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O Fantasma (Cód: 2600690)

Harris Robert

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Descrição

Livremente baseado na fascinante e tumultuada história política do ex- premier britânico Tony Blair, de quem Robert Harris foi amigo e colaborador. Ao final do seu mandato, o primeiro-ministro Adam Lang, que sempre sorria para as câmeras à porta de Downing Street mas engajou-se na Guerra contra o Terror ao lado dos Estados Unidos, recebe um dos maiores adiantamentos da história do mercado editorial pelas suas memórias. Com a esposa e um ghost-writer, começa a dar forma a seu livro. Quando o escritor é encontrado morto, um novo profissional é contratado. Porém, ele logo se arrepende ao perceber que o passado do ex-premiê é bem diferente daquele pintado pela mídia.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Record
Cód. Barras 9788501081261
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 8501081264
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2008
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 322
Peso 0.44 Kg
Largura 14.00 cm
AutorHarris Robert

Leia um trecho

Um De todas as vantagens que a profissão de ghost-writer oferece, uma das maiores é a oportunidade que se tem de conhecer pessoas interessantes. Andrew Crofts, Ghostwriting Assim que soube como McAra morreu, eu deveria ter dado o fora. Percebo isso agora. Deveria ter dito: “Rick, sinto muito, isso não é pra mim, não me soa bem”, terminado meu drinque e ido embora. Mas ele, Rick, era tão bom em contar histórias — sempre pensei que ele deveria ter sido o escritor e eu, o agente literário —, que quando começava a falar, não havia a menor dúvida de que eu iria ouvir. Então, quando ele terminou, eu já estava fisgado. A história, da forma como Rick me contou durante o almoço naquele dia, era assim: McAra tinha pegado a última barca de Woods Hole, Massachusetts, para Martha’s Vineyard dois domingos antes. Calculei mais tarde que deve ter sido no dia 12 de janeiro. Não se sabia ao certo se a barca iria sair ou não. Desde o meio da tarde que estava ventando muito e as últimas travessias haviam sido canceladas. Porém, por volta das 21 horas, o vento diminuiu um pouco e às 21h45 o capitão decidiu que era seguro zarpar. O barco estava lotado: McAra teve sorte de conseguir uma vaga para o seu carro. Ele estacionou debaixo do convés e então subiu para pegar ar. Foi a última vez que alguém o viu com vida. A travessia até a ilha geralmente leva 45 minutos, porém, naquela noite em particular, o clima retardou consideravelmente a viagem: aportar uma embarcação de 60 metros com um vento de 50 nós, disse Rick, não é moleza. Eram quase 11 horas da noite quando a barca atracou no porto de Vineyard e os carros começaram a sair — todos, menos um: um utilitário esportivo Ford Escape cor de canela novinho em folha. O comissário de bordo pediu pelo alto-falante que o dono retornasse ao seu veículo, pois ele estava atravancando os motoristas de trás. Quando mesmo assim ele não apareceu, a tripulação conferiu as portas do carro, que calharam de estar destrancadas, e manobrou o Ford com o motor desligado até o cais. Mais tarde, eles vasculharam o navio com atenção: as escadarias, o bar, os banheiros, até mesmo os botes salva-vidas — nada. Ligaram para o terminal de Woods Hole para confirmar se alguém havia desembarcado antes de o navio sair ou talvez tivesse sido deixado acidentalmente para trás — novamente: nada. Só então um oficial do Departamento de Embarcações a Vapor de Massachusetts finalmente entrou em contato com o posto da Guarda Costeira em Falmouth para comunicar um possível caso de homem ao mar. A polícia descobriu que a placa do Ford estava registrada em nome de um tal Martin S. Rhinehart, da cidade de Nova York, embora o Sr. Rhinehart tenha sido localizado, algum tempo depois, na sua fazenda na Califórnia. Àquela