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Minha Guerra Particular (Cód: 1567849)

Sultan,Masuda

Nova Fronteira

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Descrição

Elogiada por Khaled Hosseini, autor de O caçador de pipas, a jovem afegã Masuda Sultan faz um relato comovente de sua luta para conciliar as diferenças entre duas culturas: a América e o Islã. Através de pequenas histórias, ela mostra como entender o Afeganistão, um país que foi palco de inúmeros conflitos ao longo do século XX.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Nova Fronteira
Cód. Barras 9788520919392
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 8520919391
Profundidade 1.50 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2006
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 320
Peso 0.35 Kg
Largura 14.00 cm
AutorSultan,Masuda

Leia um trecho

Minha guerra particular Masuda Sultan Tradução Regina Lyra um O SEGUNDO DIA MAI S IMPORTANTE O prazer de Deus é o prazer dos pais. Ditado islâmico Aos 16 anos, finalmente arrumei coragem para telefonar para meu marido. Depois que concordei a contragosto, meus pais arranjaram meu casamento com um médico 14 anos mais velho. Eu vinha planejando o telefonema há semanas, tentando encontrar a ocasião certa, e dando para trás na hora em que isso deixava de ser fantasia para se aproximar ainda mais do momento de ouvir sua voz. Tinha que me apressar porque mamãe logo estaria de volta, e minhas irmãs menores poderiam entrar na sala a qualquer momento. Enquanto discava o número da telefonista, senti uma intensa onda de calor se espalhar pelo meu rosto e tomar conta do meu corpo. — Quero fazer uma ligação a cobrar — pedi, hesitante, à telefonista, esperando ouvir que não era possível fazê-lo e me livrar daquela tortura. Eu tinha achado o telefone dele na letra “D”, de doutores, no caderninho com caligrafia impecável que meu pai mantinha ao lado do telefone. Odiei a idéia de ser esta a maneira como eu falaria pela primeira vez com meu marido. Fiquei mal, mas não havia outro jeito de ligar para ele sem que meus pais descobrissem. E se ele não soubesse quem eu era? Numa ligação a cobrar, a gente pode falar apenas o nome, e eu não teria tempo para explicar: “É a Masuda, a moça com quem você se casou três meses atrás, lembra?” E se ele reconhecesse o meu nome e mesmo assim recusasse a chamada? Será que me consideraria uma americana sem vergonha? Afinal, desde o casamento, ele telefonava para meus pais uma vez por semana para saber como iam as coisas, mas enchia minha mãe de orgulho por não perguntar sobre mim. Isso queria dizer que era muito conservador, ou muito tímido para fazer perguntas sobre mim aos meus pais, ou ambas as coisas — em todo caso, segundo a cultura pashtun, este era um comportamento altamente apropriado. — Masuda Sultan — apressei-me a dizer o nome completo antes que o tempo acabasse. Um toque, dois... Meus dedos tamborilavam nervosos no tampo de madeira escura do aparelho de som sobre o qual ficava o telefone. Senti uma certa decepção por ele não estar em casa num domingo à tarde. Será que saiu com uma mulher? Eu nada sabia da vida dele, mas pensava a respeito. No terceiro toque, ele atendeu. Lancei rapidamente a minha voz pelos cabos de cobre que nos conectavam: — Salaamwalaikum. Aqui é a Masuda. Desculpe ligar assim, mas achei que devíamos nos falar e... qualquer problema, posso desligar e fingir que isso nunca aconteceu. Estava tão assustada que me arrependi de ter ligado. — Não, não, tudo bem. Não se preocupe. Quase pulei de alegria. — E então, como vai? — perguntou ele. — Nada mal, apenas... estou em casa. Ele foi um amor. Fiquei eufórica por ele ter gostado de saber notícias minhas. Era meu marido, mas parecia que eu estava ligando para um namorado secreto, o que tornava tudo ainda mais divertido. Começamos a conversar sobre seu cansativo trabalho como médico na clínica. Expliquei que estava ficando