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O Código dos Justos (Cód: 1975877)

Bourne,Sam

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Descrição

Um homem é brutalmente esfaqueado em Manhattan. Will Monroe, jovem repórter do New York Times, escreve uma brilhante reportagem sobre o crime, que acaba na primeira página do jornal. De maneira estranha, uma série de assassinatos com as mesmas características acontece ao redor do mundo. Um pastor é executado no Rio de Janeiro, um bem-sucedido homem de negócios aparece morto na Tailândia. Monroe segue as pistas e descobre que todos os estranhos crimes estão ligados a uma antiga profecia da cabala judaica na qual a morte de 36 pessoas especiais provocaria o fim do mundo.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Record
Cód. Barras 9788501075987
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788501075987
Profundidade 0.00 cm
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 476
Peso 0.44 Kg
Largura 16.00 cm
AutorBourne,Sam

Leia um trecho

UM SEXTA-FEIRA, 21H10, MANHATTAN Na noite do primeiro assassinato havia muita música. A catedral de São Patrício em Manhattan estremecia ao som de “Messias” de Handel, a grande obra-prima do canto coral que jamais deixou de despertar até a mais sonolenta platéia. O entoar das vozes re-verberava no teto da catedral. Era como se quisessem alcançar o próprio céu. Do lado de dentro, bem na frente, sentavam-se pai e filho, os olhos do homem mais velho fechados, comovido como sempre com a peça musical, sua favorita. O olhar do filho alternava-se entre os artistas — os cantores vestidos de preto, o maestro a sacudir vigorosamente os cabelos encanecidos — e o homem ao seu lado. Gostava de olhá-lo, avaliando suas reações; gostava de ficar junto dele. A noite era de celebração. Um mês antes, Will Monroe Jr. conseguira o trabalho com que sempre sonhara desde que chegara aos Estados Unidos. Com 20 e tantos anos, era agora repórter, em uma rápida trajetória no New York Times. O Sr. Monroe habitava um domínio diferente. Era advogado, um dos mais bem-sucedidos de sua geração, agora trabalhando como juiz federal na segunda circunscrição da Corte de Apelações dos EUA. Gostava de reconhecer as conquistas, e o jovem a seu lado, cuja infância ele quase perdera, alcançara um marco importante. Procurou a mão do filho e apertou-a. Foi naquele momento, não mais do que uma viagem de metrô de 45 minutos até o outro lado da cidade, embora a um mundo de distância, que Howard Macrae ouviu os primeiros passos atrás de si. Não se assustou. Os forasteiros talvez evitassem passar pelo bairro de Brownsville, no Brooklyn, mas ele conhecia cada rua e cada beco. Macrae fazia parte da paisagem. Gigolô agindo há duas décadas na área, criara laços em Brownsville. Também fora um jogador astuto, dando um jeito de sempre permanecer neutro na guerra de quadrilhas que aterrorizava a vizinhança. As facções chocavam-se e mudavam, mas Howard mantinha-se firme, constante. Ninguém reivindicara a área onde suas prostitutas exerciam o ofício havia anos. Por isso não se preocupou muito com o som de passos atrás dele. Mas apesar disso achou estranho que não parassem. Percebeu que estavam próximos. Por que alguém o estaria seguindo? Virou a cabeça para espreitar por sobre o ombro esquerdo e, surpreso, logo tropeçou. Era uma arma diferente de todas que já vira — e estava apontada para ele. No interior da catedral, o coro cantava em uníssono, os pulmões abrindo-se e fechando-se como os foles de um único e potente órgão. A música era insistente: E a glória do Senhor se revelará; e toda a carne a verá; pois a boca do Senhor o disse. Howard Macrae virou para a frente, tentando disparar numa corrida instintiva. Mas teve uma estranha sensação, como se algo o tivesse perfurando a coxa direita. A perna parecia estar cedendo, desabando sob seu peso, recusando-se a obedecer às suas ordens. Tenho de correr! Mas seu corpo não respondia. Parecia mover-se em câmera lenta, como se caminhasse dentro d’água. Agora os braços se recusavam a obedecê-lo. Primeiro ficaram letárgicos, depois amolecidos. O cérebro entendia a urgência da situação, mas também começava a sucumbir como que submerso numa repentina inundação. Macrae sentia-se muito cansado. Viu-se estendido no chão, agarrando a perna direita, cônscio de que estava se rendendo ao entorpecimento. Ergueu os olhos. Nada viu além do brilho de aço de uma lâmina. Na catedral, Will sentiu o pulso acelerar. A música atingia o clímax, toda a platéia parecia enlevada. Uma voz de soprano pairou acima deles: Se Deus é por nós, quem será contra nós? Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica; quem os condenará? Macrae podia apenas observar a faca pairando acima de seu peito. Tentou ver quem a empunhava, tentou distinguir um rosto, mas não conseguiu. O brilho do metal ofuscava-lhe a vista; parecia refletir o luar da noite em sua superfície dura e polida. Sabia que devia estar aterrorizado: sua voz interior dizia-lhe que estava. Mas soava-lhe estranhamente longínqua, como um comentarista descrevendo uma partida de futebol a longa distância. Howard podia ver a faca aproximando-se, mas mesmo assim parecia estar acontecendo com outra pessoa. Agora a orquestra tocava com força total, a música de Handel percorrendo a igreja com intensidade suficiente para despertar os deuses. O contralto e o tenor, em uníssono, exigiam saber: Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Will não era entusiasta dos clássicos como o pai, mas a majestade e a força da música arrepiavam-lhe os pêlos da nuca. Ainda olhando para a frente, tentou imaginar a expressão no rosto do pai: visualizou-o em arrebatamento e desejou que sob aquela aparência enlevada também estivesse latente algum prazer em partilhar tal momento com o único filho. A lâmina desceu, primeiro atravessando o peito. Macrae viu a linha vermelha que se formou, como se a faca fosse apenas uma caneta marca-texto escarlate. A pele pareceu inchar e empolar-se: ele não entendeu por que não sentia dor alguma. Agora o metal impelia-se para baixo, fatiando-lhe o estômago. O conteúdo esparramou-se, uma quantidade mole e quente de entranhas viscosas. Howard assistiu a tudo isso, até o momento em que a adaga foi afinal empunhada no alto. Só então viu o rosto de seu assassino. Sua laringe conseguiu exalar um som rouco de choque — e reconhecimento. A lâmina encontrou o coração e tudo escureceu. Começara a missão. DOIS SEXTA-FEIRA, 21H46, MANHATTAN O coro agradeceu, o regente curvou-se suado. Mas Will só ouvia um único som: o dos aplausos do pai. Maravilhavam-no os decibéis que aquelas mãos enormes conseguiam produzir, batendo uma contra a outra como madeira na madeira. Trouxe-lhe uma lembrança que ele quase perdera. Era dia de uma importante cerimônia em sua escola na Inglaterra, a única vez que o pai comparecera para ver o filho. Will tinha 10 anos e enquanto recebia o prêmio de poesia, pôde ouvir, mesmo acima do burburinho produzido pelos milhares de pais, as inconfundíveis palmas do pai. Naquele dia, sentira orgulho das vigorosas mãos daquele estranho, que pareciam de carvalho, mais fortes do que a de qualquer homem no mundo, com certeza. O vigor daquele som não diminuíra quando o pai, agora com 50 e poucos anos, entrara na meia-idade. Como sempre, estava em ótimo condicionamento físico, esguio, os cabelos brancos cortados curtos. Não corria nem malhava: os passeios de veleiro nos fins de semana ao largo de Sag Harbor haviam-no mantido em forma. Will, ainda aplaudindo, virou-se para ele, mas o pai não desviou o olhar. Quando Will percebeu o leve rubor ao redor do nariz, notou chocado que ele estava com os olhos marejados: a música o comovera, mas não queria que o filho visse suas lágrimas. Will sorriu consigo mesmo. Um homem de mãos tão fortes que pareciam feitas de madeira, lacrimejava ao som de um coro de igreja. Foi então que sentiu o BlackBerry tocar e viu uma mensagem da editoria “Cidade”: Trabalho para você. Brownsville, Brooklyn. Homicídio. Seu estômago revolveu-se, aquele movimento aeróbico que mistura excitação e ansiedade. Estava no setor dos “tiras da noite” da seção “Cidade” do Times, a tradicional prova de fogo para repórteres promissores como ele. Talvez estivesse destinado a servir como futuro correspondente no Oriente Médio ou chefe de sucursal em Pequim, mas, segundo a lógica do jornal, primeiro teria de aprender o trabalho jornalístico elementar. Esta era a filosofia do Times. — Haverá muito tempo para cobrir golpes militares. Primeiro você precisa aprender como cobrir uma exposição de flores — dissera Glenn Harden, editor da seção “Cidade”. — Precisa aprender a conhecer pessoas, e é isso o que vai fazer aqui. Enquanto o coro se deliciava com os aplausos, Will virou-se para o pai com um encolher de ombros de desculpas e apontou para o BlackBerry. — É trabalho — articulou sem som com a boca, apanhando o paletó. Essa inversão de papéis deu-lhe