altura, já era quase meia-noite na Costa Leste e cerca de 21 horas na Oeste. — Estamos falando do Marty Rhinehart? — interrompi. — Ele mesmo. Por telefone, Rhinehart confirmou imediatamente à polícia que o Ford lhe pertencia. Ele o mantinha em sua casa em Martha’s Vineyard para uso próprio e de seus convidados no verão. Também confirmou que, apesar da época do ano, um grupo de pessoas estava hospedado lá no momento. Ele disse que pediria à sua assistente para ligar para a casa e descobrir se alguém tinha pegado o carro emprestado. Meia hora depois, ela ligou de volta para dizer que havia, de fato, alguém desaparecido, um homem chamado McAra. Não havia mais nada a se fazer antes do raiar do dia. Não que isso fosse um problema. Todos sabiam que, se um passageiro tivesse caído no mar, a busca seria por um cadáver. Rick é um desses americanos irritantemente em boa forma de 40 e poucos anos, que parece ter 19 e faz coisas horríveis a seu corpo com bicicletas e canoas. Ele conhece o mar: já passou dois dias contornando os 96 quilômetros da ilha a remo em um caiaque. A barca de Woods Hole atravessa o canal onde o estreito de Vineyard se encontra com o estreito de Nantucket, e aquelas águas são perigosas. Quando a maré está alta, é possível ver a força das correntes sugar as enormes bóias do canal, entortando-as para o lado. Rick balançou a cabeça. Em janeiro, em um vendaval, na neve? Ninguém conseguiria sobreviver mais do que cinco minutos. Uma moradora encontrou o corpo no início da manhã seguinte, jogado na praia a cerca de seis quilômetros da costa da ilha, em Lambert’s Cove. A carta de motorista na sua carteira confirmou que se tratava de Michael James McAra, 50 anos, natural de Balham, ao sul de Londres. Lembro-me de ter sentido um acesso súbito de compaixão a ouvir o nome daquele bairro lúgubre e nada exótico: ele certamente estava muito longe de casa, o pobre diabo. Seu passaporte trazia o nome da mãe como parente mais próxima. A polícia levou o corpo para o pequeno necrotério no porto de Vineyard e então foi até a casa de Rhinehart para dar a notícia e buscar um dos outros convidados para identificá-lo. Deve ter sido uma cena e tanto, disse Rick, quando o convidado voluntário finalmente apareceu para ver o corpo: “Aposto que o funcionário do necrotério ainda está falando no assunto.” Havia uma patrulha de Edgartown com uma luz azul piscante, um segundo carro com quatro guardas armados para proteger o edifício e um terceiro veículo, à prova de bombas, carregando o homem instantaneamente reconhecível que, até 18 meses atrás, tinha sido o primeiro-ministro da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte. * O almoço tinha sido idéia de Rick. Eu nem sabia que ele estava na cidade até ele me ligar na noite anterior. Insistiu em que nos encontrássemos no seu clube. O clube não era exatamente dele — Rick era, na verdade, membro de um mausoléu semelhante em Manhattan, cujos membros tinham cadeiras cativas mútuas em Londres —, mas ele o amava assim mesmo. Na hora do almoço, somente homens podiam entrar. Todos usavam ternos azul-marinho e tinham mais de 60 anos: não me sentia tão jovem desde que saí da universidade. Lá fora, o céu de inverno pesava sobre Londres como uma enorme lápide cinza. Dentro do clube, a luz elétrica amarela de três candelabros imensos refletia nas escuras mesas envernizadas, nos talheres de prata e nas garrafas avermelhadas de vinho tinto. Um pequeno cartão entre nós anunciava que aquela era a noite do torneio anual de gamão do clube. Era como a Mudança da Guarda ou as Casas do Parlamento — algo que um estrangeiro esperaria da Inglaterra. — Estou impressionado que isso não tenha saído nos jornais — falei. — Ah, mas saiu. Ninguém fez segredo. Obituários foram publicados. E, pensando bem, eu me lembrava vagamente de ter visto alguma coisa. Mas tinha passado um mês trabalhando 15 horas por dia para terminar meu novo