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O Ano do Pensamento Mágico (Cód: 205435)

Didion, Joan

Nova Fronteira

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Descrição

As frases iniciais de 'O ano do pensamento mágico' dão o tom exato da narrativa densa e contagiante que será compartilhada com o leitor: 'A vida se transforma rapidamente. A vida muda num instante. Você se senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente'. Sem uma gota de autopiedade e com um estilo envolvente e emocionante, Joan Didion, uma das mais aclamadas escritoras e intelectuais americanas, narra o período de um ano que se seguiu à morte de seu marido, o também escritor John Gregory Dunne, e a longa doença de sua única filha. Feito com uma contagiante dose de sinceridade e paixão, 'O ano do pesamento mágico' nos revela uma experiência intensamente pessoal e, ao mesmo tempo, universal. Uma história que falará alto a quem ama ou já amou alguém, com a profundidade que as grandes relações têm, sejam elas entre pais e filhos ou entre companheiros de uma vida. Este é um livro para todos os que já se perguntaram: E agora? O que fazer se a vida parece não ter mais sentido algum? É um livro sobre a superação e sobre a nossa necessidade de atravessar - racionalmente ou não - momentos em que tudo o que conhecíamos e amávamos deixa de existir.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Nova Fronteira
Cód. Barras 9788520918869
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 8520918867
Profundidade 0.00 cm
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 224
Peso 0.44 Kg
Largura 14.00 cm
AutorDidion, Joan

