondo e amarelo. À esquerda fica a Ponte dos Descalços, e a bela fachada da igreja de San Simeone Piccolo abençoa os visitantes do outro lado do canal. Veneza é toda esgarçada, remendada, linda de morrer e, qual uma feiticeira, me desarma e me tira o fôlego. Eu espero o vaporetto, o ônibus aquático, linha 1, e a embarcação vai subindo pian piano o canal, parando 14 vezes entre a estação de trem e San Zaccaria, próximo à Piazza San Marco. Junto minha mala à grande pilha de bagagens no convés e sigo até a proa, esperando conseguir um lugar ao ar livre. Os bancos estão todos ocupados, a não ser por uns poucos centímetros sobre os quais repousa a bolsa de uma japonesa. Eu sorrio, ela recolhe a Fendi, e eu sigo em meio a ventos gelados por aquela surpreendente via. É estranho pensar que essa embarcação se tornaria meu transporte habitual, e essa água, meu caminho diário para sair de casa e ir comprar verduras, encontrar um vestido de casamento, ir ao dentista, acender uma vela em uma igreja de 1.000 anos de idade. Ao longo da riva equilibram-se os palácios, delicadas fachadas bizantinas e góticas, o Renascimento, o Barroco, todos em uma sucessão melancólica, um colado ao outro. Acho que é para esconder melhor os segredos. Quando nos aproximamos da Ponte di Rialto, o ponto mais próximo do meu hotel, não me sinto pronta para desembarcar. Permaneço a bordo até San Zaccaria e deixo a plataforma de embarque em direção ao campanile, o campanário. Aguardo alguns instantes, prestando atenção às badaladas do La Marangona, o mais antigo dos sinos de San Marco, aquele cujo toque solene e grave marcou, durante 15 séculos, o início e o fim do dia de trabalho dos artesãos venezianos. Houve um tempo em que o sino alertava sobre a aproximação de um inimigo, saudava um rei em visita e anunciava a morte de um doge. Alguns dizem que ele dobra de acordo com sua própria vontade e que, se alguém chega a Veneza quando estão soando suas grandiosas e nobres badaladas, isso é sinal de que essa pessoa tem uma alma veneziana, de que o velho sino se lembra dela de alguma outra ocasião. A primeira vez que um amigo me contou essa história, anos atrás, perguntei a ele como é que se poderia saber para quem o sino estava tocando se 600 pessoas estivessem passando ao mesmo tempo. “Não se preocupe”, respondeu ele, “o sino nunca vai tocar para você.” De fato, La Marangona continua em silêncio quando me posto diante da torre. Não me viro para olhar para a basílica que está bem atrás de mim. Não percorro os poucos metros até a grande piazza. Não estou pron ta ainda. Pronta para o quê? Digo a mim mesma que é simplesmen te impossível entrar naquele que é considerado o mais divino salão do mundo toda dessarrumada e carregando uma mala quebrada. Dou meia-volta, pego o vaporetto seguinte na direção da estação e desço em Rialto. Por que meu coração está disparado? Ao mesmo tempo que agora Veneza me atrai, também desperta minha desconfiança. Signora, telefone.A pequena sala está repleta de turistas alemães, alguns ingleses e uma ou duas mesas de moradores da cidade. É dia 6 de novembro de 1993, e cheguei a Veneza esta manhã mesmo, com dois amigos. Nós estamos conversando baixinho e bebericando um Amarone. O tempo passa e a sala vai se esvaziando, mas noto que uma das mesas, a mais distante de nós, permanece ocupada. Posso sentir o olhar suave e não invasivo de um dos quatro homens ali sentados. Curvo os ombros para dentro em direção à minha taça de vinho, sem realmente olhar para ele. Logo os quatro vão embora, e nós três ficamos sozinhos na sala. Alguns minutos depois um garçom se aproxima para dizer que há uma ligação