livro, a autobiografia de um jogador de futebol, e o mundo além do meu escritório se tornara um borrão. — O que diabos um ex-primeiro-ministro estava fazendo identificando o corpo de um homem de Balham que caiu da barca para Martha’s Vineyard? — Michael McAra — anunciou Rick, usando o tom enfático de um homem que tinha voado quase 5 mil quilômetros para dizer esta frase — o estava ajudando a escrever suas memórias. E é neste instante que, em uma vida paralela, eu expresso meus sinceros pêsames à idosa Sra. McAra (“deve ser um grande choque perder um filho nessa idade”), dobro meu pesado guardanapo de linho, termino meu drinque, digo adeus e saio para a friorenta rua londrina com toda minha medíocre carreira se estendendo inofensiva diante de mim. Em vez disso, pedi licença, fui até o toalete do clube e analisei um cartoon sem graça da Punch enquanto urinava pensativo. — Você sabe que eu não entendo nada de política, não é? — disse ao voltar. — Mas votou nele, não votou? — Em Adam Lang? Claro que sim. Todo mundo votou nele. Ele não era um político; era uma febre. — Bem, a questão é essa. Quem liga para política? De qualquer forma, é de um ghost-writer profissional de que ele precisa, meu amigo, não de outra droga de político. — Ele olhou em volta. Era uma regra pétrea do clube não falar sobre negócios no recinto; o que era um problema para Rick, uma vez que ele nunca falava de outra coisa. — Marty Rhinehart pagou 10 milhões de dólares por essas memórias sob duas condições. Primeiro, elas estariam nas livrarias em dois anos. Segundo, Lang não pegaria leve nas críticas à Guerra contra o Terror. Pelo que ouvi dizer, ele não está nem perto de respeitar nenhuma delas. As coisas ficaram tão ruins por volta do Natal que Rhinehart cedeu sua casa de veraneio em Vineyard para que Lang e McAra pudessem trabalhar sem nenhuma distração. Acho que McAra não agüentou a pressão. O médico-legista do estado encontrou quatro vezes mais álcool no sangue dele do que é permitido para dirigir. — Então foi um acidente? — Acidente? Suicídio? — Ele girou a mão no ar casualmente. — Quem vai saber? Qual a importância? Foi o livro que o matou. — Muito animador — falei. Enquanto Rick continuava vendendo seu peixe, eu olhava para o meu prato e imaginava o ex-primeiro-ministro olhando para o rosto branco e frio de seu assistente no necrotério — olhando para o seu fantasma,1 poderíamos dizer. Qual foi a sensação? Sempre faço essa pergunta aos meus clientes. Preciso fazê-la cem vezes por dia durante a fase de entrevistas: Qual foi a sensação? Qual foi a sensação? E, na maioria das vezes, eles não sabem responder, motivo que os leva a me contratarem para providenciar suas memórias: ao fim de uma parceria bem-sucedida, sou mais eles do que eles mesmos. Gosto bastante desse processo, para ser sincero: a breve liberdade de ser outra pessoa. Isto lhe parece sinistro? Caso pareça, deixe-me acrescentar que minha profissão requer um talento verdadeiro. Não só extraio das pessoas suas histórias de vida, como confiro a esta vida uma forma que normalmente ficaria invisível; às vezes lhes dou vidas que elas nem sequer percebiam ter. Se isso não é arte, o que é? — Eu deveria saber a respeito de McAra? — perguntei. — Sim, então vamos evitar admitir que não sabia. Ele era uma espécie de assistente quando Lang era primeiro-ministro. Escrevia os discursos, fazia pesquisas, bolava estratégias políticas. Quando Lang renunciou, McAra ficou com ele, para administrar seu gabinete. Fiz uma careta. — Não sei não, Rick — falei. Durante todo o almoço, fiquei meio que observando um velho ator de televisão na mesa vizinha. Ele havia sido famoso na minha infância por interpretar um pai solteiro de filhas adolescentes em um seriado. Agora, ao se levantar trêmulo e começar a arrastar os pés em direção à saída, ele parecia ter nascido para interpretar o papel do próprio cadáver. Era desse tipo de pessoa que eu escrevia as memórias: gente que havia despencado alguns degraus na escada da fama, ou que ainda tinha alguns degraus para galgar, ou que estava se agarrando ao topo e tentando desesperadamente tirar vantagem disso enquanto havia tempo. De repente, fui invadido pelo ridículo da idéia de que eu pudesse colaborar nas memórias de um primeiro-ministro. 