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O Caçador de Pipas (Cód: 184756)

Hosseini,Khaled

Nova Fronteira

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Descrição

Este é um romance emocionante, envolvente, que nos cativa logo nas primeiras páginas. Livro de estréia de Khaled Hosseini, 'O Caçador de Pipas' é uma narrativa insólita e eloqüente sobre a frágil relação entre pais e filhos, entre os seres humanos e seus deuses, entre os homens e sua pátria. Uma história de amizade e traição, que nos leva dos últimos dias da monarquia do Afeganistão às atrocidades de hoje. Amir e Hassan cresceram juntos, exatamente como seus pais. Apesar de serem de etnias, sociedades e religiões diferentes, Amir e Hassan tiveram uma infância em comum, com brincadeiras, filmes e personagens. O laço que os une é muito forte: mamaram do mesmo leite, e apenas depois de muitos anos Amir pôde sentir o poder dessa relação. Amir nunca foi o mais bravo ou nobre, ao contrário de Hassan, conhecido por sua coragem e dignidade. Hassan, que não sabia ler nem escrever, era muitas vezes o mais sábio, com uma aguda percepção dos acontecimentos e dos sentimentos das pessoas. E foi esse mesmo Hassan que decidiu que Amir seria, durante a batalha da pipa azul, uma pipa que mudaria o destino de todos. No inverno de 1975, Hassan deu a Amir a chance de ser um grande homem, de alterar sua trajetória e se livrar daquele enjôo que sempre o acompanhava, a náusea que denunciava sua covardia. Muito depois de desperdiçada a última chance, Hassan, a calça de veludo cotelê marrom e a pipa azul o fizeram voltar ao Afeganistão, não mais àquele que ele abandonara há vinte anos, mas ao Afeganistão oprimido e destruído pelo regime Talibã. Amir precisava se redimir daquele que foi o maior engano de sua vida, daquel dia em que o inverno foi mais cruel.
Este romance já vendeu mais de 2 milhões de exemplares, só nos EUA, está há um ano nas mais importantes listas de mais vendidos do mercado americano e da Europa e já é considerado o maior sucesso da literatura mundial dos últimos tempos.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Nova Fronteira
Cód. Barras 9788520917671
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 8520917674
Profundidade 1.80 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2005
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 365
Peso 0.52 Kg
Largura 16.00 cm
AutorHosseini,Khaled

Leia um trecho

CAPÍTULOS DO LIVRO UM Dezembro de 2001 Eu me tornei o que sou hoje aos doze anos, em um dia nublado e gélido do inverno de 1975. Lembro do momento exato em que isso aconteceu, quando estava agachado por detrás de uma parede de barro parcialmente desmoronada, espiando o beco que ficava perto do riacho congelado. Foi há muito tempo, mas descobri que não é verdade o que dizem a respeito do passado, essa história de que podemos enterrá-lo. Porque, de um jeito ou de outro, ele sempre consegue escapar. Olhando para trás, agora, percebo que passei os últimos vinte e seis anos da minha vida espiando aquele beco deserto. Um dia, no verão passado, meu amigo Rahim Khan me ligou do Paquistão. Pediu que eu fosse vê-lo. Parado ali na cozinha, com o fone no ouvido, sabia muito bem que não era só Rahim Khan que estava do outro lado daquela linha. Era o meu passado de pecados não expiados. Depois que desliguei, fui passear pelo lago Spreckels, na orla norte do parque da Golden Gate. O sol do início da tarde cintilava na água onde navegavam dezenas de barquinhos em miniatura, impulsionados por um ventinho ligeiro. Olhei então para cima e vi um par de pipas vermelhas planando no ar, com rabiolas compridas e azuis. Dançavam lá no alto, bem acima das árvores da ponta oeste do parque, sobre os moinhos, voando lado a lado como um par de olhos fitando San Francisco, a cidade que eu agora chamava de lar. E, de repente, a voz de Hassan sussurrou nos meus ouvidos: "Por você, faria isso mil vezes!" Hassan, o menino de lábio leporino que corria atrás das pipas como ninguém. Sentei em um banco do parque, perto de um salgueiro. Pensei em uma coisa que Rahim Khan disse um pouco antes de