para mim. Nós ainda nem avisamos aos amigos sobre a nossa chegada e, mesmo que alguém soubesse que estamos em Veneza, não teria como saber que esta mos almoçando no Vino Vino. Digo ao garçom que ele está enganado. – No, signora. Il telefono è per lei – insiste ele. – Pronto – digo no velho aparelho de parede cor de laranja que recende a fumaça e água de colônia masculina. – Pronto. Será que a senhora poderia me encontrar amanhã nessa mesma hora? É muito importante para mim – diz, em italiano, uma voz grave e articulada que nunca ouvi na vida. No curto silêncio que se segue, acabo entendendo, não sei como, que a voz é de um dos homens que acabaram de sair do restaurante minutos antes. Embora tenha compreendido bastante bem o que ele disse, sou incapaz de responder em italiano. Balbucio algum híbrido linguístico do tipo: – No, grazie. Eu nem conheço o senhor. – E penso que a voz dele me agrada muito. No dia seguinte, decidimos voltar ao Vino Vino, que fica perto do nosso hotel. Não penso no homem de voz bonita. Mas ele está no restaurante, dessa vez sem os amigos, e é bem parecido com Peter Sellers. Ambos sorrimos. Eu vou me sentar com meus amigos, e ele, parecendo não saber muito bem como nos abordar, vira-se e sai. Alguns segundos se passam até que o mesmo garçom, agora se sentindo parte de algum acontecimento importante, chega perto de mim e diz, olhando bem nos meus olhos: – Signora, il telefono è per lei. – Então se repete a mesma cena do dia anterior. Vou até o telefone, e a bela voz se põe a falar com um inglês muito estudado, talvez achando que eu não tivesse entendido seu idioma na véspera: – A senhora poderia me encontrar amanhã, sozinha? – Acho que não – respondo, atrapalhada. – Acho que vou para Nápoles. – Ah – é tudo o que a bela voz consegue dizer. – Sinto muito – digo antes de desligar. Nós não vamos a Nápoles no dia seguinte nem no outro. Vamos, isso sim, almoçar no mesmo restaurante, e Peter Sellers está sempre lá. Nunca nos falamos cara a cara. Ele sempre telefona. E eu sempre lhe digo que não posso me encontrar com ele. No quinto dia, uma sexta-feira, nosso último dia inteiro em Veneza, meus amigos e eu passamos a manhã no Florian planejando o resto de nossa viagem, tomando Prosecco e doses de um chocolate quente amargo e espesso misturado com Grand Marnier. Decidimos não almoçar e poupar nosso apetite para um jantar de despedida no Harry’s Bar. No caminho de volta para o hotel, passamos em frente ao Vino Vino, e lá está Peter Sellers com o nariz encostado no vidro. Um menino perdido. Paramos um instante na calle, e minha amiga Silvia diz: – Entre lá e fale com ele. Ele tem uma cara boa. Vemos você no hotel. Sento-me ao lado da cara boa com a bela voz e tomamos um vinho. Conversamos muito pouco, alguma coisa sobre a chuva, acho, e sobre por que não apareci para almoçar naquele dia. Ele me conta que é gerente de uma agência da Banca Commerciale Italiana que fica ali perto, que já é tarde e que só ele tem a chave para abrir o cofre para o expediente depois do almoço. Percebo que a cara boa com a bela voz tem mãos maravilhosas. Elas tremem enquanto ele recolhe suas coisas para ir embora. Combinamos de nos encontrar às seis e meia daquela tarde, ali, no mesmo lugar. – Proprio qui, aqui mesmo – repete ele sem parar. Volto a pé para o hotel com uma sensação esquisita e passo a tarde inteira relaxando no meu quartinho, seguindo apenas parcialmente minha tradição de ler Thomas Mann na cama. Mesmo depois de tantos anos vindo a Veneza, cada tarde é um ritual. Arrumo sobre a mesa de cabeceira alguns doces deliciosos, alguns biscoitos ou, caso o almoço tenha