1 Aqui, o autor brinca com a palavra “ghost”, “fantasma”, fazendo um trocadilho com “ghost-writer”, profissão do morto e do protagonista, jogo de palavras recorrente no livro. (N. do. T) — Não sei... — comecei a falar de novo, mas Rick me interrompeu. — O pessoal da Rhinehart Inc. está ficando louco. Eles vão fazer uma seleção no escritório de Londres amanhã de manhã. Maddox está vindo em pessoa de Nova York para representar a empresa. Lang vai enviar o advogado que negociou o contrato original para ele, o mediador mais quente de Washington, um cara muito esperto chamado Sidney Kroll. Tenho outros clientes que poderia colocar nessa disputa; portanto, se não estiver interessado, é só me dizer agora. Mas, pelo que eles estão dizendo, acho que você é a melhor escolha. — Eu? Pare com isso. — É sério. Eu juro. Eles precisam fazer algo radical, correr riscos. É uma grande oportunidade para você. E a grana vai ser alta. As crianças não vão passar fome. — Eu não tenho filhos. — Não — disse Rick, piscando o olho —, mas eu tenho. * Eu e Rick nos separamos na escada do clube. Havia um carro esperando por ele em frente com o motor ligado. Não me ofereceu carona para lugar nenhum, o que me fez suspeitar que estivesse indo encontrar com outro cliente, para o qual faria exatamente a mesma oferta que havia acabado de fazer para mim. Rick tinha um monte de profissionais como eu trabalhando em seus livros. Dê uma olhada nas listas de best-sellers: você ficaria impressionado se soubesse quantos são escritos por ghost-writers, tanto romances quanto livros de não-ficção. Somos os operários fantasmas que mantêm o mercado editorial funcionando, como os trabalhadores invisíveis por trás da Disneylândia. Corremos pelos túneis subterrâneos da fama, aparecendo aqui e ali, vestidos como um ou outro personagem, preservando a ilusão perfeita do Mundo Encantado. — Até amanhã — disse ele, desaparecendo dramaticamente em uma nuvem de fumaça de cano de descarga: um Mefistófeles com cinqüenta por cento de comissão. Fiquei um minuto parado, indeciso, e se eu estivesse em alguma outra parte de Londres, talvez as coisas pudessem ter acontecido de outro jeito. Porém, eu estava naquele pequeno trecho em que o Soho deságua no Covent Garden: uma faixa entulhada de lixo, de teatros vazios, becos escuros, prostíbulos, pés-sujos e livrarias — tantas livrarias que você pode ficar enjoado só de olhar para elas; desde os pequenos livreiros da Cecil Court, especialistas em limpar os seus bolsos, até as gigantes da Charing Cross Road, que dão os melhores descontos. Geralmente entro em alguma destas últimas, para ver como meus livros estão expostos, e foi o que eu fiz naquela tarde. Uma vez lá dentro, bastou um pequeno passo pelo tapete gasto da seção de Biografias & Memórias para que eu fosse de “Celebridades” para “Política”. Fiquei surpreso ao ver quanta coisa eles tinham sobre o ex-primeiro-ministro — uma prateleira inteira, tudo desde a antiga hagiografia, Adam Lang: o estadista da nossa era, até uma esculhambação recente chamada: Dá pra acreditar nisso? As mentiras de Adam Lang, os dois do mesmo autor. Peguei a biografia mais grossa e abri nas fotografias: Lang quando bebê, dando mamadeira a uma ovelha diante de um muro de pedra; Lang como Lady Macbeth em uma peça estudantil; Lang vestido de frango em um espetáculo do grupo de teatro amador da Universidade de Cambridge; Lang como um banqueiro claramente chapado na década de 1970; Lang com a esposa e os filhos pequenos diante de uma casa nova; Lang usando uma roseta e acenando de