um prazer furtivo. Após anos vivendo ofuscado pelo brilho da carreira estelar do pai, agora era a sua vez de atender a uma convocação de trabalho. — Tome cuidado — sussurrou-lhe o pai. Do lado de fora, Will acenou para um táxi. O motorista ouvia o noticiário na NPR. Will pediu-lhe que aumentasse o volume. Não que esperasse ouvir qualquer coisa sobre Brownsville. Sempre agia assim — em táxis, lojas ou cafés. Era viciado em notícias; desde a adolescência. Ele havia perdido as manchetes e já estavam transmitindo as notícias internacionais. Uma matéria sobre a Grã-Bretanha. Sempre se animava quando ouvia alguma notícia do país que considerava quase como sua terra natal. Podia ter nascido nos Estados Unidos, mas seus anos de formação, entre os 8 e os 21 anos, haviam sido passados na Inglaterra. Agora, contudo, ao ouvir que Gavin Curtis, o ministro das Finanças, estava em apuros, Will prestava atenção redobrada. Determinado a provar ao Times que seus talentos iam muito além da seção “Cidade” e assegurar que o editor soubesse que estudara economia em Oxford, Will oferecera uma matéria para a seção “Semana em Revista” já no seu segundo dia no jornal. Chegara a esboçar um título: Procura-se: um banqueiro para o mundo. O Fundo Monetário Internacional procurava um novo presidente e diziam que Curtis era o favorito. “... as acusações foram feitas em primeira mão por um jornal britânico”, dizia a voz da NPR, “afirmando haver identificado ‘irregularidades’ nas contas do Tesouro. Um porta-voz do Sr. Curtis negou hoje todas as insinuações de corrupção.” Will fez uma anotação quando uma lembrança veio-lhe à mente. Ele logo a deixou de lado. Questões mais urgentes o aguardavam. Revirando o bolso, encontrou seu telefone. Uma rápida mensagem a Beth, que pegara o seu gosto britânico por mensagens de texto. Com o polegar extraordinariamente treinado, apertou os números que se transformavam em letras e palavras. Meu primeiro assassinato! Chegarei tarde em casa. Amo você. Agora via seu destino. Luzes vermelhas giravam ruidosamente na silenciosa escuridão de setembro. As luzes eram de dois carros do DPNY, o Departamento de Polícia de Nova York, estacionados um de frente para o outro, quase se tocando, de modo a formar uma espécie de flecha, como que para isolar parte da rua. Diante deles um cordão de isolamento fora estendido às pressas, com uma fita amarela chamando a atenção. Will pagou a corrida, saltou e olhou em volta. Prédios caindo aos pedaços. Aproximou-se da primeira linha de fita até uma policial chegar para impedi-lo. Parecia entediada. — Não pode passar, senhor. Will remexeu no bolso do peito do paletó de linho. — Imprensa? — perguntou com o que esperava ser um sorriso cativante ao exibir sua nova identificação de imprensa. Desviando o olhar, ela fez um gesto breve com a mão direita. — Passe. Will abaixou-se sob a fita e juntou-se a um grupo de meia dúzia de pessoas. Outros repórteres. “Cheguei atrasado”, pensou, irritado. Um deles era da sua idade, alto, cabelos incrivelmente lisos e um tom alaranjado artificial na pele. Will tinha certeza de que o conhecia, mas não conseguiu se lembrar de onde. Então viu o fio do fone de ouvido. Claro, Carl McGivering, da NY1, a estação a cabo de notícias 24 horas de Nova York. Os outros eram mais velhos, os surrados crachás pendurados no pescoço revelando os veículos de comunicação para os quais trabalhavam: Post, Newsday e diversos jornais comunitários. — Meio atrasado, novato — disse o mais ríspido do grupo, aparentemente decano do corpo criminal. — O que houve? Gracinhas dos colegas mais velhos: Will aprendera em seu primeiro emprego no Bergen Record, em Nova Jersey, que essas eram uma daquelas coisas que repórteres como ele simplesmente tinham de engolir. — De qualquer modo, eu não gastaria meu suor por isso — dizia o velho patriarca do Newsday. — É apenas o tipo comum de assassinato da terra das gangues. Facas são a febre do momento, pelo que parece. — A arma da moda. Daria uma boa chamada — debochou o Post, arrancando grandes risadas do Clube dos Repórteres Veteranos, cuja reunião mensal Will sentiu que acabara de interromper. Desconfiou que era uma indireta para ele, sugerindo que ele (e talvez o próprio Times) era fracote demais para dar ao assassinato sua devida atenção. — Vocês viram o cadáver? — perguntou, certo de que havia algum termo do ofício que ele visivelmente deixara de usar. “Presunto”, talvez. — Sim, bem ali — disse o decano, apontando com a cabeça as