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O Caminho de Jeremias (Cód: 162990)

Guedes, Marson

Mundo Cristão

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Descrição

Jeremias, um profeta chamado desde o ventre de sua mãe, experimentou profundos conflitos pessoais, mas isso nunca o afastou de Deus. O relacionamento de Jeremias com o Senhor revela quanto Deus se importa conosco, mesmo quando nada parece mudar. Ao traçar um paralelo dos momentos de angústia, de revolta e de sofrimento que Jeremias experimentou e os que ele mesmo vivenciou, Marson Guedes traz um realismo incomum aos momentos críticos de nossa existência, apresentando um Deus que não apenas se compadece de nosso sofrimento, mas que apresenta a sua condição de sofredor, ao contemplar os inúmeros desatinos que seus filhos teimam em cometer.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Mundo Cristão
Cód. Barras 9788573253757
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 8573253754
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2004
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 172
Peso 0.22 Kg
Largura 14.00 cm
AutorGuedes, Marson

Leia um trecho

Apresentação CONHECI O MARSON GUEDES quando éramos ainda meninos. Tínhamos pouco mais de vinte anos e nos achávamos sabidos. Desde então acompanho sua peregrinação cristã, seu progresso acadêmico e sua dedicação ministerial. Fui agraciado com o convite para oficiar a cerimônia de seu casamento com Edlâine, e tenho a alegria de ser contado entre os seus pastores. Hoje, já não somos tão meninos e muito menos nos consideramos tão sabidos. Compartilhamos o ministério em uma igreja local e descemos aos porões do sofrimento de muitas pessoas, o suficiente para reconhecer nossa ignorância e limitação face aos mistérios e complexidade da alma humana. Estas seriam razões suficientes para que eu recomendasse seu livro O caminho de Jeremias. Mas tenho outras, que inclusive julgo ainda mais relevantes. Carecemos de cristãos sérios que sejam apaixonados pelo saber e tenham coragem de pensar, questionar, buscar os fundamentos da fé e trilhar os fascinantes labirintos do labor apologético. Marson é um deles. Carecemos de cristãos que se dediquem a construir pontes entre a ciência e a religião, a academia e a revelação, e sejam aptos ao diálogo interdisciplinar, parafraseando Barth, com a Bíblia em uma das mãos e o saber humano na outra. Marson é um deles. Os fundamentos para a relação entre os cristãos e a ciência não é a filosofia grega, mas os profetas judeus [daí a relevância de uma reflexão em Jeremias, o “profeta chorão”), e a última palavra a respeito da alma humana não pertence a Freud, Jung ou Lacan, mas à Bíblia. Carecemos, portanto, de cristãos capacitados a repensar e re-significar os mestres da psicologia, da psicanálise e das múltiplas psicoterapias à luz da revelação e da teologia cristãs. Marson é um deles. Finalmente, carecemos de cristãos que coloquem o labor científico-teológico-acadêmico a favor da cura da alma. Marson é um deles. Ao parabenizar o Marson por esta sua primeira obra publicada, e recomendar a leitura deste texto, expresso minha oração para que o leitor seja estimulado em sua reflexão, tocado em sua alma, e subsidiado para seu trabalho pastoral. Ed René Kivitz Inverno de 2004 Prefácio TODO SER HUMANO SOFRE. É parte da condição humana. Porém, quem sabe o que fazer em relação ao sofrimento? Deus sabe! Entretanto, muitas vezes, parece que para Deus a questão não está em como solucionar o sofrimento, mas em entender que o sofrimento é a solução. Quem é idôneo para trabalhar a partir dessa perspectiva? Nosso autor o faz com honestidade, transparência e envolvimento pessoal neste trabalho. Contando-nos sua própria história de sofrimento, ele chama Jeremias de seu parceiro e de tantos que sofrem, apresenta-nos uma análise do profeta, não de suas palavras – como faria um exegeta impregnado de espírito científico – mas, como um dos paradigmas do sofrimento com Deus e por causa de Deus. Não nos é difícil explicar o sofrimento dos sem Deus, a gente lamenta, mas explica. Porém, como explicar quando se sofre estando em Deus e, pior, como explicar quando o sofrimento é provocado por Deus? O texto do Marson está entre as melhores palavras que já li. É