sido leve, um panino crocante que Lino, da bottega do outro lado da ponte em frente à minha Pensione Accademia, abriu e recheou com prosciutto e depois embrulhou em papel de açougue. Ajeito a colcha sob os braços e abro meu livro. Mas nesse dia passo uma hora lendo a mesma página sem lê-la de fato. E a segunda parte do ritual – aquela em que saio pela cidade para ver as imagens que Mann viu, tocar as pedras que ele tocou – nem sequer chega a acontecer. Nesse dia tudo em que consigo pensar é nele. À noite, a chuva persistente se transforma em temporal, mas estou decidida a ir encontrar o estranho. A água da lagoa sobe em ondas e se derrama pela riva em grandes poças de espuma, e a piazza é um lago de água negra. O vento parece o hálito das fúrias. Consigo chegar até a segurança aquecida do bar do Hotel Monaco, mas não consigo ir além. A menos de 100 metros do Vino Vino, estou muito perto, mas não consigo chegar lá. Vou até a recepção e peço um catálogo telefônico, mas o restaurante não está na lista. Tento ligar para a assistenza, mas o telefonista não localiza nada. O encontro está arruinado e não tenho como entrar em contato com Peter Sellers. Simplesmente não era para ser. Volto para o bar do hotel, onde um garçom chamado Paolo enche com jornais minhas botas encharcadas e as põe junto a um aquecedor com a mesma cerimônia que alguém poderia usar para guardar as joias da coroa. Conheço Paolo desde minha primeira visita a Veneza, quatro anos antes. Só de meias, um pouco nervosa, tomando um chá, fico sentada em cima das dobras molhadas da minha saia, que exala o cheiro úmido de ovelhas na chuva, vendo os raios furiosos e faiscantes rasgarem as nuvens. Penso na primeira vez que estive em Veneza. Meu Deus, como resisti àquela viagem! Eu estava em Roma havia alguns dias e queria ficar lá. Mas acabei dentro de um trem de segunda classe que seguia para o norte. – A SENHORA ESTÁ INDO PARA VENEZA? – pergunta uma voz em um italiano hesitante, penetrando meu quase sonho romano. Abro os olhos, espio pela janela e vejo que o trem chegou a Tiburtina. Duas jovens alemãs de rosto rosado guardam suas imensas mochilas no bagageiro e deixam cair seus corpos parrudos nos assentos em frente ao meu. – Estou – finalmente respondo, em inglês, para um espaço entre as duas. – Pela primeira vez – acrescento. As duas são sérias, tímidas, leem obedientemente o guia Lorenzetti de Veneza e tomam água mineral no vagão quente e abafado enquanto o trem avança e sacoleja pelos campos planos ao redor de Roma e sobe as colinas da Úmbria. Torno a fechar os olhos, tentando encontrar meu lugar na vida de fantasia em Via Giulia na qual ocupava um quarto na mansarda do palazzo rosa-ocre em frente à Academia de Arte Húngara. Eu decidira que toda sexta-feira iria comer um prato de tripe no Da Felice, em Testaccio. Faria compras todas as manhãs no Campo dei Fiori. Abriria uma taverna de 20 lugares no Ghetto, com uma grande mesa em que comerciantes e artesãos viriam comer a boa comida que eu prepararia para eles. Seria amante de um príncipe corso. Sua pele recenderia a botões de néroli, ele seria tão pobre quanto eu e passearíamos juntos à beira do Tibre, envelhecendo suavemente. Quando começo a juntar as belíssimas partes do rosto do príncipe, a voz da invasora pergunta: – Por que a senhora está indo a Veneza? Tem amigos lá? – Não. Não tenho nenhum amigo – respondo. – Acho que estou indo porque nunca estive lá, porque acho que deveria – continuo, mais para mim mesma do que para ela. Por alguns instantes, perco completamente o rosto do príncipe, então contra-ataco: – E vocês, porque estão indo a Veneza? – Estamos