Leia um trecho

A vida se transforma rapidamente. A vida muda num instante. Você se senta para jantar, e aquela vida que você conhecia acaba de repente. A questão da autopiedade. Estas foram as primeiras palavras que escrevi depois do ocorrido. No arquivo guardado em meu computador (“Anotações sobre transformação.doc”) está registrada a data: 20 de maio de 2004 / 23h11. Devo ter aberto o arquivo e automaticamente clicado em salvar quando o fechei. quando o fechei. Não fiz nenhuma alteração naquele arquivo em maio. Não fiz nenhuma alteração naquele arquivo desde que escrevi aquelas palavras em janeiro de 2004, um dia ou dois (ou três) após o acontecimento. Durante muito tempo, não escrevi mais nada. A vida muda num instante. Num instante comum. A uma certa altura, para ressaltar o que me parecia ser a coisa mais impressionante relacionada ao que aconteceu, pensei em adicionar as seguintes palavras: “Num instante comum.” Percebi imediatamente que não haveria necessidade de adicionar a palavra “comum”, porque não haveria como esquecê-la: esta palavra nunca saiu da minha cabeça. Em linhas gerais. Estou escrevendo isso agora, no dia 4 de outubro de 2004, à tarde. Há exatos nove meses e cinco dias, mais ou menos às nove da noite do dia 30 de dezembro de 2003, meu marido John Gregory Dunne pareceu ter sofrido (e sofreu) um mal súbito, um grave acidente coronariano que ocasionou a sua morte, logo depois de nos sentarmos para jantar na mesa da sala do nosso apartamento em Nova York. Nossa única filha, Quintana, havia passado as cinco noites anteriores no CTI do hospital da unidade Singer do Beth Israel, naquela época localizado na East End Avenue (foi fechado em agosto de 2004), mais conhecido como “Beth Israel North”, ou como “o antigo Doctors’ Hospital”. O que parecia ser um caso de gripe, forte o bastante para que ela tivesse que ser levada ao setor de emergência do hospital no dia de Natal de manhã, evoluiu para um quadro de pneumonia e choque séptico. Estas palavras que estou escrevendo são a minha tentativa de extrair algum significado daquele período de tempo que se seguiu, daquelas semanas e meses que acabaram com qualquer idéia fixa que eu já pudesse ter tido sobre doença e morte, sobre probabilidade e sorte (a boa e a má), sobre casamento, filhos e lembranças, sobre sofrimento, sobre as maneiras como as pessoas lidam (ou não lidam) com o fato de que a vida acaba, sobre a imprevisibilidade da saúde, sobre a vida, enfim. Sempre fui escritora. E, como escritora, muito antes de ter meus escritos publicados, eu já havia desenvolvido, desde menina, a sensação de que o significado residia no ritmo das palavras, das frases e dos parágrafos — técnica para manter encobertas por detrás de um acabamento, de um verniz cada vez mais impenetrável, as coisas que eu pensava ou acreditava. O modo como escrevo é o que eu sou, ou o que eu me tornei. No entanto, neste caso em particular, gostaria de poder dispor de uma ilha de edição equipada com um sistema digital, onde, em vez de usar palavras e ritmos, eu apertaria uma tecla que desmontaria toda a seqüência cronológica e apresentaria simultaneamente todas as imagens que a memória me trouxesse, para que então eu pudesse selecionar as tomadas de cena, os modos de expressão radicalmente diferentes e as variantes interpretativas das mesmas falas. Neste caso em particular, necessito de algo mais do que palavras para encontrar um significado. Necessito de alguma coisa que me pareça (ou que eu acredite ser) penetrável, pelo menos para mim. 30 de dezembro de 2003, terça-feira. Tínhamos acabado de visitar Quintana no CTI do sexto andar do hospital Beth Israel North. Chegamos em casa. Ficamos em dúvida sobre jantar fora ou em casa. Eu disse que ia acender a lareira e que a gente podia comer em casa. Acendi a lareira, comecei a preparar o jantar, perguntei ao John se ele queria beber alguma coisa. Servi um uísque e entreguei a meu marido na sala de estar, enquanto ele lia na poltrona perto da lareira, onde costumava se sentar. Ele estava lendo um livro de David Fromkin, O último verão europeu: quem começou a Grande Guerra de 1914. Aprontei o jantar e preparei a mesa na sala de estar, que era, quando estávamos só nós dois em casa, onde podíamos comer olhando para a lareira. Eu cuidava do fogo porque uma lareira era uma coisa importante para a gente. Eu cresci na Califórnia, e foi também onde eu e o John moramos durante vinte e quatro anos. Lá a gente aquecia a casa acendendo a lareira. A gente acendia a lareira mesmo nas noites de verão, por causa da cerração. A lareira queria dizer que estávamos em casa, que a gente estava dentro do círculo de proteção, que estávamos em segurança para passar a noite. Acendi as velas. John me pediu um segundo uísque antes de se sentar para jantar. Eu servi. Sentamo-nos. Minha atenção estava concentrada em misturar a salada. John estava falando e, de repente, parou de falar. Houve um momento, nos segundos ou no minuto antes de ele ter parado de falar, em que tinha me perguntado se eu servira uísque single malt na segunda dose. Eu disse que na segunda dose. Eu disse que não, que tinha usado o mesmo da primeira vez. — Bom — diz ele. — Não sei por quê, mas acho que não se deve misturar os dois. Num outro momento, ele falou sobre a Primeira Guerra Mundial, um acontecimento crucial que tinha desencadeado todo o restante do século XX. Não tenho idéia sobre que assunto a gente estava falando, se era sobre