cima de um ônibus com a capota aberta no dia em que foi eleito para o Parlamento; Lang com seus colegas; Lang com líderes mundiais, com pop stars, com soldados no Oriente Médio. Um cliente careca com uma jaqueta de couro surrada que estava vendo a prateleira ao meu lado olhou para a capa. Ele apertou o nariz com uma das mãos e fez como se estivesse puxando uma descarga com a outra. Fui para o outro lado da estante e procurei McAra, Michael no índice remissivo. Havia apenas cinco ou seis referências inócuas — em outras palavras, não havia o menor motivo para alguém fora do partido ou do governo ter ouvido falar dele na vida. Então vá para o inferno, Rick, pensei. Folheei de volta para a fotografia do primeiro-ministro sentado sorridente na mesa do gabinete, com sua equipe da Downing Street disposta atrás dele. A legenda identificava McAra como a figura corpulenta na fileira de trás. Ele estava um pouco fora de foco — uma mancha pálida, séria, de cabelos negros. Aproximei o rosto da página, apertando os olhos para vê-lo melhor. Ele parecia exatamente o tipo de incompetente desinteressante que se sente atraído pela política desde o berço e faz gente como eu se ater ao caderno de esportes. É possível encontrar um McAra em qualquer país, em qualquer sistema, por trás de qualquer líder que precise operar uma máquina política: um engenheiro sujo de graxa na sala de caldeiras do poder. E aquele foi o homem escolhido para ser o ghost-writer de um livro de memórias de 10 milhões de dólares? Senti-me profissionalmente afrontado. Comprei uma pequena pilha de material de pesquisa e saí da livraria com uma convicção crescente de que talvez Rick estivesse certo; talvez eu fosse o homem para aquele trabalho. Assim que saí, ficou claro que outra bomba tinha explodido. Na Tottenham Court Road, as pessoas se derramavam das quatro saídas do metrô como água de chuva de um bueiro entupido. Um alto-falante disse algo sobre “um incidente em Oxford Circus”. Parecia uma espécie de comédia romântica extrema: uma mistura de Desencanto com Guerra contra o Terror. Continuei subindo a rua, sem saber ao certo como chegaria em casa — táxis, como falsos amigos, sempre tendem a desaparecer ao primeiro sinal de perigo. Na janela de uma daquelas grandes lojas de eletrônicos, a multidão assistia ao mesmo boletim jornalístico transmitido simultaneamente por uma dúzia de televisões: tomadas aéreas de Oxford Circus, fumaça negra brotando da estação de metrô, explosões de labaredas laranja. Uma tarja correndo na parte inferior da tela anunciava a suspeita de um homem-bomba, muitos mortos e feridos, e dava um número de emergência para se telefonar. Acima dos telhados, um helicóptero oscilava e voava em círculos. Conseguia sentir o cheiro da fumaça — uma mistura amarga, de avermelhar os olhos, de diesel e plástico queimado. Levei duas horas para chegar em casa a pé, carregando minha sacola pesada de livros — até a Marylebone Road e então para o oeste, em direção a Paddington. Como de hábito, todo o metrô tinha sido fechado para que se pudesse verificar a existência de outras bombas; assim como as principais ferrovias. O tráfego nos dois lados da rua larga estava parado e, a julgar pelo passado, continuaria assim até a noite. (Se ao menos Hitler soubesse que não precisava de toda uma força aérea para paralisar Londres, pensei: bastava um adolescente pilhado com uma garrafa de solvente e um saco de herbicida.) De vez em quando, uma viatura policial ou uma ambulância subia o meio-fio, corria pela calçada e tentava avançar um pouco por alguma rua secundária. Eu continuei me arrastando em direção ao sol poente. Devo ter chegado às seis horas da tarde ao meu flat. Eu ocupava os dois andares de cima de uma casa de estuque alta no que os moradores chamam de Notting Hill e os Correios insistem em que é North Kensington. Seringas usadas cintilavam na sarjeta; no açougue halal2 do outro