em busca de romance – responde a moça curiosa de forma bem direta. A minha verdade, ainda mais direta, é que estou indo a Veneza porque estão me mandando até lá colher dados para uma série de artigos. Duas mil e quinhentas palavras sobre os bacari, os tradicionais bares de vinho venezianos; outras duas mil e quinhentas sobre a questão do afundamento gradual da cidade na lagoa; e uma matéria sobre restaurantes chiques. Eu preferiria ter ficado em Roma. Quero voltar para minha estreita cama de madeira verde no estranho cômodo escondido no quarto e último andar do Hotel Adriano. Quero dormir lá, ser acordada pela luz empoeirada do sol entrando pelas frestas das persianas. Gosto do jeito como meu coração bate em Roma, como consigo andar mais rápido e ver melhor. Gosto do fato de me sentir em casa caminhando entre o antigo êxtase de segredos e mentiras daquela cidade. Gosto do fato de ela ter me ensinado que eu não passo de uma scintilla, um brilho passageiro quase imperceptível. E gosto do fato de, na hora do almoço, enquanto degusto alcachofras fritas, já estar pensando no jantar. E, durante o jantar, me lembro dos pêssegos esperando por mim dentro de uma tigela de água fria ao lado da minha cama. Quando o trem avança pela Ponte della Libertà, quase consigo recuperar partes do rosto do príncipe. Abro os olhos e vejo a lagoa. NA ÉPOCA, EU NUNCA PODERIA imaginar a doçura com que essa linda e velha princesa iria me acolher em sua tribo, como iria reluzir e dançar de um jeito que só ela é capaz, fazendo a manhã explodir com uma luz dourada, encharcando a tarde com as brumas azuladas de um transe. Sorrio para Paolo, um sorriso tribal, uma eloquência tácita. Ele permanece por perto, mantendo cheia a minha xícara de chá. Já passa das onze e meia quando o temporal melhora. Calço as botas endurecidas no formato dos jornais que as recheavam. Coloco o chapéu úmido sobre os cabelos molhados, visto o sobretudo também úmido e me preparo para o trajeto de volta até o hotel. Algo na minha consciência desperta e vai avançando devagarinho. Tento me lembrar se disse ao estranho onde estávamos hospedados. O que está acontecendo comigo? Eu, a inabalável. Veneza, ao mesmo tempo que me atrai, desperta minha desconfiança. Aparentemente, eu lhe disse sim o nome do nosso hotel, porque encontro uma série de papeizinhos de recado cor-de-rosa debaixo da minha porta. Ele telefonou a cada meia hora, das sete à meia-noite, e o último recado me avisava que estaria esperando no lobby no hotel ao meio-dia do dia seguinte, exatamente a hora em que deveríamos sair para o aeroporto. A manhã traz os primeiros raios de sol que vimos em Veneza nessa estadia. Abro a janela e vejo um dia límpido e suave, como um pedido de desculpas por todo o pranto da noite anterior. Visto uma legging de veludo preto e um suéter de gola rulê e desço para encontrar Peter Sellers, para olhar em seus olhos e descobrir por que um homem que mal conheço é capaz de me abalar tanto. Mas não sei se vou conseguir descobrir muita coisa, pois ele não parece falar inglês e a única conversa clara que consigo manter em italiano é sobre comida. Estou um pouco adiantada, então vou até a rua para sentir o ar e chego bem a tempo de vê-lo subindo a Ponte delle Maravegie, vestindo um trench coat, fumando um cigarro e carregando um jornal e um guarda-chuva. Eu o vejo antes de ele me ver. E gosto do que vejo e do que sinto. – Stai scappando? Está fugindo? – pergunta ele. – Não, eu estava indo encontrar você – respondo, usando principalmente as mãos. Eu tinha dito aos meus amigos para esperarem, que eu iria demorar 30 minutos, uma hora no máximo. Ainda