tarde para eu me candidatar a uma universidade, mas que meu orientador na escola achava que eu tinha uma boa chance de ser aceita em algumas das melhores. Meus pais pediram que eu não me inscrevesse logo, que esperasse para ver o que aconteceria. Abordei o tema da faculdade para saber se ele realmente não se importava que eu estudasse. Alguns meses antes, quando meus pais me perguntaram se eu concordaria em me casar com alguém escolhido por eles, de início me opus, dizendo que aos 16 anos era cedo demais e que eu queria ir para a faculdade. Eles então me perguntaram com quem eu me casaria mais tarde e se já tinha namorado. — Claro que não! — respondi, na defensiva, sentindo-me sob suspeita. — E vai se casar com quem, então, se não com um marido escolhido por nós? Talvez seja cedo demais, mas uma oportunidade como esta pode não aparecer de novo. Achamos que você já é madura o bastante. Os dois temiam não encontrar um bom partido para mim se esperassem mais tempo, porque eu passaria a ser instruída demais para a maioria dos habitantes do sul do Afeganistão cujas famílias eles conheciam da época anterior à guerra. Acabei cedendo, por ver méritos na escolha dos meus pais e não ter outra pessoa em mente. Minha única condição foi continuar a estudar até me formar na faculdade. Meus pais concordaram em pedir ao irmão de Nadir, que os procurara para pedir a minha mão, para falar com meu pretendente sobre isso. Feita a consulta, o irmão transmitiu a resposta: era aceitável. Devido à existência de tantos intermediários, eu quis ter certeza de que Nadir realmente valorizava minha formação universitária. Fiquei aliviada em ver que sim, embora ele não tenha dito nada quanto a faculdade que eu deveria me candidatar. Era apenas nosso primeiro telefonema, e para mim já tinha sido muito conseguir um contato. Eu acabava de conversar pela primeira vez com meu marido, e ele sugeriu que eu ligasse a cobrar quantas vezes quisesse. Quando desliguei o telefone, me virei e dei de cara com minhas irmãs na sala. Elas me olhavam de forma estranha. Não perguntei o que tinham ouvido ou o que sabiam, porque não quis chamar a atenção delas para o que eu tinha feito. Só esperava que não tivessem percebido nada, embora, pelo calor que sentia em meu rosto, eu devesse estar vermelha como um pimentão. Eu morria de vontade de saber como meu marido era. Culpava a maneira como nos conhecemos pelo constrangimento que sentia em certas ocasiões, como diante do silêncio mortal ao telefone. Ou talvez o problema fosse por eu ser totalmente inexperiente e nunca ter namorado antes. Quem sabe era um sinal de gentileza da parte dele não falar muito, me dando abertura com seu silêncio para que eu falasse a meu respeito e abordasse qualquer coisa que me viesse à cabeça. Tendo em vista que Nadir provavelmente era o homem mais preparado que eu já conhecera, confiei em seu instinto. Eu sabia também que os nossos filhos seriam, no mínimo, muito inteligentes. Mas teria gostado de ouvir que ele tinha adorado falar comigo, que esperava ansioso nosso casamento e nossa vida a dois. Eu me lembrava da primeira vez que nos vimos. Ele veio jantar em nossa casa, com o irmão e a mulher do irmão. Como na maioria das melmastias, ou ocasiões em que recebíamos visitas, passamos dois dias nos preparando para a chegada deles. No primeiro, Agha, meu pai, comprou carnes e mantimentos, enquanto o restante da família fez faxina o dia todo, deixando a casa impecável. No dia da melmastia, fomos acordados pelo aroma acolhedor de cebolas refogadas, que Moor, mamãe, começara a fazer horas antes de despertarmos. Logo nos juntamos a ela, lavando raminhos de menta e coentro, amassando com pilão o alho até formar uma pasta para rechear quadradinhos de carne e transformá-los nos mantoos, bolinhos afegãos condimentados sobre os quais derrama-se iogurte de menta na hora de servir. Passamos o dia preparando comida suficiente para, no mínimo, o dobro das