o uísque ou a Primeira Guerra, no instante em que ele parou de falar. Só me lembro de ter olhado para ele. Com a mão esquerda levantada, ele estava imóvel, curvado sobre si mesmo. A princípio, pensei que estava fazendo alguma espécie de brincadeira, uma tentativa de fazer a dificuldade do dia parecer mais assimilável. Lembro-me de ter dito: “Não faz isso!” Quando ele não teve nenhuma reação, meu primeiro pensamento foi o de que ele tinha começado a comer e tinha se engasgado. Lembro-me de ter tentado afastá-lo do encosto da poltrona para poder aplicar a técnica Heimlich. Lembro-me da sensação do peso do seu corpo quando ele caiu para a frente, primeiro em cima da mesa e depois no chão. Perto do telefone da cozinha eu tinha colado um cartão com os telefones de emergência do New York-Presbyterian Hospital. Eu não havia previsto nenhum momento como esse quando fixei os números dos telefones ali. Tinha feito isso para o caso de alguém do prédio precisar de uma ambulância. Alguém mais, outra pessoa. Liguei para um dos números. O atendente perguntou se ele estava respirando. Eu disse: “Por favor, venham logo.” “Abri a porta, vi aquele homem com a roupa verde e entendi tudo. Percebi imediatamente.” Foi isso o que a mãe de um rapaz de dezenove anos, morto por uma bomba em Kirkuk, disse num documentário da HBO, citado por Bob Herbert no New York Times em 12 de novembro de 2004. “Mas eu achei em 12 de novembro de 2004. “Mas eu achei que, se não deixasse ele entrar, ele não ia ter como me dizer nada. E então, aquilo... nada daquilo teria acontecido. E ele continuava dizendo: ‘Minha senhora, eu tenho que entrar aí.’ E eu continuava dizendo a ele: ‘Me desculpe, mas você não vai entrar, não.’” Quando li isso, tomando café, quase onze meses depois da noite com a ambulância e o assistente social, eu reconheci aquele pensamento como sendo meu. No setor de emergência, pude ver a maca sendo empurrada por mais gente de uniforme verde para dentro de um compartimento. Alguém me disse para esperar na recepção. Foi o que eu fiz. Havia uma fila para preencher os documentos para a internação. Esperar na fila parecia ser a coisa mais construtiva a se fazer. Esperar na fila queria dizer que ainda havia tempo de lidar com a situação. Eu tinha as cópias do seguro-saúde na minha bolsa, mas aquele era um hospital no qual eu nunca tinha estado. O New York Hospital era a parte Cornell do New York-Presbyterian, e a parte que eu conhecia era a parte Columbia-Presbyterian, na rua 168 com a Broadway, e levava vinte minutos no mínimo para chegar até lá, longe demais para este tipo de emergência. Mas eu achava que mesmo assim seria capaz de fazer a coisa funcionar neste hospital com o qual eu não estava familiarizada. Eu poderia ser útil, poderia arranjar a transferência para o Columbia-Presbyterian, assim que a situação de meu marido se estabilizasse. Procurei me fixar nos detalhes desta transferência iminente para o Columbia. Ele iria precisar de um leito com telemetria, e depois eu também poderia transferir Quintana para o Columbia. Na noite em que ela deu entrada no Beth Israel North eu havia escrito num cartão os números dos bips de vários médicos do Columbia, e algum deles poderia fazer a coisa funcionar direito. O assistente social apareceu e me conduziu até uma sala vazia, fora da área da recepção. — A senhora pode esperar aqui — disse ele. Esperei. A sala estava fria ou eu é que estava com frio. Fiquei imaginando quanto tempo tinha se passado entre a hora em que eu chamei a ambulância e a chegada dos enfermeiros. Parecia que não tinha passado tempo nenhum (um cisco no olho de Deus, foi a frase que me veio naquela sala), mas devem ter se passado, no mínimo, vários minutos. — Ele morreu, não é? — eu me ouvi dizendo ao médico. O médico olhou para o assistente social. — Tudo bem — disse o assistente social. — Ela é uma cliente bastante equilibrada. Eles me levaram para o compartimento com cortinado onde John estava. Eles me perguntaram se eu gostaria da presença de um padre. Eu disse que sim. Apareceu o padre e disse as palavras de praxe. Agradeci. Eles me entregaram o prendedor de prata no qual John guardava a carteira de motorista e os cartões de crédito. Entregaram-me o dinheiro que estava no seu bolso, o relógio e o celular. Entregaram-me um saco plástico no qual eles disseram que estavam as roupas dele. Agradeci. O assistente social perguntou se havia mais alguma coisa que pudesse fazer por mim. Eu disse que ele podia me arranjar um táxi, o que ele fez. Agradeci. — A senhora tem dinheiro para pagar a corrida? A cliente bem equilibrada disse que sim. Quando entrei no apartamento e vi o casaco e o cachecol do John na cadeira onde ele os tinha posto, quando voltamos da visita que fizemos a Quintana no Beth Israel North (o cachecol vermelho de cashmere e o casaco de e o casaco de nylon que tinha sido da que tinha sido da equipe do filme Íntimo e pessoal), me perguntei o que é que uma cliente desequilibrada poderia fazer. Cair em prantos? Necessitar de sedação? Gritar? Lembro-me de ter pensado que eu precisava conversar com John sobre aquilo. Eu conversava com John sobre tudo o que acontecia. No saco plástico que me deram no hospital havia uma calça de veludo cotelê, uma camisa de lã, um cinto, e acho que nada mais. As pernas da calça de veludo tinham sido cortadas, imagino que pelos enfermeiros. Havia sangue na camisa. O cinto estava enrolado. Lembro-me de ter posto o celular de John no