desligar, quase como algo que lhe houvesse ocorrido no último minuto. "Há um jeito de ser bom de novo". Ergui os olhos para as pipas gêmeas. Pensei em Hassan. Pensei em baba. Em Ali. Em Cabul. Pensei na vida que eu levava até aquele inverno de 1975 chegou para mudar tudo. E fez de mim o que sou hoje. DOIS Quando éramos crianças, Hassan e eu trepávamos nos choupos da entrada da casa de meu pai e ficávamos chateando os vizinhos, usando um caco de espelho para mandar reflexos de sol para as suas casas. Sentávamos um defronte do outro, nos galhos mais altos, com os pés descalços pendurados no ar e os bolsos das calças cheios de amoras e nozes secas. Ficávamos nos alternando com o espelho enquanto comíamos amoras, jogando os frutos um no outro, entre risinhos e gargalhadas. Assim posso ver Hassan encarapitado naquela árvore, com o reflexo do sol faiscando entre as folhas no seu rosto quase perfeitamente redondo, um rosto de boneca chinesa talhado em madeira de lei: o nariz grande e chato, os olhos puxados e oblíquos como folhas de bambu, uns olhos que, dependendo da luz, pareciam dourados, verdes e até cor de safira. Ainda posso ver as suas orelhas miúdas, dobradas feito conchas, e a protuberância do queixo, uma apêndice de carne que parecia ter sido acrescentado como simples lembrança de última hora. E o lábio fendido, bem naquela linha do meio, em um ponto em que a ferramenta escorregou, ou, quem sabe, foi apenas porque o artesão das bonecas chinesas já estava cansado e se descuidou. Às vezes, lá no alto daquelas árvores, dizia para Hassan pegar o estilingue e atirar nozes no pastor alemão caolho do vizinho. Ele não queria, mas, se eu pedisse, pedisse de verdade, ele não me diria não. Hassan nunca me negava nada. E era fera com a atiradeira. Seu pai, Ali, sempre nos apanhava e ficava furioso, ou tão furioso quanto possível, no caso de alguém gentil como Ali. Com o dedo em riste, mandava que descêssemos da árvore. Pegava o espelho e repetia o que sua mãe lhe dizia: que o diabo também faz os espelhos reluzirem, e faz isso para distrair os muçulmanos durante as orações. - E ri, depois que já conseguiu o que queria - acrescentada ele invariavelmente, olhando para o filho com ar severo. - Está bem, pai - murmurava Hassan, fitando os próprios pés. Mas ele nunca me entregava, nunca disse que tanto o espelho quanto as nozes atiradas no cachorro do vizinho tinham sido idéia minha. Os choupos margeavam o caminho de tijolos vermelhos que levava a um portão de duas folhas, todo feito de ferro fundido. Por seu turno, este se abria para a rua que dava acesso à propriedade de meu pai. A casa ficava à esquerda, e tinha um quintal nos fundos. Todos eram unânimes em dizer que meu pai, o meu baba, tinha construído a casa mais bonita do distrito de Wazir Akbar Khan, um bairro novo e rico ao norte de Cabul. Havia até quem dissesse que era a casa mais de toda a cidade. Uma ampla alameda ladeada por roseiras conduzia à casa espaçosa, com piso de mármore e janelas enormes. Intrincados mosaicos de ladrilhos, que baba escolheu a dedos em Isfahan, recobriam o chão dos quatro banheiros. Tapeçarias com fios dourados, que baba comprou em Calcutá, revestiam as paredes. E um lustre de cristal pendia do teto abobadado. Meu quarto ficava no anda de cima, junto com o de meu pai e o seu escritório, também conhecido como "sala de fumar", eternamente cheirando a tabaco e a canela. Era lê que baba e seus amigos se reclinavam nas poltronas de couro preto depois que Ali tinha acabado de servir o jantar. Todos enchiam os cachimbos - só que meu pai sempre dizia "engordar o cachimbo" - e conversavam sobre os seus três assuntos favoritos: política, negócios, futebol. Às vezes eu perguntava se podia ir sentar lá junto com eles, mas baba ficava parado na porta. - Agora, vá - dizia ele. - Isso é coisa de gente grande. Por que não vai ler um daqueles seus livro? - Fechava a porta e me deixava imaginando por que, com ele, tudo era coisa de gente grande. Sentava junto a porta, abraçando os joelhos contra o peito. Algumas vezes ficava sentado alo uma hora, outras vezes, duas, ouvindo as conversas e risos