visitas esperadas, morrendo de medo de não ser o bastante. O maior constrangimento numa melmastia é não haver comida suficiente. Não se trata aqui de deixar as pessoas com fome, ou da comida acabar, mas de algum convidado pensar duas vezes antes de se servir de determinado prato por receio que outra pessoa deseje o mesmo. Em outras palavras, os convidados precisam se sentir à vontade para comer o que quiserem e o máximo possível. Eles não podem jamais se privar de alguma coisa ou se sentir frustrados. Devem se sentar e ser servidos, embora as visitas femininas mais chegadas à família em geral insistam em ajudar a lavar a louça. Adoro servir as visitas, provavelmente porque toda a minha família sempre sentiu prazer nisso. Como uma orquestra, minha família administra em conjunto todos os detalhes e crises menores. Talvez seja aí que nosso espírito de equipe se revela mais forte. Quando chega a hora de servir o jantar, Agha checa o tempo todo a comida, enquanto Moor a esquenta, e todos temos as nossas tarefas. Na corrida para levar todos os pratos à mesa ao mesmo tempo, de modo que não esfriem, realizamos manobras para evitar esbarrar uns nos outros na cozinha. Enquanto me abaixo para não bater na enorme travessa de arroz basmati aromático passada por cima da minha cabeça, entrego uma luva para minha mãe segurar a panela no fogão e peço ao papai para tirar o pão afegão do forno antes que queime. Todos nos esforçamos para ser o melhor e o mais eficiente possível. A meta de tudo isso é fazer o mínimo de barulho e tentar aparentar tranqüilidade para os convidados. Sara decora a berinjela e os tomates com pimentões cortadinhos e coentro fresco, como uma artista talentosa que se orgulha de sua obra. Tento me lembrar do que está faltando, como os limões em conserva que Agha pôs num vidro, semanas atrás. Minha irmã caçula, Aziza, ajuda com as tarefas mais simples, como preparar a salada, enquanto insiste para que mamãe lhe dê responsabilidades de adulto, como preparar do início ao fim um prato de galinha ao curry. Na noite da visita de Nadir, minha mãe me pediu para servir as bebidas, e lá fui eu equilibrando uma bandeja de copos de suco de laranja pousados em pires guarnecidos com um guardanapo dobrado em triângulo. Em nossa casa, jamais servimos uma bebida a uma visita sem um pires e um guardanapo sob o copo, tudo numa bandeja de prata decorada. Certa vez, levei na mão um copo d’água para um convidado e tive que encarar a expressão de absoluta vergonha no rosto do meu pai. Ele se encolheu diante dos meus olhos, mas não tive como voltar atrás, pois já estava na frente da visita segurando o copo d’água na mão. Quando me dirigi para Nadir com a bandeja de suco de laranja, percebi que a extremidade do seu pé se apoiava na mesa em frente ao sofá, com os dedos presos à borda. “Que grosseria!”, pensei. Embora seja usual tirar os sapatos dentro de casa, pôr os pés na mesinha é sempre falta de educação. Enquanto me aproximava, tive a esperança de que ele abrisse espaço na mesa para eu colocar a bandeja, mas Nadir nem se mexeu. Não agüentei olhar para a cara dele. Fiquei de olho em seu pé e enquanto chegava cada vez mais perto, ansiosa por não saber o que fazer se ele não se mexesse. Olhei fixo para o seu dedão, limpo e bem tratado, mas cabeludo. Eu não queria ter que pedir para ele tirar o pé da mesa. Isso equivaleria a um confronto, e eu era tímida demais para tanto. Finalmente, quando parei ao seu lado, o dedão se mexeu. Foi assim que Nadir e eu fomos apresentados. No nosso encontro seguinte, nos casamos, numa cerimônia islâmica chamada nikkah. Certa vez, quando eu tinha dez anos e meus pais hospedaram a família para uma festa de casamento, uma parenta mais velha e experiente me disse que no islã o casamento é sagrado. As mulheres da família estavam acomodadas em colchões afegãos espalhados pelo chão, deitadas de lado com os braços pousados em grandes almofadas de veludo. A avó da