difícil não chorar com ele em muitos dos trechos da história que conta com vividez. Entre tantas questões que o autor levanta, está a intrigante tese de um Deus sofredor procurando parceiros entre os homens, procurando solidariedade, chamando homens como Jeremias para compartilhar de sua dor, transformando-os em parábolas vivas de quanto importa sofrer pelo resgate da humanidade. Marson desvenda aspectos críticos do sofrimento, revelando como a dor se transforma num agregador de valor ao ser humano; afinal, deve valer muito alguém por quem muito se está disposto a sofrer, e Deus, ao chamar, entre seres humanos, parceiros de sofrimento, os enobrece. O autor não se inclui entre os tais, mas chama um desses parceiros de Deus de amigo e consolador, em meio ao seu próprio sofrimento. E, ao fazer isso, ao demonstrar como essa gente sofreu e com que coragem falou com Deus sobre o sofrimento que lhe era imposto, o autor chama a face incarnada do sofrimento de Deus para nos ajudar a andar em nosso próprio sofrimento; faz-nos caminhar numa viagem, numa peregrinação; transforma o sofrimento no caminho do santo; leva-nos a pensar que em vez de desejarmos aventuras como andar no caminho de São Tiago, deveríamos aprender a deixar Deus nos conduzir em nosso próprio caminho, que não é um caminho de salvação, porque esse só Cristo trilhou, mas é caminho que faz essa salvação ganhar existencialidade para cada um de nós. É caminho de aprofundamento, de encontro consigo mesmo sob a sombra protetora do Altíssimo, sem o que sucumbiríamos diante do espelho. O autor está certo, ninguém vai além de seu deus, o que torna imperioso o conhecimento de Deus; mas, como ver a Deus sem que de nossos olhos sejam arrancadas todas a escamas que nos provocam tantas perspectivas confusas e difusas, que nos levam a tantas expectativas falsas, que nos fazem assumir culpas que não são nossas, e que nos levam a proclamar inocência onde somos culpados? E como ter tantas escamas arrancadas sem dor? Em que encruzilhada colocamos Deus que, para revelar-se a nós, não tem como conduzir-nos por outro caminho, senão pelo vale da sombra da morte! E, visto sob essa perspectiva, o sofrimento está mais para solução do que para problema. Depende da dimensão que atribuímos a Deus. Ariovaldo Ramos Introdução ESTE É UM LIVRO para gente em crise com Deus. Tudo nele é muito pessoal. O que escrevi demorou quase quatro anos para se assentar em minha mente, mas os acontecimentos mais importantes se desenrolaram em Petrolina, uma cidade do sertão de Pernambuco. Durante todo esse tempo, fiquei remoendo o livro de Jeremias, lendo, relendo, pensando, desistindo de pensar só para me surpreender pensando de novo nas mesmas coisas. É isso o que faço quando algo muito difícil me atormenta: rumino até que algo de proveitoso surja. Mesmo que demore quatro anos. Resume-se mais em persistência do que em inteligência. A experiência de escrever me ajudou a “exorcizar” Jeremias de minha cabeça. Sei que esse verbo fica forte demais, mesmo entre aspas, mas dizer isso de forma mais branda não faria justiça a minha vivência. Refletir me parece sereno demais, rejeitar não era uma opção, então fiquei mesmo com “exorcizar”, assim, entre aspas. O leitor que me perdoe por esta limitação. Depois de muito conversar com as pessoas, aprendi pelo menos uma coisa sobre mim: dou voltas antes de chegar aonde quero. Gosto de tudo bem explicado e, se somar a isso a tremenda atração que sinto pelos detalhes, já viu onde a coisa vai parar. Neste livro não foi diferente. Comecei com o texto bíblico, porque foi nele que mergulhei e de onde só emergia quando estava saturado. Não consigo falar sobre coisas importantes antes de dar a elas uma base sólida. É a Parte 1, que chamei de Crises, dores e angústias. Nela descrevo minhas crises, as conseqüências da Grande Rebelião, homens que criaram deuses do tamanho de sua própria rebeldia, analiso algumas personagens e faço um paralelo entre minhas angústias e as angústias de Jeremias. Tal paralelo é, ao mesmo tempo, pretensioso e humilde. Creio que experimentei coisas semelhantes às que Jeremias vivenciou, mas numa proporção menor. Os espasmos de alma do profeta evitaram que me afogasse existencialmente. Acho a teologia tremendamente prática, porque com