teríamos tempo de sobra para pegar um táxi aquático até o aeroporto Marco Polo e fazer o check-in no voo das três da tarde para Nápoles. Então olho para ele. Pela primeira vez realmente olho para o estranho. Tudo o que vejo é o azul de seus olhos. Eles têm a mesma cor que o céu e a água apresentam nesse dia, o mesmo tom das frutinhas pequeninas e roxo-azuladas chamadas mirtilli. Ele é ao mesmo tempo tímido e íntimo, e saímos caminhando sem rumo. Paramos por alguns instantes na Ponte dell’Accademia. Toda hora ele deixa o jornal cair no chão e, quando se abaixa para apanhá-lo, esbarra com a ponta do guarda-chuva nas pessoas que passam atrás de nós. Então, segurando o jornal sob um dos braços e o guarda-chuva sob o outro, ainda atrapalhando os pedestres com a ponta, ele apalpa os bolsos do paletó e da calça procurando um fósforo. Encontra o fósforo, e então inicia a mesma busca por outro cigarro para substituir o que acabou de tirar da boca e jogar no canal. Ele parece mesmo Peter Sellers. Ele pergunta se alguma vez já pensei em destino e se acredito na existência do vero amore, o amor verdadeiro. Desvia os olhos de mim para fitar o canal e fala com uma espécie de gaguejar rouco durante um tempo que parece muito longo, e mais para ele do que para mim. Compreendo poucas palavras a não ser a última expressão, una volta nella vita, uma vez na vida. Ele me olha como se quisesse me beijar e penso que também gostaria de beijá-lo, mas sei que o guarda-chuva e o jornal vão cair dentro d’água e, além do mais, nós já passamos da idade de protagonizar cenas de amor. Não passamos? Eu provavelmente iria querer beijá-lo mesmo que ele não tivesse olhos cor de mirtilo. Mesmo que ele se parecesse um pouco com o apresentador de TV Ted Koppel. É esse lugar, a vista dessa ponte, esse ar, essa luz. Pergunto-me se teria vontade de beijá-lo se o tivesse conhecido em Nápoles. Tomamos um gelato na Paolin do Campo Santo Stefano, sentados em uma das mesas da frente, sob o sol. – O que você acha de Veneza? – ele quer saber. – Não é a primeira vez que vem aqui – diz, como se estivesse folheando algum dossiê interno que registra todos os meus passos pela Europa. – Não, não é a primeira vez. Comecei a vir aqui no verão de 89, uns quatro anos atrás – respondo animada. – Desde 1989? Faz quatro anos que você vem a Veneza? – pergunta ele, erguendo quatro dedos, como se a minha pronúncia de quattro estivesse confusa. – Sim – digo. – Por que isso é tão estranho? – É que eu só vi você em dezembro. Dezembro passado. Dia 11 de dezembro de 1992 – diz ele, como quem examina o dossiê mais de perto. – O quê? – pergunto, um pouco espantada, tentando relembrar o inverno anterior e as datas de minha última visita à cidade. Sim, eu havia chegado a Veneza no dia 2 de dezembro, e depois pegado um avião para Milão no final do dia 11. Ainda assim, ele com certeza estava me confundindo com outra mulher, e estou prestes a lhe dizer isso, mas ele já está começando a contar sua história. – Você estava passeando pela Piazza San Marco. Era pouco depois das cinco da tarde. Estava usando um sobretudo branco muito comprido, até o tornozelo, e tinha os cabelos presos como estão agora. Estava olhando a vitrine da Missiaglia, acompanhada por um homem. Ele não era veneziano, pelo menos eu nunca o tinha visto antes. Quem era aquele homem? – pergunta ele, rígido. Antes de eu conseguir articular meia sílaba, ele já está questionando: – Era seu amante? Sei que ele não quer que eu responda, portanto não o faço. Ele agora fala mais depressa e eu estou perdendo palavras e expressões. Peço-lhe para olhar para mim e, por favor, falar mais devagar. Ele atende meu pedido. 