minha mãe, Koko, inclinou-se e sussurrou no meu ouvido: — Existem três dias importantes na sua vida. O dia em que nasce, o dia em que se casa e o dia em que morre. Essas datas são marcadas por Deus e não podem ser mudadas. Só Deus sabe quando acontecerão. Meu pensamento disparou. Com certeza eu não me lembrava do dia em que nasci e talvez não esteja consciente quando morrer — mas o dia do meu casamento seria o único dia importante que eu teria condições de vivenciar do início ao fim. Eu já sabia disso aos dez anos, mas as palavras de Koko foram uma confirmação, e a descoberta do papel de Deus tornou o significado mais profundo. As palavras dela ecoavam em minha cabeça toda vez que eu cumpria mais um ritual que nos aproximava do fim da nossa jornada. Casar aos 16 anos foi estranho, mas cheio de mistério. Num certo sentido, estávamos apenas noivos. Não morávamos juntos e ainda nos faltava passar pela cerimônia em que eu usaria um vestido branco e leria trechos do Corão com Nadir sob um grande xale verde que as duas famílias estenderiam sobre nossas cabeças, simbolizando o teto da nossa nova casa. Mas já passáramos pelo nikkah, ou celebração islâmica das núpcias, e nele usei um vestido verde para aceitar Nadir como marido. Era isso que os meus amigos tinham mais dificuldade para entender. Para o islã, estávamos casados, mas culturalmente, apenas noivos. Na cultura afegã, este é um período especial num relacionamento, quando o casal se conhece, mas no qual se espera que se abstenham de relações íntimas. Dependendo da postura da família, os noivos podem namorar, falar ao telefone ou não ter contato algum. Nossa família realizou a cerimônia do nikkah num hotel em Flushing, no Queens. O vestido verde que usei era da cor da devoção islâmica, bem como da prosperidade. Fiquei sentada num quarto com as outras mulheres, aguardando que me perguntassem se eu aceitava me casar com Nadir. Meu pai pedira para me representar como wakil, a pessoa a quem eu daria permissão para me casar. Alguns muçulmanos acreditam que o contrato de casamento deva ser celebrado entre o noivo e os parentes masculinos mais próximos da noiva, em vez de entre marido e mulher. Para minha família, a noiva deve concordar com o casamento, mas deve ser representada por um parente do sexo masculino na cerimônia em vez de aparecer pessoalmente diante do noivo, o que significaria um atrevimento. Na cerimônia, meu pai providenciou para que duas testemunhas, homens da minha família, viessem ao meu quarto. Falar com eles consistiria na minha única participação na cerimônia. Embora no islamismo clássico seja permitido às mulheres representarem a si mesmas no casamento, as famílias conservadoras nomeiam testemunhas como mensageiros, a fim de confirmar para o mulá, ou líder religioso, as intenções da noiva. Não pude confirmar pessoalmente minhas intenções para o mulá porque a cultura pashtun tradicional não permite que mulheres solteiras se apresentem diante de homens, mesmo quando estes são líderes religiosos. Minhas duas testemunhas empregaram uma frase bastante formal em pashtu, perguntando quem eu escolheria para me representar na cerimônia. Eu estava muito nervosa, e não entendi direito as palavras que disseram, embora soubesse qual era a pergunta. Mas Agha tinha me ensinado a maneira correta, formal, de dizer que ele iria me representar, de modo que repeti o que havia decorado. Então, minhas testemunhas se foram. Alguns minutos depois, minha mãe, minhas irmãs e outras parentas presentes no quarto vibraram de alegria, caindo nos braços umas das outras e chorando porque uma menina da família finalmente crescera e, nas palavras de mamãe, “alcançara o seu lugar”. Um minuto mais tarde, meu marido entrou no quarto e a música começou a tocar. Fizemos a tradicional primeira caminhada como um casal oficial, lentamente e ao compasso da música, e entramos no salão para nos juntarmos às nossas famílias e convidados. Não demonstrei