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Nu, de Botas (Cód: 5675444)

Prata, Antonio

Companhia Das Letras

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Descrição

Em 'Nu, de botas', Antonio Prata revisita as passagens mais marcantes de sua infância. As memórias são iluminações sobre os primeiros anos de vida do autor, narradas com a precisão e o humor a que seus milhares de leitores já se habituaram na Folha de S.Paulo, jornal em que Prata escreve semanalmente desde 2010. Aos 36 anos, Prata é o cronista de maior destaque de sua geração e um dos maiores do país. São de sua lavra alguns bordões que já se tornaram populares — como “meio intelectual, meio de esquerda”, título de seu livro anterior e de um seus textos mais célebres —, bem como algumas das passagens mais bem-humoradas da novela global Avenida Brasil, em que atuou como colaborador de João Emanuel Carneiro. Prata também é um dos integrantes da edição Os melhores jovens escritores brasileiros, da revista inglesa Granta. As primeiras lembranças no quintal de casa, os amigos da vila, as férias na praia, o divórcio dos pais, o cometa Halley, Bozo e os desenhos animados da tevê, a primeira paixão, o sexo descoberto nas revistas pornográficas – toda a educação sentimental de um paulistano de classe média nascido nos anos 1970 aparece em Nu, de botas. O que chama a atenção, contudo, é a peculiaridade do olhar. Os textos não são memórias do adulto que olha para trás e revê sua trajetória com nostalgia ou distanciamento. Ao contrário, o autor retrocede ao ponto de vista da criança, que se espanta com o mundo e a ele confere um sentido muito particular – cômico, misterioso, lírico, encantado.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Companhia Das Letras
Cód. Barras 9788535923513
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 9788535923513
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2013
Idioma Português
Número de Páginas 160
Peso 0.19 Kg
Largura 14.00 cm
AutorPrata, Antonio