ela consigo enxergar coisas que não via, e passo a desconsiderar idéias que antes pareciam monstros prestes a me devorar. Tais reflexões possibilitaram a Parte 2, que chamei de Novos horizontes depois da tempestade. Nela argumento a favor da mudança de conceitos que precisamos ter para experimentar Deus de forma verdadeira. Jeremias mostra um Deus que conhece o sofrimento melhor do que nós, e, portanto, nossas crises devem ser resolvidas na vida real, com gente real que vive bem aqui na Terra. Descrevo também como tudo isso afetou minha experiência de aconselhamento, e termino alegando que extraordinário mesmo não era Jeremias, mas o Deus a quem servia. A esperança de Jeremias é também minha e sua. Temos a promessa, fiel e segura, de que um dia todas as crises desaparecerão e de que conheceremos a vida perfeita pela qual sempre ansiamos. Só depois disso tudo é que entendi, pelo menos parcialmente, o que o autor de Hebreus tinha em mente quando afirmou que a esperança é a âncora da alma (Hb 6:19). Talvez não seja à toa que esse seja o livro do Novo Testamento que contenha as mais longas referências aos escritos de Jeremias. Comecei achando que poderia entender Deus para me encontrar no caminho com ele, só para descobrir que ele estava me atraindo para o deserto existencial, para então se revelar mais completamente. Agora, quero compartilhar o que vivi com você. Espero que a volta para a qual o estou convidando o ajude a acreditar que há vida depois das crises. Está preparado? Bem, eu não estava quando tudo isso começou... parte1 Crises, Dores e Angústias A voz do poeta não precisa apenas ser um registro do homem, pode ser também um de seus amparos, o pilar que o ajuda a resistir e prevalecer. William Faulkner escreveu essas palavras por volta de 1950, mas elas mantêm toda a sua atualidade. No texto que citei acima, Faulkner acusa seus colegas de profissão de "terem esquecido os problemas do coração humano em conflito consigo próprio, o único tema que pode resultar em boa literatura, porque só acerca dele vale a pena escrever e sofrer a agonia e o cansaço". Pede-lhes que não deixem espaço em seus trabalhos "para nada que não seja as velhas verdades do coração, as velhas verdades universais sem as quais qualquer história é efêmera e condenada – amor e honra, piedade e orgulho, compaixão e sacrifício" (Antonio Damásio, O erro de Descartes, p. 285). capítulo 1 Tão distante e tão próximo FINALMENTE MUDAMOS, minha esposa e eu, para uma casa. Não era grande coisa, nem muito bonita, mas a gente podia pagar e tinha ar-condicionado, item de sobrevivência dos paulistas que se mudam para Petrolina. A pintura tinha ficado boa, e escondia bem os buracos tapados com massa corrida. Deu trabalho, mas agora não precisávamos continuar morando na pensão. Queríamos um lugar que pudesse ser chamado de casa. Essa coisa de muita gente morando provisoriamente num mesmo lugar não é exatamente o que eu tinha em mente para minha vida. Enfim, os três meses tendo de agüentar ventilador barulhento e televisão ligada no último volume terminaram. Sem uma ocupação certa, mas ainda restava alguma reserva do carro que tínhamos vendido. A mudança tinha chegado de São Paulo, e as coisas já estavam praticamente arrumadas. Para recém-casados, era um bom começo. Além disso, sogro e sogra estavam conosco naquela semana, ajudando a matar a saudade e a comprar a mesa da sala e alguns armários. Sabe como é, pais sempre dão um jeito de esticar o orçamento para fazer um agrado, nesse caso útil e bem vindo. Estávamos havia quatro meses em Petrolina, sertão de Pernambuco, procurando uma vida melhor. Sempre fui resistente à idéia de sair de São Paulo, pois gosto demais da agitação, das opções de passeios na cidade que não dorme. Ir a bons restaurantes sempre foi uma das minhas mais queridas opções de diversão. Se for em companhia de amigos, melhor ainda. Onde se encontra pizza e café como os de Sampa? Para viciados em leitura como eu, há em São Paulo livrarias de todos os gostos, e a biblioteca da faculdade em que havia completado a graduação e o mestrado era um lugar acolhedor, mesmo que fosse só para pensar na vida. Minha fome por conhecimento sempre encontrou um ambiente favorável para se desenvolver nessa cidade. Devo muito à cidade em que nasci. Sou