qualquer emoção e mantive o rosto sério ao longo do percurso em meio àquela confusão de gente. Não tive coragem de olhar para ninguém, mas todos os olhares estavam em mim. No palco, minha mãe e meu pai deram a meu marido um anel e um relógio de ouro, e a família dele me deu um conjunto de brincos, colar e anel, de ouro e pedras preciosas. Sem trocar uma palavra, havíamos nos casado. Assim que acabou a cerimônia, Nadir precisou literalmente correr para o aeroporto para voltar ao hospital onde trabalhava como interno. Apertou minha mão e se despediu. Eu não disse uma só palavra a ele no dia do nosso noivado, nem, a bem da verdade, em qualquer outra ocasião. Tudo havia sido arranjado por nossas famílias. Meu pai e meu avô conheciam o pai dele de Kandahar, e nossas famílias voltaram a se encontrar no Brooklyn, na condição de refugiadas do bombardeio soviético em Kandahar nos anos 1980. Nossos pais e avós, e os pais e avós destes, pertenciam à tribo Popalzai, a mesma do atual presidente do Afeganistão Hamid Karzai. Nossas famílias se davam muito bem, mas será que nós nos daríamos? Eu mal podia ver alguma coisa através do véu branco que cobria o meu rosto. Era como estar inconsciente. Não sentia nada. Ofuscada pelas luzes fortes que vinham em minha direção, eu só via as pessoas como borrões coloridos passando à minha frente. Tudo que ouvia eram ruídos de risadas e tashakors (agradecimentos) em pashtu. Era o segundo dia mais importante da minha vida, o dia do meu casamento formal. Desta vez, meu marido e eu voltaríamos juntos para casa. Estávamos em Karachi, no Paquistão. Eu tinha 17 anos e me formara no segundo grau no verão anterior. Eu me saíra bem e conseguira o diploma um ano antes do previsto. Chegara a hora de casar. Quase mil pessoas compareceram ao casamento ao ar livre do último solteiro de seis irmãos. Era meu casamento, mas nada ali era meu. Uma mulher se aproximou e me chamou de boneca americana. Eu ficava em pé quando mandavam e me sentava quando queriam, tentando me mexer o mínimo possível. A luz da enorme câmera de vídeo montada à minha frente era quase insuportável no calor pegajoso de Karachi. De vez em quando, seu foco se desviava de mim, e eu sentia uma brisa fresca nos braços e no pescoço. Tomei cuidado para manter os olhos baixos, de forma a não parecer atrevida. Às vezes eu os levantava, principalmente quando meu irmão mais velho, Babai, batia uma foto, porque queria mostrar às outras garotas afegãs que não é feio olhar à volta. Além disso, cresci nos Estados Unidos, e não se pode esperar o mesmo comportamento de moças americanas. Mas eu não queria fazer isso o tempo todo. Queria mostrar à família do noivo que o fato de ter crescido nos Estados Unidos não fazia de mim uma pessoa arrogante ou uma má esposa para o irmão deles. A irmã mais velha de Nadir, Bibi, foi a mestre de cerimônias em Karachi. A mãe morrera como refugiada no Paquistão. Como Nadir já não tinha mãe, a escolha óbvia para organizar o casamento recaiu sobre sua irmã mais velha. Ela falava alto, tinha uma voz esganiçada, de modo que seu verdadeiro poder sobre a família não ficava logo aparente. Seu nariz comprido me fez lembrar o do tucano dos comerciais do cereal Froot Loops. Às vezes Moor me chamava de Bibi. Era como ser chamada de anjo. As Bibis são as mulheres mais respeitadas segundo os conceitos do pashtunwali. Possuem uma profunda noção de modéstia, quase sempre acatando os desejos dos maridos e das famílias, e basicamente têm bom coração, pois tentam manter a harmonia em seus relacionamentos. Não reclamam e com certeza não brigam. Todo mundo as adora. Sempre desejei ser uma Bibi, embora o título em geral seja conferido pela sogra. São as sogras que representam o maior desafio para a “bibidade” de uma jovem esposa. As mulheres mais velhas são quase sempre chamadas de Bibi, seguido de um outro termo carinhoso, como Gul, que significa “flor”. Não sei como tantas mulheres idosas