viaturas, ao mesmo tempo que levava um copo descartável de café aos lábios. Will encaminhou-se para o espaço entre as duas patrulhas policiais, uma espécie de clareira aberta pelo homem naquela floresta urbana. Dois tiras tranqüilos circulavam no local, um com uma prancheta, mas nenhum fotógrafo. Devia ter perdido essa parte. E no chão, sob um cobertor, jazia o corpo. Ele avançou para dar uma olhada, mas um dos policiais adiantou-se e barrou-lhe o caminho. — Só o pessoal autorizado daqui em diante, senhor. Todas as perguntas à PV ali. — PV? — Oficial porta-voz do subcomissário de Informação Pública. — Como se falasse com uma criança que esquecera a tabuada mais simples. Will arrependeu-se por perguntar. Podia ter blefado. Próximo do cadáver, a oficial conversava com o cara da TV. Will perambulou por ali até ficar a mais ou menos meio metro do corpo sem vida de Howard Macrae. Fitou intensamente o cobertor, esperando descobrir o rosto por baixo. Talvez aquele pano revelasse algum contorno, como aquelas máscaras de barro usadas como molde pelos escultores. Continuou com os olhos fixos, mas a mortalha inerte e escura não mostrava nada. A porta-voz estava no meio de uma declaração: — ... nosso palpite é que foi um acerto de contas do SVS contra o Bando do Arraso ou então uma tentativa da rede de prostituição de Houston de se apoderar da área de Macrae. Só então ela pareceu notar Will, o olhar instantaneamente mudando e denotando estranheza. Sua expressão havia se fechado. Will entendeu o recado: a informação era apenas para Carl McGivering. — Posso apenas conseguir os detalhes? — Homem negro, 43 anos, aproximadamente 80 quilos, identificado como Howard Macrae, encontrado morto na esquina das avenidas Saratoga e Saint Marks, às 20h27. A polícia foi avisada por uma moradora do bairro que ligou para a Emergência após encontrar o corpo, quando seguia a pé para a 7-Eleven. — Apontou a loja com a cabeça: “ali”. — A causa da morte parece ter sido o rompimento das artérias, hemorragia interna e falência cardíaca devido ao violento e repetido esfaqueamento. O Departamento de Polícia de Nova York está tratando deste crime como homicídio e não vai poupar esforços para levar o criminoso para trás das grades. O tom de blablablá mostrou a Will que esse era um texto pronto que todos os porta-vozes precisavam repetir. Sem dúvida fora redigido por uma equipe de consultores externos, que na certa escrevera uma declaração do Departamento de Polícia de Nova York para acompanhar a missão. “Não vai poupar esforços.” — Perguntas? — Sim. Que negócio era aquele de prostituição? — Oficiosamente? Will assentiu com a cabeça, concordando com que tudo o que ela dissesse poderia ser usado, desde que não fosse atribuído a ela. — O cara era um gigolô. Conhecido tanto da polícia como de todo mundo que mora aqui. Dirigia um bordel na Atlantic Avenue, perto do Pleasant Place. Uma espécie de casa de prostituição das antigas... garotas, quartos, tudo sob o mesmo teto. — Certo. E o fato de ele ter sido encontrado no meio da rua? Não é um tanto estranho... não houve nenhuma tentativa de esconder o corpo? — Assassinato na terra das gangues; é assim que eles trabalham. É como alguém que atira de um carro em movimento: ocorre na frente de todo mundo, bem na nossa frente. Não houve tentativa de esconder o corpo pois este é o objetivo. Enviar uma mensagem. Querem que todo mundo saiba: “Fomos nós que fizemos isso, não nos importamos com quem saiba. E podemos fazer o mesmo com você.” Will anotou o mais rápido que pôde, agradeceu à policial e pegou o celular. Informou à editoria o que tinha: mandaram-no voltar para a redação, ainda havia tempo de pegar a última edição. Precisariam de poucos parágrafos apenas. Will não se surpreendeu. Lera o Times tempo suficiente para saber que não se tratava exatamente de material para “segurar-a-primeira-página”. Não deixou transparecer na redação — nem para a policial ou para qualquer dos outros repórteres — que aquele era de fato o primeiro assassinato que cobria na vida. Quando estava no Bergen Record, os homicídios eram raros e não eram desperdiçados com novatos como ele. Uma pena, pois um detalhe atraíra sua atenção, mas Will o tirou da cabeça quase imediatamente. Os outros profissionais experientes estavam calejados demais para notar, mas Will percebeu. O problema era que supôs tratar-se de rotina. Não se deu conta no momento, mas não se tratava de rotina

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