paulistano por nascimento e por escolha. Mesmo tendo viajado uma única vez para o exterior, sempre achei que o cinza do céu nublado de São Paulo era o mais bonito do mundo. Meio nostálgico, mas é exatamente assim que me sinto a respeito de minha terra natal. Só depois de muito relutar, concordei que sair de São Paulo seria uma opção viável. Sabe como é: muita concorrência, dificuldade para encontrar lugares bons para trabalhar, custo de vida alto, e assim por diante. Tinha acabado o mestrado numa faculdade de renome e planejava dar aulas. A área de especialização que escolhi não era a preferida pela maioria de meus colegas psicólogos, e considerei que minha experiência com pesquisa científica me ajudaria a conseguir um emprego razoável. Mas o tempo estava passando, e minhas esperanças iam sucumbindo à dura realidade da falta de emprego. Nem esforço nem pensamento positivo me ajudaram muito, pois os mais de 50 currículos enviados para universidades não me ajudaram a agendar nenhuma entrevista. O caso não era de ir mal nas entrevistas; eu sequer era chamado para elas. Relia meu currículo acadêmico, mas nada parecia fazer sentido. Aquele sentimento de incompetência e de desânimo vinha se esgueirando lentamente, e agora eu não podia mais negá-lo. Mês após mês, vagarosamente se tornando real. Estava ali, verdadeiro, dolorido, insofismável. Depois de uma série de pesquisas e de consultar nossos conselheiros, optamos por tentar a vida num lugar que oferecesse menor resistência do que minha querida São Paulo. Como minha esposa já tinha certa propensão a sair de São Paulo, acabamos por considerar Petrolina uma boa opção. Antes de casarmos ela foi conhecer a cidade, e decidimos que, se íamos tentar algo radical, a hora era essa. Era casar, arrumar as coisas e lutar por uma vida digna em outra terra. Embora fique no sertão de Pernambuco, Petrolina está longe de ter o perfil das demais cidades do sertão do Nordeste brasileiro. Faz divisa com Juazeiro, na Bahia, e a principal atividade econômica é a fruticultura, especialmente para a exportação. É um lugar ideal para isso, pois tem sol quase sem nuvens durante todo o ano e água à vontade, canalizada do rio São Francisco. Para quem conhece o riscado, é um excelente negócio, e a região já movimenta muitos milhões de dólares por ano com essa atividade. Vista do avião, é uma mancha verde e fértil no meio do desolado sertão. Além disso, Petrolina também tem se transformado em um pólo médico e acadêmico. Uma amiga nossa conseguiu se firmar muito bem como médica ali. Minha esposa, Edlâine, trabalha com audiologia, e vimos aí um terreno a explorar. As notícias de boas oportunidades mexeram com meus brios aventureiros a ponto de me fazer marcar a data do casamento e de programar a mudança. Os sonhos paulistas ficaram para trás, e lá fomos nós "desbravar" o sertão em busca de dignidade. Nunca achei que seria fácil, mas hoje sei que nada teria me preparado para o que aconteceria naqueles dias. Nenhuma grande tragédia, tal como morte ou invalidez, apenas um sentimento sufocante de insucesso e de indignidade que vinha tomando conta de mim há mais tempo do que eu gostaria de admitir. Faltava instalar o suporte do microondas, e junto com meu sogro, Francisco, fui comprar alguns parafusos que resolveriam o problema. Encontrei o que precisava, mas não pude voltar imediatamente para casa, porque começou a chover muito intensamente, coisa rara em Petrolina naquela época do ano. Por um instante, achei que estava em São Paulo, numa daquelas terríveis chuvas que alagam a cidade no começo do ano. Meia hora de espera foi suficiente, e voltamos para casa. Nenhum prenúncio de tragédia. No mesmo instante em que entramos na casa, recém-preparada, percebi que algo muito errado tinha acontecido, mas ainda não sabia o quê. Bastou perceber o olhar de Edi e de minha sogra, Neuza, para captar o tamanho da encrenca. Minha mente começou, ali mesmo na porta, a funcionar em câmera lenta, como se cada segundo me apresentasse inumeráveis estímulos que eu deveria analisar. Não precisei de muito tempo para entender que a chuva torrencial tinha estourado o telhado, já frágil, e que a água da chuva tinha entrado em toda a casa, não pela porta, mas pelo teto. Petrolina é uma cidade muito plana, e a única