deles. A sala de estar, no andar térreo, tinha uma parede em arco, com estantes feitas sob medida. Nelas ficavam os porta-retratos com as fotos da família: uma foto antiga e desbotada do meu avô com o rei Nadir Shah, tirada em 1931, dois anos antes do assassinato do rei; estavam parados junto de um veado morto, ambos usando botas de cano alto e com rifles pendurados nos ombros. Tinha uma foto da festa do casamento de meus pais: baba todo elegante em seu terno preto e minha mãe, um princesinha sorridente, vestida de branco. Ao lado, baba e seu sócio e melhor amigo, Rahim Khan, parados diante de nossa casa. Nenhum dos dois está sorrindo. Nessa foto, sou um bebê, no colo de meu pai, que tem um ar sério e cansado. Estou em seus braços, mas é o mindinho de Rahim Khan que os meus dedos estão segurando. Essa parede em arco dava para a sala de jantar em cujo centro havia uma mesa de mogno com espaço de sobra para trinta convidados - e, considerando-o o gosto de meu pai por festas extravagantes, era exatamente isso que acontecia quase toda semana. Na outra ponta da sala, ficava uma grande lareira de mármore, sempre iluminada pelo brilho alaranjado do fogo durante todo o inverno. Uma grande porta de correr, envidraçada, se abria para uma varanda em semicírculo que dava para os oito metros quadrados de terreno e as aléias de cerejeiras. Baba e Ali tinham feito uma horta perto do muro que ficava do lado leste: plantaram tomates, hortelã, pimenta e uma fileira de milho que nunca pegou de verdade. Hassan e eu chamávamos aquele canto de "muro do milho doente". Na parte sul do jardim, à sombra de um pé de nêspera, ficava a casa dos empregados, numa casinha modesta onde Hassan morava com o pai. Foi ali, naquele pequeno casebre, que Hassan nasceu no inverno de 1964, um ano depois que minha mãe morreu durante o meu parto. Nos dezoito anos que vivi em Cabul, sé entrei na casa de Ali e Hassan umas poucas vezes, quando o sol começava a pôr atrás das colinas, e tínhamos acabado de brincar, nos separávamos. Eu passava pelas roseiras a caminho da mansão de baba, Hassan is para a casinha de pau-a-pique onde nasceu e morou por toda vida. Lembro que ela era minúscula, limpa e fracamente iluminada por dois ou três lampiões de querosene. Havia dois colchões, em lados opostos da sala, um velho tapete Herati, com uns rasgões no meio, um tamborete de três pernas e, em um canto, uma mesa de madeira onde Hassan fazia os seus desenhos. As paredes eram nuas, exceto por única tapeçaria bordada com contas que formavam a palavra Allah-u-akbar. Um presente que baba trouxe para Ali de uma de suas viagens a Mashad. Foi nesse casebre que Sanaubar deu à luz a Hassan, em um dia frio do inverno de 1964. Enquanto minha mãe morreu de hemorragia durante o parto, Hassan perdeu a sua menos de uma semana depois de nascer. E para um destino que a maioria dos afegãos considera pior que a morte: ela fugiu com uma trupe de cantores e dançarinos ambulantes. Hassan nunca falou da mãe, como se ela jamais tivesse existido. Sempre me perguntei se sonharia com ela, se tentaria saber que aparência tinha, por onde andaria. Ficava imaginando se gostaria de conhece-la. Teria saudade dela, como eu tinha da mãe que não conheci? Certo dia, quando estávamos indo da casa de meu pai ao cinema Zainab para ver um novo filme iraniano, cortamos caminho pelo acampamento militar perto da escola secundária Istiqlal. Baba tinha nos proibido de passar por aquele local, mas, nessa época, ele estava no Paquistão com Rahim Khan. Pulamos a cerca que rodeava o acampamento, saltamos um pequeno regato e chegamos ao terreno enlameado onde velhos tanques abandonados ficavam acumulando poeira. À sombra de um desses tanques, havia um grupo de soldados fumando e jogando cartas. Um deles nos viu, fez sinal ao companheiro que estava ao seu lado e chamou por Hassan. - Ei! - exclamou ele. - Conheço você. Nunca tínhamos visto aquele sujeito antes. Era um homem atarracado, de cabeça raspada e barba por fazer. O seu jeito de nos olhar e o sorriso que deu me apavoraram. - Continue andando - murmurei para Hassan. - Ei, hazara! Olhe para mim. Estou