lado da rua, eles abatiam o gado nas próprias instalações. Era macabro. Porém, do anexo do sótão que me servia de escritório, eu tinha uma vista do oeste de Londres de dar inveja a qualquer arranha-céu: telhados, pátios de manobra da ferrovia, auto-estradas e céu aberto — um vasto céu urbano salpicado de luzes de avião descendo em direção ao Heathrow. Foi aquela vista que me fez comprar o apartamento, e não a conversa do corretor sobre a revitalização da área — o que foi uma boa coisa, visto que a burguesia endinheirada não voltou mais para lá, da mesma forma que não voltou para o centro de Bagdá. Kate já havia chegado e estava assistindo ao noticiário. Kate: tinha me esquecido de que ela viria passar a noite. Ela era minha...? Nunca soube do que chamá-la. Dizer que era minha namorada seria um absurdo: ninguém de 30 e muitos tem namorada. Companheira também não estava certo, já que não morávamos sob o mesmo teto. Amante? 2 Açougues muçulmanos que abatem e cortam a carne de acordo com os preceitos do Corão. (N. do T.) Só rindo. Caso? Faça-me o favor. Noiva? Certamente que não. Suponho que deveria ter percebido que o fato de 40 mil anos de linguagem humana não ter gerado uma palavra para o nosso relacionamento era um mau sinal. (A propósito, Kate não é seu nome verdadeiro, mas não vejo motivo para envolvê-la nessa história toda. De qualquer forma, combina melhor com ela do que seu nome real: ela tem cara de Kate, se é que você me entende — sensível, porém ousada; feminina, porém sempre disposta a se misturar aos marmanjos. Ela trabalha na televisão, mas não vamos julgá-la por isso.) — Obrigado pela preocupação em me telefonar — falei. — Na verdade, eu estou morto, mas não esquente com isso. — Beijei o topo da cabeça dela, larguei os livros em cima do sofá e fui para a cozinha me servir de um uísque. — O metrô inteiro está parado. Tive de vir andando desde Covent Garden. — Pobrezinho — ouvi-a dizer. — Estou vendo que foi às compras. Enchi o copo com água da torneira, bebi metade, então o enchi novamente de uísque. Lembrei que deveria ter reservado uma mesa em um restaurante. Quando voltei para a sala de estar, ela estava tirando um livro atrás do outro da bolsa. — O que significa tudo isso? — perguntou, erguendo os olhos para mim. — Você não se interessa por política. — E então percebeu o que estava acontecendo, porque era inteligente; mais inteligente do que eu. Sabia qual era o meu trabalho; sabia que eu tinha ido encontrar um agente; e sabia tudo sobre McAra. — Não me diga que eles querem que você seja o ghost-writer do livro dele! — Ela riu. — Fala sério. — Kate tentou fazer graça, mas eu conseguia ver sua decepção. Ela odiava Lang; sentia-se pessoalmente traída por ele. No passado, havia sido filiada ao partido. Eu tinha me esquecido disso também. — Provavelmente não vai dar em nada — falei, bebendo um pouco mais de uísque. Ela voltou a assistir ao noticiário, mas com os braços cruzados com força, o que é sempre um mau sinal. A tarja que corria na parte inferior da tela anunciou sete mortos, número que tendia a aumentar. — Mas se lhe oferecerem você vai aceitar? — perguntou ela, sem olhar na minha direção. Fui salvo da obrigação de responder pelo âncora do jornal, que anunciou que eles estavam entrando ao vivo de Nova York para transmitir a reação do ex-primeiro-ministro. E, de repente, lá estava Adam Lang, em um pódio com os dizeres “Walford-Astoria”, onde, aparentemente, ele tinha ido para um almoço. “A essa altura, todos vocês já devem ter recebido as trágicas notícias de Londres”, disse ele, “onde mais uma vez as forças do fanatismo e da intolerância...” Nada do que ele falou naquela noite merece ser republicado. Era quase uma paródia do que um político diria após um ataque terrorista. No entanto, se o visse, você pensaria que sua mulher e seus filhos tinham sido eviscerados na explosão. Esta era a sua genialidade: dar frescor aos