forma de as raras chuvas estragarem uma casa era exatamente a que tinha acontecido na minha. Tudo o que com muita dificuldade tínhamos montado escoava junto com a água da chuva, que escorria generosamente das paredes. Não perdemos nada. Rapidamente mudamos de lugar o que ainda não tinha sido molhado, mas o diagnóstico era tão evidente quanto desanimador: não podíamos mais ficar ali. Um temporal, no meio do sertão, tinha acabado com nossa primeira moradia de recém-casados. Minha mão ainda estava inchada e dolorida por causa da montagem do armário que ganhamos de presente. Não tinha ainda me recuperado do trabalho de montar as coisas e agora tinha diante de mim a obrigação de desmontar tudo para montar de novo em outro lugar. Nem havia outro lugar. Nunca cheguei tão perto de ficar deprimido. Até esse ponto, o nível de frustração estava sob controle. Mas no precário equilíbrio emocional que vinha mantendo, aquilo me jogou na lona. Depois que a chuva acabou, disfarcei e fui para um dos quartos ficar um pouco sozinho. Deitei na cama e tive, pela primeira vez, a sensação de que uma mão me esmagava, apertando meu peito, forçando para fora de mim todas as forças e esperanças. Olhava furtivamente para o caderno de anotações e para uma de minhas Bíblias de estudo no chão, tentando calcular quanto tempo ainda levaria para retomar minhas leituras. Queria negar tudo e continuar como se nada tivesse acontecido, mas simplesmente não consegui. O peso daquela enorme mão sobre mim eliminou a possibilidade de reagir. Não tinha nada em meu peito, mas respirava com dificuldade. O ar parecia não encher meus pulmões. Se não me prostrei na cama por meses a fio, tenho certeza de que o mérito não foi meu. Não tinha mais nada dentro de mim que me fizesse continuar. Mas esse era apenas o começo daquilo que sempre me pareceu o fim. :: :: :: Por que é permanente a minha dor, e a minha ferida é grave e incurável? (Jr 15:18) Tenho uma profunda identificação com o profeta Jeremias, por vários motivos. Mas uma coisa me é sempre presente na memória: Jeremias participou ativamente dos momentos em que comecei a acordar de um torpor religioso. Creio que meu despertar não teria acontecido sem a comunidade cristã da qual participo, mas o pivô da crise aconteceu porque Jeremias foi uma espécie de espelho existencial para mim. Guardadas as devidas proporções, eu me vejo em Jeremias. De espírito dócil e sensibilidade aguçada, o profeta viveu num dos períodos mais cruentos da história de Judá, a época em que Jerusalém foi destruída pelas forças do império babilônico. Era o cumprimento do juízo de Deus contra uma cidade perversa, cheia de uma maldade na qual é difícil de acreditar. A grande cidade de Jerusalém, cantada em verso e prosa por Davi, estava sendo destruída por causa da idolatria. Esse pecado matriz de todos os outros cegou geração após geração até o momento em que Deus rejeitou a cidade. E não foi por falta de aviso. Esse Jeremias dócil viu os horrores da guerra que tantas vezes anunciou, a qual poderia ter sido evitada se o povo que amava tivesse dado ouvidos a sua mensagem. Imagino sempre Jeremias olhando por cima dos muros de Jerusalém e vendo apenas os exércitos de Nabucodonosor sitiando a cidade, cada pequena tocha no horizonte escuro representando um soldado inimigo. Depois imagino Jeremias olhando para seus habitantes, seu povo, e percebendo a mensagem de arrependimento queimando dentro de si, voltando por curtos instantes a acreditar que tudo poderia dar certo, só para descobrir que a ferida de seu povo já estava além da cura. Talvez num desses momentos tivesse saído pelas ruas, gritando para o povo se arrepender, e tivesse ouvido gritos de desprezo daqueles por quem ainda sentia amor: "cala a boca, terror por todos os lados". O que teria sentido o profeta nesses momentos? Por onde teriam vagado seus afetos cheios de docilidade? Teria sentido a mesma mão pesando sobre o peito? O torpor religioso a que me refiro é aquele sentimento de revolta contra Deus que sentimos quando as coisas que queremos não acontecem ou as que já temos saem de nossas mãos. É aquele sentimento de ter sido manipulado e de manipular usando a culpa que todos experimentamos, que nos diz que somos errados. É a sensação de caos que surge quando nos