falando com você! - berrou o soldado. Entregou o cigarro ao sujeito que estava ao seu lado, e fez um círculo com o polegar e o indicador de uma das mãos. Depois, meteu o dedo médio da outra mão naquele círculo. E ficou enfiando e tirando o dedo. Enfiando e tirando. - Sabia que conheci sua mãe? Conheci muito bem. Peguei ela por trás, perto daquele riacho logo ali. Os outros soldados riram. Um deles fez um barulho que parecia um guincho. Eu disse a Hassan para continuar andando, continuar andando. - Que bocetinha gostosa que ela tinha! - disse o soldado, apertando as mãos dos outros rindo. Mais tarde, no escuro, depois que o filme já tinha começado, ouvi Hassan fungando ao meu lado. As lágrimas lhe escorriam pelo rosto. Cheguei mais perto, passei o braço por suas costas e o puxei para mim. Ele encostou a cabeça no meu ombro. - Aquele cara confundiu você com outra pessoa - sussurrei. - Confundiu, sim. Pelo que me disseram, ninguém se surpreendeu realmente quando Sanaubar fugiu. Na verdade, o que deixou todo mundo espantadíssimo foi quando Ali, um homem que sabia o Corão de cor, se casou com Sanaubar, uma mulher dezenove anos mais jovens, linda, mas sabidamente sem escrúpulos, que vivia de sua reputação nada honrosa. Como Ali, ela era uma muçulmana shi'a, natural que fosse escolhida para ser sua esposa. Mas fora isso, Ali e Sanaubar tinham pouco em comum, principalmente em termos de aparência. Enquanto os olhos verdes brilhantes e o rosto malicioso de Sanaubar haviam, segundo consta, atraído inúmeros homens para o pecado, Ali tinha uma paralisia congênita dos músculos faciais inferiores,o que o tornava incapaz de sorrir e lhe dava um ar constantemente carrancudo. Era muito estranho ver Ali feliz, pois, no seu rosto enrijecido, apenas os olhos castanhos e oblíquos brilhavam com um sorriso ou se umedeciam com tristeza. Dizem que os olhos são as janelas da alma. Isso nunca foi tão verdadeiro como no caso de Ali, que só podia se revelar através deles. Ouvir dizer que o andar sugestivo e o rebolado de Sanaubar faziam os homens sonharem com infidelidade. Mas a pólio deixou Ali com a perna direita atrofiada e torta, pura pele colada nos ossos, com apenas uma camada de músculos fina que nem papel. Lembro um dia, quando eu tinha oito anos, e Ali estava me levando ao bazaar para comprar naan. Eu ia caminhando atrás dele, cantarolando e tentando imitar o seu andar. Vi que balançava a perna descarnada, fazendo um movimento circular; vi que todo o seu corpo despencava para a direita cada vez que ele punha esse pé no chão. Parecia um verdadeiro milagre ele não cair a cada passo que dava. Quando tentei fazer a mesma coisa, quase me estatelei na sarjeta. E comecei a rir. Ali se virou e me pegou imitando o seu andar. Não disse nada. Nem na hora, nem nunca. Apenas continuou andando. A cara de Ali e o seu jeito de andar assustavam algumas crianças menores da vizinhança. Mas o maior problema era mesmo com os meninos mais velhos. Corriam atrás dele na rua e debochavam quando passava cambaleando. Alguns deram para chamá-lo de Babalu, ou Bicho-Papão. - EI, Babalu, quem você comeu hoje? - gritavam eles em meio a um coro de risadas. - Quem você comeu seu Babalu de nariz achatado? Falavam do nariz achatado porque tanto Ali quanto Hassan tinham os traços mongolóides característicos dos hazaras. Durante anos, isso foi tudo o que soube a respeito desse povo: que descendiam dos mongóis e eram parecidos com os chineses. Os livros didáticos raramente os mencionavam e só se referiam às suas origens de passagem. Até que um dia, quando estava bisbilhotando as coisas de baba no seu escritório, encontrei um dos velhos livros de história de minha mãe. O autor era um iraniano chamado Khorami. Soprei a poeira que o cobria, levei-o comigo para a cama naquela noite e fiquei espantadíssimo ao ver um capítulo inteiro sobre a história dos hazaras. Um capítulo inteiro dedicado ao povo de Hassan! Foi aí que fiquei sabendo que meu povo, os pashtuns, tinha perseguido e oprimidos os hazaras. Li que estes tentaram se rebelar contra os pashtuns no século XIX, mas formam "dominados pela violência indescritível". O