clichês da política e elevá-los por meio do simples poder do seu desempenho. Até Kate ficou em silêncio por um instante. Somente depois de ele terminar e de sua platéia predominantemente feminina e em sua maioria idosa se levantar para aplaudir, ela murmurou: — O que ele está fazendo em Nova York, para começo de conversa? — Dando palestras. — Por que ele não pode dar palestras aqui? — Suponho que porque ninguém aqui lhe pagaria 100 mil dólares por aparição. Ela tirou o som da TV. — Houve uma época — disse Kate lentamente, depois do que pareceu ser um grande silêncio — em que os príncipes que levavam seus países à guerra deviam arriscar a própria vida no campo de batalha; servir de exemplo, sabe? Agora eles viajam pelo mundo em carros à prova de bombas com seguranças armados e fazem fortunas a 5 mil quilômetros de distância, enquanto o restante de nós fica preso às conseqüências dos seus atos. Não entendo você — prosseguiu ela, virando-se para me olhar diretamente pela primeira vez. — Depois de ficar só concordando comigo sobre tudo o que eu falei a respeito dele nos últimos anos, enquanto eu o chamava de “criminoso de guerra” e de todo o resto, você vai escrever essa propaganda para ele e deixá-lo ainda mais rico. Tudo aquilo não significou nada para você? — Espere um instante — falei. — Você não pode falar nada. Está tentando conseguir uma entrevista com ele há meses. Qual é a diferença? — Qual é a diferença? Cristo! — Ela cerrou as mãos, aquelas mãos brancas e magras que eu conhecia tão bem, e ergueu-as, frustrada, metade garras, metade punhos. Os tendões saltaram em seus braços. — Qual é a diferença? Nós queremos obrigá-lo a prestar contas; essa é a diferença! Fazer perguntas pertinentes! Sobre torturas, bombardeios e mentiras! E não “Qual é a sensação?” Cristo! Mas que bela perda de tempo. Então ela se levantou e foi ao banheiro arrumar a bolsa que sempre trazia nas noites em que pretendia ficar. Fiquei Ouvindo-a guardar ruidosamente o batom, a escova de dente e o spray de perfume. Sabia que, se eu entrasse lá, poderia resolver a situação. Ela provavelmente estava esperando por isso: já havíamos tido brigas mais feias. Eu seria obrigado a admitir que ela estava certa, reconhecer que não servia para o trabalho e afirmar a superioridade moral e intelectual dela nisto e em todas as outras coisas. Nem precisava ser uma confissão verbal: um abraço prenhe de sentido provavelmente seria o suficiente para me absolver. Porém, a verdade era que, naquele momento, diante da escolha entre uma noite da presunçosa lição de moral esquerdista dela e a perspectiva de trabalhar com um suposto criminoso de guerra, eu preferia o criminoso de guerra. Então, simplesmente continuei olhando para a televisão. Às vezes tenho um pesadelo no qual todas as mulheres com as quais fui para a cama se reúnem. O número está mais para respeitável do que para enorme — se fosse, digamos, um coquetel, minha sala de estar as acomodaria com bastante conforto. E se, Deus me livre, esta reunião um dia acontecesse, Kate seria, indiscutivelmente, a convidada de honra. Seria para ela que trariam uma cadeira, bem como seria ela que teria o copo reabastecido por mãos atenciosas e se sentaria no centro de um círculo de mulheres céticas enquanto meus defeitos morais e físicos seriam dissecados. Kate era a que tinha durado mais tempo. Ela não bateu a porta ao sair; em vez disso, fechou-a com muito cuidado. Isso é que é estilo, pensei. Na tela da TV, o número de mortos tinha acabado de aumentar para oito.

Avaliações

Avaliação geral: 4

Você está revisando: O Fantasma

Marcela Portes recomendou este produto.
09/01/2017

Interessante

É uma leitura agradável, em alguns momentos tensa" não me apaixonei mas gostei muito do livro, intrigante ! Muito bem escrito, páginas amarelas que adoro, e a entrega da Saraiva como sempre perfeita !!!
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