Leia um trecho

Nu, de botas Gênesis No princípio, era o chão. No piso do quintal, ladrilhado com cacos de cerâmica ver¬melha, via um elefante de três pernas, um navio, um homem de chapéu fumando cachimbo. Na manhã seguinte, as imagens ha¬viam mudado: o homem de chapéu era um bolo mordido; o elefante, parte de um olho enorme — a tromba, um cílio —; o navio zarpara, deixando para trás apenas cacos de cerâmica ver¬melha no piso do quintal. Na sala, com uma tampa de Bic levantava os tacos soltos para espiar o que se escondia embaixo: uma mosca morta, uma unha cortada, um grampo — pequenos achados arqueológicos, estudados com perícia através da lupa. Deitado, a bochecha colada à madeira, sentindo no rosto a brisa fria que sopra ao rés do chão, espiava o vão escuro sob a cristaleira: a poeira formava tufos, matéria-prima da qual, acredi¬tava, era feito o cobertor cinzento do mendigo da esquina. Tinha sua lógica: o homem miserável coberto pela manta de pó. Só não compreendia como a sujeira se transformava em tufo, o tufo em cobertor, e o cobertor ia parar em volta do mendigo. Mais um mistério, entre tantos deste mundo. No princípio, eram as trevas. Sentado no meio-fio, cavoucava com um graveto as fendas entre os paralelepípedos, esperando encontrar petróleo, ossos de dinossauro, tesouros escondidos por piratas, ruínas de extintas ci¬vilizações. Enquanto a sorte não vinha, contentava-me em desen¬terrar tampinhas enferrujadas, cascos de caramujo, fichas telefôni¬cas; divertia-me desalojando minhocas, formigas e tatus-bola. Não respeitava as minhocas: mal saíam da terra, começavam a se debater feito loucas. Bicho aflito, mau exemplo. Não respeitava as formigas: indecisas, iam e vinham; burras, demoravam séculos para entender que bastava contornar a bar¬reira surgida no meio do caminho (meu cuspe) para chegar lá — aonde quer que estivessem indo. Toda reverência aos tatus-bola. Tocava-os de leve para vê-los se fechar em suas esféricas armaduras, depois os rolava para cá e para lá. Um dia, talvez influenciado pela semelhança visual e fonéti¬ca entre bolas e balas, tentei comer um deles. Minha mãe (n)o(s) salvou na última hora, tirando-o da minha boca e devolvendo-o à terra ainda intacto. Não ficou registrado na crônica familiar se alguma vez, longe da supervisão materna, eu e os tatus-b(a)ola chegamos às vias de fato. Morávamos numa vila: primeiro eu, meu pai, minha mãe e minha irmã. Depois meu pai se mudou, minha mãe casou de novo e minha meia-irmã veio viver conosco. Tinha também a Vanda, empregada, que morava num quartinho no fundo do quintal. Eram vinte sobrados geminados, dez de cada lado da rua. No andar de cima, três quartos e um banheiro; no de baixo, sala, sala de jantar, cozinha e lavabo. Lá atrás, o quintal, a área de serviço, o quartinho e o banheiro da Vanda. Na frente, a garagem e um pequeno jardim. Nas vinte casas da vila viviam quinze crianças. O núcleo duro era composto por mim, minha irmã e minha meia-irmã; o Henrique e a Margarida, irmãos; o Rodrigo e a Giulia, irmãos; o Fábio Grande e o Fábio Pequeno — que por um bom tempo acreditei serem irmãos, também. Quando os conheci, pensei: nada pode ser mais lógico, se a família gosta de “Fábio”, que batize logo assim todos os filhos; ao se encontrar um Fábio pela rua, já se sabe de onde é e basta usar “Grande”, “Pequeno” — ou “Médio”, caso houvesse um filho do meio — pra diferenciá-los. Fiquei bastante decepcionado ao descobrir, do alto dos meus três anos, que não só não eram irmãos como sequer tinham qualquer laço de parentesco. Nada me causou mais estranhamento, na infância ou de¬pois, do que visitar as casas dos meus vizinhos — primeiro e definitivo contato com a alteridade. As plantas dos sobrados eram idênticas, mas a ocupação variava: na casa do Henrique, por exemplo, a televisão estava onde deveria ficar a mesa de jantar, a mesa de jantar onde deveria estar o sofá, o quarto dele era onde, lá em casa, ficava o quarto dos meus pais e vice-versa. Sem falar na casa do Rodrigo, onde os pratos eram azuis. Como poderiam não saber que pratos são brancos? Tinha pena dos outros, hereges, vivendo errado. Dentro, nossa casa era toda branca, mas por fora era de uma tonalidade meio marrom, meio rosa. Um dia, perguntei à minha mãe que cor era aquela. “Terracota.” Não gostei. Senti que nosso lar era de alguma forma cons¬purcado por uma cor com terra no nome. Embora não tivesse escolhido a cor nem os móveis, os qua¬dros ou tapetes, a casa era mais minha que de qualquer outra pessoa: só eu via os desenhos no piso do quintal, o que se escon¬dia embaixo dos tacos, os tufos mágicos sob a cristaleira. Ali