livro dizia ainda que meu povo matou os hazaras, expulsou-os de suas terras, queimou as suas casas e vendeu as mulheres como escravas. Dizia também que essa opressão de um povo pelo outro se deu em parte ao fato de os pashtuns serem muçulmanos sunni, ao passo que os hazaras são shi'a. O livro falava de muitas coisas que eu não sabia de coisas que os professores não mencionavam, coisas que baba também não mencionava. Por outro lado, falava das coisas que eu sabia, como, por exemplo, que as pessoas chamavas hazaras de "comedores de camundongos", "nariz achatado", "burros de carga". Já tinha ouvido alguns meninos da vizinhança gritarem essas palavras para Hassan. Na semana seguinte, depois da aula, mostrei o tal livro ao meu professor e indiquei o capítulo sobre os hazaras. Ele passou os olhos por algumas páginas, deu uma risadinha e me devolveu o livro. - É só isso que essa gente shi'a sabe fazer bem - comentou, juntando aos seus papéis -, posar de mártires. - Franziu o nariz quando pronunciou a palavra shi'a, como se estivesse se referindo a uma espécie de doença; Mas, apesar de ter a mesma herança étnica e o mesmo sangue de família, Sanaubar fazia coro com as crianças da vizinhança que debochavam de Ali. Ouvi dizer que não escondia de ninguém o desprezo que sentia pela aparência dele. - Isso lá é homem que se apresente? - zombava. - Já vi burros velhos que dariam maridos bem melhores. Afinal de contas, quase todos desconfiavam que o casamento tinha sido uma espécie de arranjo entre Ali e o seu tio, pai de Sanaubar. Dizia-se que Ali tinha se casado com a prima para ajudar a salvar a honra do nome já manchado do tio, muito embora Ali, órfão desde os cinco anos, não tivesse nenhum bem ou herança especial. Ele nunca tentou se vingar de nenhum dos seus algozes. Em parte, suponho eu, porque jamais conseguiria alcança-los arrastando atrás de si aquela perna torta. Mas principalmente porque era imune aos insultos de seus agressores; tinha encontrado a alegria, o antídoto para qualquer sofrimento no momento em que Sanaubar deu à luz Hassan. Foi tudo muito simples. Sem obstetras, sem anestesias, sem aqueles extravagantes aparelhos de monitoramento. Apenas Sanaubar, deitada em um colchão manchado sem lençóis, tendo Ali e a parteira para ajudá-la. E não precisou de muita ajuda, pois, já ao nascer, Hassan foi fiel à sua natureza: era incapaz de machucar quem quer que fosse. Uns poucos grunhidos, um ou dois empurrões, e Hassan saiu. Saiu sorrindo. Segundo confidenciou a parteira tagarela ao criado do vizinho, que, por sua vez, se encarregou de espalhar para quem quisesse ouvir, Sanaubar teria dado uma olhada ao bebê que Ali segurava no colo e, ao ver o lábio fendido, teria exclamado um risinho amargo: - Pronto - teria dito ela. - Agora você tem esse seu filho idiota para ficar sorrindo para você! - Não quis nem mesmo segurar Hassan e, cinco dias depois, foi-se embora. Baba encontrou a mesma ama-de-leite que tinha me amamentado para cuidar de Hassan. Ali nos disse que ela era uma Hazara de olhos azuis, natural de Bamiyan, a cidade das estátuas dos Budas gigantes. - Que voz doce e melodiosa tinha... - era o que costumava nos dizer. Hassan e eu sempre perguntávamos o que ela cantava, embora já estivéssemos cansados de saber: ela nos contou essa história milhares de vezes. Só queríamos ouvir Ali cantando. Ele pigarreava e começava: De pé, no topo da mais alta das montanhas, Chamei por Ali, o Leão de Deus Ó Ali, Leão de Deus, Rei dos Homens. Traze alegria para os nossos corações Que tanto sofrem. Depois repetia que as pessoas que mamavam no mesmo peito eram como irmãs, ligadas por espécie de parentesco que nem mesmo o tempo poderia desfazer. Hassan e eu mamamos no mesmo peito. Demos os nossos primeiros passos na mesma grama do mesmo quintal. E, sob o mesmo teto, dissemos nossas primeiras palavras. A minha foi baba. A dele, Amir. O meu nome. Olhando para trás, agora, fico pensando que os alicerces do eu aconteceu no inverno de 1975 - e de tudo o que veio depois - já estavam contidos nessas primeiras palavras.

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