19 – Só vi você de perfil e continuei andando na sua direção. Parei a poucos metros e simplesmente fiquei ali parado, olhando para você. Fiquei ali até você e o homem saírem da piazza em direção ao cais. – Ele acompanha as palavras com movimentos amplos da mão e dos dedos. Seus olhos se prendem aos meus com urgência. – Comecei a seguir você, mas parei porque não tinha a menor ideia do que faria se ficássemos cara a cara. Quer dizer, o que eu poderia lhe dizer? Como poderia dar um jeito de conversar com você? Então deixei você ir. É a minha especialidade, sabe, deixar as coisas passarem. Procurei você no dia seguinte e no outro também, mas sabia que você tinha ido embora. Se ao menos a tivesse visto passeando sozinha em algum lugar, poderia abordá-la, fingindo que a confundi com outra pessoa. Não, eu diria como o seu casaco era bonito. Mas enfim, não tornei a encontrá-la, então guardei sua imagem na lembrança. Durante todos esses meses tentei imaginar quem você era e de onde vinha. Queria ouvir a sua voz. Senti muito ciúme do homem que estava ao seu lado – diz ele devagar. – Então, no outro dia, quando eu estava sentado lá no Vino Vino e você virou o corpo de modo que o seu perfil apareceu de leve por baixo do seu cabelo, percebi que era você. A mulher do casaco branco. Então eu estava esperando por você, entende? De certa forma estava amando você desde aquela tarde na piazza. Eu ainda não tinha dito nada. – Era isso que eu estava tentando lhe dizer na ponte agora há pouco, sobre o destino e o amor verdadeiro. Eu me apaixonei por você, não à primeira vista, porque só vi um pedaço do seu rosto. Para mim foi amor à meia vista. Foi o suficiente. E não ligo se você achar que eu sou louco. – Tudo bem se eu falar uma coisa? – pergunto a ele bem baixinho e sem ideia do que estou querendo dizer. 20 Seus olhos agora são dois raios azul-escuros que me prendem com uma força exagerada. Olho para baixo e, quando torno a levantar a cabeça, seu olhar se suavizou. Ouço minha própria voz dizendo: – É um presente encantador você me contar essa história. Mas o fato de você ter me visto, se lembrado de mim e depois, um ano mais tarde, ter me visto de novo não é um acontecimento tão misterioso assim. Veneza é uma cidade muito pequena, e não é improvável ver as mesmas pessoas várias vezes. Não acho que o nosso encontro seja um ato retumbante do destino. Afinal, como é que uma pessoa pode se apaixonar por um perfil? Eu não sou só um perfil; sou também coxas, cotovelos e cérebro. Eu sou uma mulher. Acho que tudo isso é só uma coincidência, uma coincidência muito comovente – digo para os olhos de mirtilo, moldando cuidadosamente o seu rústico relato para lhe dar uma forma definida, como faria com massa de pão. – Non è una coincidenza. Não é coincidência. Estou apaixonado por você, e sinto muito se isso a incomoda. – Não é que me incomode. Eu simplesmente não entendo. Ainda. – Digo isso querendo puxá-lo para perto, querendo empurrá-lo para longe. – Não vá embora hoje. Fique um pouco mais. Fique comigo – pede ele. – Se existe alguma coisa, qualquer coisa entre nós dois, o fato de eu ir embora hoje não vai mudar nada. Nós podemos nos escrever, conversar. Estarei de volta na primavera, e podemos fazer planos. – Minhas palavras parecem estar saindo de uma forma sincopada, forçada, e então as ouço entrar em uma quase paralisia. Imóveis como estátuas, ficamos ali sentados à margem da balbúrdia da praça no sábado. Passamos um longo tempo em silêncio antes de nos levantarmos devagar. Sem esperar pela conta, ele deixa algumas liras sobre a mesa, debaixo do pratinho