den¬tro, nenhum mal poderia me atingir. Um dia, brincando no chão da sala com meus carrinhos, ouvi um homem dizer na tv que, no ano 2000, o mundo iria acabar. “Pena”, pensei, sem tirar os olhos dos Matchboxes, “não vou mais poder sair pra rua” — e continuei a tratar dos meus assuntos. Não, não é verdade que a casa era “mais minha que de qualquer outra pessoa”. Havia uma área fora do meu domínio: o quarto da Vanda, território independente, onde eu não tinha o direito de entrar. Vez ou outra, pela porta entreaberta, sentia o cheiro forte de perfume e a via na cama, sob o lusco-fusco da televisão preto e branco, de bobes na cabeça, pintando as unhas dos pés e canta¬rolando a música da novela das seis, numa postura relaxada que não levava para fora dali. Vanda vinha do interior de Minas Gerais e de dentro de um livro de Charles Dickens. Sem dinheiro para criá-la, sua mãe a dera, com sete anos, a uma conhecida. Ao recebê-la, a mulher perguntou o que a garotinha gostava de comer. Anotou tudo num papel. Mal a mãe virou as costas, no entanto, a fulana amassou a lista e, como uma vilã de folhetim, decretou: “A partir de hoje, você não vai mais nem sentir o cheiro dessas comidas!”. Vanda trabalhou lá até os quinze anos, quando recebeu a carta de uma prima com uma nota de cem cruzeiros, saiu de casa com a roupa do corpo e fugiu num ônibus para São Paulo. Todas as vezes que eu ou minhas irmãs a importunávamos com nossas demandas de criança mimada, ela nos contava histó¬rias da infância de Gata Borralheira, fazia-nos apertar seu nariz, quebrado por uma das filhas da “patroa” com um rolo de amassar pão e nos expulsava da cozinha: “Sai pra lá, peste, e me deixa acabar essa janta!”. Minha mãe não gostava que nos referíssemos a Vanda como “empregada”, preferia “a moça que trabalha lá em casa”. Eu es¬tranhava: por que dizer “a moça que trabalha lá em casa”, se a todas as moças que trabalhavam nas casas dos outros, os vizinhos chamavam “empregadas”? * * * Um dia, descobri que minha mãe trabalhava numa revista. Revistas, para mim, eram as da Turma da Mônica, que eu folheava avidamente, desde muito antes de aprender a ler. Minha mãe me explicou que a dela era diferente, uma revista para gente grande, mas que era feita no mesmo prédio que as da Mônica. Animado, imaginei pilhas de Cascão, Cebolinha, Mônica e Magali de graça. Pedi que me trouxesse algumas no dia seguinte. Não dava, ela me explicou. Infelizmente, não era dona da edito¬ra, apenas empregada. Que revelação! Imaginei-a fazendo almoço e café numa enorme cozinha. Vislumbrei seu quarto, no fundo de um quin¬tal. Teria ela, também, uma tv preto e branco? Pintaria as unhas, sentada na cama, de bobes na cabeça, cantarolando músicas da novela? Como seria sua vida, depois que saía de casa na Brasília branca e ia ser “a moça que trabalha lá na editora”? Que empre¬sa incrível devia ser aquela, que se dava ao luxo de ter minha mãe como empregada. Pai e mãe me beijavam, apagavam a luz: o mundo desapare¬cia. Como ter certeza de que voltaria a existir? De que os dois não sumiriam no breu? Que garantia tinha de que não seria levado pelos monstros que, vez ou outra, apareciam nos pesadelos — eu, que ainda não sabia o que eram monstros ou pesadelos? Já havia atravessado outras noites, mas não tantas para sabê¬-las indubitavelmente transponíveis. (A experiência, para mim, ainda estava em fase experimental.) Para cruzar as trevas, preci¬sava de garantias, lembretes de outras viagens. Ouvir uma história conhecida: o mesmo enredo e, apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelo herói, o mesmo desfecho nos esperando, lá no fim. Seu êxito repetido me sugeria a continuidade das coisas. Assim como ele, eu já tinha enfrentado o iminente fim do mundo e depois acordado — tudo haveria de dar certo. Música de ninar: os barulhos, mesma matéria-prima do sus¬to, agora domesticados. Ritmo: fiador da continuidade, um, dois, manhã, noite, três, quatro, noite, manhã. Rima: parentesco entre palavras; balão, mão; ladrilhar, passar; preta, careta. Nada me deixava mais tranquilo, contudo, do que os sons da máquina de escrever vindos do quarto ao lado. Era meu pai, escritor, que trabalhava depois que todos haviam ido dormir. O batuque no teclado, o ronco grave do rolo girando com o papel e a sineta do carro tilintando ao ser devolvido à posição inicial — plim! — me garantiam a presença de um adulto, ali ao lado: se não ao alcance das mãos, ao menos dos ouvidos. O ritmo caótico, mas contínuo — como chuva no telhado —, era ainda melhor do que a música de ninar, cadenciada, pois sugeria que mesmo em meio à confusão poderia haver harmonia. Sob