carregador, em cima da escrivaninha. Lembro-me de ter posto o prendedor de prata na caixa onde ele guardava os passaportes, as certidões de nascimento e os comprovantes de ter sido membro do júri num julgamento. Examino o prendedor e vejo quais eram os cartões que ele estava carregando: a carteira de motorista do estado de Nova York, com validade até 25 de maio de 2004; um cartão do Chase; um cartão American Express; um MasterCard Wells Fargo; um cartão do Metropolitan Museum; uma carteira da Writers Guild of America West (estávamos na temporada que precede a votação para o Oscar, e ele podia usar o cartão para ver filmes de graça; ele deve ter ido ver algum filme, não me lembro); um cartão do plano de saúde Medicare; um cartão do metrô; e um cartão da Medtronic com os dizeres “Sou portador de um marca-passo Kappa 900 SR”, onde constava também o número de série do aparelho, o número do telefone do médico que o colocou e a observação “Data do implante: 3 de junho de 2003”. Lembro-me de ter juntado o dinheiro que estava no bolso dele com o que estava na minha bolsa, de ter arrumado e alisado as notas, tomando especial cuidado de colocar as notas de vinte todas juntas, depois as de dez, as de cinco e as de um dólar. Enquanto fazia isso, lembro-me de ter pensado que, assim, ele veria que eu estava conseguindo administrar a situação. Uma semana ou duas antes de morrer, quando estávamos jantando num restaurante, John pediu que eu escrevesse alguma coisa para ele no meu caderno de anotações. Ele sempre tinha com ele uns cartões com seu nome impresso, onde podia anotar coisas, e que podiam ser facilmente guardados em qualquer bolso interno. Durante o jantar, ele tinha pensado em algo de que queria se lembrar depois, mas quando foi olhar nos bolsos, não encontrou nenhum cartão. Preciso que você anote uma coisa pra mim, ele disse. Disse que era para o livro dele e não para o meu, um fato que ele ressaltou porque, naquela época, eu estava fazendo uma pesquisa sobre esportes para um dos meus livros. Foi esta a anotação que ele me ditou: “Antigamente, os treinadores costumavam dizer, depois do jogo: ‘Você jogou muito bem.’ Agora, eles saem com a polícia estadual, como se fosse uma guerra e eles fossem os militares. A militarização dos esportes.” Quando dei a ele a anotação no dia seguinte, ele me disse: “Você pode usar, se quiser.” O que é que ele quis dizer com isso? Será que ele sabia que não iria escrever aquele livro? Será que estava apreensivo, será que havia alguma sombra pairando sobre ele? Por que é que, no jantar daquela noite, ele tinha esquecido de trazer os cartões? Ele já não havia me avisado, quando esqueci uma vez de trazer meu caderno de notas, que a possibilidade de anotar, quando alguma coisa vinha na cabeça, fazia a diferença entre ser capaz de escrever e não ser capaz de escrever? Será que alguma coisa lhe estava dizendo naquela noite que o tempo de ser capaz de escrever estava se acabando para ele? Philippe Ariès, em O homem perante a morte, aponta que a característica essencial da morte, como ela se configura na Chanson de Roland, é que a morte, mesmo quando súbita ou acidental, “dá sinais e avisos de sua chegada”. Perguntam a Gawain: “Ah, meu bom senhor, pensas então que logo vais morrer?” Ao que Gawain responde: “Digo-te que não viverei dois dias.” Ariès observa: “Ninguém sabia tanto sobre a morte dele quanto ele próprio. Nem os médicos, nem os amigos, nem os padres (estes últimos, bastante ausentes e esquecidos). Só o homem que vai morrer é que sabe quanto tempo lhe resta.” Você se senta para jantar. jantar — Você pode usar isso, se você quiser — disse John quando entreguei a anotação que ele havia me ditado, uma ou duas semanas antes. E então... ele se foi. Até o dia seguinte de manhã quando, semi-acordada, fiquei matutando por que eu estava sozinha na cama. Havia uma sensação de peso. Era a mesma sensação de peso com a qual acordava depois que John e eu brigávamos. Nós tínhamos brigado? Por quê? Como é que a discussão começou? E como é que a gente pode resolver essa situação se a gente não consegue se lembrar de como a briga começou? A então, eu me lembrei. Durante várias semanas, aquele foi o modo como eu acordava para enfrentar o dia. Acordo e sinto o cair da noite, e não o romper do dia. Percebo agora que a minha insistência em passar aquela primeira noite sozinha acabou sendo mais complicada do que eu imaginava, mas tratava-se de um instinto primitivo. É claro que eu sabia que John tinha morrido. É claro que eu já havia transmitido a notícia para o irmão dele, para o meu irmão e para o marido de Quintana. O New York Times sabia. sabia. O Los Angeles Times sabia. Entretanto, eu mesma não estava sabia. Entretanto, eu mesma não estava de modo nenhum preparada para aceitar esta notícia como definitiva. Em algum nível, eu acreditava que o que tinha ocorrido continuava podendo ser revertido. Era por isso que eu precisava ficar só. Depois daquela primeira noite, não fiquei sozinha durante várias semanas. Jim e Gloria vieram de avião no dia seguinte, Nick estava em Nova York, Tony e Rosemary vieram de Connecticut, José não foi para Las Vegas, e a nossa secretária, Sharon, retornou da estação de esqui. Haveria sempre gente em casa, mas eu precisava que aquela primeira noite fosse solitária. Eu precisava estar só para que ele pudesse voltar. Esse foi o início do meu ano do pensamento mágico.

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