acabaram virando Bibis, mas talvez seja porque as sogras morreram e o padrão foi afrouxado. Muitas senhoras idosas que chegaram aos Estados Unidos trazidas pelos filhos e filhas, já cidadãos americanos, tinham Bibi como primeiro nome, seguido do sobrenome. Uma americana comentou comigo uma vez como era incrível que tantas afegãs se chamassem Bibi. Para uma platéia que aplaudia com entusiasmo, Bibi mostrou todos os novos conjuntos de pulseiras, anéis e brincos preciosos com que as irmãs e tias de Nadir haviam me enfeitado. Durantes os seis meses anteriores, mamãe e eu percorremos as zonas comerciais que conhecíamos em Nova York para comprar meu enxoval, inclusive vestidos cheios de brilho e sapatos para combinar na rua 37 em Manhattan, bem como elegantes trajes indianos em Jackson Heights, no Queens. Quando chegamos ao Paquistão para o casamento, mamãe e eu visitamos o Sadar, o mercado do ouro em Karachi, para comprar jóias para o casamento. Ao descermos do carro, passamos por mendigos na rua. Do lado de fora da loja havia seguranças com armas automáticas, e um deles abriu a porta para mim. Dentro, tudo espelhava o belo e rico brilho do ouro. Para as muçulmanas, o ouro é o bem mais valioso, sinal de riqueza. Na verdade, o ouro costuma ser a única reserva financeira de uma mulher, principalmente nas sociedades pobres. Também é considerado sagrado, de modo que minha incursão consumista,aparentemente fútil, também soava curiosamente espiritual. Eu adorava me sentir ligada aos meus ancestrais por meio desse belo elemento natural. Os lojistas, percebendo a oportunidade de fazer uma ótima venda para as estrangeiras, sobretudo para uma garota como eu, não economizaram um átimo de energia na apresentação do seu estoque. Dava para ver que não residíamos no Afeganistão, que morávamos no ocidente. Assim que descobriram o que queríamos, enfileiraram caixas e mais caixas, forradas de veludo vermelho e cheias de jóias maravilhosas, que foram abrindo uma a uma. Coube a mim assentir com a cabeça, indicando que artigo devia sair da caixa, ou fazer que não para demonstrar reprovação. Escolhi as jóias mais caras da loja. A maior parte do ouro no bazar era de 22 quilates, algo pouco familiar à maioria das moças que conheci nos Estados Unidos. Nunca pude fazer isso na América. Aqui, eu era realeza. Nas famílias pashtun, a noiva não costuma escolher as próprias jóias, menos ainda as que serão compradas pela família do noivo como presentes de casamento. No meu caso, porém, sugerimos que eu mesma ajudasse na seleção, pois soube que a família de Nadir ia comprar para mim um enorme colar de ouro que descia até a cintura, que eu não usaria nunca. Tive sorte. Era raríssimo permitir que uma moça escolhesse as próprias jóias, e me senti o tempo todo uma princesa. Não tive que fazer nada no casamento, a não ser tomar cuidado para não rir, nem mesmo sorrir, ou olhar demais à minha volta. Tinha prometido à minha mãe não sorrir. Acabávamos de comprar meu véu e estávamos de pé na rua esperando meu pai vir nos pegar, quando ela me alertou sobre isso. Senti vontade de chorar, mas em vez disso confirmei que já conhecia as normas. Claro que eu não sorriria no meu casamento. Em Kandahar, na época de mamãe, quanto mais uma noiva chorasse, mais gostavam dela. Quanto mais triste se mostrasse por deixar a família, mais isso evidenciava o quanto ela gostava deles. Para mim, o que doía não era a tristeza de deixar a família, mas a tristeza de sentir que cada passo do meu destino seria decidido por alguém que não eu, e ainda assim não saber o que seria da minha vida. Era melhor assim, pensei, porque com certeza eu faria todos felizes. Queria ser perfeita nesse aspecto. Além disso, os adultos tinham uma sabedoria que me escapava à compreensão. Talvez eu viesse a amar meu marido. Sempre desejei me casar com um afegão que respeitasse minha família e adotasse minha cultura. O casamento foi uma mistura típica de costumes