esse cafuné auditivo o mundo desaparecia, sem violência, depois voltava a existir, quando eu menos esperasse, iluminado: plim! Primeira lição do incômodo: o calcanhar raspando na parte de trás do tênis e, pouco a pouco, empurrando a meia para baixo. Eu tentava andar mais devagar, tentava pisar reto, caminhar feito um robô, mas não adiantava: lá ia a meia em sua inexorável jor¬nada rumo à planta do pé. Caso estivesse ocupado demais para tomar as devidas provi¬dências, fugindo num pega-pega, num esconde-esconde ou num duro ou mole, apenas me agachava num canto, enfiava dois de¬dos dentro do tênis e, do jeito que desse — se desse —, puxava a meia um pouco pra cima. Sabia que era uma ação paliativa, que muito em breve ela estaria toda embolada lá na frente e eu seria obrigado a seguir o protocolo: sentar-me num banco, tirar os tê¬nis, as meias, vesti-las e me calçar novamente. Terminada a função, voltava ao pega-pega, ao esconde-es¬conde, ao duro ou mole, gozando por alguns minutos da alegria do dever cumprido, como se tivesse acabado de tomar banho, fazer a lição de casa ou comer um prato de legumes. Dez passos adiante, contudo, mastigada pelo insaciável maxilar do tênis no calcanhar, lá ia a meia descendo outra vez: lá ia eu, pequeno Sísifo, ladeira abaixo, ladeira acima. Primeiras lições do pudor. Eu não queria aquele cabelo cuia, cortado por minha mãe, lá no quintal de casa. Queria um cabelo curto, espetadinho em cima, ou que subisse num leve topete e depois fosse para trás, como o dos heróis nos filmes americanos. Eu não queria aquela sacola de palha na qual carregava meu material escolar e os últimos eflúvios das aspirações hippies dos meus pais. Preferia uma mochila emborrachada, com as da maio¬ria dos meus colegas. Àquela altura, contudo, não percebia que o cabelo e a mo¬chila eram contingências perfeitamente contornáveis, bastaria pedir para cortá-lo ou para trocá-la: eu era com aquele cabelo, eu era com aquela sacola. Eu e minha irmã na banheira. Com a mão esquerda, nossa mãe regulava a torneira quente, com a direita, misturava a água. Meu pai sentou-se na borda, os dois abriram sorrisos e minha mãe disse que tinham uma novidade: a partir da semana que vem ele iria morar numa outra casa. Minha mãe falou que não era para nos preocuparmos, mas eu não estava preocupado, estava curioso: por quê? Meu pai falou que era muito normal, vários pais moravam em casas separadas. O pai do Fábio Grande, por exemplo. O pai da Marina, por exemplo. O pai do Felipe, por exemplo. “Não muda nada”, ela frisou, “e ó que legal: de agora em diante, além dessa casa vocês vão ter outra, com outro quarto, outra cama, tudo igual, igualzi¬nho aqui. Não é bacana?” Fiquei embasbacado: como podia ser tudo igual, igualzi¬nho? Seria uma rua inteira idêntica, com todas as casas dos vizi¬nhos e plantas e paralelepípedos exatamente nos mesmos lugares e os mesmos tatus-bola e tampinhas de garrafa enterradas entre eles? Mas por que haveria de existir essa réplica da nossa vila em outro lugar? Quem seriam as pessoas a habitar essa realidade paralela? Pessoas idênticas a nós ou pessoas diferentes que vive¬riam com as mesmas roupas, entre os mesmos objetos? E se elas já estavam lá, como iríamos aparecer, assim, do nada? Vai saber. O mundo tinha dessas coisas. Na nossa escola estudavam Bianca e Beatriz, as gêmeas. Quem sabe fosse assim mesmo: de tudo, havia dois? Ou talvez meu pai tivesse construído uma cópia da nossa casa, numa rua diferente, porque era daque¬la forma que ele gostava de morar? Fazia sentido. Eu também, se perguntassem como gostaria que fosse minha casa, diria que assim mesmo — mas com um tobogã da janela do meu quarto para uma piscina aquecida no quintal. Não. Ainda que ele tivesse construído a cópia, não podia ser igual, igualzinho. Seria uma casa nova, os tacos soltos estariam colados, a poeira embaixo do móvel não teria tido tempo de se transformar em tufos; e como os pedreiros haveriam disposto os cacos de cerâmica no chão do quintal de modo a formar os de¬senhos, se só eu os conhecia: o homem de chapéu e cachimbo, o elefante de três pernas, o navio? Mesmo sem entender, aceitei. Já havia visto coisas incríveis, durante meus parcos anos de vida: ímãs arrastando pregos, uma fogueira maior do que um carro, meu pai tirando moedas do ouvido, uma mulher de maiô, no circo, sendo serrada em quatro dentro de uma caixa e reaparecendo inteirinha, depois; se tinha algo de que não poderia ser acusado é de ceticismo. Uma casa igual à nossa, afinal, nem era tão estranho assim. Além do mais, por que eles mentiriam pra gente?

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