de vidro de seu gelato de morango intocado, cujos riachos derretidos pingam sobre as notas de papel. Meu rosto está em chamas e eu me sinto atônita, corada com uma emoção que não consigo identificar, sinistramente parecida com pavor, mas não muito diferente de alegria. Será que meus antigos 21 presságios venezianos poderiam ter tido algum fundamento? Será que os pressentimentos ganharam vida na forma desse homem? Será esse o encontro? Sinto-me atraída pelo estranho. Ele me provoca desconfiança. Veneza, ao mesmo tempo em que me atrai, desperta mi nha desconfiança. Serão ele e Veneza a mesma coisa? Poderia ele ser o meu príncipe corso disfarçado de gerente de banco? Por que o Destino não pode anunciar a sua chegada, ter a forma de um burro de doze cabeças, usar uma calça roxa ou mesmo um crachá com seu nome escrito? Tudo o que sei é que eu não me apaixono, nem à primeira nem à meia vista, nem com facilidade nem com o tempo. Meu coração está simplesmente enferrujado por causa das velhas engrenagens que o mantêm fechado. É isso que penso sobre mim mesma. Atravessamos o Campo Manin até San Luca conversando amenidades. De repente, eu paro. Ele para também, e me toma nos braços. Ele me abraça apertado. Eu o abraço também. Quando saímos de Bacino Orseolo para San Marco, os cinco sinos da La Marangona estão badalando. É ele, penso. É ele o burro de doze cabeças vestido com a calça roxa! Ele é o Destino, e os sinos só me reconhecem quando estou ao seu lado. Não, isso é besteira. Delírios da menopausa. Cinco horas se passaram desde que saí do hotel. Ligo para meus amigos que ainda estão me esperando lá, peço para levarem minha bagagem e prometo encontrá-los no aeroporto. O último voo para Nápoles sai às sete e vinte. O Grande Canal está mais vazio do que deveria estar, livre do emaranhado habitual de esquifes, gôndolas e sandoli, o que permite ao tassista acelerar com seu táxi aquático, fazendo-o avançar enquanto se choca brutalmente com a água. Peter Sellers e eu ficamos em pé no vento, avançando rumo a um sol cada vez mais baixo, vermelho-escuro. Tiro da bolsa uma garrafinha prateada e um copinho fino de uma bolsinha de veludo. Sirvo conhaque, e bebemos juntos. Novamente ele parece prestes a me beijar, e dessa vez o faz – nas têmporas, nas pálpebras, antes de encontrar minha boca. Não passamos da idade. 22 Já que não temos nenhum amuleto mais poderoso, trocamos telefones, cartões de visita e endereços. Ele pergunta se pode nos encontrar no final da semana aonde quer que estejamos. Digo que não é uma boa ideia. Informo a ele nosso itinerário, pelo menos tudo o que minha memória permite, para podermos nos dizer bom-dia e boa-noite de vez em quando. Ele pergunta quando vou voltar para casa, e eu respondo. 23

Avaliações

Avaliação geral: 5

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Maria Helena Frantz Jung recomendou este produto.
25/04/2017

Magnífico livro, por meio do qual ficamos conhecendo Veneza como jamais sonhamos que poderia ser. Perfeito.

Neste livro encontramos um amor mágico, entre Marlena e Fernando, ela crítica literária sobre culinária e ele um bancário acomodado à sua rotina, mas com sonhos escondidos. A paixão é tão grande que ela deixa sua terra natal e parte para Veneza, onde ficamos conhecendo detalhes daquela cidade que de outro modo ignoraríamos para sempre. Cidade misteriosa e de sonho. A paixão entre os dois leva ao casamento e a uma vida de felicidade e gastronomia, permeados de discussões sobre o futuro dos dois. Beleza, não deixe de ler. Marlena, não deixe de escrever romances para nós.
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