ocidentais e afegãos. As mulheres foram separadas dos homens, e a festa aconteceu no lado das mulheres, vestidas com a tradicional shalwar kameez, uma saia longa com pantalonas por baixo. As roupas eram todas muito vistosas — como aquelas balinhas coloridas que as vovós guardam num pote. Vermelho, amarelo, roxo, verde, bordados em dourado, espelhinhos e compridos lenços de um tecido leve envolvendo a cabeça, o pescoço e os ombros. Uma mulher com uma calça preta de lamê se aproximou de mim e pôs-se ao meu lado para uma foto. Quando se foi, me dei conta de que era Homira, minha nova cunhada. Eu nunca tinha visto Homira de calça comprida, nem em casamentos nos Estados Unidos. Na verdade, sempre a vira envergando roupas étnicas tradicionais. Seguindo a tradição, pus uma pitada de sal na boca de Nadir, e por um momento nos olhamos no espelho pela primeira vez como marido e mulher. Então, lemos passagens do Corão em árabe sobre como Deus criou o homem e a mulher a partir de “uma alma” e pôs amor e carinho pelo outro no coração de cada um dos dois. O espelho e a cerimônia do Corão (aina mosaf) são o ponto central da maioria dos casamentos afegãos a que já assisti. Muitos casais afegãos, inclusive vários da geração dos meus pais, se viram pela primeira vez nessa cerimônia. Antigamente, nem as noivas podiam ver a si mesmas antes do ritual do espelho em seus casamentos. Para uma noiva que já tivesse se olhado no espelho, a cerimônia permitia ver como estava bonita, toda produzida em sua noite de casamento. Mesmo então, era difícil reconhecer-se, já que a maioria das afegãs não faz as sobrancelhas nem usa um pingo de maquiagem antes do dia do casamento. Senti uma mão pousar no meu ombro direito: — Sente-se! Outra mão me impediu de sentar, segurando meu braço esquerdo: — Nããão! Nadir e eu estávamos de pé na frente de nossas cadeiras, num tablado, encarando os convidados da festa, preparados para nos sentarmos. Este é um dos rituais que indicam quem terá mais poder no casamento. Costuma ser uma brincadeira divertida para a família dos sogros, tentar convencer o genro ou a nora a se sentar. Eu tinha certeza de que mamãe queria que eu me sentasse primeiro, para mostrar que seria uma esposa obediente, mas resi sti. Empertiguei os ombros e me mantive o mais firme possível. Não ia permitir que uma boa e tradicional competição como essa fosse vencida sem luta. Todo mundo torcia, gritando palavras de estímulo para o noivo ou para a noiva, dependendo da família a que pertencessem. Quando a torcida ficou muito ruidosa, Nadir dobrou os joelhos e se inclinou para sentar. Acompanhei-o, mas fiz questão de me mover lentamente, de modo a sentar depois que ele já estivesse sentado. Assim que me sentei, todo mundo aplaudiu. Venci. Embora me sentisse realizada, eu sabia que ganhar esse jogo não provava que seria eu o cônjuge mais forte. E esperava que a família dele entendesse que ainda podia ser uma boa esposa. Nadir afundou em sua cadeira e reclamou do calor. Gotinhas peroladas de suor haviam se formado em sua testa e acima da boca. O calor em Karachi era denso como o pudim de arroz de Moor. A umidade dava a sensação de estarmos numa sauna. Os lindos trajes novos de seda das mulheres grudavam no corpo, e a tinta dos tecidos às vezes deixava manchas na pele. Uma roupa usada uma única vez parecia ter enfrentado uma tempestade. Meu cunhado mais velho pediu que as mulheres se apressassem. — Precisamos nos apressar. Já é quase meia-noite. Na época era proibido esticar os casamentos além da meianoite, por causa do clima tenso em Karachi. Alguns gestos e passos mais tarde, meu pai se aproximou e me beijou na testa, amarrando em volta da minha cintura uma faixa vistosa em verde-esmeralda e amarelo-ouro. Mais cedo, quando perguntei por que precisava de uma faixa verde na minha noite de núpcias, disseram que era para me fortalecer. Em seguida, um vasto lenço de gaze branca salpicado de lantejoulas verdes