ajoelhamos, oramos, pedimos conselho a outras pessoas mais experientes, oramos por confirmação da vontade de Deus, sentimos "paz no coração", e assim vamos felizes e sorridentes para o futuro, certos de que Deus nos abençoará porque fizemos tudo direitinho. Quantas não são as vezes em que todo esse processo "crente" termina em decepção? Por que Deus não abençoou, se eu orei tanto? Por que meus planos não funcionaram, se dediquei tudo a Deus de forma sincera? Por que as coisas deram errado, se o que estou fazendo abençoa a outros? Por quê? Por quê? Então, ouço as palavras do profeta, como se ele fosse um companheiro bem mais velho do que eu, lembrando-se das palavras que usou para se dirigir a Deus: "Por que é permanente a minha dor, e a minha ferida é incurável? Por que te tornaste para mim como um riacho seco, cujos mananciais falham?" (Jr 15:18). Imagino o profeta, entrado em anos, olhando para mim com aquele jeito carinhoso e condescendente de quem já esteve nos extremos da vida, como se estivesse me dizendo sutilmente que ainda não sei muito sobre ela. Isso me irrita, mas é estranhamente confortador. Veja bem, essas palavras estão escritas na Bíblia, registradas para gente tão distante no tempo quanto eu e você. É muito diferente das lições de Escola Bíblica Dominical. E quanto mais eu lia textos assim no Livro de Jeremias, mais percebia que meu problema não era apenas o sofrimento em si. Fui ensinado que, se fosse um bom cristão, Deus me abençoaria. De fato, isso aconteceu muitas vezes, mas em algum momento essa "regra" bíblica parou de funcionar, o mundo parou de fazer sentido. Para mim, criado numa igreja protestante tradicional, quando fazemos a vontade de Deus, sentimos a "paz no coração", mas nunca tinha estado tão longe dessa paz. Segui o roteiro tantas vezes trilhado, mas tudo foi por água abaixo. Alguma coisa estava muito errada, e só muito lentamente fui acordando de um pesadelo religioso, enquanto acordava para o mundo real, em que coisas erradas acontecem a pessoas boas e no qual os "ímpios" prosperam. Tudo porque comecei a ler a Bíblia sem os óculos denominacionais. Na minha Bíblia, encontrei um homem escolhido desde o ventre para ser profeta que gritava com Deus e que – mistério! – Deus não matou com um raio. E as palavras ressoavam novamente na minha cabeça: Por que é permanente minha dor? Por que minha ferida é grave e incurável? Por que... As palavras de Jeremias aumentaram minha dor no primeiro contato e causaram em mim um efeito devastador. A despeito de tudo o que já tinha lido e aprendido, Deus permanecia um célebre desconhecido. Ele já não me respondia. Nem sempre respondeu aos gritos de Jeremias. Quando finalmente as coisas começaram a fazer sentido, percebi que não era eu que estava sendo devastado, mas minha concepção religiosa de Deus. Foi o contato com o próprio texto de Jeremias que me trouxe de volta, que me fez ver que Deus tinha muito pouco a ver com o que aprendera sobre ele. As palavras cruas do profeta começaram a me encher de uma nova visão do mundo, e o mistério de Deus foi me seduzindo. Fui seduzido, atraído lentamente para um lugar muito escuro. "Senhor, tu me enganaste, e eu fui enganado" (Jr 20:7). Outra versão diz: "Tu me seduziste, Iahweh, e eu me deixei seduzir".1 Na minha situação, a sedução desses textos era irresistível. Quanto mais explícita era a angústia do profeta, mais aquilo se pegava em mim. Tudo parecia falar de mim. É por isso que Jeremias está tão distante mas, ao mesmo tempo, tão próximo. O que segue é minha história, minha saga pessoal em busca de um Deus que nunca me foi apresentado. Espero que tudo isso seja particular o suficiente para se tornar universal, que de algum modo transcenda de minha vida para a sua, assim como a história de Jeremias transcendeu para a minha. Ao longo de todo o caminho, crises.

Avaliações

Avaliação geral: 5

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Rosemeire Sousa Silva Caveden recomendou este produto.
18/11/2015

Esse livro deve ser muito bom pois tenho procurado ele pelo menos a um ano

Muito quero muito ler mais esta difil de achar procurei na internet e algumas livras física acho que tem um ano quê tento compra minha filha também tentou e nada
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