e dobrado em várias camadas, foi posto sobre minha cabeça e cobriu meu rosto. Haviam sido feitos nós em ambas as pontas do lenço, que depois foram desfeitos pelos homens da minha família. Em meio às dobras do lenço se escondiam cardamomo fresco, passas, amêndoas glacês e até mesmo alguns dólares. Os presentes simbolizavam votos de prosperidade para o meu futuro. Agora que meu rosto se achava coberto, eu não via quase nada. Aproximava-se a meia-noite, e meu cunhado mais velho mandou que todos se apressassem. Fomos levados para um carro branco decorado com fitas cor-de-rosa e brancas e flores. Quando partimos, vislumbrei pela última vez os seguranças armados de metralhadoras, alguns ainda postados no telhado à entrada do jardim de festas. Sua presença era necessária devido às lutas em Karachi que naquele ano faziam centenas de mortos todo mês. No caminho, um vento úmido entrava pela janela do carro, contudo mal conseguia atravessar o véu que me cobria o rosto. Levantei lentamente a gaze branca e deixei a brisa refrescante beijar meu pescoço. Esperava que ninguém achasse aquele gesto ruim. A viagem pareceu muito longa, apesar de avançarmos os sinais vermelhos. Só diminuíamos a velocidade se um carro surgisse à nossa frente. Em Karachi ninguém pára no sinal vermelho. Logo que chegamos à cidade, meu pai comentou que o tráfego ali fluía por obra e graça de Deus. Nós rimos. Apesar de demorada, a viagem acabou antes que eu estivesse pronta, com o carro estacionando em frente a um prédio de apartamentos de aparência moderna. Eu estava nervosa e não conseguia me concentrar. Na verdade, não queria pensar em como seria a minha noite. Explosões de cor e de emoção se entrechocavam na minha cabeça. Meu lado objetivo sentia que esta seria uma boa oportunidade para conhecer de verdade meu marido. Quando desci do carro, um jarro d’água foi esvaziado aos meus pés, um ritual de boa sorte para um convidado. A família de Nadir me recebeu como parte dela. Eles fizeram com que me sentisse respeitada e querida. Conforme os outros carros estacionavam, todos foram ficando mais eufóricos. Olhei para o prédio que seria meu novo lar enquanto permanecêssemos no Paquistão. Já tendo um dia sido branco, ele adquirira um tom cinza-claro. Levantei a barra do vestido para não tropeçar, e papai e meu marido me ajudaram a subir os vários lances de escada, a céu aberto, até o último andar, onde ficava o meu novo lar temporário. A cada porta que eu transpunha, os rostos sorridentes das mulheres me davam boas-vindas. Elas me levaram até um colchão de veludo vermelho no chão, e me ofereceram o melhor assento da casa, com uma enorme almofada de veludo vermelho encostada à parede na qual recostar. Meu marido veio se sentar ao meu lado, e conforme o restante das duas grandes famílias entrava na sala, todos diziam frases de mubarak, ou congratulações. — Sete mil vezes mubarak! — gritavam, cada um mais alto que o outro. — Que Deus dê a vocês sete filhos homens! — gritou uma mulher. Em sua alegria, cada uma tentava se fazer ouvir melhor que a outra, todas me desejando felicidades. Embora já fosse uma hora da manhã, bandejas com chá quentíssimo, biscoitos e doces foram servidas aos convidados. Muitos insistiam que era hora de ir embora, pois o noivo e a noiva deviam estar cansados. Como manda o costume, um punhado de parentas minhas, as mais chegadas, passaria a noite ali, dormindo por perto para que eu não ficasse totalmente só numa casa cheia de estranhos. Minha mãe, a irmã dela, Lailuma, e Shakoko, a irmã mais velha de papai, ficaram comigo. Sentada no meu quarto novo para as últimas fotos antes que meus parentes partissem, a saia e a cauda do vestido de noiva arrumadas sobre a cama, eu pensava em como seria quando Nadir e eu ficássemos a sós no quarto. Aproximavase, finalmente, o momento que não me saía da cabeça há mais tempo do que eu conseguia me lembrar.

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